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   > Faxina



Heloisa Pereira de Paula dos Reis
      CRôNICAS

Faxina

Faxina

     

Eu não gosto da palavra faxina. Prefiro a palavra arrumação, para definir quando arrumo tudo e deixo bem limpinho e organizado, para aos poucos ir desorganizando novamente. Mas hoje, o que vou fazer, quero nomear de faxina, porque é o que melhor define a arrumação a ser feita. Será uma faxina geral, que certamente não será fácil, mas terá que ser feita por mim, por ninguém mais. Chegou a hora. A hora de me desfazer do que é tão meu e que fui acumulando durante tanto tempo, como se algum dia pudesse voltar no tempo e tudo reviver. Como se possível fosse. Utopia...                                                                                                                    Coloco uma roupa confortável, tiro os sapatos, prendo os cabelos, sintonizo o rádio numa estação que só toca MPB e aí então ando pela casa sem pressa, parando em cada cômodo, para ver se ele me “convida” a entrar. Meu pensamento vai à frente, a recordar cada minuto ali vivido, cada pedaço de minha vida que ali deixei. E foram tantos...  Tristes, alegres, mas vividos. Bem ou mal, mas vividos.                                                                                                                                                     Resolvo começar pelas roupas... Olho então uma por uma, deixando de lado as que eu não quero mais e as que ainda têm alguma utilidade. Tirar o velho para dar lugar ao novo é o que dizem. É... O velho tem que sair de cena para que o novo assuma o seu lugar. Ou não? Reorganizo os armários, deixo-os limpinhos e perfumados. Cada tipo de roupa na gaveta certa. Cabides diferentes para diferentes roupas. Cada coisa em seu lugar. Como sempre tinha sido. Não foi fácil. Eu arrumava, olhava, não gostava, reorganizava, voltava a olhar... Até que gostei e deixei como estava.  Foi como tratar cada pessoa de uma maneira, despedindo-me de algumas e de outras tendo a certeza de ver novamente, respeitando cada uma em suas diferenças, como muitas vezes fiz e como muitas outras deixei de fazer, pois sou humana e passível de erros. Enquanto isso meu pensamento ganhava asas e viajava no tempo, fazendo-me relembrar retalhos de minha vida... Embarquei no tempo, voltei ao passado tão distante... Passei o dia todo arrumando as roupas, que usava de acordo com meu estado de espírito. Já era noitinha quando parei para tomar um banho, lanchar, assistir um pouco de televisão e depois dormir.                                                                                                                                                                     Mal o dia começou e lá estava eu recomeçando minha faxina pelas “roupas que vestiam minha casa”. Tanta coisa guardada à espera de ser usada um dia que nunca chegou...  Tanta coisa em uso... Tudo que era usado diariamente e que estava junto de mim, de minha família, nas conversas boas e nas não tão boas assim. Ouvindo tudo, vendo tudo e falando nada. Como se possível fosse. Resolvi deixar um pouco de tudo e dividir o restante. O tempo ensina que não precisamos ter mais que o necessário. E o necessário é tão pouco. Então...  Prá que guardar para depois, não é?                                                                                                                                    Meu pensamento estava agitado, querendo relembrar tantas coisas, tantas. Estava apressado para se ver livre e eu disse sim a ele. Vieram então os pensamentos indesejados, aos quais nunca não dei muita liberdade de ação e também os maus pensamentos, que eu bloqueava. Aceitei-os, pensei-os à vontade, durante um bom tempo. Depois os mandei embora e fechei a porta para que nunca mais voltassem. Mas os bons, fechei a sete chaves e ficarão sempre comigo para que eu possa dividi-los com alguém ou com ninguém.  Permiti-me pensar em meus sonhos não realizados. Revivi-os um a um e depois os mandei embora de vez. Estou limpa deles. Prá que, não é? Não consegui realizá-los, mas guardei-os pensando que um dia talvez, quem sabe... Joguei fora as lembranças de alguém que me magoou e que eu resistia em guardar. Prá que? Por quê?  Que utilidade tem? Nenhuma, não é? A não ser ocupar um espaço onde poderia estar uma lembrança de alguém que me fez feliz. E as palavras? Eu disse bem alto as que machucam, que agridem, que ferem, as palavras dúbias, as venenosas. Enfim, todas aquelas palavras que nunca se deve pronunciar. Depois, mostrei a elas a porta da saída, para que nunca mais voltassem a fazer parte de meu vocabulário e deixei comigo só as palavras que não agridem, não ferem e que servem para tornar a minha vida e a do outro uma vida melhor. As palavras bem ditas... As ditas no momento certo de acertar. E os desencontros... Foram tantos... Mas não quero mais guardar comigo a lembrança deles. Li cartas, bilhetes, cartões e chorei... Chorei muito. Reli até quase gastá-los. Imprimí-os em minha memória e depois me despedi deles e os rasguei em pedaços bem pequenos e assoprei para bem longe, o que deles sobrou. Fotografias... Quantas eu tirei. De meus filhos, de minhas netas, eu com eles, elas comigo, da família, de minhas viagens, dos amigos... Tantas... Olhei-as uma por uma. Relembrei cada momento e uma a uma, tatuei-as em mim. Depois bem devagarzinho as rasguei, me despedindo delas. Afinal, eram importantes só para mim... E eu não preciso mais delas. Nunca mais. Ao sentir saudade, as pensarei e elas virão. Depois olhei meus livros, que amo tanto, que me deram muitas alegrias, que me fizeram conhecer o mundo, partilhar vidas, rir, chorar com pessoas que eu não conhecia, mas que me tornei mais que amiga, uma companheira inseparável. Fizeram com que eu conhecesse tanta coisa... Que é tão importante para mim. Mas só para mim... O que fazer deles? Dar a quem os queira e deles goste tanto quanto eu. Quero e preciso esvaziar-me, livrar-me objetivamente do que não me é necessário para continuar vivendo. Varri para bem longe os “talvez”, os “nunca mais”. De hoje em diante, livre das amarras que me prendiam, só terei o que preciso no momento preciso. Fiz uma “faxina geral” interna e externamente, consciente de cada gesto, de cada despedida. Limpei cada cantinho.  De inicio a poeira subiu, revelando muita coisa guardada... Mas quando tudo assentou, foi mais fácil para ver onde estava o lugar a ser limpo. Assim, deixo para trás meu passado para viver o hoje, sem esperar que o future chegue, pois é certo que ele nunca chegará, pois quando chegar será presente. E nessa mudança de contexto, vou viver cada dia como se fosse o último, abrir a janela para a vida e ser feliz até que a noite chegue e as luzes se apaguem.  Ad Eternum.                                                                                                                                                   

Heloisa                                                                                                                                          

 

 

 

 



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