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   > Somos idólatras ou leitores, ambos, impossível



Maristela Zamoner
      ARTIGOS

Somos idólatras ou leitores, ambos, impossível

Recentemente, vi uma produção jornalística em que jovens gritavam e choravam idolatrando uma escritora, como fazem com pop-stars. No âmbito literário ou pedagógico nunca ouvira falar desta personagem.

O que me causou profunda estranheza foi o fato de dirigirem-se à autora e não aos seus livros. Mais estranho ainda foi uma declaração da própria escritora sobre qual a pergunta que suas fãs mais lhe fazem: “Como você se maquia?”. Isto me deixou curiosa para entender o fenômeno que me parecia sem lógica. Resolvi ler.

Ao ler seus textos, não constatei razões para as cenas de idolatria histérica que vi na “reportagem”. Chego a esta conclusão baseada em vasta experiência com crianças, adolescentes e jovens de diferentes condições sociais. Esta experiência inclui convivência intensa com os resultados das variadas formas de educação e influências que recebem de seus pais. Independente do conteúdo fraco, lê-se, por página, mais de uma palavra “difícil” para esse público, a exemplificar: abdicar; presumir; franzino; profusão; protagonizara; dileta; ruborizava. Quem conhece esta faixa etária sabe que assim não se chega mesmo à aquela idolatria. Soma-se a isto o fato de que não consegui encontrar fóruns de discussões sobre tais livros, nem nos sites de relacionamento, tão curtidos nesta idade. Então, fica difícil crer que é “leitura” o que faz este ídolo. É preciso saber como este fenômeno começou para entendê-lo.

A história de vida da escritora é de uma mulher formada em Comunicação Social, jornalismo, experiente assessora de imprensa, portanto, alguém com penetração em veículos jornalísticos e profunda conhecedora dos mecanismos mais eficientes da divulgação de produtos para venda. Então, é preparadíssima para explorar, a seu favor, toda esta bagagem, fazendo uso da intimidade que tem com os canais de comunicação. A história da primeira das reportagens veiculadas chama a atenção de alguém um pouco mais crítico: ocorreu, literalmente, com a autora pedindo atenção aos berros em plena Bienal, fazendo um show em cima de uma cadeira, aglomerando algumas crianças e adolescentes, arrancando gargalhadas com piadas divertidas e, claro, oferecendo doces. Agora sim me aparecia um evento compatível com algo que leva a idolatria. Exímia e divertida comunicadora, encanta, atrai e faz contatos diretos com seus, segundo ela mesma, fãs. Em seu site, inicia "Quem sou", assim: "Sou fofa". Beija livros efusivamente em exposições, aparece em programas televisivos, até de futebol, e diz ter vendido um milhão de livros. Isso mesmo, um milhão de livros.

A mim, descortinou-se uma estratégia de marketing claramente compatível com literatura de consumo, mas, tendo o triste diferencial da lisura questionável. Senão, recapitulemos. Devido ao trânsito fácil e de longa data que a autora tem no meio jornalístico, conseguiu veiculações de reportagens mostrando cenas de crianças e adolescentes que, de tão apaixonados por ler seus livros, a idolatram, emitindo gritos histéricos. Na verdade, o aglomerado mostrado na reportagem veio após gritos histéricos da autora, seguidos por um show divertidíssimo de uma experiente comunicadora e distribuição de doces. Cenas assim, atraem pais que desejam ver seus filhos gostando de ler, preferencialmente, da forma que der menos trabalho. Assim, são eles, os pais, que vão às livrarias e trazem o produto para casa. Acham o conteúdo aceitável, até porque traz palavras mais elaboradas que o vocabulário do filho. A título de despertar o interesse para leitura, passam o produto para a criança/adolescente com a informação de que é um sucesso entre os outros da mesma faixa etária. Por fim, para sustentar a existência do fenômeno artificial, retroalimentando a fantasia de sucesso estrondoso, divulga-se um número de livros vendidos que se vê tão irreal quanto crianças e adolescentes idolatrando uma pessoa por causa do que ela escreve.

Recentemente, conheci uma menina, tinha seus 12 anos, que passou por este exato processo, dizia adorar a autora e ter lido todos os seus livros. Perguntei-lhe sobre o quê eram os livros e não obtive nenhuma resposta. Depois de alguma insistência, ela disse que na verdade tinha lido 3 livros. Mas, soube falar apenas uma frase sobre um único deles. Sabemos que, nesta idade, as crianças habitualmente reproduzem as falas dos pais, seus modelos, seguindo-os, buscando sua aprovação, o que as torna úteis como boas reforçadoras da artimanha toda, manipuláveis via pais. Nesta mesma linha de eventos, encontra-se depoimento de jovem que diz gostar dos livros da autora porque "odeia ler livros que não entende, como o tal do “imortal do Machado de Assis””. Faz pensar.

Harry Potter, indubitável sucesso mundial de estímulo a leitura infanto-juvenil, não tem uma autora idolatrada. Seu nome, mal é conhecido entre os leitores, fãs do protagonista das histórias. E formam-se filas nas livrarias a cada novo lançamento. Filas em busca dos livros, estas sim, dignas de reportagens legítimas. Os leitores carregam figuras do personagem, a maioria absoluta deles, sem o menor interesse em ver a face da escritora ou saber pronunciar seu nome, quanto mais saber como se maquia.

É preciso muita atenção e espírito crítico para perceber que os números divulgados também são, no mínimo, bizarros. Considerando analfabetismo, inclusive funcional e fazendo algumas continhas com o número de livros que divulga vendidos e de brasileiros na faixa etária de seu público, chegamos a conclusão que a autora afirma ter vendido, em média, um livro para cada 13 crianças/adolescentes. Como seu público é feminino, podemos concluir que divulga-se a venda, em média, de um livro a cada 6 ou 7 meninas brasileiras. Para entender o absurdo disto, saibamos que, fazendo as mesmas continhas, se vendeu um livro do Paulo Coelho para cada 32 adultos brasileiros. E como no Brasil não há controle algum sobre a quantidade de livros que uma editora vende, também não há como desmascarar, com provas, qualquer fraude no que se “diz” ter vendido. Resta recorrer à leitura, de novo. Por exemplo, do site da Publishnews, que traz as principais notícias do mercado editorial brasileiro. Neste veículo, divulgam-se os resultados das somas das vendas de mais de uma centena das principais redes de livrarias do país. Segundo estes dados, o livro infanto-juvenil mais vendido no Brasil, este ano, até agora, foi “O pequeno príncipe”, de Exupèry, tendo comercializado pouco mais de 61 mil exemplares. Esta colocação aparece na lista dos primeiros 20 livros infanto-juvenis mais vendidos, sendo que o último deste elenco vendeu pouco mais de 6 mil exemplares. Nenhum dos livros da autora aparece nesta lista dos 20 mais vendidos no Brasil. O que nos faz entender que nas maiores livrarias do Brasil, se a autora vendeu livros em 2011, foi uma quantidade inferior a 6 mil exemplares. Cada um que faça seu julgamento sobre esta análise e a veracidade das informações usadas como tática de vendas neste caso. Cada pai que pense no papel que faz neste quadro e que reflita se, realmente, seu filho odeia tanto ler ao ponto de precisar ter um produto vindo de vendas feitas desta forma para ser um leitor.

Tudo isto provoca a reflexão sobre o que, efetivamente, é necessário para que nossos jovens brasileiros gostem de ler. Este é o tema do próximo artigo.


Curitiba, 27 de novembro de 2011. 


Thalita Rebouças


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