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   > O CACHORRO ENGOLIU AS CHAVES DO CARRO



LEOMAR BARALDI
      CONTOS

O CACHORRO ENGOLIU AS CHAVES DO CARRO

Fernando Clóvis naquela manhã ficou de buscar o aparelho de som que foi para o conserto. Depois passaria na casa de Valter Germano para jogarem um pouco de tênis.
-Rosa Helena, onde estão as chaves do carro?
-Estavam no porta-chaves.
-Sei que estavam no porta-chaves, mas não estão.
-Fernando Clóvis, tem certeza que estavam lá?
-Claro.
-Fernando...
-Vai dizer que sou um descuidado!
-Não é isso.
-É isso sim!
-Se as chaves estavam no porta-chaves, por que não estão mais?
-Isso é o que estou tentando descobrir. Fabrícia! -grita ele. -Fabrícia! Fabrícia!
-O que foi, pai?
-Viu as chaves do carro.
-Estavam no porta-chaves.
-Droga! Droga! Droga! Todo mundo diz que as chaves estavam no porta-chaves mas digo que não estão no porta-chaves! Tem certeza, Fabrícia?
-Claro, pai.
Ele foi olhando por cima dos  móveis, entre livros, entre papéis, no chão, sobre o tapete, em cima dos aparelhos da estante.
-Não é possível.
-Calma, Fernando Clóvis, desse jeito não vai encontrar nada.
-Aonde estão estas benditas chaves?
Continuava revirando tudo o que encontrava pela frente. Animava-se quando um formato ou uma cor lembravam as chaves, mas frustrava-se ao constatar que se tratava de tudo menos das chaves.
-Espere um pouco, Fernando Clóvis, consegue se lembrar da última vez que pegou as chaves?
-Coloquei-as no... NO BENDITO PORTA-CHAVES!
-Talvez...
-Nada de talvez, Rosinha, nada de talvez. Eu preciso respirar, eu preciso respirar...
Nisso o Bax entra correndo. Uma luz acende na cabeça de Fernando Clóvis.
-Foi ele!
-O que foi, Fernando?
-Fabrícia, traga a coleira do Bax!
-Essas são horas de passear com o cachorro!?
-Não vou passear com o Bax. -ele fez a cara do Jaison quando estava diante de uma vítima indefesa. -Vamos, me dê essa coleira. Bax, fique quieto, fique quieto, isso, isso... Bom menino.
-Onde vai com ele, pai?
-Aqui perto não tem uma clínica de exames radiológicos?
-O que pretende, Fernando Clóvis? -Rosa Helena ficou assustada, o nariz de Fernando Clóvis ficou vermelho, muito vermelho, parecia um sinalizador. Rosa Helena se encolheu, porque sabia que aquele sinal não era coisa boa. Da última vez que ficou assim, foi quando sairam para um passeio e apesar dos insistentes alertas e gritos para tomar cuidado, terminou caindo dentro de uma valeta.
-Rosa Helena, saia da minha frente. -a sua voz parecia a do Freddy Krugguer.
Mãe e filha correram atrás dele para ver o desfecho. Arrastando o Bax, Fernando Clóvis entrou na clínica de radiologia. O Bax não queria acompanhá-lo, mas arrastava-o até alcançarem o balcão de atendimento.
-Pois não? -fez a mocinha delicada.
-Preciso que me façam uma radiografia.
-Se me entende, precisa agendar...
-Agendar o escambau...
-É urgente?
-Urgentíssimo, senhorita.
-O senhor assina aqui...
Fernando Clóvis viu que a mocinha indicava para o nome do paciente submetido à radiografia.
-Não é pra mim. É pro Bax. Posso assinar por ele?
-Fazer radiografia num cachorro!?
-Por que o espanto? Quero comprovar a minha teoria: de que este cachorro engoliu as chaves do meu carro para que eu não saia.
-É um absur...
-Não, não, não. Ou faz esta bendita radiografia no Bax ou faço um escândalo aqui.
-Mesmo assim teria que ter uma permissão do...
-Faça o que estou lhe pedindo, e já!
Rosa Helena e Fabrícia estavam na porta da clínica vendo tudo aquilo, boquiabertas.
-Pai, vai tirar uma radiografia do Bax?!
-Fabrícia, disse que esse assunto é de minha conta. Estou vendo. A radiografia vai mostrar as chaves no bucho deste cachorro imbecil.
As pessoas ali esperando estavam sem entender nada.
-Pai, por que o Bax engoliria as chaves do carro?
-Por quê? Me pergunta por quê? Este cachorro quer me ridicularizar, me passar para trás. Esse cachorro acha que pode. Esse cachorro não quer que eu saia com o carro. Mas sou mais esperto. Espere um pouco só e verá.
-Fernando Clóvis. -era Rosa Helena, -Podemos evitar mais constrangimentos, vamos para casa. Como que o Bax engoliria as chaves do carro!?
-Rosa Helena, tentar me impedir é totalmente inútil neste momento.
-Fernando...
-Rosinha. -ele colocou o dedo nos lábios, -Chissss! Sou uma locomotiva sem freios neste exato instante e seria loucura entrar na minha frente para tentar me deter.
Foram minutos de angústia, em que Rosa Helena e Fabrícia contavam nos dedos, ansiosas. O relógio da parede movia os ponteiros, das três e quinze passou para as quatro e seis. Para quatro e meia. Quando a porta se abre, Fernando Clóvis parecia agitado:
-Houve algum engano... Sugeria uma outra...
-Senhor, compreenda, se o cachorro tivesse mesmo engolido as chaves a radiografia mostrava com uma nitidez muito grande por se tratar de um metal e os raios da máquina iriam irradiar no material com uma intensidade que até da Lua seria possível vê-las.
-O Bax está enganando a nós todos...
-Senhor Fernando Clóvis, procure essa chave melhor. Não seria interessante sair submetendo todo cachorro que encontrasse a um exame de radiografia para certificar-se de que não engolira as chaves do carro.
-O senhor pode ser médico, com diploma, graduação, cursos e mais cursos, mas a minha intuição sempre falou mais alto. Sugiro uma outra...
-De nada adiantaria, o resultado seria o mesmo.
-Mas...
Rosa Helena se aproximou dele:
-Fernando Clóvis, vamos embora, o Bax não engoliu as chaves do carro.
-Rosinha, o Bax engoliu as chaves do carro.
-Fernando, quer parar com isso!
-Mãe, pai. -Fabrícia interviu, -Pai, vamos embora, vamos procurar essas chaves direito.
-Filha...
-Pai... Chega! Chega! Vamos. O senhor é mais teimoso que uma mula.
-Filha, olha como fala com o seu pai.
Só se sabe que foram longas horas para convencer Fernando Clóvis desistir da idéia de tirar radiografia do Bax. Até que resolveu ir embora. Mas pelo caminho ia falando o tempo todo.
-Ainda vou provar para vocês, o Bax é o culpado, ele engoliu as chaves. Esse cachorro não quer que eu saia com o carro. Pára com isso, Bax. Pára de lamber a minha canela. Pára! Ah, rá rá rá rá rá rá rá! Faz cócegas, pára!
Ao virarem a esquina, de onde tinham a visão da casa, Fernando Clóvis, Rosa Helena e Fabrícia ficaram estáticos, como se vissem um objeto vindo de outro planeta. Estacionado em frente do portão. Um camarada de macacão ao lado do carro.
Estendeu as chaves para Fernando Clóvis e disse:
-Estou aqui há mais de uma hora esperando.
Agora que lembrou: tinha mandado o carro para lavar. E óbviamente as chaves estavam com o pessoal do lava-jato.
Rosa Helena disparou:
-Fernando Clóvis, você ao menos foi ver se o carro estava na garagem?
Ele balançou a cabeça, cada vez mais estupefato.


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