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   > Vida vazia, vida marota!



Airo Zamoner
      CONTOS

Vida vazia, vida marota!



Dr. Agildo caminhou vagarosamente até a enorme varanda. Saboreava os momentos do entardecer, um a um, como rotina para receber a noite implacável e então, recolher-se para o descanso.
Desta vez, contudo, sentia-se diferente. Seus pensamentos esvoaçavam de um canto para outro da memória, contrariando seus comandos, inquietando seu espírito.
Sentou-se na velha cadeira, admirando o extenso jardim. Os canteiros, emoldurando as divisas com suas cores imprevisíveis, tentavam suavizar seus sobressaltos. O ipê majestoso, que ele próprio plantara há tantos incontáveis anos, mantinha-se incólume a seus pensamentos. Parou seus olhos no aparente desordenado trabalho da velha árvore, largando o amarelo de pétalas a se desprenderem a cada instante, formando verdadeira alcativa. Acompanhou o trajeto de uma delas, observou a navegação caótica, suave, triste, até que chegasse ao chão e se acomodasse entre as outras com estética invejável.
Sentia-se estranho. Acabara de se olhar no espelho. Não se reconhecera. Espantou-se com sua imagem gasta e admirando o velho ipê, compreendia o que se passava. Envelhecera com o ipê! Suas pétalas humanas também se desprendiam, esvoaçavam, desapareciam como os filhos que se foram um a um, em busca da tessitura de seus próprios tapetes.
Plantara sua árvore, criara seus filhos. E livros, escrevera tantos! Qual a razão estapafúrdia para sentir-se daquela maneira, naquela tarde? A pergunta o torturava, enquanto divagava pelos corredores da memória insubordinada.
Como alguém de prestígio como ele, poderia sentir-se assim! Por quê? Pensamento cruel a tumultuar sua posição outrora onipotente.
Homenagens velhas voltavam vivas e sacudiam suas lembranças. Seus discursos, estuprando a realidade, ecoavam adulterados, entrecortados, aos pedaços, ininteligíveis, cérebro adentro. Os aplausos, sempre efusivos a encerrar suas palavras sábias, pareciam confusos eivados de hipocrisia coletiva.
Por que essas lembranças o seqüestravam dessa forma despótica?
Tentou retomar o controle e lembrar-se da vida boa que teve. Jovem ainda, sentiu a reserva reverente com que sempre foi tratado. Sentiu nas mãos a autoridade imensa a fustigar seus instintos. Foi severo para testar até onde ia seu poder. Gozou, egoísta, a sensação que invadia sua juventude plena, avisando-o de suas faculdades infinitas.
É certo que começou aos poucos a sentir insatisfações. É certo também que muitas vezes pensou em virar a mesa. Fazer de vez uma autêntica loucura contra um sistema que não o satisfazia. Isso foi há tantos anos! O conluio obscuro entre a perenidade e segurança de sua vida pessoal repleta de satisfações materiais e a incompetência delituosa do sistema, era algo que o feria paulatinamente nas penumbras de noites divertidas.
Foi num aniversário, talvez aos quarenta anos, que pôde compreender tudo. Depois de alguns goles, a língua se soltava e para um pequeno grupo nesta mesma varanda, tocou no assunto. Os colegas caíram na gargalhada. Ele ficou sério, insistiu. A gargalhada continuou. Seu antigo mestre de faculdade o pegou pelo braço, levou-o para junto do balaústre e disse tanta coisa que o estarreceu! Não havia se tornado célebre para ouvir o que ouvia. Não se meta nisso, seu palhaço! Puxa! Nunca ouvira seu velho e vetusto professor usar termos tão rasteiros. Nunca o vira tão enraivecido. Compreendera que tinha que entrar de uma vez nesse conluio ou abrir mão de suas conquistas, de seu conforto, de sua segurança.
Sim, agora dava pra perceber que era isso que o assaltava nesta tarde! A aposentadoria chegando e essas pétalas caindo no vácuo. O mesmo vácuo que ele sente agora em sua alma desfigurada, frustrada. Está agora, muito clara, a explicação do que sente. É esse vazio dilacerante a trazer um sofrimento incomensurável, avisando-o que viveu uma vida marota, em vão.

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