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   > A terceira intenção



Airo Zamoner
      CRôNICAS

A terceira intenção

Tenho vontade de parar. Descansar. Interromper essa andança sem tréguas. Já trilhei à beça. Já corri, já tremi, já sofri, já ri também à beça. Já fiz troça, já respeitei, já ofendi, já obedeci, já liderei, já escrevi outra vez à beça. Já pensei que transformaria esse mundo dos homens, mas descobri que o mundo é das mulheres.
Tenho vontade de parar, sim. Mas não posso! Não posso interromper essa caminhada. Tenho que trilhar mais um tanto, correr, tremer, sofrer, rir, respeitar, ofender, obedecer, liderar, escrever, transformar outro tanto, outro inútil tanto.
Nasci nos estertores da segunda guerra do mundo, no limiar da paz. No vestibular da maturidade, carreguei uma pistola na cinta, pilotei um tanque de guerra, atirei com uma ponto-trinta. Joguei granadas e me preparei para a paz que era a guerra.
Afundei-me no sonho da igualdade absoluta entre os homens. Antevi as comunas organizadas e o paraíso da igualdade. Desembrulhei o pacote do homem, dobra por dobra, e descobri a tal natureza humana. Vi que era pobre, medíocre, egoísta, mesquinha, hipócrita, malandra, assassina. Ela acabou com o sonho da igualdade, do paraíso, da paz.
Assim mesmo, joguei-me na crença da primeira intenção, que pensava ser a única. Descobri, desiludido, a irmã gêmea, sua antítese: a segunda intenção.
Ouvir os homens falando com sua primeira intenção à flor da pele, ficou dilacerante para minha mente, meu corpo, minha alma. Que tortura ouvir as lindas intenções aflorando. Cativantes, emocionantes e belas palavras de solidariedade, de transformação, de construção do bem comum. Mas essa irmã dos diabos, sempre presente. Meio invisível, esfumaçada, tentando se esgueirar por fora das imagens. Mas eternamente lá! No meio do discurso, aflora a maldita segunda intenção, dizendo o contrário, sarcástica, gargalhando impropérios. Rindo dos rastos emotivos da platéia, mas invisível aos olhos do mundo.
É por isto que tenho vontade de parar. Descansar. Interromper essa andança sem tréguas. Já trilhei à beça. Já corri, já tremi, já sofri, já ri também à beça. Já fiz troça, já respeitei, já ofendi, já obedeci, já liderei, já escrevi outra vez à beça, na ingenuidade de transformar alguma coisa, sem nada mudar. Já pensei que reformaria esse mundo dos homens e das mulheres. Já tive mágoa profunda por descobrir o inferno da segunda intenção a conviver e tripudiar sobre nossa ingênua inocência.
Entretanto, porque descobri a natureza humana, fiquei solidário a ela, mesmo bruta, estúpida, egoísta, cheia de segundas intenções. E se todos têm a sincera intenção das virtudes coletivas, têm a segunda, secreta, bem guardada intenção que trará o prazer e a riqueza absolutamente individual, graças ao uso desgraçado da primeira intenção.
Foi aí que resolvi não descansar ainda porque, mergulhado nas sombras da natureza humana, descobri uma outra intenção ainda, esta sim, irmã bastarda das primeiras. Ela surge aos poucos e só vem com a idade avançando. Ela se mete entre as duas primeiras e as separa. Luta bravamente contra a segunda, abafa-a aos poucos. Ela nasce para acabar com a segunda intenção. É nossa salvadora! E vejo nas mulheres de todas as idades, aflorar com ímpeto, com vontade e galhardia, a esperada terceira intenção.


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