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   > O macacão de Clementino



Airo Zamoner
      CONTOS

O macacão de Clementino

Dentro da Estação-Tubo, no lusco-fusco da noite que se insinuava, Clementino aguardou a chegada do ônibus. O vidro curvo refletia sua imagem distorcida, engraçada, estranha e curiosamente verdadeira. A pesada caixa de ferramentas parecia arrancar o braço. As pessoas já se aglomeravam próximas à porta. O macacão surrado lembrava os tempos de trabalho duro, mas cheio de orgulho, como empregado. O nome da empresa estampado naquele macacão desgastado, dava um certo status e ele se permitia essa pequena falsidade. Também, não tinha outra roupa de trabalho! Não fosse o velho macacão, estaria expondo os farrapos de roupa que tinha e não pegaria serviço algum. Mas se alguém perguntava, ele se apressava em dizer:
– Não, minha senhora! Já trabalhei lá. Agora sou “otônomo”.
Muitas vezes, a conversa se transformava em um novo freguês. Ele sabia como aquele macacão era importante para seu sucesso.
Mas hoje, o que estava intrigando Clementino era aquela sua imagem no reflexo. Olhava e torcia o pescoço, ora para um lado, ora para o outro, tentando se reconhecer naquele caos de luzes. Em sua volta, lá dentro do reflexo, via as outras pessoas e se chocava com as imagens. Olhou o cobrador lá no cantinho. Mão enfiada no queixo, olhos perdidos, penetrando lembranças, vontades, infelicidade.
Aí, viu a moça entrar, exalando perfume. Lembrou da Ambrósia com cheiro de banha e o pequeno só de camiseta, agarrado no vestido em fiapos, berrando como sempre. Moça linda, aquela. Não se atreveu a olhar diretamente. Acompanhou-a pelos reflexos.
Ela andou como rainha até o cobrador. Depois foi se aproximando dele. Dele? Não podia ser! Olhou em sua volta, sempre pelo reflexo. Olhou para a moça que sorriu, projetando dentes brancos, disciplinadamente perfilados, lindos. Logo, interferiu o sorriso de Ambrósia. Coitada da Ambrósia, pensou. Só aqueles dois dentes na frente, aquele abismo no meio, e a tristeza sofrida de sempre.
Clementino virou o rosto. Tentou fugir da moça, mas, sem resistir, espiou de lado. Ela se aproximava dele, sim! Ele a via pelo reflexo nas paredes do tubo. O que a moça linda ia querer com ele? Num relance, lembrou da primeira vez que viu Ambrósia. Não era nada parecido com o que via agora. Aquela belezura toda se aproximando. O perfume ficando mais forte. Parecia ouvir o roçar suave das pernas de seda vindo em sua direção.
O que ela poderia querer com aquele macacão, ele não podia imaginar. Recordou que foi bem assim que Ambrósia se aproximou dele a primeira vez. Só que não tinha perfume algum, apenas um cheiro de barraco. Mas tinha um sorriso parecido. Um olhar diferente que marcou seu coração enternecido.
Ambrósia queria grandes vôos e ele prometeu o universo. Hoje, a imagem da esposa o deprime. Deprime-se, lembrando dos filhos mais velhos que se foram, e daquele pirralho temporão, querendo arrancar mais um trapo do trapo de vestido de Ambrósia. Sentiu uma vontade imensa de largar aquela caixa infernal de ferramentas no chão. Que abrisse e espalhasse tudo, não se importaria. Aliviaria o braço em câimbras. Agarraria aquela gostosura que se aproximava dele. Não é que ela vinha exatamente em sua direção? Estava tão perto! E sorria. Ele passou a querê-la a cada novo passinho leve, suave, sensual.
A caixa caiu com um estrondo. A moça gritou como louca, tentando escapar do beijo arrebatador. Empurrou-o sobre as ferramentas espalhadas. Ficou cercado. Imobilizaram o Clementino.
Em casa, não conseguia explicar para uma Ambrósia enfurecida e um fedelho aos berros, como voltara de camburão da polícia, sem o macacão. Ainda tinha a desfaçatez de estampar aquele sorriso idiota. Aos berros, espirrando saliva pelas falhas dos dentes, a cada pronúncia sibilante, Ambrósia perguntava:
– E agora, seu imbecil! Como vai arranjar serviço sem o macacão?


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