Busca: 

Apelido:

Senha:


Esqueci minha senha
 
  Área do autor

Publique seu texto
  Gêneros dos textos  
  Artigos (641)  
  Contos (940)  
  Crônicas (724)  
  Ensaios (169)  
  Entrevistas (35)  
  Infantil (207)  
  Pensamentos (651)  
  Poesias (2526)  
  Resenhas (129)  

 
 
Passagens-01-007
Airo Zamoner
R$ 104,00
(A Vista)



Ruínas-02-116
Airo Zamoner
R$ 104,00
(A Vista)






   > Emenda constitucional



Airo Zamoner
      CRôNICAS

Emenda constitucional



Um carrinho de feira, provavelmente encontrado num lixão qualquer, parou perto de minha perna. Enferrujado quanto podia, lotado quanto dava. Transbordava entulho. Rejeitos colhidos como preciosidades raras. Destacava-se a armação de um guarda-chuva sem pano, com sobras de fiapos naqueles joelhinhos metálicos. Uma tampa de privada que no passado, branquíssima, hoje expõe um amarelo-febre decrépito, como decrépitos devem estar seus antigos donos. Copos plásticos, bem usados e amassados. Potes de margarina, vazios mas ainda bem engordurados. E tantas coisas mais de estranhos cheiros e repugnante estética.
A visão do tal carrinho entrou em mim sem que precisasse erguer os olhos pudorosos. Mas, minha cabeça ergueu-se desobediente, curiosa para ver quem estacionou aquilo em minhas imediações. Foi ela. E ela parecia uma cópia do carrinho.
A harmonia era surpreendente. Um vestido esfarrapado, longo que fora em passado remoto, finíssima roupa de festa de alguma fútil figura da alta roda, com sobras de brilhos, deslizando saia abaixo. Um chapéu de largas abas que devia ter na memória muitas e sofisticadas tardes no hipódromo do Tarumã. Um lenço de seda cor-de-rosa estampado pendia do tal chapéu. Duas pontas escorriam, forçadas pela despótica lei, a da gravidade. Uma, encobrindo parte do rosto, outra descendo em falso charme e delicadeza pelas costas da recém-chegada. Vários colares. Muitos colares! Variavam das pseudo-pérolas, às conchas de mar, passando por aqueles feitos com macarrão pintado e retocados por caprichosos fungos. Pulseiras, abundantes e barulhentas, colhidas lixo adentro, forrando pulso e antebraço.
Essa a figura que se aproximou de mim nessa manhã, final de primavera. Ela terminou de ajeitar cuidadosamente o carrinho com delicadeza incomum e sentou-se, tal qual fosse a mais bovarística senhora. Sua maquiagem era abundante e caótica, escondendo a natureza da alma.
Havia, porém um contraste. Seus gestos eram femininos, nobres, sofisticados. Sua postura, altiva e orgulhosa. Seus movimentos exalavam fidalguia e esmerada educação. Nada falou, apenas me olhou num relance discreto e sorriu. Um horrível sorriso desdentado, mal disfarçado pelo aperto dos lábios. Lábios aumentados e distorcidos por escorregões desajeitados do batom rebelde.
Botei imediata disciplina em meus olhos, forçando-os à discrição. Constrangedor seria demonstrar minha estupefação diante da imagem paradoxal.
Não me perguntem o porquê de meus pensamentos, mas foi impossível segurar a eclosão de um paralelo às avessas, com tantas outras másculas figuras de igualmente nobres aparências. Vestes impecáveis, desfilando discursos, chorados ou arrogantes, porém sempre eivados de intenções disfarçadas. Passou pela minha marota imaginação ver esta criatura, discursando no “Cenado”! Não é erro de ortografia, não! É minha proposta de emenda constitucional! Mudar esta primeira letra, daria mais autenticidade às cenas a que se assiste, lá no risível teatro das ações da república. Mudar a indumentária, considerando o modelito a meu lado, seria uma glória para a nação.
Com essas malvadas imagens navegando em minha cabeça, não pude evitar uma nova espiada, quase indiscreta, àquela senhora. Pude visualizar o ex-Senado, agora “Cenado”, totalmente assumido, ainda repleto dos mesmos, conhecidos e cansativos personagens. Todos carregando seus exóticos carrinhos de feira, vestidos longos, chapéus coloridos, lenços esvoaçantes, colares de macarrão mofado, pulseiras barulhentas, maquiagem, muita maquiagem. Ainda assim, plenamente prepotentes, praticando o ridículo ritual das excelências.
Esses divertidos pensamentos foram interrompidos quando a figura se levantou. Tirando-me dos importantes projetos particulares de reforma política, falou pela primeira e única vez, inclinando-se para mim, quase tocando meu rosto.
– Tchau, meu querido! Já vou indo...
A voz rouca. Muito rouca, grossa, vilipendiou minha ingenuidade e a ingenuidade de todo meu povo. Só nessa hora pude ver por traz da espessa e safada maquiagem, os pêlos mal cortados da indisfarçável barba masculina.


CADASTRE-SE GRATUITAMENTE
Você poderá votar e deixar sua opinião sobre este texto. Para isso, basta informar seu apelido e sua senha na parte superior esquerda da página. Se você ainda não estiver cadastrado, cadastre-se gratuitamente clicando aqui