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   > Vida à Mesa



Carolina Holanda
      CONTOS

Vida à Mesa

      Estava a mulher passeando ao acaso, como as moças jovens costumam sempre fazer. Uma besteira, as moças jovens: sempre mastigando o tempo. Os rapazes não! Estes sabiam que ele – o tempo – fora feito para ser engolido, de uma só vez! Mesmo que entalasse na garganta! Mesmo que desse ânsia de vômito! Não importava. Os rapazes sempre foram muito ansiosos. Os rapazes sempre andaram muito entalados. As das saias rodadas, com seus bordados e babados, com seu romantismo hipócrita, com seus sonhos mutantes. As moças, enfim, sempre muito falsas, sempre com um ar acentuado de mistério. Se pudessem já naquele tempo saber que o mistério era apenas um vazio, era apenas a espera de uma casa para ser cuidada com negligência, de um marido para ser amado com mecanismo, de um filho para ser culpado com frequência... Mas tudo o que elas precisavam fazer era passear ao acaso. Mastigando o tempo, formando aquela pasta intragável na boca. E, quando estivessem bem cheias, de certo um deles viria; porque, com a boca cheia de pasta intragável, seu mistério se acentuava ainda mais. Um bom rapaz, sempre ansioso, sempre apressado, logo notaria com muita admiração a forma simples com que ela parecia domar o tempo, caminhando ali, como se houvesse atado a vida a um poste para que ela não fugisse enquanto dava seus passeios. Ela era dona de alguma coisa, ele sentiria com certa gravidade.

      Uma vez que tenha se aproximado, ela o examina em um lance repentino de olhar: esse me basta, conclui. E a vida inteira do infeliz vem à tona, às mãos dela. A moça, muito sutilmente, leva então aquela vida à boca. Sim, ele não percebe, acha que é um sinal de... um sentimento qualquer, alegra-se até! – “Me toma feito comida, para fazer parte de si!”. Logo, ele sente amor. Ela sente a vida misturada com o tempo. Mas as moças, ah! Elas são de estômago muito forte! E sorriso dissimulado. Contudo, ela lhe fez bem. Ó sim! Ela lhe fez muito bem. E tudo aquilo que conseguira, e tudo aquilo que se tomara? Fora tudo por ela, para ela e (com certa confusão concluía) com ela. Ele, também, agora era dono de alguma coisa. Ela era dono dele. E continuava mastigando sua vida sem que ele percebesse.

       Quando enfim notasse que nada mais sairia, por mais que mastigasse, ela lhe devolveria tudo, a vida e o tempo: mastigados, salivados, intragáveis. E ele, de admiração e surpresa, engoliria tudo de uma vez, como fazia quando menino. Teria ânsia de vômito, ficaria entalado. No entanto, já estará feito. Ela continuará passeando ao acaso. Ele seguirá cuspindo vida e tempo, amargando de pouco em pouco a língua. Até vomitar e ficar vazio.



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