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   > INTERTEXTUALIDADES (OU PLÁGIO) NA LITERATURA



Cleso Firmino
      ARTIGOS

INTERTEXTUALIDADES (OU PLÁGIO) NA LITERATURA

     Este trabalho visa realizar possíveis leituras nos poemas de João de Deus e Almeida Garrett, poetas pertencentes ao romantismo português, no que se refere a intertextualidades literárias e os possíveis plágios encontrados no desenrolar destas leituras.
     O Romantismo em Portugal teve como marco inicial a publicação do poema “Camões”, de Almeida Garrett, em 1825 e durou mais ou menos 40 anos terminando por volta de 1865. A Primeira Geração do Romantismo em Portugal vai de 1825 a 1840. Seus principais autores são Almeida Garrett, Alexandre Herculano, Antônio Feliciano de Castilho. A Segunda Geração, Ultra-romântica, de 1840 a 1860 e tem como principais autores, Camilo Castelo Branco e Sares de Passos. A Terceira Geração, pré-Realista, de 1860 a 1870, aproximadamente, teve como principais autores Júlio Dinis e João de Deus.
            Iniciamos nossa análise tomando como objeto de estudo o poema “Caridade” de João de Deus, levantando uma discussão em torno de uma dúvida: até que ponto pode existir o plágio na literatura? Embora encontrados argumentos em alguns autores, — como Tzvetan Todorov que utilizaremos na obra de Garrett, Júlia Kristeva que diz que “todo texto é absorção e transformação de uma multiplicidade de outros textos (Apud Oliveira, p.92)”, ela diz transformação, ou até mesmo Mikhail Bakhtin que trabalha a questão do dialogismo, ou seja, uma obra em diálogo com outra, — ainda assim fica uma incerteza a ser respondida posteriormente. Ao levantarmos dados para nossa pesquisa observamos que muitas obras trazem os rasgos da intertextualidade, citado pelos autores acima, como é o exemplo de texto da contemporaneidade como “Lavora Arcaica” de Raduan Nassar publicado em 1975, que embora conta uma história com final diferente, sabemos que o ponto de partida do texto é o evangelho de Lucas, capítulo 15, versículos 11 a 32: (Lc., XV: 11 a 32), onde narra a parábola do filho pródigo. Entretanto nosso objeto de estudo — “Caridade” — só se torna impossível afirmar que é o mesmo do texto descrito na Primeira Epístola aos Coríntios, capítulo 13, versículos 1 a 13: (1Cor., XIII: 1 a 13) se tomarmos como base teórica “Pierre Menard autor de Quixote”, do escritor argentino Jorge Luis Borges, pois esta personagem borgeana reescreve alguns trechos do livro de Miguel de Cervantes, surgindo daí um novo Dom Quixote, embora “Ele não queria compor outro Quixote — o que seria fácil — mas o Quixote (BORGES, 2007, p.38)”, a partir de uma cópia fidedigna, contudo original por ser escrita em outra época, confirmando com isso que a “unidade repetida já não é mais a mesma, uma vez repetida passa a ser outra” (KRISTEVA, J. apud COHEN, 1982, p.57), pois o poema ora analisado, tomando algumas traduções, é idêntico ao encontrado nos livros sagrados; e embora a tradução bíblica feita pelos Missionários Capuchinhos em Lisboa não seja a que mais se completa com o poema, citaremos um trecho de “caridade” do poeta João de Deus, e a baixo deste a “caridade” de 1 Coríntios, apenas para termos um exemplo da semelhança entre as duas obras:
 
Eu podia falar todas as línguas
Dos homens e dos anjos;
Logo que não tivesse caridade
Já não passava de um metal que tine
De um sino vão que soa
______________
 
Ainda que eu falasse as línguas
dos homens e dos anjos,
se não tivesse caridade
sou como bronze que ressoa
ou como címbalo que tine
 
 
            O texto desse poeta pertencente à terceira geração do romantismo português não se trata apenas de uma intertextualidade como propõe Kristeva, mas sim, de uma cópia feita a partir de alguns versículos bíblicos, contudo se olharmos para o livro “Ladrões de Palavras” de Michel Schneider, ficaremos convencidos de que o autor não cometeu crime algum, apenas seguiu a linha de raciocínio de Shakespeare ao apoderar-se de texto de autores como Robert Greene, e tantos outros conhecidos e desconhecidos, para re(inventar) os seus. Desta forma João de Deus apoderou-se de um dos textos mais conhecidos no meio cristão para preencher uma página de seu livro que — se não fosse por “caridade” — ficaria em branco.
            Quanto a segunda obra a ser analisada, utilizaremos o poema “Este Inferno de Amor” do poeta Almeida Garrett. Analisando a primeira estrofe do poema é possível perceber um conflito amoroso, não só por parte do “eu-lírico”, como também por parte do autor, pois segundo Massaud Moisés (1975, p. 157), Garrett teve uma vida sentimental cheia de tribulações, a começar por um romance adúltero com a viscondessa da Luz; resultando deste, a inspiração para “Folhas Caídas (1853)”.
Em seu poema Garrett exclama:
 
“Este inferno de Amor — como eu amo!
Quem mo dôs aqui n’alma... quem foi?
Esta chama que alenta e consome
Que é a vida — e que a vida destrói —
Como é que se veio a atear,
Quando — ai quando se há de ela apagar?”
 
            No trecho acima descrito é possível perceber o sofrimento que o amor pode causar; aí sim, deixemos de lado a vida particular de Garrett para voltarmos à análise da literatura tomando como ponto de partida o seu surgimento, pois como descreve (TODOROV, 2010, p. 22): “A literatura não nasce no vazio, mas no centro de um conjunto de discursos vivos, compartilhando com eles numerosas características”, partindo deste pressuposto é possível observar no poema de Garrett alguns paradoxos, comoa chama que alenta, mas ao mesmo tempo consome e até mesmo o título Este Inferno de Amor e adiante o “eu-lírico” exclamando que embora o amor seja um inferno, ele ama profundamente.
            Tais paradoxos são evidências de um mundo intertextual entre Luís Vaz de Camões e Almeida Garrett, pois da mesma forma que Camões Constrói “O amor é fogo que arde sem se ver, é ferida que dói e não se sente...”, Garrett também compõe seu “Inferno de Amor...” e o inferno que este autor descreve, não é um inferno qualquer, pois descreve tanto o inferno quanto o amor, dando ênfase ao usar as iniciais maiúsculas, afirmando da mesma forma que Camões, que o amor é um sentimento que causa dor, mas ao mesmo tempo, não se pode sentir, ou seja, apesar do amor causar tanto sofrimento, é impossível viver sem senti-lo.
            Partindo desse olhar sobre as duas escrituras, concluímos nosso trabalho, concordando com Todorov se pensarmos que a literatura de Garrett não nasceu de um vazio, mas de observações feitas sobre as escrituras de Camões e outros precursores e que o poema de João de Deus não se trata de um plágio e sim de uma obra totalmente original, pois quando realizamos a cópia de um determinado verso, esse já não será o mesmo, quando repetido passa a ser outro, como afirma Kristeva.
 
Cleso Firmino é graduado em Letras pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul/Campus de Coxim
 
Referências
 
COHEN, Jean. Poesia e redundância. In: O discurso da poesia. Coimbra [Poétique 28], Almedina, 1982.
 
OLIVEIRA, Geovana Quinalha de. Das imagens e tintas: as sucatas do passado. In: Revista Rascunhos Culturais, Curso de Letras da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul Campus de Coxim, UFMS/CPCX, 2010. p.92
 
BORGES, Jorge Luis. Ficções (1944); tradução Davi Arrigucci Jr — São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
 
TODOROV, Tzvetan. A literatura em perigo. Trad. Caio Meira. 3ª. Ed. Rio de Janeiro: DIFEL, 2010.
 
MOISÉS, Massaud. A Literatura Portuguesa. 13ª. Ed. Cultrix, 1975.
 
 


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