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   > A vida continua



Angela Maria de Almeida
      CONTOS

A vida continua

Depois que papai faleceu mamãe ficou muito triste, ela que outrora vivia cantando enquanto cuidava de seus afazeres, agora andava quieta, pensativa e distraída, às vezes suspirava fundo e procurava ocultar de nós algumas lágrimas que teimavam em escapar de seus olhos.
 
Durante algumas semanas ela parecia estar num estado letárgico, ficava longo tempo em silêncio, falando apenas o indispensável, fazia tudo maquinalmente e não sorria mais. Artur e eu não entendíamos direito o que estava acontecendo, não sabíamos muito bem o que era essa coisa de morte, mas devia ser muito ruim ou mamãe não ficaria daquele jeito!
 
No fim do mês os envelopes começaram a se avolumar sobre a escrivaninha de papai. 
Vi mamãe muitas vezes lendo o seu conteúdo com um ar perdido para depois ficar olhando pela janela, ao longe, como se no horizonte fosse encontrar uma solução para o que lera.
 
Uma tarde, depois da escola, ouvi mamãe conversando com a vizinha, uma senhora portuguesa de quem mamãe gostava muito, estava dizendo que ia começar a costurar para fora. Não era muito do seu agrado, mas precisava pagar as contas e não havia outro jeito. Ouvi a vizinha aconselhar mamãe:
 
_ “Oh Letícia, tu podes costurar sim porque sempre vão aparecer freguesas, mas em teu lugar eu alugaria o quarto da frente aí da casa, tu vais ganhar muito mais sem ter tanto trabalho, pois costurar além de tomar muito tempo, tu sabes, ainda vais ter que aguentar os caprichos das freguesas”.
 
_ “É verdade! O quarto de hóspedes! Não tinha pensado nisso! Boa ideia! Hoje mesmo vou ajeitar o quarto e fazer um cartaz para colar no postigo”.
 
_ “Assim é que se fala! Podes falar também lá com o padre, pois ele conhece muita gente e pode te indicar alguém da confiança dele”.
 
Passou-se um mês inteiro sem que nada acontecesse. Mamãe conseguira umas duas ou três clientes de costura lá na igreja e assim ia pagando uma conta aqui e outra ali.
Nos primeiros dias de verão, numa tarde ensolarada e morna apareceu uma jovem perguntando sobre o quarto. Mamãe levou-a a conhecê-lo e acabaram entrando em acordo de forma que, quando retornei da escola, encontrei mamãe um pouco mais contente porque já tínhamos nossa primeira inquilina.
 
Senhorita Rosinha era uma jovem muito bonita. Tinha olhos grandes cor de mel com cílios curvos e espessos. Usava os cabelos dessa mesma cor, presos no alto da cabeça e se despenhando suavemente sobre a nuca em madeixas aneladas que lhe conferiam um encanto único. Tinha um aroma suave de maçãs e uma voz muito agradável. Namorava um rapaz que morava lá pras bandas da zona norte e estudava direito nas Arcadas.
Rosinha se mudara para a capital para completar seus estudos. Havia morado em uma república de moças enquanto cursava o Normal e, agora que o terminara, já tinha conseguido uma colocação como professora primária numa escola que ficava no nosso bairro. Mudara-se então para nossa casa para começar uma vida nova. Ainda não queria voltar para o interior para não se separar do namorado.
 
Esse rapaz, Mauro, de vez em quando aparecia num final de tarde e levava Rosinha a passear ali mesmo pelo bairro. Estava sempre ocupado com seus estudos e só vez por outra se encontrava com a jovem num final de semana. Estava quase se formando, dizia ele, e precisava dedicar-se de corpo e alma à sua tese. Eu não entendia muito bem o que é que a Rosinha vira nele, para mim não passava de um varapau, narigudo e espinhento, muito claro e de cabelos tão lisos que ele precisava besuntar com montes de brilhantina para ficarem no lugar. Mas para a Rosinha, apaixonada, ele era um príncipe!
 
No começo do ano seguinte, estava sendo organizado o censo. Passaram lá na escola recrutando interessados em participar e a Rosinha se inscreveu, escolhendo o bairro onde morava o Mauro para fazer a pesquisa. Não lhe disse nada, pois desejava fazer-lhe uma surpresa aparecendo de improviso.
 
Chegou a semana da realização do censo. Rosinha se emperiquitou toda e foi executar sua tarefa. Voltou à noite, morta de cansaço, e ainda nem sequer tinha chegado perto de onde morava o Mauro. Trabalhou mais dois dias e nada. Toda a noite chegava moída de tanto andar seguindo o mapa que lhe haviam dado. Finalmente, no quarto dia iria percorrer a tão esperada rua. Caprichou bem na sua aparência, conseguindo ficar ainda mais bonita e cheirosa!
 
A rua da casa do Mauro era um ladeirão enorme pavimentado com paralelepípedos. Rosinha olhou para cima e suspirou, aquilo ia dar uma baita canseira!
 
Foi subindo a rua, indo de casa em casa, perguntando, anotando, até que chegou à tão sonhada residência, quase no final da ladeira. Tocou a campainha, trêmula, a garganta seca, o coração batendo tão forte que ecoava em seus ouvidos.
 
Abriu a porta uma jovem loira, vestido rosa, cabelos presos, um olhar azul aguado e perguntou desdenhosa:
 
_ “O que você quer”?
 
_ “Bom dia. Estou trabalhando no recenseamento e preciso fazer algumas perguntas para a dona da casa”.
 
_ “Ah, espera aí, vou chamar minha sogra”.
 
Logo veio a dona da casa, uma senhora simpática, gordinha, bem clarinha e de cabelos lisos presos num coque. O coração de Rosinha estava descompassado... Sogra? Era isso mesmo que tinha ouvido? Sogra? A palavra ficou martelando em seu cérebro, quase não ouviu o que a senhora disse:
 
_ “Bom dia, mocinha. Queira entrar para podermos ficar mais à vontade”. Rosinha foi atrás dela meio cambaleante, não conseguia articular nenhuma palavra, a boca tão seca como se estivesse no deserto!
 
A senhora lhe indicou um assento no sofá e acomodou-se ao seu lado. A jovem loira sentou numa poltrona bem na sua frente e ficou olhando com aquele olhar aguado e desdenhoso.
 
Rosinha tomou fôlego e as suas perguntas foram sendo respondidas. Quem morava na casa: o marido, ela, o filho, a filha, a nora e o neto. Rosinha, meio zonza, continuou com as perguntas. Quando já estava na última, a porta da rua se abriu e surgiu o Mauro com um nenê encarapitado nos ombros.
 
Assim que entraram o nenê gritou pela mãe. A loira se levantou e foi ao encontro do marido, pegou o moleque e o levou para a cozinha. Mauro ficou ali em pé, parado, branco como se tivesse visto um fantasma, olhando para Rosinha, esta nem conseguia levantar os olhos, coitada, parecia que ia desmaiar. A loira chamou lá de dentro:
 
_ “Benzinho, vem cá me ajudar com nosso filho”. E lá se foi o Mauro sem dizer palavra.
 
De lá do fundo de sua dignidade Rosinha conseguiu arrumar forças para fazer a última pergunta do censo, agradecer e se retirar. Ainda bem que a dona da casa e sua nora não notaram nada.
 
Uma vez na rua, desceu a ladeira aos tropeções com as lágrimas rolando pelas faces. Nem se lembrou de recensear as casas que ainda faltavam ladeira acima. Não saberia explicar como conseguiu voltar para casa. A cabeça rodava, estava febril, seu corpo todo doía, os pés cansados de subir e descer ladeira...
 
Mamãe logo percebeu, quando ela chegou, que havia algo errado. Rosinha desabafou em seu colo a sua desdita, em meio a um choro profuso. Mamãe acariciava seus cabelos desfeitos e murmurava palavras de consolo e incentivo. Quando a pobrezinha finalmente se acalmou um pouco, mamãe lhe fez um chá de camomila que ela tomou entre estremecidos suspiros.
 
Por muitos dias e semanas a Rosinha continuava triste. Uma tarde voltou mais cedo da escola e avisou mamãe que tinha encontrado uma substituta e ia voltar para a casa dos pais no interior, não tinha mais motivos para ficar ali.
 
Lá se ia nossa primeira inquilina!


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