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   > Os Garimpos



Juarez Fragata
      CONTOS

Os Garimpos

 
SINOPSE
 
O texto retrata uma época, vamos dizer assim, romântica dos garimpos de pedras preciosas na região do Alto Uruguai, mais especificamente na cidade de Ametista do Sul, Rio Grande do Sul, Brasil.
Em decorrência da não utilização de equipamentos adequados, muitos garimpeiros morreram, e outros tantos ficaram inválidos para o trabalho mais trivial, enquanto outros estão em Porto Alegre, RS, na fila de espera para transplante de pulmão, que é o caso do meu tio Zeferino que chegou à capital em torno de um mês.
No entanto essas questões não são abordadas no texto, uma vez que meu intuito foi usar um cenário dos meus doze anos, idade em que deixei o lugar, praticamente no início dos garimpos, época em que ser garimpeiro era sinônimo de aventura, e os garimpos não eram máquinas de matar e aleijar.
A ausência de telefone, e as poucas vezes em que aparecem veículos dão um tempero de época à história, recheada com a maneira simples de um povo viver.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Aos poucos foi caindo à tarde. As luzes já começavam brilhar e iluminar o povoado São Valentim da Gruta.
Já não se ouvia o barulho dos compressores perfurando a dura rocha.
As batidas ritmadas e um tanto irritantes das marretas silenciaram-se.
O pó e o cheiro de pólvora queimada foram cedendo lugar à brisa da noite.
Pisando leve nos cascalhos que ficara nas brocas os garimpeiros deixam os garimpos.
 
No centro do povoado o subdelegado Napoleão, sentado na sacada de sua casa, bebe vinho, acende de quando em quanto o cachimbo e torce as pontas de seu espesso bigode branco.
Do lado de cima, à sua direita a escola, à sua esquerda a igreja e o salão comunitário.
Do lado de baixo o armazém Boa Freguesia, a farmácia do Idelfonso Curandeiro, e escrito em letras garrafais: Permuta do João.
As crianças dão gargalhadas, correm ao derredor da igreja, gastam energia sem preocupações. Pois sabem que o período em que se é criança a força se renova como a semente que brota com a terra impregnada de água da chuva.
Napoleão enche o copo a cada instante.
Coloca fumo no cachimbo, debruça-se na sacada, olha o movimento.
Diz para consigo que o inventor do vinho tinha um bom gosto invejável.
 
É noite de sexta-feira. As estrelas cercam a lua e admiram sua superioridade em grandeza e brilho. Os amigos encontram-se, cumprimentam-se, depois vão sentar-se na Boa Freguesia, e a conversa um tanto sem interesse começa desenvolver-se.
- Que vida boa, diz Ernesto, - uma noite iluminada que é de dar inveja aos mais belos cristais produzidos pelas sólidas rochas, cerveja gelada, um pito para contrabalançar, e uma prosa longínqua tomada pela modéstia!
Esse senhor de aparência calma, olhar sereno, rosto comprido, e um tanto enrugado, ostentando um grande anel de ouro com um cristal semiprecioso de cor roxa num dos dedos da mão esquerda, é um rico proprietário de garimpo.
Empolga-se e relembra o passado.
- No início plantávamos soja, milho e feijão, - começou ele, - um dia o solo empobreceu, mas como Deus é justo com São Valentim, as chuvas trouxeram consigo os rolados, cristais de grande valia. Depois foi a vez dos tratores rasgarem a terra e o tijolo mole: como Deus é justo apareceram mais e mais pedras semipreciosas. Hoje estamos trabalhando dentro das rochas, e continuamos encontrando cristais. Deus é justo com São Valentim!
 
Os inúmeros copos de vinho que o subdelegado esvaziara colocaram em relevo a sua assombrosa inveja.
Em seus olhos está a insignificância do brilho do cristal sem valia. Aquele que o fogo não consegue tingir com sua cor.
Tendencioso diz para consigo:
- No lugar de uma deplorável pobreza, hoje impera a riqueza. Floriano, no passado era um simples catador de rolados, hoje é dono de garimpo aqui em São Valentim, e no Salto Velho. Expedito, um pobre coitado: não tinha nada. Hoje é o seu Expedito. Atualmente esse povo simplório respeita mais os mesmos do que eu: a autoridade máxima do povoado!
 
Apareceu à porta da Boa Freguesia o Adão Pezão.
Esse senhor pés descalços, barba branca, olhar tristonho, humildade em pessoa, já caminhou lado a lado com a fome.
Mas com a descoberta de um grande lençol de cristal em sua pequena fatia de terra, ele tornou-se um senhor rico. Porém preservara a humildade.
- Sente-se, Adão, - sugere Ernesto.
Farroupilha da uma gargalhada e declara:
- Agora só está faltando o Floriano!
Esse homem de aparência rude é criador de gado e açougueiro.
Três, quatro, dias antes de abater uma cabeça de gado, o mesmo vai de casa em casa ofertando carne.
Na maioria das vezes toda carne é vendida antes mesmo do abate.
 
Na saleta do armazém os mais jovens jogam bilhar.
Conversa vai, conversa vem.
- E o Leto que até agora não chegou? – pergunta Bernardinho, alisando o seu taco com giz.
- Se não está em casa deve estar com a Prazerosa – responde Antônio Pedreira -, ultimamente ele corre atrás dela dia e noite; até parece que está apaixonado!
- Isso não é – afirma Bernardinho -, nada bom!
 
É perto da meia-noite.
Depois da Boa Freguesia e da casa do subdelegado o silêncio predomina, e a noite faz-se misteriosa.
Completamente embriagado Napoleão grita:
- Traga-me, mais vinho, mulher ordinária!
A senhora de mãos e rosto enrugado, e cabelos mesclados de preto e branco, timidamente resmunga:
- Por que não deixa um pouco para amanhã?
O subdelegado alterado, disposto a bater na esposa, vira-se para ela e diz:
- Mulher ordinária; desde quando lhe dei permissão para dar ordem? Ajuda-me a levantar-me, mulher imprestável!
Conhecendo bem o homem com quem havia se casado, a velha não pensou duas vezes: tratou logo de fugir.
Ao se dar conta que está só Napoleão enfurece-se, saca a arma e efetua uma série de disparos para o alto.
Os poucos fregueses que ainda estão na Boa Freguesia, assustam-se.
- Sem assombro, isso não é nada – assegura Tito, dono do armazém -, os amigos sabem como é o subdelegado; enche a cara depois coloca a mulher e o filho a correr!
 
A sala do armazém está praticamente vazia.
Antônio Pedreira e Bernardinho sentam-se do lado de fora, e com os ouvidos atentos escutam a conversa dos mais velhos.
- Napoleão é um sujeito extremamente cruel – diz Floriano -, seus atos são pura malvadez!
Pezão acrescenta:
- O subdelegado é covarde. Lembram como ele assassinou aquele garoto do povoado Saltinho? Atirou no pobre pelas costas, na maior covardia!
- Eu mesmo já tive o desprazer de provar do seu veneno – continua ele -, fiquei um mês na cadeia, sofrendo todo tipo de humilhação, sem saber o porquê de tudo aquilo!
Só depois de muito tempo é que Pezão ficara sabendo que o subdelegado tinha desconfiança que o mesmo era contra o regime militar instaurado na época, que por isso lhe prendera.
- Tempo difícil, - afirma Ernesto, deixando transparecer o desejo de apagar aquela página.
O açougueiro entra na conversa:
- Tem outra, o garoto estava com a razão: Lesma provocou e levou!
O dono da Boa Freguesia acrescenta:
- Lesma é filho do velho Napoleão. É bem como aquele ditado: a fruta não cai longe do pé!
A rua está deserta.
Só se vê luz no armazém do Tito e na casa do subdelegado; nas demais todos dormem.
- Vou-me, embora! – exclama Ernesto.
Como já é tarde, todos resolvem fazer o mesmo.
 
É um sábado de muito calor. O sol avermelhado mostra a eficácia de seus raios, e aos poucos afugenta as pessoas, que procuram escapar do calor escaldante junto à sombra das casas, e debaixo das árvores mais próximas.
Ernesto, mais seu neto Antônio Pedreira cruzam a velha ponte de madeira que liga os dois lados do povoado.
O objetivo de ambos é chegar ao salão comunitário, uma vez que é sábado, dia de reunião.
Como o mesmo objetivo o açougueiro Farroupilha cavalga em seu cavalo preto.
Idelfonso Curandeiro fecha as portas da farmácia, e junto com João Permuta atravessa a rua, e vai sentar-se à sombra, perto do local da assembleia.
Professor Noel, também conhecido como Dedo Duro, com seus livros e cadernos embaixo do braço, com uma das mãos ajeita o óculos, alisa os cabelos cor de fogo, sobe quatro, cinco degraus da escada que leva à igreja, e se junta aos outros em frente o salão.
Esse moço de aparência comportada, cabelo bem cortado, camisa abotoada até o colarinho é professor. Contudo o conhecimento não o impedira de ser um tremendo linguarudo.
Floriano olha em volta, movendo os olhos lentamente, bate palmas e pergunta:
- Podemos começar a reunião, ou ainda está faltando alguém?
Todos olham para os lados, e não registram a falta de ninguém, até o professor responder:
- Está faltando o seu Adão e o subdelegado!
Continua:
-Quando subia a escada da igreja, vi uma turba em frente à casa do seu Adão!
Ao ouvir isso todos correm à rua, ver o que está se passando.
Muitos se perguntam:
-Quem são eles? Dê que lugar veio esse povo?
Os mais velhos olham com desconfiança.
De repente Curandeiro se altera e grita:
-São aqueles malditos ciganos!
Respira fundo e acrescenta:
Desta vez eles não vão escapar!
Corre até a farmácia, pega uma espingarda antiga, daquelas carregada pela boca, e sai com o gatilho armado.
Seus olhos arregalados e vidrados revelam a sua momentânea falta de bom senso.
Floriano e Ernesto bem que tentam segurá-lo. Contudo o mesmo tem na cabeça um só pensamento: matar todos os ciganos, e tornar ameno o sentimento de perda, que parece um tumor maligno em seu peito.
Quase não tendo mais forças para tentar segurá-lo, Ernesto pergunta:
-Cadê o subdelegado?
-Até agora não chegou- responde Bernardinho.
-O que estão esperando; vão chama-lo!
Idelfonso luta, luta, mas não consegue desvencilhar-se dos braços que lhe envolve.
Num ato de loucura, grita:
-Me soltem; preciso matar todos os ciganos!
Subdelegado Napoleão coloca fumo no cachimbo, acende-o, da uma tragada, e num tom irônico murmura:
-Maldito verme metido a farmacêutico; não tem coragem se quer para atirar numa mosca, e agora quer da uma de valente. O que ele sabe é curar, não matar!
 
 
Depois de um tempo tudo se acalma.
Mediante efeito de calmantes, Curandeiro cai no sono.
Amaro, marido da parteira murmura:
-Coitado do Idelfonso, até hoje não esqueceu a falecida esposa!
Esse senhor de estatura alta, esquelético ao ponto que a cada movimento seus ossos dão a nítida impressão de que a qualquer momento rasgaram a pele, é mais um garimpeiro entre tantos outros, com uma diferença: os outros não são mandados pela esposa, assim como eles, que é proibido até mesmo de ir ao armazém bater papo, e beber com os amigos.
Seguidamente a gorducha Parteira desce o bambu em suas costas.
No fundo, no fundo ele tem inveja da viuvez de Curandeiro. Mas o que fazer: até doença parece ter medo da Parteira.
Os mais jovens nada entendem.
Perplexos gesticulam e cochicham:
-Quem iria imaginar que Curandeiro com toda aquela calma, esconde dentro de si um homem tenebroso?
Leto, filho de Floriano, vira-se para Amaro e pergunta:
-Que relação existe entre a morte da esposa de Curandeiro e os ciganos?
O infeliz marido da Parteira pensa um pouco, respira fundo e responde.
-A mulher de Idelfonso não se sentia bem; na época os ciganos estavam acampados no povoado. Uma velha cigana, vestindo saia verde, quase arrastando ao chão. Lenços coloridos amarrado na cabeça, e inúmeros colares em volta do pescoço, bateu em sua porta, e garantiu que o mal- estar de sua esposa não era grave, e com chás medicinais, preparados por ela, à mulher teria melhoras!
Após uma pausa acrescenta:
-Idelfonso acreditou na cigana, e gastou uma fortuna em chás, e a sua esposa definhando. Quando resolveu procurar ajuda médica para a mulher, já era tarde demais. O mesmo responsabilizou os ciganos pela morte da esposa, e até então os odeia.
Após mais uma pausa continua:
-Esse fato fez com que ele passasse a se dedicar as ervas medicinais, se tornasse proprietário de farmácia e o nosso Curandeiro!
De repente todos se voltam para o louquinho Cabo que grita:
-Olhe o bilhete, olhe o bilhete!
Louquinho Cabo é um apaixonado pela lei. Anda sempre fardado, e vendendo bilhetes de loteria.
Como é muito querido pelos policiais de Ametista do Sul, seguidamente ele ganha uma farda que realiza parte do seu sonho de pertencer à lei.
-Agora não é hora para vender bilhete de loteria, Cabo- diz Bernardinho.
Louquinho vira-se para o rapagão e responde:
-Lazarento; não compra de mim, depois vai comprar dos outros!
Por breves minutos todos esqueceram a dor de Idelfonso, e o riso foi geral.
-O facão sem cabo- retruca Bernardinho.
Cabo aposta na força da farda e responde:
-Seu lazarento. Vou te levar à justiça!
 
As crianças já estão dentro da igreja esperando o professor o Noel.
Aos sábados ele ensina as crianças os dogmas e preceitos da religião católica.
Floriano olha em volta e diz:
-As crianças já estão esperando o professor para aprender o catecismo. Idelfonso todos sabem, não tem condições, e Adão ainda não chegou, e o subdelegado parece não estar nem aí para essa reunião. Por isso a nossa reunião fica para amanhã depois da missa!
A palavra de Floriano é tudo o que eles querem ouvir, porquanto já não mais tinham cabeça para reunião.
 
A saleta da Boa Freguesia está abarrotada, e faz-se enorme algazarra.
Os mais velhos sentam-se ao derredor das mesas, colocadas do lado de fora do armazém. Inclusive Amaro.
Hoje o mesmo tem um bom argumento para escapar das bordoadas da Parteira.
Os jovens vão sentar-se embaixo das árvores ao lado da igreja.
Professor Noel a passos lentos entra para passar as crianças o conteúdo religioso daquele sábado.
 
Subdelegado Napoleão torna a sentar-se na sacada de sua casa. Derrama vinho no copo, olha com desprezo os seus protegidos.
-Ganharam dinheiro, e agora se acham importantes-murmura ele, com o pensamento totalmente desvirtuado-, pois para mim, eles continuam sendo como sempre foram: uns pobres coitados!
Decide em seu coração encontrar um meio de semear a discórdia entre os moradores do povoado.
Ernesto e Floriano sempre foram bons amigos. Ademais o neto de um estava para casar-se com a filha do outro. Adão Pezão, desde a infância era chegado aos mesmos. Sobrava o Expedito. Mas esse não fedia e não cheirava. Seus filhos, sim: eram baderneiros natos.
Vê ali uma remota possibilidade de colocar em prática o seu intento.
O sol ainda exerce seu calor, sem restrição de nuvem alguma. Professor Noel da por encerrada a aula de sábado. As crianças, correndo, gritando e dando gargalhadas, deixam o recinto sagrado.
Subdelegado, contrariado e bastante irritado murmura:
-Até agora tenho aturado o gazear dessas malditas andorinhas; agora, para completar, veem todas essas pestes de crianças. Elas me tiram do sério!
A criançada guia o seu pensamento até o professor, e de imediato chega à conclusão de que o mesmo é o instrumento perfeito para fazer com que os filhos de Expedito se voltem contra os maiorais do povoado.
Espera Noel ficar só, e grita:
-Chegue-se aqui, professor; vamos conversar!
-Esse velho tinhoso está querendo alguma coisa- diz Dedo Duro para consigo. -Nunca se deu o trabalho de me cumprimentar, e agora vem com boas maneiras?
Ficou um tanto cabreiro, mas aceitou o convite.
-Sente-se, professor -, sugere Napoleão com um olhar astuto.
Gastam sem proveito alguns segundos de papo furado.
-Estive conversando com o meu filho, e sem querer fiquei sabendo que você gosta da filha do açougueiro-, começa o subdelegado manhoso como de costume. -Mas pelo que sei, a mesma namora o garoto Bernardinho?
Noel arregala os olhos, e como se não estivesse entendendo, responde:
-Não sei do que o senhor está falando!
 Após a gargalhada estrepitosa, Napoleão diz:
-Não se faça de bobo; você sabe muito bem do que estou falando!
Cala-se um instante e acrescenta:
-O professor quer a filha do açougueiro, e eu quero jogar os filhos de Expedito contra Floriano, Ernesto, e o maltrapilho Pezão: vamos unir forças, e partir para o embate com a certeza absoluta da vitória?
Dedo Duro salta da cadeira e responde:
-Isso é loucura; ademais eu já tenho um plano para conquistar a filha do açougueiro Farroupilha!
O subdelegado faz um tremendo esforço para manter-se calmo, e com ar de zombaria declara:
-Sem minha ajuda, o professor, jamais conseguirá conquistá-la; pois ela jamais ficará com um moço que é motivo de piada aqui em São Valentim!
-Como assim, motivo de piada?- pergunta Noel, não gostando nada, nada, da direção que a conversa havia tomado.
Com morosidade Napoleão responde:
-Em primeiro lugar vou lhe dar um conselho: não continue usando o diploma de professor e a fama de religioso para fugir de sua essência. Em segundo lugar, quando você está na presença desse povo todo, inclusive do açougueiro, os mesmos te chamam de professor Noel; mas nem bem o professor vira as costas, passam a chamá-lo de Dedo Duro. Se não acredita em mim, pergunte ao meu filho ou aos filhos de Expedito?
O professor sente-se humilhado, derrotado fisicamente e moralmente, muito deprimido interiormente. Quer falar, mas não consegue. Pois se julgava um rapaz de respeito, ativo em obras dentro daquele povoado, e agora estava descobrindo que os seus esforços não eram reconhecidos.
Napoleão retoma a conversa:
-Bem, como estava lhe dizendo, precisamos unir forças; só assim conseguiremos derrotá-los!
-Vou-me embora!-exclama o professor. - Mas antes aperte a minha mão, para selar nosso acordo!
E rapidamente desce a escada.
O subdelegado bebe um gole de vinho e diz:
- Esse garoto é dos meus; pena que não seja meu filho!
 
 
A caminho de casa, professor Noel, pensa, repensa, e fastidioso diz para consigo:
-Dedo Duro! Então é isso o que eles falam de mim. Os mesmos vão pagar caro por essa injúria; pois vou honrar o apelido!
 
O sol que antes brilhara forte, agora se mostra tímido, e aos poucos vai sumindo, desaparecendo no horizonte.
Ao contrário dos outros dias, não se vê garimpeiros andando apressados em direção as suas casas.
Rumo ao armazém, Adão Pezão, faz um cigarro de palha, acende-o, da uma boa tragada e mostrando-se inconsolado murmura:
-Os ciganos em minhas terras; por essa eu não esperava. É bem capaz de o Idelfonso ter uma recaída, e fazer o maior escarcéu. Depois tem aquela história de que os mesmos são todos bruxos, e o desconhecido mete medo; é melhor não complicar com esses forasteiros!
 
Margarete Prazerosa cruza a velha ponte de madeira, e faz da rua principal, passarela.
Toda a atenção volta-se para ela.
Seu andar atrevido é um convite ao pecado. Seus lábios carnudos, pedindo beijo, parecem os portões do paraíso, segundo a vontade de possuir do homem carnal. Os longos cabelos pretos, a pele morena, e o seu lindo corpo, despertam o desejo, carruagem para se chegar ao prazer relativo à carne.
 
Bernardinho e Luana, assim como Antônio Pedreira e sua noiva Diva, vão-se embora.
Leto roxo de ciúmes, dobra a esquina, e na velha ponte de madeira, fica esperando Prazerosa, que vai ao armazém, entra, e logo torna a sair.
-Essa potranca eu gostaria de montar- diz o açougueiro Farroupilha-, queria lhe sentar as esporas, só para ver a bichinha dar corcovos, pinotes!
Floriano baixa a cabeça e responde:
- Não diga asneira, Farroupilha; em primeiro lugar a mesma está longe de ser uma potranca. Em segundo, é vergonhoso, nós, quatro senhores já de certa idade, olhando com os olhos torvos, cheios de desejo, para uma moça que vimos nascer e crescer!
-Eu estou velho, não morto?- diz o açougueiro com ar de deboche. -Depois tem outra: qual o homem que não a deseja?
Leto avista Prazerosa, e a disritmia toma conta do seu coração. O mesmo fica sem saber se vai encontrá-la, ou se fica ali, esperando-a.
A hesitação imperou por alguns segundos. Mas logo ele optou em conter a ansiedade.
 
Enquanto isso Adão Pezão chega à Boa Freguesia, cumprimenta os amigos, puxa uma cadeira e senta-se.
A curiosidade está nos olhos e no semblante de Floriano, que é o primeiro a interrogá-lo:
-Como se saiu com os ciganos, Adão?
Pezão tira do bolso o saquinho de fumo, e uma palha da orelha, e com uma calma espantosa responde:
-Tentei falar com os mesmos numa boa, e acabei ouvindo um manancial de insultos. Pensei em chamar o subdelegado; mas esse há tempo esqueceu a sua obrigação que é manter a ordem aqui em São Valentim. Por isso decidi deixá-los em paz; pois segundo dizem, eles são todos feiticeiros, bruxos, e mexer com bruxaria é coisa séria!
O marido da Parteira passa as mãos no rosto e diz:
-O amigo fez a coisa certa!
Cala-se um instante e acrescenta:
-Quando é amanhã ou depois eles começam andar de porta em porta, vendendo uma só espécie de erva medicinal, e que dizem curar todos os tipos de doenças!
A gargalhada é geral.
 
Leto, frente a frente com Prazerosa, não resistiu. Deixou de lado o medo de que alguém os visse, e caiu em seus braços.
A mesma lhe da um beijo, empurra-o, e com ar de ri diz:
-Agora não, eu estou com pressa; vai mais tarde lá à minha casa!
O garoto desconfiado pergunta:
-Por que a pressa?
Prazerosa passa a mão em seu rosto, e com um sorriso malicioso responde:
-Não é o que está pensando, Leto. É que eu tenho um assunto urgente para resolver; por isso a pressa!
Aflito, Leto fez uma nova pergunta:
-Que assunto é esse, conte-me, talvez possa lhe ajudar?
Ela olha para o garoto com carinho. Lhe da mais um beijo e responde:
-Desculpe-me, Leto. Esse assunto, eu mesma tenho que resolver!
Já saindo acrescenta:
-Mais tarde nos encontramos!
O garoto chega à rua principal. Pensa no dia em que não precisará dividir os carinhos de Prazerosa com mais ninguém, e como esse dia será bom.
 
Começa surgir no céu às primeiras estrelas. Um vento preguiçoso sopra de leve, contrariando o calor abafado.
Muitos moradores do povoado sentam-se nas sacadas de suas casas, tomam chimarrão, olham o movimento, colocam a conversa em dia.
-Bom, está na minha hora!-exclama Amaro.
Despede-se dos amigos, e parte levando consigo o medo, a preocupação, e o desejo de encontrar um incremento para a desculpa que terá que dar a Parteira.
O açougueiro Farroupilha da uma gargalhada debochada e declara:
-Coitado do Amaro, hoje vai ser quase impossível, ele escapar das garras da Parteira!
Respira fundo e acrescenta:
-Acho que aquela gorducha não é certa da cabeça!
Todos fizeram sinal com a cabeça, concordando.
Pezão admira o céu repleto de estrelas, como se fosse a primeira vez. Desfruta a tranquilidade da noite e a companhia dos amigos, com extrema satisfação.
O coração enche-se de alegria, e ele murmura:
-Só Deus sabe o quanto eu gosto de São Valentim. É aqui a nascente da paz!
-Na maioria das vezes, as coisas mudam para pior- continuou -, mas nós podemos nos orgulhar: nosso povoado mudou para melhor; o velho Napoleão deixou de lado as perseguições, e hoje passa o tempo bebendo vinho, e fumando cachimbo, enquanto entre nós reina a harmonia!
Ernesto interrompe:
-Tudo que o amigo falou é verdade. Tanto mudou que os garotos, hoje têm a felicidade de ter a disposição a Prazerosa. No nosso tempo não tínhamos ninguém para nos dar prazer!
Terminada a sessão de risos.
-Acho que a Prazerosa não faz sexo por prazer- diz o açougueiro-, mas sim por esporte!
 
A noite é dos namorados. Leto vai ter com Prazerosa.
Chega, vê a sala abarrotada, entra, olha em volta, e vai sentar-se num cantinho.
Bernardinho e Luana trocam beijos e carícias. O desejo toma conta de ambos, que se assustam com o barulho e os gritos no portão.
Bernardinho abotoando os botões da camisa, diz para consigo:
-Velho nojento, resolveu chegar justo, agora; é muito azar!
Luana corre até a porta, abre-a, e surpresa diz:
-O cavalo está no portão, mas cadê o pai?
Bernardinho vai até a porta, e cai na gargalhada ao ver o açougueiro escorado no muro gritando:
-Maldição, esse pangaré não conseguiu pular um portão desses? Isso é pura maldição!
Após virar-se para a namorada, Bernardinho com ar de zombeteiro diz:
-Parece que o teu pai exagerou na bebida!
-Você ainda tem dúvidas? - diz ela toda envergonhada.
 
Na casa de Prazerosa o inferninho está montado. Gente estranha, bebem, fuma, perdem-se na fumaça.
Olhando da rua da para dizer que tudo lá dentro, está pegando fogo. Mas que tem coisa pegando fogo tem: Leto e Prazerosa é um fogo só.
Apesar de reforçado, o garoto sente-se pequeno nos braços dela. Boca, seios, coxas, é o paraíso, diz o mesmo.
E dois corpos banhados em suor transformam-se em um só.
 
Bernardinho olha para Luana com o olho torvo, não escondendo o desejo de possui-la. Mas como sabe que isso será impossível, resolve ir embora. Pois Farroupilha, bêbado acordara todos os da casa, e eles levantaram-se, e ficaram fazendo sala, ao contrário de Antônio Pedreira e Diva, que se entregaram ao amor.
 
 
É uma bela manhã de domingo. Depois do término da missa, os integrantes do grupo de jovens, e mais os membros da diretoria da sociedade, juntam-se para a reunião.
Logo após um acordo, padre Santiago pensa nos lucros que terá com a festa e declara:
-Achei uma excelente ideia, em vez de um, fazer dois dias de festas!
Depois de um lapso de tempo acrescenta:
-Só tem um, porém: eu não posso aprovar essas danças de frescos existentes hoje em dia. Tá certo, a tradicional festa da Ramada trás gente de todas as partes; inclusive do Rodeio Bonito e Ametista do Sul, e essas pessoas têm gostos variados. Contudo não há outro jeito; é meu dever reprovar danças de frescos. Pessoas decentes, danças decentes. Bom, é isso, tenham um bom dia!
 
A rua principal está movimentada. Casais com seus filhos menores passeiam, e admiram os cristais azuis dos dois bojos, ao lado da cruz grande em frente à igreja.
Louquinho Cabo aproveita o ensejo para vender bilhetes de loteria. Em frente a Boa Freguesia encontra as linguarudas Lucrécia e Diamantina, para, vira-se para elas e diz:
-Olhe o bilhete, olhe o bilhete!
Lucrécia faz uma falsa cara de nojo, quando na verdade está desejando o louquinho. Cabo é o homem perfeito para apagar o seu fogo.
Durante muito tempo o Gago fora o seu objeto de prazer.
No entanto, depois que encontrara a muda, o mesmo não quis mais saber da linguaruda Lucrécia, que responde:
-Vá vender bilhetes para pessoas loucas como você!
-Lazarenta, não compra de mim, depois vai comprar dos outros- diz louquinho irritado.
E segue em frente, resmungando e gesticulando.
-São Valentim já foi um bom lugar para se viver!- declara Diamantina-, hoje somos obrigadas a conviver com esse tipinho de gente!
-É verdade- responde Lucrécia com um sorriso a contragosto estampado no rosto-, São Valentim já não é o mesmo!
 
Os jovens contrariados descem as escadas do salão comunitário.
-Padre Santiago é um típico ditador!- declara um deles.
Outro se lembra do padre anterior a Santiago, que tinha uma amante, e abandonara o sacerdócio para casar-se com a mesma.
Um terceiro recorda que na missa, logo após a festa da Ramada do ano anterior, o padre ditador condenou a música, e como castigo, lhes obrigou a ir de casa em casa recolher donativos para a paróquia da cidade de Ametista. Galinhas, porcos, cereais, tudo era acolhido com prazer.
Durante uma semana os mesmos desfilaram pelas ruas de São Valentim, com galinhas embaixo dos braços, repontando porquinhos, e carregando sacas de cereais nos ombros até o salão comunitário.
E por azar, justo naquela semana chegara uma excursão da cidade de Rodeio Bonito para conhecer a gruta de São Valentim.
Em poucos segundos o pessoal da excursão havia congestionado o acesso à igreja.
Aquilo mais parecia dia de missa.
A maioria era pessoas idosas. No entanto as poucas moças que estavam juntas e foram pedir informação a eles, como diria o açougueiro Farroupilha: era florão de tropa. E as mesmas lhes haviam feito perder o rumo.
Como castigo o padre ditador tinha lhes obrigado a recolher donativos, e ali estavam eles: uns com galinhas, outros com porquinhos e sacas de cereais nos ombros.
Na verdade o que os mesmos queriam naquele momento, era fugir, desaparecer, ou então matar o dissimulado Santiago: ele era o responsável por aquele instante vergonhoso para eles.
Todos ficam em silêncio. Depois de um tempo Leto diz:
-É duro, mas vamos ter que acatar as ordens do padre Santiago. Contrariá-lo não é um ato de bravura, mas sim casmurrice!
Todos balançam a cabeça concordando com ele.
Já os mais velhos deixam o comunitário sorrindo a toa.
Pois pela primeira vez o padre não havia reprovado a atitude deles.
Professor Noel sai despercebido, e vai ter com Lesma, filho do subdelegado.
Esse rapaz de bigodinho, estatura média, olhar desconfiado, com preguiça até de falar, gosta de achincalhar e estimular confusão. Mas no fundo é um grande covarde.
Andando apressado o professor deixa a casa de Lesma.
Tito assiste a tudo do armazém. Com desconfiança murmura:
-Estranho o professor e o filho do velho Napoleão, juntos? Algo eles estão tramando, e conhecendo os dois como eu conheço coisa boa não deve ser!
A Boa Freguesia está vazia. Tito fica parado na porta.
Tenta lembrar-se de algo que possa ligar Noel à Lesma, mas nada vem a sua memória.
O encontro dos dois torna-se um mistério para ele.
 
O meio dia está chegando. As pessoas que havia ficado conversando após o término da missa, aos poucos vão despedindo-se umas das outras e partindo rumo as suas casas.
O resto do dia passa silenciosamente. Poucas crianças brincam ao derredor da igreja.
A sala da Boa Freguesia continua como antes: vazia. Tito aproveita, e faz um rápido balanço de tudo que vendera e lucrara no final de semana.
A calma e o silêncio entrara noite à dentro. O que se escuta é de quando em quando um cachorro latir. A calma é tanta que a certo ponto confunde-se com tristeza.
 
Mais um dia nasce. Uma nova semana de trabalho está começando.
Nuvens escuras surgem no céu. A chuva não tardará a chegar.
Em todos os cantos se vê garimpeiros apressados, subindo os morros, em direção aos garimpos.
Não poderia ser diferente com Antônio Pedreira.
Mesmo sendo neto de Ernesto, um rico dono de garimpo, Pedreira é um garimpeiro, assim como tantos outros, e orgulha-se disso.
O simples fato de levantar-se, e ir para o trabalho já o deixam feliz, porquanto sabe que dentro das brocas tudo pode acontecer.
Todos são aventureiros em busca de tesouros, e este tesouro, a qualquer momento poderá surgir na frente deles. Isso muito o atrai.
Os compressores começam funcionar. Os garimpeiros entram nas brocas, e com calma vão rosqueando as lâmpadas nos suportes até chegar ao local de seus trabalhos: cento e vinte metros rocha dentro.
Uns com os martelos dos compressores nas mãos, furam a dura rocha para novas explosões.
Outros, com carrinhos de mão retiram os cascalhos que ficara nas brocas desde a semana passada.
Antônio Pedreira enche de pólvora o primeiro furo, acende o estopim, e acontece a primeira explosão do dia.
Pedaços de pedra desprendem-se da rocha e aglomeram-se no interior da broca, completamente tomada pelo pó e o cheiro de pólvora queimada.
Aos poucos tudo se acalma.
Com o máximo cuidado para não tropeçar nos pedaços de rocha, Pedreira retorna ao local da explosão.
Ao ver uma mancha verde destacando-se no meio da cor cinza, deixa vir à tona a emoção, e murmura:
-Como é boa essa vida de garimpeiro: principalmente que se depara com este tipo de momento!
Cala-se um instante e acrescenta:
-Talvez essa mancha verde esteja protegendo os mais belos cristais ametista, ou faz parte de um bojo azul; como também poderá ser uma massa, ou ainda um bojo branco sem valor algum!
Torna a olhar, e percebe um trincado na mancha, e descarta a possibilidade de ser uma massa.
Bate com a marreta pequena no lado trincado, e enche-se de alegria ao ver os cristais azuis.
Faz um exame detalhado do bojo, e com extrema satisfação interior diz para consigo:
-Não é um bojo grande; mas os cristais são limpos e de cor! É com certeza já ganhei a semana, e por que não o mês?
 
Começa cair os primeiros pingos de chuva.
Professor Noel dispensa a classe para o recreio.
Lesma abre o portão, e segue apressado até um dos corredores, aonde lhe espera o professor.
Os dois aproximam-se da irmã mais nova de Luana.
Noel lança um olhar astuto, e começa o bate papo recheado de más intenções.
 
A chuva passa a cair intensamente.
Em sua lojinha João Permuta olha atentamente o monte cacaria pendurada nas paredes, e murmura:
-Segundo os médicos, aquele pó de rocha causa um grande mal ao organismo humano. Mas não vejo outra saída: se as coisas ficarem como estão, serei obrigado a trocar o comércio pelos garimpos, antes que a fome bata em minha porta!
Resolvi ir ter com Curandeiro.
-Aquilo que os médicos falaram a respeito do pó de rocha, é verdade?- perguntou ele, mostrando uma dose de medo.
Idelfonso continua debruçado sobre o balcão, e não responde. Pois o seu pensamento está voltado para os ciganos.
O mesmo que encontrar um meio de atacá-los.
Melancólico olha a chuva lavar a soleira da porta.
João Permuta torna a olhá-lo, e de um jeito terno toca em seu ombro e pergunta:
-Por que está tão calado e pensativo, amigo?
Curandeiro assusta-se, da um pulo para trás e mostrando abatimento responde:
-Me desculpe. Estava aqui distraído com minhas ideias!
-Não me diga que ainda está pensando nos forasteiros? Se for acho uma perda de tempo: o que passou, passou!
Curandeiro tira do bolso um retrato em meio busto da sua falecida esposa, entrega a João, e declara:
-Não posso esquecer os patifes. Vivo em função do meu desejo de vingança. Se eu esquecê-los, não há mais razão para viver?
João pensa um pouco, e de um jeito amorável responde:
-O amigo tem grande aptidão para as coisas; sempre atenta para as nobres causas. É um cidadão notável; não mais pode se deixar levar pelo ódio.
Após respirar fundo continua:
-O amigo declarou que vive em função do desejo de vingança. E se concretizar sua vingança, não será o mesmo que esquecê-los? E daí, quais motivos terá para continuar vivendo? O amigo não acha melhor deixá-los de lado, e continuar vivendo do desejo de vingança?
Idelfonso pensa um instante e diz:
-Talvez o amigo tenha razão!
 
Enquanto isso num dos garimpos, Pedreira com a marreta grande em punho, quebra os pedaços maiores, e aos poucos vai tirando da broca os pedaços menores para mais tarde, com uma talhadeira começar cortar a laje para retirar o bojo.
 
Na broca ao lado Bernardinho, com o rosto e os braços cobertos por uma fina camada de pó, exclama:
-Desgraceira sem fim: três explosões, e nada de cristais. Um mês sem encontrar se quer uma massa. Já está na hora da sorte sorrir para mim!
 
Muitos garimpeiros sentem-se, assim como Bernardinho: frustrados; mas não desanimados.
Afinal, é só limpar as brocas, fazer novos furos, enchê-los de pólvora, e acender o estopim, e as esperanças estão refeitas.
 
Albino, o guarda do garimpo, entra na broca onde está Antônio Pedreira, cumprimenta-o, e em seguida pergunta:
-O garoto Antônio encontrou algo de valor?
Pedreira faz ar de rir e responde:
-Encontrei um bojo. Os cristais são limpos e de cor: pena que é pequeno!
O guarda aproxima-se do bojo, olha atentamente os cristais azuis claros e transparentes.
-Começou bem a semana, Antônio!- diz ele.
-Não quanto o Euclides da broca cinco, que achou uma ametista – continua-, mas já é um bom começo!
Este forasteiro, cabelos grisalhos, ondulados e compridos, sempre alisando o cavanhaque, sabe-se que veio da cidade de Irai, e nada mais.
Seu passado aparenta ser cheio de anomalias. Contudo, o povoado simpatizou-se com o mesmo: deixaram a minúcia de lado, e acolheram-no amoravelmente.
O garoto surpreso diz:
-Depois de tanto tempo uma ametista? Isso é bom; muito bom!
Tira o boné da cabeça e sugere:
-Vamos vê-la?
O guarda fez sinal que sim com a cabeça.
 
Os garimpeiros em volta do bojo, dizem uns para os outros:
-Nosso trabalho é árduo, mas compensador!
O jovem Antônio aproxima-se do bojo, olha as calcitas que mais parecem um castelo de vidro no meio dos cristais azuis, bem escuros, vai para junto de Albino, um pouco retirado dos outros, e estupefato diz:
-A natureza tem um poder magnífico!
O guarda abre um sorriso plangente, e responde:
-É verdade. Pena que são poucas as pessoas que percebem isso!
-Preste atenção nos garimpeiros, ali-, continua. – Eles tiram as medidas do bojo, calculam o valor dos cristais, e das calcitas: não param um segundo se quer, para pensar nos milhões de anos que a natureza levou para concluir essa obra tão preciosa!
 
Calma-se a chuva.
O sol surge timidamente entre as nuvens escuras, mas logo torna a desaparecer.
As crianças deixam o colégio.
Os garimpeiros estão indo almoçar em suas casas.
A rua principal fica extremamente movimentada.
Em sua casa, Ernesto debruça-se na janela, e fica contemplando a beleza das flores de seu jardim.
Maravilhado escuta o gorjear dos sabias nas amoreiras junto ao riacho.
 
Pedreira e seu irmão Zé, encontram-se no portão.
-Encontrou alguma coisa de valor?- perguntou o garoto.
Com mesura Antônio responde:
-Encontrei um pequeno bojo...!
Nem bem ele termina de falar, Zé entra correndo casa a dentro.
-O que aconteceu, Zé?- grita Ernesto.
- O Antônio encontrou um bojo, - responde o garoto-, e eu vou retirá-lo da rocha para ele!
Sorridente Ernesto vira-se para Pedreira, e diz:
-Meus parabéns, Antônio; começou bem a semana!
-Nós começamos bem a semana, vô!- diz seu neto-, porque o Euclides, irmão do professor Dedo Duro, encontrou uma ametista!
Já pensando na porcentagem, Ernesto murmura:
-Uma ametista. Depois do almoço vou subir ao garimpo vê-la!
Zé antecipa-se a eles, e diz:
-Bem, eu já vou subir!
Com um leve toque de repreensão, Pedreira responde:
-Espere um pouco mais, Zé; o vô também vai subir. Vamos juntos!
Mas o garoto ansioso para começar cortar a laje, e retirar o bojo, não escutou o irmão, e saiu rumo ao garimpo.
 
No armazém da Boa Freguesia os comentários começam.
Um garimpeiro magro e alto declara:
-Euclides encontrou uma ametista!
Outro arrivista diz:
-O mesmo não é merecedor desse caso fortuito!
Por sua vez Tito declara:
-Não sei se Euclides merece ou não: só sei que ele terá dinheiro para pagar o que me deve!
Novamente a caminho do garimpo, Bernardinho mergulha o pensamento em sonhos: cristais, dinheiro, e a certeza do amor de Luana, que em casa, arrepelando-se de raiva, murmura:
-Se o Bernardinho pensa continuar me enganando, está redondamente enganado!
 
Com a intenção de ver os cristais ametistas, Ernesto entra na broca cinco.
Seu neto Pedreira vai até a broca, aonde trabalhara a manhã inteira, e depara-se com seu irmão Zé caído num canto.
Gelado de espanto ficou sem saber o que fazer.
Queria gritar, chorar, mas não conseguiu.
Ernesto e o guarda Albino vão broca a dentro.
Ainda um tanto distante o guarda percebe uma lâmpada desligada, e diz:
-Estranho, uma lâmpada desligada? Será que aconteceu alguma coisa?
O velho dono do garimpo corre até seus netos.
Vê Zé caído. Atira-se em cima do corpo e pergunta:
-O que aconteceu, Antônio? O que aconteceu?
Transtornado Pedreira não responde.
Seu coração não quer acreditar no que os seus olhos estão vendo.
-O que aconteceu, Antônio? – pergunta novamente Ernesto.
O guarda olha a rede elétrica, vira-se para o velho e afirma:
-Tudo indica que o garoto foi rosquear a lâmpada no suporte, e encostou a mão onde não devia, e foi eletrocutado!
Uma dor monstruosa invadiu o peito do velho Ernesto.
Desesperado o mesmo grita:
-Meu Deus! O que eu fiz para merecer tanto castigo? O Senhor já levou os pais dos meus netos, naquele maldito acidente; agora quer leva-los também? Por favor, me poupe de mais essa dor: não leve meu neto!
Angustiado o guarda olha Ernesto segurando nos braços o corpo sem vida do neto.
Quer fazer algo para acalmar a dor do patrão, mas sabe que não tem mais nada a fazer, a não ser avisar os outros garimpeiros.
 
A notícia da morte de Zé, logo se espalhou pelo povoado.
As pessoas começam aglomerar-se em frente a igreja com um só objetivo: saber mais a respeito da morte do neto do velho Ernesto.
Curandeiro sai à rua, e com o coração ainda cheio de ódio grita:
-Quando eu falo ninguém me escuta. Agora vocês estão vendo: foi só chegar os ciganos que a desgraça se manifestou!
Uns ficam assustados, e dizem:
-Esses forasteiros, deveras, são sombrios. É melhor debandar; ficar perto deles é um perigo!
Outros irresolutos murmuram:
-Este povo não pode transmitir tanto azar, assim. Eu não acredito. O que aconteceu com o garoto Zé, foi uma fatalidade; poderia ter acontecido com qualquer um!
 
 
O subdelegado que assiste a tudo a distância, da uma gargalhada estrepitosa e murmura:
-Espero que o Idelfonso continue a incitar essa gente mentecapta. Pois quero vê-las em atrito com os ciganos!
 
Parado na porta da Boa Freguesia, Tito assombrado com a atitude de Curandeiro diz:
-Estranho! Curandeiro sempre foi um homem notável. Como pode de repente começar a estimular confusão? Não estou compreendendo nada?
 
A verdade banal deixara Pedreira sem ação. Bernardinho e o guarda Albino pegam-no, e levam-no para casa.
Logo em seguida os dois entram em uma das vielas, e seguem em direção à farmácia de Curandeiro, no centro do povoado.
O guarda alisa os cabelos molhados pela fina garoa e declara:
-É amiguinho, para morrer basta estar vivo!
Ainda um tanto perplexo com o que acabara de acontecer, Bernardinho responde:
-É triste, mas é verdade!
A chuva torna a cair com intensidade. Bernardinho e o guarda entram rapidamente na farmácia.
A rua logo fica alagada. Os pingos d’água, embalados por um vento forte, entram porta dentro.
Curandeiro deixa de lado a mesura, e um tanto tresloucado pergunta:
-Como aconteceu o acidente que resultou na morte do garoto Zé?
Respira e em seguida acrescenta:
-Não tenho dúvidas: tem dedo dos ciganos nesta tragédia!
O guarda um pouco constrangido responde:
-Me desculpe Idelfonso, mas culpar os ciganos pela morte do garoto é leviandade!
Adverso à realidade, Curandeiro declara:
-Todos esses forasteiros são feiticeiros amaldiçoados: tanto é verdade que nem pátria eles têm!
-Patriotismo não vem ao caso, - responde Albino. – Os ciganos são espertos; e se bobear eles enganam mesmo!
Cala-se um instante e acrescenta:
-Essa história de feitiçaria é bobagem; só os tolos acreditam nisso!
Vira-se para Bernardinho e ordena:
-Compre os calmantes, e vamos nos retirar!
E mesmo caindo muita chuva, em seguida os dois deixam a farmácia.
Revoltado com a afronta do guarda, Curandeiro murmura:
-Guarda salafrário, é astuto como todos os outros forasteiros. É melhor eu tomar cuidado com ele; pois não quero mais surpresas vinda desse tipo de gente!
 
O corpo de Zé é levado à igreja para ser velado. Muitas pessoas ali já se faziam presente: uns com a intenção de tresnoitar, outros apenas para ver o corpo do garoto.
Horrorizada, Catarine, esposa de Ernesto começa delirar.
Por sua vez, Ernesto, com um olhar imensamente triste murmura:
-Meu Deus do céu! O que fiz para merecer tanto castigo?
Inutilmente procura encontrar forças para conter o padecimento, que é um turbilhão de dor em seu peito.
 
Ao contrário de Ernesto, Euclides, com toda a morosidade e volúpia, acende um cigarro, da uma tragada, sobe uma das vielas, entra na rua principal, encontra seu irmão Noel e diz:
-A sorte sorriu para mim, meu irmão: encontrei uma ametista!
O professor, tendencioso, baixa a cabeça e responde:
-Estou sabendo!
Já saindo acrescenta:
-Mais tarde conversamos, uma vez que agora tenho que ir à igreja.
E segue em frente.
O mesmo já parece ver a expressão de dor e desgosto no rosto de Ernesto, e de seus familiares.
Sombrio diz para consigo:
-Só quero ver a cara do Antônio. Deve estar completamente desvairado!
Mas o seu desejo não se concretizou, uma vez que um calmante bastara para colocar mente e corpo de Antônio, em estado de dormência.
 
Um pouco mais calmo, o guarda Albino, vira-se para Bernardinho e diz:
- Agora não é preciso nos preocupar com o Antônio, visto que só acordará amanhã de manhã. Podemos ir até o local do velório despreocupado!
Bernardinho lembra-se das palavras de Curandeiro, e pensativo pergunta:
-Aquilo que o Curandeiro falou a respeito dos ciganos, faz algum sentido?
O guarda fica um tempo em silêncio, e em seguida responde:
-Não sei lhe responder. Sabe-se que eles têm o dom de ler a mão. Agora, nunca ouvi dizer que sejam feiticeiros!
Cala-se um instante e acrescenta:
-Penso eu que Idelfonso está sendo infantil no que diz respeito a esse caso. Sua pertinácia pode se transformar em algo malévolo!
Um tanto arredio Bernardinho murmura:
- Agora, que os mesmos são metidos a espertos, e gostam de terrificar, ninguém pode negar?
Surpreso com as palavras do garoto, o guarda responde:
-Metidos a espertos, deveras, eles são. Agora que gostam de terrificar é exagero!
 
A noite chuvosa deveria ser igual a tantas outras noites de chuva, para os moradores do lugar. Mas não: essa noite era diferente.
 Ela parecia ser mais escura; totalmente fúnebre.
A chuva parece fazer parte da anomalia.
 O vento espalha padecimento e tristeza em todos os cantos.
 Sente-se a presença do anjo da morte.
Na parte da tarde o mesmo visitara um dos garimpos, e escolhera o garoto Zé, para levar, e parece que vai esperar o sepultamento, para depois deixar o povoado.
 
Hora garoa e calor abafado. Hora chuva intensa e um vento confortante.
Assim a manhã cede lugar à tarde, que chega misteriosa.
As pessoas vão aglomerando-se, dentro e fora da igreja, para o último adeus a Zé.
O choro ficara preso na garganta de Antônio Pedreira.
Dominado pelo desgosto, ele olha o corpo do irmão deitado no caixão e murmura:
-Destino malévolo, tinha que escolher justo o meu irmão?
Subdelegado Napoleão aproxima-se do caixão, olha o corpo sem vida do garoto, e em voz baixa diz:
-Sinto muito, garoto: seu vô era quem deveria ter morrido; não era você, uma coisinha insignificante, sem préstimo, incapaz de fazer mal a alguém!
Cala-se um instante e acrescenta:
-Foi melhor assim. Pois mais dias ou menos dias, você seguramente iria me afrontar. Agora posso descartar essa hipótese!
Do lado da sacristia, Leto e Tito assistem a tudo.
Desconfiado, o dono da Boa Freguesia, vira-se para Leto e pergunta:
-Viu a cara do velho Napoleão? Até nessas horas o mesmo é sarcástico!
Após respirar fundo Leto responde:
-É verdade!
 
Do lado de fora, Farroupilha e o marido da Parteira conversam.
-Vou lhe confessar uma coisa -, começa o açougueiro, - só de pensar em trabalhar nos garimpos, me sinto decrépito. Aquele pó dificultando a respiração, compressores, marretas, talhadeiras, aquela barulheira toda me deixa tresloucado!
Cala-se um instante, e em seguida acrescenta:
-Sem contar as precárias instalações elétricas, que são verdadeiras armadilhas. Machuca saber que o garoto Zé não foi o único, nem será o último!
-O amigo tem razão -, responde Amaro, - seguidamente ocorre acidente desse tipo, e sempre com vítimas fatal!
Depois de um lapso de tempo acrescenta:
-E isso de não gostar dos garimpos é natural. Ao contrário de mim, o amigo nasceu para ser açougueiro, assim como Idelfonso para ser dono de farmácia e curandeiro, Tito para ser dono de armazém, e João nasceu para a permuta!
 
Nisso todos se voltam à rua.
 Estupefatos, todos parecem não acreditar no que estão vendo.
-Se não estivesse vendo, e alguém me dissesse, juro que não acreditaria!- declara um rapaz, demonstrando perplexidade -, seu Expedito, deixar de lado o trabalho, e vir ao velório, é um fato memorável!
Um segundo diz:
-O mesmo não está fazendo mais do que a sua obrigação. Agora, doente por trabalho e dinheiro, como é esse velho, sem sombra de dúvida, ele vai lamentar a perda dessas poucas horas, durante muito tempo!
Um terceiro olha Expedito dos pés a cabeça e declara:
-Desde que me conheço por gente, esse velho usa esse terno preto!
Outro acrescenta:
-Não adiante ter dinheiro, e comer e se vestir mal. Tenho pena da família dele. Os filhos têm motivos para ser assim como são: revoltados!
 
Ainda um tanto atordoado com o que acontecera, Bernardinho procura restituir a sensibilidade nos braços de Luana.
 No entanto, a mesma deixa de lado a elegância, esquiva-se dele e diz:
-Me deixa adivinhar: já esqueceu a Prazerosa? Já sei: ela lhe deu um fora, é isso?
Sem compreender nada pergunta:
-Que..., bobagem é essa que você acabou de falar, amor?
Enfurecida Luana interrompe:
-Não se faça de desentendido, Bernardinho. Você sabe muito bem do que estou falando!
E afasta-se dele.
 
Professor Noel, que o tempo todo ficara observando a conversa dos dois, sente-se envolvido pela volúpia, e diz para consigo:
-Logo, logo, Luana será minha, uma vez que poucas palavras malévolas bastaram para abalar o romance dela e Bernardinho. Isso é muito bom!
 
É fechada a tampa do caixão.
 Dominados pela dor, Ernesto e sua esposa não conseguem conter as lágrimas, que descem pelas rugas de seus rostos, e alojam-se no assoalho já umedecido pelos calçados molhados pela água da chuva acumulada nas vielas do povoado.
Antônio Pedreira olha para o caixão, e uma vez mais o choro fica preso na garganta. Tudo em seu coração é tétrico e desesperador.
 
Torna cair uma fina garoa.
 A turba deixa a igreja e acompanha o caixão com o corpo do garoto Zé, até o cemitério, um pouco acima da casa religiosa.
Umas poucas orações, e rapidamente Zé é sepultado.
Apressadas as pessoas começam a procurar abrigos para escapar da indesejável garoa.
A morbidez alia-se a Pedreira, que sente a dor do trágico momento.
Ao perceber que o mesmo sumira numa das vielas, o guarda Albino chamou Leto e Bernardinho, e lhes convidou para segui-lo.
Logo depois da velha ponte de madeira é atingido o objetivo dos três.
Em seguida Leto diz:
-E essa garoa enjoada que não dá trégua!
- Faz parte -, responde Bernardinho.
O guarda, mais os dois garotos olham firme para Pedreira, que nada diz.
Seu corpo está junto aos mesmos, mas sua alma parece não estar. Talvez esteja junto a Zé, quem sabe?
O guarda compreendendo a dor do jovem patrão declara:
-Se isso serve de consolo, eu já passei pelo que está passando, meu jovem amigo. Quando perdi minha esposa pensei que o mundo fosse acabar. No entanto ele não acabou, e eu estou aqui!
Pedreira faz de conta que não escuta as palavras de Albino, e segue em frente.
Estupefatos Bernardinho e Leto tentam conter a curiosidade.
 Contudo ela é mais forte, e logo um deles pergunta:
-Como morreu sua esposa, Albino?
O guarda não quis descrever com minúcia. Apenas diz:
-Ela foi covardemente assassinada!
Os garotos queriam saber mais sobre a morte da esposa do guarda, mas ele parece querer fugir do assunto. Por isso os dois também se calaram.
Antônio e os três amigos pegam o caminho que leva a gruta de São Valentim.
Leto, já com os cabelos molhados e a roupa encharcada, grudando na pele murmura:
-Como seria bom se essa garoa desse um tempo!
Os quatro entram na gruta.
 Pedreira ajoelha-se diante da imagem da senhora Aparecida e do padroeiro São Valentim, e em voz baixa começa a orar.
O guarda, mais Leto e Bernardinho, um pouco distantes, olham com carinho para Antônio, que busca conforto para a sua dor na oração.
Albino respira fundo e de um jeito terno declara:
-A vida tem sido dura para com Antônio. Primeiro foram-se os pais, e agora o irmão!
O jovem Antônio olha fixamente para a imagem de São Valentim, e por um momento desejou ser ela. Pois a imagem não chora, não sente dor, nem tampouco sofre com os golpes do destino. Por isso desejou ser a imagem do santo.
Começa a escurecer.
 Em silêncio os quatro amigos deixam a gruta.
Leto, o mais entusiasmado bem que tanta puxar conversa; mas seu esforço é em vão. Os outros preferem continuar em silêncio com os seus problemas.
Antes da velha ponte de madeira, o guarda e Pedreira vão rumo à casa de Ernesto, enquanto Leto e Bernardinho vão em frente.
O rapagão Bernardinho deixa de lado por uns instantes a morte, o velório, o sepultamento de Zé, a dor de Pedreira, e se volta para Luana: o que levara a mesma a dizer aqueles disparates todo para ele?
Espantado com a rispidez com que a namorada lhe tratara no velório, vira-se para Leto e pergunta:
-Por acaso não escutou Luana falando algo a sua irmã?
Surpreso com a pergunta, Leto Responde:
-Não!
Em seguida pergunta:
-Por que me perguntou isso?
-Durante o velório fui ter com ela. Tentei beijá-la, e a mesma veio com uma conversa estranha. Me perguntou se eu já tinha esquecido a Prazerosa, ou se ela já tinha me posto de lado? Confesso que não entendi nada!
Leto fica vermelho. Seu coração passa a bater mais rápido.
 Num fiapo de voz ele responde:
-Só você ainda não percebeu que o professor Dedo Duro é apaixonado por Luana. E quem gosta de fuxicar é ele?
Sarapantado Bernardinho responde:
-Isso é sandice, Leto. Tá certo, Dedo Duro é um tanto mentiroso, não guarda segredos. Mas incitar contendas não é do seu feitio!
-Você está menosprezando o professor, Bernardinho. Tome cuidado. O mesmo é um sujeito astuto e arrivista!
Depois do riso de escárnio Bernardinho declara:
-Se o mentecapto Dedo Duro pensa colocar obstáculo em meu caminho, está muito enganado. Se o mesmo é astuto eu também sou!
 
Hora nuvens escuras e uma fina garoa.
 Hora o azul do céu e o sol avermelhado.
Assim passam-se dois dias.
Ainda fastidioso Ernesto sobe ao garimpo.
O guarda Albino, que recém havia saído da broca cinco, lhe cumprimenta, e pensa em lhe perguntar se estava mais calmo e resignado com a perda do neto.
 No entanto apenas informa:
-Há compradores olhando a ametista!
-Isso é bom!
Cala-se um instante e em seguida pergunta:
- Quer ganhar um dinheirinho extra?
-O quê que tenho de fazer?
-Essa semana, que já está praticamente no fim, Antônio não mais virá ao garimpo...
-Já sei- interrompe o guarda -, o patrão quer que eu retire o bojo da rocha?
O dono do garimpo faz sinal que sim com a cabeça.
Imediatamente o guarda pega uma marreta e uma talhadeira, e começa cortar a rocha.
 
Na broca cinco os compradores olham detalhadamente os cristais ametistas.
Risonho Euclides anda de um lado para o outro.
 Pensa no dinheiro que logo, logo receberá.
 Entregue a volúpia não vê o momento de estar na Boa Freguesia, onde Tito e o açougueiro Farroupilha conversam.
- Espero que desta vez Euclides saiba investir o dinheiro que ganhará com a venda da ametista, - diz o açougueiro escorado ao balcão.
O dono do armazém sisudo responde:
-Até parece que o amigo não conhece o Euclides. Fanfarrão do jeito que é, logo, logo estará liso; sem nem um pila no bolso!
-É triste, mas é verdade, - diz Farroupilha depois da risota. - Logo, logo Euclides estará liso!
Depois de um lapso de tempo acrescenta:
-Euclides parece ter raiva de dinheiro!
 
Na broca cinco continua o entra e sai de compradores e garimpeiros.
Enquanto isso Bernardinho olha os pedaços de rocha aglomerados num canto de sua broca, desanima-se, e começa a queixar-se:
-Até quando esse azar medonho vai me acompanhar?
Nisso o guarda Albino toca em seu ombro e pergunta:
-Tem uma talhadeira para me emprestar, meu jovem amigo? Com a qual estou cortando laje não tem mais condições!
Bernardinho fica surpreso: Albino cortando laje?
Torna olhar para o guarda e responde:
-Tenho. Pode pegar ali dentro da caixa!
Deixa a curiosidade vir à baila e pergunta:
-Para quem o senhor está trabalhando?
O guarda olha firme nos olhos do rapagão e responde:
-Para o seu Ernesto!
Depois de um tempo pergunta:
-Lembra-se do bojo que o Antônio achou?
-Sim!
- Vou retirá-lo da rocha para o mesmo!
Logo após a pausa acrescenta:
-É claro: ganharei um extra pelo serviço!
E com a talhadeira em mãos devagar se retira.
 
 
Já com a marreta pesada em punho, Bernardinho começa a bater nos pedaços de rochas maiores.
 A cada batida mais e mais o pó levanta-se, e mistura-se com o suor, que verte em seu rosto.
 Para um instante, escuta as gargalhadas de Euclides ecoando broca a dentro e murmura:
-O irmão do professor Dedo Duro é um sujeito de sorte; encontrou uma ametista. Já comigo fica o trabalho árduo, e nada de recompensa!
Após receber das mãos do velho Ernesto o seu quinhão, sorridente Euclides desce o morro.
-O Ernesto que me desculpe, - diz ele para consigo -, mas como não tenho nada a ver com a sua desgraça, vou fazer festa!
 
 
O sol desaparece no horizonte. Como de costume, João Permuta e Curandeiro fecham as portas de seus estabelecimentos, e vão refestelar-se em frente a Boa Freguesia, onde estão sentados Pezão, o açougueiro e o Floriano.
-Como a vida é engraçada, - murmura Farroupilha olhando para o irmão do professor-, Ernesto vive a sua desgraça, enquanto Euclides vive o seu dia de glória!
O irmão do professor da gargalhada atrás de gargalhada.
Hora leva a boca o copo de cerveja.
Hora o cigarro.
 Tira do bolso boa parte do seu quinhão, e paga bebida aos companheiros.
Nisso chega à porta do armazém um de seus garotos.
Vai para junto dele e diz:
-Pai, a mãe mandou lhe chamar!
Euclides acende um cigarro, da uma tragada, e com rispidez responde:
-Diga àquela jararaca que tão cedo eu não irei para casa!
O garoto da uns passos em direção à porta, e para ao ouvir os gritos do pai.
-Se acalme filho. Pra que a pressa?
Vira-se para o Tito:
-Dê ao meu filho o que ele pedir, e mais uma cesta básica para o meu garoto levar para casa!
Logo em seguida o garoto sai do armazém levando consigo a cesta básica, que o seu pai pedira ao dono da venda.
A caminho de casa o pensamento do filho de Euclides mergulha em um momento tétrico.
 Contristado o mesmo murmura:
-Meu Deus. Essa noite deveria ser um momento de paz e tranquilidade, uma vez que o pai já vendeu os cristais ametistas, e já recebeu o dinheiro. No entanto sei que será uma noite de sova. Por que isso, meu Deus?
E começa orar.
Seus passos apressados chamam a atenção dos cachorros, que mesmo antes dele chegar à frente duma casa, começam latir.
 
No final do povoado, dois riachos encontram-se, e fazem o desenho de um grande coração.
 Ali vive o professor Noel e seus familiares.
 O lugar é conhecido como vila dos Cachorros Sentados.
Na escada da residência de seus pais, o professor torna a ler o jornal do dia.
Vê o garoto, filho de Euclides com uma cesta básica, fecha o jornal e pergunta:
-O teu pai ficou no armazém?
Timidamente o garoto responde:
-Sim!
Anda mais uns poucos metros, e chega à sua casa.
Noel balança a cabeça e murmura:
-Esse meu irmão é um pé no saco. Só sabe apoquentar as pessoas!
Pensa um pouco e acrescenta:
-Hoje não deixarei o mesmo bater na esposa e nos filhos!
 
Na Boa Freguesia o irmão do professor é o centro das atenções: bebe, fuma...
Seguidamente bate palmas e diz:
-Hoje a festa é por minha conta. Os camaradas podem beber a vontade, que eu pago!
Do lado de fora, Adão Pezão, Floriano, e o açougueiro, insistem para que João ou Curandeiro jogue canastra. No entanto os dois não estão a fim de jogar cartas.
João Permuta espia pela janela o fanfarrão Euclides.
 Dá uma galhofa e declara:
-Essa é a noite dos aproveitadores!
Depois do riso Floriano acrescenta:
-Euclides não é mesmo um sujeito inteligente. Não consegue perceber que as pessoas que estão ao sua volta são sanguessugas, e só querem beber e fumar as suas custas!
Fastidioso Curandeiro declara:
-Me sinto mal ao ouvir o nome desse sujeito farofeiro. O safado tem esposa e filhos, e não dá valor a isso; deixa-os em casa passando necessidade, e sai gastando aquilo que tem e até mesmo o que não tem!
Na saleta do armazém, a algazarra continua.
 Cercado por pessoas buliçosas Euclides vive o seu dia de glória.
 
Enquanto isso, Leto abre a porta, olha o céu estrelado, e faceiro sai em direção a casa de Prazerosa.
 Cruza o primeiro riacho, e entra na vila dos Cachorros Sentados.
A brisa da noite lhe enche de volúpia, e com grande prazer dos sentidos ele murmura:
-Sei que o que Prazerosa sente por mim é meio suspicaz; mas eu a amo: isso é o que importa. Mesmo sabendo de seus disparates vou pedi-la em casamento!
De repente a quietude da noite rompe-se com uma gargalhada destemperada. Assombrado de susto Leto olha os dois lados da viela movendo os olhos rapidamente.
 Vê o professor Noel parado num degrau da escada e grita:
-Boa noite!
-Boa noite, - responde Noel.
Respira fundo, e em seguida pergunta:
-Pra que tanta pressa?
Leto fica irresoluto, e da graças a Deus quando o professor diz:
-Não precisa me dizer nada, uma vez que já sei para onde vai!
O garoto sente-se aliviado.
 Despede-se de Noel, e apressado continua o seu caminho.
Após a risota o professor diz para consigo:
-Sujeitinho sem préstimo, esse Leto!
-Professorzinho mentecapto, - diz Leto para consigo mesmo.
Atravessa o segundo riacho, chega a frente da casa onde morava os pais de Pedreira e do falecido Zé.
 Vê Prazerosa e o filho mais velho de Expedito, de nome Sebastião saindo da casa já em ruínas.
 Seu peito enche-se de anomalia.
 Em sua cabeça passa os mais cruéis pensamentos.
Um pouco antes do velho pé de ipê, do lado de cima da ruela, os três encontram-se.
Sebastião, sorridente pergunta:
-Como vai, Leto?
De um jeito tresloucado Leto grita:
-Salafrário!
E com rigor agarra o pescoço de Sebastião.
 Os dois começam lutar, e rolar na grama e nos pedregulhos.
Inutilmente Prazerosa em alta voz ordena:
-Parem já os dois!
Os mesmos continuam rolando.
 Sebastião empurra Leto com o cotovelo, e consegue desvencilhar-se.
Atônito ele corre ladeira abaixo.
Cruza a vila dos Cachorros Sentados, e só depois de chegar a rua principal, lembrou-se que passara correndo pela vila, e esquecera de cumprimentar o professor.
Já sentindo sensação de alívio o mesmo olha seus braços esfolados, ensanguentados e murmura:
-Garoto tolo, não sabe com quem mexeu!
 
Professor Noel dobra o jornal que já havia lido, e relido várias vezes.
Vira-se para seus irmãos Demétrio e Agostinho, que sorridentes sobem a escada e pergunta:
-Por acaso viram Sebastião? O mesmo passou aqui correndo, e se quer me cumprimentou?
-O irmão perdeu a maior, - diz o primeiro.
O segundo interrompe:
-Noel, você tinha que ter visto a briga de Leto e Sebastião!
O professor com grande prazer dos sentidos diz:
- Leto e Sebastião em conflito? Isso muito me agrada!
Em seguida pede:
-Me descreva com minúcia a briga dos dois!
-Não tem muita coisa a descrever, uma vez que o que vimos foi Prazerosa gesticulando e gritando, e os dois rolando na grama e nos pedregulhos, e...
-E logo em seguida Sebastião fugiu, - interrompe Agostinho.
Depois da risota acrescenta:
-Sebastião passou por nós a mil por hora...
As respostas não foram as que o professor esperava.
 Não escondendo a insatisfação ele diz:
-Foi só isso? Pensei que estivessem assistidos a tudo?
-Foi só isso, - responde Demétrio!
Vira-se para Agostinho:
-Poderíamos ter nos aproximado um pouco mais da tapera, e assistido a discussão de Leto e Prazerosa, visto que eles ficaram lá no local da briga, e nós estávamos na esquina debaixo, bem próximos do local!
-Esqueça esse acontecimento, Demétrio, - responde Agostinho.
E com vagareza entra porta à dentro.
Sentindo uma sensação agradável o professor murmura:
-Que bom! Não será preciso fazer uso do meu plano para intrigá-los!
Respira fundo e acrescenta:
-O subdelegado Napoleão ao saber dessa briga, certamente dará pulos de alegria!
 
Enquanto isso no armazém Boa Freguesia, Euclides, totalmente embriagado, vai até ao balcão, e com a língua meio enrolada diz:
-Bem, preciso debandar meus camaradas. Contudo, antes pagarei uma última rodada!
Os aproveitadores batem palmas.
Euclides vira-se para Tito:
-Mais uma dúzia de cerveja para os camaradas. Um pacote de balas, e uma caixa de rojões!
Imediatamente o dono do armazém atende o seu pedido.
Euclides paga, e tropeçando em mesas e cadeiras, deixa o recinto, e passa ser o dono da rua.
Subdelegado Napoleão escuta o barulho dos primeiros rojões, arregala os seus olhos vermelhos e murmura:
-Maldito, Euclides. Sabe que não aceito esse tipo de desordem, e mesmo assim persiste em causar distúrbio!
Com a intenção de ir até o galpão pegar um talo de fumo para bater no fanfarrão, abre a porta, lembra-se de sua aliança com o professor, rapidamente torna a fechá-la e diz:
-Euclides, Euclides! Hoje é a sua noite de sorte!
E contrariado volta para a cama.
Subdelegado Napoleão sempre cultiva uma pequena plantação de fumo. Das folhas o mesmo faz o bom fumo de corda, e do talo, o instrumento perfeito para bater na esposa e o filho.
Sem saber que escapara de uma bela sova, Euclides segue rumo à vila dos Cachorros Sentados.
A cada dez, vinte metros ele solta um foguete e joga um punhado de balas.
 
Na velha tapera, a discussão entre Leto e Prazerosa continua.
-Pensei que tínhamos algo sério, - diz ele, tremendo de raiva.
-Pois pensou errado, garoto, - responde a mesma. - Eu odeio crises de ciúmes, e hoje você passou dos limites, garoto. A partir de hoje acho melhor você se afastar de mim. Esqueça que eu existo!
Como facas pontudas as palavras de Prazerosa penetram no peito de Leto.
Num fiapo de voz ele declara:
-Eu te amo. Pra ti ter uma ideia do amor que sinto por você, até já fiz planos para nos casarmos!
-Olhe pra você, garoto, - responde ela -, arranhado, ensanguentando, em frangalhos, e querendo casar-se comigo? Tire isso da cabeça agora mesmo, uma vez que não quero um garoto ciumento grudado na barra de minha saia!
-Talvez brigar com Sebastião tenha sido uma má ideia. No entanto fiz isso por amor!
-Não diga asneira, garoto, - interrompe. - O quê que você sabe a respeito do amor? Trate de cuidar desses ferimentos, e esqueça que eu existo!
Vira as costas para Leto, e rapidamente afasta-se.
Parece que o mundo desaba sobre a cabeça do garoto.
Tomado pela tristeza escora-se no tronco do velho pé de ipê, e fica ali: sem saber o que fazer.
De repente ouvi um tiro e murmura:
-Isso não é barulho de rojão!
Chega ao primeiro riacho, e depois de atravessá-lo, sua dor começa dividir espaço com a curiosidade, visto que estava ouvindo vozes, gritos e choros.
Apressa o passo, entra na vila dos Cachorros Sentados, e fica perplexo com aquilo que vê.
 
Euclides está estirado ao chão.
Ao seu redor, mãe, esposa e filhos choram e gritam.
Demétrio e Agostinho tentam consolar o professor Noel.
Chorando o mesmo declara:
-Não tive escolha. Fui obrigado a atirar. Era ele ou eu!
Mesmo dominado pela tristeza, seu pai usa o bom senso e responde:
-Nós sabemos filho. Foi legítima defesa!
E na verdade fora mesmo.
Euclides chegara a sua casa totalmente embriagado.
 Deu um punhado de balas a cada um dos filhos, e em seguida começou bater na esposa com um cinto.
Noel cumprira aquilo que prometera.
Pegara o revólver de seu irmão Demétrio, e correra socorrer a cunhada.
 Euclides havia deixado de lado a esposa, pegado uma faca, e partido pra cima de Noel, que não teve outra escolha a não ser puxar o gatilho, para não ser esfaqueado.
O dedo, o gatilho, um disparo, e ali estava o corpo de Euclides estirado, e sem vida.
Mesmo em frangalhos e atordoado, Leto quer dizer algo para conter a dor dos familiares de Noel. Mas dizer o que quando não se consegue conter nem suas próprias dores? Por isso decide deixar o local do crime, e ir para casa.
 
Nisso chega o subdelegado.
 Olha o corpo de Euclides todo ensanguentado, estirado ao chão.
Ouve o professor chorando e gritando:
- Meu Deus! Tenha pena de mim, uma vez que cometi o maior dos pecados: assassinei o meu próprio irmão. Perdoe-me Senhor, visto que foi em legítima defesa!
O subdelegado vira-se para ele e diz:
-Não seja tão espalhafatoso, professor!
-Eu queimarei no fogo do inferno! - declara Noel.
Totalmente adverso, o velho Napoleão responde:
-Escute uma coisa professor: nós somos assim como os animais; morreu acabou!
Cala-se um instante e em seguida acrescenta:
-Na verdade nós somos inferiores aos animais, uma vez que dos animais se aproveita a carne, e do homem nada pode se aproveitar!
Perplexo com aquilo que acaba de ouvir, o pai de Noel declara:
-Suas palavras assustam subdelegado!
A autoridade máxima do povoado responde:
-Falo a verdade. E muitas vezes a verdade assusta!
Depois de um lapso de tempo, vira-se novamente para Noel e diz:
-Não se preocupe professor. Visto que assassinou o irmão em legítima defesa, desde já está livre da justiça!
 
Após uma madrugada fúnebre na vila dos Cachorros Sentados, nasce um novo dia.
Logo surge o sol exibindo seu clarão avermelhado.
A notícia da morte de Euclides se espalha como fogo em pólvora pelas vielas do povoado.
Cabisbaixo Curandeiro coloca a chave no buraco da fechadura da porta da farmácia, e de repente ouve um grito.
Imediatamente ele vira-se, vê Amaro, marido da Parteira e pergunta:
-Como tem passado meu caro?
Com um olhar terno Amaro responde:
-Muito bem!
Em seguida pergunta:
-Já está sabendo que o professor Noel assassinou o tranca ruas Euclides?
O olhar meigo de Curandeiro enche-se de anomalia.
Com o pensamento longe responde:
-Não!
Cala-se um instante e diz:
-Mais uma desgraça. Quando isso vai parar?
Respira fundo e em seguida pergunta:
-Como aconteceu a tragédia?
-Não sei ao certo, visto que fiquei sabendo por meio de terceiros, - responde Amaro. - Mas na certa a maldita cachaça é a culpada!
Despede-se de Curandeiro, e segue em direção ao garimpo.
 
Logo após ter tomado chimarrão, Floriano senta-se para tomar café, e quase cai da cadeira ao ver seu filho Leto, todo esfolado.
-O quê que aconteceu, filho?
- Foi apenas um tombo. Nada demais!
Diva entra na conversa e diz:
-Você está mentindo, Leto. Na certa você andou brigando, e é evidente que a causa dessa briga, foi àquela mulher que vocês chamam de a Prazerosa. Antônio me contou que você anda dia e noite correndo atrás dela. Isso é coisa de apaixonado!
Leto fica vermelho.
 Deixa o ódio manifestar-se, e após vira-se para a irmã e ordena:
-Cale-se, Diva. Vá cuidar do seu noivinho, e me esqueça. Se eu briguei ou deixei de brigar é problema meu, sua ratazana!
-Ratazana é aquela mulher por quem você está apaixonado, seu toleirão, - retruca Diva.
Floriano interrompe e pergunta:
-É verdade isso que a sua irmã acabou de falar, Leto?
Os outros dois filhos de Floriano, Josemar e Aderaldo, caem na gargalhada.
-Ontem briguei com o Sebastião, filho do seu Expedito!
- declara Leto. - E o motivo da contenda foi ciúme. A verdade é essa: estou apaixonado pela Prazerosa, e pretendo me casar com ela, vocês gostando ou não!
Floriano salta da cadeira, e com rispidez responde:
-Sabe o dia que você casará com aquela desclassificada, filho? No dia de são nunca!
-É só o que me falta, - continua ele -, meu filho jogar o nome de toda a família no lixo, por causa de uma mulher sem vergonha na cara!
-Pois fique sabendo que eu pretendo me casar com ela, sim, - retruca Leto -, e o mais rápido possível!
Irado Floriano responde:
-Desgraçado! Vou lhe avisar de uma coisa: se não deixar aquela desclassificada de lado, sem remorso algum lhe expulsarei dessa casa!
Nisso o açougueiro Farroupilha bate na porta da frente.
Leto aproveita e sai pelos fundos.
-Preciso urgentemente falar com a Prazerosa, - diz ele para consigo.
Com um olhar cansado e enfadonho Floriano propõe:
-Entre, Farroupilha!
-Obrigado, - responde o açougueiro -, estou com um pouco de pressa. Eu fui até a vila dos Cachorros Sentados, saber como aconteceu o assassinato de Euclides!....
-Leto, - interrompe Floriano -, onde está o Leto?
Assombrada de susto Diva responde:
-Ele saiu agora mesmo!
Em seguida pergunta:
-Pai, o senhor não está pensando que o Leto está envolvido nisso?
Diante da aflição do amigo, Farroupilha diz:
-Se acalme Floriano. Quem assassinou o fanfarrão, foi o seu irmão: o professor!
Sentindo uma grande sensação de alívio Floriano declara:
-O amigo não sabe o alívio que suas palavras trouxeram ao meu coração. Por um segundo pensei que o meu filho Leto estava envolvido nesse crime!
O açougueiro interrompe:
-Como pôde pensar uma coisa dessas? Todos sabem que o Leto nunca foi de aberrações. Como poderia ele estar envolvido na morte do fanfarrão Euclides?
Com vagareza Floriano responde:
-Eu tinha motivo para desconfiar, amigo. Meu filho me disse que brigou com o Sebastião, filho de Expedito nessa noite que passou. Pensei que poderia estar mentido. Que ao invés de Sebastião, ele havia brigado com Euclides!
O açougueiro compreende o momento desvairado de Floriano, e com ponderação diz:
-Que momento tenebroso o amigo passou!
Respira fundo e continua:
-Bem! Como estava lhe dizendo, fui até a vila dos Cachorros Sentados para recolher um pouco mais de informações a respeito do assassinato de Euclides. No entanto, quando cheguei lá, a vila estava praticamente vazia, uma vez que já haviam levado o corpo para ser velado na igreja. Por isso resolvi dar uma passadinha aqui, e lhe convidar para irmos junto à igreja!
Floriano esquece a discussão que tivera há pouco com um dos filhos, e gentilmente responde:
- Me aguarde uns minutinhos.  Vou só pegar meu chapéu. Aí então podemos ir!
 
As vielas do vilarejo estão movimentadas.
 Carros, pedestres.
 Os de cima descem.
 Os debaixo sobem.
Todos com um único objetivo: assistir ao velório do tranca ruas Euclides.
Sentado junto à sombra de sua casa Expedito, com todo o cuidado martela os cristais que formam o seu novo touro.
Como de costume o mesmo juntou um cristal aqui, outro ali, e assim formou o touro de seu agrado. Agora é só terminar de martelar os cristais dando uma nova aparência aos mesmos e vendê-los.
Para um instante.
 Remanga as calças cheias de remendos.
 Olha em direção a rua, vê Floriano e o açougueiro aproximar-se dele, e sai correndo esconder-se.
Depois da risota o açougueiro pergunta:
-O amigo viu o Expedito correr?
-Sim, - responde Floriano. - O Expedito mudou do dia para noite. Lembra-se de quando éramos mais moços? Andávamos sempre juntos. De repente de uma hora para a outra, ele se tornou um sujeito estranho. Passou a fugir das pessoas, e só pensar em trabalho e dinheiro!
 Farroupilha diz:
-Tudo isso que o amigo falou é verdade. Expedito se tornou um sujeito obcecado por trabalho e dinheiro!
 
Leto bate na porta da casa de Ernesto.
O velho logo atende.
-Pedreira está em casa?- pergunta o garoto.
-Não. Ele e Bernardinho saíram em direção à gruta!
-Muito obrigado. Vou procurá-los!
E volta em direção a gruta de São Valentim.
-Já passei pela gruta, -  murmura Leto -,  como não os vi? Também, com essa confusão toda na minha cabeça, não é de se estranhar nada!
Entra na viela que leva a gruta, e logo avista Pedreira e Bernardinho sentados em cima da pedra grande, ao lado da cachoeira, e diz para consigo:
-Como é bom rever os amigos!
Aproxima-se dos dois e declara:
-Vocês não imaginam a sensação agradável que é revê-los!
Sisudo Bernardinho responde:
-É claro que podemos imaginar. Podemos assim dizer que é um grande momento de volúpia, para nós três!
Leto faz sinal que sim com a cabeça, vira-se para Antônio e pergunta:
-E você amigo, como tem passado?
-Na medida do possível, bem!
Vê o rosto e os braços do futuro cunhado esfolados e pergunta:
-O que ouve contigo? Andou caindo ou brigando?
-Ontem na parte da noite, briguei com o Sebastião, - responde um tanto receoso.
Bernardinho entra na conversa:
-Que besteira foi essa, Leto? Você sabe muito bem que o Sebastião é um sujeito perigoso, e mesmo assim teve ousadia de desafiá-lo? Você deve estar louco. Só pode ser isso!
Após respirar fundo Leto diz:
-Meus amigos: estou vivendo um momento difícil. Estou apaixonado pela Prazerosa, e foi por causa dela que briguei. Só que agora ela não quer mais saber de mim!
Pedreira olha fixamente à cachoeira, e enfadonho murmura:
-Como essa vida é complicada!
Vira-se para Leto e Bernardinho:
-Que decadência. O amor está sendo impetuoso com vocês. Comigo é a tragédia, que insiste em me perseguir!
Nisso chega o guarda Albino.
Os três garotos lhe cumprimentam.
Em seguida o guarda pergunta:
-Que seriedade é essa estampada em seus rostos, meus jovens?
-Estamos aqui com os nossos problemas, - responde Bernardinho.
-Não diga asneira, Bernardinho, - diz o guarda. - O Antônio tudo bem: está passando por um momento difícil. Agora, você e o Leto, que problemas podem ter?
Ponderado Pedreira declara:
-O problema de ambos é amor não correspondido!
O pensamento do guarda viaja longe, e num tom de advertência benévola ele diz:
-Tomem cuidado com esse sentimento que os jovens chamam de amor; ele é perigoso!
Os três garotos ficam estupefatos com as palavras do guarda.
Passado um tempo Pedreira, sem entender direito o que o guarda falara, murmura:
-Como o amor pode ser um sentimento perigoso? Eu sempre ouvi dizer de que o amor é o maior dos sentimentos?
-O amor, deveras, é o maior dos sentimentos, - responde Albino. - No entanto, aquilo que para vocês é amor, na realidade é paixão, um dos piores sentimentos humanos. Suas reações muitas vezes se tornam perigosas!
- Suas palavras fazem sentido, Albino, - diz Leto. - Ontem há noite, quando vi Prazerosa e Sebastião juntos, senti um estranho frio, e uma dor que jamais havia sentido antes. O ódio me cegou. Quando me dei conta lá estava eu: tentando estrangular o maldito Sebastião. O mais intrigante nisso, é que mesmo sabendo que aquilo era errado, eu fiz, e não me arrependo disso!
-Vou lhes contar uma coisa ao meu respeito, - começa o guarda. - Um belo dia eu conheci a mulher mais bela do mundo! Há! Meu Deus! Como ela era linda. Cabelos loiros cacheados, um olhar tímido e carente. No instante que a vi fiquei apaixonado. Casamos-nos, e eu me tornei um dos homens mais feliz do mundo, até o dia em que não estava me sentindo bem no trabalho, e resolvi ir para casa antes do horário previsto, e peguei a mesma na cama com outro. Tudo escureceu em minha frente. Seu amante fugiu pela janela, e ela ficou ali: sentada na beira da cama, talvez tentando achar uma desculpa para o inexplicável!
Respira fundo e acrescenta:
-Só consigo me lembrar do momento em que peguei uma faca, e da voz de prisão dos policiais. Já algemado eu perguntei: Por que estou sendo preso? Os policiais ficaram perplexos. Um deles me disse: Você é louco mesmo! Depois de ter assassinado a própria esposa com vinte e sete facadas, ainda pergunta por que está sendo preso?
-Até hoje não sei direito quem a matou  - continuou -, se foi eu, ou aquele sentimento de paixão. Só sei que já fui julgado, e condenado. Já cumpri minha pena. Bem, essa é a minha história!
Os garotos ficam assombrados.
Depois de um tempo Bernardinho pergunta:
-Por que nos contou tudo isso, Albino?
-Porque os jovens amigos podem aprender com a minha desgraça!
Vira-se para Leto:
-Principalmente você, Leto, que já demonstra sinais de paixão cega e doentia!
Pensativo Leto responde:
-Prazerosa é uma ratazana, mas eu a amo. Ontem briguei por causa dela. Hoje de manhã discuti com o pai pelo mesmo motivo. Se ela não quiser mais nada comigo, não tenho mais motivo para continuar vivendo?
Lembra-se do que ocorrera na vila dos Cachorros Sentados e diz:
-Peço desculpas aos amigos, uma vez que me esqueci de lhes contar: ontem, na parte da noite, o professor Dedo Duro, assassinou o Euclides com um tiro!
-Agora não é hora para brincadeira, Leto, - responde Pedreira -, eu estou aqui com o coração cheio de aflição, e você vem com essas brincadeiras de péssimo gosto?
Um tanto fastidioso com a admoestação do futuro cunhado Leto diz:
-Olhe bem para minha cara, e vê se eu tenho jeito de quem está brincando?
-É verdade, - interrompe o guarda. - Hoje uns poucos garimpeiros desavisados subiram aos garimpos. Estranhando a ausência dos mesmos, desci ao povoado para conferir o que estava se passando, e assim fiquei sabendo da desgraça!
Os dois garotos desavisados ficam estupefatos.
-Nunca pensei que o Dedo Duro tivesse tanta coragem - murmura Bernardinho -, matou o próprio irmão!
-Coitado do Euclides, - diz Pedreira. - No fundo ele não era uma má pessoa!
Cala-se um instante e em seguida pergunta:
-Como aconteceu mais essa desgraça?
-Parece que o Euclides estava batendo na mulher - responde Leto -, Dedo Duro foi socorrê-la, e o Euclides o atacou com uma faca. O professor não teve escolha: foi obrigado atirar. O assassinato foi em legítima defesa!
-Ontem o Euclides estava tão feliz ao receber o seu quinhão! - declara o guarda -, me causa pena saber que o mesmo está morto!
Em seguida com morosidade os quatro deixam a gruta em direção ao centro do povoado.
O vaivém continua.
 Pessoas entram e saem do recinto sagrado a todo instante.
As linguarudas Lucrécia e Diamantina comandam o fuxico.
-A esposa do arruador deve estar aliviada, - diz a primeira deixando transparecer a antipatia. - Ele era um grande peso para ela!
-Entre a esposa e a cachaça, o fanfarrão sempre preferiu a cachaça, - acrescenta à segunda.
-O pudim de pinga teve aquilo que merecia, - diz uma terceira. - Eu não tenho pena dele. Estou feliz por ela, visto que agora está livre das humilhações, e dos maus tratos!
 
Na parte da tarde, garimpeiros de todos os garimpos do lugarejo abarrotam a igreja para o último adeus a Euclides.
Professor Noel assiste tudo à distância.
 Olha em volta movendo os olhos de raposa velha, e diz para consigo:
-Povo ordinário. Sei que queimarei no fogo do inferno, mas antes vocês sentiram na pele a vingança do Dedo Duro!
 
 
Logo após o enterro os amigos juntam-se na saleta da Boa Freguesia, e a discussão começa girar em torno da morte do fanfarrão.
João Permuta toma a frente:
-No fundo todos sabiam que mais cedo, ou mais tarde Euclides seria assassinado. O que ninguém imaginava é que o autor desse assassinato seria o seu próprio irmão!
Curandeiro, que havia ficado praticamente o dia todo sem proferir uma só palavra a respeito do assunto, um tanto tocado diz:
-São Valentim está cheio de sortilégio. Não são normais duas mortes seguidas, sendo que a última, irmão matou o irmão. Essas anomalias estão sendo produzidas pelos ciganos!
Ao lembrar-se da discussão que tivera logo cedo com o seu filho Leto, Floriano vira-se para Curandeiro e declara:
-Estou começando acreditar em suas palavras, Idelfonso. Depois que os forasteiros chegaram, muitas coisas ruins aconteceram!
Respira fundo e acrescenta:
-Hoje de manhã, por exemplo, meu filho Leto me afrontou coisa que nunca tinha feito antes!
-Eu estou dizendo, - interrompe Curandeiro -, São Valentim está cheio de sortilégios!
O açougueiro, descrente responde:
-Os amigos estão exagerando. Vamos admitir por hipótese: os ciganos são bruxos. Mas que motivo os mesmos teriam para transformar o nosso povoado num campo minado?
Respira fundo e acrescenta:
-Todos sabem que a morte do garoto Zé foi um acidente, e que o velho Tonho foi sem sorte com os filhos. O melhorzinho deles é o professor, e esse.......
-Esse ontem se tornou um assassino, - interrompe João.
Depois de acender um de seus palheiros fétidos, e dar uma tragada, Adão Pezão com o rosto coberto pela fumaça diz:
-É verdade. O veio Tonho foi sem sorte com os filhos. Demétrio e Agostinho vão acabar do mesmo jeito que o Euclides, e depois do que aconteceu ontem, quem sabe o que acontecerá com o professor?
Curandeiro baixa a cabeça e responde:
-Eu continuo afirmando: São Valentim está cheio de sortilégios. Os ciganos são bruxos por natureza. Eles não precisam de motivo para terrificar e jogar um vilarejo inteiro nas garras de satanás!
Um tanto irritado Farroupilha diz:
-Eu discordo disso tudo, amigo Idelfonso!
Vira-se para Ernesto e pergunta:
-Ernesto. O amigo que até esse momento manteve-se calado, nos diga: O que o amigo acha disso tudo?
-Com o Euclides o destino cumpriu o que estava escrito, - responde Ernesto fastidioso. - Já com o meu neto ele cometeu uma grande injustiça, uma vez que Zé era apenas uma criança inocente, que nunca havia feito mal a alguém!
Vê o guarda na porta do armazém e acrescenta:
-Sobre os ciganos? O Albino está chegando. O guarda do meu garimpo é um sujeito viajado. Talvez o mesmo possa nos esclarecer algo a respeito dos forasteiros?
Curandeiro salta da cadeira e exclama:
-Vou-me embora!
E rapidamente retira-se.
Sem compreender a atitude de Curandeiro, o açougueiro pergunta:
-Que bicho mordeu Idelfonso?
-O Curandeiro está irado comigo, - responde Albino. - O mesmo persiste nessa ideia de que todos os ciganos são bruxos, e eu discordo disso. Por esse motivo nós tivemos uma leve discussão. Por isso está irado comigo!
De modo ponderado João pergunta:
-Aquilo que o amigo Idelfonso diz a respeito dos forasteiros, faz algum sentido?
O guarda da uma galhofa e responde:
-Não. Os ciganos são espertos. Se cochilar eles enganam mesmo. O resto é tudo bobagem!
Um pouco envergonhado Floriano declara:
-Como é bom saber disso, Albino. De tanto Curandeiro falar, e depois das coisas ruins que recentemente aconteceram aqui no povoado, eu já estava começando acreditar nas palavras de meu amigo!
O guarda balança a cabeça e responde:
-Os ciganos são seres humanos, assim como nós. A diferença está no jeito de viver. Hoje eles estão aqui, amanhã estão lá. Talvez o mistério em volta deles seja em decorrência desse jeito de vida!
 
Enquanto isso, não muito longe do armazém, Curandeiro, anda de um lado para o outro na saleta da farmácia.
 Olha a foto de sua falecida esposa, e diz para consigo:
-Preciso encontrar um jeito de vingar a morte da minha querida esposa, e urgente!
Como a porta estava entreaberta um garoto entra.
O farmacêutico injuriado pergunta:
-O que você quer?
Timidamente o garoto responde:
-Um litro de álcool!
Curandeiro sobe em cima de um pequeno banquinho, pega o recipiente com álcool, e quando se prepara para descer, derruba-o ao chão. 
A embalagem plástica parte-se ao meio e o líquido instantaneamente esparrama-se.
Irritado o dono da farmácia murmura:
-Maldição. Só de raiva devia acender um palito de fósforo, e jogar em cima dessa merda, só para ouvir o estouro!
Dá um grito:
-É isso! Gasolina neles!
O garoto assusta-se, e pula para trás.
Após a rinchavelhada, Curandeiro já com o braço estendido para entregar ao garoto outro recipiente com álcool, diz:
-Calma, minha criança. Aqui está o álcool!
Com uma das mãos o jovem freguês pega o recipiente, e com a outra entrega o dinheiro todo dobrado e amassado.
Depois de recusar o dinheiro Curandeiro sugere:
-Pegue esse dinheiro, vai ao armazém aqui do lado, e gaste-o em balas, porque hoje o álcool é gratuito!
Os olhos do garoto começam brilhar de felicidade.
Sem delongas ele agradece, e com um belo sorriso estampado no rosto, deixa a farmácia.
 
Ao contrário de Pedreira, que recebe de sua noiva Diva, carinho, beijos e abraços, Leto e Bernardinho é só ansiedade.
Na esperança de que Luana lhe veja, Bernardinho faz um enorme vaivém em frente à casa do açougueiro.
Como a mesma não sai à porta resolve chegar, e aperta a campainha.
Imediatamente Luana sai à porta e pergunta:
-O quê que você quer Bernardinho?
-Precisamos conversar, - diz ele.
Com aspereza a filha do açougueiro responde:
-Não temos mais nada para conversar!
E bate a porta na cara dele, que torna apertar a campainha.
Irritada Luana abre novamente a porta.
-Como assim, não temos mais nada para conversar? - pergunta Bernardinho. - Se tudo acabou entre nós, eu quero saber o porquê deste fim?
-É muita cara de pau, - responde ela -, apronta, e depois se faz de desentendido. É muita cara de.....
-Se vai usar como desculpa aquela história que o professor Dedo Duro inventou, para terminar nosso namoro, - interrompe o mesmo -, não perca o seu tempo. Eu quero respostas claras!
-Por que o professor inventaria que você andou saindo com aquela ratazana?
-Porque ele é apaixonado por você, Luana, e quer me ver bem longe do seu caminho!
Surpresa a filha do açougueiro diz:
-Você só pode estar brincando comigo. Essa é boa. Invente outra história, porque essa não colou Bernardinho!
-Se você não acredita em mim, pergunte a Diva ou ao Leto!
Em seguida tenta beijá-la.
-Olhe a pressa, Bernardinho. Se o que disse for verdade, eu lhe darei uma segunda chance. Contudo, até eu tirar essa história a limpo, fique bem longe de mim!
As palavras de Luana dão novo alento ao rapagão, que deixa a casa do açougueiro sorridente, e com a certeza da reconquista.
 
Enquanto isso no outro lado do povoado, Prazerosa chega à velha tapera.
Imediatamente Leto aproxima-se dela e pergunta:
-Ainda está magoada comigo?
A ratazana lança um olhar de desdém e murmura:
-Não acredito que está novamente aqui. Meu Deus do céu: tire esse carrapato do meu pé!
-Não é possível que já não se lembre de tudo aquilo que aconteceu entre nós?
-O que aconteceu entre nós foi só sexo, e nada mais. Agora vai embora, garoto, uma vez que não tenho tempo para ouvir confissões de amor!
O garoto enche-se de coragem e responde:
-Vai embora você, mulher desgraçada. Essa propriedade que você transformou em motel, pertence ao Antônio. Por isso me sinto no direito de expulsá-la daqui!
Já saindo, Prazerosa, irada diz:
-Com muito prazer, garotinho mimado!
 
Já passa da meia-noite.
 Curandeiro fecha a porta da farmácia, e sorridente sai em direção ao campo de futebol, levando consigo, um galão de gasolina.
O silêncio é o seu fiel companheiro.
Depois de abrir e fechar o portão que dá acesso ao campo murmura:
-Descobri uma maneira de tornar impossível a vida desses forasteiros aqui em São Valentim!
Vê as inúmeras barracas armadas junto aos pés de guabiroba. Apressa o passo. Aproxima-se do local, derrama gasolina nas primeiras três barracas, acende os fósforos, e joga-os.
Quando se prepara para derramar gasolina na quarta barraca, os forasteiros lhe cercam. Começa uma sessão de pontapés, e pauladas.
Curandeiro rola para um lado e para o outro, mas não consegue esquivar-se.
Todos: ciganos e ciganas tentam deixar suas marcas na pele do farmacêutico, que não vê outra saída, a não ser gritar por socorro.
O chefe do bando grita:
-Basta esse sujeito já teve aquilo que merecia!
Respira fundo e acrescenta:
-Enquanto desarmamos as barracas, quatro de vocês joguem esse néscio lá no centro do lugarejo!
 
Amanhece o dia. Como de costumo Tito vai até a sala da Boa Freguesia, abre a porta, e fica assombrado de susto ao ver Curandeiro estirado a junto a soleira da porta.
-Meu Deus do céu, - murmura -, o que fizeram com o meu bom amigo Idelfonso?
Em frangalhos Curandeiro abre os olhos e pergunta:
-Consegui concluir minha vingança?
Apavorado o dono do armazém responde:
- O bom amigo conseguiu!
Cala-se um instante e diz:
-Aguarde uns minutinhos até eu ir pegar o carro para levar o bom amigo ao hospital!
A caminho do hospital Curandeiro, gemendo de dor, insiste em perguntar:
-Consegui concluir minha vingança? Eu consegui ferir os ciganos?
-O amigo conseguiu, - responde Tito.
 
Rapidamente a tarde chega. A sala da Boa Freguesia está praticamente abarrotada, e a todo instante chega mais e mais gente, querendo saber o que acontecera com Curandeiro.
Entre um gole e outro de vinho, Pezão murmura:
-O disparate de Idelfonso saiu barato: somente dois fios de costelas quebrados?
Logo após a risota debochada o açougueiro diz:
-No meio dessa loucura toda, ele conseguiu um grande feito: expulsou os ciganos do nosso povoado!
-O estado em que eu o encontrei era assustador! - declara Tito -, graças a Deus tudo não passou de um susto!
De um jeito meigo João Permuta pergunta:
-Pra quando está previsto a alta dele?
-Quando é amanhã, ou depois ele estará junto de nós, -  responde o dono da venda.
 
Uma semana depois da morte de Euclides, subdelegado Napoleão manda chamar o professor Noel e Sebastião.
Imediatamente os dois foram ter com a autoridade máxima do povoado.
-Sentem-se, - sugere o subdelegado.
Vira-se para a esposa e ordena:
-Mulher! Traga-nos um pouco de vinho e café, depois pode se retirar!
Desconfiado das intenções dá autoridade, Noel pergunta:
-O que o subdelegado quer de nós?
Após uma gargalhada destemperada, o velho Napoleão responde:
-Nada de mais! Será que um simples ser humano como eu, não tem o direito de saber como os amigos estão passando?
Logo depois da galhofa Noel declara:
-Se é isso que o subdelegado quer saber, eu estou péssimo, e continuarei assim, até o dia em que esse povo sem préstimos sentir a força e a fúria do Dedo Duro!
O subdelegado bebe um gole de vinho, coloca fumo no cachimbo, e em seguida pergunta:
-Por que não veio lecionar essa semana, professor?
-Pedi demissão, por....
-Isso não é bom, professor, - interrompe o velho -, nada bom!
-Tenho outros planos para o futuro! - declara Noel com convicção.
Completamente envolvido pela curiosidade o subdelegado pergunta:
-Posso saber que planos são esses?
-É claro que sim, subdelegado, - responde ele. - Eu pretendo criar uma seita religiosa, uma vez que dizem dar muito dinheiro!
A autoridade cai na gargalhada, e depois de um tempo murmura:
-Essa é boa: uma seita religiosa aqui em São Valentim. Não, não! Só o amigo professor para pensar um disparate desses!
Respira fundo e continua:
-Bem! Eu mandei chamar os amigos por dois motivos: o primeiro os caros já sabem; saber como estavam passando. E o segundo é uma proposta de negócio, que....
-Que negócio é esse? - interrompe Sebastião mais que de pressa.
O velho derrama mais vinho no copo, bebe um gole, e começa:
-Durante muito tempo andei procurando um jeito mais fácil de ganhar dinheiro. No início o plano era roubar massas e pequenos bojos. Só que para isso eu precisaria de bons cortadores de laje. Por isso descartei essa possibilidade. Recentemente, meio sem querer, eu fiquei sabendo do valor que tem os martelos de compressores.....
-Claro, os martelos, - interrompe novamente Sebastião -, além de ótimo valor, são fácil, fácil de roubá-los. Como nunca havia pensado nisso?
-Em que parte desse plano, Sebastião e eu entramos? -  pergunta o professor.
-É muito simples, professor, -  responde o velho Napoleão. - Os amigos se encarregam de me trazer os martelos, e eu de vendê-los. Os lucros nós três dividiremos em partes iguais. Quanto aos outros integrantes do grupo, esses receberam uma pequena porcentagem, e...
-Dê qual grupo o subdelegado está falando? - interrompe Noel. - E isso não é perigoso demais?
-Ora! Eu estou falando do grupo de pessoas que nós agruparemos, - responde o velho. - E quanto ao segundo questionamento, eu sou a autoridade máxima aqui do lugarejo. Por isso tenho condições de dar total segurança ao grupo!
-Certamente os meus irmãos entraram na jogada, -  assegura Sebastião.
-Meu filho também, - diz o velho gambá.
Vira-se para Noel:
-Será que Demétrio e Agostinho topam essa parada, professor?
Noel balança a cabeça e responde:
-Não sei. Preciso falar com eles!
-Pois trate de fazer isso o mais rápido possível, professor, - diz o subdelegado. - Aqui no povoado, o único garimpo que tem guarda é aquele do Ernesto. Por isso deixaremos esse de fora!
Depois de uma gargalhada Sebastião diz:
-Vamos efetuar o nosso primeiro roubo, no garimpo de meu pai. Só quero ver a cara daquele velho avarento!
-O amigo é quem manda, - responde Napoleão -, se você quer começar pelo garimpo de seu pai, por mim tudo bem!
Noel fica em pé, respira fundo e declara:
-Bem! Vou tentar convencer meus irmãos a se juntarem a nós!
- Faça isso, professor, - responde o velho -, faça isso!
Em seguida Sebastião e Noel deixam a casa do subdelegado.
O professor pensativo pergunta:
-O que achou da ideia do sarcástico velho Napoleão?
-A ideia do subdelegado é fantástica, professor, - responde Sebastião. - É até um pouco difícil acreditar que tenha saída daquela cabeça amortecida pelo vinho? Pensava eu que aquele velho ordinário só soubesse usar uma arma!
 
Na lojinha de João Permuta, Curandeiro, ainda com partes do corpo doloridas declara:
-Teve um momento que cheguei a pensar que era o meu fim!
Com todo o seu bom senso João responde:
-Depois dessa, vamos ver se o amigo coloca a cabeça no lugar!
Após um lapso de tempo acrescenta:
-Procure viver o presente, e não o passado!
Curandeiro vai até a porta e declara:
-O presente é continuação do passado. Portanto eu não posso esquecer minha falecida esposa, nem o mal que os ciganos fizeram a ela!
-Amigo, - diz João -, o passado é uma verdade que se transformou em mentira!
Curandeiro nada responde.
 
Acaba mais um dia de trabalho.
Com morosidade Pedreira desce do garimpo.
Ofegante sua noiva Diva corre ao seu encontro.
Depois do abraço e do beijo a mesma diz:
-O pai quer falar urgentemente com você, Antônio!
De um jeito terno ele pergunta:
-Surgiu algum problema?
-O Leto é o problema!
-Não vai me dizer que o mesmo e Sebastião tornaram a brigar?
-Não, - responde Diva. - Lá em casa você saberá o quê que anda se passando com o Leto!
 
Na grande casa amarela, no outro lado do povoado, Floriano, meio tresloucado anda de um lado para o outro, e murmura:
-Nunca pensei que um dia isso pudesse acontecer: um filho meu apaixonado por uma discípula de Madalena!
Nisso chega Diva e Pedreira.
De imediato Floriano diz:
-Graças a Deus vocês chegaram!
-O que aconteceu com o Leto? - pergunta Pedreira.
-Depois da discussão que tivemos recentemente, ele se mudou lá para a velha tapera, - responde Floriano. - Eu já tentei trazê-lo várias vezes, mas todas as tentativas foram em vão. Aquela mulher, discípula de Madalena virou completamente a cabeça de meu filho. Por isso mandei lhe chamar. Talvez você tenha mais êxito do que eu!
-É bem como o guarda Albino falou, - diz o garoto -, a paixão é um sentimento perigoso. Se Leto não estivesse apaixonado pela Prazerosa, nada disso teria acontecido e...
-O que você falou Antônio? - interrompe Diva.
-Nada não, Diva, - responde ele um tanto assustado.
Vira-se para o seu futuro sogro:
-Temos que ter paciência com o Leto, uma vez que está sofrendo muito com a rejeição de Prazerosa. O problema todo é com ela que não quer mais saber dele, e não com o senhor!
Enfurecido Floriano diz:
-Quem aquela cadela pensa que é para tratar o meu filho como um vulgacho? Aquela cachorra é pior que uma prostituta, visto que uma prostituta cobra para ter relações com os homens, e essa tal de Prazerosa transa com os homens de graça!
Respira fundo e continua:
-Ignorância a minha: preocupado com a moral da família, quando deveria estar pensando no bem-estar do meu filho. Até posso imaginar o quanto ele está sofrendo!
O jovem olha com carinho para Floriano e informa:
-Agora mesmo, vou ter com Leto, lá na velha tapera, e assim ficaremos sabendo como o mesmo está!
-Vou junto contigo, Antônio, - diz Diva.
- Não, Diva, - responde Pedreira -,  é melhor eu ir sozinho!
E sai às pressas.
A caminho da velha tapera diz para consigo:
-Albino sabe das coisas. Tudo que o guarda falou é verdade!
Avista a velha casa, e Leto sentado na soleira da porta.
Aproxima-se dele e declara:
-O teu estado é deplorável, Leto!
-Se está aqui para encher o meu saco, - responde Leto -,pode voltar!
-Não é nada disso. Só estou aqui para lhe ver!
-Agora que já me viu, pode voltar!
Estupefato com agressividade do futuro cunhado Pedreira responde:
-Qual é o motivo de toda essa agressividade, Leto? Eu estou aqui para conversar e tentar ajudar um amigo!
Consciente do erro que havia cometido, Leto olha firme nos olhos de Pedreira e responde:
-Me desculpe, eu estou um pouco nervoso!
-Um pouco; você está com os nervos à flor da pele!
Em seguida pergunta:
-Como vão as coisas com a Prazerosa?
-Ela está cortando voltas para não se encontrar e falar comigo, - responde Leto com a cabeça baixa.
-Se você continuar, assim como está, é óbvio que ela vai cortar voltas para não encontrá-lo, - diz Pedreira. - É bom você dar um novo alento nesse corpo, e partir para luta. Se jogar na sarjeta não é a melhor opção!
-Eu amo a Prazerosa! - declara Leto. - Meu Deus! Como eu a amo!
-Você tem que voltar para casa, Leto. Nas condições em que está vivendo, você não aguentará por muito tempo!
Leto olha em direção à rua, vê Prazerosa passando e responde:
-Não precisa se preocupar comigo; estou bem aqui!
Inconformado com a resposta dele, Pedreira diz:
-Leto, você quer que a Prazerosa tenha pena de ti. É isso que você quer, não é mesmo? Pois fique sabendo que eu acho essa atitude completamente errônea!
Depois de uma breve pausa sugere:
-Vá para casa, tome um bom banho, coloque uma roupa decente, e vá a luta. Ficar se humilhando não resolve nada!
-Me deixe em paz, Pedreira, - responde ele cabisbaixo.
-Se é isso que você quer tudo bem, - diz Pedreira -, eu vou-me embora, e lhe deixarei em paz. Porém, mais tarde voltarei com roupas e comida para você!
-Não estou precisando de nada!
Só que as suas palavras não foram ouvidas, uma vez que Pedreira já estava longe.
O céu estrelado. O ventinho aconchegante. Nada, nada chama a atenção de Leto.
 Na sua cabeça existe um só pensamento: reconquistar Prazerosa a qualquer preço. No entanto, a cada dia isso se torna mais difícil.
 
Com o coração cheio de angústia Floriano recebe Pedreira na porta e pergunta:
-Então, Antônio, como foi sua conversa com o Leto?
-Não tem jeito. No momento ele não pretende voltar para casa!
-Leto está fazendo isso somente para me magoar, - murmura Floriano.
-Não é nada disso, seu Floriano, - responde o garoto -, é só esperarmos a febre chamada Prazerosa passar, que tudo voltará ao normal!
Vira-se para Diva:
-Precisamos levar roupas e comidas para ele!
Uma vez providenciado o que tinha pedido Pedreira e Diva partem em direção a velha tapera.
Ao vê-los já distante Floriano murmura:
-Só espero que essa febre chamada Prazerosa, passe logo, para que assim eu possa ter o meu filho de volta!
 
Ao contrário de Leto, Bernardinho deixa a casa do açougueiro dominado pela volúpia, uma vez que Luana lhe aceitara de volta.
Sorridente diz para consigo mesmo:
-Luana é um tanto complicada, mas me faz feliz. Pouco importa a sua tendência a crueldade. Sei que futuramente ela fará às vezes da Parteira em matéria de crueldade para com marido, que no caso serei eu, mas isso pouco importa. Suportarei as consequências com muito prazer!
 
A noite passa como um relâmpago, e o dia vêm dar a boas-vindas aos garimpeiros, que apressados sobem aos garimpos.
Ainda sorridente Bernardinho vai até onde está Pedreira e o guarda Albino.
-Não diga nada, Bernardinho, - diz o guarda -, me deixe adivinhar: conseguiu reconquistar a filha do açougueiro, não é mesmo?
-É isso mesmo, Albino, - responde o rapagão. - Agora só está faltando eu encontrar um bom bojo para completar esse grande momento!
Pedreira deixa de lado a minúcia e diz:
-Nós precisamos ajudar o Leto. A rejeição de Prazerosa deixou-o um tanto tresloucado!
-A coisa é mais séria do que pensei! - declara o guarda.
Vira-se para Pedreira e pergunta:
-O que ele aprontou dessa vez?
-O mesmo saiu de casa, e está vivendo em condições precárias lá na velha tapera, onde eu vivi com meus pais!
Estupefato Bernardinho declara:
-Nunca pensei que Leto fosse assim, tão fraco. Se jogar na sarjeta por causa de uma mulher que satisfaz todo mundo, e ainda de graça?
-Você tem razão, Antônio, - diz o guarda -, precisamos ajudar o Leto, e urgente!
Já saindo informa:
-Vou fechar a porta do acampamento, e depois podemos ir até ele!
 
Prazerosa desce em direção ao centro do povoado.
No primeiro riacho Leto lhe ataca:
-Ainda está zangada comigo?
Logo após a cara de nojo a mesma responde:
-O que você acha garoto?
Baixa a cabeça e exclama:
-Já não sei mais o que fazer para você largar do meu pé!
O garoto olha firme em seus olhos e responde:
-É simples: é só aceitar se casar comigo, que eu largo do seu pé!
Já saindo do normal Prazerosa pergunta:
-Me diga garoto: que futuro teria eu ao seu lado, uma...?
-Se aceitar se casar comigo, - interrompe ele -,farei de você uma rainha!
-Olhe para você, garoto, - responde a mesma. - Você mais parece um maltrapilho. Primeiro se torne gente, para só então pensar em se casar!
E pisando nas pontas das pedras quase encobertas pelas águas, atravessa o primeiro riacho.
Com a intenção de segui-la, Leto também atravessa o riacho, vê o guarda, mais Pedreira e Bernardinho descendo a estreita viela, que segue junto à costa do primeiro riacho, e para.
Antes mesmo de cumprimentá-lo Pedreira pergunta:
-O que você fez com as roupas que Diva e eu lhe trouxemos ontem?
Leto baixa a cabeça, e nada diz.
De um jeito terno o guarda declara:
-O teu estado não é dos melhores, meu jovem amigo. Se você quer reconquistar o seu grande amor, acho bom se erguer novamente, e o mais rápido possível!
-No momento Prazerosa não quer nada comigo, - responde Leto -, mas de tanto eu apoquentá-la, ela vai acabar querendo: isso vai!
Com sensatez Bernardinho diz:
-Sei que é um tanto desagradável dizer o que vou lhe dizer Leto, mas é preciso: se você quer reconquistar Prazerosa vá para casa, tome um banho, tire essa barba suja, coloque uma roupa decente, e parte para luta. Assim do jeito que está, nunca você conseguirá reconquistá-la!
O ódio manifesta-se no olhar de Leto, que se vira para Bernardinho e responde:
-Quem é você para falar, Bernardinho? Pois você anda implorando de joelhos para Luana lhe aceitar novamente, e ainda se acha no direito de me dar conselho?
-É, mas eu não me atirei na sarjeta, - retruca Bernardinho -, e para sua informação, as coisas entre Luana e eu voltaram às boas!
O guarda bate no ombro de Leto e diz:
-O jovem amigo tem que se valorizar. O que você está fazendo com você mesmo se chama covardia!
Totalmente adverso à realidade Leto murmura:
-Grandes amigos eu tenho. Ao invés de tentarem me ajudar, querem mais é me ver no fundo do poço!
Atravessa novamente o riacho, e apressado começa subir a ladeira em direção à velha tapera.
-Espere Leto, - grita Bernardinho -, nós....
-O deixe ir, Bernardinho, - interrompe o guarda. - Talvez seja melhor assim. Vamos voltar ao garimpo!
Pedreira vira-se para o guarda e declara:
-Não compreendi a sua atitude, Albino!
-No final da tarde retornaremos para conversar com ele, - responde o guarda. - Nós estamos tratando-o com indiferença, quando na verdade ele continua sendo o mesmo. A única coisa que mudou, foi o seu jeito de viver!
-O senhor tem razão, - concorda Bernardinho -, morar na velha tapera foi opção dele, e por isso devemos respeitar. No momento em que ele achar que deve voltar para casa ele voltará!
-É isso mesmo, - responde o guarda.
 
Aos poucos o sol retira-se.
 Os garimpeiros deixam as brocas, e começam desfilar na rua principal.
Uns trazem estampados em seus rostos a decepção de mais um dia de trabalho perdido.
Outros já trazem um belo sorriso: é sinal que ganharam o dia, talvez a semana, e talvez o sustento de dois, três meses.
O cheiro de pólvora queimada, que no final da longa jornada de trabalho sempre acompanha os garimpeiros, sufoca o perfume das flores, que deixam ainda mais bela a igreja de São Valentim.
 
Enquanto o guarda, Bernardinho e Pedreira vão em direção a tapera, na casa do venenífero subdelegado, o professor Noel e Sebastião discutem com a autoridade do povoado os últimos detalhes dos roubos que pretendem cometer logo mais.
Sebastião enche-se de parvoíce e diz:
-Já comprei a tinta para deixarmos a nossa marca, para...
-Isso é tolice, Sebastião, - interrompe o velho Napoleão-, o que queremos é dinheiro, não fama!
-Falou bem, subdelegado, - responde o professor com ar de rir.
Olha em direção a rua:
-Bem! Então fica combinado: depois da meia-noite subiremos aos garimpos!
 
Enquanto isso na tapera, o guarda coloca carne em cima de uma tábua velha e começa salgá-la.
Mais no canto, sentado em um banquinho feito a facão, Pedreira tira a casca de duas varas verdes, para usá-las como espeto.
Bernardinho e Leto sentados na soleira da porta observam o fogo destruir a madeira seca que aos poucos vão tornando-se brasas: nelas serão assada a carne que o guarda acabara de salgar.
Pedreira vira-se para os dois, e sorridente diz:
-Seria bom se um de vocês nos servisse. O vinho, e as taças estão dentro dessa caixa de papelão, aí perto de vocês. Só tome cuidado elas são da vó!
Imediatamente Bernardinho abre a caixa, pega as taças, e poucos minutos depois, os quatro passam a beber o vinho que o guarda trouxera.
Após esvaziar a segunda taça, Pedreira, já um tanto faceiro, olha o céu estrelado, respira fundo e diz:
- Esse momento é digno de ficar na memória!
O guarda da um sorriso plangente e responde:
-É verdade. Deus queira que esse momento não seja o último!
Leto que ficara o tempo todo sem dizer uma só palavra declara:
-É muito bom estarmos aqui. E tudo que é bom Deus quer.  Portanto viveremos outros momentos iguais a esses!
-Sábias palavras, Leto, - responde o guarda.
-Então vamos brindar esse digno de ficar na memória, - diz Bernardinho.
A cada gole de vinho o pensamento de Leto desprende-se mais de Prazerosa.
Já bem próximo da embriagues total declara:
-Me alegra muito estar junto de vocês, meus...
-E o vinho muito mais, - interrompe Bernardinho.
Já demonstrando ares de rir Leto responde:
-O amigo tem razão. Aos pouquinhos o vinho trás a volúpia!
Bebe mais um gole e acrescenta:
-Abençoado vinho!
Sorridente Pedreira afirma:
-Você não está parecendo o mesmo de duas, três horas atrás, Leto!
Cala-se um instante e acrescenta com uma piscadela maliciosa:
-Tudo indica que entre um gole e outro de vinho, a imagem da Prazerosa se dissolveu!
Com a visão já um tanto embaralhada Leto pergunta:
-Falando em Prazerosa: digam-me, meus amigos, o que eu faço para tê-la de volta?
Bernardinho e Pedreira olham para o guarda, que meio dúbio responde:
-Não sei o que lhe dizer Leto. Talvez o jovem amigo deva tentar outra tática!
-Que tática seria essa?
-Sei lá, - começa o guarda. - Existem mulheres que adoram homens amáveis, outras não. Eu só conheço a tal Prazerosa de vista. O jovem amigo que a conhece bem deve saber o jeito de homem que ela gosta?
Depois de pensar um pouco Leto responde:
-Ela não gosta de homens amáveis!
-Então não seja amável com ela, - propõe Bernardinho.
-Amo demais aquela mulher. Por isso sempre serei amável com ela!
De um jeito terno o guarda informa:
-A carne já está assada. Vamos deixar esse assunto para depois, e comê-la antes que esfrie!
Imediatamente os quatro passam a comer.
 
É meia-noite. Praticamente todo o povoado dorme.
Professor Noel, Demétrio, Agostinho e Lesma, juntam-se ao Sebastião e seus irmãos, e rapidamente sobem em direção aos garimpos.
O bando só deixa de fora o garimpo de Ernesto. Os demais em pouco tempo foram, visitados.
Já de volta ao centro do povoado, Noel sorridente ao velho Napoleão informa:
-Tivemos bom êxito em nossa missão, seu Napoleão!
A autoridade da uma galhofa e responde:
-Isso é bom, professor. Muito bom!
Respira fundo e em seguida ordena:
-Coloquem a mercadoria lá no galpão, junto com o fumo!
Vira-se para Noel:
-Na parte da tarde conversaremos professor!
Depois de feito aquilo que o subdelegado mandara, os integrantes do grupo se separam.
 
No outro lado do povoado, o guarda, o mais sóbrio, vira-se para Bernardinho e Leto:
-Bem! Está na hora de debandarmos!
Com a língua enrolada Leto diz:
-Fiquem um pouco mais, meus bons amigos!
Depois da gargalhada Bernardinho responde:
-Para o amigo que não irá trabalhar logo mais, até pode ser cedo. Agora, para mim já é tarde demais!
-É verdade, - concorda Pedreira mostrando, certo cansaço, - não vai demorar em amanhecer!
Logo em seguida, ele, mais o guarda e Bernardinho deixam a velha tapera.
Ao invés de entrarem na vila dos Cachorros Sentados, os três preferem pegar a viela a esquerda, que saí na gruta de São Valentim.
Parado no último degrau da escada da casa, onde mora com seus pais e irmãos, Demétrio vê os três subindo a viela, vira-se para o professor, e apontando com o dedo pergunta:
-Um daqueles subindo lá, não é o guarda do garimpo do Ernesto, Noel?
O professor coloca as mãos na cabeça e responde:
-Maldição! Pois não é que é ele mesmo? Poderíamos ter visitado o garimpo de velho Ernesto sem problema algum. Isso é o que eu chamo de azar. Que chance perdemos. Oportunidade igual a essa só aparece uma vez!
Demétrio bate no ombro do irmão e diz:
-Deixe isso pra lá, irmão. Vamos dormir que nós ganhamos muito mais do que ficar aqui lastimando!
O professor concorda, e os dois entram e fecham a porta.
 
São oito horas. Enquanto os garimpeiros, no garimpo de Ernesto, começam mais um dia de trabalho, nos outros garimpos tudo continua parado.
Os garimpeiros assombrados de espanto perguntam-se:
-Cadê os martelos dos compressores? O que foi feito deles? Será que foram roubados? Como vamos trabalhar sem os compressores?
Perguntas, perguntas, e nada de respostas.
 
Expedito coloca na boca um pedaço de pão seco.
Mastiga-o, bebe um gole de café, que mais parece água suja, e para a esposa diz:
-A crise está braba, mulher. Você tem que aprender a economizar. Por exemplo, esse café está muito forte; você pode colocar mais água. Ao invés de fazer pão misturado, de hoje em diante faça-o, somente com farinha de milho: saí mais barato!
A velha baixou a cabeça e nada disse.
Nisso um jovem garimpeiro bate em sua porta.
O velho ranzinza atende:
-Pois não?
-Eu só estou aqui para saber o que foi feito dos martelos dos compressores!
O velho da um pulo para trás e pergunta:
-Como assim? Os martelos não estão lá nos compressores?
-Não, - responde o jovem. - Pensamos que talvez o senhor tivesse feiro alguma coisa com eles?
Pálido, e com as mãos trêmulas, Expedito vira-se para o jovem:
-Não acredito no que está me dizendo!
Calça suas botas de borracha. Pega o chapéu de palha, e acompanha o jovem até ao garimpo.
Ao ver os compressores sem os martelos, o mesmo fica desesperado.
Com pena de si mesmo murmura:
-Eu não acredito. Economizei tanto para comprar esses martelos, e agora vem um filho da puta qualquer e rouba-os!
Vira-se para os garimpeiros:
-Alguém vai ter que se responsabilizar pelo prejuízo, uma vez que eu não posso perder dinheiro!
Amaro, marido da Parteira, olha firme em seus olhos e diz:
-A solução é ir registrar uma queixa ao subdelegado!
-É isso mesmo o que vou fazer, - responde o velho sovina. - O filho da puta que me roubou, vai pagar caro pelo que fez!
E rapidamente deixa o garimpo.
 
De volta ao centro do povoado, encontra-se com Floriano, e gaguejando diz:
-Floriano, aconteceu uma grande desgraça comigo. Pois não é que....
-Não vai me dizer que também roubaram os martelos de seus compressores? - interrompe Floriano com cara de poucos amigos.
-Foi isso mesmo, - responde Expedito. - Como comprarei outros martelos, sendo eu um pobre sem dinheiro?
A vontade de Floriano era chamá-lo de velho sovina, visto que tinha dinheiro que não acabava mais e vivia chorando. No entanto limitou-se a dizer:
-Precisamos falar com os outros donos de garimpos, e depois irmos até o subdelegado!
Expedito fez final que sim com a cabeça, e pouco tempo depois, os grandes e pequenos donos de garimpos, vão ter com o subdelegado, que ao vê-los pergunta:
-O que posso fazer por vocês, meus bons cidadãos?
-Estamos aqui para registrar uma queixa, - responde Floriano. - Nesta noite que passou roubaram todos os martelos dos compressores de nossos garimpos. Só se salvaram os do garimpo do Ernesto!
Venenífero como sempre, o velho Napoleão lança um falso olhar de abismado, vira-se para Ernesto e diz:
-Estranho os ladrões deixarem de fora o seu garimpo?
-O que o subdelegado está insinuando? Que eu tenho algo a ver com os roubos?
Com ar de rir Napoleão responde:
-Não é nada disso, Ernesto. Eu me expressei mal. O que quis dizer, é que os ladrões sabiam que em seu garimpo havia guarda. Por isso deixaram-no de fora!
A ansiedade toma conta de Expedito, e com o pensamento fixo em seus martelos diz:
-Nós queremos saber o que o subdelegado vai fazer a respeito dos roubos. Eu quero os meus martelos de volta, e punição ao patife que os roubou!
O peçonhento subdelegado olha em volta, movendo os olhos lentamente, e informa:
-Calma meus bons cidadãos. Eu vou resolver esse problema, começando as investigações agora mesmo!
Depois de um lapso de tempo pergunta:
-Os nobres cidadãos têm algum suspeito?
Todos os donos de garimpos responderam que não.
-Isso não é bom, cidadãos, - diz o velho. - Sem suspeitos as coisas se complicam. Agora podem ter a certeza de que farei o possível e até mesmo o impossível para resolver esse caso!
 
É perto do meio-dia. A caminho de casa Expedito com uma mão segura o velho chapéu de palha. Com a outra ajeita as farripas de cabelos, masca fumo, e enfadonho murmura:
-Meu Deus, meu Deus! Que o porcaria do subdelegado encontre o ladrão patife, e recupere o que é meu, uma vez que será muito difícil para mim, ser obrigado a mexer em minhas ricas economias para comprar novos martelos!
 
Logo após o almoço o subdelegado faz uma rápida visita aos garimpos, não para encontrar pistas, mas sim para escondê-las, e pouco tempo depois retorna ao centro do povoado, senta-se na sacada de sua casa, da uma gargalhada estrepitosa, vira-se para a esposa e ordena:
-Me traga um pouco de vinho, mulher. Hoje tenho bons motivos para comemorar, visto que obtive uma grande vitória!
Rapidamente a velha lhe trás o vinho.
O velho olha nos olhos dela e pergunta:
-Você viu a cara dos mentecaptos, mulher? Pareciam crianças implorando por ajuda. Principalmente o come unha Expedito. Esse só faltou chorar!
 
Depois de um longo tempo de enrolação por parte do subdelegado, os donos de garimpos se conformaram com a perda dos martelos, e compraram outros: inclusive o sovina Expedito.
O mesmo chorou, chorou, mas não teve outro jeito: obrigou-se a comprar novos martelos para não mais perder dinheiro, assim como perdera durante o tempo em que relutou para comprá-los, e impossibilitou os garimpeiros de trabalharem em seu garimpo, ficando assim sem as suas comissões.
 
Professor Noel e seu bando continuam a série de roubos na região. Nos garimpos dos povoados Salto Velho, Saltinho, Linha Alta, e São José, o pequeno bando obtém grandes êxitos.
 De quebra o grupo ainda provoca o início de um infarto em Expedito, que ignorando o adágio de que o barato saí caro, não quis colocar guarda em seu garimpo, e sabendo disso o professor e seus comandados, tornaram a roubar os martelos de seus compressores.
 
Ao contrário de Expedito, Floriano, com medo de novos roubos, tirou negrinho Bira, guarda de seu garimpo no Salto Velho, e colocou-o no de São Valentim, e assim facilitou, e muito a vida do bando, que não encontrou obstáculo algum para roubar os seus martelos quando por lá passaram.
 
E assim o outono acaba, e o inverno chega, trazendo consigo a geada, que sem cerimônia, vai estendendo um imenso lençol branco sobre o pouco verde que ainda resta.
Os fogões a lenha voltam as suas atividades.
Praticamente em todas as moradias, se vê fumaça saindo das chaminés.
Já não se vê mais crianças correndo ao redor da igreja, na maior algazarra.
Quem passa em frente à casa do subdelegado Napoleão, estranha não mais vê-lo sentado na sacada, bebendo vinho, e fumando cachimbo.
O frio rigoroso faz com que poucas pessoas se animem a deixar suas casas.
Nas ruas só se vê movimento ao amanhecer, e ao entardecer, horas em que os garimpeiros vão e voltam dos garimpos.
 
Na velha tapera, Leto, de cabelo comprido, e barbudo, aquenta-se perto do fogão de barro.
Com a intenção de tirar Prazerosa do pensamento por alguns minutos, vai até o baú, junto a janela, pega a Bíblia que a sua irmã Diva lhe dera há tempo, abre-a, e procura encontrar consolo lendo-a.
Nisso o vento abre a porta que estava apenas encostada.
Imediatamente ele corre fechá-la, vê seu grande amor passando, e não se contem: deixa de lado o livro Sagrado, e sai correndo atrás de Prazerosa, que ao vê-lo para, e com pena dele diz:
-Você ainda está nessa tapera, garoto? Nas condições precárias em que anda vivendo, você está sujeito a qualquer tipo de doenças!
-Isso quer dizer que está preocupada comigo? - pergunta o garoto animado.
-É evidente que sim, - responde ela -, como estaria com qualquer um que estivesse vivendo, assim como você: igual a um animal!
Arrepelando-se de raiva Leto pega Prazerosa pelo braço e diz:
-Não quero que tenha pena de mim!
-Não é isso que parece, - retruca. - Para mim o que você quer é isso: que eu e o mundo tenhamos pena de você!
-O que quero é que o meu amor seja correspondido! - declara o garoto -, nada mais, além disso!
O desejo dela é fazer-lhe um carinho. Mas logo volta atrás, e resolve não dar esperança ao mesmo. Por isso com rispidez diz:
-Quantas vezes eu já lhe falei para me esquecer, Leto. Deixe-me em paz, garoto!
E faceira como sempre, afasta-se dele, que retorna a velha tapera com uma leve expressão de felicidade no rosto: afinal, dessa vez Prazerosa fora um pouco mais delicada.
 
Mais um sábado chega. O dia é igual a tantos outros dias de inverno.
Uma fina garoa mistura-se com a neblina.
Mesmo estando muito frio, como de costume, na parte da tarde, o grupo de jovens se reúnem no salão comunitário para bater papo.
Os mais velhos não aguentam, e vão ao tradicional ponto de encontro dos amigos: o armazém da Boa Freguesia, onde muitos garimpeiros estão reunidos, ainda comentando os roubos ocorridos nos garimpos da região.
-Para mim tem pessoas aqui de São Valentim envolvida nesses roubos todos, - diz um garimpeiro num fiapo de voz.
Um segundo diz:
-Não acredito nisso. Se tivesse alguém daqui envolvido nessa sujeira toda, o subdelegado já tinha descoberto, e prendido!
Um terceiro da uma rinchavelhada e responde:
-O subdelegado Napoleão só consegue prender, é o cachimbo entre os dentes, e nada mais!
Todos se põem a rir.
Depois das gargalhadas Pezão acende um de seus palheiros espanta tudo, da uma tragada, vai até o balcão e diz:
-Se tem alguém daqui envolvido nesses roubos eu não sei. Só sei que o desgraçado que fez essa sujeira toda tem que morrer com um berne encravado na bunda!
E mais uma vez todos se põem a rir.
Passado um tempo o açougueiro Farroupilha murmura:
-Você não tinha outra praga para lançar sobre o infeliz, Adão? Tinha que ser um berne na bunda? Essa é para matar do coração!
Sorridente João Permuta vira-se para o açougueiro e declara:
-Isso é coisa de Adão, Farroupilha!
Não muito contente Floriano diz:
-Nós estamos mal de autoridade aqui em São Valentim. Talvez os ladrões sejam daqui mesmo. Só que esperar que o peçonhento subdelegado descubra alguma coisa é o mesmo que esperar papai-noel!
Ernesto que até então ficara calado, entra na conversa e pergunta:
-Falando em Noel: o que é feito do professor? Depois do enterro de Euclides não o vi mais!
-É verdade, - concorda Adão. - O professor se afastou da escola, do grupo de jovens, e da igreja. Acho até que depois daquela tragédia, o mesmo ficou um tanto tresloucado!
Com morosidade João informa:
-Seguidamente ele vem ter com o velho Napoleão!
Ernesto balança a cabeça e diz:
-Professor Noel e o subdelegado? Estranha ligação!
-Não há nada de estranho nisso, Ernesto, uma vez que ambos são assassinos, - responde o açougueiro.
Ernesto vira-se para ele e diz:
-O amigo tem razão!
 
Nisso o professor chega à frente da casa do subdelegado, sobe a escada, e fica parado na sacada, ouvindo as gargalhadas que vêm do salão comunitário.
Por acaso o velho Napoleão abre a porta, vê Noel ali parado e ordena:
-Entre professor. Aí fora está muito frio!
Noel fica parado: sem nada dizer.
O subdelegado esfrega as mãos e pergunta:
-Está pensando no tempo em que andava com aqueles garotos de vidas medíocres, professor?
Noel continuou calado.
 Na verdade o que o mesmo queria naquele momento era estar junto do grupo de jovens, e o mais importante: perto de Luana, seu grande amor.
 Mesmo que a vice beijando Bernardinho isso não importaria.
 Na realidade o que importaria mesmo, era estar perto dela.
 Quem sabe numa dessas voltas que o mundo da, ele não teria uma chance de conquistá-la?
De repente o coração do professor encheu-se de tristeza.
Em seus olhos manifestou-se o arrependimento, e a consciência de que havia cometido um erro sem volta.
A quietude de Noel deixa o subdelegado preocupado.
Com prudência ele fez outra pergunta:
-Posso saber em que está pensando, professor?
-Estava pensando em que a minha vida se transformou, - responde Noel fastidioso. - Até bem pouco tempo eu era um pacato professor que sonhava conquistar a filha do açougueiro. Hoje sou um ladrãozinho de quinta, e ainda por azar assassino!
O subdelegado da uma galhofa e diz:
-Então o problema é a filha do açougueiro! Lembra-se, eu lhe ofereci ajuda, mas o amigo recusou. Agora aguente as consequências. Mas não se preocupe: certamente apareceram outras iguais a filha do açougueiro!
E em seguida torna a ordenar:
-Entre e sente-se, professor!
Depois do cafezinho o velho vil diz:
-Precisamos encontrar outro meio para ganharmos dinheiro, professor. Roubar martelos se tornou uma tarefa impossível aqui na região!
-Já pensei muito sobre esse assunto, - responde Noel -, e cheguei à conclusão de que devemos parar!
Assombrado de susto o velho diz:
-Que negócio é esse de parar, professor? Nós apenas começamos. E se pararmos, o que pretende fazer da vida? Seu cargo de professor jamais o amigo conseguirá recuperar!
-Ser professor não é a única profissão honesta nessa vida, e se continuarmos, o que iremos roubar, uma vez que o senhor mesmo disse que roubar martelos se tornou tarefa impossível?
-Que burrice é essa, professor, - diz o velho. - O amigo sabe que trabalhar honestamente nesse país é pedir para passar fome, e o amigo viveu essa verdade até bem pouco tempo. Depois tem outra: o professor é um sujeito marcado. Quando as pessoas olham para você, elas não vêm um professor, e sim um assassino!
Noel pensou um pouco e chegou à conclusão de que o velho peçonhento tinha razão.
Nunca mais ele poderia ser como era antes.
 De fato diante dos olhos de Deus e de toda a sociedade, o mesmo não mais era um professor, mas sim um assassino.
Confuso vira-se para o subdelegado e pergunta:
-O senhor de fato não acredita em vida após a morte, subdelegado?
-É claro que não, - responde o peçonhento -, essa coisa de vida após a morte, foi inventada pelos espertos, para tirar proveito dos ignaros!
As palavras do velho Napoleão provocam calafrios em Noel.
Um pouco assustado ele faz uma nova pergunta:
-O que faremos daqui para frente?
-Vamos roubar gado!
-Não acho uma boa ideia!
-Eu já acho uma boa ideia, professor, - responde o subdelegado. - Estive conversando com um conhecido, que tem um matadouro no Saltinho, e o mesmo me disse que é muito lucrativo: na verdade ele também quer participar do negócio!
-E como levaremos o gado até ele? - pergunta Noel com um brilho estranho no olhar.
-É aí que entra o melhor da história, professor, - responde a autoridade. - O mesmo terá uma participação ativa dentro do grupo. É claro: ganhará o mesmo quinhão que nós!
Respira fundo e acrescenta:
-A ideia é abatermos o gado no ato, e só levarmos a carne!
Demonstrando empolgação com a ideia o professor pergunta:
-E quando começaremos?
-Isso é contigo, professor, - responde o velho -, se você quer começar amanhã, por mim tudo bem. O amigo é quem manda!
O pouco de incerteza e arrependimento que havia no peito de Noel, some, e com entusiasmo o mesmo declara:
-Começaremos amanhã, e atacando o rebanho do açougueiro Farroupilha!
-Tudo bem, professor, - responde o subdelegado. - Hoje mesmo entrarei em contato com o meu conhecido do Saltinho, e acertarei tudo para amanhã!
 
Aproxima-se mais um final de tarde. O frio aumenta. O nevoeiro começa cobrir o povoado.
Apressadamente o professor deixa a casa do subdelegado se perguntando:
-Que força é essa que me domina tão facilmente? Será ódio ou inveja desse povo todo, ou o amor que sinto por Luana? Eu não compreendo. Até a Bíblia, antes tão importante em minha vida, se tornou algo impotente diante dessa força. Sempre acreditei em Deus e continuo acreditando. Será que o meu contato com o subdelegado me afastou de Deus? Pode até ser que sim.  Acredito que aquele velho nojento tenha até já vendido a sua alma ao capeta!
 
No domingo de manhã os irmãos de Leto, Josemar e Adriano vão à velha tapera visitá-lo.
Ao vê-los, Leto corre encontrá-los.
Depois dos abraços ele diz:
-Que bom que estão aqui!
Adriano, o nenê da família declara:
-Eu estava com saudade!
-Eu também, Adriano!
Fazendo uso do bom senso Josemar diz:
-Você é um tremendo cabeça dura Leto!
-E você acha que eu não sei disso, Josemar?
-Por que não volta para casa, Leto? - pergunta Adriano.
Leto pega na orelha do irmão mais novo e responde:
-Porque eu quero ser adulto, e não criança, assim como você!
Nisso chega o guarda Albino, mais Pedreira e Bernardinho.
Depois de cumprimentá-los Leto com ar de rir declara:
-É muito agradável desfrutar da companhia dos amigos!
-E você, meu jovem amigo, como tem passado? - pergunta o guarda.
-Na medida do possível, bem, - responde ele.
Pedreira coloca as mãos nos bolsos e sugere:
-O que estamos esperando? Vamos entrar, porque eu estou virando gelo aqui fora!
Logo em seguida eles entram.
O guarda tira o baú de perto da janela, e coloca-o perto do velho fogão de barro, vira-se para Leto e pergunta:
-O que tem feito ultimamente, meu jovem amigo?
-Nada demais, - responde ele -, mas pretendo voltar aos garimpos o mais depressa possível. Isso se o pai permitir!
-É claro que o pai vai permitir, - diz de imediato Josemar.
-É muito bom lhe ver assim, Leto: readquirindo ânimo! -, declara Bernardinho. - Só está faltando tirar essa barba suja!
 
De modo afetuoso Adriano acrescenta:
-É verdade: você está horrível com essa barba!
Leto nada diz. Olha pelo vão da porta que está entreaberta, vê Sebastião passando, rapidamente levanta-se, e vai em direção à porta.
O guarda lhe segura pelo braço e diz:
-Se controle, meu jovem amigo. Recaída agora não!
Leto ignora a voz da razão, e completamente adverso responde:
-Eu detesto esse sujeitinho bunda fedida!
Com cautela Bernardinho diz:
-Ele não tem culpa de nada, Leto. Você tem que detestar a Prazerosa. Ela é a culpada por esse momento tenebroso que está passando!
-Como posso odiá-la, se tudo o que faço é pensando nela?
-É por isso que ultimamente você só tem feito besteiras, Leto, - responde Josemar sem intenção de achincalhá-lo.
Bernardinho não consegue se segurar e caí na gargalhada.
O guarda faz sinal para o mesmo parar, mas não tem jeito: a vontade de rir é mais forte.
Leto vira-se para o irmão e responde:
-Vou fingir que não ouvi nada, Josemar!
 
Depois do almoço o guarda Albino, preocupado com eventuais disparates de Leto propõe:
-Por que não vamos todos ao centro?
Pensando em Prazerosa e Sebastião, Leto responde:
-Hoje está muito frio, Albino. Vão vocês. Eu vou ficar aqui!
-Nada disso, Leto, - diz Bernardinho -, vamos a Boa Freguesia jogar bilhar, e agora mesmo!
Leto procura inutilmente uma saída. Como não encontra, é obrigado aceitar o convite.
Na vila dos Cachorros Sentados, Adriano separa-se do grupo, e vai para casa.
 
Ao saber que seu filho Leto está na Boa Freguesia, imediatamente Floriano sobe ao armazém.
Chega à porta, vê Leto jogando bilhar, entra, vai direto em direção ao filho, vira-se para ele e declara:
-Que bom lhe ver, filho!
-Pois eu digo o mesmo, pai, - responde ele timidamente.
Em seguida entrega o taco de bilhar ao Josemar, e senta-se ao lado de Floriano que diz:
-Adriano me falou que você pretende voltar aos garimpos? Isso é verdade?
-É verdade, pai, - responde Leto. - Isso se o senhor permitir é claro!
-É claro que permito filho!
Em seguida pergunta:
-E quando pretende começar?
-Amanhã mesmo, - responde o garoto um tanto acanhado.
-Você vai deixar a velha tapera?
-Não. Eu estou muito bem lá!
-Eu não compreendo filho, - diz Floriano -, você tem uma boa casa para morar, como pode preferir viver naquela velha tapera, sem conforto algum? No entanto, se você quer continuar morando lá, tudo bem: não vou lhe contrariar. O simples fato de você voltar aos garimpos já me deixa contente, filho!
 
Falta pouco para meia-noite.
O vento frio parece gelar até alma.
Professor Noel e seu bando chegam ao rebanho do açougueiro Farroupilha, fazem uma grande fogueira com galhos secos de pinheiro, e em seguida abatem a reis escolhida por eles.
Os cachorros latem sem parar.
O açougueiro acorda assustado.
Como os cães não param de latir, ele levanta-se, abre a porta da frente, olha em direção à rua, e nada vê de anormal.
Abre uma das janelas dos fundos, e ficou estupefato com a imensa fogueira, dentro de seu potreiro de gado, e diz para consigo:
-O que significa isso?
Rapidamente coloca um casaco, pega a espingarda, e desce para conferir o que está se passando.
Já bem próximo do local da fogueira, esconde-se atrás de uma grande pedra, e fica observando o bando esquartejar uma de suas cabeças de gado.
Professor Noel e Lesma colocam mais galhos de pinheiro.
O fogo aumenta. O clarão faz com que o açougueiro reconheça-os.
Com o coração transbordando de ódio, ele diz:
-O imprestável subdelegado tinha que estar envolvido em mais uma falcatrua!
Com a intenção de assustar o bando, Farroupilha puxou a gatilho da espingarda. No entanto o bando não se sentiu ameaçado.
 Pelo contrário: todos sacaram de suas armas, e em seguida efetuaram uma série de disparos para o alto.
Atordoado Farroupilha deita-se em cima da grama úmida, e fica esperando o professor e o seu bando se retirarem.
Tanto os dedos de suas mãos, como os dos pés, começam ficar congelados.
Desesperadas Luana e sua mãe correm chamar o subdelegado, que já a caminho da casa do açougueiro, diz para consigo:
-Só espero que o professor não tenha feito besteira!
Ansiosa Luana e sua mãe o aguardam na escada.
Napoleão chega, percebe a aflição das duas e diz:
-Calma. Isso não deve ser nada demais. Na certa são os garotos procurando diversão!
Vê Farroupilha aproximando-se, aponta o dedo e acrescenta:
-Eu não disse? Olhe ele ali!
 Esposa e filha correm ao encontro do mesmo, que treme de ódio e frio.
Como se não soubesse de nada o subdelegado pergunta:
-O que aconteceu, Farroupilha?
Com vontade de estrangular o velho peçonhento, o açougueiro responde:
-Eu vou dizer o quê que aconteceu: um bando de gafanhotos acabou de devorar a mais bela cabeça de gado do meu rebanho!
Respirou fundo e acrescentou:
-Isso não vai ficar assim. Eles vão pagar caro por isso. Muito caro!
Receoso o velho Napoleão faz uma nova pergunta:
-Você reconheceu alguém?
A primeira coisa que veio em sua cabeça foi deixar vir a tona o seu lado ignorante, e dizer umas verdades para o velho peçonhento. No entanto preferiu conter-se e limitou-se a responder:
-Não. Eu não reconheci ninguém!
O subdelegado respira aliviado e informa:
- Começarei as investigações logo que o dia amanhecer!
- Faça isso, subdelegado, - responde o açougueiro com ódio no olhar.
Entra, senta-se perto do fogo e murmura:
-Maldito subdelegado!
-Por que essa raiva com relação ao subdelegado, meu marido? - pergunta sua esposa. - O mesmo tem alguma coisa a ver com o que aconteceu agora há pouco?
-Sim, - responde o açougueiro -, eu reconheci dois dos que estavam lá: o professor Noel e Lesma. Certamente o velho peçonhento é o mentor do bando!
Estupefata com o que acabara de ouvir Luana diz:
-Lesma tudo bem. Agora o professor? É difícil de acreditar!
-Pois pode acreditar filha, - responde ele -, é a mais pura verdade!
Esposa e filha voltam para cama. Já o açougueiro resolveu ficar o resto da noite acordado.
Assim que o dia amanhece o mesmo acorda a esposa e diz:
-Se o velho Napoleão aparecer, diga ao mesmo que tive que sair!
Logo em seguida saiu, e foi ter com Floriano, que de imediato convidou-o para entrar.
O açougueiro entra, senta-se, e sem delongas diz:
-Nesta madrugada um bando de safados atacara o meu rebanho de gado. Os malditos tiveram a ousadia de abater a reis ali no local!
Floriano estupefato perde a fala. Por isso Farroupilha respira e continua:
-Dois deles eu reconheci: o professor Noel e o filho do subdelegado. Provavelmente também foram eles que roubaram os martelos dos compressores!
-É evidente que sim, - responde Floriano agora irado. - Se o filho do velho safado faz parte do grupo, seguramente o safado é o cérebro do bando!
-Eu acredito que sim!
-Dessa vez ele foi longe demais! - declara Floriano.
Vira-se para o açougueiro:
-Vou mandar um de meus filhos chamarem os outros interessados nessa história!
Farroupilha diz:
-Não seria melhor mandá-los ir a casa de Ernesto? Aqui poderá levantar suspeita!
-O amigo tem razão, - responde Floriano. - Para chegar até a minha casa eles terão que passar pela casa do Velho peçonhento, ou então pela vila dos Cachorros Sentados, e isso certamente levantaria suspeitas!
Em seguida manda seu filho Josemar chamar o Adão Pezão e o velho Expedito, e pouco tempo depois todos estão reunidos na casa de Ernesto.
-Nesta madrugada aconteceu mais uma coisa desagradável aqui em São Valentim, - começa Floriano, tremendo de ódio. - Um bando de ladrões atacou o rebanho do Farroupilha, e o professor Noel e o filho do subdelegado fazia parte do bando!
Expedito da um pulo e declara:
-Eu não criei filhos, mas sim monstros. Os desgraçados tiveram coragem de roubar o próprio pai!
Um tanto surpreso o açougueiro pergunta:
-O que está querendo dizer, Expedito?
Transtornado Expedito responde:
-Se aquele patife que se diz professor, e o filho do subdelegado faz parte do bando, os meus filhos também fazem, uma vez que eles passam mais tempo lá na casa do velho Napoleão do que na minha!
Vendo a aflição de Expedito, Ernesto diz:
-Se acalme Expedito. Não tire conclusão precipitada!
-Como posso ter calma, - responde Expedito -, sabendo que os meus filhos estão envolvidos nessa sujeira toda?
Levanta-se e informa:
-Agora mesmo vou dar um jeito nisso!
Respira fundo e acrescenta:
-Quanto aos senhores: o que vocês decidir eu assino embaixo!
E sem se despedir-se deixa a casa de Ernesto.
-A minha vontade é matar aquele velho safado! - declara Pezão.
-Isso não resolveria o nosso problema, - responde Floriano.
Em seguida vira-se para Ernesto e pergunta:
-O que devemos fazer Ernesto?
-Acho que a melhor saída é irmos fazer uma queixa ao delegado da Ametista!
-Concordo plenamente, - diz o açougueiro. – Ele não pode sair dessa assim: ele vai ter que pagar pelo que está fazendo!
-Por que não pagamos alguém para matar o velho peçonhento?  - sugere Adão.
-Matar o velho safado só pioraria a nossa situação, - responde Floriano. - A nossa única saída é fazermos o que o Ernesto sugeriu: vamos fazer uma queixa ao delegado da Ametista!
-Bem, - diz Adão -, concordo já que a maioria pensa assim. Mas continuo pensando que a melhor solução seria pagar alguém para matar o safado!
Ernesto vira-se para ele e diz:
-Matar nunca foi uma boa solução, Adão. Tá certo: nós odiamos aquele velho safado. Mas não ao ponto de pagar alguém para assassiná-lo. Vamos deixar que a justiça castigue-o!
 
Enquanto isso, no outro lado do povoado, Expedito, um tanto tocado entra casa dentro gritando:
-Filhos desnaturados: tiveram ousadia de roubar o próprio pai!
Vai até o quarto de Sebastião, puxa os cobertores e ordena:
-Acorde filho da puta!
Sebastião acorda, e assustado pergunta:
-O que está acontecendo, pai?
-Eu descobri tudo, filho desnaturado, - responde ele. - Foram vocês que roubaram os martelos dos compressores. Como puderam fazer isso?
-Não sei do que o senhor está falando, - afirma Sebastião.
Nisso chegam seus irmãos.
Expedito olha-os dos pés a cabeça, e com a voz já rouca diz:
-Com que cara sair de hoje em diante as ruas? Ao me verem, certamente esse povo todo dirá: lá vai o pai dos ladrões de martelos e de gado!
Receoso Sebastião responde:
-Nós não roubamos nada, pai!
-Não, não, - diz o velho -, são mais ordinários do que pense. Pois fiquem sabendo que o açougueiro Farroupilha reconheceu vocês ontem, quando vocês abatiam uma de suas cabeças de gado!
Sebastião e os irmãos ficam paralisados.
-Digam alguma coisa, seus patifes!
Apavorado o mais novo declara:
-Foi o Sebastião que nos convenceu a fazer parte do bando!
Expedito derruba-o em cima da cama e grita:
-Filho desnaturado. Arrume as suas coisas, e caia fora de minha casa imediatamente!
Vira-se para os outros filhos:
-Quanto a vocês: podem ficar aqui até serem levados pelas autoridades!
O mais moço começa chorar.
Não vendo mais saída Sebastião diz:
-Se existe alguém desnaturado aqui, esse alguém é o senhor, que sempre nos negou tudo: inclusive carinho!
Depois de um lapso de tempo acrescenta:
-Se hoje somos ladrões o culpado disso é o senhor, velho muquirana!
-Isso não é verdade, - responde Expedito, completamente alterado -, tudo o que fiz foi pensando no futuro. Se eu não tivesse feito isso, hoje nós não teríamos tudo o que temos!
Sua esposa que havia ficado calado até então, diz:
-Não fuja do assunto, Expedito!
-Cala-se velha fedorenta, - ordena ele.
-Se sou fedorenta, - retruca a mesma-,  é porque você não compra se quer um sabonete para eu tomar banho!
Expedito empurra a mulher contra a parede e diz:
-Se disser mais uma palavra, você vai se arrepender, mulher ordinária!
-Coloque suas mãos sujas em minha mãe para o senhor ver o que faço velho sovina, - responde Sebastião.
-O que ainda está fazendo aqui desgraçado, - diz o velho. - Saia já de minha casa, filho desnaturado. Vou dar uma volta, e quando voltar se ainda estiver aqui aí de você!
 
Os primeiros raios de sol cortam a neblina.
Depois de colocar seus pertences dentro de uma mala velha, Sebastião, tristonho e atordoado, despede-se de sua mãe, e apressado vai a casa do subdelegado Napoleão.
Ao vê-lo junto à porta, segurando numa das mãos a mala, o velho peçonhento, surpreso pergunta:
-O que está fazendo com essa mala, Sebastião? Parece até que está pretendendo viajar?
-Até que não seria uma má ideia, - responde Sebastião -, assim eu me livraria dos problemas que logo, logo chegaram!
-Entre, Sebastião, - propõe o peçonhento.
Em seguida pergunta:
-Posso saber que problemas são esses?
-O problema é o açougueiro, - responde -, ele nos reconheceu!
-Maldição, - diz o subdelegado -, agora eu compreendo o porquê de toda aquela falta de confiança em meu trabalho!
Cala-se um instante e acrescenta:
-Depois do tiroteio, a filha e a esposa dele vieram me chamar. Fui até a casa do infeliz, e estranhei muito a atitude dele!
-Parece que ele, mais os donos de garimpos foram fazer uma queixa ao delegado da Ametista, - informa Sebastião. - Vou lhe confessar uma coisa subdelegado: eu estou com muito medo de ir para a cadeia!
O velho Napoleão pensa um pouco, da uma risota e responde:
-Não se preocupe com isso, Sebastião. Eles não encontraram nada que possa nos incriminar!
-Mas o maldito açougueiro nos reconheceu, - diz o filho do velho Expedito -, na certa isso nos trará problema, subdelegado!
-Não, Sebastião, - responde a autoridade. - O que roubamos não está mais em nossas mãos, e no que diz respeito ao açougueiro, é a palavra dele contra a nossa!
Depois de um lapso de tempo diz:
-Você ainda não me disse o quê que está fazendo com essa mala?
Já um pouco mais calmo Sebastião informa:
-O pai me colocou pra fora de casa!
Não mostrando sinal de preocupação o velho pergunta:
-E agora: em que lugar pretende morar?
-Vou ver se consigo um cantinho lá na casa do professor, - responde ele -, até eu construir a minha, é claro. Eu já tenho um terreno, construir uma casa não será uma coisa difícil!
-Se não conseguir lugar lá na casa do professor, eu lhe arrumo um cantinho aqui em minha casa!
 
É mais um começo de tarde. 
Aos poucos a neblina sumira, e o sol, que havia chegado timidamente, passa a predominar.
Como não há fregueses, Tito mais João Permuta e Curandeiro, vão sentar-se nos degraus da escada da igreja, e ficam curtindo o calor do sol.
O lenheiro Nico grita com sua junta de bois magros, que puxam a velha carroça carregada de lenhas.
Em cada casa ele descarrega o bastante para uma semana, recebe o valor combinado com o comprador, e continua a entrega.
 
O açougueiro Farroupilha mais parte dos donos de garimpos, chegam da Ametista acompanhados por uma viatura policial.
Um jovem delegado de nome Antenor, mais três policiais, vão até a vila dos Cachorros Sentados, e vasculham tudo palmo a palmo. No entanto nada encontram.
O mesmo acontece na casa do subdelegado, uma vez que os martelos dos compressores já tinham sido vendidos há muito, e a carne do boi do açougueiro Farroupilha, que o bando havia abatido naquela madrugada, já estava no açougue do Saltinho.
Como não encontra nada na vila dos Cachorros Sentados, nem na casa do subdelegado, o jovem delegado pede desculpas ao velho peçonhento, e vai até a casa de Ernesto, onde está Farroupilha e parte dos donos de garimpos.
Antes mesmo de sentar-se ele informa:
-Meus caros cidadãos: os sujeitos são mais astutos do que pensei, pois....
-Isso quer dizer que não encontrou nada? - interrompe Floriano.
-É isso mesmo, - diz o jovem delegado -, não encontrei nada que possa incriminá-los. Mas hoje mesmo farei uma visitinha aos açougues da Ametista, porque na certa tem um açougueiro junto com eles!
-É verdade, - concorda Farroupilha. - Como poderiam eles abater uma cabeça de gado se os patifes não entendem nada do assunto. Diabólico subdelegado: não dá ponto sem nó!
-Uma hora, ou outra ele se esquece de dar o nó, e eu o pego de jeito, - diz Antenor.
 
Logo após a saída do jovem delegado, Pezão vira-se para Floriano e pergunta:
-Ainda continua achando um erro pagarmos alguém para assassinar o velho peçonhento, Floriano?
-É claro que sim, Adão, - responde Floriano. - Matar é ir contra os princípios de Deus!
-Eu odeio aquele peçonhento, - diz Adão.
-Nós todo o odiamos, - responde Ernesto com cautela -, mas aí matá-lo para satisfazer o nosso ódio é o cúmulo!
 
Enquanto isso na vila dos Cachorros Sentados, professor Noel vira-se para Sebastião e declara:
-Hoje secou a última gota de esperança que eu tinha de conquistar Luana!
Respira fundo e acrescenta:
-Não foi nada bom sermos desmascarados. Mas já que fomos, vamos encarar de frente esse povo idiota!
-Nós temos é que atucanar ainda mais a vida deles, professor, - responde Sebastião com ódio no olhar.
-Isso é fácil, Sebastião, - diz Demétrio -, é só começarmos a frequentar a Boa Freguesia. As cabeças de São Valentim estão sempre lá!
-É uma boa ideia, mano, - concorda o professor. - Vamos infernizar a vida deles!
 
Enquanto isso o subdelegado Napoleão, sentado em frente ao fogão a lenha, come pinhão, e joga gravetos ao fogo.
Com ar de satisfação diz para consigo:
-Hoje mais uma vez ficou provado que esse povo sem préstimos não consegue nada comigo!
 
Passa-se um mês. Em todos os lugares ainda comenta-se os indignos feitos do velho Napoleão, e do professor Noel e seu bando.
Na Boa Freguesia não poderia ser diferente.
Entre um gole e outro e refrigerante o guarda diz:
-Se no jardim do Éden, que era perfeito, a maldade conseguiu entrar? Imaginem nos outros lugares. Nos outros lugares ela entra sem obstáculo algum!
Inconformado com a impunidade Pezão declara:
-Seres humanos, assim como o subdelegado, deveriam ser exterminados!
-A classe a qual pertence o subdelegado, mata-se um, e nasce dois, - responde Albino. - Por esse motivo não vale a pena matá-los, mas sim proteger-se das maldades deles!
-Você tem razão, Albino, - concorda Floriano.
Gritando olhe o bilhete louquinho Cabo entra na saleta da Boa Freguesia.
Em seguida fora a vez do professor, mais seu irmão Demétrio e Sebastião.
O bate papo entre os amigos, e as gargalhadas dão lugar à quietude.
Sebastião vai até o balcão, pede um litro de conhaque, e três copos, e vai sentar-se ao lado de seus amigos.
Fastidioso, em voz baixa Ernesto declara:
-Vou-me embora. É ultrajante demais, ver esses sujeitos aqui!
E apressadamente deixa o recinto.
Adão Pezão e o açougueiro Farroupilha, com o canto dos olhos, observam os três baderneiros bebendo conhaque, e dando gargalhadas atrás de gargalhadas.
Sebastião, o mais buliçoso dos três, depois de muito apoquentar, consegue convencer louquinho Cabo a beber junto com eles.
Como não é acostumado a beber bebidas alcoólicas, rapidamente o pobre coitado embriaga-se.
Com a intenção de cometer um ato desumano, Sebastião pede ao Tito uma vela de cera, acende-a, e deixa cera derretida pelo calor, cair na pele do louquinho Cabo, que embriagado parece não sentir dor.
Não satisfeito, Sebastião aproxima-se do balcão e diz:
-Eu quero um quilo de soda cáustica!
Estupefato com o que estava vendo, e já perdendo a paciência Tito pergunta:
-O que você pretende fazer com a soda?
- O amigo está aqui para vender, - responde Sebastião, e não para perguntar!
Tito olha firme nos olhos daquele sujeito diabólico e informa:
-Se for para continuar torturando o louquinho Cabo, eu não lhe vendo a soda!
Sebastião empurra-o, pega a embalagem de soda numa das prateleiras, abre-a, e larga boa parte do produto nas costas do louquinho.
Enquanto os bons cidadãos correm socorrê-lo, os três malfeitores dão gargalhadas estrepitosas.
Nisso chega à porta do armazém, Leto e seu irmão Josemar.
A atenção do irrequieto Sebastião volta-se toda para eles.
Os dois entram, e vão direto saber o que estava se passando com o louquinho.
Ao ver o estado que havia ficado as costas do pobre coitado, o coração de Leto passa abrigar o ódio e a tristeza.
Percebendo isso, Sebastião vira-se para Demétrio, respira fundo e diz:
-Como é bom saber que logo mais terei a Prazerosa em meus braços!
Leto contem-se, e finge que não ouviu o que o sujeito buliçoso havia dito.
Compreendendo a jogada Demétrio pergunta:
-Como é a Prazerosa na cama?
Sebastião da uma gargalhada e responde:
- Mulher é um furacão, amigo!
Cala-se um instante e em seguida acrescenta:
-Para o amigo ter uma ideia, ela é tão vórtice que até filhinho de papai se atirou na sarjeta por causa dela!
Leto luta, mas não consegue conter-se.
Irado pega uma garrafa vazia, e com toda a força joga-a em Sebastião que se esquiva.
Professor que até então estava de fora, saca a arma e aponta para Leto.
Josemar pula na frente do irmão e grita:
-Vire isso pra lá, professor!
Ignorando a voz da razão Noel diz:
-Acho bom você sair da frente, garoto, porque eu vou atirar!
Uma vez mais Josemar grita:
-Vire isso pra lá, professor. Isso não é brincadeira!
-Saia da frente, garoto, porque eu vou atirar!
-Não cometa uma loucura dessas, professor, - grita o guarda Albino.
Apavorado Floriano corre em direção aos filhos.
Nesse interim Noel, sem remorso algum puxa o gatilho duas vezes.
Na terceira o guarda lhe acerta o braço com o taco de bilhar. A arma cai ao chão. Rapidamente o professor pula a janela, e sai correndo.
O mesmo acontece com Demétrio e Sebastião: a única diferença é que o professor sai pela janela e eles pela porta da frente.
Já praticamente sem vida, Josemar cai nos braços de Leto, que assombrado não sabe o que fazer.
Desesperado Floriano passa a mão na cabeça do filho ferido, já quase sem vida e diz:
-Aguente firme, filho. Nós já vamos levá-lo ao hospital!
-Eu não consigo ver nada, - afirma Josemar -, uma grande nuvem negra, dança em minha frente!
Em seguida ele pergunta:
-Você foi ferido, Leto?
-Não, Josemar, - responde Leto atordoado.
O garoto da o último suspiro e morre.
Tresloucado Floriano diz:
-Você não pode fazer isso comigo, filho!
Ao se dar conta que não tinha mais volta, completamente fora de si vira-se para Leto e afirma:
-O responsável pela morte de seu irmão é você, Leto!
Logo após conter o choro acrescenta:
-Já que abandonou a família por causa de uma vagabunda, hoje eu o abandono por causa da morte de seu irmão!
-Me desculpe pai!
-É tarde demais para desculpas, - responde Floriano. - De hoje em diante não me chame mais de pai, porque eu não lhe chamarei mais de filho!
Descontrolado Leto saiu correndo em direção a gruta de São Valentim.
Com intenção de segui-lo o guarda Albino vai até a porta, e encontra Bernardinho e Pedreira que pergunta:
-Quem foi o autor dos disparos, Albino?
-Agora não é hora para explicações, meu jovem amigo, - responde o guarda -, Leto, totalmente dúbio foi rumo à gruta. Vocês que são jovens, corram atrás dele e não o deixe fazer besteira!
Imediatamente os dois partem apressadamente em direção a gruta.
O guarda, que segue logo atrás, depois da velha ponte de madeira murmura:
-É nessas horas, que sinto falta da minha juventude!
 
De cima da gruta Leto olha tudo a sua volta.
 Com imensa tristeza, disposto a dar fim a própria vida, ele não da atenção a Bernardinho e Pedreira, que se aproximam rapidamente, gritando o seu nome.
Os dois procuram dentro e fora da gruta, mas nada de Leto, que do alto tenta encontrar um motivo para continuar vivendo.
 Porém tudo em sua mente tem um toque de desgosto.
Parados na entrada da gruta, Bernardinho e Pedreira continuam gritando, mas Leto não responde.
O guarda, já bem próximo dos dois, olha para cima, vê Leto parado ao lado da cachoeira, e a beira de um ataque de nervos grita:
-Não faça isso, Leto!
Antes de Bernardinho e Pedreira olharem para cima, Leto joga-se do alto da gruta.
O guarda apavorado murmura:
-Meu Deus do céu!
E superando o cansaço, chega antes ao local, onde caíra o corpo de Leto.
Pedreira é o próximo a chegar, e assombrado de espanto pergunta:
-Ele ainda está vivo, Albino?
-Infelizmente não, - responde o guarda. - Nós chegamos tarde demais. Não há mais nada que possamos fazer por ele!
Transtornado Bernardinho olha o corpo já sem vida e diz:
-Como pôde fazer isso com a sua vida, e com seus amigos, Leto?
Os olhos do guarda enchem-se de lágrimas.
Revoltado o mesmo declara:
-A paixão e a maldade acabaram com a vida do nosso amigo!
Enfadonho Antônio pergunta:
-O que aconteceu na Boa Freguesia, Albino?
-Aconteceu outra desgraça, meu jovem amigo, - responde o guarda. - O professor assassinou o Josemar!
Cala-se um instante e ordena:
-Vão até a casa de Floriano, e contem o que aconteceu com o Leto. Tente consolá-los, eu vou ficar aqui!
Imensamente triste Bernardinho e Pedreira afastam-se do corpo de Leto, e apressados partem em direção ao centro do povoado.
 
Enquanto isso na vila dos Cachorros Sentados, o astuto subdelegado olha nos olhos de Noel e sugere:
-Se esconda em algum lugar, professor, para não ser preso em fragrante. Amanhã você se apresenta com um advogado, e tudo será resolvido!
De imediato Noel acata a sugestão do subdelegado.
 
Na rua principal o corre, corre é grande.
Curiosos misturam-se com parentes e amigos desesperados, e inconformados com a tragédia que ocorrera.
 
A noite chega. O frio aumenta, mas não assusta o povo, que aos poucos vão aglomerando-se, dentro e fora da igreja.
Sentindo remorso, e com ódio no olhar Floriano diz:
-Custe o que custar eu vingarei as mortes de meus filhos!
Com morosidade João Permuta vira-se para Curandeiro e pergunta:
-O que aconteceu com o nosso pacato povoado, meu bom amigo?
Curandeiro pensa um pouco e em seguida responde:
-Quando eu disse que São Valentim estava cheio de sortilégios, ninguém acreditou: inclusive riram de mim. Agora todos estão vendo: é tragédia em cima de tragédia!
João balança a cabeça e diz:
-Eu continuo não acreditando!
 
Como era previsto, o dia amanheceu completamente encoberto pela neblina.
Nas ruas o movimento recomeça.
Aos poucos aqueles que passaram a noite em derredor dos caixões vão deixando o recinto sagrado, e seus lugares passam ser ocupados pelos parentes e amigos distantes.
A tristeza, a revolta e o medo estão em todos os olhares.
Ao lado dos caixões os comentários continuam.
Um senhor de meia idade olha os dois corpos sem vida, e fastidioso afirma:
-É triste dizer isso, mas a semente do mal germinou, e os primeiros frutos já estão entre nós, cometendo as maiores crueldade!
Um segundo, de terno e chapéu preto acrescenta:
-E o subdelegado Napoleão é essa semente do mal!
 
Enquanto isso, na cidade de Ametista do Sul, o professor, em companhia do subdelegado e de um advogado, deixa a delegacia livremente.
Na primeira esquina após a prefeitura o advogado despede-se dos dois, e entra em seu escritório.
Em seguida o velho Napoleão da uma gargalhada, vira-se para Noel e diz:
-Viu como foi fácil se livrar das grades, professor?
Noel nada diz, uma vez que estava assombrado com o grande vazio em seu peito.
A sua quietude deixa o subdelegado meio desconfiado.
- Que silêncio é esse, professor? Parece até que queria ficar preso?
-Não é nada disso, subdelegado, - responde ele. - Eu só estava refletindo!
 
Em São Valentim o povo todo já está no cemitério para os sepultamentos.
Com muita tristeza e revolta os corpos são colocados na terra fria.
Cheia de remorso Prazerosa joga uma rosa vermelha em cima do caixão e diz:
-Me perdoe por ter feito você sofrer tanto, Leto!
E rapidamente afasta-se da multidão.
Com cara de nojo Diamantina vira-se para Lucrécia e declara:
-Se eu fosse da família teria expulsado aquela cadela daqui!
-Eu teria pegado ela pelos cabelos, - responde Lucrécia -, lhe dado uma boa sova!
 
Logo após os enterros, o povo começa dispersar-se.
Por obra do destino, no exato momento, o subdelegado e o professor retornam da Ametista.
A vontade da multidão é apedrejar o veículo do venenífero Napoleão, que manda o professor abaixar-se para não ser visto.
Contudo, o assassino não escapou do olhar atento de Adão, que irado vira-se para Ernesto e murmura:
-Esse mundo é injusto. Por que nós temos que ser justos?
-O que o amigo está querendo dizer? - pergunta Ernesto, com o olhar distante.
-Eu estou querendo dizer, é que nós devemos mandar matar todos esses filhos da puta!
Depois de uma curta pausa acrescenta:
-Se queremos justiça, teremos que fazer com as próprias mãos. Nosso código penal só serve para proteger bandido. O maldito professor assassinou um ontem, e já está livre como um pássaro!
Ernesto faz uma cara de espanto e pergunta:
-Como o amigo sabe que ele está livre?
Pezão responde com outra pergunta:
-O amigo não viu o mesmo abaixado ao lado do velho Napoleão?
Estupefato Ernesto pergunta:
-Adão, você tem certeza de que era mesmo o professor?
-Juro por esses olhos, que um dia a terra a de comer que era o assassino!
-É melhor sonegarmos essa informação ao Floriano, Adão!
-Você tem razão, Ernesto. Seria duro demais para ele saber que o professor está livre!
E assim rapidamente a rua principal e as vielas ficam vazias, e só o barulho do vento quebra o silêncio.
 
Passam-se vários dias. Mesmo contra a vontade de Tito a Boa Freguesia torna-se reduto de desordeiros e forasteiros, que de passagem pelo povoado tentam a sorte nos garimpos.
 
É mais um final de tarde. Sebastião e Demétrio juntam-se com os forasteiros, e a bebedeira e as gargalhadas estrepitosas começam.
Na lojinha de João Permuta, Curandeiro bravio diz:
-Só Deus sabe o quanto eu odeio esses sujeitos ordinários!
-Esses malditos só nasceram para infernizar e destruir a vida de seus semelhantes, - responde João.
Em seguida os dois fecham as portas de seus estabelecimentos.
 
Na Boa Freguesia a bebedeira continua. Sebastião e Demétrio, pertos da embriagues total, continuam bebendo conhaque. Orgulhosos eles falam como roubaram os martelos dos compressores, e atacaram o rebanho do açougueiro Farroupilha, e abateram uma de suas cabeças de gado.
Arrepelando-se de raiva Tito só pensa em uma coisa: fechar o armazém Boa Freguesia. A seu ver essa é a única maneira de voltar a viver em paz.
Os dois bandidos deixam o armazém, completamente embriagados.
O filho do velho Expedito leva consigo meio litro de conhaque.
A caminho da vila dos Cachorros Sentados, os dois terminam de esvaziar o litro de conhaque.
Insatisfeito Demétrio vira-se para Sebastião e diz:
-Assim que chegarmos farei o Agostinho ir comprar mais um litro de conhaque para nós!
-Você não acha que já bebemos demais?
-Eu ainda nem comecei, Sebastião!
Mesmo contrariado Sebastião o acompanha até a casa do velho Tonho.
Os dois entram, e imediatamente Demétrio vira-se para Agostinho e ordena:
-Vá a Boa Freguesia comprar um litro de conhaque para nós, Agostinho!
-Nem em sonho eu farei isso para vocês, - responde ele.
-Vá ao armazém para nós, Agostinho. O que custa fazer esse favor para nós?
Não gostando nada, nada da atitude do irmão, Agostinho sai rapidamente pela porta da cozinha, e esconde-se atrás da casa.
-Maldição, o desgraçado fugiu, - grita Sebastião -, mas isso não vai ficar assim: eu vou pegá-lo!
Com a intenção de acalmá-lo, o velho Tonho levanta-se, vai até a sala, e com a voz calma diz:
-É tarde demais, filho, e você já bebeu demais. Vá dormir um pouco. Amanhã você poderá beber mais!
Tresloucado Demétrio saca da arma, puxa o gatilho e responde:
-Não é preciso alguém me dizer quando eu devo ou não parar de beber!
Com muita tristeza o velho Tonho olha nos olhos de Demétrio, e cai estirado ao chão.
Ao ouvir os gritos desesperados de sua mãe, professor Noel salta da cama, e praticamente nu, corre até a sala.
Demétrio aponta a arma para ele, e puxa mais uma vez o gatilho.
Na tentativa de fugir o professor deu as costas para o irmão, que tornou a atirar.
Gravemente ferido Noel sai da casa.
Da porta Demétrio efetua uma sequência de disparos.
O professor agarrou-se no tronco de um pé de cinamomo, da uma volta e tomba.
Atordoados Agostinho e sua mãe correm em direção ao centro do povoado.
Ainda possuído Demétrio torna a entrar na casa.
Com a visão um tanto embaralhada pela embriagues Sebastião pergunta:
-O quê que está acontecendo?
Demétrio puxa o gatilho mais três, quatro vezes. No entanto a arma não corresponde, uma vez que já está descarregada.
Diante dessa situação, o mesmo tira da cintura uma faca, pega Sebastião pelo braço, e degola-o.
Em seguida saí à procura de Agostinho e sua mãe.
Como não os encontra retorna a sala, e tanta encravar a faca em seu próprio peito.
O aço ficou dançando em cima dos ossos de sua costela, e não entra. 
Com toda força o mesmo da um soco no cabo da faca que se quebra.
Nisso chega Agostinho e sua mãe, na companhia do subdelegado, que não acredita no que está vendo.
A velha aos prantos se vira para Agostinho e informa:
-Demétrio ainda está vivo. Precisamos levá-lo urgentemente ao hospital!
Imediatamente Demétrio é colocado no carro do subdelegado, que sai em alta velocidade, rumo ao hospital da Ametista.
 
Amanhece o dia. Rapidamente a notícia de mais uma tragédia, começa espalhar-se por todos os cantos do povoado.
João Permuta, e Curandeiro batem na porta dos fundos da Boa Freguesia.
Com cara de sono Tito abre-a, sai, vê uma turba em frente à igreja, e estupefato pergunta:
-O que aconteceu agora?
Curandeiro responde com outra pergunta:
-Você ainda não sabe?
-Nessa madrugada Demétrio assassinou o velho Tonho, mais o professor e o Sebastião, depois tentou se suicidar, - informa João.
-O velho Tonho era gente boa! - declara o dono da venda -, não deveria morrer. Agora, o Sebastião e o professor apenas colheram o que plantaram. Pena que Demétrio continua com vida!
 
Como um relâmpago a tarde chega. Enquanto, na igreja, os moradores da vila dos Cachorros Sentados lamentavam as três perdas, na Boa Freguesia todos se sentem aliviados.
-Conheci um sujeito certa vez, que me disse que não adianta desejar o mal ao próprio mal, - diz o guarda. - É melhor deixar que mais cedo ou mais tarde ele por si só se destrói, e ontem ficou provado que tudo o que aquele sujeito disse, é a mais pura verdade!
Ditoso Ernesto respira fundo e declara:
-É, o mal por conta própria se destruiu, e com isso se acabou os nossos problemas!
-Não tenha tanta certeza, Ernesto, - responde Adão. -Sebastião e o professor eram apenas dois galhos da árvore da maldade. O malévolo Napoleão é a raiz e o tronco dessa árvore, e o safado continua vivo. Por isso lhes digo: os nossos problemas ainda não se acabaram!
O açougueiro, eufórico diz:
-Eu concordo com Ernesto: nossos problemas se acabaram. Sebastião e o professor, um era o braço esquerdo e o outro o direito do velho peçonhento, e nessa noite que passou esses braços foram amputados!
-E quanto ao Demétrio? - pergunta João -, ele continua vivo?
Sorridente o açougueiro responde:
-Esse é um braço atrofiado, assim como o Lesmo, ou seja, os dois são inúteis na coordenação de alguma coisa; por isso o velho subdelegado não poderá usá-los em tarefas bem elaboradas!
Cala-se um instante e acrescenta:
-Na verdade o professor era o cérebro deles, e agora sem o cérebro os mesmos não passam de retardados!
-Até ontem a minha vontade era fechar as portas do armazém! - declara Tito -, hoje a minha vontade é dar uma grande festa!
-É uma ótima ideia, Tito, - concorda Farroupilha. -Vamos fazer uma festa com direito a música e tudo mais!
-É cedo demais para comemorarmos, amigos, - responde Adão com cautela.
-Faltam apenas dois meses para a nossa tradicional festa da Ramada, - lembra Ernesto. - E por que não fazermos uma prévia hoje a noite, só para os moradores do povoado, é claro: afinal temos um bom motivo para comemorarmos, uma vez que dois dos nossos inimigos foram exterminados; na verdade três, porque Demétrio, sem o professor é uma peça do mal inutilizada!
Após fechar e acender um de seus palheiros fétidos, e dar uma tragada, Pezão responde:
-Os amigos sabem o quê que eu penso, mas já que querem tanto, então vamos fazer essa tal festa: mas não sem antes saber a opinião do Floriano!
 
Três horas após os sepultamentos, a rua principal é tomada pelas crianças, jovens e adultos, que vão chegando em pequenos grupos ao salão comunitário.
Depois do churrasco pago pelo Tito, o açougueiro, e mais os donos de garimpos, a festa continua com muito quentão, pipoca e pinhão.
O negro Bira, empregado de Floriano, e também acordeonista da região toca músicas regionais, e o povo alegre agradece, e com satisfação dança.
Já sentindo o efeito do quentão, Floriano, ainda inconformado com a morte de dois de seus filhos grita:
-Queria eu ter efetuado os disparos que resultaram na morte do professorzinho discípulo do capeta, e ter degolado aquele patife que se chamava Sebastião!
Respira fundo e em seguida acrescenta:
-Sei que a morte daqueles safados não vai trazer novamente os meus filhos, mas aliviou um pouco a dor da perda. Eles foram massacrados pela justiça Divina!
Ernesto bate no ombro do amigo e responde:
-É verdade, Floriano. Eles morreram como animais!



A música, e as gargalhadas vindas do salão, tiram o subdelegado do sério.
Furioso ele levanta-se, vai até a sacada e murmura:
-Maldito Demétrio: ao invés de matar os inimigos, mata os seus!
No salão comunitário, o povo feliz continua dançando, e festejando as mortes do professor, e de Sebastião. Pois nos últimos tempos os mesmos tornar-se-iam um grande problema para os moradores de São Valentim, e agora eles estavam livres desses problemas.
A festa acaba com uma grande queima de fogos de artifícios, e junto com a grande queima, fora-se o medo que os assombrava.
 
Uma semana mais tarde Demétrio fugira do hospital, e dias depois foi achado morto nos fundos das terras do açougueiro Farroupilha, com uma corda envolta do pescoço.
 
Subdelegado Napoleão, devido uma trombose, perdera as duas pernas.
Como se isso não bastasse, o estado avançado da tuberculose, fez com que ele amargasse terríveis dias, até o fim de sua vida.
Seu sofrimento era tanto, que o mesmo só pensava em tirar a própria vida.
Por esse motivo seu filho Lesma escondera todas as suas armas: e eram muitas.
 
Prazerosa mudou-se para a cidade de Irai, anos mais tarde soube-se que a mesma havia morrido.
Também se soube de que em seu atestado de óbito, estava escrito: doença desconhecida.
 
Lesma e Agostinho continuam praticando pequenos furtos.
 
Idelfonso Curandeiro casou-se com a viúva de Euclides
No entanto o mesmo continua odiando os ciganos.
 
João Permuta mudou-se para a capital, e continua trabalhando no comércio.
Segundo as últimas informações, sua loja na capital, está crescendo a cada dia.
 
Bernardinho e Luana casaram-se.
Como era muito azarado no garimpo, abandonou-o, e passou a trabalhar ao lado de seu sogro: o açougueiro Farroupilha.
Com a morte do velho Napoleão, o mesmo assumira o cargo de subdelegado de São Valentim.
 
O mesmo acontecera com Antônio Pedreira e Diva. Eles se casaram um mês depois.
O primeiro filho do casal atende pelo nome de Leto.
Atualmente o trabalho de Pedreira é cuidar dos garimpos do avô, e do sogro.
 
Expedito continua como sempre fora: não come ovos para não jogar as cascas fora.
 
Louquinho Cabo continua vendendo bilhetes de loterias.
 
Quanto ao guarda Albino, assim que acabara a festa da Ramada, ele deixara o povoado, e atualmente ninguém sabe o seu paradeiro.
 
Amaro, marido da Parteira, morrera devido um grande choque elétrico.
Dias após a sua morte, as autoridades estaduais fizeram uma vistoria em todos os garimpos.
Devido à falta de segurança, todos os proprietários foram multados, e obrigados a dar mais segurança nos garimpos.
A morte de Amaro fora à última nos garimpos da região.
 
Como de costume, nos finais de tardes, Adão Pezão, o açougueiro Farroupilha, mais Ernesto e Floriano, encontram-se no armazém do Tito, de nome Boa Freguesia, para bater papo.
 
 







 
SINOPSE
 
O texto retrata uma época, vamos dizer assim, romântica dos garimpos de pedras preciosas na região do Alto Uruguai, mais especificamente na cidade de Ametista do Sul, Rio Grande do Sul, Brasil.
Em decorrência da não utilização de equipamentos adequados, muitos garimpeiros morreram, e outros tantos ficaram inválidos para o trabalho mais trivial, enquanto outros estão em Porto Alegre, RS, na fila de espera para transplante de pulmão, que é o caso do meu tio Zeferino que chegou à capital em torno de um mês.
No entanto essas questões não são abordadas no texto, uma vez que meu intuito foi usar um cenário dos meus doze anos, idade em que deixei o lugar, praticamente no início dos garimpos, época em que ser garimpeiro era sinônimo de aventura, e os garimpos não eram máquinas de matar e aleijar.
A ausência de telefone, e as poucas vezes em que aparecem veículos dão um tempero de época à história, recheada com a maneira simples de um povo viver.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Aos poucos foi caindo à tarde. As luzes já começavam brilhar e iluminar o povoado São Valentim da Gruta.
Já não se ouvia o barulho dos compressores perfurando a dura rocha.
As batidas ritmadas e um tanto irritantes das marretas silenciaram-se.
O pó e o cheiro de pólvora queimada foram cedendo lugar à brisa da noite.
Pisando leve nos cascalhos que ficara nas brocas os garimpeiros deixam os garimpos.
 
No centro do povoado o subdelegado Napoleão, sentado na sacada de sua casa, bebe vinho, acende de quando em quanto o cachimbo e torce as pontas de seu espesso bigode branco.
Do lado de cima, à sua direita a escola, à sua esquerda a igreja e o salão comunitário.
Do lado de baixo o armazém Boa Freguesia, a farmácia do Idelfonso Curandeiro, e escrito em letras garrafais: Permuta do João.
As crianças dão gargalhadas, correm ao derredor da igreja, gastam energia sem preocupações. Pois sabem que o período em que se é criança a força se renova como a semente que brota com a terra impregnada de água da chuva.
Napoleão enche o copo a cada instante.
Coloca fumo no cachimbo, debruça-se na sacada, olha o movimento.
Diz para consigo que o inventor do vinho tinha um bom gosto invejável.
 
É noite de sexta-feira. As estrelas cercam a lua e admiram sua superioridade em grandeza e brilho. Os amigos encontram-se, cumprimentam-se, depois vão sentar-se na Boa Freguesia, e a conversa um tanto sem interesse começa desenvolver-se.
- Que vida boa, diz Ernesto, - uma noite iluminada que é de dar inveja aos mais belos cristais produzidos pelas sólidas rochas, cerveja gelada, um pito para contrabalançar, e uma prosa longínqua tomada pela modéstia!
Esse senhor de aparência calma, olhar sereno, rosto comprido, e um tanto enrugado, ostentando um grande anel de ouro com um cristal semiprecioso de cor roxa num dos dedos da mão esquerda, é um rico proprietário de garimpo.
Empolga-se e relembra o passado.
- No início plantávamos soja, milho e feijão, - começou ele, - um dia o solo empobreceu, mas como Deus é justo com São Valentim, as chuvas trouxeram consigo os rolados, cristais de grande valia. Depois foi a vez dos tratores rasgarem a terra e o tijolo mole: como Deus é justo apareceram mais e mais pedras semipreciosas. Hoje estamos trabalhando dentro das rochas, e continuamos encontrando cristais. Deus é justo com São Valentim!
 
Os inúmeros copos de vinho que o subdelegado esvaziara colocaram em relevo a sua assombrosa inveja.
Em seus olhos está a insignificância do brilho do cristal sem valia. Aquele que o fogo não consegue tingir com sua cor.
Tendencioso diz para consigo:
- No lugar de uma deplorável pobreza, hoje impera a riqueza. Floriano, no passado era um simples catador de rolados, hoje é dono de garimpo aqui em São Valentim, e no Salto Velho. Expedito, um pobre coitado: não tinha nada. Hoje é o seu Expedito. Atualmente esse povo simplório respeita mais os mesmos do que eu: a autoridade máxima do povoado!
 
Apareceu à porta da Boa Freguesia o Adão Pezão.
Esse senhor pés descalços, barba branca, olhar tristonho, humildade em pessoa, já caminhou lado a lado com a fome.
Mas com a descoberta de um grande lençol de cristal em sua pequena fatia de terra, ele tornou-se um senhor rico. Porém preservara a humildade.
- Sente-se, Adão, - sugere Ernesto.
Farroupilha da uma gargalhada e declara:
- Agora só está faltando o Floriano!
Esse homem de aparência rude é criador de gado e açougueiro.
Três, quatro, dias antes de abater uma cabeça de gado, o mesmo vai de casa em casa ofertando carne.
Na maioria das vezes toda carne é vendida antes mesmo do abate.
 
Na saleta do armazém os mais jovens jogam bilhar.
Conversa vai, conversa vem.
- E o Leto que até agora não chegou? – pergunta Bernardinho, alisando o seu taco com giz.
- Se não está em casa deve estar com a Prazerosa – responde Antônio Pedreira -, ultimamente ele corre atrás dela dia e noite; até parece que está apaixonado!
- Isso não é – afirma Bernardinho -, nada bom!
 
É perto da meia-noite.
Depois da Boa Freguesia e da casa do subdelegado o silêncio predomina, e a noite faz-se misteriosa.
Completamente embriagado Napoleão grita:
- Traga-me, mais vinho, mulher ordinária!
A senhora de mãos e rosto enrugado, e cabelos mesclados de preto e branco, timidamente resmunga:
- Por que não deixa um pouco para amanhã?
O subdelegado alterado, disposto a bater na esposa, vira-se para ela e diz:
- Mulher ordinária; desde quando lhe dei permissão para dar ordem? Ajuda-me a levantar-me, mulher imprestável!
Conhecendo bem o homem com quem havia se casado, a velha não pensou duas vezes: tratou logo de fugir.
Ao se dar conta que está só Napoleão enfurece-se, saca a arma e efetua uma série de disparos para o alto.
Os poucos fregueses que ainda estão na Boa Freguesia, assustam-se.
- Sem assombro, isso não é nada – assegura Tito, dono do armazém -, os amigos sabem como é o subdelegado; enche a cara depois coloca a mulher e o filho a correr!
 
A sala do armazém está praticamente vazia.
Antônio Pedreira e Bernardinho sentam-se do lado de fora, e com os ouvidos atentos escutam a conversa dos mais velhos.
- Napoleão é um sujeito extremamente cruel – diz Floriano -, seus atos são pura malvadez!
Pezão acrescenta:
- O subdelegado é covarde. Lembram como ele assassinou aquele garoto do povoado Saltinho? Atirou no pobre pelas costas, na maior covardia!
- Eu mesmo já tive o desprazer de provar do seu veneno – continua ele -, fiquei um mês na cadeia, sofrendo todo tipo de humilhação, sem saber o porquê de tudo aquilo!
Só depois de muito tempo é que Pezão ficara sabendo que o subdelegado tinha desconfiança que o mesmo era contra o regime militar instaurado na época, que por isso lhe prendera.
- Tempo difícil, - afirma Ernesto, deixando transparecer o desejo de apagar aquela página.
O açougueiro entra na conversa:
- Tem outra, o garoto estava com a razão: Lesma provocou e levou!
O dono da Boa Freguesia acrescenta:
- Lesma é filho do velho Napoleão. É bem como aquele ditado: a fruta não cai longe do pé!
A rua está deserta.
Só se vê luz no armazém do Tito e na casa do subdelegado; nas demais todos dormem.
- Vou-me, embora! – exclama Ernesto.
Como já é tarde, todos resolvem fazer o mesmo.
 
É um sábado de muito calor. O sol avermelhado mostra a eficácia de seus raios, e aos poucos afugenta as pessoas, que procuram escapar do calor escaldante junto à sombra das casas, e debaixo das árvores mais próximas.
Ernesto, mais seu neto Antônio Pedreira cruzam a velha ponte de madeira que liga os dois lados do povoado.
O objetivo de ambos é chegar ao salão comunitário, uma vez que é sábado, dia de reunião.
Como o mesmo objetivo o açougueiro Farroupilha cavalga em seu cavalo preto.
Idelfonso Curandeiro fecha as portas da farmácia, e junto com João Permuta atravessa a rua, e vai sentar-se à sombra, perto do local da assembleia.
Professor Noel, também conhecido como Dedo Duro, com seus livros e cadernos embaixo do braço, com uma das mãos ajeita o óculos, alisa os cabelos cor de fogo, sobe quatro, cinco degraus da escada que leva à igreja, e se junta aos outros em frente o salão.
Esse moço de aparência comportada, cabelo bem cortado, camisa abotoada até o colarinho é professor. Contudo o conhecimento não o impedira de ser um tremendo linguarudo.
Floriano olha em volta, movendo os olhos lentamente, bate palmas e pergunta:
- Podemos começar a reunião, ou ainda está faltando alguém?
Todos olham para os lados, e não registram a falta de ninguém, até o professor responder:
- Está faltando o seu Adão e o subdelegado!
Continua:
-Quando subia a escada da igreja, vi uma turba em frente à casa do seu Adão!
Ao ouvir isso todos correm à rua, ver o que está se passando.
Muitos se perguntam:
-Quem são eles? Dê que lugar veio esse povo?
Os mais velhos olham com desconfiança.
De repente Curandeiro se altera e grita:
-São aqueles malditos ciganos!
Respira fundo e acrescenta:
Desta vez eles não vão escapar!
Corre até a farmácia, pega uma espingarda antiga, daquelas carregada pela boca, e sai com o gatilho armado.
Seus olhos arregalados e vidrados revelam a sua momentânea falta de bom senso.
Floriano e Ernesto bem que tentam segurá-lo. Contudo o mesmo tem na cabeça um só pensamento: matar todos os ciganos, e tornar ameno o sentimento de perda, que parece um tumor maligno em seu peito.
Quase não tendo mais forças para tentar segurá-lo, Ernesto pergunta:
-Cadê o subdelegado?
-Até agora não chegou- responde Bernardinho.
-O que estão esperando; vão chama-lo!
Idelfonso luta, luta, mas não consegue desvencilhar-se dos braços que lhe envolve.
Num ato de loucura, grita:
-Me soltem; preciso matar todos os ciganos!
Subdelegado Napoleão coloca fumo no cachimbo, acende-o, da uma tragada, e num tom irônico murmura:
-Maldito verme metido a farmacêutico; não tem coragem se quer para atirar numa mosca, e agora quer da uma de valente. O que ele sabe é curar, não matar!
 
 
Depois de um tempo tudo se acalma.
Mediante efeito de calmantes, Curandeiro cai no sono.
Amaro, marido da parteira murmura:
-Coitado do Idelfonso, até hoje não esqueceu a falecida esposa!
Esse senhor de estatura alta, esquelético ao ponto que a cada movimento seus ossos dão a nítida impressão de que a qualquer momento rasgaram a pele, é mais um garimpeiro entre tantos outros, com uma diferença: os outros não são mandados pela esposa, assim como eles, que é proibido até mesmo de ir ao armazém bater papo, e beber com os amigos.
Seguidamente a gorducha Parteira desce o bambu em suas costas.
No fundo, no fundo ele tem inveja da viuvez de Curandeiro. Mas o que fazer: até doença parece ter medo da Parteira.
Os mais jovens nada entendem.
Perplexos gesticulam e cochicham:
-Quem iria imaginar que Curandeiro com toda aquela calma, esconde dentro de si um homem tenebroso?
Leto, filho de Floriano, vira-se para Amaro e pergunta:
-Que relação existe entre a morte da esposa de Curandeiro e os ciganos?
O infeliz marido da Parteira pensa um pouco, respira fundo e responde.
-A mulher de Idelfonso não se sentia bem; na época os ciganos estavam acampados no povoado. Uma velha cigana, vestindo saia verde, quase arrastando ao chão. Lenços coloridos amarrado na cabeça, e inúmeros colares em volta do pescoço, bateu em sua porta, e garantiu que o mal- estar de sua esposa não era grave, e com chás medicinais, preparados por ela, à mulher teria melhoras!
Após uma pausa acrescenta:
-Idelfonso acreditou na cigana, e gastou uma fortuna em chás, e a sua esposa definhando. Quando resolveu procurar ajuda médica para a mulher, já era tarde demais. O mesmo responsabilizou os ciganos pela morte da esposa, e até então os odeia.
Após mais uma pausa continua:
-Esse fato fez com que ele passasse a se dedicar as ervas medicinais, se tornasse proprietário de farmácia e o nosso Curandeiro!
De repente todos se voltam para o louquinho Cabo que grita:
-Olhe o bilhete, olhe o bilhete!
Louquinho Cabo é um apaixonado pela lei. Anda sempre fardado, e vendendo bilhetes de loteria.
Como é muito querido pelos policiais de Ametista do Sul, seguidamente ele ganha uma farda que realiza parte do seu sonho de pertencer à lei.
-Agora não é hora para vender bilhete de loteria, Cabo- diz Bernardinho.
Louquinho vira-se para o rapagão e responde:
-Lazarento; não compra de mim, depois vai comprar dos outros!
Por breves minutos todos esqueceram a dor de Idelfonso, e o riso foi geral.
-O facão sem cabo- retruca Bernardinho.
Cabo aposta na força da farda e responde:
-Seu lazarento. Vou te levar à justiça!
 
As crianças já estão dentro da igreja esperando o professor o Noel.
Aos sábados ele ensina as crianças os dogmas e preceitos da religião católica.
Floriano olha em volta e diz:
-As crianças já estão esperando o professor para aprender o catecismo. Idelfonso todos sabem, não tem condições, e Adão ainda não chegou, e o subdelegado parece não estar nem aí para essa reunião. Por isso a nossa reunião fica para amanhã depois da missa!
A palavra de Floriano é tudo o que eles querem ouvir, porquanto já não mais tinham cabeça para reunião.
 
A saleta da Boa Freguesia está abarrotada, e faz-se enorme algazarra.
Os mais velhos sentam-se ao derredor das mesas, colocadas do lado de fora do armazém. Inclusive Amaro.
Hoje o mesmo tem um bom argumento para escapar das bordoadas da Parteira.
Os jovens vão sentar-se embaixo das árvores ao lado da igreja.
Professor Noel a passos lentos entra para passar as crianças o conteúdo religioso daquele sábado.
 
Subdelegado Napoleão torna a sentar-se na sacada de sua casa. Derrama vinho no copo, olha com desprezo os seus protegidos.
-Ganharam dinheiro, e agora se acham importantes-murmura ele, com o pensamento totalmente desvirtuado-, pois para mim, eles continuam sendo como sempre foram: uns pobres coitados!
Decide em seu coração encontrar um meio de semear a discórdia entre os moradores do povoado.
Ernesto e Floriano sempre foram bons amigos. Ademais o neto de um estava para casar-se com a filha do outro. Adão Pezão, desde a infância era chegado aos mesmos. Sobrava o Expedito. Mas esse não fedia e não cheirava. Seus filhos, sim: eram baderneiros natos.
Vê ali uma remota possibilidade de colocar em prática o seu intento.
O sol ainda exerce seu calor, sem restrição de nuvem alguma. Professor Noel da por encerrada a aula de sábado. As crianças, correndo, gritando e dando gargalhadas, deixam o recinto sagrado.
Subdelegado, contrariado e bastante irritado murmura:
-Até agora tenho aturado o gazear dessas malditas andorinhas; agora, para completar, veem todas essas pestes de crianças. Elas me tiram do sério!
A criançada guia o seu pensamento até o professor, e de imediato chega à conclusão de que o mesmo é o instrumento perfeito para fazer com que os filhos de Expedito se voltem contra os maiorais do povoado.
Espera Noel ficar só, e grita:
-Chegue-se aqui, professor; vamos conversar!
-Esse velho tinhoso está querendo alguma coisa- diz Dedo Duro para consigo. -Nunca se deu o trabalho de me cumprimentar, e agora vem com boas maneiras?
Ficou um tanto cabreiro, mas aceitou o convite.
-Sente-se, professor -, sugere Napoleão com um olhar astuto.
Gastam sem proveito alguns segundos de papo furado.
-Estive conversando com o meu filho, e sem querer fiquei sabendo que você gosta da filha do açougueiro-, começa o subdelegado manhoso como de costume. -Mas pelo que sei, a mesma namora o garoto Bernardinho?
Noel arregala os olhos, e como se não estivesse entendendo, responde:
-Não sei do que o senhor está falando!
 Após a gargalhada estrepitosa, Napoleão diz:
-Não se faça de bobo; você sabe muito bem do que estou falando!
Cala-se um instante e acrescenta:
-O professor quer a filha do açougueiro, e eu quero jogar os filhos de Expedito contra Floriano, Ernesto, e o maltrapilho Pezão: vamos unir forças, e partir para o embate com a certeza absoluta da vitória?
Dedo Duro salta da cadeira e responde:
-Isso é loucura; ademais eu já tenho um plano para conquistar a filha do açougueiro Farroupilha!
O subdelegado faz um tremendo esforço para manter-se calmo, e com ar de zombaria declara:
-Sem minha ajuda, o professor, jamais conseguirá conquistá-la; pois ela jamais ficará com um moço que é motivo de piada aqui em São Valentim!
-Como assim, motivo de piada?- pergunta Noel, não gostando nada, nada, da direção que a conversa havia tomado.
Com morosidade Napoleão responde:
-Em primeiro lugar vou lhe dar um conselho: não continue usando o diploma de professor e a fama de religioso para fugir de sua essência. Em segundo lugar, quando você está na presença desse povo todo, inclusive do açougueiro, os mesmos te chamam de professor Noel; mas nem bem o professor vira as costas, passam a chamá-lo de Dedo Duro. Se não acredita em mim, pergunte ao meu filho ou aos filhos de Expedito?
O professor sente-se humilhado, derrotado fisicamente e moralmente, muito deprimido interiormente. Quer falar, mas não consegue. Pois se julgava um rapaz de respeito, ativo em obras dentro daquele povoado, e agora estava descobrindo que os seus esforços não eram reconhecidos.
Napoleão retoma a conversa:
-Bem, como estava lhe dizendo, precisamos unir forças; só assim conseguiremos derrotá-los!
-Vou-me embora!-exclama o professor. - Mas antes aperte a minha mão, para selar nosso acordo!
E rapidamente desce a escada.
O subdelegado bebe um gole de vinho e diz:
- Esse garoto é dos meus; pena que não seja meu filho!
 
 
A caminho de casa, professor Noel, pensa, repensa, e fastidioso diz para consigo:
-Dedo Duro! Então é isso o que eles falam de mim. Os mesmos vão pagar caro por essa injúria; pois vou honrar o apelido!
 
O sol que antes brilhara forte, agora se mostra tímido, e aos poucos vai sumindo, desaparecendo no horizonte.
Ao contrário dos outros dias, não se vê garimpeiros andando apressados em direção as suas casas.
Rumo ao armazém, Adão Pezão, faz um cigarro de palha, acende-o, da uma boa tragada e mostrando-se inconsolado murmura:
-Os ciganos em minhas terras; por essa eu não esperava. É bem capaz de o Idelfonso ter uma recaída, e fazer o maior escarcéu. Depois tem aquela história de que os mesmos são todos bruxos, e o desconhecido mete medo; é melhor não complicar com esses forasteiros!
 
Margarete Prazerosa cruza a velha ponte de madeira, e faz da rua principal, passarela.
Toda a atenção volta-se para ela.
Seu andar atrevido é um convite ao pecado. Seus lábios carnudos, pedindo beijo, parecem os portões do paraíso, segundo a vontade de possuir do homem carnal. Os longos cabelos pretos, a pele morena, e o seu lindo corpo, despertam o desejo, carruagem para se chegar ao prazer relativo à carne.
 
Bernardinho e Luana, assim como Antônio Pedreira e sua noiva Diva, vão-se embora.
Leto roxo de ciúmes, dobra a esquina, e na velha ponte de madeira, fica esperando Prazerosa, que vai ao armazém, entra, e logo torna a sair.
-Essa potranca eu gostaria de montar- diz o açougueiro Farroupilha-, queria lhe sentar as esporas, só para ver a bichinha dar corcovos, pinotes!
Floriano baixa a cabeça e responde:
- Não diga asneira, Farroupilha; em primeiro lugar a mesma está longe de ser uma potranca. Em segundo, é vergonhoso, nós, quatro senhores já de certa idade, olhando com os olhos torvos, cheios de desejo, para uma moça que vimos nascer e crescer!
-Eu estou velho, não morto?- diz o açougueiro com ar de deboche. -Depois tem outra: qual o homem que não a deseja?
Leto avista Prazerosa, e a disritmia toma conta do seu coração. O mesmo fica sem saber se vai encontrá-la, ou se fica ali, esperando-a.
A hesitação imperou por alguns segundos. Mas logo ele optou em conter a ansiedade.
 
Enquanto isso Adão Pezão chega à Boa Freguesia, cumprimenta os amigos, puxa uma cadeira e senta-se.
A curiosidade está nos olhos e no semblante de Floriano, que é o primeiro a interrogá-lo:
-Como se saiu com os ciganos, Adão?
Pezão tira do bolso o saquinho de fumo, e uma palha da orelha, e com uma calma espantosa responde:
-Tentei falar com os mesmos numa boa, e acabei ouvindo um manancial de insultos. Pensei em chamar o subdelegado; mas esse há tempo esqueceu a sua obrigação que é manter a ordem aqui em São Valentim. Por isso decidi deixá-los em paz; pois segundo dizem, eles são todos feiticeiros, bruxos, e mexer com bruxaria é coisa séria!
O marido da Parteira passa as mãos no rosto e diz:
-O amigo fez a coisa certa!
Cala-se um instante e acrescenta:
-Quando é amanhã ou depois eles começam andar de porta em porta, vendendo uma só espécie de erva medicinal, e que dizem curar todos os tipos de doenças!
A gargalhada é geral.
 
Leto, frente a frente com Prazerosa, não resistiu. Deixou de lado o medo de que alguém os visse, e caiu em seus braços.
A mesma lhe da um beijo, empurra-o, e com ar de ri diz:
-Agora não, eu estou com pressa; vai mais tarde lá à minha casa!
O garoto desconfiado pergunta:
-Por que a pressa?
Prazerosa passa a mão em seu rosto, e com um sorriso malicioso responde:
-Não é o que está pensando, Leto. É que eu tenho um assunto urgente para resolver; por isso a pressa!
Aflito, Leto fez uma nova pergunta:
-Que assunto é esse, conte-me, talvez possa lhe ajudar?
Ela olha para o garoto com carinho. Lhe da mais um beijo e responde:
-Desculpe-me, Leto. Esse assunto, eu mesma tenho que resolver!
Já saindo acrescenta:
-Mais tarde nos encontramos!
O garoto chega à rua principal. Pensa no dia em que não precisará dividir os carinhos de Prazerosa com mais ninguém, e como esse dia será bom.
 
Começa surgir no céu às primeiras estrelas. Um vento preguiçoso sopra de leve, contrariando o calor abafado.
Muitos moradores do povoado sentam-se nas sacadas de suas casas, tomam chimarrão, olham o movimento, colocam a conversa em dia.
-Bom, está na minha hora!-exclama Amaro.
Despede-se dos amigos, e parte levando consigo o medo, a preocupação, e o desejo de encontrar um incremento para a desculpa que terá que dar a Parteira.
O açougueiro Farroupilha da uma gargalhada debochada e declara:
-Coitado do Amaro, hoje vai ser quase impossível, ele escapar das garras da Parteira!
Respira fundo e acrescenta:
-Acho que aquela gorducha não é certa da cabeça!
Todos fizeram sinal com a cabeça, concordando.
Pezão admira o céu repleto de estrelas, como se fosse a primeira vez. Desfruta a tranquilidade da noite e a companhia dos amigos, com extrema satisfação.
O coração enche-se de alegria, e ele murmura:
-Só Deus sabe o quanto eu gosto de São Valentim. É aqui a nascente da paz!
-Na maioria das vezes, as coisas mudam para pior- continuou -, mas nós podemos nos orgulhar: nosso povoado mudou para melhor; o velho Napoleão deixou de lado as perseguições, e hoje passa o tempo bebendo vinho, e fumando cachimbo, enquanto entre nós reina a harmonia!
Ernesto interrompe:
-Tudo que o amigo falou é verdade. Tanto mudou que os garotos, hoje têm a felicidade de ter a disposição a Prazerosa. No nosso tempo não tínhamos ninguém para nos dar prazer!
Terminada a sessão de risos.
-Acho que a Prazerosa não faz sexo por prazer- diz o açougueiro-, mas sim por esporte!
 
A noite é dos namorados. Leto vai ter com Prazerosa.
Chega, vê a sala abarrotada, entra, olha em volta, e vai sentar-se num cantinho.
Bernardinho e Luana trocam beijos e carícias. O desejo toma conta de ambos, que se assustam com o barulho e os gritos no portão.
Bernardinho abotoando os botões da camisa, diz para consigo:
-Velho nojento, resolveu chegar justo, agora; é muito azar!
Luana corre até a porta, abre-a, e surpresa diz:
-O cavalo está no portão, mas cadê o pai?
Bernardinho vai até a porta, e cai na gargalhada ao ver o açougueiro escorado no muro gritando:
-Maldição, esse pangaré não conseguiu pular um portão desses? Isso é pura maldição!
Após virar-se para a namorada, Bernardinho com ar de zombeteiro diz:
-Parece que o teu pai exagerou na bebida!
-Você ainda tem dúvidas? - diz ela toda envergonhada.
 
Na casa de Prazerosa o inferninho está montado. Gente estranha, bebem, fuma, perdem-se na fumaça.
Olhando da rua da para dizer que tudo lá dentro, está pegando fogo. Mas que tem coisa pegando fogo tem: Leto e Prazerosa é um fogo só.
Apesar de reforçado, o garoto sente-se pequeno nos braços dela. Boca, seios, coxas, é o paraíso, diz o mesmo.
E dois corpos banhados em suor transformam-se em um só.
 
Bernardinho olha para Luana com o olho torvo, não escondendo o desejo de possui-la. Mas como sabe que isso será impossível, resolve ir embora. Pois Farroupilha, bêbado acordara todos os da casa, e eles levantaram-se, e ficaram fazendo sala, ao contrário de Antônio Pedreira e Diva, que se entregaram ao amor.
 
 
É uma bela manhã de domingo. Depois do término da missa, os integrantes do grupo de jovens, e mais os membros da diretoria da sociedade, juntam-se para a reunião.
Logo após um acordo, padre Santiago pensa nos lucros que terá com a festa e declara:
-Achei uma excelente ideia, em vez de um, fazer dois dias de festas!
Depois de um lapso de tempo acrescenta:
-Só tem um, porém: eu não posso aprovar essas danças de frescos existentes hoje em dia. Tá certo, a tradicional festa da Ramada trás gente de todas as partes; inclusive do Rodeio Bonito e Ametista do Sul, e essas pessoas têm gostos variados. Contudo não há outro jeito; é meu dever reprovar danças de frescos. Pessoas decentes, danças decentes. Bom, é isso, tenham um bom dia!
 
A rua principal está movimentada. Casais com seus filhos menores passeiam, e admiram os cristais azuis dos dois bojos, ao lado da cruz grande em frente à igreja.
Louquinho Cabo aproveita o ensejo para vender bilhetes de loteria. Em frente a Boa Freguesia encontra as linguarudas Lucrécia e Diamantina, para, vira-se para elas e diz:
-Olhe o bilhete, olhe o bilhete!
Lucrécia faz uma falsa cara de nojo, quando na verdade está desejando o louquinho. Cabo é o homem perfeito para apagar o seu fogo.
Durante muito tempo o Gago fora o seu objeto de prazer.
No entanto, depois que encontrara a muda, o mesmo não quis mais saber da linguaruda Lucrécia, que responde:
-Vá vender bilhetes para pessoas loucas como você!
-Lazarenta, não compra de mim, depois vai comprar dos outros- diz louquinho irritado.
E segue em frente, resmungando e gesticulando.
-São Valentim já foi um bom lugar para se viver!- declara Diamantina-, hoje somos obrigadas a conviver com esse tipinho de gente!
-É verdade- responde Lucrécia com um sorriso a contragosto estampado no rosto-, São Valentim já não é o mesmo!
 
Os jovens contrariados descem as escadas do salão comunitário.
-Padre Santiago é um típico ditador!- declara um deles.
Outro se lembra do padre anterior a Santiago, que tinha uma amante, e abandonara o sacerdócio para casar-se com a mesma.
Um terceiro recorda que na missa, logo após a festa da Ramada do ano anterior, o padre ditador condenou a música, e como castigo, lhes obrigou a ir de casa em casa recolher donativos para a paróquia da cidade de Ametista. Galinhas, porcos, cereais, tudo era acolhido com prazer.
Durante uma semana os mesmos desfilaram pelas ruas de São Valentim, com galinhas embaixo dos braços, repontando porquinhos, e carregando sacas de cereais nos ombros até o salão comunitário.
E por azar, justo naquela semana chegara uma excursão da cidade de Rodeio Bonito para conhecer a gruta de São Valentim.
Em poucos segundos o pessoal da excursão havia congestionado o acesso à igreja.
Aquilo mais parecia dia de missa.
A maioria era pessoas idosas. No entanto as poucas moças que estavam juntas e foram pedir informação a eles, como diria o açougueiro Farroupilha: era florão de tropa. E as mesmas lhes haviam feito perder o rumo.
Como castigo o padre ditador tinha lhes obrigado a recolher donativos, e ali estavam eles: uns com galinhas, outros com porquinhos e sacas de cereais nos ombros.
Na verdade o que os mesmos queriam naquele momento, era fugir, desaparecer, ou então matar o dissimulado Santiago: ele era o responsável por aquele instante vergonhoso para eles.
Todos ficam em silêncio. Depois de um tempo Leto diz:
-É duro, mas vamos ter que acatar as ordens do padre Santiago. Contrariá-lo não é um ato de bravura, mas sim casmurrice!
Todos balançam a cabeça concordando com ele.
Já os mais velhos deixam o comunitário sorrindo a toa.
Pois pela primeira vez o padre não havia reprovado a atitude deles.
Professor Noel sai despercebido, e vai ter com Lesma, filho do subdelegado.
Esse rapaz de bigodinho, estatura média, olhar desconfiado, com preguiça até de falar, gosta de achincalhar e estimular confusão. Mas no fundo é um grande covarde.
Andando apressado o professor deixa a casa de Lesma.
Tito assiste a tudo do armazém. Com desconfiança murmura:
-Estranho o professor e o filho do velho Napoleão, juntos? Algo eles estão tramando, e conhecendo os dois como eu conheço coisa boa não deve ser!
A Boa Freguesia está vazia. Tito fica parado na porta.
Tenta lembrar-se de algo que possa ligar Noel à Lesma, mas nada vem a sua memória.
O encontro dos dois torna-se um mistério para ele.
 
O meio dia está chegando. As pessoas que havia ficado conversando após o término da missa, aos poucos vão despedindo-se umas das outras e partindo rumo as suas casas.
O resto do dia passa silenciosamente. Poucas crianças brincam ao derredor da igreja.
A sala da Boa Freguesia continua como antes: vazia. Tito aproveita, e faz um rápido balanço de tudo que vendera e lucrara no final de semana.
A calma e o silêncio entrara noite à dentro. O que se escuta é de quando em quando um cachorro latir. A calma é tanta que a certo ponto confunde-se com tristeza.
 
Mais um dia nasce. Uma nova semana de trabalho está começando.
Nuvens escuras surgem no céu. A chuva não tardará a chegar.
Em todos os cantos se vê garimpeiros apressados, subindo os morros, em direção aos garimpos.
Não poderia ser diferente com Antônio Pedreira.
Mesmo sendo neto de Ernesto, um rico dono de garimpo, Pedreira é um garimpeiro, assim como tantos outros, e orgulha-se disso.
O simples fato de levantar-se, e ir para o trabalho já o deixam feliz, porquanto sabe que dentro das brocas tudo pode acontecer.
Todos são aventureiros em busca de tesouros, e este tesouro, a qualquer momento poderá surgir na frente deles. Isso muito o atrai.
Os compressores começam funcionar. Os garimpeiros entram nas brocas, e com calma vão rosqueando as lâmpadas nos suportes até chegar ao local de seus trabalhos: cento e vinte metros rocha dentro.
Uns com os martelos dos compressores nas mãos, furam a dura rocha para novas explosões.
Outros, com carrinhos de mão retiram os cascalhos que ficara nas brocas desde a semana passada.
Antônio Pedreira enche de pólvora o primeiro furo, acende o estopim, e acontece a primeira explosão do dia.
Pedaços de pedra desprendem-se da rocha e aglomeram-se no interior da broca, completamente tomada pelo pó e o cheiro de pólvora queimada.
Aos poucos tudo se acalma.
Com o máximo cuidado para não tropeçar nos pedaços de rocha, Pedreira retorna ao local da explosão.
Ao ver uma mancha verde destacando-se no meio da cor cinza, deixa vir à tona a emoção, e murmura:
-Como é boa essa vida de garimpeiro: principalmente que se depara com este tipo de momento!
Cala-se um instante e acrescenta:
-Talvez essa mancha verde esteja protegendo os mais belos cristais ametista, ou faz parte de um bojo azul; como também poderá ser uma massa, ou ainda um bojo branco sem valor algum!
Torna a olhar, e percebe um trincado na mancha, e descarta a possibilidade de ser uma massa.
Bate com a marreta pequena no lado trincado, e enche-se de alegria ao ver os cristais azuis.
Faz um exame detalhado do bojo, e com extrema satisfação interior diz para consigo:
-Não é um bojo grande; mas os cristais são limpos e de cor! É com certeza já ganhei a semana, e por que não o mês?
 
Começa cair os primeiros pingos de chuva.
Professor Noel dispensa a classe para o recreio.
Lesma abre o portão, e segue apressado até um dos corredores, aonde lhe espera o professor.
Os dois aproximam-se da irmã mais nova de Luana.
Noel lança um olhar astuto, e começa o bate papo recheado de más intenções.
 
A chuva passa a cair intensamente.
Em sua lojinha João Permuta olha atentamente o monte cacaria pendurada nas paredes, e murmura:
-Segundo os médicos, aquele pó de rocha causa um grande mal ao organismo humano. Mas não vejo outra saída: se as coisas ficarem como estão, serei obrigado a trocar o comércio pelos garimpos, antes que a fome bata em minha porta!
Resolvi ir ter com Curandeiro.
-Aquilo que os médicos falaram a respeito do pó de rocha, é verdade?- perguntou ele, mostrando uma dose de medo.
Idelfonso continua debruçado sobre o balcão, e não responde. Pois o seu pensamento está voltado para os ciganos.
O mesmo que encontrar um meio de atacá-los.
Melancólico olha a chuva lavar a soleira da porta.
João Permuta torna a olhá-lo, e de um jeito terno toca em seu ombro e pergunta:
-Por que está tão calado e pensativo, amigo?
Curandeiro assusta-se, da um pulo para trás e mostrando abatimento responde:
-Me desculpe. Estava aqui distraído com minhas ideias!
-Não me diga que ainda está pensando nos forasteiros? Se for acho uma perda de tempo: o que passou, passou!
Curandeiro tira do bolso um retrato em meio busto da sua falecida esposa, entrega a João, e declara:
-Não posso esquecer os patifes. Vivo em função do meu desejo de vingança. Se eu esquecê-los, não há mais razão para viver?
João pensa um pouco, e de um jeito amorável responde:
-O amigo tem grande aptidão para as coisas; sempre atenta para as nobres causas. É um cidadão notável; não mais pode se deixar levar pelo ódio.
Após respirar fundo continua:
-O amigo declarou que vive em função do desejo de vingança. E se concretizar sua vingança, não será o mesmo que esquecê-los? E daí, quais motivos terá para continuar vivendo? O amigo não acha melhor deixá-los de lado, e continuar vivendo do desejo de vingança?
Idelfonso pensa um instante e diz:
-Talvez o amigo tenha razão!
 
Enquanto isso num dos garimpos, Pedreira com a marreta grande em punho, quebra os pedaços maiores, e aos poucos vai tirando da broca os pedaços menores para mais tarde, com uma talhadeira começar cortar a laje para retirar o bojo.
 
Na broca ao lado Bernardinho, com o rosto e os braços cobertos por uma fina camada de pó, exclama:
-Desgraceira sem fim: três explosões, e nada de cristais. Um mês sem encontrar se quer uma massa. Já está na hora da sorte sorrir para mim!
 
Muitos garimpeiros sentem-se, assim como Bernardinho: frustrados; mas não desanimados.
Afinal, é só limpar as brocas, fazer novos furos, enchê-los de pólvora, e acender o estopim, e as esperanças estão refeitas.
 
Albino, o guarda do garimpo, entra na broca onde está Antônio Pedreira, cumprimenta-o, e em seguida pergunta:
-O garoto Antônio encontrou algo de valor?
Pedreira faz ar de rir e responde:
-Encontrei um bojo. Os cristais são limpos e de cor: pena que é pequeno!
O guarda aproxima-se do bojo, olha atentamente os cristais azuis claros e transparentes.
-Começou bem a semana, Antônio!- diz ele.
-Não quanto o Euclides da broca cinco, que achou uma ametista – continua-, mas já é um bom começo!
Este forasteiro, cabelos grisalhos, ondulados e compridos, sempre alisando o cavanhaque, sabe-se que veio da cidade de Irai, e nada mais.
Seu passado aparenta ser cheio de anomalias. Contudo, o povoado simpatizou-se com o mesmo: deixaram a minúcia de lado, e acolheram-no amoravelmente.
O garoto surpreso diz:
-Depois de tanto tempo uma ametista? Isso é bom; muito bom!
Tira o boné da cabeça e sugere:
-Vamos vê-la?
O guarda fez sinal que sim com a cabeça.
 
Os garimpeiros em volta do bojo, dizem uns para os outros:
-Nosso trabalho é árduo, mas compensador!
O jovem Antônio aproxima-se do bojo, olha as calcitas que mais parecem um castelo de vidro no meio dos cristais azuis, bem escuros, vai para junto de Albino, um pouco retirado dos outros, e estupefato diz:
-A natureza tem um poder magnífico!
O guarda abre um sorriso plangente, e responde:
-É verdade. Pena que são poucas as pessoas que percebem isso!
-Preste atenção nos garimpeiros, ali-, continua. – Eles tiram as medidas do bojo, calculam o valor dos cristais, e das calcitas: não param um segundo se quer, para pensar nos milhões de anos que a natureza levou para concluir essa obra tão preciosa!
 
Calma-se a chuva.
O sol surge timidamente entre as nuvens escuras, mas logo torna a desaparecer.
As crianças deixam o colégio.
Os garimpeiros estão indo almoçar em suas casas.
A rua principal fica extremamente movimentada.
Em sua casa, Ernesto debruça-se na janela, e fica contemplando a beleza das flores de seu jardim.
Maravilhado escuta o gorjear dos sabias nas amoreiras junto ao riacho.
 
Pedreira e seu irmão Zé, encontram-se no portão.
-Encontrou alguma coisa de valor?- perguntou o garoto.
Com mesura Antônio responde:
-Encontrei um pequeno bojo...!
Nem bem ele termina de falar, Zé entra correndo casa a dentro.
-O que aconteceu, Zé?- grita Ernesto.
- O Antônio encontrou um bojo, - responde o garoto-, e eu vou retirá-lo da rocha para ele!
Sorridente Ernesto vira-se para Pedreira, e diz:
-Meus parabéns, Antônio; começou bem a semana!
-Nós começamos bem a semana, vô!- diz seu neto-, porque o Euclides, irmão do professor Dedo Duro, encontrou uma ametista!
Já pensando na porcentagem, Ernesto murmura:
-Uma ametista. Depois do almoço vou subir ao garimpo vê-la!
Zé antecipa-se a eles, e diz:
-Bem, eu já vou subir!
Com um leve toque de repreensão, Pedreira responde:
-Espere um pouco mais, Zé; o vô também vai subir. Vamos juntos!
Mas o garoto ansioso para começar cortar a laje, e retirar o bojo, não escutou o irmão, e saiu rumo ao garimpo.
 
No armazém da Boa Freguesia os comentários começam.
Um garimpeiro magro e alto declara:
-Euclides encontrou uma ametista!
Outro arrivista diz:
-O mesmo não é merecedor desse caso fortuito!
Por sua vez Tito declara:
-Não sei se Euclides merece ou não: só sei que ele terá dinheiro para pagar o que me deve!
Novamente a caminho do garimpo, Bernardinho mergulha o pensamento em sonhos: cristais, dinheiro, e a certeza do amor de Luana, que em casa, arrepelando-se de raiva, murmura:
-Se o Bernardinho pensa continuar me enganando, está redondamente enganado!
 
Com a intenção de ver os cristais ametistas, Ernesto entra na broca cinco.
Seu neto Pedreira vai até a broca, aonde trabalhara a manhã inteira, e depara-se com seu irmão Zé caído num canto.
Gelado de espanto ficou sem saber o que fazer.
Queria gritar, chorar, mas não conseguiu.
Ernesto e o guarda Albino vão broca a dentro.
Ainda um tanto distante o guarda percebe uma lâmpada desligada, e diz:
-Estranho, uma lâmpada desligada? Será que aconteceu alguma coisa?
O velho dono do garimpo corre até seus netos.
Vê Zé caído. Atira-se em cima do corpo e pergunta:
-O que aconteceu, Antônio? O que aconteceu?
Transtornado Pedreira não responde.
Seu coração não quer acreditar no que os seus olhos estão vendo.
-O que aconteceu, Antônio? – pergunta novamente Ernesto.
O guarda olha a rede elétrica, vira-se para o velho e afirma:
-Tudo indica que o garoto foi rosquear a lâmpada no suporte, e encostou a mão onde não devia, e foi eletrocutado!
Uma dor monstruosa invadiu o peito do velho Ernesto.
Desesperado o mesmo grita:
-Meu Deus! O que eu fiz para merecer tanto castigo? O Senhor já levou os pais dos meus netos, naquele maldito acidente; agora quer leva-los também? Por favor, me poupe de mais essa dor: não leve meu neto!
Angustiado o guarda olha Ernesto segurando nos braços o corpo sem vida do neto.
Quer fazer algo para acalmar a dor do patrão, mas sabe que não tem mais nada a fazer, a não ser avisar os outros garimpeiros.
 
A notícia da morte de Zé, logo se espalhou pelo povoado.
As pessoas começam aglomerar-se em frente a igreja com um só objetivo: saber mais a respeito da morte do neto do velho Ernesto.
Curandeiro sai à rua, e com o coração ainda cheio de ódio grita:
-Quando eu falo ninguém me escuta. Agora vocês estão vendo: foi só chegar os ciganos que a desgraça se manifestou!
Uns ficam assustados, e dizem:
-Esses forasteiros, deveras, são sombrios. É melhor debandar; ficar perto deles é um perigo!
Outros irresolutos murmuram:
-Este povo não pode transmitir tanto azar, assim. Eu não acredito. O que aconteceu com o garoto Zé, foi uma fatalidade; poderia ter acontecido com qualquer um!
 
 
O subdelegado que assiste a tudo a distância, da uma gargalhada estrepitosa e murmura:
-Espero que o Idelfonso continue a incitar essa gente mentecapta. Pois quero vê-las em atrito com os ciganos!
 
Parado na porta da Boa Freguesia, Tito assombrado com a atitude de Curandeiro diz:
-Estranho! Curandeiro sempre foi um homem notável. Como pode de repente começar a estimular confusão? Não estou compreendendo nada?
 
A verdade banal deixara Pedreira sem ação. Bernardinho e o guarda Albino pegam-no, e levam-no para casa.
Logo em seguida os dois entram em uma das vielas, e seguem em direção à farmácia de Curandeiro, no centro do povoado.
O guarda alisa os cabelos molhados pela fina garoa e declara:
-É amiguinho, para morrer basta estar vivo!
Ainda um tanto perplexo com o que acabara de acontecer, Bernardinho responde:
-É triste, mas é verdade!
A chuva torna a cair com intensidade. Bernardinho e o guarda entram rapidamente na farmácia.
A rua logo fica alagada. Os pingos d’água, embalados por um vento forte, entram porta dentro.
Curandeiro deixa de lado a mesura, e um tanto tresloucado pergunta:
-Como aconteceu o acidente que resultou na morte do garoto Zé?
Respira e em seguida acrescenta:
-Não tenho dúvidas: tem dedo dos ciganos nesta tragédia!
O guarda um pouco constrangido responde:
-Me desculpe Idelfonso, mas culpar os ciganos pela morte do garoto é leviandade!
Adverso à realidade, Curandeiro declara:
-Todos esses forasteiros são feiticeiros amaldiçoados: tanto é verdade que nem pátria eles têm!
-Patriotismo não vem ao caso, - responde Albino. – Os ciganos são espertos; e se bobear eles enganam mesmo!
Cala-se um instante e acrescenta:
-Essa história de feitiçaria é bobagem; só os tolos acreditam nisso!
Vira-se para Bernardinho e ordena:
-Compre os calmantes, e vamos nos retirar!
E mesmo caindo muita chuva, em seguida os dois deixam a farmácia.
Revoltado com a afronta do guarda, Curandeiro murmura:
-Guarda salafrário, é astuto como todos os outros forasteiros. É melhor eu tomar cuidado com ele; pois não quero mais surpresas vinda desse tipo de gente!
 
O corpo de Zé é levado à igreja para ser velado. Muitas pessoas ali já se faziam presente: uns com a intenção de tresnoitar, outros apenas para ver o corpo do garoto.
Horrorizada, Catarine, esposa de Ernesto começa delirar.
Por sua vez, Ernesto, com um olhar imensamente triste murmura:
-Meu Deus do céu! O que fiz para merecer tanto castigo?
Inutilmente procura encontrar forças para conter o padecimento, que é um turbilhão de dor em seu peito.
 
Ao contrário de Ernesto, Euclides, com toda a morosidade e volúpia, acende um cigarro, da uma tragada, sobe uma das vielas, entra na rua principal, encontra seu irmão Noel e diz:
-A sorte sorriu para mim, meu irmão: encontrei uma ametista!
O professor, tendencioso, baixa a cabeça e responde:
-Estou sabendo!
Já saindo acrescenta:
-Mais tarde conversamos, uma vez que agora tenho que ir à igreja.
E segue em frente.
O mesmo já parece ver a expressão de dor e desgosto no rosto de Ernesto, e de seus familiares.
Sombrio diz para consigo:
-Só quero ver a cara do Antônio. Deve estar completamente desvairado!
Mas o seu desejo não se concretizou, uma vez que um calmante bastara para colocar mente e corpo de Antônio, em estado de dormência.
 
Um pouco mais calmo, o guarda Albino, vira-se para Bernardinho e diz:
- Agora não é preciso nos preocupar com o Antônio, visto que só acordará amanhã de manhã. Podemos ir até o local do velório despreocupado!
Bernardinho lembra-se das palavras de Curandeiro, e pensativo pergunta:
-Aquilo que o Curandeiro falou a respeito dos ciganos, faz algum sentido?
O guarda fica um tempo em silêncio, e em seguida responde:
-Não sei lhe responder. Sabe-se que eles têm o dom de ler a mão. Agora, nunca ouvi dizer que sejam feiticeiros!
Cala-se um instante e acrescenta:
-Penso eu que Idelfonso está sendo infantil no que diz respeito a esse caso. Sua pertinácia pode se transformar em algo malévolo!
Um tanto arredio Bernardinho murmura:
- Agora, que os mesmos são metidos a espertos, e gostam de terrificar, ninguém pode negar?
Surpreso com as palavras do garoto, o guarda responde:
-Metidos a espertos, deveras, eles são. Agora que gostam de terrificar é exagero!
 
A noite chuvosa deveria ser igual a tantas outras noites de chuva, para os moradores do lugar. Mas não: essa noite era diferente.
 Ela parecia ser mais escura; totalmente fúnebre.
A chuva parece fazer parte da anomalia.
 O vento espalha padecimento e tristeza em todos os cantos.
 Sente-se a presença do anjo da morte.
Na parte da tarde o mesmo visitara um dos garimpos, e escolhera o garoto Zé, para levar, e parece que vai esperar o sepultamento, para depois deixar o povoado.
 
Hora garoa e calor abafado. Hora chuva intensa e um vento confortante.
Assim a manhã cede lugar à tarde, que chega misteriosa.
As pessoas vão aglomerando-se, dentro e fora da igreja, para o último adeus a Zé.
O choro ficara preso na garganta de Antônio Pedreira.
Dominado pelo desgosto, ele olha o corpo do irmão deitado no caixão e murmura:
-Destino malévolo, tinha que escolher justo o meu irmão?
Subdelegado Napoleão aproxima-se do caixão, olha o corpo sem vida do garoto, e em voz baixa diz:
-Sinto muito, garoto: seu vô era quem deveria ter morrido; não era você, uma coisinha insignificante, sem préstimo, incapaz de fazer mal a alguém!
Cala-se um instante e acrescenta:
-Foi melhor assim. Pois mais dias ou menos dias, você seguramente iria me afrontar. Agora posso descartar essa hipótese!
Do lado da sacristia, Leto e Tito assistem a tudo.
Desconfiado, o dono da Boa Freguesia, vira-se para Leto e pergunta:
-Viu a cara do velho Napoleão? Até nessas horas o mesmo é sarcástico!
Após respirar fundo Leto responde:
-É verdade!
 
Do lado de fora, Farroupilha e o marido da Parteira conversam.
-Vou lhe confessar uma coisa -, começa o açougueiro, - só de pensar em trabalhar nos garimpos, me sinto decrépito. Aquele pó dificultando a respiração, compressores, marretas, talhadeiras, aquela barulheira toda me deixa tresloucado!
Cala-se um instante, e em seguida acrescenta:
-Sem contar as precárias instalações elétricas, que são verdadeiras armadilhas. Machuca saber que o garoto Zé não foi o único, nem será o último!
-O amigo tem razão -, responde Amaro, - seguidamente ocorre acidente desse tipo, e sempre com vítimas fatal!
Depois de um lapso de tempo acrescenta:
-E isso de não gostar dos garimpos é natural. Ao contrário de mim, o amigo nasceu para ser açougueiro, assim como Idelfonso para ser dono de farmácia e curandeiro, Tito para ser dono de armazém, e João nasceu para a permuta!
 
Nisso todos se voltam à rua.
 Estupefatos, todos parecem não acreditar no que estão vendo.
-Se não estivesse vendo, e alguém me dissesse, juro que não acreditaria!- declara um rapaz, demonstrando perplexidade -, seu Expedito, deixar de lado o trabalho, e vir ao velório, é um fato memorável!
Um segundo diz:
-O mesmo não está fazendo mais do que a sua obrigação. Agora, doente por trabalho e dinheiro, como é esse velho, sem sombra de dúvida, ele vai lamentar a perda dessas poucas horas, durante muito tempo!
Um terceiro olha Expedito dos pés a cabeça e declara:
-Desde que me conheço por gente, esse velho usa esse terno preto!
Outro acrescenta:
-Não adiante ter dinheiro, e comer e se vestir mal. Tenho pena da família dele. Os filhos têm motivos para ser assim como são: revoltados!
 
Ainda um tanto atordoado com o que acontecera, Bernardinho procura restituir a sensibilidade nos braços de Luana.
 No entanto, a mesma deixa de lado a elegância, esquiva-se dele e diz:
-Me deixa adivinhar: já esqueceu a Prazerosa? Já sei: ela lhe deu um fora, é isso?
Sem compreender nada pergunta:
-Que..., bobagem é essa que você acabou de falar, amor?
Enfurecida Luana interrompe:
-Não se faça de desentendido, Bernardinho. Você sabe muito bem do que estou falando!
E afasta-se dele.
 
Professor Noel, que o tempo todo ficara observando a conversa dos dois, sente-se envolvido pela volúpia, e diz para consigo:
-Logo, logo, Luana será minha, uma vez que poucas palavras malévolas bastaram para abalar o romance dela e Bernardinho. Isso é muito bom!
 
É fechada a tampa do caixão.
 Dominados pela dor, Ernesto e sua esposa não conseguem conter as lágrimas, que descem pelas rugas de seus rostos, e alojam-se no assoalho já umedecido pelos calçados molhados pela água da chuva acumulada nas vielas do povoado.
Antônio Pedreira olha para o caixão, e uma vez mais o choro fica preso na garganta. Tudo em seu coração é tétrico e desesperador.
 
Torna cair uma fina garoa.
 A turba deixa a igreja e acompanha o caixão com o corpo do garoto Zé, até o cemitério, um pouco acima da casa religiosa.
Umas poucas orações, e rapidamente Zé é sepultado.
Apressadas as pessoas começam a procurar abrigos para escapar da indesejável garoa.
A morbidez alia-se a Pedreira, que sente a dor do trágico momento.
Ao perceber que o mesmo sumira numa das vielas, o guarda Albino chamou Leto e Bernardinho, e lhes convidou para segui-lo.
Logo depois da velha ponte de madeira é atingido o objetivo dos três.
Em seguida Leto diz:
-E essa garoa enjoada que não dá trégua!
- Faz parte -, responde Bernardinho.
O guarda, mais os dois garotos olham firme para Pedreira, que nada diz.
Seu corpo está junto aos mesmos, mas sua alma parece não estar. Talvez esteja junto a Zé, quem sabe?
O guarda compreendendo a dor do jovem patrão declara:
-Se isso serve de consolo, eu já passei pelo que está passando, meu jovem amigo. Quando perdi minha esposa pensei que o mundo fosse acabar. No entanto ele não acabou, e eu estou aqui!
Pedreira faz de conta que não escuta as palavras de Albino, e segue em frente.
Estupefatos Bernardinho e Leto tentam conter a curiosidade.
 Contudo ela é mais forte, e logo um deles pergunta:
-Como morreu sua esposa, Albino?
O guarda não quis descrever com minúcia. Apenas diz:
-Ela foi covardemente assassinada!
Os garotos queriam saber mais sobre a morte da esposa do guarda, mas ele parece querer fugir do assunto. Por isso os dois também se calaram.
Antônio e os três amigos pegam o caminho que leva a gruta de São Valentim.
Leto, já com os cabelos molhados e a roupa encharcada, grudando na pele murmura:
-Como seria bom se essa garoa desse um tempo!
Os quatro entram na gruta.
 Pedreira ajoelha-se diante da imagem da senhora Aparecida e do padroeiro São Valentim, e em voz baixa começa a orar.
O guarda, mais Leto e Bernardinho, um pouco distantes, olham com carinho para Antônio, que busca conforto para a sua dor na oração.
Albino respira fundo e de um jeito terno declara:
-A vida tem sido dura para com Antônio. Primeiro foram-se os pais, e agora o irmão!
O jovem Antônio olha fixamente para a imagem de São Valentim, e por um momento desejou ser ela. Pois a imagem não chora, não sente dor, nem tampouco sofre com os golpes do destino. Por isso desejou ser a imagem do santo.
Começa a escurecer.
 Em silêncio os quatro amigos deixam a gruta.
Leto, o mais entusiasmado bem que tanta puxar conversa; mas seu esforço é em vão. Os outros preferem continuar em silêncio com os seus problemas.
Antes da velha ponte de madeira, o guarda e Pedreira vão rumo à casa de Ernesto, enquanto Leto e Bernardinho vão em frente.
O rapagão Bernardinho deixa de lado por uns instantes a morte, o velório, o sepultamento de Zé, a dor de Pedreira, e se volta para Luana: o que levara a mesma a dizer aqueles disparates todo para ele?
Espantado com a rispidez com que a namorada lhe tratara no velório, vira-se para Leto e pergunta:
-Por acaso não escutou Luana falando algo a sua irmã?
Surpreso com a pergunta, Leto Responde:
-Não!
Em seguida pergunta:
-Por que me perguntou isso?
-Durante o velório fui ter com ela. Tentei beijá-la, e a mesma veio com uma conversa estranha. Me perguntou se eu já tinha esquecido a Prazerosa, ou se ela já tinha me posto de lado? Confesso que não entendi nada!
Leto fica vermelho. Seu coração passa a bater mais rápido.
 Num fiapo de voz ele responde:
-Só você ainda não percebeu que o professor Dedo Duro é apaixonado por Luana. E quem gosta de fuxicar é ele?
Sarapantado Bernardinho responde:
-Isso é sandice, Leto. Tá certo, Dedo Duro é um tanto mentiroso, não guarda segredos. Mas incitar contendas não é do seu feitio!
-Você está menosprezando o professor, Bernardinho. Tome cuidado. O mesmo é um sujeito astuto e arrivista!
Depois do riso de escárnio Bernardinho declara:
-Se o mentecapto Dedo Duro pensa colocar obstáculo em meu caminho, está muito enganado. Se o mesmo é astuto eu também sou!
 
Hora nuvens escuras e uma fina garoa.
 Hora o azul do céu e o sol avermelhado.
Assim passam-se dois dias.
Ainda fastidioso Ernesto sobe ao garimpo.
O guarda Albino, que recém havia saído da broca cinco, lhe cumprimenta, e pensa em lhe perguntar se estava mais calmo e resignado com a perda do neto.
 No entanto apenas informa:
-Há compradores olhando a ametista!
-Isso é bom!
Cala-se um instante e em seguida pergunta:
- Quer ganhar um dinheirinho extra?
-O quê que tenho de fazer?
-Essa semana, que já está praticamente no fim, Antônio não mais virá ao garimpo...
-Já sei- interrompe o guarda -, o patrão quer que eu retire o bojo da rocha?
O dono do garimpo faz sinal que sim com a cabeça.
Imediatamente o guarda pega uma marreta e uma talhadeira, e começa cortar a rocha.
 
Na broca cinco os compradores olham detalhadamente os cristais ametistas.
Risonho Euclides anda de um lado para o outro.
 Pensa no dinheiro que logo, logo receberá.
 Entregue a volúpia não vê o momento de estar na Boa Freguesia, onde Tito e o açougueiro Farroupilha conversam.
- Espero que desta vez Euclides saiba investir o dinheiro que ganhará com a venda da ametista, - diz o açougueiro escorado ao balcão.
O dono do armazém sisudo responde:
-Até parece que o amigo não conhece o Euclides. Fanfarrão do jeito que é, logo, logo estará liso; sem nem um pila no bolso!
-É triste, mas é verdade, - diz Farroupilha depois da risota. - Logo, logo Euclides estará liso!
Depois de um lapso de tempo acrescenta:
-Euclides parece ter raiva de dinheiro!
 
Na broca cinco continua o entra e sai de compradores e garimpeiros.
Enquanto isso Bernardinho olha os pedaços de rocha aglomerados num canto de sua broca, desanima-se, e começa a queixar-se:
-Até quando esse azar medonho vai me acompanhar?
Nisso o guarda Albino toca em seu ombro e pergunta:
-Tem uma talhadeira para me emprestar, meu jovem amigo? Com a qual estou cortando laje não tem mais condições!
Bernardinho fica surpreso: Albino cortando laje?
Torna olhar para o guarda e responde:
-Tenho. Pode pegar ali dentro da caixa!
Deixa a curiosidade vir à baila e pergunta:
-Para quem o senhor está trabalhando?
O guarda olha firme nos olhos do rapagão e responde:
-Para o seu Ernesto!
Depois de um tempo pergunta:
-Lembra-se do bojo que o Antônio achou?
-Sim!
- Vou retirá-lo da rocha para o mesmo!
Logo após a pausa acrescenta:
-É claro: ganharei um extra pelo serviço!
E com a talhadeira em mãos devagar se retira.
 
 
Já com a marreta pesada em punho, Bernardinho começa a bater nos pedaços de rochas maiores.
 A cada batida mais e mais o pó levanta-se, e mistura-se com o suor, que verte em seu rosto.
 Para um instante, escuta as gargalhadas de Euclides ecoando broca a dentro e murmura:
-O irmão do professor Dedo Duro é um sujeito de sorte; encontrou uma ametista. Já comigo fica o trabalho árduo, e nada de recompensa!
Após receber das mãos do velho Ernesto o seu quinhão, sorridente Euclides desce o morro.
-O Ernesto que me desculpe, - diz ele para consigo -, mas como não tenho nada a ver com a sua desgraça, vou fazer festa!
 
 
O sol desaparece no horizonte. Como de costume, João Permuta e Curandeiro fecham as portas de seus estabelecimentos, e vão refestelar-se em frente a Boa Freguesia, onde estão sentados Pezão, o açougueiro e o Floriano.
-Como a vida é engraçada, - murmura Farroupilha olhando para o irmão do professor-, Ernesto vive a sua desgraça, enquanto Euclides vive o seu dia de glória!
O irmão do professor da gargalhada atrás de gargalhada.
Hora leva a boca o copo de cerveja.
Hora o cigarro.
 Tira do bolso boa parte do seu quinhão, e paga bebida aos companheiros.
Nisso chega à porta do armazém um de seus garotos.
Vai para junto dele e diz:
-Pai, a mãe mandou lhe chamar!
Euclides acende um cigarro, da uma tragada, e com rispidez responde:
-Diga àquela jararaca que tão cedo eu não irei para casa!
O garoto da uns passos em direção à porta, e para ao ouvir os gritos do pai.
-Se acalme filho. Pra que a pressa?
Vira-se para o Tito:
-Dê ao meu filho o que ele pedir, e mais uma cesta básica para o meu garoto levar para casa!
Logo em seguida o garoto sai do armazém levando consigo a cesta básica, que o seu pai pedira ao dono da venda.
A caminho de casa o pensamento do filho de Euclides mergulha em um momento tétrico.
 Contristado o mesmo murmura:
-Meu Deus. Essa noite deveria ser um momento de paz e tranquilidade, uma vez que o pai já vendeu os cristais ametistas, e já recebeu o dinheiro. No entanto sei que será uma noite de sova. Por que isso, meu Deus?
E começa orar.
Seus passos apressados chamam a atenção dos cachorros, que mesmo antes dele chegar à frente duma casa, começam latir.
 
No final do povoado, dois riachos encontram-se, e fazem o desenho de um grande coração.
 Ali vive o professor Noel e seus familiares.
 O lugar é conhecido como vila dos Cachorros Sentados.
Na escada da residência de seus pais, o professor torna a ler o jornal do dia.
Vê o garoto, filho de Euclides com uma cesta básica, fecha o jornal e pergunta:
-O teu pai ficou no armazém?
Timidamente o garoto responde:
-Sim!
Anda mais uns poucos metros, e chega à sua casa.
Noel balança a cabeça e murmura:
-Esse meu irmão é um pé no saco. Só sabe apoquentar as pessoas!
Pensa um pouco e acrescenta:
-Hoje não deixarei o mesmo bater na esposa e nos filhos!
 
Na Boa Freguesia o irmão do professor é o centro das atenções: bebe, fuma...
Seguidamente bate palmas e diz:
-Hoje a festa é por minha conta. Os camaradas podem beber a vontade, que eu pago!
Do lado de fora, Adão Pezão, Floriano, e o açougueiro, insistem para que João ou Curandeiro jogue canastra. No entanto os dois não estão a fim de jogar cartas.
João Permuta espia pela janela o fanfarrão Euclides.
 Dá uma galhofa e declara:
-Essa é a noite dos aproveitadores!
Depois do riso Floriano acrescenta:
-Euclides não é mesmo um sujeito inteligente. Não consegue perceber que as pessoas que estão ao sua volta são sanguessugas, e só querem beber e fumar as suas custas!
Fastidioso Curandeiro declara:
-Me sinto mal ao ouvir o nome desse sujeito farofeiro. O safado tem esposa e filhos, e não dá valor a isso; deixa-os em casa passando necessidade, e sai gastando aquilo que tem e até mesmo o que não tem!
Na saleta do armazém, a algazarra continua.
 Cercado por pessoas buliçosas Euclides vive o seu dia de glória.
 
Enquanto isso, Leto abre a porta, olha o céu estrelado, e faceiro sai em direção a casa de Prazerosa.
 Cruza o primeiro riacho, e entra na vila dos Cachorros Sentados.
A brisa da noite lhe enche de volúpia, e com grande prazer dos sentidos ele murmura:
-Sei que o que Prazerosa sente por mim é meio suspicaz; mas eu a amo: isso é o que importa. Mesmo sabendo de seus disparates vou pedi-la em casamento!
De repente a quietude da noite rompe-se com uma gargalhada destemperada. Assombrado de susto Leto olha os dois lados da viela movendo os olhos rapidamente.
 Vê o professor Noel parado num degrau da escada e grita:
-Boa noite!
-Boa noite, - responde Noel.
Respira fundo, e em seguida pergunta:
-Pra que tanta pressa?
Leto fica irresoluto, e da graças a Deus quando o professor diz:
-Não precisa me dizer nada, uma vez que já sei para onde vai!
O garoto sente-se aliviado.
 Despede-se de Noel, e apressado continua o seu caminho.
Após a risota o professor diz para consigo:
-Sujeitinho sem préstimo, esse Leto!
-Professorzinho mentecapto, - diz Leto para consigo mesmo.
Atravessa o segundo riacho, chega a frente da casa onde morava os pais de Pedreira e do falecido Zé.
 Vê Prazerosa e o filho mais velho de Expedito, de nome Sebastião saindo da casa já em ruínas.
 Seu peito enche-se de anomalia.
 Em sua cabeça passa os mais cruéis pensamentos.
Um pouco antes do velho pé de ipê, do lado de cima da ruela, os três encontram-se.
Sebastião, sorridente pergunta:
-Como vai, Leto?
De um jeito tresloucado Leto grita:
-Salafrário!
E com rigor agarra o pescoço de Sebastião.
 Os dois começam lutar, e rolar na grama e nos pedregulhos.
Inutilmente Prazerosa em alta voz ordena:
-Parem já os dois!
Os mesmos continuam rolando.
 Sebastião empurra Leto com o cotovelo, e consegue desvencilhar-se.
Atônito ele corre ladeira abaixo.
Cruza a vila dos Cachorros Sentados, e só depois de chegar a rua principal, lembrou-se que passara correndo pela vila, e esquecera de cumprimentar o professor.
Já sentindo sensação de alívio o mesmo olha seus braços esfolados, ensanguentados e murmura:
-Garoto tolo, não sabe com quem mexeu!
 
Professor Noel dobra o jornal que já havia lido, e relido várias vezes.
Vira-se para seus irmãos Demétrio e Agostinho, que sorridentes sobem a escada e pergunta:
-Por acaso viram Sebastião? O mesmo passou aqui correndo, e se quer me cumprimentou?
-O irmão perdeu a maior, - diz o primeiro.
O segundo interrompe:
-Noel, você tinha que ter visto a briga de Leto e Sebastião!
O professor com grande prazer dos sentidos diz:
- Leto e Sebastião em conflito? Isso muito me agrada!
Em seguida pede:
-Me descreva com minúcia a briga dos dois!
-Não tem muita coisa a descrever, uma vez que o que vimos foi Prazerosa gesticulando e gritando, e os dois rolando na grama e nos pedregulhos, e...
-E logo em seguida Sebastião fugiu, - interrompe Agostinho.
Depois da risota acrescenta:
-Sebastião passou por nós a mil por hora...
As respostas não foram as que o professor esperava.
 Não escondendo a insatisfação ele diz:
-Foi só isso? Pensei que estivessem assistidos a tudo?
-Foi só isso, - responde Demétrio!
Vira-se para Agostinho:
-Poderíamos ter nos aproximado um pouco mais da tapera, e assistido a discussão de Leto e Prazerosa, visto que eles ficaram lá no local da briga, e nós estávamos na esquina debaixo, bem próximos do local!
-Esqueça esse acontecimento, Demétrio, - responde Agostinho.
E com vagareza entra porta à dentro.
Sentindo uma sensação agradável o professor murmura:
-Que bom! Não será preciso fazer uso do meu plano para intrigá-los!
Respira fundo e acrescenta:
-O subdelegado Napoleão ao saber dessa briga, certamente dará pulos de alegria!
 
Enquanto isso no armazém Boa Freguesia, Euclides, totalmente embriagado, vai até ao balcão, e com a língua meio enrolada diz:
-Bem, preciso debandar meus camaradas. Contudo, antes pagarei uma última rodada!
Os aproveitadores batem palmas.
Euclides vira-se para Tito:
-Mais uma dúzia de cerveja para os camaradas. Um pacote de balas, e uma caixa de rojões!
Imediatamente o dono do armazém atende o seu pedido.
Euclides paga, e tropeçando em mesas e cadeiras, deixa o recinto, e passa ser o dono da rua.
Subdelegado Napoleão escuta o barulho dos primeiros rojões, arregala os seus olhos vermelhos e murmura:
-Maldito, Euclides. Sabe que não aceito esse tipo de desordem, e mesmo assim persiste em causar distúrbio!
Com a intenção de ir até o galpão pegar um talo de fumo para bater no fanfarrão, abre a porta, lembra-se de sua aliança com o professor, rapidamente torna a fechá-la e diz:
-Euclides, Euclides! Hoje é a sua noite de sorte!
E contrariado volta para a cama.
Subdelegado Napoleão sempre cultiva uma pequena plantação de fumo. Das folhas o mesmo faz o bom fumo de corda, e do talo, o instrumento perfeito para bater na esposa e o filho.
Sem saber que escapara de uma bela sova, Euclides segue rumo à vila dos Cachorros Sentados.
A cada dez, vinte metros ele solta um foguete e joga um punhado de balas.
 
Na velha tapera, a discussão entre Leto e Prazerosa continua.
-Pensei que tínhamos algo sério, - diz ele, tremendo de raiva.
-Pois pensou errado, garoto, - responde a mesma. - Eu odeio crises de ciúmes, e hoje você passou dos limites, garoto. A partir de hoje acho melhor você se afastar de mim. Esqueça que eu existo!
Como facas pontudas as palavras de Prazerosa penetram no peito de Leto.
Num fiapo de voz ele declara:
-Eu te amo. Pra ti ter uma ideia do amor que sinto por você, até já fiz planos para nos casarmos!
-Olhe pra você, garoto, - responde ela -, arranhado, ensanguentando, em frangalhos, e querendo casar-se comigo? Tire isso da cabeça agora mesmo, uma vez que não quero um garoto ciumento grudado na barra de minha saia!
-Talvez brigar com Sebastião tenha sido uma má ideia. No entanto fiz isso por amor!
-Não diga asneira, garoto, - interrompe. - O quê que você sabe a respeito do amor? Trate de cuidar desses ferimentos, e esqueça que eu existo!
Vira as costas para Leto, e rapidamente afasta-se.
Parece que o mundo desaba sobre a cabeça do garoto.
Tomado pela tristeza escora-se no tronco do velho pé de ipê, e fica ali: sem saber o que fazer.
De repente ouvi um tiro e murmura:
-Isso não é barulho de rojão!
Chega ao primeiro riacho, e depois de atravessá-lo, sua dor começa dividir espaço com a curiosidade, visto que estava ouvindo vozes, gritos e choros.
Apressa o passo, entra na vila dos Cachorros Sentados, e fica perplexo com aquilo que vê.
 
Euclides está estirado ao chão.
Ao seu redor, mãe, esposa e filhos choram e gritam.
Demétrio e Agostinho tentam consolar o professor Noel.
Chorando o mesmo declara:
-Não tive escolha. Fui obrigado a atirar. Era ele ou eu!
Mesmo dominado pela tristeza, seu pai usa o bom senso e responde:
-Nós sabemos filho. Foi legítima defesa!
E na verdade fora mesmo.
Euclides chegara a sua casa totalmente embriagado.
 Deu um punhado de balas a cada um dos filhos, e em seguida começou bater na esposa com um cinto.
Noel cumprira aquilo que prometera.
Pegara o revólver de seu irmão Demétrio, e correra socorrer a cunhada.
 Euclides havia deixado de lado a esposa, pegado uma faca, e partido pra cima de Noel, que não teve outra escolha a não ser puxar o gatilho, para não ser esfaqueado.
O dedo, o gatilho, um disparo, e ali estava o corpo de Euclides estirado, e sem vida.
Mesmo em frangalhos e atordoado, Leto quer dizer algo para conter a dor dos familiares de Noel. Mas dizer o que quando não se consegue conter nem suas próprias dores? Por isso decide deixar o local do crime, e ir para casa.
 
Nisso chega o subdelegado.
 Olha o corpo de Euclides todo ensanguentado, estirado ao chão.
Ouve o professor chorando e gritando:
- Meu Deus! Tenha pena de mim, uma vez que cometi o maior dos pecados: assassinei o meu próprio irmão. Perdoe-me Senhor, visto que foi em legítima defesa!
O subdelegado vira-se para ele e diz:
-Não seja tão espalhafatoso, professor!
-Eu queimarei no fogo do inferno! - declara Noel.
Totalmente adverso, o velho Napoleão responde:
-Escute uma coisa professor: nós somos assim como os animais; morreu acabou!
Cala-se um instante e em seguida acrescenta:
-Na verdade nós somos inferiores aos animais, uma vez que dos animais se aproveita a carne, e do homem nada pode se aproveitar!
Perplexo com aquilo que acaba de ouvir, o pai de Noel declara:
-Suas palavras assustam subdelegado!
A autoridade máxima do povoado responde:
-Falo a verdade. E muitas vezes a verdade assusta!
Depois de um lapso de tempo, vira-se novamente para Noel e diz:
-Não se preocupe professor. Visto que assassinou o irmão em legítima defesa, desde já está livre da justiça!
 
Após uma madrugada fúnebre na vila dos Cachorros Sentados, nasce um novo dia.
Logo surge o sol exibindo seu clarão avermelhado.
A notícia da morte de Euclides se espalha como fogo em pólvora pelas vielas do povoado.
Cabisbaixo Curandeiro coloca a chave no buraco da fechadura da porta da farmácia, e de repente ouve um grito.
Imediatamente ele vira-se, vê Amaro, marido da Parteira e pergunta:
-Como tem passado meu caro?
Com um olhar terno Amaro responde:
-Muito bem!
Em seguida pergunta:
-Já está sabendo que o professor Noel assassinou o tranca ruas Euclides?
O olhar meigo de Curandeiro enche-se de anomalia.
Com o pensamento longe responde:
-Não!
Cala-se um instante e diz:
-Mais uma desgraça. Quando isso vai parar?
Respira fundo e em seguida pergunta:
-Como aconteceu a tragédia?
-Não sei ao certo, visto que fiquei sabendo por meio de terceiros, - responde Amaro. - Mas na certa a maldita cachaça é a culpada!
Despede-se de Curandeiro, e segue em direção ao garimpo.
 
Logo após ter tomado chimarrão, Floriano senta-se para tomar café, e quase cai da cadeira ao ver seu filho Leto, todo esfolado.
-O quê que aconteceu, filho?
- Foi apenas um tombo. Nada demais!
Diva entra na conversa e diz:
-Você está mentindo, Leto. Na certa você andou brigando, e é evidente que a causa dessa briga, foi àquela mulher que vocês chamam de a Prazerosa. Antônio me contou que você anda dia e noite correndo atrás dela. Isso é coisa de apaixonado!
Leto fica vermelho.
 Deixa o ódio manifestar-se, e após vira-se para a irmã e ordena:
-Cale-se, Diva. Vá cuidar do seu noivinho, e me esqueça. Se eu briguei ou deixei de brigar é problema meu, sua ratazana!
-Ratazana é aquela mulher por quem você está apaixonado, seu toleirão, - retruca Diva.
Floriano interrompe e pergunta:
-É verdade isso que a sua irmã acabou de falar, Leto?
Os outros dois filhos de Floriano, Josemar e Aderaldo, caem na gargalhada.
-Ontem briguei com o Sebastião, filho do seu Expedito!
- declara Leto. - E o motivo da contenda foi ciúme. A verdade é essa: estou apaixonado pela Prazerosa, e pretendo me casar com ela, vocês gostando ou não!
Floriano salta da cadeira, e com rispidez responde:
-Sabe o dia que você casará com aquela desclassificada, filho? No dia de são nunca!
-É só o que me falta, - continua ele -, meu filho jogar o nome de toda a família no lixo, por causa de uma mulher sem vergonha na cara!
-Pois fique sabendo que eu pretendo me casar com ela, sim, - retruca Leto -, e o mais rápido possível!
Irado Floriano responde:
-Desgraçado! Vou lhe avisar de uma coisa: se não deixar aquela desclassificada de lado, sem remorso algum lhe expulsarei dessa casa!
Nisso o açougueiro Farroupilha bate na porta da frente.
Leto aproveita e sai pelos fundos.
-Preciso urgentemente falar com a Prazerosa, - diz ele para consigo.
Com um olhar cansado e enfadonho Floriano propõe:
-Entre, Farroupilha!
-Obrigado, - responde o açougueiro -, estou com um pouco de pressa. Eu fui até a vila dos Cachorros Sentados, saber como aconteceu o assassinato de Euclides!....
-Leto, - interrompe Floriano -, onde está o Leto?
Assombrada de susto Diva responde:
-Ele saiu agora mesmo!
Em seguida pergunta:
-Pai, o senhor não está pensando que o Leto está envolvido nisso?
Diante da aflição do amigo, Farroupilha diz:
-Se acalme Floriano. Quem assassinou o fanfarrão, foi o seu irmão: o professor!
Sentindo uma grande sensação de alívio Floriano declara:
-O amigo não sabe o alívio que suas palavras trouxeram ao meu coração. Por um segundo pensei que o meu filho Leto estava envolvido nesse crime!
O açougueiro interrompe:
-Como pôde pensar uma coisa dessas? Todos sabem que o Leto nunca foi de aberrações. Como poderia ele estar envolvido na morte do fanfarrão Euclides?
Com vagareza Floriano responde:
-Eu tinha motivo para desconfiar, amigo. Meu filho me disse que brigou com o Sebastião, filho de Expedito nessa noite que passou. Pensei que poderia estar mentido. Que ao invés de Sebastião, ele havia brigado com Euclides!
O açougueiro compreende o momento desvairado de Floriano, e com ponderação diz:
-Que momento tenebroso o amigo passou!
Respira fundo e continua:
-Bem! Como estava lhe dizendo, fui até a vila dos Cachorros Sentados para recolher um pouco mais de informações a respeito do assassinato de Euclides. No entanto, quando cheguei lá, a vila estava praticamente vazia, uma vez que já haviam levado o corpo para ser velado na igreja. Por isso resolvi dar uma passadinha aqui, e lhe convidar para irmos junto à igreja!
Floriano esquece a discussão que tivera há pouco com um dos filhos, e gentilmente responde:
- Me aguarde uns minutinhos.  Vou só pegar meu chapéu. Aí então podemos ir!
 
As vielas do vilarejo estão movimentadas.
 Carros, pedestres.
 Os de cima descem.
 Os debaixo sobem.
Todos com um único objetivo: assistir ao velório do tranca ruas Euclides.
Sentado junto à sombra de sua casa Expedito, com todo o cuidado martela os cristais que formam o seu novo touro.
Como de costume o mesmo juntou um cristal aqui, outro ali, e assim formou o touro de seu agrado. Agora é só terminar de martelar os cristais dando uma nova aparência aos mesmos e vendê-los.
Para um instante.
 Remanga as calças cheias de remendos.
 Olha em direção a rua, vê Floriano e o açougueiro aproximar-se dele, e sai correndo esconder-se.
Depois da risota o açougueiro pergunta:
-O amigo viu o Expedito correr?
-Sim, - responde Floriano. - O Expedito mudou do dia para noite. Lembra-se de quando éramos mais moços? Andávamos sempre juntos. De repente de uma hora para a outra, ele se tornou um sujeito estranho. Passou a fugir das pessoas, e só pensar em trabalho e dinheiro!
 Farroupilha diz:
-Tudo isso que o amigo falou é verdade. Expedito se tornou um sujeito obcecado por trabalho e dinheiro!
 
Leto bate na porta da casa de Ernesto.
O velho logo atende.
-Pedreira está em casa?- pergunta o garoto.
-Não. Ele e Bernardinho saíram em direção à gruta!
-Muito obrigado. Vou procurá-los!
E volta em direção a gruta de São Valentim.
-Já passei pela gruta, -  murmura Leto -,  como não os vi? Também, com essa confusão toda na minha cabeça, não é de se estranhar nada!
Entra na viela que leva a gruta, e logo avista Pedreira e Bernardinho sentados em cima da pedra grande, ao lado da cachoeira, e diz para consigo:
-Como é bom rever os amigos!
Aproxima-se dos dois e declara:
-Vocês não imaginam a sensação agradável que é revê-los!
Sisudo Bernardinho responde:
-É claro que podemos imaginar. Podemos assim dizer que é um grande momento de volúpia, para nós três!
Leto faz sinal que sim com a cabeça, vira-se para Antônio e pergunta:
-E você amigo, como tem passado?
-Na medida do possível, bem!
Vê o rosto e os braços do futuro cunhado esfolados e pergunta:
-O que ouve contigo? Andou caindo ou brigando?
-Ontem na parte da noite, briguei com o Sebastião, - responde um tanto receoso.
Bernardinho entra na conversa:
-Que besteira foi essa, Leto? Você sabe muito bem que o Sebastião é um sujeito perigoso, e mesmo assim teve ousadia de desafiá-lo? Você deve estar louco. Só pode ser isso!
Após respirar fundo Leto diz:
-Meus amigos: estou vivendo um momento difícil. Estou apaixonado pela Prazerosa, e foi por causa dela que briguei. Só que agora ela não quer mais saber de mim!
Pedreira olha fixamente à cachoeira, e enfadonho murmura:
-Como essa vida é complicada!
Vira-se para Leto e Bernardinho:
-Que decadência. O amor está sendo impetuoso com vocês. Comigo é a tragédia, que insiste em me perseguir!
Nisso chega o guarda Albino.
Os três garotos lhe cumprimentam.
Em seguida o guarda pergunta:
-Que seriedade é essa estampada em seus rostos, meus jovens?
-Estamos aqui com os nossos problemas, - responde Bernardinho.
-Não diga asneira, Bernardinho, - diz o guarda. - O Antônio tudo bem: está passando por um momento difícil. Agora, você e o Leto, que problemas podem ter?
Ponderado Pedreira declara:
-O problema de ambos é amor não correspondido!
O pensamento do guarda viaja longe, e num tom de advertência benévola ele diz:
-Tomem cuidado com esse sentimento que os jovens chamam de amor; ele é perigoso!
Os três garotos ficam estupefatos com as palavras do guarda.
Passado um tempo Pedreira, sem entender direito o que o guarda falara, murmura:
-Como o amor pode ser um sentimento perigoso? Eu sempre ouvi dizer de que o amor é o maior dos sentimentos?
-O amor, deveras, é o maior dos sentimentos, - responde Albino. - No entanto, aquilo que para vocês é amor, na realidade é paixão, um dos piores sentimentos humanos. Suas reações muitas vezes se tornam perigosas!
- Suas palavras fazem sentido, Albino, - diz Leto. - Ontem há noite, quando vi Prazerosa e Sebastião juntos, senti um estranho frio, e uma dor que jamais havia sentido antes. O ódio me cegou. Quando me dei conta lá estava eu: tentando estrangular o maldito Sebastião. O mais intrigante nisso, é que mesmo sabendo que aquilo era errado, eu fiz, e não me arrependo disso!
-Vou lhes contar uma coisa ao meu respeito, - começa o guarda. - Um belo dia eu conheci a mulher mais bela do mundo! Há! Meu Deus! Como ela era linda. Cabelos loiros cacheados, um olhar tímido e carente. No instante que a vi fiquei apaixonado. Casamos-nos, e eu me tornei um dos homens mais feliz do mundo, até o dia em que não estava me sentindo bem no trabalho, e resolvi ir para casa antes do horário previsto, e peguei a mesma na cama com outro. Tudo escureceu em minha frente. Seu amante fugiu pela janela, e ela ficou ali: sentada na beira da cama, talvez tentando achar uma desculpa para o inexplicável!
Respira fundo e acrescenta:
-Só consigo me lembrar do momento em que peguei uma faca, e da voz de prisão dos policiais. Já algemado eu perguntei: Por que estou sendo preso? Os policiais ficaram perplexos. Um deles me disse: Você é louco mesmo! Depois de ter assassinado a própria esposa com vinte e sete facadas, ainda pergunta por que está sendo preso?
-Até hoje não sei direito quem a matou  - continuou -, se foi eu, ou aquele sentimento de paixão. Só sei que já fui julgado, e condenado. Já cumpri minha pena. Bem, essa é a minha história!
Os garotos ficam assombrados.
Depois de um tempo Bernardinho pergunta:
-Por que nos contou tudo isso, Albino?
-Porque os jovens amigos podem aprender com a minha desgraça!
Vira-se para Leto:
-Principalmente você, Leto, que já demonstra sinais de paixão cega e doentia!
Pensativo Leto responde:
-Prazerosa é uma ratazana, mas eu a amo. Ontem briguei por causa dela. Hoje de manhã discuti com o pai pelo mesmo motivo. Se ela não quiser mais nada comigo, não tenho mais motivo para continuar vivendo?
Lembra-se do que ocorrera na vila dos Cachorros Sentados e diz:
-Peço desculpas aos amigos, uma vez que me esqueci de lhes contar: ontem, na parte da noite, o professor Dedo Duro, assassinou o Euclides com um tiro!
-Agora não é hora para brincadeira, Leto, - responde Pedreira -, eu estou aqui com o coração cheio de aflição, e você vem com essas brincadeiras de péssimo gosto?
Um tanto fastidioso com a admoestação do futuro cunhado Leto diz:
-Olhe bem para minha cara, e vê se eu tenho jeito de quem está brincando?
-É verdade, - interrompe o guarda. - Hoje uns poucos garimpeiros desavisados subiram aos garimpos. Estranhando a ausência dos mesmos, desci ao povoado para conferir o que estava se passando, e assim fiquei sabendo da desgraça!
Os dois garotos desavisados ficam estupefatos.
-Nunca pensei que o Dedo Duro tivesse tanta coragem - murmura Bernardinho -, matou o próprio irmão!
-Coitado do Euclides, - diz Pedreira. - No fundo ele não era uma má pessoa!
Cala-se um instante e em seguida pergunta:
-Como aconteceu mais essa desgraça?
-Parece que o Euclides estava batendo na mulher - responde Leto -, Dedo Duro foi socorrê-la, e o Euclides o atacou com uma faca. O professor não teve escolha: foi obrigado atirar. O assassinato foi em legítima defesa!
-Ontem o Euclides estava tão feliz ao receber o seu quinhão! - declara o guarda -, me causa pena saber que o mesmo está morto!
Em seguida com morosidade os quatro deixam a gruta em direção ao centro do povoado.
O vaivém continua.
 Pessoas entram e saem do recinto sagrado a todo instante.
As linguarudas Lucrécia e Diamantina comandam o fuxico.
-A esposa do arruador deve estar aliviada, - diz a primeira deixando transparecer a antipatia. - Ele era um grande peso para ela!
-Entre a esposa e a cachaça, o fanfarrão sempre preferiu a cachaça, - acrescenta à segunda.
-O pudim de pinga teve aquilo que merecia, - diz uma terceira. - Eu não tenho pena dele. Estou feliz por ela, visto que agora está livre das humilhações, e dos maus tratos!
 
Na parte da tarde, garimpeiros de todos os garimpos do lugarejo abarrotam a igreja para o último adeus a Euclides.
Professor Noel assiste tudo à distância.
 Olha em volta movendo os olhos de raposa velha, e diz para consigo:
-Povo ordinário. Sei que queimarei no fogo do inferno, mas antes vocês sentiram na pele a vingança do Dedo Duro!
 
 
Logo após o enterro os amigos juntam-se na saleta da Boa Freguesia, e a discussão começa girar em torno da morte do fanfarrão.
João Permuta toma a frente:
-No fundo todos sabiam que mais cedo, ou mais tarde Euclides seria assassinado. O que ninguém imaginava é que o autor desse assassinato seria o seu próprio irmão!
Curandeiro, que havia ficado praticamente o dia todo sem proferir uma só palavra a respeito do assunto, um tanto tocado diz:
-São Valentim está cheio de sortilégio. Não são normais duas mortes seguidas, sendo que a última, irmão matou o irmão. Essas anomalias estão sendo produzidas pelos ciganos!
Ao lembrar-se da discussão que tivera logo cedo com o seu filho Leto, Floriano vira-se para Curandeiro e declara:
-Estou começando acreditar em suas palavras, Idelfonso. Depois que os forasteiros chegaram, muitas coisas ruins aconteceram!
Respira fundo e acrescenta:
-Hoje de manhã, por exemplo, meu filho Leto me afrontou coisa que nunca tinha feito antes!
-Eu estou dizendo, - interrompe Curandeiro -, São Valentim está cheio de sortilégios!
O açougueiro, descrente responde:
-Os amigos estão exagerando. Vamos admitir por hipótese: os ciganos são bruxos. Mas que motivo os mesmos teriam para transformar o nosso povoado num campo minado?
Respira fundo e acrescenta:
-Todos sabem que a morte do garoto Zé foi um acidente, e que o velho Tonho foi sem sorte com os filhos. O melhorzinho deles é o professor, e esse.......
-Esse ontem se tornou um assassino, - interrompe João.
Depois de acender um de seus palheiros fétidos, e dar uma tragada, Adão Pezão com o rosto coberto pela fumaça diz:
-É verdade. O veio Tonho foi sem sorte com os filhos. Demétrio e Agostinho vão acabar do mesmo jeito que o Euclides, e depois do que aconteceu ontem, quem sabe o que acontecerá com o professor?
Curandeiro baixa a cabeça e responde:
-Eu continuo afirmando: São Valentim está cheio de sortilégios. Os ciganos são bruxos por natureza. Eles não precisam de motivo para terrificar e jogar um vilarejo inteiro nas garras de satanás!
Um tanto irritado Farroupilha diz:
-Eu discordo disso tudo, amigo Idelfonso!
Vira-se para Ernesto e pergunta:
-Ernesto. O amigo que até esse momento manteve-se calado, nos diga: O que o amigo acha disso tudo?
-Com o Euclides o destino cumpriu o que estava escrito, - responde Ernesto fastidioso. - Já com o meu neto ele cometeu uma grande injustiça, uma vez que Zé era apenas uma criança inocente, que nunca havia feito mal a alguém!
Vê o guarda na porta do armazém e acrescenta:
-Sobre os ciganos? O Albino está chegando. O guarda do meu garimpo é um sujeito viajado. Talvez o mesmo possa nos esclarecer algo a respeito dos forasteiros?
Curandeiro salta da cadeira e exclama:
-Vou-me embora!
E rapidamente retira-se.
Sem compreender a atitude de Curandeiro, o açougueiro pergunta:
-Que bicho mordeu Idelfonso?
-O Curandeiro está irado comigo, - responde Albino. - O mesmo persiste nessa ideia de que todos os ciganos são bruxos, e eu discordo disso. Por esse motivo nós tivemos uma leve discussão. Por isso está irado comigo!
De modo ponderado João pergunta:
-Aquilo que o amigo Idelfonso diz a respeito dos forasteiros, faz algum sentido?
O guarda da uma galhofa e responde:
-Não. Os ciganos são espertos. Se cochilar eles enganam mesmo. O resto é tudo bobagem!
Um pouco envergonhado Floriano declara:
-Como é bom saber disso, Albino. De tanto Curandeiro falar, e depois das coisas ruins que recentemente aconteceram aqui no povoado, eu já estava começando acreditar nas palavras de meu amigo!
O guarda balança a cabeça e responde:
-Os ciganos são seres humanos, assim como nós. A diferença está no jeito de viver. Hoje eles estão aqui, amanhã estão lá. Talvez o mistério em volta deles seja em decorrência desse jeito de vida!
 
Enquanto isso, não muito longe do armazém, Curandeiro, anda de um lado para o outro na saleta da farmácia.
 Olha a foto de sua falecida esposa, e diz para consigo:
-Preciso encontrar um jeito de vingar a morte da minha querida esposa, e urgente!
Como a porta estava entreaberta um garoto entra.
O farmacêutico injuriado pergunta:
-O que você quer?
Timidamente o garoto responde:
-Um litro de álcool!
Curandeiro sobe em cima de um pequeno banquinho, pega o recipiente com álcool, e quando se prepara para descer, derruba-o ao chão. 
A embalagem plástica parte-se ao meio e o líquido instantaneamente esparrama-se.
Irritado o dono da farmácia murmura:
-Maldição. Só de raiva devia acender um palito de fósforo, e jogar em cima dessa merda, só para ouvir o estouro!
Dá um grito:
-É isso! Gasolina neles!
O garoto assusta-se, e pula para trás.
Após a rinchavelhada, Curandeiro já com o braço estendido para entregar ao garoto outro recipiente com álcool, diz:
-Calma, minha criança. Aqui está o álcool!
Com uma das mãos o jovem freguês pega o recipiente, e com a outra entrega o dinheiro todo dobrado e amassado.
Depois de recusar o dinheiro Curandeiro sugere:
-Pegue esse dinheiro, vai ao armazém aqui do lado, e gaste-o em balas, porque hoje o álcool é gratuito!
Os olhos do garoto começam brilhar de felicidade.
Sem delongas ele agradece, e com um belo sorriso estampado no rosto, deixa a farmácia.
 
Ao contrário de Pedreira, que recebe de sua noiva Diva, carinho, beijos e abraços, Leto e Bernardinho é só ansiedade.
Na esperança de que Luana lhe veja, Bernardinho faz um enorme vaivém em frente à casa do açougueiro.
Como a mesma não sai à porta resolve chegar, e aperta a campainha.
Imediatamente Luana sai à porta e pergunta:
-O quê que você quer Bernardinho?
-Precisamos conversar, - diz ele.
Com aspereza a filha do açougueiro responde:
-Não temos mais nada para conversar!
E bate a porta na cara dele, que torna apertar a campainha.
Irritada Luana abre novamente a porta.
-Como assim, não temos mais nada para conversar? - pergunta Bernardinho. - Se tudo acabou entre nós, eu quero saber o porquê deste fim?
-É muita cara de pau, - responde ela -, apronta, e depois se faz de desentendido. É muita cara de.....
-Se vai usar como desculpa aquela história que o professor Dedo Duro inventou, para terminar nosso namoro, - interrompe o mesmo -, não perca o seu tempo. Eu quero respostas claras!
-Por que o professor inventaria que você andou saindo com aquela ratazana?
-Porque ele é apaixonado por você, Luana, e quer me ver bem longe do seu caminho!
Surpresa a filha do açougueiro diz:
-Você só pode estar brincando comigo. Essa é boa. Invente outra história, porque essa não colou Bernardinho!
-Se você não acredita em mim, pergunte a Diva ou ao Leto!
Em seguida tenta beijá-la.
-Olhe a pressa, Bernardinho. Se o que disse for verdade, eu lhe darei uma segunda chance. Contudo, até eu tirar essa história a limpo, fique bem longe de mim!
As palavras de Luana dão novo alento ao rapagão, que deixa a casa do açougueiro sorridente, e com a certeza da reconquista.
 
Enquanto isso no outro lado do povoado, Prazerosa chega à velha tapera.
Imediatamente Leto aproxima-se dela e pergunta:
-Ainda está magoada comigo?
A ratazana lança um olhar de desdém e murmura:
-Não acredito que está novamente aqui. Meu Deus do céu: tire esse carrapato do meu pé!
-Não é possível que já não se lembre de tudo aquilo que aconteceu entre nós?
-O que aconteceu entre nós foi só sexo, e nada mais. Agora vai embora, garoto, uma vez que não tenho tempo para ouvir confissões de amor!
O garoto enche-se de coragem e responde:
-Vai embora você, mulher desgraçada. Essa propriedade que você transformou em motel, pertence ao Antônio. Por isso me sinto no direito de expulsá-la daqui!
Já saindo, Prazerosa, irada diz:
-Com muito prazer, garotinho mimado!
 
Já passa da meia-noite.
 Curandeiro fecha a porta da farmácia, e sorridente sai em direção ao campo de futebol, levando consigo, um galão de gasolina.
O silêncio é o seu fiel companheiro.
Depois de abrir e fechar o portão que dá acesso ao campo murmura:
-Descobri uma maneira de tornar impossível a vida desses forasteiros aqui em São Valentim!
Vê as inúmeras barracas armadas junto aos pés de guabiroba. Apressa o passo. Aproxima-se do local, derrama gasolina nas primeiras três barracas, acende os fósforos, e joga-os.
Quando se prepara para derramar gasolina na quarta barraca, os forasteiros lhe cercam. Começa uma sessão de pontapés, e pauladas.
Curandeiro rola para um lado e para o outro, mas não consegue esquivar-se.
Todos: ciganos e ciganas tentam deixar suas marcas na pele do farmacêutico, que não vê outra saída, a não ser gritar por socorro.
O chefe do bando grita:
-Basta esse sujeito já teve aquilo que merecia!
Respira fundo e acrescenta:
-Enquanto desarmamos as barracas, quatro de vocês joguem esse néscio lá no centro do lugarejo!
 
Amanhece o dia. Como de costumo Tito vai até a sala da Boa Freguesia, abre a porta, e fica assombrado de susto ao ver Curandeiro estirado a junto a soleira da porta.
-Meu Deus do céu, - murmura -, o que fizeram com o meu bom amigo Idelfonso?
Em frangalhos Curandeiro abre os olhos e pergunta:
-Consegui concluir minha vingança?
Apavorado o dono do armazém responde:
- O bom amigo conseguiu!
Cala-se um instante e diz:
-Aguarde uns minutinhos até eu ir pegar o carro para levar o bom amigo ao hospital!
A caminho do hospital Curandeiro, gemendo de dor, insiste em perguntar:
-Consegui concluir minha vingança? Eu consegui ferir os ciganos?
-O amigo conseguiu, - responde Tito.
 
Rapidamente a tarde chega. A sala da Boa Freguesia está praticamente abarrotada, e a todo instante chega mais e mais gente, querendo saber o que acontecera com Curandeiro.
Entre um gole e outro de vinho, Pezão murmura:
-O disparate de Idelfonso saiu barato: somente dois fios de costelas quebrados?
Logo após a risota debochada o açougueiro diz:
-No meio dessa loucura toda, ele conseguiu um grande feito: expulsou os ciganos do nosso povoado!
-O estado em que eu o encontrei era assustador! - declara Tito -, graças a Deus tudo não passou de um susto!
De um jeito meigo João Permuta pergunta:
-Pra quando está previsto a alta dele?
-Quando é amanhã, ou depois ele estará junto de nós, -  responde o dono da venda.
 
Uma semana depois da morte de Euclides, subdelegado Napoleão manda chamar o professor Noel e Sebastião.
Imediatamente os dois foram ter com a autoridade máxima do povoado.
-Sentem-se, - sugere o subdelegado.
Vira-se para a esposa e ordena:
-Mulher! Traga-nos um pouco de vinho e café, depois pode se retirar!
Desconfiado das intenções dá autoridade, Noel pergunta:
-O que o subdelegado quer de nós?
Após uma gargalhada destemperada, o velho Napoleão responde:
-Nada de mais! Será que um simples ser humano como eu, não tem o direito de saber como os amigos estão passando?
Logo depois da galhofa Noel declara:
-Se é isso que o subdelegado quer saber, eu estou péssimo, e continuarei assim, até o dia em que esse povo sem préstimos sentir a força e a fúria do Dedo Duro!
O subdelegado bebe um gole de vinho, coloca fumo no cachimbo, e em seguida pergunta:
-Por que não veio lecionar essa semana, professor?
-Pedi demissão, por....
-Isso não é bom, professor, - interrompe o velho -, nada bom!
-Tenho outros planos para o futuro! - declara Noel com convicção.
Completamente envolvido pela curiosidade o subdelegado pergunta:
-Posso saber que planos são esses?
-É claro que sim, subdelegado, - responde ele. - Eu pretendo criar uma seita religiosa, uma vez que dizem dar muito dinheiro!
A autoridade cai na gargalhada, e depois de um tempo murmura:
-Essa é boa: uma seita religiosa aqui em São Valentim. Não, não! Só o amigo professor para pensar um disparate desses!
Respira fundo e continua:
-Bem! Eu mandei chamar os amigos por dois motivos: o primeiro os caros já sabem; saber como estavam passando. E o segundo é uma proposta de negócio, que....
-Que negócio é esse? - interrompe Sebastião mais que de pressa.
O velho derrama mais vinho no copo, bebe um gole, e começa:
-Durante muito tempo andei procurando um jeito mais fácil de ganhar dinheiro. No início o plano era roubar massas e pequenos bojos. Só que para isso eu precisaria de bons cortadores de laje. Por isso descartei essa possibilidade. Recentemente, meio sem querer, eu fiquei sabendo do valor que tem os martelos de compressores.....
-Claro, os martelos, - interrompe novamente Sebastião -, além de ótimo valor, são fácil, fácil de roubá-los. Como nunca havia pensado nisso?
-Em que parte desse plano, Sebastião e eu entramos? -  pergunta o professor.
-É muito simples, professor, -  responde o velho Napoleão. - Os amigos se encarregam de me trazer os martelos, e eu de vendê-los. Os lucros nós três dividiremos em partes iguais. Quanto aos outros integrantes do grupo, esses receberam uma pequena porcentagem, e...
-Dê qual grupo o subdelegado está falando? - interrompe Noel. - E isso não é perigoso demais?
-Ora! Eu estou falando do grupo de pessoas que nós agruparemos, - responde o velho. - E quanto ao segundo questionamento, eu sou a autoridade máxima aqui do lugarejo. Por isso tenho condições de dar total segurança ao grupo!
-Certamente os meus irmãos entraram na jogada, -  assegura Sebastião.
-Meu filho também, - diz o velho gambá.
Vira-se para Noel:
-Será que Demétrio e Agostinho topam essa parada, professor?
Noel balança a cabeça e responde:
-Não sei. Preciso falar com eles!
-Pois trate de fazer isso o mais rápido possível, professor, - diz o subdelegado. - Aqui no povoado, o único garimpo que tem guarda é aquele do Ernesto. Por isso deixaremos esse de fora!
Depois de uma gargalhada Sebastião diz:
-Vamos efetuar o nosso primeiro roubo, no garimpo de meu pai. Só quero ver a cara daquele velho avarento!
-O amigo é quem manda, - responde Napoleão -, se você quer começar pelo garimpo de seu pai, por mim tudo bem!
Noel fica em pé, respira fundo e declara:
-Bem! Vou tentar convencer meus irmãos a se juntarem a nós!
- Faça isso, professor, - responde o velho -, faça isso!
Em seguida Sebastião e Noel deixam a casa do subdelegado.
O professor pensativo pergunta:
-O que achou da ideia do sarcástico velho Napoleão?
-A ideia do subdelegado é fantástica, professor, - responde Sebastião. - É até um pouco difícil acreditar que tenha saída daquela cabeça amortecida pelo vinho? Pensava eu que aquele velho ordinário só soubesse usar uma arma!
 
Na lojinha de João Permuta, Curandeiro, ainda com partes do corpo doloridas declara:
-Teve um momento que cheguei a pensar que era o meu fim!
Com todo o seu bom senso João responde:
-Depois dessa, vamos ver se o amigo coloca a cabeça no lugar!
Após um lapso de tempo acrescenta:
-Procure viver o presente, e não o passado!
Curandeiro vai até a porta e declara:
-O presente é continuação do passado. Portanto eu não posso esquecer minha falecida esposa, nem o mal que os ciganos fizeram a ela!
-Amigo, - diz João -, o passado é uma verdade que se transformou em mentira!
Curandeiro nada responde.
 
Acaba mais um dia de trabalho.
Com morosidade Pedreira desce do garimpo.
Ofegante sua noiva Diva corre ao seu encontro.
Depois do abraço e do beijo a mesma diz:
-O pai quer falar urgentemente com você, Antônio!
De um jeito terno ele pergunta:
-Surgiu algum problema?
-O Leto é o problema!
-Não vai me dizer que o mesmo e Sebastião tornaram a brigar?
-Não, - responde Diva. - Lá em casa você saberá o quê que anda se passando com o Leto!
 
Na grande casa amarela, no outro lado do povoado, Floriano, meio tresloucado anda de um lado para o outro, e murmura:
-Nunca pensei que um dia isso pudesse acontecer: um filho meu apaixonado por uma discípula de Madalena!
Nisso chega Diva e Pedreira.
De imediato Floriano diz:
-Graças a Deus vocês chegaram!
-O que aconteceu com o Leto? - pergunta Pedreira.
-Depois da discussão que tivemos recentemente, ele se mudou lá para a velha tapera, - responde Floriano. - Eu já tentei trazê-lo várias vezes, mas todas as tentativas foram em vão. Aquela mulher, discípula de Madalena virou completamente a cabeça de meu filho. Por isso mandei lhe chamar. Talvez você tenha mais êxito do que eu!
-É bem como o guarda Albino falou, - diz o garoto -, a paixão é um sentimento perigoso. Se Leto não estivesse apaixonado pela Prazerosa, nada disso teria acontecido e...
-O que você falou Antônio? - interrompe Diva.
-Nada não, Diva, - responde ele um tanto assustado.
Vira-se para o seu futuro sogro:
-Temos que ter paciência com o Leto, uma vez que está sofrendo muito com a rejeição de Prazerosa. O problema todo é com ela que não quer mais saber dele, e não com o senhor!
Enfurecido Floriano diz:
-Quem aquela cadela pensa que é para tratar o meu filho como um vulgacho? Aquela cachorra é pior que uma prostituta, visto que uma prostituta cobra para ter relações com os homens, e essa tal de Prazerosa transa com os homens de graça!
Respira fundo e continua:
-Ignorância a minha: preocupado com a moral da família, quando deveria estar pensando no bem-estar do meu filho. Até posso imaginar o quanto ele está sofrendo!
O jovem olha com carinho para Floriano e informa:
-Agora mesmo, vou ter com Leto, lá na velha tapera, e assim ficaremos sabendo como o mesmo está!
-Vou junto contigo, Antônio, - diz Diva.
- Não, Diva, - responde Pedreira -,  é melhor eu ir sozinho!
E sai às pressas.
A caminho da velha tapera diz para consigo:
-Albino sabe das coisas. Tudo que o guarda falou é verdade!
Avista a velha casa, e Leto sentado na soleira da porta.
Aproxima-se dele e declara:
-O teu estado é deplorável, Leto!
-Se está aqui para encher o meu saco, - responde Leto -,pode voltar!
-Não é nada disso. Só estou aqui para lhe ver!
-Agora que já me viu, pode voltar!
Estupefato com agressividade do futuro cunhado Pedreira responde:
-Qual é o motivo de toda essa agressividade, Leto? Eu estou aqui para conversar e tentar ajudar um amigo!
Consciente do erro que havia cometido, Leto olha firme nos olhos de Pedreira e responde:
-Me desculpe, eu estou um pouco nervoso!
-Um pouco; você está com os nervos à flor da pele!
Em seguida pergunta:
-Como vão as coisas com a Prazerosa?
-Ela está cortando voltas para não se encontrar e falar comigo, - responde Leto com a cabeça baixa.
-Se você continuar, assim como está, é óbvio que ela vai cortar voltas para não encontrá-lo, - diz Pedreira. - É bom você dar um novo alento nesse corpo, e partir para luta. Se jogar na sarjeta não é a melhor opção!
-Eu amo a Prazerosa! - declara Leto. - Meu Deus! Como eu a amo!
-Você tem que voltar para casa, Leto. Nas condições em que está vivendo, você não aguentará por muito tempo!
Leto olha em direção à rua, vê Prazerosa passando e responde:
-Não precisa se preocupar comigo; estou bem aqui!
Inconformado com a resposta dele, Pedreira diz:
-Leto, você quer que a Prazerosa tenha pena de ti. É isso que você quer, não é mesmo? Pois fique sabendo que eu acho essa atitude completamente errônea!
Depois de uma breve pausa sugere:
-Vá para casa, tome um bom banho, coloque uma roupa decente, e vá a luta. Ficar se humilhando não resolve nada!
-Me deixe em paz, Pedreira, - responde ele cabisbaixo.
-Se é isso que você quer tudo bem, - diz Pedreira -, eu vou-me embora, e lhe deixarei em paz. Porém, mais tarde voltarei com roupas e comida para você!
-Não estou precisando de nada!
Só que as suas palavras não foram ouvidas, uma vez que Pedreira já estava longe.
O céu estrelado. O ventinho aconchegante. Nada, nada chama a atenção de Leto.
 Na sua cabeça existe um só pensamento: reconquistar Prazerosa a qualquer preço. No entanto, a cada dia isso se torna mais difícil.
 
Com o coração cheio de angústia Floriano recebe Pedreira na porta e pergunta:
-Então, Antônio, como foi sua conversa com o Leto?
-Não tem jeito. No momento ele não pretende voltar para casa!
-Leto está fazendo isso somente para me magoar, - murmura Floriano.
-Não é nada disso, seu Floriano, - responde o garoto -, é só esperarmos a febre chamada Prazerosa passar, que tudo voltará ao normal!
Vira-se para Diva:
-Precisamos levar roupas e comidas para ele!
Uma vez providenciado o que tinha pedido Pedreira e Diva partem em direção a velha tapera.
Ao vê-los já distante Floriano murmura:
-Só espero que essa febre chamada Prazerosa, passe logo, para que assim eu possa ter o meu filho de volta!
 
Ao contrário de Leto, Bernardinho deixa a casa do açougueiro dominado pela volúpia, uma vez que Luana lhe aceitara de volta.
Sorridente diz para consigo mesmo:
-Luana é um tanto complicada, mas me faz feliz. Pouco importa a sua tendência a crueldade. Sei que futuramente ela fará às vezes da Parteira em matéria de crueldade para com marido, que no caso serei eu, mas isso pouco importa. Suportarei as consequências com muito prazer!
 
A noite passa como um relâmpago, e o dia vêm dar a boas-vindas aos garimpeiros, que apressados sobem aos garimpos.
Ainda sorridente Bernardinho vai até onde está Pedreira e o guarda Albino.
-Não diga nada, Bernardinho, - diz o guarda -, me deixe adivinhar: conseguiu reconquistar a filha do açougueiro, não é mesmo?
-É isso mesmo, Albino, - responde o rapagão. - Agora só está faltando eu encontrar um bom bojo para completar esse grande momento!
Pedreira deixa de lado a minúcia e diz:
-Nós precisamos ajudar o Leto. A rejeição de Prazerosa deixou-o um tanto tresloucado!
-A coisa é mais séria do que pensei! - declara o guarda.
Vira-se para Pedreira e pergunta:
-O que ele aprontou dessa vez?
-O mesmo saiu de casa, e está vivendo em condições precárias lá na velha tapera, onde eu vivi com meus pais!
Estupefato Bernardinho declara:
-Nunca pensei que Leto fosse assim, tão fraco. Se jogar na sarjeta por causa de uma mulher que satisfaz todo mundo, e ainda de graça?
-Você tem razão, Antônio, - diz o guarda -, precisamos ajudar o Leto, e urgente!
Já saindo informa:
-Vou fechar a porta do acampamento, e depois podemos ir até ele!
 
Prazerosa desce em direção ao centro do povoado.
No primeiro riacho Leto lhe ataca:
-Ainda está zangada comigo?
Logo após a cara de nojo a mesma responde:
-O que você acha garoto?
Baixa a cabeça e exclama:
-Já não sei mais o que fazer para você largar do meu pé!
O garoto olha firme em seus olhos e responde:
-É simples: é só aceitar se casar comigo, que eu largo do seu pé!
Já saindo do normal Prazerosa pergunta:
-Me diga garoto: que futuro teria eu ao seu lado, uma...?
-Se aceitar se casar comigo, - interrompe ele -,farei de você uma rainha!
-Olhe para você, garoto, - responde a mesma. - Você mais parece um maltrapilho. Primeiro se torne gente, para só então pensar em se casar!
E pisando nas pontas das pedras quase encobertas pelas águas, atravessa o primeiro riacho.
Com a intenção de segui-la, Leto também atravessa o riacho, vê o guarda, mais Pedreira e Bernardinho descendo a estreita viela, que segue junto à costa do primeiro riacho, e para.
Antes mesmo de cumprimentá-lo Pedreira pergunta:
-O que você fez com as roupas que Diva e eu lhe trouxemos ontem?
Leto baixa a cabeça, e nada diz.
De um jeito terno o guarda declara:
-O teu estado não é dos melhores, meu jovem amigo. Se você quer reconquistar o seu grande amor, acho bom se erguer novamente, e o mais rápido possível!
-No momento Prazerosa não quer nada comigo, - responde Leto -, mas de tanto eu apoquentá-la, ela vai acabar querendo: isso vai!
Com sensatez Bernardinho diz:
-Sei que é um tanto desagradável dizer o que vou lhe dizer Leto, mas é preciso: se você quer reconquistar Prazerosa vá para casa, tome um banho, tire essa barba suja, coloque uma roupa decente, e parte para luta. Assim do jeito que está, nunca você conseguirá reconquistá-la!
O ódio manifesta-se no olhar de Leto, que se vira para Bernardinho e responde:
-Quem é você para falar, Bernardinho? Pois você anda implorando de joelhos para Luana lhe aceitar novamente, e ainda se acha no direito de me dar conselho?
-É, mas eu não me atirei na sarjeta, - retruca Bernardinho -, e para sua informação, as coisas entre Luana e eu voltaram às boas!
O guarda bate no ombro de Leto e diz:
-O jovem amigo tem que se valorizar. O que você está fazendo com você mesmo se chama covardia!
Totalmente adverso à realidade Leto murmura:
-Grandes amigos eu tenho. Ao invés de tentarem me ajudar, querem mais é me ver no fundo do poço!
Atravessa novamente o riacho, e apressado começa subir a ladeira em direção à velha tapera.
-Espere Leto, - grita Bernardinho -, nós....
-O deixe ir, Bernardinho, - interrompe o guarda. - Talvez seja melhor assim. Vamos voltar ao garimpo!
Pedreira vira-se para o guarda e declara:
-Não compreendi a sua atitude, Albino!
-No final da tarde retornaremos para conversar com ele, - responde o guarda. - Nós estamos tratando-o com indiferença, quando na verdade ele continua sendo o mesmo. A única coisa que mudou, foi o seu jeito de viver!
-O senhor tem razão, - concorda Bernardinho -, morar na velha tapera foi opção dele, e por isso devemos respeitar. No momento em que ele achar que deve voltar para casa ele voltará!
-É isso mesmo, - responde o guarda.
 
Aos poucos o sol retira-se.
 Os garimpeiros deixam as brocas, e começam desfilar na rua principal.
Uns trazem estampados em seus rostos a decepção de mais um dia de trabalho perdido.
Outros já trazem um belo sorriso: é sinal que ganharam o dia, talvez a semana, e talvez o sustento de dois, três meses.
O cheiro de pólvora queimada, que no final da longa jornada de trabalho sempre acompanha os garimpeiros, sufoca o perfume das flores, que deixam ainda mais bela a igreja de São Valentim.
 
Enquanto o guarda, Bernardinho e Pedreira vão em direção a tapera, na casa do venenífero subdelegado, o professor Noel e Sebastião discutem com a autoridade do povoado os últimos detalhes dos roubos que pretendem cometer logo mais.
Sebastião enche-se de parvoíce e diz:
-Já comprei a tinta para deixarmos a nossa marca, para...
-Isso é tolice, Sebastião, - interrompe o velho Napoleão-, o que queremos é dinheiro, não fama!
-Falou bem, subdelegado, - responde o professor com ar de rir.
Olha em direção a rua:
-Bem! Então fica combinado: depois da meia-noite subiremos aos garimpos!
 
Enquanto isso na tapera, o guarda coloca carne em cima de uma tábua velha e começa salgá-la.
Mais no canto, sentado em um banquinho feito a facão, Pedreira tira a casca de duas varas verdes, para usá-las como espeto.
Bernardinho e Leto sentados na soleira da porta observam o fogo destruir a madeira seca que aos poucos vão tornando-se brasas: nelas serão assada a carne que o guarda acabara de salgar.
Pedreira vira-se para os dois, e sorridente diz:
-Seria bom se um de vocês nos servisse. O vinho, e as taças estão dentro dessa caixa de papelão, aí perto de vocês. Só tome cuidado elas são da vó!
Imediatamente Bernardinho abre a caixa, pega as taças, e poucos minutos depois, os quatro passam a beber o vinho que o guarda trouxera.
Após esvaziar a segunda taça, Pedreira, já um tanto faceiro, olha o céu estrelado, respira fundo e diz:
- Esse momento é digno de ficar na memória!
O guarda da um sorriso plangente e responde:
-É verdade. Deus queira que esse momento não seja o último!
Leto que ficara o tempo todo sem dizer uma só palavra declara:
-É muito bom estarmos aqui. E tudo que é bom Deus quer.  Portanto viveremos outros momentos iguais a esses!
-Sábias palavras, Leto, - responde o guarda.
-Então vamos brindar esse digno de ficar na memória, - diz Bernardinho.
A cada gole de vinho o pensamento de Leto desprende-se mais de Prazerosa.
Já bem próximo da embriagues total declara:
-Me alegra muito estar junto de vocês, meus...
-E o vinho muito mais, - interrompe Bernardinho.
Já demonstrando ares de rir Leto responde:
-O amigo tem razão. Aos pouquinhos o vinho trás a volúpia!
Bebe mais um gole e acrescenta:
-Abençoado vinho!
Sorridente Pedreira afirma:
-Você não está parecendo o mesmo de duas, três horas atrás, Leto!
Cala-se um instante e acrescenta com uma piscadela maliciosa:
-Tudo indica que entre um gole e outro de vinho, a imagem da Prazerosa se dissolveu!
Com a visão já um tanto embaralhada Leto pergunta:
-Falando em Prazerosa: digam-me, meus amigos, o que eu faço para tê-la de volta?
Bernardinho e Pedreira olham para o guarda, que meio dúbio responde:
-Não sei o que lhe dizer Leto. Talvez o jovem amigo deva tentar outra tática!
-Que tática seria essa?
-Sei lá, - começa o guarda. - Existem mulheres que adoram homens amáveis, outras não. Eu só conheço a tal Prazerosa de vista. O jovem amigo que a conhece bem deve saber o jeito de homem que ela gosta?
Depois de pensar um pouco Leto responde:
-Ela não gosta de homens amáveis!
-Então não seja amável com ela, - propõe Bernardinho.
-Amo demais aquela mulher. Por isso sempre serei amável com ela!
De um jeito terno o guarda informa:
-A carne já está assada. Vamos deixar esse assunto para depois, e comê-la antes que esfrie!
Imediatamente os quatro passam a comer.
 
É meia-noite. Praticamente todo o povoado dorme.
Professor Noel, Demétrio, Agostinho e Lesma, juntam-se ao Sebastião e seus irmãos, e rapidamente sobem em direção aos garimpos.
O bando só deixa de fora o garimpo de Ernesto. Os demais em pouco tempo foram, visitados.
Já de volta ao centro do povoado, Noel sorridente ao velho Napoleão informa:
-Tivemos bom êxito em nossa missão, seu Napoleão!
A autoridade da uma galhofa e responde:
-Isso é bom, professor. Muito bom!
Respira fundo e em seguida ordena:
-Coloquem a mercadoria lá no galpão, junto com o fumo!
Vira-se para Noel:
-Na parte da tarde conversaremos professor!
Depois de feito aquilo que o subdelegado mandara, os integrantes do grupo se separam.
 
No outro lado do povoado, o guarda, o mais sóbrio, vira-se para Bernardinho e Leto:
-Bem! Está na hora de debandarmos!
Com a língua enrolada Leto diz:
-Fiquem um pouco mais, meus bons amigos!
Depois da gargalhada Bernardinho responde:
-Para o amigo que não irá trabalhar logo mais, até pode ser cedo. Agora, para mim já é tarde demais!
-É verdade, - concorda Pedreira mostrando, certo cansaço, - não vai demorar em amanhecer!
Logo em seguida, ele, mais o guarda e Bernardinho deixam a velha tapera.
Ao invés de entrarem na vila dos Cachorros Sentados, os três preferem pegar a viela a esquerda, que saí na gruta de São Valentim.
Parado no último degrau da escada da casa, onde mora com seus pais e irmãos, Demétrio vê os três subindo a viela, vira-se para o professor, e apontando com o dedo pergunta:
-Um daqueles subindo lá, não é o guarda do garimpo do Ernesto, Noel?
O professor coloca as mãos na cabeça e responde:
-Maldição! Pois não é que é ele mesmo? Poderíamos ter visitado o garimpo de velho Ernesto sem problema algum. Isso é o que eu chamo de azar. Que chance perdemos. Oportunidade igual a essa só aparece uma vez!
Demétrio bate no ombro do irmão e diz:
-Deixe isso pra lá, irmão. Vamos dormir que nós ganhamos muito mais do que ficar aqui lastimando!
O professor concorda, e os dois entram e fecham a porta.
 
São oito horas. Enquanto os garimpeiros, no garimpo de Ernesto, começam mais um dia de trabalho, nos outros garimpos tudo continua parado.
Os garimpeiros assombrados de espanto perguntam-se:
-Cadê os martelos dos compressores? O que foi feito deles? Será que foram roubados? Como vamos trabalhar sem os compressores?
Perguntas, perguntas, e nada de respostas.
 
Expedito coloca na boca um pedaço de pão seco.
Mastiga-o, bebe um gole de café, que mais parece água suja, e para a esposa diz:
-A crise está braba, mulher. Você tem que aprender a economizar. Por exemplo, esse café está muito forte; você pode colocar mais água. Ao invés de fazer pão misturado, de hoje em diante faça-o, somente com farinha de milho: saí mais barato!
A velha baixou a cabeça e nada disse.
Nisso um jovem garimpeiro bate em sua porta.
O velho ranzinza atende:
-Pois não?
-Eu só estou aqui para saber o que foi feito dos martelos dos compressores!
O velho da um pulo para trás e pergunta:
-Como assim? Os martelos não estão lá nos compressores?
-Não, - responde o jovem. - Pensamos que talvez o senhor tivesse feiro alguma coisa com eles?
Pálido, e com as mãos trêmulas, Expedito vira-se para o jovem:
-Não acredito no que está me dizendo!
Calça suas botas de borracha. Pega o chapéu de palha, e acompanha o jovem até ao garimpo.
Ao ver os compressores sem os martelos, o mesmo fica desesperado.
Com pena de si mesmo murmura:
-Eu não acredito. Economizei tanto para comprar esses martelos, e agora vem um filho da puta qualquer e rouba-os!
Vira-se para os garimpeiros:
-Alguém vai ter que se responsabilizar pelo prejuízo, uma vez que eu não posso perder dinheiro!
Amaro, marido da Parteira, olha firme em seus olhos e diz:
-A solução é ir registrar uma queixa ao subdelegado!
-É isso mesmo o que vou fazer, - responde o velho sovina. - O filho da puta que me roubou, vai pagar caro pelo que fez!
E rapidamente deixa o garimpo.
 
De volta ao centro do povoado, encontra-se com Floriano, e gaguejando diz:
-Floriano, aconteceu uma grande desgraça comigo. Pois não é que....
-Não vai me dizer que também roubaram os martelos de seus compressores? - interrompe Floriano com cara de poucos amigos.
-Foi isso mesmo, - responde Expedito. - Como comprarei outros martelos, sendo eu um pobre sem dinheiro?
A vontade de Floriano era chamá-lo de velho sovina, visto que tinha dinheiro que não acabava mais e vivia chorando. No entanto limitou-se a dizer:
-Precisamos falar com os outros donos de garimpos, e depois irmos até o subdelegado!
Expedito fez final que sim com a cabeça, e pouco tempo depois, os grandes e pequenos donos de garimpos, vão ter com o subdelegado, que ao vê-los pergunta:
-O que posso fazer por vocês, meus bons cidadãos?
-Estamos aqui para registrar uma queixa, - responde Floriano. - Nesta noite que passou roubaram todos os martelos dos compressores de nossos garimpos. Só se salvaram os do garimpo do Ernesto!
Venenífero como sempre, o velho Napoleão lança um falso olhar de abismado, vira-se para Ernesto e diz:
-Estranho os ladrões deixarem de fora o seu garimpo?
-O que o subdelegado está insinuando? Que eu tenho algo a ver com os roubos?
Com ar de rir Napoleão responde:
-Não é nada disso, Ernesto. Eu me expressei mal. O que quis dizer, é que os ladrões sabiam que em seu garimpo havia guarda. Por isso deixaram-no de fora!
A ansiedade toma conta de Expedito, e com o pensamento fixo em seus martelos diz:
-Nós queremos saber o que o subdelegado vai fazer a respeito dos roubos. Eu quero os meus martelos de volta, e punição ao patife que os roubou!
O peçonhento subdelegado olha em volta, movendo os olhos lentamente, e informa:
-Calma meus bons cidadãos. Eu vou resolver esse problema, começando as investigações agora mesmo!
Depois de um lapso de tempo pergunta:
-Os nobres cidadãos têm algum suspeito?
Todos os donos de garimpos responderam que não.
-Isso não é bom, cidadãos, - diz o velho. - Sem suspeitos as coisas se complicam. Agora podem ter a certeza de que farei o possível e até mesmo o impossível para resolver esse caso!
 
É perto do meio-dia. A caminho de casa Expedito com uma mão segura o velho chapéu de palha. Com a outra ajeita as farripas de cabelos, masca fumo, e enfadonho murmura:
-Meu Deus, meu Deus! Que o porcaria do subdelegado encontre o ladrão patife, e recupere o que é meu, uma vez que será muito difícil para mim, ser obrigado a mexer em minhas ricas economias para comprar novos martelos!
 
Logo após o almoço o subdelegado faz uma rápida visita aos garimpos, não para encontrar pistas, mas sim para escondê-las, e pouco tempo depois retorna ao centro do povoado, senta-se na sacada de sua casa, da uma gargalhada estrepitosa, vira-se para a esposa e ordena:
-Me traga um pouco de vinho, mulher. Hoje tenho bons motivos para comemorar, visto que obtive uma grande vitória!
Rapidamente a velha lhe trás o vinho.
O velho olha nos olhos dela e pergunta:
-Você viu a cara dos mentecaptos, mulher? Pareciam crianças implorando por ajuda. Principalmente o come unha Expedito. Esse só faltou chorar!
 
Depois de um longo tempo de enrolação por parte do subdelegado, os donos de garimpos se conformaram com a perda dos martelos, e compraram outros: inclusive o sovina Expedito.
O mesmo chorou, chorou, mas não teve outro jeito: obrigou-se a comprar novos martelos para não mais perder dinheiro, assim como perdera durante o tempo em que relutou para comprá-los, e impossibilitou os garimpeiros de trabalharem em seu garimpo, ficando assim sem as suas comissões.
 
Professor Noel e seu bando continuam a série de roubos na região. Nos garimpos dos povoados Salto Velho, Saltinho, Linha Alta, e São José, o pequeno bando obtém grandes êxitos.
 De quebra o grupo ainda provoca o início de um infarto em Expedito, que ignorando o adágio de que o barato saí caro, não quis colocar guarda em seu garimpo, e sabendo disso o professor e seus comandados, tornaram a roubar os martelos de seus compressores.
 
Ao contrário de Expedito, Floriano, com medo de novos roubos, tirou negrinho Bira, guarda de seu garimpo no Salto Velho, e colocou-o no de São Valentim, e assim facilitou, e muito a vida do bando, que não encontrou obstáculo algum para roubar os seus martelos quando por lá passaram.
 
E assim o outono acaba, e o inverno chega, trazendo consigo a geada, que sem cerimônia, vai estendendo um imenso lençol branco sobre o pouco verde que ainda resta.
Os fogões a lenha voltam as suas atividades.
Praticamente em todas as moradias, se vê fumaça saindo das chaminés.
Já não se vê mais crianças correndo ao redor da igreja, na maior algazarra.
Quem passa em frente à casa do subdelegado Napoleão, estranha não mais vê-lo sentado na sacada, bebendo vinho, e fumando cachimbo.
O frio rigoroso faz com que poucas pessoas se animem a deixar suas casas.
Nas ruas só se vê movimento ao amanhecer, e ao entardecer, horas em que os garimpeiros vão e voltam dos garimpos.
 
Na velha tapera, Leto, de cabelo comprido, e barbudo, aquenta-se perto do fogão de barro.
Com a intenção de tirar Prazerosa do pensamento por alguns minutos, vai até o baú, junto a janela, pega a Bíblia que a sua irmã Diva lhe dera há tempo, abre-a, e procura encontrar consolo lendo-a.
Nisso o vento abre a porta que estava apenas encostada.
Imediatamente ele corre fechá-la, vê seu grande amor passando, e não se contem: deixa de lado o livro Sagrado, e sai correndo atrás de Prazerosa, que ao vê-lo para, e com pena dele diz:
-Você ainda está nessa tapera, garoto? Nas condições precárias em que anda vivendo, você está sujeito a qualquer tipo de doenças!
-Isso quer dizer que está preocupada comigo? - pergunta o garoto animado.
-É evidente que sim, - responde ela -, como estaria com qualquer um que estivesse vivendo, assim como você: igual a um animal!
Arrepelando-se de raiva Leto pega Prazerosa pelo braço e diz:
-Não quero que tenha pena de mim!
-Não é isso que parece, - retruca. - Para mim o que você quer é isso: que eu e o mundo tenhamos pena de você!
-O que quero é que o meu amor seja correspondido! - declara o garoto -, nada mais, além disso!
O desejo dela é fazer-lhe um carinho. Mas logo volta atrás, e resolve não dar esperança ao mesmo. Por isso com rispidez diz:
-Quantas vezes eu já lhe falei para me esquecer, Leto. Deixe-me em paz, garoto!
E faceira como sempre, afasta-se dele, que retorna a velha tapera com uma leve expressão de felicidade no rosto: afinal, dessa vez Prazerosa fora um pouco mais delicada.
 
Mais um sábado chega. O dia é igual a tantos outros dias de inverno.
Uma fina garoa mistura-se com a neblina.
Mesmo estando muito frio, como de costume, na parte da tarde, o grupo de jovens se reúnem no salão comunitário para bater papo.
Os mais velhos não aguentam, e vão ao tradicional ponto de encontro dos amigos: o armazém da Boa Freguesia, onde muitos garimpeiros estão reunidos, ainda comentando os roubos ocorridos nos garimpos da região.
-Para mim tem pessoas aqui de São Valentim envolvida nesses roubos todos, - diz um garimpeiro num fiapo de voz.
Um segundo diz:
-Não acredito nisso. Se tivesse alguém daqui envolvido nessa sujeira toda, o subdelegado já tinha descoberto, e prendido!
Um terceiro da uma rinchavelhada e responde:
-O subdelegado Napoleão só consegue prender, é o cachimbo entre os dentes, e nada mais!
Todos se põem a rir.
Depois das gargalhadas Pezão acende um de seus palheiros espanta tudo, da uma tragada, vai até o balcão e diz:
-Se tem alguém daqui envolvido nesses roubos eu não sei. Só sei que o desgraçado que fez essa sujeira toda tem que morrer com um berne encravado na bunda!
E mais uma vez todos se põem a rir.
Passado um tempo o açougueiro Farroupilha murmura:
-Você não tinha outra praga para lançar sobre o infeliz, Adão? Tinha que ser um berne na bunda? Essa é para matar do coração!
Sorridente João Permuta vira-se para o açougueiro e declara:
-Isso é coisa de Adão, Farroupilha!
Não muito contente Floriano diz:
-Nós estamos mal de autoridade aqui em São Valentim. Talvez os ladrões sejam daqui mesmo. Só que esperar que o peçonhento subdelegado descubra alguma coisa é o mesmo que esperar papai-noel!
Ernesto que até então ficara calado, entra na conversa e pergunta:
-Falando em Noel: o que é feito do professor? Depois do enterro de Euclides não o vi mais!
-É verdade, - concorda Adão. - O professor se afastou da escola, do grupo de jovens, e da igreja. Acho até que depois daquela tragédia, o mesmo ficou um tanto tresloucado!
Com morosidade João informa:
-Seguidamente ele vem ter com o velho Napoleão!
Ernesto balança a cabeça e diz:
-Professor Noel e o subdelegado? Estranha ligação!
-Não há nada de estranho nisso, Ernesto, uma vez que ambos são assassinos, - responde o açougueiro.
Ernesto vira-se para ele e diz:
-O amigo tem razão!
 
Nisso o professor chega à frente da casa do subdelegado, sobe a escada, e fica parado na sacada, ouvindo as gargalhadas que vêm do salão comunitário.
Por acaso o velho Napoleão abre a porta, vê Noel ali parado e ordena:
-Entre professor. Aí fora está muito frio!
Noel fica parado: sem nada dizer.
O subdelegado esfrega as mãos e pergunta:
-Está pensando no tempo em que andava com aqueles garotos de vidas medíocres, professor?
Noel continuou calado.
 Na verdade o que o mesmo queria naquele momento era estar junto do grupo de jovens, e o mais importante: perto de Luana, seu grande amor.
 Mesmo que a vice beijando Bernardinho isso não importaria.
 Na realidade o que importaria mesmo, era estar perto dela.
 Quem sabe numa dessas voltas que o mundo da, ele não teria uma chance de conquistá-la?
De repente o coração do professor encheu-se de tristeza.
Em seus olhos manifestou-se o arrependimento, e a consciência de que havia cometido um erro sem volta.
A quietude de Noel deixa o subdelegado preocupado.
Com prudência ele fez outra pergunta:
-Posso saber em que está pensando, professor?
-Estava pensando em que a minha vida se transformou, - responde Noel fastidioso. - Até bem pouco tempo eu era um pacato professor que sonhava conquistar a filha do açougueiro. Hoje sou um ladrãozinho de quinta, e ainda por azar assassino!
O subdelegado da uma galhofa e diz:
-Então o problema é a filha do açougueiro! Lembra-se, eu lhe ofereci ajuda, mas o amigo recusou. Agora aguente as consequências. Mas não se preocupe: certamente apareceram outras iguais a filha do açougueiro!
E em seguida torna a ordenar:
-Entre e sente-se, professor!
Depois do cafezinho o velho vil diz:
-Precisamos encontrar outro meio para ganharmos dinheiro, professor. Roubar martelos se tornou uma tarefa impossível aqui na região!
-Já pensei muito sobre esse assunto, - responde Noel -, e cheguei à conclusão de que devemos parar!
Assombrado de susto o velho diz:
-Que negócio é esse de parar, professor? Nós apenas começamos. E se pararmos, o que pretende fazer da vida? Seu cargo de professor jamais o amigo conseguirá recuperar!
-Ser professor não é a única profissão honesta nessa vida, e se continuarmos, o que iremos roubar, uma vez que o senhor mesmo disse que roubar martelos se tornou tarefa impossível?
-Que burrice é essa, professor, - diz o velho. - O amigo sabe que trabalhar honestamente nesse país é pedir para passar fome, e o amigo viveu essa verdade até bem pouco tempo. Depois tem outra: o professor é um sujeito marcado. Quando as pessoas olham para você, elas não vêm um professor, e sim um assassino!
Noel pensou um pouco e chegou à conclusão de que o velho peçonhento tinha razão.
Nunca mais ele poderia ser como era antes.
 De fato diante dos olhos de Deus e de toda a sociedade, o mesmo não mais era um professor, mas sim um assassino.
Confuso vira-se para o subdelegado e pergunta:
-O senhor de fato não acredita em vida após a morte, subdelegado?
-É claro que não, - responde o peçonhento -, essa coisa de vida após a morte, foi inventada pelos espertos, para tirar proveito dos ignaros!
As palavras do velho Napoleão provocam calafrios em Noel.
Um pouco assustado ele faz uma nova pergunta:
-O que faremos daqui para frente?
-Vamos roubar gado!
-Não acho uma boa ideia!
-Eu já acho uma boa ideia, professor, - responde o subdelegado. - Estive conversando com um conhecido, que tem um matadouro no Saltinho, e o mesmo me disse que é muito lucrativo: na verdade ele também quer participar do negócio!
-E como levaremos o gado até ele? - pergunta Noel com um brilho estranho no olhar.
-É aí que entra o melhor da história, professor, - responde a autoridade. - O mesmo terá uma participação ativa dentro do grupo. É claro: ganhará o mesmo quinhão que nós!
Respira fundo e acrescenta:
-A ideia é abatermos o gado no ato, e só levarmos a carne!
Demonstrando empolgação com a ideia o professor pergunta:
-E quando começaremos?
-Isso é contigo, professor, - responde o velho -, se você quer começar amanhã, por mim tudo bem. O amigo é quem manda!
O pouco de incerteza e arrependimento que havia no peito de Noel, some, e com entusiasmo o mesmo declara:
-Começaremos amanhã, e atacando o rebanho do açougueiro Farroupilha!
-Tudo bem, professor, - responde o subdelegado. - Hoje mesmo entrarei em contato com o meu conhecido do Saltinho, e acertarei tudo para amanhã!
 
Aproxima-se mais um final de tarde. O frio aumenta. O nevoeiro começa cobrir o povoado.
Apressadamente o professor deixa a casa do subdelegado se perguntando:
-Que força é essa que me domina tão facilmente? Será ódio ou inveja desse povo todo, ou o amor que sinto por Luana? Eu não compreendo. Até a Bíblia, antes tão importante em minha vida, se tornou algo impotente diante dessa força. Sempre acreditei em Deus e continuo acreditando. Será que o meu contato com o subdelegado me afastou de Deus? Pode até ser que sim.  Acredito que aquele velho nojento tenha até já vendido a sua alma ao capeta!
 
No domingo de manhã os irmãos de Leto, Josemar e Adriano vão à velha tapera visitá-lo.
Ao vê-los, Leto corre encontrá-los.
Depois dos abraços ele diz:
-Que bom que estão aqui!
Adriano, o nenê da família declara:
-Eu estava com saudade!
-Eu também, Adriano!
Fazendo uso do bom senso Josemar diz:
-Você é um tremendo cabeça dura Leto!
-E você acha que eu não sei disso, Josemar?
-Por que não volta para casa, Leto? - pergunta Adriano.
Leto pega na orelha do irmão mais novo e responde:
-Porque eu quero ser adulto, e não criança, assim como você!
Nisso chega o guarda Albino, mais Pedreira e Bernardinho.
Depois de cumprimentá-los Leto com ar de rir declara:
-É muito agradável desfrutar da companhia dos amigos!
-E você, meu jovem amigo, como tem passado? - pergunta o guarda.
-Na medida do possível, bem, - responde ele.
Pedreira coloca as mãos nos bolsos e sugere:
-O que estamos esperando? Vamos entrar, porque eu estou virando gelo aqui fora!
Logo em seguida eles entram.
O guarda tira o baú de perto da janela, e coloca-o perto do velho fogão de barro, vira-se para Leto e pergunta:
-O que tem feito ultimamente, meu jovem amigo?
-Nada demais, - responde ele -, mas pretendo voltar aos garimpos o mais depressa possível. Isso se o pai permitir!
-É claro que o pai vai permitir, - diz de imediato Josemar.
-É muito bom lhe ver assim, Leto: readquirindo ânimo! -, declara Bernardinho. - Só está faltando tirar essa barba suja!
 
De modo afetuoso Adriano acrescenta:
-É verdade: você está horrível com essa barba!
Leto nada diz. Olha pelo vão da porta que está entreaberta, vê Sebastião passando, rapidamente levanta-se, e vai em direção à porta.
O guarda lhe segura pelo braço e diz:
-Se controle, meu jovem amigo. Recaída agora não!
Leto ignora a voz da razão, e completamente adverso responde:
-Eu detesto esse sujeitinho bunda fedida!
Com cautela Bernardinho diz:
-Ele não tem culpa de nada, Leto. Você tem que detestar a Prazerosa. Ela é a culpada por esse momento tenebroso que está passando!
-Como posso odiá-la, se tudo o que faço é pensando nela?
-É por isso que ultimamente você só tem feito besteiras, Leto, - responde Josemar sem intenção de achincalhá-lo.
Bernardinho não consegue se segurar e caí na gargalhada.
O guarda faz sinal para o mesmo parar, mas não tem jeito: a vontade de rir é mais forte.
Leto vira-se para o irmão e responde:
-Vou fingir que não ouvi nada, Josemar!
 
Depois do almoço o guarda Albino, preocupado com eventuais disparates de Leto propõe:
-Por que não vamos todos ao centro?
Pensando em Prazerosa e Sebastião, Leto responde:
-Hoje está muito frio, Albino. Vão vocês. Eu vou ficar aqui!
-Nada disso, Leto, - diz Bernardinho -, vamos a Boa Freguesia jogar bilhar, e agora mesmo!
Leto procura inutilmente uma saída. Como não encontra, é obrigado aceitar o convite.
Na vila dos Cachorros Sentados, Adriano separa-se do grupo, e vai para casa.
 
Ao saber que seu filho Leto está na Boa Freguesia, imediatamente Floriano sobe ao armazém.
Chega à porta, vê Leto jogando bilhar, entra, vai direto em direção ao filho, vira-se para ele e declara:
-Que bom lhe ver, filho!
-Pois eu digo o mesmo, pai, - responde ele timidamente.
Em seguida entrega o taco de bilhar ao Josemar, e senta-se ao lado de Floriano que diz:
-Adriano me falou que você pretende voltar aos garimpos? Isso é verdade?
-É verdade, pai, - responde Leto. - Isso se o senhor permitir é claro!
-É claro que permito filho!
Em seguida pergunta:
-E quando pretende começar?
-Amanhã mesmo, - responde o garoto um tanto acanhado.
-Você vai deixar a velha tapera?
-Não. Eu estou muito bem lá!
-Eu não compreendo filho, - diz Floriano -, você tem uma boa casa para morar, como pode preferir viver naquela velha tapera, sem conforto algum? No entanto, se você quer continuar morando lá, tudo bem: não vou lhe contrariar. O simples fato de você voltar aos garimpos já me deixa contente, filho!
 
Falta pouco para meia-noite.
O vento frio parece gelar até alma.
Professor Noel e seu bando chegam ao rebanho do açougueiro Farroupilha, fazem uma grande fogueira com galhos secos de pinheiro, e em seguida abatem a reis escolhida por eles.
Os cachorros latem sem parar.
O açougueiro acorda assustado.
Como os cães não param de latir, ele levanta-se, abre a porta da frente, olha em direção à rua, e nada vê de anormal.
Abre uma das janelas dos fundos, e ficou estupefato com a imensa fogueira, dentro de seu potreiro de gado, e diz para consigo:
-O que significa isso?
Rapidamente coloca um casaco, pega a espingarda, e desce para conferir o que está se passando.
Já bem próximo do local da fogueira, esconde-se atrás de uma grande pedra, e fica observando o bando esquartejar uma de suas cabeças de gado.
Professor Noel e Lesma colocam mais galhos de pinheiro.
O fogo aumenta. O clarão faz com que o açougueiro reconheça-os.
Com o coração transbordando de ódio, ele diz:
-O imprestável subdelegado tinha que estar envolvido em mais uma falcatrua!
Com a intenção de assustar o bando, Farroupilha puxou a gatilho da espingarda. No entanto o bando não se sentiu ameaçado.
 Pelo contrário: todos sacaram de suas armas, e em seguida efetuaram uma série de disparos para o alto.
Atordoado Farroupilha deita-se em cima da grama úmida, e fica esperando o professor e o seu bando se retirarem.
Tanto os dedos de suas mãos, como os dos pés, começam ficar congelados.
Desesperadas Luana e sua mãe correm chamar o subdelegado, que já a caminho da casa do açougueiro, diz para consigo:
-Só espero que o professor não tenha feito besteira!
Ansiosa Luana e sua mãe o aguardam na escada.
Napoleão chega, percebe a aflição das duas e diz:
-Calma. Isso não deve ser nada demais. Na certa são os garotos procurando diversão!
Vê Farroupilha aproximando-se, aponta o dedo e acrescenta:
-Eu não disse? Olhe ele ali!
 Esposa e filha correm ao encontro do mesmo, que treme de ódio e frio.
Como se não soubesse de nada o subdelegado pergunta:
-O que aconteceu, Farroupilha?
Com vontade de estrangular o velho peçonhento, o açougueiro responde:
-Eu vou dizer o quê que aconteceu: um bando de gafanhotos acabou de devorar a mais bela cabeça de gado do meu rebanho!
Respirou fundo e acrescentou:
-Isso não vai ficar assim. Eles vão pagar caro por isso. Muito caro!
Receoso o velho Napoleão faz uma nova pergunta:
-Você reconheceu alguém?
A primeira coisa que veio em sua cabeça foi deixar vir a tona o seu lado ignorante, e dizer umas verdades para o velho peçonhento. No entanto preferiu conter-se e limitou-se a responder:
-Não. Eu não reconheci ninguém!
O subdelegado respira aliviado e informa:
- Começarei as investigações logo que o dia amanhecer!
- Faça isso, subdelegado, - responde o açougueiro com ódio no olhar.
Entra, senta-se perto do fogo e murmura:
-Maldito subdelegado!
-Por que essa raiva com relação ao subdelegado, meu marido? - pergunta sua esposa. - O mesmo tem alguma coisa a ver com o que aconteceu agora há pouco?
-Sim, - responde o açougueiro -, eu reconheci dois dos que estavam lá: o professor Noel e Lesma. Certamente o velho peçonhento é o mentor do bando!
Estupefata com o que acabara de ouvir Luana diz:
-Lesma tudo bem. Agora o professor? É difícil de acreditar!
-Pois pode acreditar filha, - responde ele -, é a mais pura verdade!
Esposa e filha voltam para cama. Já o açougueiro resolveu ficar o resto da noite acordado.
Assim que o dia amanhece o mesmo acorda a esposa e diz:
-Se o velho Napoleão aparecer, diga ao mesmo que tive que sair!
Logo em seguida saiu, e foi ter com Floriano, que de imediato convidou-o para entrar.
O açougueiro entra, senta-se, e sem delongas diz:
-Nesta madrugada um bando de safados atacara o meu rebanho de gado. Os malditos tiveram a ousadia de abater a reis ali no local!
Floriano estupefato perde a fala. Por isso Farroupilha respira e continua:
-Dois deles eu reconheci: o professor Noel e o filho do subdelegado. Provavelmente também foram eles que roubaram os martelos dos compressores!
-É evidente que sim, - responde Floriano agora irado. - Se o filho do velho safado faz parte do grupo, seguramente o safado é o cérebro do bando!
-Eu acredito que sim!
-Dessa vez ele foi longe demais! - declara Floriano.
Vira-se para o açougueiro:
-Vou mandar um de meus filhos chamarem os outros interessados nessa história!
Farroupilha diz:
-Não seria melhor mandá-los ir a casa de Ernesto? Aqui poderá levantar suspeita!
-O amigo tem razão, - responde Floriano. - Para chegar até a minha casa eles terão que passar pela casa do Velho peçonhento, ou então pela vila dos Cachorros Sentados, e isso certamente levantaria suspeitas!
Em seguida manda seu filho Josemar chamar o Adão Pezão e o velho Expedito, e pouco tempo depois todos estão reunidos na casa de Ernesto.
-Nesta madrugada aconteceu mais uma coisa desagradável aqui em São Valentim, - começa Floriano, tremendo de ódio. - Um bando de ladrões atacou o rebanho do Farroupilha, e o professor Noel e o filho do subdelegado fazia parte do bando!
Expedito da um pulo e declara:
-Eu não criei filhos, mas sim monstros. Os desgraçados tiveram coragem de roubar o próprio pai!
Um tanto surpreso o açougueiro pergunta:
-O que está querendo dizer, Expedito?
Transtornado Expedito responde:
-Se aquele patife que se diz professor, e o filho do subdelegado faz parte do bando, os meus filhos também fazem, uma vez que eles passam mais tempo lá na casa do velho Napoleão do que na minha!
Vendo a aflição de Expedito, Ernesto diz:
-Se acalme Expedito. Não tire conclusão precipitada!
-Como posso ter calma, - responde Expedito -, sabendo que os meus filhos estão envolvidos nessa sujeira toda?
Levanta-se e informa:
-Agora mesmo vou dar um jeito nisso!
Respira fundo e acrescenta:
-Quanto aos senhores: o que vocês decidir eu assino embaixo!
E sem se despedir-se deixa a casa de Ernesto.
-A minha vontade é matar aquele velho safado! - declara Pezão.
-Isso não resolveria o nosso problema, - responde Floriano.
Em seguida vira-se para Ernesto e pergunta:
-O que devemos fazer Ernesto?
-Acho que a melhor saída é irmos fazer uma queixa ao delegado da Ametista!
-Concordo plenamente, - diz o açougueiro. – Ele não pode sair dessa assim: ele vai ter que pagar pelo que está fazendo!
-Por que não pagamos alguém para matar o velho peçonhento?  - sugere Adão.
-Matar o velho safado só pioraria a nossa situação, - responde Floriano. - A nossa única saída é fazermos o que o Ernesto sugeriu: vamos fazer uma queixa ao delegado da Ametista!
-Bem, - diz Adão -, concordo já que a maioria pensa assim. Mas continuo pensando que a melhor solução seria pagar alguém para matar o safado!
Ernesto vira-se para ele e diz:
-Matar nunca foi uma boa solução, Adão. Tá certo: nós odiamos aquele velho safado. Mas não ao ponto de pagar alguém para assassiná-lo. Vamos deixar que a justiça castigue-o!
 
Enquanto isso, no outro lado do povoado, Expedito, um tanto tocado entra casa dentro gritando:
-Filhos desnaturados: tiveram ousadia de roubar o próprio pai!
Vai até o quarto de Sebastião, puxa os cobertores e ordena:
-Acorde filho da puta!
Sebastião acorda, e assustado pergunta:
-O que está acontecendo, pai?
-Eu descobri tudo, filho desnaturado, - responde ele. - Foram vocês que roubaram os martelos dos compressores. Como puderam fazer isso?
-Não sei do que o senhor está falando, - afirma Sebastião.
Nisso chegam seus irmãos.
Expedito olha-os dos pés a cabeça, e com a voz já rouca diz:
-Com que cara sair de hoje em diante as ruas? Ao me verem, certamente esse povo todo dirá: lá vai o pai dos ladrões de martelos e de gado!
Receoso Sebastião responde:
-Nós não roubamos nada, pai!
-Não, não, - diz o velho -, são mais ordinários do que pense. Pois fiquem sabendo que o açougueiro Farroupilha reconheceu vocês ontem, quando vocês abatiam uma de suas cabeças de gado!
Sebastião e os irmãos ficam paralisados.
-Digam alguma coisa, seus patifes!
Apavorado o mais novo declara:
-Foi o Sebastião que nos convenceu a fazer parte do bando!
Expedito derruba-o em cima da cama e grita:
-Filho desnaturado. Arrume as suas coisas, e caia fora de minha casa imediatamente!
Vira-se para os outros filhos:
-Quanto a vocês: podem ficar aqui até serem levados pelas autoridades!
O mais moço começa chorar.
Não vendo mais saída Sebastião diz:
-Se existe alguém desnaturado aqui, esse alguém é o senhor, que sempre nos negou tudo: inclusive carinho!
Depois de um lapso de tempo acrescenta:
-Se hoje somos ladrões o culpado disso é o senhor, velho muquirana!
-Isso não é verdade, - responde Expedito, completamente alterado -, tudo o que fiz foi pensando no futuro. Se eu não tivesse feito isso, hoje nós não teríamos tudo o que temos!
Sua esposa que havia ficado calado até então, diz:
-Não fuja do assunto, Expedito!
-Cala-se velha fedorenta, - ordena ele.
-Se sou fedorenta, - retruca a mesma-,  é porque você não compra se quer um sabonete para eu tomar banho!
Expedito empurra a mulher contra a parede e diz:
-Se disser mais uma palavra, você vai se arrepender, mulher ordinária!
-Coloque suas mãos sujas em minha mãe para o senhor ver o que faço velho sovina, - responde Sebastião.
-O que ainda está fazendo aqui desgraçado, - diz o velho. - Saia já de minha casa, filho desnaturado. Vou dar uma volta, e quando voltar se ainda estiver aqui aí de você!
 
Os primeiros raios de sol cortam a neblina.
Depois de colocar seus pertences dentro de uma mala velha, Sebastião, tristonho e atordoado, despede-se de sua mãe, e apressado vai a casa do subdelegado Napoleão.
Ao vê-lo junto à porta, segurando numa das mãos a mala, o velho peçonhento, surpreso pergunta:
-O que está fazendo com essa mala, Sebastião? Parece até que está pretendendo viajar?
-Até que não seria uma má ideia, - responde Sebastião -, assim eu me livraria dos problemas que logo, logo chegaram!
-Entre, Sebastião, - propõe o peçonhento.
Em seguida pergunta:
-Posso saber que problemas são esses?
-O problema é o açougueiro, - responde -, ele nos reconheceu!
-Maldição, - diz o subdelegado -, agora eu compreendo o porquê de toda aquela falta de confiança em meu trabalho!
Cala-se um instante e acrescenta:
-Depois do tiroteio, a filha e a esposa dele vieram me chamar. Fui até a casa do infeliz, e estranhei muito a atitude dele!
-Parece que ele, mais os donos de garimpos foram fazer uma queixa ao delegado da Ametista, - informa Sebastião. - Vou lhe confessar uma coisa subdelegado: eu estou com muito medo de ir para a cadeia!
O velho Napoleão pensa um pouco, da uma risota e responde:
-Não se preocupe com isso, Sebastião. Eles não encontraram nada que possa nos incriminar!
-Mas o maldito açougueiro nos reconheceu, - diz o filho do velho Expedito -, na certa isso nos trará problema, subdelegado!
-Não, Sebastião, - responde a autoridade. - O que roubamos não está mais em nossas mãos, e no que diz respeito ao açougueiro, é a palavra dele contra a nossa!
Depois de um lapso de tempo diz:
-Você ainda não me disse o quê que está fazendo com essa mala?
Já um pouco mais calmo Sebastião informa:
-O pai me colocou pra fora de casa!
Não mostrando sinal de preocupação o velho pergunta:
-E agora: em que lugar pretende morar?
-Vou ver se consigo um cantinho lá na casa do professor, - responde ele -, até eu construir a minha, é claro. Eu já tenho um terreno, construir uma casa não será uma coisa difícil!
-Se não conseguir lugar lá na casa do professor, eu lhe arrumo um cantinho aqui em minha casa!
 
É mais um começo de tarde. 
Aos poucos a neblina sumira, e o sol, que havia chegado timidamente, passa a predominar.
Como não há fregueses, Tito mais João Permuta e Curandeiro, vão sentar-se nos degraus da escada da igreja, e ficam curtindo o calor do sol.
O lenheiro Nico grita com sua junta de bois magros, que puxam a velha carroça carregada de lenhas.
Em cada casa ele descarrega o bastante para uma semana, recebe o valor combinado com o comprador, e continua a entrega.
 
O açougueiro Farroupilha mais parte dos donos de garimpos, chegam da Ametista acompanhados por uma viatura policial.
Um jovem delegado de nome Antenor, mais três policiais, vão até a vila dos Cachorros Sentados, e vasculham tudo palmo a palmo. No entanto nada encontram.
O mesmo acontece na casa do subdelegado, uma vez que os martelos dos compressores já tinham sido vendidos há muito, e a carne do boi do açougueiro Farroupilha, que o bando havia abatido naquela madrugada, já estava no açougue do Saltinho.
Como não encontra nada na vila dos Cachorros Sentados, nem na casa do subdelegado, o jovem delegado pede desculpas ao velho peçonhento, e vai até a casa de Ernesto, onde está Farroupilha e parte dos donos de garimpos.
Antes mesmo de sentar-se ele informa:
-Meus caros cidadãos: os sujeitos são mais astutos do que pensei, pois....
-Isso quer dizer que não encontrou nada? - interrompe Floriano.
-É isso mesmo, - diz o jovem delegado -, não encontrei nada que possa incriminá-los. Mas hoje mesmo farei uma visitinha aos açougues da Ametista, porque na certa tem um açougueiro junto com eles!
-É verdade, - concorda Farroupilha. - Como poderiam eles abater uma cabeça de gado se os patifes não entendem nada do assunto. Diabólico subdelegado: não dá ponto sem nó!
-Uma hora, ou outra ele se esquece de dar o nó, e eu o pego de jeito, - diz Antenor.
 
Logo após a saída do jovem delegado, Pezão vira-se para Floriano e pergunta:
-Ainda continua achando um erro pagarmos alguém para assassinar o velho peçonhento, Floriano?
-É claro que sim, Adão, - responde Floriano. - Matar é ir contra os princípios de Deus!
-Eu odeio aquele peçonhento, - diz Adão.
-Nós todo o odiamos, - responde Ernesto com cautela -, mas aí matá-lo para satisfazer o nosso ódio é o cúmulo!
 
Enquanto isso na vila dos Cachorros Sentados, professor Noel vira-se para Sebastião e declara:
-Hoje secou a última gota de esperança que eu tinha de conquistar Luana!
Respira fundo e acrescenta:
-Não foi nada bom sermos desmascarados. Mas já que fomos, vamos encarar de frente esse povo idiota!
-Nós temos é que atucanar ainda mais a vida deles, professor, - responde Sebastião com ódio no olhar.
-Isso é fácil, Sebastião, - diz Demétrio -, é só começarmos a frequentar a Boa Freguesia. As cabeças de São Valentim estão sempre lá!
-É uma boa ideia, mano, - concorda o professor. - Vamos infernizar a vida deles!
 
Enquanto isso o subdelegado Napoleão, sentado em frente ao fogão a lenha, come pinhão, e joga gravetos ao fogo.
Com ar de satisfação diz para consigo:
-Hoje mais uma vez ficou provado que esse povo sem préstimos não consegue nada comigo!
 
Passa-se um mês. Em todos os lugares ainda comenta-se os indignos feitos do velho Napoleão, e do professor Noel e seu bando.
Na Boa Freguesia não poderia ser diferente.
Entre um gole e outro e refrigerante o guarda diz:
-Se no jardim do Éden, que era perfeito, a maldade conseguiu entrar? Imaginem nos outros lugares. Nos outros lugares ela entra sem obstáculo algum!
Inconformado com a impunidade Pezão declara:
-Seres humanos, assim como o subdelegado, deveriam ser exterminados!
-A classe a qual pertence o subdelegado, mata-se um, e nasce dois, - responde Albino. - Por esse motivo não vale a pena matá-los, mas sim proteger-se das maldades deles!
-Você tem razão, Albino, - concorda Floriano.
Gritando olhe o bilhete louquinho Cabo entra na saleta da Boa Freguesia.
Em seguida fora a vez do professor, mais seu irmão Demétrio e Sebastião.
O bate papo entre os amigos, e as gargalhadas dão lugar à quietude.
Sebastião vai até o balcão, pede um litro de conhaque, e três copos, e vai sentar-se ao lado de seus amigos.
Fastidioso, em voz baixa Ernesto declara:
-Vou-me embora. É ultrajante demais, ver esses sujeitos aqui!
E apressadamente deixa o recinto.
Adão Pezão e o açougueiro Farroupilha, com o canto dos olhos, observam os três baderneiros bebendo conhaque, e dando gargalhadas atrás de gargalhadas.
Sebastião, o mais buliçoso dos três, depois de muito apoquentar, consegue convencer louquinho Cabo a beber junto com eles.
Como não é acostumado a beber bebidas alcoólicas, rapidamente o pobre coitado embriaga-se.
Com a intenção de cometer um ato desumano, Sebastião pede ao Tito uma vela de cera, acende-a, e deixa cera derretida pelo calor, cair na pele do louquinho Cabo, que embriagado parece não sentir dor.
Não satisfeito, Sebastião aproxima-se do balcão e diz:
-Eu quero um quilo de soda cáustica!
Estupefato com o que estava vendo, e já perdendo a paciência Tito pergunta:
-O que você pretende fazer com a soda?
- O amigo está aqui para vender, - responde Sebastião, e não para perguntar!
Tito olha firme nos olhos daquele sujeito diabólico e informa:
-Se for para continuar torturando o louquinho Cabo, eu não lhe vendo a soda!
Sebastião empurra-o, pega a embalagem de soda numa das prateleiras, abre-a, e larga boa parte do produto nas costas do louquinho.
Enquanto os bons cidadãos correm socorrê-lo, os três malfeitores dão gargalhadas estrepitosas.
Nisso chega à porta do armazém, Leto e seu irmão Josemar.
A atenção do irrequieto Sebastião volta-se toda para eles.
Os dois entram, e vão direto saber o que estava se passando com o louquinho.
Ao ver o estado que havia ficado as costas do pobre coitado, o coração de Leto passa abrigar o ódio e a tristeza.
Percebendo isso, Sebastião vira-se para Demétrio, respira fundo e diz:
-Como é bom saber que logo mais terei a Prazerosa em meus braços!
Leto contem-se, e finge que não ouviu o que o sujeito buliçoso havia dito.
Compreendendo a jogada Demétrio pergunta:
-Como é a Prazerosa na cama?
Sebastião da uma gargalhada e responde:
- Mulher é um furacão, amigo!
Cala-se um instante e em seguida acrescenta:
-Para o amigo ter uma ideia, ela é tão vórtice que até filhinho de papai se atirou na sarjeta por causa dela!
Leto luta, mas não consegue conter-se.
Irado pega uma garrafa vazia, e com toda a força joga-a em Sebastião que se esquiva.
Professor que até então estava de fora, saca a arma e aponta para Leto.
Josemar pula na frente do irmão e grita:
-Vire isso pra lá, professor!
Ignorando a voz da razão Noel diz:
-Acho bom você sair da frente, garoto, porque eu vou atirar!
Uma vez mais Josemar grita:
-Vire isso pra lá, professor. Isso não é brincadeira!
-Saia da frente, garoto, porque eu vou atirar!
-Não cometa uma loucura dessas, professor, - grita o guarda Albino.
Apavorado Floriano corre em direção aos filhos.
Nesse interim Noel, sem remorso algum puxa o gatilho duas vezes.
Na terceira o guarda lhe acerta o braço com o taco de bilhar. A arma cai ao chão. Rapidamente o professor pula a janela, e sai correndo.
O mesmo acontece com Demétrio e Sebastião: a única diferença é que o professor sai pela janela e eles pela porta da frente.
Já praticamente sem vida, Josemar cai nos braços de Leto, que assombrado não sabe o que fazer.
Desesperado Floriano passa a mão na cabeça do filho ferido, já quase sem vida e diz:
-Aguente firme, filho. Nós já vamos levá-lo ao hospital!
-Eu não consigo ver nada, - afirma Josemar -, uma grande nuvem negra, dança em minha frente!
Em seguida ele pergunta:
-Você foi ferido, Leto?
-Não, Josemar, - responde Leto atordoado.
O garoto da o último suspiro e morre.
Tresloucado Floriano diz:
-Você não pode fazer isso comigo, filho!
Ao se dar conta que não tinha mais volta, completamente fora de si vira-se para Leto e afirma:
-O responsável pela morte de seu irmão é você, Leto!
Logo após conter o choro acrescenta:
-Já que abandonou a família por causa de uma vagabunda, hoje eu o abandono por causa da morte de seu irmão!
-Me desculpe pai!
-É tarde demais para desculpas, - responde Floriano. - De hoje em diante não me chame mais de pai, porque eu não lhe chamarei mais de filho!
Descontrolado Leto saiu correndo em direção a gruta de São Valentim.
Com intenção de segui-lo o guarda Albino vai até a porta, e encontra Bernardinho e Pedreira que pergunta:
-Quem foi o autor dos disparos, Albino?
-Agora não é hora para explicações, meu jovem amigo, - responde o guarda -, Leto, totalmente dúbio foi rumo à gruta. Vocês que são jovens, corram atrás dele e não o deixe fazer besteira!
Imediatamente os dois partem apressadamente em direção a gruta.
O guarda, que segue logo atrás, depois da velha ponte de madeira murmura:
-É nessas horas, que sinto falta da minha juventude!
 
De cima da gruta Leto olha tudo a sua volta.
 Com imensa tristeza, disposto a dar fim a própria vida, ele não da atenção a Bernardinho e Pedreira, que se aproximam rapidamente, gritando o seu nome.
Os dois procuram dentro e fora da gruta, mas nada de Leto, que do alto tenta encontrar um motivo para continuar vivendo.
 Porém tudo em sua mente tem um toque de desgosto.
Parados na entrada da gruta, Bernardinho e Pedreira continuam gritando, mas Leto não responde.
O guarda, já bem próximo dos dois, olha para cima, vê Leto parado ao lado da cachoeira, e a beira de um ataque de nervos grita:
-Não faça isso, Leto!
Antes de Bernardinho e Pedreira olharem para cima, Leto joga-se do alto da gruta.
O guarda apavorado murmura:
-Meu Deus do céu!
E superando o cansaço, chega antes ao local, onde caíra o corpo de Leto.
Pedreira é o próximo a chegar, e assombrado de espanto pergunta:
-Ele ainda está vivo, Albino?
-Infelizmente não, - responde o guarda. - Nós chegamos tarde demais. Não há mais nada que possamos fazer por ele!
Transtornado Bernardinho olha o corpo já sem vida e diz:
-Como pôde fazer isso com a sua vida, e com seus amigos, Leto?
Os olhos do guarda enchem-se de lágrimas.
Revoltado o mesmo declara:
-A paixão e a maldade acabaram com a vida do nosso amigo!
Enfadonho Antônio pergunta:
-O que aconteceu na Boa Freguesia, Albino?
-Aconteceu outra desgraça, meu jovem amigo, - responde o guarda. - O professor assassinou o Josemar!
Cala-se um instante e ordena:
-Vão até a casa de Floriano, e contem o que aconteceu com o Leto. Tente consolá-los, eu vou ficar aqui!
Imensamente triste Bernardinho e Pedreira afastam-se do corpo de Leto, e apressados partem em direção ao centro do povoado.
 
Enquanto isso na vila dos Cachorros Sentados, o astuto subdelegado olha nos olhos de Noel e sugere:
-Se esconda em algum lugar, professor, para não ser preso em fragrante. Amanhã você se apresenta com um advogado, e tudo será resolvido!
De imediato Noel acata a sugestão do subdelegado.
 
Na rua principal o corre, corre é grande.
Curiosos misturam-se com parentes e amigos desesperados, e inconformados com a tragédia que ocorrera.
 
A noite chega. O frio aumenta, mas não assusta o povo, que aos poucos vão aglomerando-se, dentro e fora da igreja.
Sentindo remorso, e com ódio no olhar Floriano diz:
-Custe o que custar eu vingarei as mortes de meus filhos!
Com morosidade João Permuta vira-se para Curandeiro e pergunta:
-O que aconteceu com o nosso pacato povoado, meu bom amigo?
Curandeiro pensa um pouco e em seguida responde:
-Quando eu disse que São Valentim estava cheio de sortilégios, ninguém acreditou: inclusive riram de mim. Agora todos estão vendo: é tragédia em cima de tragédia!
João balança a cabeça e diz:
-Eu continuo não acreditando!
 
Como era previsto, o dia amanheceu completamente encoberto pela neblina.
Nas ruas o movimento recomeça.
Aos poucos aqueles que passaram a noite em derredor dos caixões vão deixando o recinto sagrado, e seus lugares passam ser ocupados pelos parentes e amigos distantes.
A tristeza, a revolta e o medo estão em todos os olhares.
Ao lado dos caixões os comentários continuam.
Um senhor de meia idade olha os dois corpos sem vida, e fastidioso afirma:
-É triste dizer isso, mas a semente do mal germinou, e os primeiros frutos já estão entre nós, cometendo as maiores crueldade!
Um segundo, de terno e chapéu preto acrescenta:
-E o subdelegado Napoleão é essa semente do mal!
 
Enquanto isso, na cidade de Ametista do Sul, o professor, em companhia do subdelegado e de um advogado, deixa a delegacia livremente.
Na primeira esquina após a prefeitura o advogado despede-se dos dois, e entra em seu escritório.
Em seguida o velho Napoleão da uma gargalhada, vira-se para Noel e diz:
-Viu como foi fácil se livrar das grades, professor?
Noel nada diz, uma vez que estava assombrado com o grande vazio em seu peito.
A sua quietude deixa o subdelegado meio desconfiado.
- Que silêncio é esse, professor? Parece até que queria ficar preso?
-Não é nada disso, subdelegado, - responde ele. - Eu só estava refletindo!
 
Em São Valentim o povo todo já está no cemitério para os sepultamentos.
Com muita tristeza e revolta os corpos são colocados na terra fria.
Cheia de remorso Prazerosa joga uma rosa vermelha em cima do caixão e diz:
-Me perdoe por ter feito você sofrer tanto, Leto!
E rapidamente afasta-se da multidão.
Com cara de nojo Diamantina vira-se para Lucrécia e declara:
-Se eu fosse da família teria expulsado aquela cadela daqui!
-Eu teria pegado ela pelos cabelos, - responde Lucrécia -, lhe dado uma boa sova!
 
Logo após os enterros, o povo começa dispersar-se.
Por obra do destino, no exato momento, o subdelegado e o professor retornam da Ametista.
A vontade da multidão é apedrejar o veículo do venenífero Napoleão, que manda o professor abaixar-se para não ser visto.
Contudo, o assassino não escapou do olhar atento de Adão, que irado vira-se para Ernesto e murmura:
-Esse mundo é injusto. Por que nós temos que ser justos?
-O que o amigo está querendo dizer? - pergunta Ernesto, com o olhar distante.
-Eu estou querendo dizer, é que nós devemos mandar matar todos esses filhos da puta!
Depois de uma curta pausa acrescenta:
-Se queremos justiça, teremos que fazer com as próprias mãos. Nosso código penal só serve para proteger bandido. O maldito professor assassinou um ontem, e já está livre como um pássaro!
Ernesto faz uma cara de espanto e pergunta:
-Como o amigo sabe que ele está livre?
Pezão responde com outra pergunta:
-O amigo não viu o mesmo abaixado ao lado do velho Napoleão?
Estupefato Ernesto pergunta:
-Adão, você tem certeza de que era mesmo o professor?
-Juro por esses olhos, que um dia a terra a de comer que era o assassino!
-É melhor sonegarmos essa informação ao Floriano, Adão!
-Você tem razão, Ernesto. Seria duro demais para ele saber que o professor está livre!
E assim rapidamente a rua principal e as vielas ficam vazias, e só o barulho do vento quebra o silêncio.
 
Passam-se vários dias. Mesmo contra a vontade de Tito a Boa Freguesia torna-se reduto de desordeiros e forasteiros, que de passagem pelo povoado tentam a sorte nos garimpos.
 
É mais um final de tarde. Sebastião e Demétrio juntam-se com os forasteiros, e a bebedeira e as gargalhadas estrepitosas começam.
Na lojinha de João Permuta, Curandeiro bravio diz:
-Só Deus sabe o quanto eu odeio esses sujeitos ordinários!
-Esses malditos só nasceram para infernizar e destruir a vida de seus semelhantes, - responde João.
Em seguida os dois fecham as portas de seus estabelecimentos.
 
Na Boa Freguesia a bebedeira continua. Sebastião e Demétrio, pertos da embriagues total, continuam bebendo conhaque. Orgulhosos eles falam como roubaram os martelos dos compressores, e atacaram o rebanho do açougueiro Farroupilha, e abateram uma de suas cabeças de gado.
Arrepelando-se de raiva Tito só pensa em uma coisa: fechar o armazém Boa Freguesia. A seu ver essa é a única maneira de voltar a viver em paz.
Os dois bandidos deixam o armazém, completamente embriagados.
O filho do velho Expedito leva consigo meio litro de conhaque.
A caminho da vila dos Cachorros Sentados, os dois terminam de esvaziar o litro de conhaque.
Insatisfeito Demétrio vira-se para Sebastião e diz:
-Assim que chegarmos farei o Agostinho ir comprar mais um litro de conhaque para nós!
-Você não acha que já bebemos demais?
-Eu ainda nem comecei, Sebastião!
Mesmo contrariado Sebastião o acompanha até a casa do velho Tonho.
Os dois entram, e imediatamente Demétrio vira-se para Agostinho e ordena:
-Vá a Boa Freguesia comprar um litro de conhaque para nós, Agostinho!
-Nem em sonho eu farei isso para vocês, - responde ele.
-Vá ao armazém para nós, Agostinho. O que custa fazer esse favor para nós?
Não gostando nada, nada da atitude do irmão, Agostinho sai rapidamente pela porta da cozinha, e esconde-se atrás da casa.
-Maldição, o desgraçado fugiu, - grita Sebastião -, mas isso não vai ficar assim: eu vou pegá-lo!
Com a intenção de acalmá-lo, o velho Tonho levanta-se, vai até a sala, e com a voz calma diz:
-É tarde demais, filho, e você já bebeu demais. Vá dormir um pouco. Amanhã você poderá beber mais!
Tresloucado Demétrio saca da arma, puxa o gatilho e responde:
-Não é preciso alguém me dizer quando eu devo ou não parar de beber!
Com muita tristeza o velho Tonho olha nos olhos de Demétrio, e cai estirado ao chão.
Ao ouvir os gritos desesperados de sua mãe, professor Noel salta da cama, e praticamente nu, corre até a sala.
Demétrio aponta a arma para ele, e puxa mais uma vez o gatilho.
Na tentativa de fugir o professor deu as costas para o irmão, que tornou a atirar.
Gravemente ferido Noel sai da casa.
Da porta Demétrio efetua uma sequência de disparos.
O professor agarrou-se no tronco de um pé de cinamomo, da uma volta e tomba.
Atordoados Agostinho e sua mãe correm em direção ao centro do povoado.
Ainda possuído Demétrio torna a entrar na casa.
Com a visão um tanto embaralhada pela embriagues Sebastião pergunta:
-O quê que está acontecendo?
Demétrio puxa o gatilho mais três, quatro vezes. No entanto a arma não corresponde, uma vez que já está descarregada.
Diante dessa situação, o mesmo tira da cintura uma faca, pega Sebastião pelo braço, e degola-o.
Em seguida saí à procura de Agostinho e sua mãe.
Como não os encontra retorna a sala, e tanta encravar a faca em seu próprio peito.
O aço ficou dançando em cima dos ossos de sua costela, e não entra. 
Com toda força o mesmo da um soco no cabo da faca que se quebra.
Nisso chega Agostinho e sua mãe, na companhia do subdelegado, que não acredita no que está vendo.
A velha aos prantos se vira para Agostinho e informa:
-Demétrio ainda está vivo. Precisamos levá-lo urgentemente ao hospital!
Imediatamente Demétrio é colocado no carro do subdelegado, que sai em alta velocidade, rumo ao hospital da Ametista.
 
Amanhece o dia. Rapidamente a notícia de mais uma tragédia, começa espalhar-se por todos os cantos do povoado.
João Permuta, e Curandeiro batem na porta dos fundos da Boa Freguesia.
Com cara de sono Tito abre-a, sai, vê uma turba em frente à igreja, e estupefato pergunta:
-O que aconteceu agora?
Curandeiro responde com outra pergunta:
-Você ainda não sabe?
-Nessa madrugada Demétrio assassinou o velho Tonho, mais o professor e o Sebastião, depois tentou se suicidar, - informa João.
-O velho Tonho era gente boa! - declara o dono da venda -, não deveria morrer. Agora, o Sebastião e o professor apenas colheram o que plantaram. Pena que Demétrio continua com vida!
 
Como um relâmpago a tarde chega. Enquanto, na igreja, os moradores da vila dos Cachorros Sentados lamentavam as três perdas, na Boa Freguesia todos se sentem aliviados.
-Conheci um sujeito certa vez, que me disse que não adianta desejar o mal ao próprio mal, - diz o guarda. - É melhor deixar que mais cedo ou mais tarde ele por si só se destrói, e ontem ficou provado que tudo o que aquele sujeito disse, é a mais pura verdade!
Ditoso Ernesto respira fundo e declara:
-É, o mal por conta própria se destruiu, e com isso se acabou os nossos problemas!
-Não tenha tanta certeza, Ernesto, - responde Adão. -Sebastião e o professor eram apenas dois galhos da árvore da maldade. O malévolo Napoleão é a raiz e o tronco dessa árvore, e o safado continua vivo. Por isso lhes digo: os nossos problemas ainda não se acabaram!
O açougueiro, eufórico diz:
-Eu concordo com Ernesto: nossos problemas se acabaram. Sebastião e o professor, um era o braço esquerdo e o outro o direito do velho peçonhento, e nessa noite que passou esses braços foram amputados!
-E quanto ao Demétrio? - pergunta João -, ele continua vivo?
Sorridente o açougueiro responde:
-Esse é um braço atrofiado, assim como o Lesmo, ou seja, os dois são inúteis na coordenação de alguma coisa; por isso o velho subdelegado não poderá usá-los em tarefas bem elaboradas!
Cala-se um instante e acrescenta:
-Na verdade o professor era o cérebro deles, e agora sem o cérebro os mesmos não passam de retardados!
-Até ontem a minha vontade era fechar as portas do armazém! - declara Tito -, hoje a minha vontade é dar uma grande festa!
-É uma ótima ideia, Tito, - concorda Farroupilha. -Vamos fazer uma festa com direito a música e tudo mais!
-É cedo demais para comemorarmos, amigos, - responde Adão com cautela.
-Faltam apenas dois meses para a nossa tradicional festa da Ramada, - lembra Ernesto. - E por que não fazermos uma prévia hoje a noite, só para os moradores do povoado, é claro: afinal temos um bom motivo para comemorarmos, uma vez que dois dos nossos inimigos foram exterminados; na verdade três, porque Demétrio, sem o professor é uma peça do mal inutilizada!
Após fechar e acender um de seus palheiros fétidos, e dar uma tragada, Pezão responde:
-Os amigos sabem o quê que eu penso, mas já que querem tanto, então vamos fazer essa tal festa: mas não sem antes saber a opinião do Floriano!
 
Três horas após os sepultamentos, a rua principal é tomada pelas crianças, jovens e adultos, que vão chegando em pequenos grupos ao salão comunitário.
Depois do churrasco pago pelo Tito, o açougueiro, e mais os donos de garimpos, a festa continua com muito quentão, pipoca e pinhão.
O negro Bira, empregado de Floriano, e também acordeonista da região toca músicas regionais, e o povo alegre agradece, e com satisfação dança.
Já sentindo o efeito do quentão, Floriano, ainda inconformado com a morte de dois de seus filhos grita:
-Queria eu ter efetuado os disparos que resultaram na morte do professorzinho discípulo do capeta, e ter degolado aquele patife que se chamava Sebastião!
Respira fundo e em seguida acrescenta:
-Sei que a morte daqueles safados não vai trazer novamente os meus filhos, mas aliviou um pouco a dor da perda. Eles foram massacrados pela justiça Divina!
Ernesto bate no ombro do amigo e responde:
-É verdade, Floriano. Eles morreram como animais!



A música, e as gargalhadas vindas do salão, tiram o subdelegado do sério.
Furioso ele levanta-se, vai até a sacada e murmura:
-Maldito Demétrio: ao invés de matar os inimigos, mata os seus!
No salão comunitário, o povo feliz continua dançando, e festejando as mortes do professor, e de Sebastião. Pois nos últimos tempos os mesmos tornar-se-iam um grande problema para os moradores de São Valentim, e agora eles estavam livres desses problemas.
A festa acaba com uma grande queima de fogos de artifícios, e junto com a grande queima, fora-se o medo que os assombrava.
 
Uma semana mais tarde Demétrio fugira do hospital, e dias depois foi achado morto nos fundos das terras do açougueiro Farroupilha, com uma corda envolta do pescoço.
 
Subdelegado Napoleão, devido uma trombose, perdera as duas pernas.
Como se isso não bastasse, o estado avançado da tuberculose, fez com que ele amargasse terríveis dias, até o fim de sua vida.
Seu sofrimento era tanto, que o mesmo só pensava em tirar a própria vida.
Por esse motivo seu filho Lesma escondera todas as suas armas: e eram muitas.
 
Prazerosa mudou-se para a cidade de Irai, anos mais tarde soube-se que a mesma havia morrido.
Também se soube de que em seu atestado de óbito, estava escrito: doença desconhecida.
 
Lesma e Agostinho continuam praticando pequenos furtos.
 
Idelfonso Curandeiro casou-se com a viúva de Euclides
No entanto o mesmo continua odiando os ciganos.
 
João Permuta mudou-se para a capital, e continua trabalhando no comércio.
Segundo as últimas informações, sua loja na capital, está crescendo a cada dia.
 
Bernardinho e Luana casaram-se.
Como era muito azarado no garimpo, abandonou-o, e passou a trabalhar ao lado de seu sogro: o açougueiro Farroupilha.
Com a morte do velho Napoleão, o mesmo assumira o cargo de subdelegado de São Valentim.
 
O mesmo acontecera com Antônio Pedreira e Diva. Eles se casaram um mês depois.
O primeiro filho do casal atende pelo nome de Leto.
Atualmente o trabalho de Pedreira é cuidar dos garimpos do avô, e do sogro.
 
Expedito continua como sempre fora: não come ovos para não jogar as cascas fora.
 
Louquinho Cabo continua vendendo bilhetes de loterias.
 
Quanto ao guarda Albino, assim que acabara a festa da Ramada, ele deixara o povoado, e atualmente ninguém sabe o seu paradeiro.
 
Amaro, marido da Parteira, morrera devido um grande choque elétrico.
Dias após a sua morte, as autoridades estaduais fizeram uma vistoria em todos os garimpos.
Devido à falta de segurança, todos os proprietários foram multados, e obrigados a dar mais segurança nos garimpos.
A morte de Amaro fora à última nos garimpos da região.
 
Como de costume, nos finais de tardes, Adão Pezão, o açougueiro Farroupilha, mais Ernesto e Floriano, encontram-se no armazém do Tito, de nome Boa Freguesia, para bater papo.
 
 


























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