Busca: 

Apelido:

Senha:


Esqueci minha senha
 
  Área do autor

Publique seu texto
  Gêneros dos textos  
  Artigos (641)  
  Contos (940)  
  Crônicas (724)  
  Ensaios (169)  
  Entrevistas (35)  
  Infantil (207)  
  Pensamentos (651)  
  Poesias (2525)  
  Resenhas (129)  

 
 
Vida em Palavras
Gilmar Camilo Pereira
R$ 53,40
(A Vista)



Geométricas-01-025
Airo Zamoner
R$ 104,00
(A Vista)






   > PAETÊS E PANOS DE PRATO



Ana Flores
      CRôNICAS

PAETÊS E PANOS DE PRATO

Há códigos que se impregnam de tal forma no inconsciente coletivo, que se torna quase impossível nos desgrudarmos deles. Mesmo já não tendo correspondência com a realidade, insistem em se manifestar e, muitas vezes, adeus coerência. Um deles, por exemplo, é a idéia que as telenovelas das 9 (ex-8) insistem em nos passar ano após ano que os personagens do “núcleo dos ricos”, para usar o jargão novelístico, costumam se vestir em trajes de gala mesmo quando estão em casa. Vestidos acetinados, jóias, sandálias de salto, terno-e-gravata e maquiagem carregada são ingredientes indispensáveis a esses personagens, como se estivessem de saída para uma recepção. Que nada, estão calmamente em casa, conversando ou discutindo, mas lá estão os sinais externos para os telespectadores: estes são os ricos, combinado?

Nessas casas também parece não existir cozinha. Fogão, então, nem se fala. No máximo, uma copa, onde a dona da casa, de salto e brilhos, entra para pedir um copinho d´água (não sabe onde fica a geladeira, deve ser por isso) e trocar meia dúzia de palavras com os serviçais. Que, a propósito, têm postura e fala formais, parecendo saídos de um filme de época. Mal sabem esses ricos que uma camisetinha de boa qualidade e uma camisa pólo com jeans bem cortados, e um batonzinho para as mulheres podem fazer toda a diferença, dispensando os adereços exagerados e sem propósito. Rico também usa jeans. Quiçá sandalinha havaiana, cada vez mais fashion.

Já os personagens do “núcleo dos pobres” têm sempre que falar alto, discutir com vizinhos, e aparecem em várias cenas de cozinha ou na porta de casa, geralmente enxugando as mãos num pano de prato. Porque, ao contrário do outro lado, eles mesmos fazem a própria comida e sabem onde ficam fogão e geladeira. Sem contar a tradicional cruzadinha da moça pobre que se apaixona pelo herdeiro do outro núcleo e vice-versa. Mas isso é inerente ao folhetim e a fórmula do amor proibido sempre deu ibope certo, Romeu e Julieta que o digam. Afinal, não se mexe em time que está ganhando, com licença da frase batida.

Exageros à parte, é dessas incoerências que a fantasia coletiva se alimenta diante da TV, quando a mágica de diretores, roteiristas, atores e equipe técnica nos transporta para outras dimensões. Enquanto dura a trama, há torcida, emoção, raiva, riso e tudo a que se tem direito nos 45 minutos diários de escapismo. Mesmo cobertos de paetês ou contando os centavos para pagar contas, os núcleos de ricos e pobres pré-fabricados cumprem sua missão de entreter até quem critica suas sandálias de salto e seus panos de prato.


CADASTRE-SE GRATUITAMENTE
Você poderá votar e deixar sua opinião sobre este texto. Para isso, basta informar seu apelido e sua senha na parte superior esquerda da página. Se você ainda não estiver cadastrado, cadastre-se gratuitamente clicando aqui