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   > Uma esquina qualquer



Nathalie Gonçalves
      ENSAIOS

Uma esquina qualquer

Cinco horas. Podia ser a tarde indo embora simples e com milhares de nervos cansados e rugas a parir. Podia ser uma simples despedida de um dia que, com o perdão do tempo e seu regulamento contraditório, já ia tarde. Mas não. Era a manhã surgindo, fria, distante, silenciosa, entediante. E os pelos do meu corpo, coitados, se entrelaçavam, correndo para fugir do susto e esquecendo-se de que estavam presos à pele, violentados pelo frio que os paralisava. Não pensei em correr. Aliás, acho que o cérebro humano não funciona muito bem às cinco da manhã. Portanto, cobrar um pensamento bem configurado da minha cabeça chega a ser uma crueldade, ora.
Três passos. Sereno, luz de rua, frio de inverno. Uma menina ali, no canto, neutra, viva. Seus olhos eram os mais normais que eu posso descrever. Então fiquei quieto, até mais do que já estava. Tentei não perder os miolos diante do fato de estar sozinho em uma fria madrugada – não verás numa garrafa de cerveja um ser vivo, eis um importante mandamento que esqueceram de gravar naquele pedaço de pedra que a bíblia guarda em suas memórias. Tentei apenas respirar, desprezando os males que me levavam a estar ali, e perder os olhos em algo fácil e sem cobranças.
Ela devia ter uns quinze anos. Diferente de mim, estava sóbria. Não era a mais linda das criaturas. Nem sei dizer se era linda. Mas sei que chorava. Chorava como se alguém tivesse roubado um órgão seu. Um choro chato, baixo, louco. Se eu chegasse mais perto, não sei bem o que poderia acontecer. E foi por isso mesmo que me aproximei, com a feição mais torta que achei no meu armário particular.
- Oi. – Tentei falar o mais baixo possível. Se consegui, ah, já está querendo saber demais.
Ela me olhou assim, bem de leve, como se não fosse dar em nada. O primeiro movimento foi ligeiro; mas houve um segundo giro de cabeça, de ângulo maior. Juro que vi suas sobrancelhas beijarem seu couro cabeludo – agradeço ao álcool por não ter me deixado correr de medo. Mas foi aí que descobri o mar que seus olhos guardavam. E tive mais medo ainda – só que de me afogar.
Ela me conhecia. E eu já sabia disso, se parasse para coçar a testa e pensar direito.
Eu devia estar em pôsteres matando o vazio das paredes do seu quarto. Devia estar no seu armário, numa versão redonda e com buraco no meio. Devia estar em redes planificadas em monitores de led, lcd, plasma, platina, minhocas. Devia ter figuras com meu rosto espalhadas em mesas de membros de clubes exóticos e estranhos. Se bem que eu deveria mesmo era estar em casa, sozinho, sem taças de vinho ou garrafas de álcool, apenas com o calor da minha cama e a sede por sonhos que eu esqueceria assim que a manhã chegasse.
Por um momento, pensei que teria a maior decepção da madrugada naquele instante – podia até não ser a maior, mas seria armazenada na minha enorme gaveta de decepções. Afinal de contas, com alguma rapidez a ser estudada futuramente, eu apostei que aquela normalidade tão compulsiva esconderia algo que pudesse mudar a vida de um bêbado qualquer.
Ela simplesmente congelou seus olhos. Eles eram meus por aquele momento. E a ideia de sair correndo foi ganhando força. A primeira vista, tal responsabilidade não me agradou.
Ela viu meu medo. E eu vi o seu. E por um instante, os flashes, as horas, as gotas, os cheiros, o ar, os sonhos... Tudo virou gelo para encher as pupilas.
E eu, tão pobre de vida e inspiração, me vi transbordando assim, sem água para encher a cachoeira coberta pelos cílios.
Ela alternava o alvo. Ora era eu, ora era o céu, ora era o asfalto, ora era a solidão. E eu, no alto dos trinta e tantos anos de quase-perfeito bater de coração, não sentia o frio que antes me estatelava. Minhas coxas caíam sobre o joelho, e antes que eu me ajoelhasse involuntariamente, decidi sentar-me numa dessas pedras que aparecem por aí, sem mais nem menos. Eu pedia para ser o alvo daquela menina. Eu sei que ela podia me tirar do caos que eu admirava da janela do meu rosto. Sei que ela podia me desamarrar dos trilhos do trem desgovernado que havia passado por mim. Sei que ela podia dedilhar minha alma como se a mesma fosse uma guitarra de dois, três, quatro braços... Talvez um polvo, uma lula... E qual desses animais tem milhões de braços mesmo?
Eu poderia ter perguntado de onde ela vinha. Poderia ter colocado minhas cordas vocais para dançar. Poderia ter virado a esquina até chegar ao meu prédio. Poderia ter soltado alguma espécie de conforto palavreado, e assim ganharia o dia. Mas não. O silêncio me veio como a melhor das opções. Gargantas poupadas, preocupações canceladas, palavras dispensadas, harmonia garantida. O que eu realmente precisava fazer era admirá-la. Admirar o tempo, o que passa, o que vai embora em forma de gente e em forma de grito. Eu precisava daquela visão, daquela poção, daquele remédio. Era valioso ter os olhos nela, em alguém que não sou, mas que carrega o mesmo que eu. Tínhamos as mesmas dores, era isso que eu sentia. Irmãos de esquina, de sonho, de tempo. E já era tudo.
Mas meu travesseiro estava molhado. A cama estava quente. E a moral da história, essa que cato depois dos finais felizes, ah... Essa nunca veio.  


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