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   > Fio de Cabelo



Vanderlei Antônio de Araújo
      CONTOS

Fio de Cabelo

 

Pela manhã, depois do café, Dona Madalena foi pegar as roupas sujas da casa para lavar. Não havia tanque, naquele tempo as roupas eram lavadas numa bacia nos fundos da casa. As mais sujas precisavam ficar um bom tempo de molho. Por isso, ela as levou para lá e, sentada numa cadeira, foi separando-as uma a uma. À sua frente, desfilavam diversas peças, saias, blusas, camisas, calças, cuecas, vestidos e bermudas.

Súbito, avistou um fio de cabelo loiro preso num botão de uma das camisas do marido. Atônita, não podendo acreditar no que via, esfregou os olhos com as costas da mão, abrindo-os mais; constatou que o fio de cabelo loiro continuava lá. Um pensamento terrível permeou sua cabeça enchendo-a de tristeza, desconfiança e ciúmes... Sentiu-se infeliz. Quem diria... “Ele me traindo pelas costas! Desgraçado! Quem mais amo na vida.’ Que desgosto!” E quanto mais ela afundava em seus pensamentos sombrios, mais injustiçada se sentia. A dor crescendo e ameaçando explodir. Uma mão de ferro lhe comprimiu o peito como num infarto e pensou até que iria morrer ali naquela hora. Mas não morreu.

Indignada, continuou a tarefa que havia começado, com uma obstinação disciplinada, tristonha, como se aquilo a ajudasse a controlar seus sentimentos e dominar a confusão que ameaçava transbordar em sua mente. Quando terminou, estava mais calma.

À mesa, na hora do almoço, entre uma frase e outra, a dor lhe veio à garganta, e ela pensou em perguntar ao marido:

- Não há mais lugar para mim na sua vida, não é?

Quase engasgou. Sentia de novo o anseio, o suor frio, o coração batendo em tumulto. Não teve coragem de perguntar. Então, procurou disfarçar o sentimento de raiva que tomava conta dela. Lembrou-se que nos primeiros anos de casados, ele a surpreendia quase que diariamente, com uma fala elogiosa. Um jeito diferente de amar. Um sorriso conquistador e jeitoso de quem sabia deixá-la submissa aos seus encantos. Os anos se passaram e vieram as mudanças! Agora descobre que ele a está traindo.

 Engoliu a comida e desta vez furiosamente, como se fosse a ultima de um condenado à morte. Dói isto, justo ele! Em quem tanto confiava. Por isso, não ia lhe dizer absolutamente nada.. Tem coisa que é melhor não falar, senão vira um bicho de sete cabeças. Esforçou-se para disfarçar sua agonia, enquanto tentava se convencer de que aquela traição já acontecia faz tempo, e que só agora descobrira por causa daquele fio de cabelo loiro.

Saiu da mesa desejando que as filhas não notassem sua tristeza. Que não percebessem sua raiva. Seu marido foi sentar-se na sala, no sofá. Ela não queria conversar com ninguém. Nem tinha vontade de falar nada. Atravessou o corredor e foi direto para seu quarto. Não conseguiu conter o choro, tinha vontade de morrer. Soluçou.

 Enxugou suas lagrimas, no momento em que as filhas mais velhas entraram no quarto. Queriam saber o que estava acontecendo para ela ficar daquele jeito. Criou coragem e contou o que viu e comentou com elas das suas suspeitas. Agora tinha a prova. Não restava mais duvida, seu pai a traía, descaradamente, e há muito tempo.

Doralice, a filha caçula, entrou no quarto. A cabecinha loira brilhava a luz da lâmpada. Aproximou-se da mãe devagar e sentou-se na beirada da cama. Aconchegou-se ao seu colo, sobre suas pernas. Ela ficou olhando o rosto da filha, numa expressão amargurada. Alisou seu rosto quente e passou a mão pela sua cabeça dourada, dizendo:

-- Vamos cortar esse cabelo, ela sugeriu - Seus cabelos estão compridos. Vá lavar a cabeça para sua irmã cortá-los. Curtos, ficarão bem melhores e bonitos.

A menina sorriu e falou:

--É mesmo, mamãe! Ontem meu cabelo enroscou no botão da camisa do papai e deu um trabalho danado para tirar. Deve ser porque está muito grande.

Dona Madalena suspirou profundamente e sorriu. Porque   viver valia a pena.



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