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   > CULTURA E EDUCAÇÃO POPULAR: discursos e perspectivas atuais



JOSE JEOVA XAVIER CONCEICAO
      ARTIGOS

CULTURA E EDUCAÇÃO POPULAR: discursos e perspectivas atuais

Resumo:
Neste trabalho busca-se compreender e analisar a cultura e a educação popular como uma construção humana. Entender quais discursos e perspectivas atuais se discute ou repercutem no contexto da cultura popular e da educação. Quais contribuições a cultura popular/saber popular pode influenciar no processo de aprendizagem e assimilação da realidade. Discutem-se elementos primordiais da cultura popular que contribuem para uma perspectiva educativa. Percebendo ainda como os discursos educacionais concebem a cultura popular, e quais desdobramentos são dados nesse sentido.
 
Palavras chaves: cultura; educação popular; educação formal.
 

  1. Introdução

 
A educação brasileira, sobretudo aquela formal aprendida nos bancos das instituições sociais apresentam uma crise de certa forma acentuada segundo nossa percepção. Crise esta não na sua legalidade, mas na forma tímida e na tentativa de perceber a contribuição do saber popular para a aprendizagem formal. Estamos assistindo a um fortalecimento de determinadas formas culturais e manifestações da nossa cultura popular que até um período recente de nossa história praticamente agonizavam, a exemplo, podemos citar a capoeira. Tais expressões culturais experimentam hoje uma revitalização, um reconhecimento e uma revalorização por parte de setores cada vez mais amplos da sociedade, deixando perplexos até mesmo aqueles incansáveis defensores da preservação de nossas tradições populares, que talvez não fossem capazes de imaginar, nem os mais otimistas, que esse passado moribundo pudesse fazer-se vigorar com tanta força no presente.
A educação formal de nosso país atravessa uma profunda crise e, é possível afirmar que ela não consegue dar conta de garantir uma formação crítica, integral, qualificada e universalizada à sociedade brasileira, cuja maior parte está alijada desse direito fundamental, garantido em inúmeros tratados, estatutos, declarações e leis, funcionando, porém, apenas como letra fria sobre o papel (Abib et al., 2000).
Podemos dizer que os códigos de valores presentes nos processos educativos envolvendo a cultura popular, se diferenciam substancialmente daqueles privilegiados num processo de educação formal, mas são fundamentais para garantir a sobrevivência desses sujeitos numa realidade e num contexto ainda muito distante da escola formal, que não consegue apreendê-lo nem compreendê-lo de forma mais profunda, dificultando muitas vezes a aprendizagem do aprendiz, fugindo a sua realidade ou vivência.
O aprendizado sócio-cultural proporcionado pelas representações culturais são frutos da vivência comunitária, e ainda está muito longe de ser validado pela educação formal, o que causa um estranhamento e até mesmo certa rejeição, em relação aos processos de aprendizagem desenvolvidos nessas instâncias. Muito embora, podemos dizer que há um movimento em enaltecer as características educativas da educação popular. Destacamos, por exemplo, a capacidade dos alunos de trabalhar com valores humanos e permitir que estes retratem a sua realidade cultural na escola, permitindo perceber a inclusão e a relevância destas representações como um processo de construção da aprendizagem num sentido mais amplo.
 

  1. Educação formal e popular

 
Por educação formal, entendemos ser o tipo de educação oferecida pelas escolas, mantendo uma determinada sequência e uma forma organizada, enquanto que a designação educação informal abrange todas as possibilidades educativas no decurso da vida do indivíduo, constituindo um processo permanente e não organizado. Por último, a educação não-formal, embora obedeça também a uma estrutura e a uma organização e ser distintas das escolas e possa levar a uma certificação, mesmo que não seja essa a finalidade, diverge ainda da educação formal no que diz respeito a não fixação de tempos e locais e à flexibilidade na adaptação dos conteúdos de aprendizagem a cada grupo concreto.
Em grande parte dos projetos de educação não-formal, desenvolvidos pelos mais diversos tipos de instituições em nosso país, são voltados para as populações de baixa renda, e direcionados para grupos específicos divergindo da educação formal em vários aspectos: tempo, espaço, organização etc. Os resultados obtidos por atividades educacionais envolvendo as manifestações da cultura popular são considerados excelentes na opinião da maioria de pedagogos e arte-educadores envolvidos nesses processos, pois permite que sejam trabalhados valores como a autoestima, o respeito pelo outro, a solidariedade e a auto-superação entre outros benefícios.
Talvez seja esse, o maior ensinamento que a cultura popular possa estar nos disponibilizando nesse momento atual, em que vem se revitalizando em várias partes do mundo, e com isso, revitalizando também as possibilidades de se pensar e agir sobre os processos de educação vigentes em nossa sociedade, a partir de outros ângulos e outras possibilidades. A experiência, os saberes e conhecimentos da cultura popular, representam esse manancial no qual a educação formal precisa se “ensopar”, como diria o mestre Paulo Freire.
A cultura popular, historicamente, nunca foi tida enquanto um conhecimento legítimo no âmbito dos currículos da educação formal. É tratada e vista de forma “folclorizada”, nos programas educacionais da maior parte das escolas, sejam elas particulares ou públicas, é um exemplo claro sobre os preconceitos que persistem nesse âmbito, herança de uma racionalidade eurocêntrica, que influencia ainda, a maioria dos programas formais de educação.
As representações culturais/cultura popular, na maioria dos casos, só entram nos programas educacionais, via atividades, em datas especiais como o mês do folclore, o dia da consciência negra, as festas juninas, a capoeira, entre outras, sendo que tal prática se limita a uma abordagem superficial e caricaturada de seus elementos, não se constituindo enquanto um saber legitimado e valorizado pela cultura escolar. Essa realidade tem se modificado nos últimos anos, mas os avanços ainda são restritos, pois antes de qualquer coisa é preciso que haja uma mudança na mentalidade de educadores e gestores educacionais, ainda pautadas por uma racionalidade objetivista.
Além disso, Os próprios educadores, em sua maioria, têm dificuldade em estabelecer vínculos entre os saberes universais, provenientes da racionalidade acadêmico-científica, com os saberes populares proveniente das culturas tradicionais, que a nosso ver, seria o caminho ideal a ser seguido pela educação formal. A formação desses educadores deveria garantir que houvesse um tratamento privilegiado às questões referentes aos saberes tradicionais populares, enquanto forma e conteúdo dos programas pedagógicos, para que o processo de troca e diálogo com os saberes científicos se desse de forma mais equilibrada e não hierarquizada. Portanto, além das políticas públicas no campo da educação, a formação continuada dos educadores, também deve estar voltada para as experiências produzidas no campo do saber tradicional, pois só dessa forma, será possível o alargamento da racionalidade e dos paradigmas que predominam nessas instâncias.
A partir das considerações feitas sobre as dificuldades encontradas pela educação formal em considerar e valorizar os saberes da cultura popular, considerando o universo de aprendizagem que há, acreditamos, estar possibilitando a abertura de um possível caminho capaz de permitir um diálogo entre educação formal e o saber popular, de forma que as discussões se amplie e se desenvolvam teoricamente difundidas em um contexto mais amplo e holístico.
Consideramos que o universo da cultura popular é extremamente rico, porém, diversificado, onde oralidade e realidade abrigam saberes significativo. Muitas vezes esse rico universo fica relegado ao discurso da minoria, tornando-se inexplorado, não permitindo que a própria comunidade detentora de grandes riquezas culturais não se perceba enquanto símbolos de uma construção social, baseada em ritos, mitos, segredo e enigmas dos quais fazem parte e constroem.
Para Roger Simon e Henry Giroux (1994), a cultura popular representa um contraditório terreno de luta, e um importante espaço pedagógico onde são levantadas questões sobre os elementos que organizam a base da subjetividade e da experiência do aluno. Colocam ainda que, a cultura popular situada no terreno do cotidiano, quando valorizada e legitimada no currículo escolar é, em conseqüência disso, apropriada pelos alunos e ajuda a validar suas vozes e experiências. (p.96).
 

  1. Discursos e perspectivas na educação popular

 
A educação popular a principio foi pensada para uma camada da sociedade os chamados subalternos ou invisíveis, de minoria dos privilégios, direitos entre outros. Tinha o objetivo de procurar trazer uma educação de qualidade para todos, sobretudo, para jovens e adultos, tentando mostrar uma reivindicação dos direitos de todos e uma construção sócio-educacional diferente daquele estabelecida pelos padrões formais das escolas governamentais e outras.
É sabido que o movimento da cultura popular no Brasil emerge da década dos anos 60. Muito embora, que se pensarmos o saber popular como uma construção social, percebemos que o antes e o depois dos anos 60, movimentos sociais, políticos e pedagógicos que de alguma forma construíram um amalgama da cultura e da educação popular. A educação popular não se constituiu de um modelo único e nem pode ser assim considerada, uma vez que é construída em momentos diferentes, e com perspectivas valorativas próprio de um povo, uma comunidade tradicional, indígena ou sociedade específica.
Várias perspectivas de educação popular foram sendo construída ao longo dos anos e com concepções históricas bem distintas. Uma primeira que podemos apontar é a compreensão da educação popular com uma face antropológica, compreendida por muitos como uma construção mais ou menos elaborada, apresentando diferentes modalidades e relações interativas. A contribuição maior nessa linha era a de ensinar-e-aprender a partir das próprias vivências contidas e mantidas pelos grupos sociais das quais pertencem. A construção desse saber se dá geralmente no tecido da vida cotidiana.
Diferente desta, a educação popular também pode ser baseada em vários outros estudos. Tendo a influência de educadores e representantes populares. São aprendizagens baseadas nas aprendizagens populares e tradicionais, são atividades bem especificas de um povo e são ligadas historicamente a educadores. Assumem nesse contexto, uma identidade própria, um ideário, imaginário, uma estrutura e um processo pedagógico de uma educação voltada para seus próprios sujeitos.
Outro aspecto importante que podemos aqui mencionar é a perspectiva político-militante. Ocorre no Brasil, e assume uma dimensão e caráter bem popular no sentido das manifestações populares dos anos 60. São envolvidos políticos, educadores, intelectuais, ambos buscaram nesse período uma educação de qualidade voltada para todos e que atingisse, sobretudo as camadas da sociedade mais pobres e desprovidas dos insumos básicos da luta pela melhoria de vida.  A partir dessas manifestações acontece no Brasil a partir dos anos 70 e 80 em pleno período militar, manifestações das diversas classes sociais no sentido de ampliar o discurso da educação para todos atendendo assim, como podemos observar um anseio da popularidade.
Nesse sentido, a educação popular no país ganha suporte e apoio aos movimentos populares. Um discurso que pode ser bastante explorado, mas infelizmente a sociedade que acredita ter saberes mais elaborados negam ou rejeitam os valores que a educação popular pode influenciar e contribuir para a construção de sujeitos mais críticos e participativos, interativos e humanos quando a partir de suas escolhas e formas de representar e viver em sociedade-comunidade  compreendem e entendem o real significados de suas manifestações e representações simbólicas e culturais das mais simples a mais definidas e elaboradas.
Brandão (1987) coloca que a educação entrou em sua vida via cultura popular, conforme depoimento na revista educação. Enfatiza que educação popular naquele período não tinha nada que ver com escola naquele período. A educação popular tinha um caráter mais de “animação popular”, buscar na comunidade uma forma de compreender o seu próprio espaço e possibilitar um olhar diria mais dinâmico do ponto de vista das relações do cotidiano.
A educação popular não pode ser compreendida na atual sociedade como uma manifestação popular não elaborada, manifestada de forma arbitrária e sem sentido. Compreendemos que as reivindicações atuais sobre a popularização da educação só afirma as considerações que há muito os manifestos da cultura e da educação popular vem considerando ao longo de tantos anos de bravura em um país extenso, moderno e também ainda remoto para muitos grupos e comunidades.
Percebemos que mesmo de forma tímida, porém, atitude relevante para o fortalecimento dessa discussão, uma instigação e propensão para a valorização da cultura popular pelos órgãos públicos e privados como uma possibilidade de construir e valorizar a aprendizagem por parte de quem estuda, considerando uma realidade que lhe é própria, que seja significativa, manifestada pelas populações das quais pertencem e que fazem parte do cotidiano e da vivencia de todos.
Acreditamos que para se avançar na solidez desse discurso, deve haver rupturas nos paradigmas que foram historicamente construídos e que de alguma forma dificultam ampliar a discussão nesse sentido. Talvez, seja necessário ampliar essa discussão na esfera acadêmica buscando um diálogo saudável e harmônico entre educação popular, a cultura e os processos da educação formal.
 

  1. Considerações Finais

 
Por fim, concluímos que a educação popular é uma manifestação histórica e alude a um público da sociedade em geral. Buscando compreensão e diálogo entre saber popular e saber formal. Surge ainda da necessidade de uma educação para todos e das classes sociais populares. É uma manifestação que ganha dimensões diversas das mais simples as mais definidas e elaboradas. Podemos dizer que, é um compendio de construções sociais que envolvem valores morais, sociais, culturais, políticos e econômicos.
Assume na atual vitalidade da educação, uma característica mosaica e conflitante, tornando assim, um grande desafio para docentes e escolas e para a sociedade em geral. Apesar de a modernidade ser um viés que pode alterar essa discussão, percebemos que isso, ganha sentido e significado nas escolas e instituições em todas as esferas da sociedade. Entendemos que a educação como um todo, é uma construção cultural, portanto, nela estar arraigadas laços e construções populares e manifestações do povo e da sociedade de classes.
Que a cultura popular é uma manifestação educativa particular de um povo/comunidade/grupo social, nela está inserida símbolos, significados, valores, imaginário, mitos, rituais e manifestações outras que lhe são próprias e peculiares. São essas representações que dão sentido e educam os homens. Se a cultura popular tem representações as formas de como são apresentadas e elaboradas/realizadas dão valor educativo aos participantes e aos demais que ouvem, vêem, escutam, observam. Ou seja, a cultura popular manifestada no povo, e pelo povo, os educam, se os educa, a educação popular se estabelece como tal.
Os variados momentos que a educação popular no país passou só contribuem para ampliar a discussão da temática nas agendas das universidades; ampliar o olhar dos pesquisadores, professores, alunos, comunidades, sociedade em geral, na busca de melhores formas de manifestar um modelo de educação voltado para as realidades sociais vivenciadas por alunos, pais, grupos indígenas, entre outros.
Acreditamos ser tarefa primordial, porém, conflituosa, quando consideramos os diversos processos de construção da educação popular no Brasil, e, sobretudo, as manifestações de pensadores, pesquisadores dos mais diversos, e antropólogos. Propusemos aqui neste trabalhar, uma discussão que pudesse chamar a atenção para as manifestações da educação popular, seu sentido e significados.
 
 
 
 
Referências
 
ABIB, Pedro R.J. Capoeira Angola: Cultura Popular e o jogo dos saberes na roda. Tese de Doutorado em Ciências Sociais aplicadas a Educação: Unicamp, 2004
 
 
ABIB, Pedro R. J. et allii. Capoeira e os diversos aprendizados no espaço escolar. Revista Motrivivência nº 14, ano XI, Florianópolis: Ed da UFSC, 2000.
 
 
Brandão, Carlos Rodrigues et all. Estruturase Processos de Reprodução do Saber Popular. Mimeografado, UNICAMP, Campinas, 1978
 
 
Fávero, Osmar (org). Cultura Popular e Educação Popular:memória dos anos 60. Rio de Janeiro: Graal, 1983
 
 
MELO NETO, José Francisco de. Educação Popular: uma ontologia. In: Educação Popular - outras possibilidades. João Pessoa. EDU, 1999
 
 
SALLES, Ivandro da Costa. Educação Popular, Universidade e ONGs. Memória do IV Seminário Internacional Universidade e Educação Popular. João Pessoa: Editora Universitária da UFPB, 1994
 
 
SIMON, Roger e GIROUX, Henry. Cultura popular e pedagogia crítica: a vida cotidiana como base para o conhecimento curricular. In: Currículo, Cultura e Sociedade. Antonio Flávio Barbosa e Tomaz Tadeu da Silva (orgs.). São Paulo: Cortez, 1994.
 
 
Yunes, Lucia. Cultura Popular e Educação. Vivências do Museu de Folclore. In III Encontro Regional da América Latina e Caribe – CECA / ICOM, São Paulo: FAAP, 2004.
 



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