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   > Quando toca o celular



Amarilia Teixeira Couto
      CRôNICAS

Quando toca o celular


Ele sempre agia da mesma forma.Aparecia quando o desejo lhe consumia, quando o sexo era mais do que uma necessidade.Então se fazia presente desde cedo.Procurava Marina pelo celular o dia inteiro.A princípio com toquinhos leves, como a dizer:Olha, estou chegando.Quero você.Prepare-se para mim.E Marina ficava desarvorada.Todo o trabalho que teve para tentar esquecê-lo, tanta frustração acumulada, tantos arrufos desapareciam ao primeiro sinal de sua volta.No início, Marina ainda apresenta uma resistência.Vai acompanhando os toques do telefone e não retorna as ligações.Enquanto isso, já se prepara para o encontro.Arruma o cabelo, faz as unhas, escolhe uma roupa sensual, vai se embalando nas fantasias e se deixando levar pela lascívia até o momento em que atende ao chamado.Marcos quer vê-la.Do outro lado da linha, a voz jovial em nada lembra o homem cinquentão, viúvo, pai de dois rapazes e duas moças.Ele era assim: inconsequente,descompromissado, incapaz de sustentar suas decisões.Marina sabia de tudo isso.E por essas características dele  viviam se desentendendo.Mas, quando ela estava só e passava a refletir sobre sua vida amorosa, quando tentava encontrar dentro de si um sentimento ruim em relação a ele, não encontrava.Muitas vezes chegou a pensar que estivesse com uma baixa autoestima.Afinal, o que uma mulher podia querer com um homem como o Marcos?Só aparecia quando ele queria, nunca assumia nada com ela, e qualquer tentativa de enquadrá-lo num relacionamento normal, com saídas programadas, com horários pré-estabelecidos estava fadada ao fracasso.Mas cadê a mágoa, a raiva, sentimentos que levam a uma guinada na vida, a uma virada de mesa? Nada.Não existiam de verdade.Marcos passava uma leveza que atraía Marina.Quando ele ligava anunciando sua chegada, falando de tesão, explicitando suas fantasias eróticas, Marina se desarmava de imediato.Ela até ensaiava uma reprimenda, um discurso de cobrança, mas acabava por se divertir com Marcos, entrava na sintonia dele e riam juntos.E era justamente essa alegria, esse descompromisso dele que deixava Marina excitada, que a fazia recuperar o brilho dos olhos e aguardar a chegada daquele homem que fugia aos padrões do código dos relacionamentos afetivos.
Então , quando a noite chegava, ele vinha junto, com seu olhar azul, com seu sorriso de menino, com sua voz macia, com seu encantamento sutil e arrebatador a um só tempo.No reencontro, Marina se esquecia de quando foi a última vez.Esquecia-se também de quantas vezes jurou a si mesma não vê-lo mais.De bater-lhe com a porta na cara quando o visse na sua frente.E Marcos estava ali.Diante dela.Reação? A de sempre.Olhos nos olhos, mãos entrelaçadas, um convite para entrar, abraços ternos(Ah essa ternura!), beijos e beijos e .....tudo que não pertencia à esfera do desejo, da saudade querendo se aliviar ficava do lado de fora.
Quando ouvi essa história da minha amiga Marina, fiquei pensando se existe de verdade um código de ética para os relacionamentos afetivos.Ela às vezes me confidenciava suas insatisfações em relação ao Marcos.Mas também me falava com tal cuidado, com tanto carinho que não era raro sentir-lhe a emoção nas palavras.Eu apenas ouvia e me imaginava na situação.Creio que não é difícil para qualquer mulher se colocar no lugar da Marina.Afinal, com o potencial de amor que temos, a gente entende que as possibilidades de amar são infinitas.E embora Marina quisesse um companheiro para todas as horas ,era quando estava com Marcos que se sentia mais feliz.Acredito que o aprendizado de um com o outro no sentido de viver suas possibilidades pode valer para muita gente que deixa de sentir, deixa de se entregar por não ter a certeza do compromisso, as garantias da relação.Como se a vida fosse passível de garantias.
E Marina seguirá aguardando a chegada de Marcos.E se perfumará para ele, vai preparar o seu prato predileto, o receberá num cenário romântico e sedutor e celebrará com ele,a cada reencontro, o amor em toda a sua beleza.

 


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