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   > Peregrino Praieiro



Antonio Jorge Angelino Halfeld Rezende Santos
      CONTOS

Peregrino Praieiro

Às pressas, conseguiu alcançá-lo. O último bonde partia. Nêle, um fio de luz tremulava, mas o sono não lhe acudia. Último a descer, seguia pela longa rua de areia. Os acendedores de lampiões de poste e os andarilhos rapidamente desapareciam. Voltava do ofício, em roupa formal, quando chegou à praia. Entreparou. Num relance, foi avistado por alguns, que riram por trás da vidraça de uma carruagem que rumava lépida. Disseram: “um amalucado...”. O noturno fitava uma antiga árvore. Ao se aproximar, depois de tutucá-la, à meia-voz, murmurou: temos a mesma natura! Nossa raiz –– de areia e de lembranças. Reiniciou a caminhada, passou por montículos; quis talhar mensagens. Seguia. À beira-mar, parou. A brisa estava ardente, a viração rouquenha e os seios das ondas em ritmados carneirinhos. Pelo ermo areal lembrou-se da companhia da mãe, da alegre infância e da primeira dama d'areia, risonha, espigada, ele ainda bem pequenito, um colibri. Com os anos, no apanhado bigode romano, às vezes, em bravatas, desafiava: “o amor é feito de areia e mar. Ela!, o sal, a espuma...”. Permanecia no rochedo, até avistá-la pelo chapéu de sol bem copado, enastrado de conchinhas, laço faceiro, sinuoso. Uma vez, esqueceu-se das guerrinhas de areia para segui-la com o olhar. Ela que sempre sumia, entre os rebordos, na direção do sol, que por momentos cegava-no. Distraído, junto com os seus, brincava em seus montículos, quando, casualmente, pela fisga de seus castelinhos, passou a mirá-la. Passava lépida, impercebível; no entanto, muito acontecida. Numa ocasião, correu de olhos fechados ao encontro da mãe. Porém esbarrou naquela. Assustadiço, seus olhos esbugalharam, depois semicerrados ficaram diante da tez de madrepérola. Entreolharam-se. Ela perguntou: “m’nino, vamos apanhar conchas?”. Dessa vez, havia trocado o chapéu de sol pelo fichu, ela sorria com os olhos de camafeu, cujas íris luziam um bocadinho de topázio e esmeralda, nas pestanas bem franjadas. A catadora de conchas era ruiva com algumas pintas. Então, ele descobriu que havia outras ruivas estrelas da manhã. A anônima aparecia com o busto lustroso, flancos rosados pelo entardecer; em murmúrio, entoava cantiguinhas, tamborilando seus balangandãs ornados de conchas de muitos tamanhos, cores e sons. Então, Martinho enxergou que a vida poderia ser um grande aquário. Num certo entardecer, ao contemplar o sol esmaltando o mar, imaginou que, na companhia da catadora-de-conchas, valsavam sobre as ondas. Decidiu segui-la. O rochedo era o esconderijo. Sumidouro da formosa. O praieiro quis melhor destino. Deparou-se, então, com dois estranhos edifícios, o rochoso e o marinho. Era já noitinha quando neles adentrou, mas o luar irradiava as estalactites. Entre a penumbra e a luz, ele a se esgueirar pelos cubículos rochosos e súbitas formações de água. Não podia regressar. Sentiu: a’m a r’‘é’! Chegou a uma fenda possível. Exausto, deitou-se no abrigo de pedra. Sonhou com a andarilha, com um beijo recebido, que existiu. Ela, furtiva, aplicou-lhe nácar nas feridas, roçando suas pálpebras nos lábios dele, além de aconchegá-lo numa ligadura feita de líquens. Em seu corpo, espalhara conchas rosadas. Partia. Martinho não mais a reencontrou. Recordou-se, ainda, do que lhe dissera o velho catador-de-siri: “Moço, deixe as fortunas, não procures os caminhos do mar. É preciso ser mais forte que a tristeza, môço!”. Mas naquela noite ainda carpia lembranças. Repentinos, os apitos do vapor e os do trem longe soavam. Caminhava arrastando-se. Enfim, chegava próximo ao rochedo. Pensou ter ouvido os passos da andarilha. O sono causara-lhe essas impressões. Sentou-se, chorou baixinho, à beira-mar. Não houve mais tristeza. Todo formal, mantinha o paletó e o panamá. Descaiu. Logo após, adormeceu. Entre lágrimas e luar.



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