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orlando ciuffi filho
      CONTOS

Pais

 PAIS
Escrevo esse conto, pois estou próximo de minha morte e nele deixarei escrito o motivo de eu ter feito o inventário de meus bens e quais as providencias que tomei para que não aconteçam na minha enorme família, discussões sobre minha decisão quanto aos beneficiários.
Junto aos documentos oficiais devidamente registrados em cartório estarão também declarações dos seis melhores psiquiatras do mundo atestando minha capacidade mental em atividade plena e correta, para que não haja a menor dúvida sobre a clareza de meu raciocínio, quando decidi minha escolha.
Tudo ficará a cargo do advogado Dr. Régis de Alcântara Azevedo, meu procurador no Brasil, há aproximadamente 10 anos para fazer cumprir meu desejo de maneira acertada.
Tenho apenas alguns meses de vida devido ao câncer que me consome, infelizmente obrigando-me a deixar a vida ainda jovem de apenas 38 anos de idade, solteiro e milionário.
Tudo começou quando Ana dos Anjos ficou grávida de mim. Ela vivia com Jairo Sena, que desconfiou que eu fosse fruto de traição dela.
Após eu nascer e ter o resultado do exame do DNA confirmado as suspeitas dele, sumiu da vida dela e da minha, sem deixar vestígios.
Pouco tempo depois, menos de dois meses Ana conheceu Pedro Santos Silva, que não era o amante e ele só soube de seu passado e presente o que ela informou. Acreditando que ela fora abandonada pelo maldoso cônjuge com um neném pequeno, casou-se com ela e me registrou como sendo filho de ambos com o nome de Sergio Santos da Silva, pois eu sequer ainda havia sido registrado.
Não ficaram juntos nem três meses e ele também desapareceu de nossas vidas, pois realmente ela não se adaptava a ser mulher de um homem só. Falando francamente ela usava-os as dezenas.
Ana sentindo-se desamparada e precisando prostituir-se, pois só tinha essa habilidade para se manter, acabou vendendo-me ao casal Josué e Miriam, que embora já tivessem filhos, resolveram adquirir-me por um preço módico.
Não que eles fossem adeptos a boas ações e eu um neném bonitinho, pois jamais fui bonito e eles nunca foram caridosos.
Na ocasião faziam-se muitas propagandas e solicitações para adoção de crianças órfãs ou repudiadas e estava na moda os ricos empresários fazerem isso e como o casal Almeida Campos pertencia a esse privilegiado grupo de pessoas assim procederam.
Não fizeram à adoção da maneira correta incluindo-me como membro de sua família. Apenas pagaram algum valor a Ana e ficaram comigo, digamos assim como que um convivente familiar ou simplesmente agregado àquela família, tão somente para a mídia noticiar o feito exemplar.
Em meus documentos meu nome continua o mesmo e com a mesma filiação já existente, desde meu registro.
Fui criado nessa família de ricos empresários que me ofertaram tudo que o dinheiro poderia adquirir. Babá, motorista, boas comidas, boas escolas, boas roupas, brinquedos em abundancia e animaizinhos domésticos.  Durante minha infância, adolescência e inclusive na fase adulta era o que eu possuía.
Nada me lembro dos primeiros anos de minha vida, mas após os seis anos tenho todas as lembranças registradas em minha mente e sei perfeitamente bem de tudo o que me ocorreu até os dias de hoje.
Os acontecimentos que me recordo a partir da idade já mencionada e que creio terem sido exatamente iguais nos anos anteriores eram principalmente quando a senhora empresária Miriam chegava e perguntava aos gritos:
  • Maria Cristina aquele moleque cagão deu tanto trabalho assim, para que você não arrumasse a casa direito?
  • Senhora. O Serginho é limpinho e se não arrumei direito a casa, foi porque seus filhos mais velhos foram quem exigiram muito de meu tempo ajudando-os nos deveres de casa e consertando seus brinquedos quebrados e...
  • Deixe de conversa fiada.
  • Mas senhora...
  • Acho que será preciso contratar outra empregada melhor, pois você não está dando conta do serviço. Está a cada dia que passa mais imprestável. Só não a demiti ainda porque seu marido é um ótimo motorista e se você for despedida ele também deverá ser e Josué não concorda com isso.
  • Mas senhora...
  • Deixe de, mas, mas, mas e não precisa falar mais nada e vá ao trabalho e deixa esse pirralho por aí brincando com os cachorros para não atrapalhá-la.
  • Mamãe...
Eu tentava conversar, mas a senhora Miriam não me ouvia, aliás, nem me via. Creio que ela jamais soube meu nome, pois independente de eu ter crescido e deixado de ser neném que sujava as fraldas ela continuou chamando-me de moleque cagão até que eu já com doze anos revoltar-me e exigir melhor tratamento.
A partir de então, ela ao se referir a mim, chamava-me de “adolescente aborrecido” e depois simplesmente de “abô”, até quando eu, aos 21 anos de idade abandonar tudo e todos e ir embora para a Austrália.
Falei sobre Sra. Miriam apenas o que foi dito, pois me é impossível recordar de algo diferente disso nos mais de vinte anos de convivência.
Sobre Maria Cristina Costa e seu marido Manoel Costa também falarei pouco para dizer tudo que me lembro deles. Eles já trabalhavam na mansão, respectivamente como doméstica e motorista e foram minha babá e meu motorista desde minha chegada a casa, assim como já o eram dos outros filhos do casal.
Eles consertavam nossos brinquedos, cuidava de nossa roupa, nossa higiene, nossa alimentação, nossa locomoção e demais tarefas próprias dos empregados, entretanto além dos afazeres domésticos dedicaram o restante de seu tempo disponível diariamente a ajudar-me e aos outros meninos em nossas tarefas estudantis. Dava-nos seu calor, seu amor, sua dedicação e ensinava-nos sermos amigos, honestos e amorosos. Em todos os dias dos meus vinte anos de convivência nada diferente disso me recordo deles.
Menos ainda falarei sobre o empresário Josué, pois dele relembro-me menos ainda. Apenas uma passagem.
Acho que ele jamais soube de minha existência, pois a única vez que me dirigiu a palavra foi quando Maria Cristina comemorava meu aniversário de nove anos com uma festinha na edícula da casa onde ela morava com Manoel, que ele lá esteve a procura do motorista e ao ver-me perguntou:
  • Quem é você menino?
Antes de eu responder, foi Manoel quem disse:
  • É seu filho, patrão.
  • Qual deles?
  • O caçula. Aquele que o senhor adotou.
  • Nem me lembrava mais disso.

Mudou de assunto determinando suas ordens ao serviçal e virando as costas deixou-nos, consequentemente terminando com minha primeira e única festa de aniversário.
Sobre meus irmãos adotivos, filhos do casal de empresários que recebiam dos pais, mais ou menos o mesmo tratamento que eu, enquanto pequenos nos dávamos bem, pois aprendemos a nos amar, orientados e ensinados que fomos pela domestica Maria Cristina e pelo motorista, Manoel Costa.
Eles eram Josué Almeida Campos Júnior, Robson Almeida Campos e Elisangela Almeida Campos.
A caçula Elis era quatro anos mais velha que eu, e casou com apenas 18 anos de idade mudando-se para o Japão levando Júnior com ela meses depois, pois ele havia ficado sem o outro irmão que falecera de acidente automobilístico.
Nessa ocasião houve por parte dela o interesse de levar-me também, entretanto conforme meu registro de nascimento meus pais eram Ana dos Anjos e Pedro Santos Silva, e por isso não foi possível eu obter permissão para viajar, pois eles definitivamente não foram encontrados para assinar a autorização.  Eu com quatorze anos e consequentemente menor de idade estava impossibilitado de qualquer viagem sem permissão dos pais ou responsáveis legais.
O casal Almeida Campos até que aceitava e gostava da idéia da filha levar-me, mas não eram oficialmente meus responsáveis, portanto não reconhecidos legalmente como tal nada puderam fazer e eu fiquei mais sozinho que nunca.
Tinha somente os empregados dos empresários a dar-me a atenção, mas sempre muito ocupados, quase como escravos não podiam dedicar-me muito tempo.
Meus únicos amigos eram definitivamente os cães, os gatos e as aves da casa, pois os colegas das escolas só eram meus amigos enquanto estávamos em aulas, pois jamais tive permissão de freqüentar os ambientes deles.
Como o contato com o casal Almeida Campos e os filhos eram por meio de raros e-mails não só pelo desinteresse de todos, mas também porque tanto Elis quanto Junior tinham suas próprias famílias a se preocuparem fui também perdendo o contato com eles, pouco a pouco.
Estou sendo um pouco incorreto, porem lembrei-me a tempo de dizer que Maria Cristina e Manoel lhe escreviam porque não tinham acesso a computadores, assim como eu, por isso tocávamos correspondências escritas via cartas e o pouco que acompanhei de suas vidas fora assim.
Nos seis anos que se passaram soube que Junior havia se casado e que tinha três filhos e morava próximo da irmã que tinha apenas uma filha. Nosso contato era realmente muito pouco devido a dificuldade de tais comunicações.
Na edícula não tinha telefone e nem computador, para que eu pudesse me interagir com eles. É lógico que eu tinha muita habilidade no uso de tais aparelhos, mas jamais ousava usar o da casa principal, pois definitivamente não me era permitido, uma vez que eram trancados nos quartos do casal para uso somente deles.
Em meus horários na faculdade não me era permitido o acesso a internet para assuntos particulares, e em minhas tardes disponíveis e possíveis de usar um Lan House, coincidia com as madrugadas de meus irmãos, portanto eu não poderia comunicar-me com eles, para não incomodá-los.
Ao completar vinte e um anos de idade, e com a ajuda financeira de minha ex babá e meu ex motorista pude viajar por conta própria e fui para Austrália, pois a única língua que eu dominava além do português era o inglês, portanto não fui procurar meus irmãos no Japão.
Fui-me adaptando nessa nova pátria e então passei a ter muito contato com Elis e com o Júnior, inclusive viajando muito para o Japão e eles para a Austrália, para nos encontrarmos e assim passamos a nos ver e conversar com muita assiduidade e nossa amizade e amor mútuo voltou muito mais forte.
Por correspondência escrita aos adorados casal Costa, convenci Manoel a comprar um computador e fazer um curso para aprender utilizá-lo para que pudéssemos ter facilidade em nos falar, escrever e ver. Mandei-lhe dinheiro para isso, convencendo-o de recebê-lo como pagamento da passagem que haviam gasto comigo.
Eu já estava por assim dizer acendendo na vida profissional e minha situação financeira crescia muito rápido, ao inverso do casal de empresários, que ano após ano definhava-se economicamente, mais depressa que meu desenvolvimento, e ao passar de poucos anos estavam definitivamente falidos e eu bilionário.
Eu não acompanhei o acontecido com eles e só soube quando eles me procuraram e contaram-me.
Na Austrália eu desenvolvi um programa de segurança empresarial para grandes companhias e tal software muito eficaz deu-me fortuna e prestígio, e graças a isso também notoriedade, fazendo de mim uma celebridade que permanentemente era lembrada e mencionada em todas as mídias.
Notícias sobre mim corria mundo, e graças a essas freqüentes informações, comecei a ser definitivamente descoberto no Brasil.
Os primeiros a procurarem-me foram o casal de empresários falidos que solicitaram-me socorro, alegando terem me criado e dado condições de eu ser alguém na vida, alegando que graças a eles eu cresci financeiramente, por isso exigiam grande importância em dinheiro para se recuperarem.
Não sei como Ana dos Anjos descobriu-me e junto a seu atual marido Roberto Arruda fez as mesmas reivindicações, exigindo por seus direitos de mãe uma enorme quantia em dinheiro, para pagá-la por ter-me posto no mundo.
Na mesma época, encontraram-me e solicitaram apenas as mesmíssimas coisas:
Pedro Santos Silva, que me registrou como filho e cobrava-me por tal feito.
Jairo Sena que foi o primeiro marido de Ana abandonando-a e a mim, choroso me disse que só não me criou e educou, pois as constantes traições de Ana deixaram-no na época muito revoltado e insensato. Que agora gostaria de reparar tudo desde que eu o ajudasse com dinheiro para ele cuidar direito de seus vários filhos existentes e carentes.
Augusto Antonio Cristo, se identificou como sendo o amante de Ana na época de sua gravidez cujo nascimento eu vi luz, garantindo ser o meu pai genético.
Mandou-me por correspondência um monte de seus cabelos, para que eu efetuasse o exame de D.N.A, para comprovar a paternidade e após isso para eu reparar-lhe financeiramente por ter sido o principal responsável por minha existência.
                                      Além dele teve outros três homens que procuraram-me dizendo as mesmas coisas e reivindicando também o mesmo.
Todos me procuraram mais ou menos na mesma época. Por sorte minha todas as exigências deles eram para mim o meio mais fácil de satisfazê-los, portanto nessa ocasião contratei o advogado brasileiro Dr. Regis para verificar as reais necessidades de cada um, e supri-las sob minha responsabilidade, e para tal autorizei-o dispor de dinheiro suficiente para socorrê-los financeiramente pelos próximos trinta anos de suas respectivas vidas.
Na ocasião eu tinha 30 anos de idade, portanto tudo o que eu lhes devia não poderia ser superior a esse tempo, portanto minha decisão justificava plenamente que após esse tempo ninguém poderia cobrar-me nada sob nenhum pretexto.
Isso já faz aproximadamente oito anos e assim continuará independente de eu estar em meu fim de linha, e por isso tive a necessidade do inventário, pois independente desses socorros continuarem sendo mantidos precisaria indicar alguém para herdar todos meus bens existentes, exceto essa ínfima importância já destinada.
Antes de tomar tal decisão, consultei Elis e Júnior, que nunca precisaram de mim, até porque ambos estão muito bem e recusaram categoricamente usufruírem da herança, concordando com minha determinação que julgaram acertada e justa.
É comum se dizer que pais não são aqueles que geram e sim aqueles que criam, entretanto, eu discordo e digo que pais não são aqueles que geram, nem tampouco os que dão nome, registram e criam e sim aqueles que amam e esse foi com absoluta certeza o motivo irrefutável de eu reconhecer como meus verdadeiros pais, o casal Costa.
Portanto simplesmente deixo como meus herdeiros, Maria Cristina Costa e Manoel Costa, para disporem de cinqüenta por cento de todos meus bens da forma que desejarem, e o restante para ser dividido por cinqüenta orfanatos no Brasil, cujos nomes não serão divulgados, mas já estão devidamente escolhidos.
acabou 



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