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   > Landinho



orlando ciuffi filho
      CONTOS

Landinho

  “LANDINHO”
O menino QUE NÃO quis PARAR de crescer
 
A maioria das narrações sobre a trajetória de alguém seja fictícia ou biográfica, geralmente começa descrevendo as dificuldades financeiras, as doenças e os comportamentos familiares geralmente complicados e conclui com sua extraordinária ascensão referente à fortuna acumulada, a fama alcançada ou a miraculosa invenção conseguida.
O menino em questão não foi de origem paupérrima, não sofria nenhuma mazela e seus comportados pais lhe deram o exato conforto que um guarda livros poderia dar além de amor, bons exemplos, conselhos e educação.
Ambos, auxiliados pelos avôs paternos que residiam próximos foram bastante comprometidos no ensinamento dele e dos irmãos, portanto Landinho não “começou do nada” como se diz na gíria e sua evolução não o levou à riqueza, a notoriedade ou ao prestigio.
Sua história principiou quando ele tinha seis anos, pois infelizmente por mais que tentasse recordar, realmente não se lembrou de quase nada muito significativo antes dessa idade para ser dito.
Ele se recorda vagamente que era muito peralta como qualquer menino saudável como ele e conta que suas brincadeiras eram saltar de galho em galho em árvores altas imitando os macacos para apanhar frutas, jogar pião, bolinhas de vidro, triângulo, vira mão com as figurinhas que colecionava, além de apostar corrida, empinar papagaios e jogar futebol com bolas de meia.
Nadar nunca aprendeu, pois na pequena cidade de Guaranesia, no sul de Minas, onde passou a infância e parte da adolescência não existia piscina nos dois únicos clubes de lá e em nenhuma casa de amigos, mesmo nas dos mais ricos e por ensinamento dos pais aos rios das fazendas jamais fora para evitar acidentes.
Nessa época não existia televisão, vídeo game, internet ou quaisquer aparelhos similares que hoje em dia impede aos meninos aquelas salutares recreações que os transformavam em gentis e românticos adultos. Fato que entristece aos saudosistas que porventura tenham vivido naquele tempo ingênuo, decente e feliz.
Conta mais que invejava o irmão, pois ele já estava no grupo escolar dominando a escrita e a leitura e sobre a chegada da recém nascida irmã caçula que ele curioso espiava atrevida e sigilosamente a mãe banhá-la para confirmar a tal diferença entre os sexos da qual já ouvira falar.
---x---
No início do ano de mil novecentos e cinqüenta ele completou sete anos e em apenas mais quarenta e dois dias iria para a escola.
Em seu aniversário teve muitos motivos para ficar contente, pois além da proximidade de ir estudar ganhou de presente uma correntinha de ouro e a informação que a partir daquela semana começaria a fazer jus à mesada condizente com sua idade para suas compras pessoais.
Soube que a importância era calculada exatamente para adquirir determinada quantidade de balas, figurinhas, bolinhas de vidro e pagar seu ingresso no cinema aos domingos a tarde.
A conversa entre seu pai e ele foi mais ou menos assim, lembra ele:
  • Ficou satisfeito meu filho?
  • Lógico. Mas o cálculo que o senhor fez está errado, pois não gosto de balas, portanto não será preciso tanto dinheiro. Pode dar-me menos.
  • Fica como calculei mesmo. Compre doce no lugar das balas.
  • De doce basta a vida.
  • Acha a vida doce porque ainda é criança. Quando ficar adulto verá o quão amarga ela costuma ser.
  • É fácil resolver isso papai. É só continuar criança que ela será sempre doce até a gente morrer de velho.
  • Não é bem assim. Não que eu lhe deseje, mas infelizmente você sentirá na pele.
  • Pois saiba que não conhecerei tais amarguras, pois decidi que continuarei sempre criança para ter uma vida adocicada até na hora da morte.
  • Que Deus o ouça e permita.
  • Obrigado pelos presentes e pelo voto papai.
Foi essa a primeira das milhares de vezes que Landinho falou “De doce basta a vida” e foi também nesse exato momento que se determinou em continuar criança pela vida inteira.
---x---
Finalmente chegou sua vez de ir para a escola e seu primeiro suplicio veio junto.
Logo no primeiro dia de aula a vacina contra varíola foi aplicada nas crianças, que fizeram fila indiana para submeterem-se a tal tortura. Sua agonia e desespero duraram uma hora inteira até estar próximo de sua vez.
À medida que ele andava mais se aproximava de seu algoz que ficava a cada passo dado mais monstruoso. Com os olhos para o chão para nada observar, vez por outra arriscava uma olhadela e via a sua frente o que acontecia.
Um homem fortíssimo, mais que o triplo de seu tamanho provocando impiedosamente um corte profundo no braço de cada criança com um enorme caco de vidro para depois adicionar o remédio, ou veneno no ferimento feito anteriormente que sangrava sem parar.
Raros eram os meninos que após tal sacrifício não caiam desmaiados estrebuchando no chão até a dolorosa morte.
Isso é o que ele via e tal visão o fez fugir aterrorizado para longe daquele carrasco para as matas próximas, por boa parte do dia, até ser encontrado pelo pai em sua própria casa embaixo da cama.
Em sua audaciosa e veloz escapada deu um grande encontrão com o farmacêutico derrubando-o com boa parte dos medicamentos.
Ainda dentro da cidade decidiu que enfrentaria bravamente até a morte se preciso fosse as onças, os tigres, os lobos, os vampiros, os bruxos, os duendes, o saci, as mulas sem cabeça, os lobisomens e demais animais ferozes e assombrações que cruzassem seu caminho na floresta em que se refugiaria para sempre, vivendo como o seu ídolo favorito dos filmes. O Tarzan filho das Selvas.
Ao deixar as últimas casas para trás, repentinamente tais animais selvagens além dos monstros geralmente muitos vistos e falados, entretanto nunca com testemunhas, desapareceram totalmente de seus temores e tremores. Graças à felicidade que sentia por ter se evadido de sua iminente mutilação e principalmente pelos pedidos que incessantemente fazia em suas gritadas orações ao seu anjo da guarda que nunca o desamparava.
Tal criatura celestial impediu todo o risco corrido simplesmente porque as figuras do folclore só existem nos contos de fadas e da carochinha e os animais ferozes apenas nas matas florestais e ele tinha se refugiado em uma fazenda com plantação de café, arroz, milho, hortaliças e frutas onde eles não freqüentavam.
Nosso pequeno Dom Quixote foi salvo de uma possível picada de cobra que lá existia com fartura, pois o pavor dos espantalhos que protegiam das aves, o milharal e as hortas, foi o suficiente para levá-lo de volta mais rápido do que veio.
Borrando-se nas calças curtas retornou à sua casa, tal qual o hilário herói de Cervantes em sua magnífica obra da literatura universal chamada El Ingenioso Hidalgo Don Quijote de La Mancha fugiu do cata-vento do moinho.
---x---
Estávamos a cinqüenta e sete anos atrás e tudo era muito diferente de hoje por isso cremos que realmente o corte para a aplicação da vacina era de fato provocado por uma lâmina de aço ou por um pequeno caco de vidro mesmo. Esterilizado é claro.
No outro dia conseguindo coragem pela presença do pai que o acompanhou para encarar o grande desafio, Landinho heróico estendeu o braço ao boticário e agora próximo a seu verdugo viu que ele era bem menor e mais fraco que seu protetor de apenas estatura mediana.
Tal baixinho executou o simples procedimento da vacinação sem nenhum problema a não ser o inconveniente de seu choro irritante e estridente.
Ele com o rosto virado, a boca muito aberta aos berros e os olhos bem fechados não conferiu qual o hediondo aparelho utilizado em sua tortura e eis uma coisa que nunca ficou sabendo até os dias de hoje.
Por vergonha de contar aos colegas como procedeu ao ser vacinado para saber se de fato era vidro ou não, durante meses sentiu a amargura de não ter encarado tal fato de frente como qualquer homem deveria fazer mesmo que ainda fosse criança.
Foi sua primeira grande lição, pois categoricamente decidiu que jamais fugiria a qualquer situação que a vida lhe impusesse, até para cumprir seu primeiro e grande compromisso consigo mesmo que era de nunca sentir amargura na vida. Iria encarar todos os desafios com coragem e determinação, pois aflições só têm quem as deseja, procura e cria.
Sentiu ter crescido um pouquinho com essa decisão que seria irrefutável dali para frente.
Ninguém percebeu que ele estava maior, mas ele sim e nesse exato momento decidiu também que nunca mais pararia de crescer. Cresceria imensuravelmente ate alcançar o céu.
---x---
 Rápido aprendeu as primeiras letras, tanto escrevendo como as lendo no primeiro ano do curso primário.
 Naquela época era hábito nos anos posteriores a professora passar como dever de classe ou de casa palavras cruzadas, caça palavras, labirinto, caça erros, charadas e outros exercícios recreativos que cortava dos jornais para os alunos exercitarem. Era uma excelente maneira de estimular a visão, a memória e principalmente o aprendizado de vários sinônimos dos muitos vocábulos de nossa língua.
                       Landinho adorava tais brincadeiras nas aulas de português e já muito bom em palavras cruzadas aumentou seu desafio decidindo pela primeira vez mudar seus limites.
Deixou de resolvê-las e passou a criá-las quando estava no inicio do terceiro ano letivo, por um motivo que era seu grande segredo não revelado nem a seu inseparável amigo celestial, que inevitavelmente sabia de tudo, sem que ele sequer imaginasse.
Levou tão a sério sua pretensão e auxiliado por um excelente dicionário trabalhou quase o ano todo, em sua casa e fez mais de duzentos exercícios de palavras cruzadas que resultou em lotar com elas dois cadernos de desenho escolar de cem folhas cada.
                      Certo dia no final desse mesmo ano letivo sua professora ao perceber na aula de história, um grupinho amontoado sobre tais cadernos os arrebatou dos meninos que não estavam dedicando nada a espetacular aula do descobrimento do Brasil daquele dia. Levou ambos os cadernos de desenho como prova da desatenção a sua aula e todos os envolvidos, à sala da diretora para serem repreendidos e devidamente punidos.
A diretora assustou-se ao ver os mais brilhantes e atentos alunos do terceiro ano envolvidos com algo não pertinente a matéria.
Sem nada falar com as crianças começou curiosamente folhear tais cadernos causadores do inconveniente.
                       Landinho não estava entre eles, pois como não lhe cabia resolver o que ele próprio havia bolado permaneceu realmente presente de corpo e alma com toda sua atenção voltada à viagem de Pedro Álvares Cabral ao nosso território.
O retorno da professora foi rápido, entretanto não demorou cinco minutos para a assistente da diretora chamá-la de volta.
O menino aguardou ansioso o novo regresso da mestra e quando isso ocorreu ele confessou ter sido o culpado por ter induzido seus colegas a descuidarem-se da aula.
Contou-lhe que desafiou tais amigos a resolver suas palavras cruzadas para a grande surpresa de Dona Maria que nunca tinha visto meninos tão animados com os mesmos exercícios dos recortes dos jornais quando permitido por ela. Jamais tais retalhos graficamente bem impressos tinham alcançado tanto sucesso quanto as palavras cruzadas desenhadas com caneta de pena e tinta Nanquim nas páginas dos cadernos de Landinho.
                      Logo dera o sinal para o descanso entre as aulas e ela não tendo tempo para conversar com o menino apenas lhe disse:
  • Quando terminar o recreio quero falar com você.
  • Sim senhora. (Educadamente e cabisbaixo ele respondeu-lhe retirando-se evidentemente sem a correria de sempre).
                      Landinho aguardava tranquilamente em um canto da quadra de vôlei seus sete melhores amigos que foram encaminhados à diretoria quando os viu chegar a seu lado. De imediato foi desculpando-se com aparente calma.
  • Perdoem-me pelo castigo que tiveram. Foram palmatórias, puxões de orelha, reguadas ou ficaram ajoelhados sobre milhos?
  • Nada aconteceu e pelo seu jeito debochado de perguntar parece que já sabia que não ia dar em nada.
  • Certeza absoluta eu não tinha, mas já imaginava que não deveria acontecer nada de ruim. Pelo contrário, mas se não me contarem como foi, continuarei na dúvida. Imaginar eu posso, mas adivinhar não. O que aconteceu?
  • Logo que chegamos à diretoria Dona Ernestina ficou examinando seus cadernos e mandou chamar Dona Maria de volta. Falou baixo com ela que se retirou em seguida e logo depois deu o sinal. Dona Ernestina mandou-nos vir brincar e depois voltar para a sala. (respondeu um dos meninos, aliás, foi uma menina. Foi a “Vermelha”. Esse era o apelido de Heloisa, pois tinha as faces bem rosadas).
  • Na sala quando confessei à Dona Maria que tudo tinha sido culpa minha, bateu o sino para o recreio e ela disse que depois falaria comigo. No momento tive uma ligeira impressão que ela iria tentar punir-me de alguma forma, mas como vocês já foram perdoados tenho certeza que eu também serei.
  • Não aconteceu nada conosco, talvez por você ter declarado ser o responsável, mas imagino que irá pagar caro por seu erro.
  • Deixe de mau agouro Darlan. Ela não falou comigo brava e pelo tom da voz estou certo que ela gostou de minhas palavras cruzadas.
  • Metido e convencido. (retrucou outra menina cujo nome era Neuza)
  • Não é petulância minha. Enérgica como ela sempre foi, para ter-me dado uns tabefes na hora não custava nada. Ela sempre dá reguadas em todo mundo por muito menos. Além de não ter feito nada ainda falou com voz mansa.
  • Que ela é malvada você tem razão, por isso não vejo a hora de passar para o ano seguinte e me livrar dessa bruxa velha solteirona e ranzinza. Minha irmã que já está no quarto ano vive elogiando Dona Dedé por ser muito calma, atenciosa e boazinha.
  • Além disso, dizem que o último ano será moleza, pois só teremos recordação dos três primeiros para prepararmos para a admissão ao ginásio. Meu irmão é quem me contou, mas com relação à Dona Dedé não fala exatamente a mesma coisa. A diferença é que diz que ela é boazuda e não boazinha. (Foi o João Bosco quem conversava e foi imediatamente repreendido pela inconveniência do termo pela Dalva que de maneira enérgica disse):
  • Seu grosseiro. Vá usar esses termos cafajestes onde não tem meninas.
  • Saiu na empolgação. Dei mancada. Desculpe.
                       Clebinho entrou na conversa dizendo:
  • Em compensação o ginásio vai ser fogo. Tenho um primo que já repetiu a primeira série duas vezes e foi proibido de continuar cursando, pois a lei não permite que fique ocupando a vaga que será dos calouros. Ele teve de ir para outra cidade, pois aqui não tem mais ginásios para ele estudar.
  • Dizem que inglês é muito difícil e que é sua professora, Dona Sheila, quem mais reprova.
                      As badaladas do sino ecoaram alto chamando os meninos para voltarem as suas classes e Lucas que nada falou retornou tão calado quanto permanecera na conversa.
                      As duas últimas aulas do dia eram de português e espantados ficaram todos os garotos quando uma substituta entrou e informou que Dona Maria só viria para a quarta aula e que nessa era para todos fazerem o ditado que ela passaria. (Ditado acho que não existe mais nas escolas, mas era o seguinte: A professora lia um grande texto de um livro didático qualquer e as crianças ouviam-na e escreviam. Era a forma de exercitarem-se na correção das palavras).
Todos quietos e compenetrados efetuaram seus trabalhos, até que encerrado o tempo dessa aula chegou a mestra titular.
                      Para o assombro de todos e contentamento de Landinho ela distribuiu cinco folhas mimeografadas para cada aluno resolver os exercícios de palavras cruzadas que havia copiado de um dos cadernos dele e enquanto mandou-os trabalhar convidou o menino para ir com ela a sala dos professores.
Lá chegando começou a conversa com a presença da diretora e da mãe dele que foi chamada.
  • Oi mãe. (disse Landinho beijando-lhe a mão direita pedindo benções. Isso era hábito em todas as famílias daquele tempo).
  • Deus lhe abençoe meu filho.
  • Foi chamada até a escola por minha causa e parece que está feliz? Não está preocupada?
  • Tenho forte motivo para tal alegria e para orgulhar-me de você. Já soube o que aconteceu.
  • Eu também estou contente embora não saiba exatamente de tudo, mas já vi o que Dona Maria fez com um dos meus cadernos de palavras cruzadas.
  • Fiz o que qualquer pessoa de juízo e justa teria feito. (Respondeu-lhe mentirosamente a emburrada mestra que agiu conforme determinação da diretora).
  • Viu mamãe no que deu minha teimosia? A senhora vivia me recriminando que eu perdia meu tempo, deixando de brincar e de estudar para inventar palavras cruzadas. Agora estão sendo usadas para ajudar Dona Maria ensinar meus próprios colegas de classe.
  • Espere que tem mais coisas para você saber.
                      Para encurtar a história a professora repentinamente começou agir de forma oposta a sua normalidade dizendo que tem um sobrinho que trabalha em um grande jornal de São Paulo. Prontificou-se a conversar com ele para conseguir que as palavras cruzadas do menino fossem compradas pelo jornal para serem publicadas. Caso não conseguisse lá ele encaminharia a um grande amigo que era um dos diretores da mais famosa revista da época que editava todo tipo de passatempo, pois o trabalho de Landinho foi considerado muito bom por ela, pela diretora e por outros professores que analisaram.
                       Ele não obteve sucesso em nenhuma das editoras que o sobrinho da mestra tentou, mas não se abateu por já esperar por isso.
O próprio menino já havia enviado suas palavras cruzadas a vários jornais e editoras de São Paulo e do Rio de Janeiro sendo recusado antes do acontecido na sala de aula.
                      Ele contou não ter conseguido nenhuma remuneração em dinheiro que foi sua pretensão inicial e estava até pensando em parar de criá-las quando percebeu ter recebido uma enorme recompensa animando-o a continuar.
Falou que a professora enérgica transformou-se de bruxa em fada como em um passe de mágica.
Que logo no dia seguinte ela já substituira a grande régua que fingidamente dizia ser para apontar o quadro negro, mas que só usava para malhar a cabeça e os braços dos alunos insubordinados, por carinho e guloseimas para seus pupilos que começaram a adorá-la após tal transformação.
Continuou lecionando a língua portuguesa e já naquele mesmo final de ano substituiu o ditado por redação própria além de convencer a diretora em incluir no currículo escolar a leitura de clássicos da literatura. Iniciou com a infanto juvenil brasileira até chegar ao limite das universais.
Implantou naquela escola com o passar do tempo uma séria orientação e incentivo a criatividade dos alunos não só nas artes literárias, mas também na musica, na representação teatral e nos esportes.
Nas olimpíadas estudantis que passaram a existir entre as cidades próximas muitos desses brilhantes alunos já no ginásio foram sucesso em várias competições esportivas e curriculares cuja orientação básica trouxeram daquele grupo escolar.
Depois de adultos são vários os oriundos daquela cidade que se tornaram pessoas de muita projeção no país e no exterior. O “Ponteado” é um bom exemplo. Tornou-se físico nuclear e foi um dos responsáveis na NASA por lançamentos dos primeiros foguetes interplanetários.
                     Landinho conta que naqueles anos cresceu imensamente e tal recompensa valeu muito mais que o dinheiro que sonhou conseguir pela publicação de seu trabalho.
---x---
                      Voltando àquele acontecimento ele disse que a tarde chamou o irmão a uma conversa urgente:
·         Derley você precisa ajudar-me numa tarefa muito importante. Conto com você. Topa?
·         É possível, mas só poderei concordar depois de saber do que se trata.
·         Lembra-se de quando eu completei sete anos e ganhei de presente uma correntinha de ouro?
·         Sim. Você a perdeu na mesma semana e levou uma bronca danada de papai e da mamãe e prometeu que no máximo em três anos você a recuperaria. Não foi isso?
·         Exatamente. Mas não consegui ainda e está prestes a vencer o prazo, por isso preciso de sua ajuda para recuperá-la.
·         Você sabe onde ela está?
·         Claro que não. Se soubesse seria fácil. Simplesmente iria apanhá-la.
·         Então como vai encontrá-la?
·         Ela está em algum lugar no quintal da casa da vovó.
·         E quer que eu o ajude vasculhar dez mil metros quadrados de terreno cheio de mato, barro, árvores e galinhas? Nunca vai encontrá-la, pois com certeza já enferrujou e quebrou-se toda ou as galinhas que já ciscaram o terreno inteiro já a comeram se a enxurrada das chuvas não a levou para o esgoto. Sinto muito, mas estou de férias e quero descansar dos estudos é passeando e não trabalhando em serviço braçal.
·         Digo-lhe que nada do que falou aconteceu. Primeiro porque o ouro não enferruja e segundo porque é impossível de as galinhas ou as enxurradas terem achado no lugar onde está e por termos três meses de férias teremos muito tempo para encontrá-la.
·         Deixe de besteiras. Eu mesmo já sumi com a minha e ninguém mais reclama há muito tempo. Nossos pais não se lembram mais de sua perda e menos ainda de sua esdrúxula promessa.
·         Mas eu me lembro principalmente do juramento por isso devo encontrá-la e terá de ser nessas férias. Não dá para adiar mais. Está completando os três anos.
·         Sinto muito. Não conte comigo. Além de eu ir viajar para a casa do nosso outro avô e só voltar no mês que vem, tenho certeza que nunca mais vai achá-la. Ela não está mais lá.
·         Que está eu aposto.
·         Porque tal convicção?
·         Está bem. Vou contar-lhe porque ela está lá em algum lugar.
·         Você se recorda um dia em que estávamos chupando jabuticaba e eu estava na privada quando você também teve vontade de fazer cocô?
·         Sei lá! Tenho coisas muito mais interessantes para recordar. Acha que vou me lembrar disso?
·         Como você estava muito apertado fez no quintal mesmo, atrás da latrina e o vovô alguns meses depois contou que nasceu uma jabuticabeira originada de suas fezes.
·         Aquilo foi sacanagem dele. Onde já se viu isso ser possível?
·         Que é admissível isso é, pois os caroços que saíram de seu intestino misturado com seu adubo natural podem sim terem germinado e sem essa de sacanagem de vovô, pois antes de fazer o que fiz perguntei a ele se era brincadeira tal história e ele confirmou-me ter sido verdade.
·         Naquela época que você só tinha sete anos dava para acreditar, mas agora com quase dez ainda acha ser provável?
·         É claro que sim. É totalmente cabível. As suas sementes encontraram ótimas condições para brotar. Você fez cocô atrás da privada onde o terreno é mais propício para germinar qualquer semente, pois além da terra estar sempre bem adubada tem também a nascente de água que mantém o lugar permanentemente irrigado.
·         Deixa pra lá. Que tem a ver meu cocô com a sua correntinha?
·         Eu acreditei que a plantando enrolada numa semente de abacate, o abacateiro iria crescer e criar abacates cheios de correntes de ouro.
·         Então você plantou lá perto da privada ou na época não sabia ser lá o melhor lugar.
·         É claro que sabia. Acontece que exatamente por ser o local mais adubado estava cheio de plantas cultivadas e nativas, portanto não tinha espaço disponível para crescer o meu abacateiro. Procurei outro lugar e todo dia ia irrigar e olhar a germinação acontecer, mas por receito de pisar na plantinha quando começasse desenvolver acabei deixando de ir, pois sabia que demoraria a aparecer e como iniciaram as chuvas não precisava mais de eu regar.
·         Porque não pôs uma marca ou desenhou um mapa para não esquecer o lugar, seu tapado?
·         Fiz isso. Quando decidi deixá-la crescer fiz um novo buraco próximo e enterrei um grande galho que cortei de uma goiabeira e finquei fundo para marcar o local.
·         Só não pensou que o galho morreria, ficaria seco e o vovô o arrancaria de lá não foi?
·         Justamente isso é o que deve ter acontecido, pois depois de uns três meses procurei por todo o quintal o tal galho e nunca mais achei assim como perdi qualquer orientação que me indicasse onde nasceria meu abacateiro.
·         Que burrice. Só mesmo você. Sonhador maluco.
·         Não tenho certeza de ser mesmo meio biruta. Talvez até seja, mas sonhador lhe garanto que fui, sou e continuarei sendo.
·         Pois saiba que sonhos não se tornam realidade.
·         Porque não?
·         Por que só sonhamos o que pensamos, imaginamos ou vivemos quando acordados e nunca o inverso.
·         Peraí. Se o sonho de hoje só existirá com algo acontecido ou que imaginamos ontem, por exemplo, o que impede de acontecer amanhã o que sonhei hoje por ter sido o que imaginei ontem?
·         Tá difícil. Você é mesmo doido. Vive no mundo da lua ou no planetinha do pequeno príncipe? (Naquela época muitos meninos já liam ótimas obras clássicas da literatura universal).
·         Vamos resolver nosso assunto. Vai ajudar-me ou não?
·         Sinto muito, mas é claro que não. Ainda mais agora que diz-me estar enterrada em algum lugar do quintal que nem sabe onde é. Eu imaginava ser sobre a terra que já seria muito mais difícil que achar uma agulha no palheiro. Imagine estando enterrada. Terá de furar todo o terreno. Foi fundo o buraco?
·         Mais ou menos vinte centímetros.
·         Nunca conseguirá. Nem se todos nossos amigos vierem ajudar.
·         Não conte essa história para ninguém. Só nós sabemos.
·         Vai ficar com vergonha da besteira não é?
·         Concordo ter sido sandice, mas vou encontrá-la ou dar um jeito de conseguir outra para por no lugar antes do prazo.
·         Porque não tenta comprar uma. Será bem mais fácil que localizá-la no fundo do chão.
·         Já pensei e trabalhei para isso, mas não deu certo. Porque acha que fiz aquele montão de palavras cruzadas?
·         Para vender aos jornais de São Paulo e do Rio. Naquilo eu lhe apoiei, mas nessa não dá mesmo.
·         Era para conseguir dinheiro e cumprir meu juramento de por outra correntinha no lugar.
·         Que promessa mais besta. Porque teria a corrente de volta três anos depois?
·         Achei que seria tempo suficiente para o pé de abacate crescer e trazê-la de volta com outras junto é claro.
·         Quanta idiotice.
·         Até concordo em parte, mas acho mesmo que alguma deficiência na constituição do caroço é que não o deixou germinar por isso não brotou.
·         Ou foi você que o enforcou com a corrente?
·         Está bem. Na época eu era muito criança.
·         E agora não é mais?
·         É lógico que sim e serei sempre. Mesmo depois que fizer cento e trinta e cinco anos.
·         Quer viver tanto assim? A expectativa de vida dos brasileiros é de cinqüenta anos. Nem vamos ver a virada do século. Ainda bem, pois Nostradamus previu que em dois mil acabará o mundo e não quero estar lá para ver a destruição.
·         Besteira. Ele fez milhares de previsões em seu livro que foi muito questionado há mais de quatrocentos anos justamente por isso. A maioria delas só iria acontecer muito tempo depois de todos já estarem mortos e sem possibilidade de comprovação.
·         Quer dizer que acha que ele foi um charlatão?
·         Quem sou eu para dizer isso. Ele de fato foi um pensador brilhante e seus sonhos por terem sido muito futuristas deixou tais dúvidas, mas foi graças a eles que com o passar do tempo e o desenvolvimento advindo da evolução, os cientistas não precisaram sonhar inventos e sim fabricar os que ele já havia imaginado. Essa foi a maior contribuição que ele deixou. Eu o considero maravilhoso sim.
·         Mas você começou falando que era besteira sobre o final dos tempos.
·         Dentre suas adivinhações previu além de coisas que acabaram sendo criadas, milhares de catástrofes e guerras. Quem toma conhecimento e lê muito sobre o que está acontecendo pode presumir com grandes possibilidades de acertos para um futuro próximo, porém para longo tempo já é mais na coincidência mesmo, por isso inclusive várias de suas previsões não aconteceram.
·         O final do mundo em 2000 você não acredita?
·         Desejo que não aconteça por isso acho melhor não crer.
·         Porque acha que o imaginado para logo dá certo?
·         Todo o pessoal na rua não fica comentando que após terminar o exílio de Fidel Castro no México desde o ano passado ele voltará a invadir Cuba. Que com o suicídio de Getulio Vargas no mês passado pode desencadear aqui no Brasil uma série de...
Nada daquela conversa foi escrita, pois pode aparentar engodo porque a narrativa está sendo feita agora e tais presságios de fato aconteceram nos idos anos cinqüenta e sessenta e são de total conhecimento público, pois constam dos livros de história e na memória dos mais velhos. Entretanto posso afirmar que a conversa discorrida foi anterior aos acontecimentos, portanto legitimamente antevistos pelo menino.
·         Eu posso deixar escrito que dentro de duzentos anos Nova Iorque deixará de existir destruída por um terremoto. Sempre leio sobre essa possibilidade.
Aprendemos que as grandes potencias da antiguidade como Grécia, Roma, Índia, atualmente não tem mais nenhum poder, pois foram envelhecendo e em seu lugar hoje temos a França, a Inglaterra e a Alemanha. Não é difícil prever que daqui uns vinte anos com a plenitude dos paises em franco desenvolvimento como o Japão, Rússia e Estados Unidos estarão no topo, pois já estão quase páreo a páreo com os Europeus.
Passado mais uns cem anos começarão o declínio natural deles e se eu escrever para a posteridade que o Brasil ou a Austrália dominará o mundo posso acertar em cheio.
São paises novos e em crescimento, portanto qualquer um deles poderá chegar lá. Não é isso que quis dizer?
·         Exatamente. Vejo que entendeu completamente. Pode começar escrever o seu Centúrias Senhor Derleydamus.
·         Em conversas de adultos eu o entendo, mas em suas criancices é difícil. Esse papo começou justamente quando falou que era lógico que era criança e que continuaria sendo mesmo depois de fazer mais de cem anos. Para você continuar criança até sua morte terá de morrer logo e se viver muito como disse estará velho, portanto não será criança.
·         Percebo que as coisas simples são mesmo difíceis para você. Eu posso muito bem continuar passando o tempo cronológico como qualquer um, porém com espírito, pensamentos, amor e atitudes de criança.
·         Então será um adulto irresponsável.
·         Decidir e resolver as coisas de maneira simples, honesta e com felicidade é insensatez? Você estará me acompanhando e a eterna criança que tenho dentro de mim e com o tempo voltaremos a conversar sobre isso.
·         Infelizmente tenho que concordar que será sempre infantil. Vejo que nunca cresce mesmo. Já está com quase dez anos e continua acreditando em sonhos, contos de fada e anjos.
·         Você nem imagina o quanto já cresci. Pode perguntar ao meu anjo quão grande já estou.
·         Voltando ao assunto da corrente você vai mesmo cavar a terra toda?
·         Tem alguma idéia melhor?
·         Você pode economizar de sua mesada durante esses meses que faltam para o compromisso e comprar outra. Eu o ajudo com parte da minha mesada. Que acha?
·         Não dá. Já procurei saber o preço de uma nova e teria de juntar o dinheiro que papai me dá durante um ano inteiro, pois minha mesada só dá mesmo para as bolinhas, as figurinhas e a matinê de domingo.
·         Porque não juntou todo o dinheiro desde que começou receber mesada? Já faz três anos e com certeza já teria acumulado o suficiente.
·         Teria de me privar de tudo durante todo esse tempo? Simplesmente papai imaginaria que eu gastava tudo de uma vez e não daria mais e quando voltasse a dar-me novamente e eu nada comprando com o dinheiro iria aparentar o mesmo erro e tornaria um círculo vicioso. Eu nunca iria conseguir dinheiro para gastar e muito menos para guardar. Pensa que nunca pensei nisso? Não iria dar certo, mas mesmo assim eu tenho certeza que conseguirei nesses três meses que faltam.
·         Okey. Está de pé. Eu o ajudo dando parte da minha mesada nesses meses. Tá bom assim?
·         Nada disso. Além de você precisar de toda sua grana para a viagem sei que já aprendeu fumar, já bebe suas cervejas, joga snooker, namora e vai ao cinema à noite e não é justo você ficar sem parte de seu dinheiro por uma causa que eu é que tenho de resolver e não você, portanto agradeço seu oferecimento, mas não aceito. Obrigado mesmo.
                      Nada errado os garotos de doze anos fumar e beber naquele tempo, pois o machismo da época exigia que fossem orientados e ensinados pelos próprios pais ou mais velhos, que homem depois de deixar as calças curtas para usar as compridas deveria agir assim para ser considerado realmente macho. O adolescente que não aprendesse tais hábitos seria chamado de mariquinha pelos outros e era repreendido pelo pai, tio, avô, irmão mais velho e etc. Até as meninas não o namorariam. Fugiriam dele como o diabo da cruz.
                      Para esclarecer melhor direi que até a idade de sete anos toda criança era considerada ainda quase como bebês e tudo que tinha de direito era o que lhes era dado pelos pais.
A partir dos sete até dez anos os meninos eram tratados simplesmente como crianças e usavam somente calça curta. Eram educados exclusivamente para albafetisar-se no grupo escolar ou primário, mas já adquiriam um inicial direito unido a um dever.
Recebiam uma mesada para compra de balas, doces, picolés, figurinhas, bolas de gude e ingresso para a seção de cinema aos domingos à tarde. Sua obrigação era saber manipular tal importância, pois se descuidasse e deixasse acabar antes do tempo não ganharia nenhuma complementação e como castigo pelo erro ficaria sem a próxima.
Ao completarem onze anos e já terminado o primário eles iam para o ginásio e já começavam usar calças compridas. Tinham muitas outras permissões, que eram fumar, beber socialmente, passear na praça principal da cidade à noite, namorar e assistir seções noturnas de cinema quando os filmes não eram proibidos e freqüentar o clube social para festas e jogos recreativos até no máximo onze horas da noite. Recebiam o dinheiro condizente com essas permissões e algumas outras ainda não abertas, mas feito “vistas grossas” pelos pais e que era pagar à alguma biscatinha para copular as escondidas em cantos escuros da cidade e jogar snooker nos bares desde que sem apostas.
Ao completarem quinze anos os próprios pais bebiam e fumavam juntos deles abrindo totalmente todas as permissões de adultos, melhor dizendo, mostrando a exigência imposta.
Tal festa de quinze anos geralmente era feita nas casas de prostituição, pois a partir dessa idade até a obrigatoriedade de freqüentar prostíbulos os meninos teriam.
O clube da cidade também lhes abria as portas para sua presença aos bailes noturnos e além dos jogos recreativos de ping pong, damas, dominó e xadrez já permitidos podiam freqüentar as mesas de jogos de azar e apostado como buraco, pif-paf e snooker.
A já referida ajuda de custo ofertada pelo pai ou responsável era bem maior para tais novas despesas.
A partir dos dezoito anos e conseqüente maioridade os meninos já tinham comprometimento de manterem-se por conta própria.
Iniciavam profissionalmente em alguma atividade da cidade como barbeiros ou alfaiates. Trabalhavam nos armazéns, açougues, padarias, bares, farmácias ou na única fábrica de tecidos que lá existia. Os pais que tivessem algum comercio os colocariam como seus sócios na atividade, abrindo uma filial ou trabalhando juntos.
Os que estudavam faculdade em cidades maiores ainda continuavam mantidos financeiramente pelo pai até se formarem.
Tal tradição vinda de várias gerações continuou por muito tempo. Todas as famílias da cidade portavam-se da mesma maneira empregando tais preceitos.
                      Terminado os esclarecimentos continuemos com a conversa dos irmãos:
  • Se puder ajudá-lo como propus ou de outra forma conte comigo, mas furar todo o quintal da vovó nada feito. Sinto muito.
  • Tudo bem. Então fica segredo nosso. Não fale nada a ninguém durante os próximos noventa dias.
  • E depois posso falar?
  • É claro, pois já terei outra corrente e você pode até contar toda a história.
  • Que jeito vai arrumar outra?
  • Ainda não sei, mas vou.
  • Pare de sonhar e esqueça isso.
  • Jamais pararei de sonhar.
  • É doidinho mesmo.
---x---
                      Landinho teria necessidade de passar o dia inteiro durante longo tempo na casa dos avós e ficou imaginando como justificar à mãe sobre suas grandes ausências em casa e ao avô o porquê de furar a terra em seu quintal.
Pensou durante boa parte daquela manhã em como resolver esse problema inicial, até que chegou a conclusão ser muito fácil. Conversou rápido com a mãe em casa e com o avô na leiteria que ele tinha anexo a sua residência e se explicou com absoluto sucesso.
Contornada tal dificuldade, brincou o restante do dia e logo após o jantar foi dormir, pois a partir da próxima manhã deveria acordar muito cedo.
                      Na manhã seguinte foi ele para iniciar sua árdua tarefa com o sol nascendo na casa dos avós.
                      Fazia apenas cinco dias que Landinho furava o chão do quintal do avô quando aparentemente cansado ou desanimado sentou-se e ficou a pensar após o lanche das quatro horas.
Refletiu durante meia hora e levantou-se, pois precisou usar a privada e próximo a ela encontrou-se com seu pai que cavoucava a terra próxima a esse local, por ser o mais adubado e irrigado, a cata de minhocas para pescar.
Imediatamente o menino prontificou-se em fazer o trabalho para o pai que perguntou-lhe:
  • O que está fazendo? Está em férias e imaginei-o brincando com a meninada na praça. Sua mãe sabe que está aqui?
  • Estou furando a terra e mamãe deu-me autorização para vir todos os dias durante as férias.
  • Para que?
  • Para cavar a terra.
  • Mas por quê? O que está procurando?
  • Estou procurando ouro.
  • Deixa de tolice meu filho. Ouro só se encontra em minas.
  • E nós não estamos em Minas?
  • Engraçadinho. Qual o verdadeiro motivo de estar todo sujo mexendo na terra?
                      Uma das mais exigidas atitudes das crianças era não mentir. Landinho tentou ser verdadeiro nas respostas iniciais, mas agora estava num beco sem saída, pois percebeu que o pai estava sério e bravo e tinha de responder rápido.
É certo que se contasse a verdade ao pai seria imediatamente perdoado da promessa que com certeza ele nem se lembrava mais e até lhe daria outra corrente de ouro se o seu desejo era ter outra. Entretanto a promessa feita era para ser cumprida, pois fora a ele próprio que havia feito, embora tivesse dito aos familiares.
Era um compromisso sério que ele tinha consigo mesmo. Teria de concluí-lo a qualquer custo por isso não teve alternativa. Teve de mentir.
Mentiu por uma causa justa, se é que existam motivos importantes que justifiquem alguma falsidade. Na necessidade urgente da resposta raciocinou ser preferível a inverdade e não titubeou. Respondeu ao pai de maneira rápida e convincente.
  • Estou mexendo a terra, pois desejo fazer uma horta de legumes e verduras para vender para toda a cidade.
  • Para que precisa de mais dinheiro além do que já lhe dou? É só falar e se for para uma causa lícita eu aumento sua mesada. Aprendeu alguma coisa que ainda não devia por não estar na idade?
                      Com certeza o pai pensava que ele teria aprendido fumar ou alguma outra coisa fora de seu tempo.  Precisava saber para impedi-lo de continuar errando.
  • Pelo prazer de conseguir dinheiro por meu próprio esforço para comprar uma coisa que eu não tenho.
                       Resposta que deixou o adulto sem ação, pois se lembrou da anterior tentativa de conseguir dinheiro pelo envio das palavras cruzadas que ele havia auxiliado na redação das cartas às editoras e postado nos correios poucos meses antes. O motivo na época ficou sabendo pela mãe do menino ter sido exatamente o mesmo.
  • Você crescerá na vida e pensando como pensa não demorará muito. Tenho certeza disso. (O pai imaginou-o ainda jovem um grande milionário)
  • Papai. Acabei de ter uma idéia que mudou meus planos.
  • O que foi?
  • Ao invés de fazer o que pretendia eu cavo a terra e arranco minhocas para vender aos seus amigos que como o senhor vão toda noite pescar. Terei fregueses certos e todos os dias, pois as iscas deverão estar sempre vivas, portanto ninguém guardará sobras para o dia seguinte. Será um trabalho muito mais rápido, pois não precisarei trabalhar o dia inteiro. Só as tardes. O que acha?
  • Nada mal. (Falou o pai já disposto a guardar seu enxadão).
  • Quanto o senhor acha que vale uma latinha de massa de tomate, das pequenas, cheia de minhocas inteiras e gordas?
  • Tal importância. E aqui já tem o dinheiro de minha lata.
  • Nada disso. O senhor não paga. Só terá como os outros de sempre fornecer a latinha, pois se todos os dias as jogar fora terei de ficar vasculhando lixos para encontrá-las e além de ser um serviço desnecessário tomará meu tempo pela manhã. Está combinado assim?
  • Não concordo. Para mim também terá de ser cobrado igual à todo mundo. Negócios a parte.
  • Seu pagamento será a percentagem de sua participação na sociedade que será arrumar-me fregueses. Terá de convencer seus amigos que lhes será muito mais interessante comprar-me as iscas do que eles próprios terem de procurar lugar para arrancá-las que geralmente é difícil conseguir. Não tem ninguém na cidade que tem um quintal estercado e com nascente de água como o vovô. Aqui a proliferação delas é enorme e para mim será fácil consegui-las além de serem de muito melhor qualidade que as encontradas em terrenos secos nos seus próprios quintais.
  • Feito. Só na Repartição que trabalho tenha certeza que já tem nove fregueses a partir de amanhã, pois hoje todos já devem estar se virando.
  • Mas não ficará somente nesses nove não é?
  • É claro. Depois que conversar com todos os pescadores que conheço conseguirá tranquilamente uns trinta compradores. Nos finais de semana como todo mundo pesca o dia inteiro você fornecerá para cada um, duas ou mais latinhas e ganhará bem mais.
  • Negócio fechado?
  • Está. Então aceite o pagamento de hoje, pois ainda não comecei fazer minha parte.
  • Tudo bem. Irá logo para o cofrinho.
                      Terminada a conversa o menino sentiu-se infinitamente pequeno. Menor e inferior a um verme.
Viu-se rastejando naquele chão lamacento e uma enorme minhoca sem piedade aproximando-se ameaçadora.
Rapidamente encostou-se em seu pai para proteger-se e esse julgando que o menino pedia carinho afagou-o com um forte abraço.
Saindo de imediato do transe Landinho tateou-se dos pés a cabeça e viu que não estava enorme como já se sentia, mas também nem pequeno como instantes atrás. Estava exatamente no tamanho físico que realmente tinha.
O pai viu os trejeitos do filho, mas sabedor de suas esquisitices deu de ombros e afastou-se quando foi chamado pelo menino.
  • Papai. Tenho um compromisso com o senhor.
  • O que é?
  • Por enquanto é um segredo só meu que durará mais um mês.
  • Se é segredo só seu então porque me fala?
  • Não vou contá-lo é claro, mas agora lhe farei uma promessa que é necessária.
  • Que juramento é esse?
  • É que lhe contarei meu segredo no dia em que Derley voltar das férias.
(Tal segredo seria a confissão de sua mentira, sua explicação ao fato e o devido pedido de desculpas. Ele já tinha se perdoado e apos um mês seu pai também lhe perdoaria, ou lhe determinaria algum castigo para se redimir).
  • Então aguardarei. Ele viaja amanhã cedo. Não deixe de despedir dele.
  • Pode deixar que não esquecerei. Abençoa?
  • Deus lhe abençoe.
                      Nesse exato momento o menino sentiu ter voltado quase a grandeza que já tinha adquirido há algum tempo.
---x---
                      Ao anoitecer pediu permissão à mãe para dormir na casa dos avós paternos e ela não queria permitir, pois o irmão mais velho iria tomar o trem para viajar bem cedo na manhã seguinte para a casa de seus pais. Eles só se veriam pela manhã porque Derlei já tinha saído para passear e só voltaria as onze horas que era seu horário permitido e o menor já estaria dormindo.
A ida para a casa do avô tinha motivo predeterminado e ele prometeu acordar bem cedo e retornar a sua casa para os desejos de boa viagem ao irmão. Conseguiu a autorização e foi.
Conversou com o avô dizendo-lhe que não precisaria mais cavoucar no local onde já mexera bastante a terra, pois a partir desse mesmo dia iria somente pegar minhocas próximo a mina d’água conforme combinado com o pai.
Contou ao avô sobre o acordo dos dois e propôs que ele ficasse com o terreno onde já tinha sido bastante remexido para fazer uma horta de legumes e verduras para vendê-las. Prometeu inclusive ajudá-lo no trabalho, pois tal plano recém criado se concretizado talvez amenizasse um pouco a mentira anteriormente inventada sobre a tal horta, pois em ela se tornando concreta deixaria de ser uma grande mentira, transformando-se em uma verdade apenas modificada sobre os donos da horta.
O velho gostou da idéia e aceitou inclusive o auxilio de apenas uma hora diária e em troca presenteou-o com uma bonita caneta com reservatório de tinta interno do modelo Park 51, pois só faltava o quarto ano para terminar o primário e no ginásio teria de abandonar a caneta de pena de molhar no tinteiro que não seria mais permitida. O avô já tinha presenteado o neto mais velho, um ano antes quando este tinha ingressado no secundário.
Landinho recebeu a sua com um ano de antecedência além de ser de um modelo melhor, pois o irmão ganhara uma Park 21 de qualidade inferior.
Ambos ficaram satisfeitos com o negócio realizado e após o menino comer o mingau de fubá que a avó fez foi dormir sem esperar como sempre pela enorme panela de pipocas.
A doação da caneta pelo avô paterno com um ano de antecedência proporcionou ao menino um presente realmente muito maior, pois no ano seguinte o outro avô imaginando que Landinho não ganhara nenhuma caneta tinteiro para usar no ginásio, presenteou-o com uma antiqüíssima que ele guardava desde que viera jovem da Europa. Ela é linda e provavelmente muito valiosa, pois fora confeccionada recoberta com uma grossa camada de ouro, toda trabalhada com relevos maravilhosos em um formato completamente diferente das demais canetas fabricadas na época que eram arredondadas.
O menino e a mãe tentaram recusar o presente, pois tratava de um objeto de estimação do velho que inclusive sequer sabia a origem da mesma.
Landinho não teria necessidade dela, mas não houve meios da mãe e o filho convencerem o italiano de recebê-la de volta. Exigiu que ele ficasse com ela e por isso Landinho tomou posse dela e durante muitos anos de sua vida usou-a orgulhoso por ser possuidor de tal relíquia que chamava a atenção de professores, colegas e colecionadores que insistiam em comprá-la.
Já adulto e com a caneta danificada guardou-a a sete chaves na casa dos pais.
Sua irmã mais nova que na época da doação era ainda um bebê nada ficou sabendo sobre a história da caneta e julgando que ela fosse propriedade do pai, pegou-a para si para guardar de recordação do mesmo por ocasião de seu falecimento. Ela a mantem guardada para essa finalidade e talvez jamais saiba que seu pai nunca foi possuidor de tal objeto que nunca sequer viu.
---x---
                      No dia seguinte Landinho despediu-se do irmão.
Acompanhando-o a estação ferroviária e prometeu fazer-lhe uma grandiosa surpresa em seu regresso.
Embora Derlei insistisse em querer saber do que se tratava não conseguiu nada do menino que não tendo ainda nem começado seu trabalho deixou-o sem maiores explicações. Só adiantou que conseguiria sua corrente em menos de um mês com absoluta certeza e não mais nos três inicialmente imaginado e com possibilidade de até não dar certo mesmo.
Garantiu-lhe um enorme presente em seu retorno.
Essa conversa entre eles foi rápida.
  • O que você está insinuando Landinho?
  • Não estou insinuando nada. Estou prometendo e garantindo.
  • Mas o que é?
  • Só saberá quando voltar.
  • A única coisa que pode ter acontecido é você já ter achado sua corrente suja e quebrada.
  • Ainda não a achei. Mas a terei em breve e não será suja, nem quebrada. Será nova.
  • Ganhou na loteria federal um bilhete inteiro?
  • Nada disso.
  • Então o que foi? Encontrou o abacateiro com abacates cheios de correntes de ouro?
  • Ainda não. Breve encontrarei.
  • Deixe de besteiras. Está sonhando acordado como sempre.
  • É claro.
  • O trem apitou dando sinal que está chegando. Tchau.
  • Boa viagem e boas férias.
  • Avise a rapaziada que voltarei em trinta dias.
  • Pode deixar e dê um beijo no pessoal de lá.
---x---
                       Passado um mês Derley retornou da viagem e após o almoço Landinho que já tinha sua corrente comprada reuniu a família exibindo-a vitorioso pendurada no pescoço, e para a surpresa de todos presenteou-os naquele início de janeiro.
A mãe ganhou um jogo de cristal para sucos composto de uma jarra e seis copos.
O pai foi presenteado com uma bonita cigarreira com isqueiro acoplado.
A irmã caçula recebeu uma linda boneca de pano, pois era ainda uma criancinha de menos de três anos e não poderia correr riscos de machucar-se com um brinquedo que quebrasse.
A outra irmã apenas um ano mais nova que ele também ganhou uma boneca, mas essa era moderna, grande e de louca que piscava os olhos e falava mamãe.
Dirigiu-se ao pai na presença da família reunida, pois em alto e bom som havia solicitado a presença de todos.
Contou a história sobre a perda da correntinha de forma rápida, mas necessária para chegar ao ponto em que mentiu a ele. Esse era o segredo que deveria confessar nesse dia.
O pai repreendeu-o pela mentira embora a mãe insistisse que deveria perdoá-lo.
Foram em vão suas súplicas, pois o bom, porém enérgico e zeloso pai fez cumprir sua responsabilidade de orientador.
Ele percebera pela exigência do menino a presença dos irmãos exatamente para ele não amolecer em sua atitude e perdoá-lo, pois perderia a autoridade dali para frente.
A audácia e ousadia da criança o fez sentir orgulhoso do filho, por isso aplicou o castigo que imaginou ter sido o decretado pelo próprio menino.
Não pensou muito para anunciar a punição adequada. Ele teria permissão plena para brincar e passear, mas ficaria duas semanas inteiras sem ganhar uma única moeda de mesada.
A mãe questionou o corretivo, pois o julgou excessivamente rude. Bastaria um castigo de não sair para brincar um dia ou no máximo dois. Afinal o menino não tinha mais sete anos. Estava muito próximo de completar os dez e ficar longo tempo sem um mísero centavo era muito rude.
O pai insensível respondeu “Pena dada, punição cumprida e não se fala mais no assunto”.
                       O astuto pai com certeza mais tarde contou à esposa que a repreensão não fora nada exagerada conforme parecia, pois o menino após exibir a corrente e presenteá-los daquela maneira com seu próprio dinheiro com certeza teria mais e não passaria necessidade de nada. Qualquer outra punição por menor que fosse seria maior que a dada.
                       Landinho recebeu o corretivo feliz. Percebeu que cresceu mais um pouquinho além do esperado.
Dirigiu-se ao irmão mais velho dizendo:
  • Para você será uma surpresa muito maior, mas não está embrulhada como a deles.
  • Como assim? O que é?
  • Vamos ao jardim ou ao nosso quarto para conversarmos. É só entre nós.
                       Foram para o dormitório e lá chegando veio a pergunta:
  • O que encontrou? Algum tesouro enterrado?
  • Exatamente.
  • Landinho. Minha pergunta foi besta demais. Só lhe deu motivos para vir com suas histórias malucas. Fale logo como conseguiu tanto dinheiro em tão pouco tempo.
  • Começou naquele dia que... (Toda a história foi contada).
  • Daí você ganhou essa grana preta.
  • É, mas não sobrou nenhum para comprar uma lembrança para você.
·         Não tem importância. Só de vê-lo tão contente como está já é um grande presente que ganhei. Realmente a surpresa que me fez foi enorme. Pena que nas próximas duas semanas vai ficar duro e eu não posso ajudá-lo, pois minha mesada ficou comprometida com um adiantamento que fiz com vovô para a viagem.
·         Não tem problema nenhum, pois ganhei muito mais do que merecia. Mas nada disse ainda sobre seu presente.
·         Tem mais?
·         É a posse de meu pé de abacates que me levou às minhocas dos ovos de ouro, sem risco de nenhum gigante amedrontar ninguém.
·         Sua mão está que é calo só.
·         Foi o preço que paguei, mas antes de terminar as férias já estará lisinha de novo.
·         Vai dar-me emprego na sua fábrica de minhocas? Esse trabalho eu topo, pois vi que em apenas um mês ganhou muita grana.
·         Não irei dar-lhe emprego. Irei doar-lhe a mina.
·         Como assim?
·         Eu não preciso de mais dinheiro nenhum, pois o que precisava era apenas para comprar a correntinha e ganhei muito mais e por isso fiz questão de gastar com minha família porque eu não tinha mais nenhuma necessidade.
·         Mas pode juntá-lo.
·         Para que?
·         Para ter bastante.
·         Quando eu precisar de outra coisa que exija dinheiro darei outro jeito de consegui-lo. Essa forma que encontrei já resolveu minha necessidade atual.
·         Então eu só terei de arrancar as minhocas com o enxadão para entregá-las aos pescadores?
·         Sim. Algum problema? Você vive sempre precisando e querendo dinheiro. Essa é uma forma muito fácil. Será tudo seu o que vender a partir de hoje.
·         Arrancar as iscas não será difícil, mas entregar na rua com todo mundo vendo não vai dar.
·         Por quê?
·         Porque vou ter vergonha.
·         De que? De ser visto trabalhando?
                      Resultado final da conversa. Derley não topou dar continuidade ao lucrativo serviço.
O menino sentiu-se na obrigação de executar o trabalho nessa tarde para não prejudicar seus fregueses e nesse dia ainda molestou pela última vez os vermes da terra que finalmente ficaram em paz na casa de seu avô.
                      Todos os pescadores pagaram pela compra efetuada e vários deles gratificaram com boas gorjetas ao menino que durante um mês poupou-lhes tal incomodo.
---x---
                      Naquela noite Landinho ficou sem dormir cedo esperando o irmão chegar e conversaram até altas horas após entregar-lhe um envelope contendo dinheiro como seu atrasado presente para espanto do mesmo que não quis aceitar.
  • Onde arrumou mais?
  • Durante a tarde eu fiz a última entrega.
  • Então é seu.
  • É bem mais do que eu preciso para minhas próximas duas semanas, portanto você poderá pagar vovô e não ficará sem sua mesada.
  • Deixa disso.
  • Se não aceitar, vou comprar-lhe algumas gravatas ou uma camisa para você. O que prefere?
  • Já que vai desfazer da grana de qualquer jeito então aceito. Obrigado.
Você dá muita sorte. Tudo que precisa cai do céu?
  • Não tenha dúvidas que tenho uma ajuda lá, mas não cai fácil não. Eu puxo para trazer e preciso fazer muita força. Os calos você já viu.
  • Você nasceu com o traseiro virado pra lua. Não foi pura sorte você ter suas palavras cruzadas sendo usadas no grupo, ao invés de levar um tremendo castigo por ter entregado para os colegas fazerem na aula de história?
  • Claro que não. Eu sabia que Dona Maria não me daria importância se solicitasse permissão dela para usar as palavras cruzadas na aula de português. Se eu tivesse tentado assim correria o risco até de ter meus cadernos rasgados por ela que era muito ignorante.
Também não podia fugir a hierarquia levando-os a diretora para examiná-los que mandaria que eu procurasse pela professora.
O que eu podia fazer a não ser bolar aquele plano? Todos ficamos sabendo que foi a Dona Ernestina quem gostou e mandou que Dona Maria examinasse e fizesse cópias para serem usadas.
Durante esse ano ainda continuarei fazendo para auxiliar meus colegas.
  • Tinha combinado com seus amigos tal idéia?
  • É claro que eles não iriam topar se soubessem.
  • Como conseguiu convencê-los?
  • Muito fácil. Escolhi exatamente os melhores, mais inteligentes e aplicados entre meus colegas.
Tinha certeza que não fugiriam a um grande desafio justamente por serem ótimos em tudo que fazem. Portanto propus-lhes levar no outro dia duas frutas para eles para cada palavra cruzada fechada corretamente.
  • Mas não teriam de sacrificar a aula toda?
  • Sim. Até serem descobertos para tudo dar certo conforme planejei. Por isso escolhi a aula de história que não tem necessidade de pensar e raciocinar como em outras. Eles por serem muito estudiosos, em casa leriam em seus livros sobre a matéria e com certeza a decorariam com facilidade recuperando-se com rapidez. Não havia como eles recusarem.
  • Você deu-lhes as frutas.
  • Claro que sim. Levei-as em dobro.
  • E o fato de ficar querido na escola toda?
  • Foi apenas conseqüência de tudo que aconteceu depois.
  • De Dona Maria ter ficado boazinha?
  • Isso foi obra de meu anjinho que sabendo que eu aprovaria a idéia deve ter negociado com o dela para ajudá-la. Nesse caso foram eles quem executaram seus planos.
  • Bem pensado, mas como você sabia que iria modificar a megera fazendo o que fez?
  • Não foi essa a intenção. Meu desejo era conseguir dela uma força com seu parente em São Paulo, para ele comprar minhas palavras cruzadas. Coisa que infelizmente não deu certo.
  • E a caneta que ganhou do vovô?
  • Foi o resultado de eu ter-lhe dado a idéia da horta. Claro que não fiz com intenção de lucrar nada, mas como já tinha revolvido a terra de um grande lugar não seria correto deixá-la abandonada. Tal idéia amenizava um pouco a mentira dita ao papai e também proporcionaria ao vovô João lucrar com a venda dos legumes e das verduras que plantamos. Ele ficou contente e acabou dando-me a caneta com um ano de antecedência.
  • E a caneta de ouro de nosso outro avô?
  • Pois é. O vovô italiano fez confusão achando que eu já ia entrar no ginásio e pensando que eu ainda não tinha nenhuma, deu-me a de ouro.
  • Não devia ter aceitado.
  • Tanto eu como mamãe fizemos de tudo para não aceitar, mas não houve jeito. Ele exigiu que eu recebesse como lembrança dele.
  • Qual a historia para o caso das minhocas? Pelo que soube você foi fazer cocô e teve a sorte de encontrar papai cavando suas iscas e aconteceu o milagre.
·         Tudo errado. Eu estava furando a terra depois do almoço e por volta de quatro horas parei para pensar e concluí que vendendo minhocas aos amigos de papai ganharia o dinheiro para comprar a correntinha, por isso fui ao banheiro propositadamente na hora em que ele estaria lá, já de caso pensado para fazer o que fiz. Simplesmente deu tudo certo conforme eu planejara.
·         Pelo tanto que ganhou com certeza só nos primeiros dez dias já tinha dinheiro para comprá-la. Porque continuou?
·         Porque não queria perder a freguesia para passá-la para você. Tinha de mantê-la até sua volta. Como você não quis assumir o trabalho fiz a última entrega e antes de qualquer outra pergunta saiba que tal atitude me fez conseguir o dinheiro para suprir minhas próximas duas mesadas. O lucro das gorjeias não era esperado. Foi uma ajuda extra de minha criança adorada com certeza com a finalidade de presenteá-lo e resolver também o seu dilema.
·         Se você planejou tudo então mentiu para mamãe, vovô e papai premeditadamente? Acha certo o que fez?
·         Não foi nada disso. Para conseguir a permissão de mamãe para passar o dia inteiro lá no quintal de vovô bastou simplesmente informá-la que estava em férias e solicitar-lhe passá-las na casa dele. Apenas isso. Sem nenhuma outra explicação. Coisa que já é usual nos fins de semanas e feriados, pois lá tem muitas frutas, cachorros para brincar, arvores para subir, além de muitos amigos que moram próximos. Muitos deles moram na pracinha do CORE, e eu sabia que ela pensaria serem esses os motivos e não iria negar. Consegui sua autorização sem dificuldade e sem mentira nenhuma.
Para o vovô não criar problema de furar o quintal, simplesmente falei que ia procurar ouro e ele como já foi garimpeiro simplesmente acreditou e até ficou rindo sem falar nada. Concordou rápido com um sinal de cabeça.
Não sei se ele achou que procurar ouro em sua terra foi uma brilhante idéia ou se julgou uma tremenda idiotice, mas que falei a pura verdade não tenho dúvidas. Eu estava mesmo atrás de minha correntinha de ouro.
Com papai pensei que passaria batido a mesma resposta, mas me dei mal e até tentei ser engraçado com ele.
Ele não acreditou e me apertou de tal forma que tive de mentir. Mas isso já foi resolvido e estou em paz novamente com ele, comigo e com meu anjo protetor.
  • Acho que vou voltar a acreditar no Papai Noel, no Gênio da lâmpada e na Fada com sua varinha mágica para me dar bem como você.
  • Deixe de ser infantil Derley. Esses são apenas as sementes que germinam e crescem na cabeça das criancinhas de tenra idade para depois dentro de cada uma transformar em arvores robustas e bem enraizadas para os adultos usufruírem de seus frutos.
  • Como se faz isso?
  • Nunca soube?
  • Acho que agora já é tarde. Há muito tempo tais brotos já devem ter morrido dentro de mim não é?  Exatamente quando resolvi deixar de ser criança.
  • Dedução errada.
  • Ainda dará tempo de conseguir?
  • É claro. Sempre dá. Basta querer.
  • O que devo fazer?
  • Muito pouco. Apenas voltar a agir e pensar como criança.
  • Então você vai ser eternamente criança? Não vai crescer, namorar, formar em alguma profissão, casar e tudo o mais?
  • É claro que sim. O que me impede de continuar pensando como criança e fazer as coisas inerentes a minha idade cronológica?
  • Seu anãozinho interno.
  • Está redondamente enganado. Ele vai é continuar me auxiliando como sempre fez.
·         Como ele se chama?
·         Eu o apelidei de anjo ou criança, mas ele atende por qualquer nome que queira chamá-lo. Pode ser anãozinho mesmo ou Consciência, Amor, Integridade, Juízo, Razão, Caráter, Honradez, Honestidade, Solidariedade, Humildade, Idoneidade, Maturidade, Retidão, Humanidade, Prudência, Respeito, Inteligência, Sensatez, etc. etc. etc.
  • Não deu para eu entender muito. Tchau. Vou tomar banho que já está amanhecendo e irei ao padrinho Arlindo cuidar de um dente e no alfaiate Jura, mas à noite não sairei para conversarmos mais. Quero que minha vida se torne doce como a sua.
  • Será fácil. Basta conversar seriamente com seu anjinho antes de fazer qualquer coisa que com certeza ele lhe ajudará encontrar a melhor maneira de executá-la.
  • Obrigado.
  • Mas não vai dormir pelo menos pela manhã?
  • Não. Tenho muitos assuntos para resolver.
  • Então desculpe por mantê-lo acordado a noite toda.
  • Não foi uma noite sem dormir por besteiras. Muito pelo contrário. Foi muito proveitosa.                      
                      Landinho só acordou no horário do almoço, e confirmou com Derley o retorno à conversa deles a noite para saber sobre as férias dele, mas o irmão mais velho não cumpriu o pacto, pois seu passeio noturno foi mais importante.
---x---
                       O menino ficou meio inquieto com a falta de compromisso do irmão, porém refletindo concluiu o óbvio.
Era notório que Derley após regressar da viagem de férias teria muitas coisas a contar aos amigos. Com certeza encontraria também o pessoal vindo das faculdades de outras cidades e teriam novidades a trocarem.
Muitas meninas de fora teriam chegado em férias e seriam um prato cheio para fazer amizade ou namorar e tudo isso o segurou até seu horário normal de retorno por isso não apareceu.
Substituiu em seus pensamentos a falta de compromisso do irmão, por vários motivos mais importantes a ele, portanto achou-o correto não ter vindo mais cedo. 
Sua ligeira agitação desapareceu rapidamente permanecendo nele o desígnio de nunca sofrer nenhum tipo de aflição ou desgosto e dormiu tranqüilo.
Pela manhã acordaram ao mesmo horário e trocaram uma rápida conversa, com Derley se desculpando.
  • Falhei com você não foi?
  • Tudo bem. Eu sei que teve muitos motivos para ficar na praça. (Comentou os possíveis pretextos).
  • Você não tem jeito mesmo. Para tudo vê o lado bom.
  • Estou errado?
  • É claro que não. Você é um perfeito otimista. Só pensa e deseja coisas boas.
  • Lembra-se daquela história dos irmãos gêmeos que ganharam presentes diferentes do pai no dia do aniversário?
  • Sei o menino pessimista ganhou uma bicicleta e ficou reclamando que iria cair e quebrar um braço ou uma perna ou a própria cabeça, etc. e não gostou do presente. O otimista ganhou uma latinha com fezes de cavalo e saiu correndo gritando: Cadê meu cavalo? Cadê meu cavalo?
  • Na história não diz que ele pensou e desejou ganhar um cavalo. Ele saiu correndo em busca de seu cavalo. Ele determinou que de fato ganhara o animal e foi a sua procura. Com certeza esse menino algum dia em algum lugar realmente achou seu cavalo.
  • Isso é apenas uma piada.
  • Não é piada. É uma fábula séria que não é contada com a devida importância que ela merece.
  • Está certo. Ele correu atrás.
  • Sei que usou essa expressão para dizer que ele correu em busca. Não gosto de usar a expressão correr atrás, pois por mais que se corra, correndo atrás só conseguirá no máximo ser o segundo colocado. Jamais o primeiro.
  • Está bem. Vou correr em busca de meu perdão. Está muito aborrecido comigo por ontem eu não ter vindo cedo para conversarmos?
  • Lógico que não.
  • Então estou desculpado e por isso vou deixar você ler primeiro que eu, todos esses livros que Coutinho trouxe da capital e emprestou-me. Têm Poe, Balzac, Leon Tolstoi e outros. Só clássicos da literatura universal.
  • Ótimo. Obrigado.
                      Quem se esqueceu da conversa entre eles foi Landinho, pois passou os próximos cinco dias deliciando-se com os contos de mistério e terror de Poe e os maravilhosos romances dos outros escritores.
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                       Por descuido Derley reprovou na primeira e na segunda série do ginásio e com isso acabou por ser colega de classe do caçula no segundo ano ginasial. Nessa época a amizade deles por estarem o dia todo praticamente juntos, não só nas atividades escolares como nos esportes e nas brincadeiras tornou-se muito mais próxima e por esse motivo o mais velho sempre questionava a imaginada imaturidade de Landinho aconselhando-o.
  • Você já tem mais de doze anos e ainda brinca de super-homem?
  • Quem lhe disse isso?
  • Foi nosso primo. O “Ditão” contou-me que viu você brincando com meninos de oito ou nove anos saltando com uma capa tentando voar.
  • Para os meninos pequenos realmente era brincadeira, mas para mim não.
  • O que?
  • Eu estou realmente tentando voar.
  • Está louco?
  • Não.
  • Como pode? Você vai se arrebentar no chão e se ferir. Ninguém é capaz de voar.
  • Primeiro que eu não sou burro. Eu estava saltando de uma altura de apenas dois metros nos fundos do hotel do pai do Manoelzinho. Antes colocamos vários colchões velhos no chão, portanto não havia riscos nem para mim nem para as crianças.
  • Não vai conseguir voar. Isso é impossível.
  • Você se lembra que um dia disse-me que a gente só sonha o que faz ou deseja enquanto acordado.
  • Sim. Isso é um fato.
  • Lembra-se também que eu comentei que no sonho que foi desejo anterior pode-se conseguir a forma de fazer no dia posterior o que no antes fora apenas pensamento?
  • E daí?
  • Daí que em quase todas as noites eu vôo. É a sensação mais maravilhosa que já senti. É simplesmente delicioso planar. Durante o dia venho tentando fazer o que faço nos sonhos, pois acredito que ainda conseguirei voar alto que é minha maior aspiração.
  • Não tem jeito mesmo com você.
Mudando de assunto eu sei que você está apaixonado pela Vermelha desde os tempos do primário não é?
  • Gosto demais dela.
  • Porque não namora ela.
  • Taí uma coisa que não tenho coragem. Sou muito tímido para falar com ela sobre isso.
  • Não é acanhamento. Você conversa e é bem desinibido com todo mundo nos estudos, nas brincadeiras e nas conversas sérias. Você tem é medo de ouvir um não.
  • Os “nãos” não me preocupam, pois ajudam a nos aperfeiçoarmos e crescer em todos os sentidos. Tenho é receio de perder a amizade dela.
  • Eu acho que é sua mania de fazer tudo dar certo e receber um não de uma garota está fora de suas decisões, por isso a sua tal enorme aparente timidez.
  • Realmente está enganado.
  • De qualquer forma vou dar-lhe uns conselhos, pois nisso sou muito melhor que você. Procure tratá-la com o mesmo respeito que já trata, mas faça-lhe a corte devagar, já que tem medo de encará-la na cara dura.
  • Como assim?
  • De vez em quando traga-lhe frutas do quintal da vovó que com certeza ela irá gostar e querendo ganhar mais ela não vai querer correr o risco de negando-lhe o namoro você parar de agradá-la.
  • Isso me parece suborno.
  • Nada disso. Será gentileza sua oferecer-lhe tal agrado. Você não imporá condição nenhuma ao dar-lhe as frutas. Estará apenas se portando como cavalheiro e não como corruptor. Suas conversas deverão mudar de rumo e deixarão de ser só assuntos escolares e aos poucos ela irá se sentindo atraída por você e daí ficará fácil conquistá-la.
  • Interessante. Faz sentido. Vou pensar no assunto.
                      No outro dia o menino chegou ao ginásio com duas maravilhosas mangas e duas enormes mexericas, pois com certeza seu amigo interno aconselhou-o aceitar a idéia do irmão por se tratar de fato honesto, discreto e realmente audacioso, com real possibilidade de funcionar.
                      Próximo ao intervalo das aulas ele estava distraído pensando em como fazer para oferecer as frutas a sua paixão platônica quando ouviu junto ao seu ouvido em tom carinhoso e ardente a própria menina perguntando:
  • Para quem são essas deliciosas frutas?
  • São para a professora.
                      Essa foi a irrefletida resposta que saiu da boca de Landinho direto de sua medula espinhal e não do cérebro. Puro impulso totalmente descabido que deixou seu irmão e seu anjo atônitos, pois ambos presenciaram tal absurdo sem nenhuma possibilidade de interferência.
A menina saiu para o recreio assim de terminou a aula, e Landinho entregou as frutas conforme dito a professora de inglês, Dona Sheila.
                      No intervalo Derley criticou o irmão pela maravilhosa chance perdida e por presentear a mais emburrada e exigente das professoras do ginásio.
Era a única que não adotara os métodos carinhosos da velha Dona Maria do grupo escolar.
Era irritadiça, mal humorada, muito severa e a mais exigente das professoras do secundário.
Noventa por cento das reprovações dos alunos eram em inglês.
                      Reuniões entre pais e mestres aconteciam constantemente na tentativa de mudar-se o quadro que era um circulo vicioso. Os alunos não gostavam da mestra e por isso não se esforçavam em sua matéria e ela por vê-los alheios ao Inglês reprovava-os sem remorsos, pois não aprovaria quem de fato não merecesse. Naquele tempo era assim. Quem não aprendesse a matéria seria reprovado sistematicamente.
                      Aquele presente descabido e sem propósito fez mudar tudo.
A professora que só recebia caretas, bolinhas e aviãozinhos de papel jogados as escondidas pelos meninos sentiu-se a mais premiada das mortais.
Imaginou-se recebendo a faixa de miss universo, ou o Oscar de melhor atriz ou até mesmo o cobiçado Nobel, através daquelas frutas.
Com certeza o anjo da guarda de Landinho negociou com o de Dona Sheila, fazendo-a ter paciência e ser atenciosa com os adolescentes que reagiram interessando-se pela língua inglesa e tudo acabou surpreendentemente bem.
Os jovens substituíram suas brincadeiras de conversar em código do “P”, ou de traz para frente, muito comuns na época e passaram a se comunicar em inglês. Ficaram “feras” em conversação e dedicaram ardentemente na gramática durante as aulas e a ex-exigente professora agora feliz, a partir de então não reprovava mais ninguém.
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                      Derley constantemente censurava o irmão que já estava com mais de treze anos e não se arriscava em namorar a Vermelha e nenhuma outra menina.
Vez por outra lembrava-lhe o caso das frutas em que ele perdeu a maior chance do mundo para conquistá-la.
Landinho sempre respondia que foram as frutas quem impediu as dezenas de reprovações no ano anterior, pois todos os jovens dedicaram-se a aprender inglês após a mestra ter mudado seu comportamento com eles.
Esse foi o lado bom da situação e é ele quem deveria ser visto e comentado e não o que não deu certo. Esse deveria ser esquecido.
  • Você insiste em só ver o tal lado bom das coisas.
  • Acha isso errado?
  • Não. Acontece as vezes algo que deu errado com alguém por mera casualidade produz algum efeito inesperado e bom a outro. Quando isso ocorre é pura coincidência.
  • Está totalmente enganado meu irmão. Tudo que acontece no mundo tem seus dois lados. Depende única e exclusivamente do ângulo que se queira ver.
  • Então se é assim. Quando morre alguém da família da gente onde está o lado bom.
  • Está em se considerar que se não houvesse o óbito e tal pessoa ficasse permanentemente tetraplégica, sofrendo dores horríveis por muitos anos, fazendo todos nós sofrermos juntos. Venderíamos e gastaríamos todos nossos bens na tentativa de recuperá-lo e não conseguindo acabaríamos na maior miséria conseqüentemente ficando tão doentes quanto ele e até mortos pelas enfermidades. Não seria um fato bom a morte imediata daquele parente?
  • Concordo. Então você admite que se um parente nosso ficasse totalmente paralítico e cheio de dores por muitos anos é uma coisa ruim. Finalmente concorda com uma desgraça.
  • Claro que se isso acontecesse esse seria o lado bom, pois o ruim seria se ele morresse.
  • Não lhe entendo.
  • É simples. Se tal parente ficasse doente, porém vivo nunca perderíamos a esperança de curá-lo e ficaríamos sempre tentando fazer algo para recuperar-lhe a saúde.
  • Acabou de falar o contrário.
  • Exatamente. Os casos conversados foram só hipóteses, por isso quando você propôs uma possibilidade eu vi a outra e vice versa.
  • Não estou entendendo nada.
    Definitivamente não dá para entendê-lo.
  • Tal exemplo não foi um fato acontecido por isso houve as alternativas. Em um acontecimento real não há alternativas de mudanças, portanto não há o vice versa. Basta somente a gente idealizar o que queira que seja pior para substituir pelo fato real, que ele passa simplesmente a ser o lado bom. Seja o que for podemos imaginar algo mais drástico que ele para ele ser melhor. Portanto é só questão de querer enxergar o suportável e o considerar melhor. Se eu ficasse só me martirizando por ter dado fruta à pessoa errada só veria o que não deu certo. Eu não fiz isso.
  • Muito bem. Se não houvesse oferecido as frutas a Dona Sheila e simplesmente dissesse que eram para seu lanche e as jogasse fora.  Onde estaria o lado bom?
  • Novamente vem com suposições. Eu poderia pensar que se entregasse à Vermelha e elas estivessem podres. Ela poderia ter uma forte indigestão e começaria odiar-me, por exemplo. Não seria pior?
  • Não tem jeito com você mesmo.
  • Tudo o que acontecer na vida por mais drástica que possa parecer deve sempre ser procurado outra situação pior que encontrará. Sempre há e é por isso que sou feliz. Tudo que me acontece na vida eu considero ter sido o melhor possível. 
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                       A timidez do garoto impediu-o de nova tentativa com as frutas e por falta de criatividade do experiente irmão mais velho não havia nenhuma outra idéia. Isso fez com que ele decidisse pensar em algo grande a fazer e após refletir muito arquitetou seu plano.
Resolveu presentear a menina que faria aniversário em julho com um presente realmente valioso que lhe seria entregue após o sim ao seu pedido de namoro.
Talvez um anel de ouro com pedra de rubi ou uma pulseira do mesmo metal nobre, selaria seu compromisso.
Precisaria ganhar dinheiro suficiente para isso. Sua mesada já era adequada a idade, mas seus gastos também, pois como todos os outros já fumava, bebia cerveja, jogava snooker, freqüentava o clube e as seções noturnas do cinema.
                       Estava próxima a semana santa e em sua cidade havia o costume religioso de todos os moradores saírem em procissão iluminada por velas todas as noites.
Era certo que as velas eram adquiridas na loja do senhor Abraão, mas mesmo assim ele decidiu que iria vendê-las, sabendo do fracasso de todos os que anteriormente tentaram tal concorrência com o esperto comerciante.
Solicitou a mãe um empréstimo para ir de trem a cidade próxima de Guaxupé comprar direto da fábrica tais velas de cera para vendê-las. Embora ela duvidasse um pouco no sucesso da empreitada ajudou-o com o adiantamento solicitado, pois algo lhe dizia que o menino faria dar certo.
                         Ele procurou pelo Sr. Abrão dono da maior loja da cidade contando-lhe sobre sua decisão, perguntando-lhe se estaria agindo errado fazendo-lhe concorrência conforme pretendia.
O homem nada preocupado com a ousadia do menino disse-lhe não haver nenhum erro e até incentivou-o em tal aventura.
Como acontecia nos anos passados quase todos que tentaram fazer-lhe concorrência adquiriam as velas dele próprio e ao fracassarem revendiam-lhe a preços bem inferiores ao comprado. O que o comerciante turco pagava aos fracassados pelas sobras das velas compradas na fábrica da outra cidade era menos ainda.
O avarento negociante não via nenhuma possibilidade do menino tirar-lhe os fregueses, pois jamais seus antecessores conseguiram, mesmo sendo adultos.
As famílias iam durante o dia comprar as velas em seu comercio e na hora da procissão ninguém estava sem elas. Jamais alguém conseguiu vender mais que umas poucas velas durante os séqüitos. Somente algumas que por ventura os religiosos deixassem cair e quebrar. Nada além disso.
O menino madrugou para embarcar na velha Maria Fumaça da antiga Mogiana, nessa época ainda a carvão e foi para a cidade vizinha. Lá adquiriu uma enorme quantidade de velas direto da fábrica e passou dois dias cortando e fazendo um protetor de papelão furado que era enfiado nela para evitar que a cera derretida escorresse para as mãos das pessoas.
Como faltavam ainda muitos dias para a semana santa resolveu melhorar seu invento. O papelão que tinha sido cortado de forma circular foi inutilizado e substituído por outro no formato quadrado e em cada ponta bem afixado um palito de arame. Ao redor deles colou um papel de seda colorido que ficava mais alto que o pavio da vela impedindo assim de o vento apagá-la como acontecia a todo instante durante todas as procissões nos anos anteriores.
Era normal as pessoas gastarem uma caixa de fósforos inteira acendendo suas velas ou ficarem a todo instante incomodando um ao outro pedindo para acender a que apagou. Pouco lhes sobrava de tempo para as orações.
                      Terminou todo o trabalho quatro dias antes do inicio de tais cortejos. Tempo suficiente para a próxima etapa de seu trabalho.
Ele simplesmente visitou durante suas tardes, pois pela manhã freqüentava as aulas, todas as casas da cidade vendendo suas velas protegidas por papel colorido, como brinde. Oferecia a um preço especial pela aquisição para todos os dias da semana santa em uma única compra e foram raros os que não aceitaram.
Os poucos que comprariam dia a dia ele anotou os endereços e no decorrer da semana apenas essas casas precisariam ser visitadas.
Seu sucesso foi estrondoso, pois pelo que se soube o senhor Abrão não vendeu nesse ano uma única vela sequer.
Nem à sua família, pois sua esposa que gostou do brinde ofertado por Landinho comprou dele quando de sua visita que evidentemente foi a última, após já ter vendido a toda a população da cidade, impedindo assim de o turco ficar sabendo de tal astúcia e utilizar-se no mesmo método.
                     Alguns anos se passaram para acontecer de uma empresa fabricante de perfumes e cosméticos chamar de porta em porta para vender seus produtos. É sucesso até os dias de hoje.
---x---
                      O mês de julho chegou rápido trazendo com ele a festa do aniversário da Vermelha e também os jovens que estudavam nas cidades grandes.
Entre eles estava o Barreto que sem ninguém saber havia trocado algumas juras de amor com a menina nas férias do final do ano anterior.
Corresponderam por carta durante os primeiros meses do ano e no aniversário da menina ficou seu par durante todo o tempo com permissão e satisfação de ambas as famílias.
                       Landinho ficou impossibilitado de tentar fazer a corte a menina e tampouco presenteá-la com o rico anel, acompanhado de uma pulseira e uma corrente de ouro. Não seria correto tal presente a uma colega de escola, simplesmente amiga descompromissada.
Os presentes nessas circunstâncias jamais seriam superiores a um long play de Frank Sinatra ou de Elvis ou no máximo um livro.
Participou dos festejos como todos os demais e decidiu que a partir dessa noite sonharia ser igual aos famosos galãs dos filmes daquela longínqua década de cinqüenta. Com Tony Curtis, Marlon Brando e James Dean aprenderia as técnicas da conquista amorosa.
                       Foi nessa noite também que seu irmão repreendeu-o por não ter tentado nenhuma sedução à aniversariante e a nenhuma das outras garotas presentes. Eram muitas as que vieram de outras cidades, muito menos recatadas que as de lá e principalmente sem a vigilância dos pais ou dos irmãos, portanto muito mais accessíveis.
Censurou-o severamente, pois os adolescentes até mais novos que ele, as escondidas já o chamavam de mariquinha.
Landinho desculpou-se com o irmão, pois pretendia dormir logo por isso não ficaram conversando. Antes porem avisou-lhe que tudo mudaria em breve.
                       Em seus sonhos visualizou as façanhas dos ídolos do cinema e descobriu a técnica perfeita e infalível. Todos eram muito gentis, românticos, cavalheiros e respeitadores, além de aparentemente tímidos e bonitos.
Comparou-se a eles e percebeu que tudo isso ele também era, portanto bastava apenas fazer a corte a jovem pretendida que infalivelmente seria conquistada.
Em seus devaneios namorou até Brigitte Bardot a eterna musa dos adolescentes, adultos e idosos daquela década e da próxima.
Nos sonhos havia sim algumas recusas, mas jamais as que não aceitavam o namoro por algum motivo, deixavam de continuar suas amigas. Até se desculpavam acanhadas pela recusa. 
No outro dia relembrando-se que em sonho conquistou até a mais cobiçada mulher do mundo, decidiu durante seus dias substituí-la por suas colegas bonitas e atraentes.
Funcionou, pois graças aos sonhos, com certeza ajudado por seu anjo, descobriu que não era nenhum bicho de sete cabeças aproximar-se e conversar com alguém do sexo oposto coisas diferentes de estudos e brincadeiras.
Nesse campo seu irmão sabia exatamente tudo conforme já havia lhe explicado. Ele quem perdeu tempo não aprendendo, pois o medo era maior.
Namorou muitas das mais veneradas jovens de sua época, não só as da cidade como também suas parentes e amigas vindas de outras cidades de férias em Guaranesia.
Nada de seduções arrojadas e adultas, pois nesse tempo não só as meninas eram educadas para não ultrapassar limites, como os próprios rapazes.
Ele sempre se lembrava o que constantemente ouvia de sua mãe. “Não deseje ou faça com as meninas e que não quer que façam com suas irmãs”.
---x---
                       Um dia Derley chamou-lhe a atenção em conversa, pois por ser mais velho e experiente sentiu que tinha obrigação de orientá-lo sobre coisas não conversadas com os pais.
  • Vejo que não tem mais medo das meninas e que tem namorado com várias. Como foi isso?
  • Comecei aprendendo com você e aperfeiçoei em sonho.
  • Tudo bem. Não precisa explicar.
  • Porque ainda não deu em cima da Vermelha? Não é ela sua paixão desde o tempo do grupo?
  • Sim. Mas ela está namorando sério em casa. Deve dar casamento.
  • E daí. Tome do cara.
  • E eu tenho algum recurso para casar? Só tenho quatorze anos.
  • Namore somente durante o ano. O filho do Dr. Artur só a namora nas férias quando vem aqui.
  • Quer que ela fique falada?
  • Então tente conquistá-la no sério e faça-a terminar com ele.
  • Não é certo pensar assim, pois ela não vai esperar formar-me, ter profissão e trabalho para depois casar. Vai demorar muito.
  • Namore só algum tempo e depois termine.
  • Não é honesto fazer isso principalmente com quem a gente mais ama.
  • Então segure-a. Se ela ficar gostando mesmo de você ela esperará o tempo que for preciso.
  • Não posso. Ela está comprometida e seu namorado já está no último ano de medicina e logo deverá querer casar com ela. (Naquele tempo os rapazes logo que completassem dezoito anos e terem emprego ou profissão e os recém formados não demoravam muito para unirem-se em matrimonio. Geralmente com uma menina entre quinze e dezessete anos. Quem permanecesse solteira além dessa idade era considerada “titia” e tinha de fato muita dificuldade para casar-se depois).
  • Mas você vai sofrer a dor de cotovelo sem tentar nada?
  • Ela é apenas meu primeiro amor como você sabe. Não é?
  • É. E saiba que o primeiro amor é o que a gente vai sempre lembrar e ter saudade o resto da vida.
  • Exatamente por isso que não preciso tentar prejudicá-la.
  • Por que isso? Não entendi nada.
  • Se o primeiro for o que vamos lembrar sempre é sinal que teremos outros para que se possa lembrar dele e sendo assim deixo-a em paz e parto para o segundo.
  • Mas pode dar certo logo no primeiro.
  • Perceba sua expressão “Pode dar certo”, e não “Vai dar certo”. Isso é uma verdade constante. Geralmente a gente ouve dizer:
“Fulano com fulana separaram com apenas alguns meses, ou alguns anos de casados”.
“Não podia dar certo mesmo, pois ambos nunca tiveram outros namorados antes”.
“Namoraram desde pequenos e ao casarem foi tudo por água abaixo”.
“É claro, pois tiveram necessidade de conhecer outras pessoas”.
Não é sempre assim que falam?
  • Nos casos do primeiro namoro sim.
  • Só nesses casos. Exatamente por ser o primeiro amor.
  • Ouve-se com muito mais entusiasmo o inverso.
“Fulano namorou todas as meninas da cidade, mas agora que casou ficou calmo, caseiro e ótimo marido”.
“Quem diria que ela seria tão boa esposa depois de ter namorado tantos rapazes.” E outras coisas mais que significam que quando se casa após o primeiro amor as coisas dão certo.
  • Acho que tem razão. Mas vai se lembrar o resto de sua vida desse seu primeiro amor sem sequer ter namorado?
  • Melhor, pois assim não terei nada para recordar, portanto não sofrerei ou sentirei saudade de coisa alguma.
  • É. Até que suas idéias de vez em quando fazem sentido.
  • Ainda bem que às vezes acerto.
  • Falei assim por sacanagem. Você sempre acerta.
  • Nada disso. Descubro muitos erros enquanto penso nas coisas a fazer, mas como sempre evito fazê-las no impulso só colocando em prática quando bem programadas elas tendem a saírem certas. Minha criança constantemente ajuda-me nisso.
  • De fato impetuosidade nunca foi seu forte.
  • Aprendi com meu anjinho a ter paciência e pensar bastante antes de decidir alguma coisa.
  • Aquela vez das frutas que deu a professora foi uma péssima atitude.
  • Foi exceção. Quando a Vermelha perguntou-me para quem eram as frutas, respondi sem pensar. Foi no impulso, mas acabou dando um ótimo resultado totalmente inesperado e até melhor do que se eu as desse para ela. 
                      Dois anos se passaram e o menino morava em outra cidade onde dava prosseguimento aos estudos à noite além de trabalhar durante o dia, sempre feliz. 
Regressou a sua cidade para ser padrinho de casamento da irmã e presenteou-a com um lindo cordão, uma pulseira e um anel de ouro com rubi, deixando-a maravilhada pela beleza e bom gosto das jóias.
---x---
                      Trabalhou em vários empregos, casou e se conservou fiel e bom companheiro à esposa.
Um prestativo, presente e coerente pai para seus filhos.
Continuou realizando seus sonhos, crescendo e tentando aprender voar.
Permaneceu amigo leal de seus amigos, principalmente de seu anjo.
                       O tempo continuou passando e ele engordou, ficou careca e aposentou, mas ainda se mantinha criança, cheio de amor, feliz, sonhador e otimista.
                       Há muito tinha deixado as palavras cruzadas, porem a leitura continuou seu passatempo predileto. Da mesma maneira que fizera quando criança de dez anos, repetiu quando era criança de trinta. Passou a escrever romances que digitava cópias e dava aos amigos para ler.
                       Em meados de agosto de dois mil e sete lera no jornal, a notícia de um concurso de literatura promovido por uma entidade pública federal e desejou participar.
Enviou e-mail tentando saber se poderia participar com algum de seus romances e obteve como resposta que só aceitariam contos e não romances, e no final da noite de dezoito de agosto em conversa com um dos o filhos esse perguntou-lhe:
  • Porque o interesse em participar desse concurso? Você nunca tentou publicar seus livros.
  • Esse trabalho é muito interessante, pois na verdade não propõe promover nenhum escritor ou publicar obras para serem vendidas.
  • Do que se trata então?
  • O intuito é de distribuir gratuitamente às escolas públicas, aldeias indígenas, pessoas recém alfabetizadas para incutir-lhes não só o prazer pela leitura, mas propiciar-lhes melhor cultura e aprendizado possibilitando-lhes uma vida melhor.
  • Então porque você não resume um de seus livros transformando-o em conto e envia?
  • Você cortaria uma de suas calças fazendo-a virar bermuda?
  • Claro que não. Fico com as calças e compro uma bermuda.
  • Farei o mesmo. Fico com meus romances e escrevo um conto.
  • Mas falta pouco tempo. Você leva anos para concluir uma obra. Como fará?
  • Simplesmente fazendo, pois tenho tempo até novembro quando encerrarão as inscrições.
  • Então boa sorte.
---x---
                      Alguns dias depois, no inicio de setembro Landinho informou aos filhos ter terminado seu conto e deu-lhes uma cópia para as devidas apreciações e correções.
Para o filho que está morando em um longínquo país da Ásia foi enviado por e-mail e ao outro por estar presente foi passado a cópia digitada.
Um deles perguntou-lhe:
  • No seu tempo de criança com menos de dez anos só se usava calças curtas? Como eram essas calças e porque não existem mais?
  • É claro que existem. Simplesmente mudou o nome para bermuda para todas as crianças terem o direito de seu uso. Pode ter dez, quarenta ou oitenta anos e usar sem nenhuma restrição. O importante é ser criança.
  • Por isso que junto de sua aposentadoria há mais de dez anos aboliu definitivamente suas calças compridas?
  • Elas atrapalhavam demais para correr, brincar e principalmente para aprender voar.
  • Não acha que a história que escreveu é muito infantil?
  • Claro que sim. Essa foi a intenção. O que uma criança falaria de um menino a não ser sobre sua ingenuidade, sua infantilidade, sua honestidade, seus amores e seus sonhos?
  • Você acredita que será escolhido entre os possíveis milhares de concorrentes?
  • É lógico que acho. Também tenho esse objetivo.
  • De ganhar o premio em dinheiro?
  • O “cascalho” será apenas conseqüência. Meu interesse primordial será transmitir esse conto às centenas de milhares de pessoas que terão acesso à leitura para distraí-las e ajudá-las viver melhor se por ventura conseguir passar-lhes alguma boa informação.
  • Seu amiguinho anjo vai ter muito trabalho para negociar com todo esse montão de gente para viver feliz como você.
  • Não. Bastará ele falar com apenas dois e cada um deles com outros dois e assim por diante que em trinta e dois dias terão exatos 8.589.934.590 (oito bilhões, quinhentos e oitenta e nove milhões, novecentos e trinta e quatro mil e quinhentos e noventa) pessoas usando calças curtas, falando de amor, realizando sonhos e sendo otimistas. Isto significa que toda a população mundial estará resolvendo seus projetos e idéias da maneira mais óbvia possível que é a simplicidade, achando a vida doce, nunca deixando de crescer e voando nas alturas.
  • Desejo que realize mais esse sonho.
  • Poderei falar para seu tio Derley que finalmente aprendi voar.

Acabou



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