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   > Insatisfeito



orlando ciuffi filho
      CONTOS

Insatisfeito

 INSATISFEITO
 
Está quieto e carrancudo e já faz algum tempo que só lhe vejo assim. Há meses que não brinca com os meninos e nem comigo como era seu costume cotidiano. O que está preocupando-o Neginho, amor de minha vida?

  • É essa existência inútil que a gente leva desde que nasce até quando morre. Sempre obedientes e gentis sem direito a nada. Nem sequer uma simples reclamação nos é permitido.
Temos que fazer tudo que nos ordenam e ainda sermos alegres e felizes. Isso é abuso, totalmente incompreensível e inaceitável.
  • Que revolta maluca é essa? Porque o incomoda a vida que levamos? Sempre foi e continuará sendo assim para nós e para todos os outros.
Dê graças aos céus que vivemos muito melhor que a maioria que não têm sequer o que comer. Vivem pelas ruas procurando restos em latas de lixo e até se matam em brigas violentas por algum pedaço de carne estragada que às vezes encontram.
  • É por isso mesmo. Acho que devemos mudar tudo para que todos tenham direitos iguais.
  • Isso que está pensando é comunismo e você já viu que não deu certo em nenhum lugar do mundo.
  • Engano seu. Na China funciona.
  • Acha mesmo? A grande maioria do povo de lá é oprimida e trabalha como escravo para os mandatários mostrarem ao mundo a fartura e opulência que só existem para eles e aos turistas estrangeiros cheios de dinheiro para gastar. O povo é quem sofre as conseqüências sem ter quase nada a não ser o trabalho árduo obrigatório. Viu as olimpíadas? Ergueram obras faraônicas e o povão de lá que construiu tudo nada assistiu dos esportes.
Mais de setecentos milhões de pessoas vivem espremidas e sem nada na região leste do país disputando o lugar com os animais que antes eram os únicos moradores de lá.
  • Continua errada. É o país que mais se desenvolve e cresce no planeta.
  • Em função das maciças vendas de seus produtos.
  • E não está correto isso?
  • Quando o resto do mundo cansar de comprar tais artigos de péssima qualidade e deixar de mandar-lhes dinheiro aos montes, você verá no que vai dar. Acontece que... Estou defendendo o povo chinês para que? Eles também não me interessam e que vão as favas.
  • Sua revolta não é apenas contra o Brasil? É contra todos os paises? Deixe de se atormentar, pois jamais conseguirá arrumar nossa nação e muito menos o mundo inteiro.
  • Depende de quem está no comando. Porque não pode ser nosso pessoal a dar as ordens em toda a terra? Com certeza não deixaremos as bagunças continuarem conforme estão.
Os jornais das televisões não param de mostrar o que está acontecendo nos Estados Unidos e por efeito cascata ao restante dos países.
  • Outros povos já tentaram e nada conseguiram. Muitos já se revoltaram e acabaram por desaparecer para sempre da face da terra.
  • Talvez porque não planejaram direito uma revolução sangrenta e definit... Mas, peraí. Quem fez e quando foi tal rebelião que falou?
  • A dos dinossauros é claro e não faz muito tempo.
  • Deixa de ser idiota mulher. A idéia mais aceita para explicar a extinção dos dinossauros é a que defende a queda de um asteróide na região do atual México, no período Cretáceo. De acordo com paleontólogos, esse asteróide teria aproximadamente 14 km de diâmetro e no momento do impacto, levantou uma nuvem de poeira que cobriu a Terra durante anos, impedindo a penetração de raios solares. Três quartos dos animais e vegetais morreram com a falta de luz solar, de alimentos e pelo aumento de mais de 300 graus Celsius na atmosfera.
Eles desapareceram da terra por obra da natureza e não por nenhuma guerra contra ninguém e quando isso aconteceu nem existia homem nenhum na face da terra, sua ignorante e burra. Isso aconteceu há sessenta e cinco milhões de anos.
  • Deixe de ser estúpido comigo e fale com educação, pois não tenho medo de você. Sei que por ser grandalhão e forte amedronta todo mundo e até anda brigando com baixinhos por aí surrando e desfazendo de todos.
Comigo que sou tão grande quanto você veja se não se mete a besta, pois apanhar eu não apanho, de você e de nenhum macho metido a valente. E saiba que se eu não puder consigo tem nossos filhos que não o deixarão me maltratar. Se preciso for eles até lhe darão uma surra daquelas, portanto estando ou não revoltado, com suas idéias de revolucionário na cabeça tenha muita delicadeza ao falar comigo senão se dará mal.
  • Calma querida. Não precisa apelar e nem colocar nossos filhos na briga, pois só você mesma eu creio que me estraçalhará, sua graciosa ferinha indomada.
  • Melhorou no tratamento.
  • Estou desculpado?
  • Se suas grosserias não se repetirem mais, sim.
O que falou sobre o fim dos dinossauros é a teoria lida nas enciclopédias e nos sites da internet como sendo dentre as várias possíveis a mais provável e não um fato verdadeiramente comprovado, mas o que me diz da revolta dos macacos que também não deu certo? Essa realmente foi há pouco tempo.
  • Olginha, adoradinha e queridinha minha. Você está assistindo muito cinema. O Planeta dos Macacos foi apenas um filme estrelado por Charlton Heston em 1968. Nada aconteceu com eles. Continuam por aí, são e salvos fazendo suas macaquices. Permanecem irreverentes como sempre, porem se mantêm obedientes e submissos aos humanos que nada mais são que sua própria raça um pouco mais evoluída.
Só falta você me falar da revolução dos porcos Bola-de-Neve e Napoleão, pois esse caso trata-se de um livro chamado Animal Farm (A Revolução dos Bichos) que foi escrito por Eric Blair, mais conhecido pelo pseudônimo de George Orwell, em 1945, criticando a revolução russa e seu líder Joseph Stalin.
  • Está bem Nego. Talvez eu esteja fazendo confusão mesmo, pois estou doente e confusa, mas nenhuma revolução aqui no Brasil jamais deu certo. Disso eu não tenho dúvidas. Mire-se nos exemplos da Inconfidência Mineira, da Carioca, da Baiana ou Revolta dos Alfaiates, da do Pernambuco, da Guerra dos Emboabas, da dos Mascates, da Revolução Constitucionalista ou Guerra Paulista.
Todas tiveram seus lideres presos ou mortos e nenhuma delas deu em nada, portanto vamos continuar vivendo conforme estamos, pois está ótimo.
  • Só os imbecis conformados como você estão satisfeitos e vão permanecer dominados. Sempre com uma coleira fortemente atada no pescoço.
  • E os idiotas revoltados e estressados como você sempre morrendo de infarto ou de AVC e vê se não faça nenhuma besteira que possa colocar o pessoal da casa contra você, pois sempre se portou bem e cuidado com seu tratamento agressivo comigo, pois não vou mais ficar só na reclamação. Essa foi sua última estupidez que aceitei. Da próxima, se houver eu vou adotar uma atitude drástica e definitiva.
  • Está bem. Perdoe-me novamente. Vou tomar cuidado com minhas palavras. Mas o que você está sentindo, pois falou estar adoentada?
  • Não sei ainda do que se trata. Estou sentindo dores pelo corpo todo e ando muito esquecida. Vivo constantemente fazendo confusões com datas e ocorrências passadas e até atuais.
  • Deve ser o mal de Alzheimer. É melhor procurar um médico.
  • Não é Alzheimer e não creio ter necessidade de médico. Deve ser só uma indisposição passageira. Vou aguardar mais um pouco, até Dona Zezé levar-me a uma consulta se for necessário, pois ela comentou ser apenas coisa simples e corriqueira sem grandes preocupações.
  • Você quem decide, mas se está passando mal reclame àquela velha gorda sardenta filha da puta para tomar uma atitude logo, pois de fato faz dias que a vejo macambúzia.
  • Obrigada pela preocupação, mas voltando à conversa anterior, trate de moderar seus modos não só comigo, mas com todos os demais. Onde já se viu chamar Dona Zezé com esse apelido maldoso que você inventou.
  • Mas não é assim que ela é? Caindo aos pedaços de velha com as banhas tentando estourar suas pelancas pelo corpo todo cheio de sardas? Só porque ela é rica e dona desse palácio em que vivemos escravizados, tenho de vê-la bonita?
Já faz tempo que me mostro contente e fiel, mas é só fachada, justamente para não me trair, mas odeio todos esses cretinos que só fazem é exigir da gente atitudes e feitos que lhes agradem sem se preocuparem se estamos contentes ou não em servi-los.
Nem remédios para nossas doenças têm fornecido. Veja o estado em que você está e sem nenhum medicamento.
Hei de começar minha vingança o quanto antes.
  • Não estou mal assim como fala. Vamos mudar de assunto que esse não me interessa e tome muito cuidado com as besteiras que anda pensando em fazer.
Estão chamando-nos para o jantar. Vamos logo.
A refeição servida ao casal que se juntou aos filhos foi de boa qualidade, com direito a sobremesa, para depois de satisfeitos recolherem-se para o merecido repouso de algumas horas, com toda a família reunida, pois teriam pela frente uma noite inteira de trabalho árduo.
Apenas Nego não dormiu, pois não se conformava com sua vida e se propôs em dar inicio a sua insubordinação a partir dessa noite, mesmo sem o auxilio de ninguém.
Totalmente só e em segredo. Ele decidiu que iria nessa madrugada escondido de todos, fazer um teste de sua revolução para depois, se tudo corresse bem, começar conquistar adeptos à sua causa.
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Pela manhã do dia seguinte toda a vizinhança de um bairro nobre da cidade amanheceu alvoroçada, pois no quintal da casa que pertencia a um rico fazendeiro que não deixava o hábito de criar animais nos fundos de sua mansão, foram encontradas todas suas galinhas estraçalhadas por algum animal feroz, ou por algum doido que passou pela região.
Tal casa tinha um quintal de fazer inveja a vários sítios pela sua grandiosidade, não só pelo tamanho físico, mas também pela sua beleza.
Exceto o pomar e uma mata nativa não havia nenhuma lavoura nele, pois seu proprietário era possuidor de várias fazendas pelo Brasil afora onde criava animais de grande porte e plantações de todos os produtos agrícolas.
Dava ênfase às culturas mais proeminentes em cada região devido ao clima existente em cada local dobrando sua fortuna a cada ano que passava.
Satisfazia-se com um belo mini zoológico no quintal de sua residência para passar o tempo, pois não trabalhava mais.
Toda a administração de seus latifúndios estava em poder dos filhos, pois ele já velho não viajava para nenhum lugar e sua maior alegria era ter seus animais de estimação junto a si, por isso e com autorização do IBAMA, mantinha várias espécies de bichos de pequeno porte, peixes e aves em seu zoológico particular.
Nessa pequena fazenda dentro do bairro elegante da cidade, havia também várias casas onde os empregados do fazendeiro moravam com suas famílias para cuidar de tudo.
A policia foi chamada e nenhum maluco foi encontrado pelas redondezas.
Todos os empregados foram investigados e não foi detectado nenhum possível suspeito. Eles eram muito zelosos e de inteira confiança do patrão, portanto isentos de suspeitas.
Os proprietários das mansões vizinhas também passaram pelo constrangimento das investigações com seus criados e ninguém foi detido para mais investigações, pois se esgotaram todas as possibilidades de manter qualquer pessoa indiciada como suspeita e muito menos incriminada.
A eficaz equipe da zoonose também esteve presente examinando todos os animais domésticos e os chipanzés que moravam nas árvores do quintal da casa e não encontrou nenhum bicho com sintomas de doentes com a raiva ou com qualquer outra enfermidade que lhes provocasse tal violência.
Todos os cães de guarda das mansões e os gatos domésticos num raio de vários quilômetros também foram examinados e constataram que estavam sadios e o caso ficou encerrado para a decepção do velho fazendeiro que não descobriu quem era seu inimigo anônimo.
Ninguém ficou sabendo quem foi o destruidor do galinheiro onde o homem criava suas galinhas de raça com muito zelo.
Apenas Nego sabia quem foi. Melhor dizendo, imaginava ser o único, a saber, justamente porque naquele mesmo quintal Tonho e Fuzarca conversaram sobre o incidente durante o dia todo, pois foram testemunhas e o viram em ação na madrugada.
  • O que será que deu nele para fazer o que fez?
  • Não faço a menor idéia, mas seja lá o que for vou ficar de olho nele, pois demonstrou ser muito mais violento e perigoso que até então me parecia.
  • Não seria melhor delatarmos o que vimos ao fazendeiro ou pelo menos conversar com Nego?
  • Acho ambas as idéias muito perigosas, pois com certeza iremos sofrer represálias apenas por termos sido testemunhas, imagine como delatores.
  • Então vamos deixar como está?
  • É claro. Ficaremos quietos, como se nada soubéssemos para não corrermos nenhum risco.
  • Está certo. Vamos guardar segredo, mas eu ainda gostaria imensamente de saber qual o motivo que levou Nego a fazer o que fez.
  • Tonho, não vá dar com a língua nos dentes e deixá-lo desconfiar de nada, senão podemos nos dar mal.
§  Está bom Fuzarca. Tudo bem. Não vou falar nada, por enquanto. Na verdade ainda não sei o que fazer. Talvez eu não fale com ele, talvez sim. Ainda não decidi. Vou conversar com nossos amigos para ver se alguém tem alguma idéia de como agir, embora acredite que com muita calma eu possa conseguir dele alguma informação, pois entre todos da região eu sou o único que ele conversa de forma amistosa.
  • Deixa de ser louco. Ele pode acabar com você. Não vê que além de ser sempre muito nervoso e agressivo é muito mais forte e pode matá-lo também.
  • Esse é o grande problema que tenho de resolver.
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  • Cleo você viu o que o Nego aprontou na madrugada passada? Éramos oito que estávamos reunidas no terraço lá de casa e assistimos tudo.
  • Eu e três amigas, lá de minha varanda vimos do começo ao fim tudo que aconteceu Branca. Foi terrível. Pena que ninguém da casa do fazendeiro viu aquele selvagem estraçalhar as galinhas daquele jeito, senão ele não estaria passeando por aí, livre e solto, como se nada tivesse acontecido.
  • Você também viu Cíntia? O que será que deu nele?
  • Não faço a menor idéia. Nem eu e nem as meninas que estavam comigo em minha casa entendemos nada. Estávamos em umas cinco ou seis e ficamos abismadas e revoltadas com tanta maldade.
Nesse momento eram mais de vinte falando sobre o acontecido, todas amedrontadas, pois conforme falaram, além delas, vários outros jovens haviam presenciado ao extermínio das galinhas do alto dos terraços de suas respectivas residências e todos estavam assustados com a violência de Nego.
Ninguém ousava delatar o bandido, pelo pavor que tomou conta deles, mas algumas jovens, mais afoitas e corajosas conversavam em voz baixa sobre o interesse em falar com o criminoso para saber o motivo que o levou a tal barbárie. Elas arquitetavam planos e mais planos de como dirigirem-se a Nego, mas nunca chegavam a um acordo de como seria, pois imaginavam o grande perigo que corriam, entretanto falavam a todas as amigas sobre o que sabiam para descobrir se alguma delas, mesmo não tendo sido testemunha bolasse algum plano.
Assim como elas, no decorrer dos próximos dois dias Tonho também contou toda a história a vários amigos, na mesma esperança de conseguir que alguém tivesse coragem ou plano para conversar com Nego e saber o porquê da carnificina.
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No quintal da mansão vizinha alguns amigos conversavam distraídos e sem segredo:
  • Felix você tem idéia do motivo que levou Nego anteontem a matar todas as galinhas do fazendeiro?
  • Nem imagino Danton, mas eu quero descobrir a causa.
  • Pretende conversar com ele? Esqueceu-se da surra que ele lhe deu ainda não faz um mês? Está ficando biruta?
  • Nem penso em passar perto dele, mas o ódio que sinto é tanto que gostaria de fazer alguma coisa para delatá-lo sem que ele saiba que fui eu.
  • Com aquele tamanho não só você como todos nós iríamos apanhar e muito se tentássemos alguma idiotice para incriminá-lo.
  • Mas tem de haver um jeito. Invente algo Gabrí, já que é o pensador da turma.
A conversa entre eles durou horas, até que finalmente Euclides, que nem era muito pensador conseguiu uma idéia, cujo plano se fosse bem sucedido incriminaria o inimigo ao fazendeiro sem se exporem.
Ele explicou aos outros que se invadissem o quintal do vizinho e matassem os pássaros do fazendeiro, em seus viveiros gigantescos, da mesma maneira que foram mortas as galinhas e deixassem um estraçalhado próximo a casa do Nego, ele seria acusado desse crime e consequentemente também do primeiro e teria de explicar para todos porque estava destruindo os animais do homem. Assim todos saberiam o motivo e o brutamonte seria devidamente punido e que para a felicidade deles, talvez até morto pela possível fúria do velho que adora todos seus animais, preferencialmente as aves.
Todos gostaram da idéia e o plano seria executado ainda nessa madrugada pelos quatro amigos e inimigos de Nego.
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Duas da manhã, já prestes a saltarem para o outro lado do murro que dividia os terrenos entre as residências, o quarteto de amigos foi surpreendido pelo bando do Bororó, que com mais de uma dúzia de indivíduos seguraram e amarraram o grupo.
  • Que é isso? Porque fizeram isso conosco?
  • Para evitar que façam uma grande asneira.
  • Que besteira é essa?
  • Nós sabemos de tudo que pretendem fazer e viemos impedir.
  • O que acha que vamos fazer?
  • Vamos poupar tempo. O Birigui ouviu toda a conversa de vocês sobre o massacre dos pássaros que estão desejando fazer.
  • Traiçoeiro. Como você soube, Birigui?
  • Muito simples Euclides. Simplesmente ouvindo-os, pois casualmente passei perto de vocês quando distraídos conversavam alto sobre o que estavam tramando e escondido ouvi todo o plano.
  • Bororó é mentira dele.
  • Não é não. Ele não mentiu, pois está acontecendo exatamente conforme ele ouviu e me contou.
O que estavam pretendendo ao começar escalar o muro que dá para a casa do fazendeiro essa hora da madrugada?
  • Só por farra.
  • Deixem de ser bestas e vamos conversar como adultos. A idéia de vocês é simplesmente ridícula e não iria incriminar o Nego de forma alguma seus energúmenos.
  • É claro que vai. Será bem executado e não deixará dúvidas ter sido ele quem agiu novamente nessa madrugada, pois a prova que deixaremos na porta de sua casa o delatará.
  • Quem acreditará que o Nego com todo aquele tamanho iria subir em arvores de galhos finos e fracos e apanhar as aves que voariam rápidas para longe dele. Vocês que são pequenos e leves até que conseguiriam matar muitas delas, mas ele jamais obteria êxito. Ninguém acreditará em sua culpa.
  • Mas como ele conseguiu matar as galinhas que também são aves?
  • Seus estúpidos. As galinhas são aves, mas não voam e no chão ele consegue o que quer com qualquer um, mas trepar em arvores e matar pássaros para ele é totalmente impossível seus imbecis.
  • Então o que fazer para provar ser ele o assassino?
  • Nós também ainda não sabemos embora sejamos também testemunhas da culpa dele porque vimos e assistimos tudo naquela noite.
  • Vocês também viram?
  • Sim. E gostaríamos como vocês de descobrir o motivo.
  • Então vamos nos organizar para descobrir.
  • Como?
  • Nem imagino. Agora podem nos desamarrar para continuarmos nossa conversa, pois tenho certeza que iríamos fazer mesmo uma estupidez e fiquem sossegados que não tentaremos nada contra vocês, até porque são mais de dez e nós apenas quatro, portanto qualquer atitude irresponsável nossa seria suicídio.
  • Okey. Pessoal pode soltar esses dementes irresponsáveis.
  • Não precisa também debochar de nós sempre nos recriminando.
  • Está certo Euclides, ajudante de pensador maluco. Desculpe. Saiu sem querer. Não se ofenda, mas que sua idéia foi idiotice isso foi.
  • Concordo que foi mesmo muita maluquice de minha parte bolar tal plano.
  • Que acha de nós contarmos para o Tonho e o Fuzarca, para sabermos se eles ajudam-nos de alguma forma?
  • Porque falar com eles?
  • Eles são muito mais cabeças que nós.
  • Então teremos de contar a eles tudo que sabemos.
  • Eu acredito que eles também tenham visto, pois a casa deles é bem próxima do galinheiro. Mesmo que ainda não saibam de nada, qual é o problema se a gente contar-lhes?
  • Sei lá. Eles podem dizer ao Nego que nós estamos espalhando seu crime e estaremos fritos.
  • Não creio que eles contarão.
  • Pelo que me consta eles não são inimigos dele para querer como nós ver sua desgraça.
  • Podem não ser inimigos, mas amigos também não são. O Nego não é amigo de ninguém.
Faz o seguinte eu mesmo falo com o Tonho e o Fuzarca, pois somos amigos e eles não irão fofocar contra mim a favor de um apenas conhecido sem nenhuma amizade.
  • Está certo. Então você conversa com eles e amanhã logo cedo nos encontraremos aqui mesmo para ver se conseguiram alguma solução.
  • Amanhã cedo é impossível. Eu não irei acordá-los agora que já é muito tarde e sei que eles dormem cedo. Falarei com eles durante o dia, provavelmente na hora do almoço e nos encontraremos aqui à tardinha para trazer alguma solução, se houver.
  • Agora sou eu quem acha nosso encontro aqui muito perigoso ao anoitecer, pois aquelas meninas que ficam nas varandas altas desde o final do dia até altas madrugadas, podem ver tudo o que se passa aqui em baixo. Eu até creio que elas assistiram as cenas daquela noite, pois após aquele dia, são muitas que se reúnem quase que rigorosamente para ficarem fofocando e espiando para cá. Imagino que até com binóculos e lunetas. É melhor a gente se encontrar em outro local.
  • Então vocês pulam para o nosso lado e conversaremos escondidos entre as arvores ou sobre elas se for necessário para ficarmos fora das vistas delas.
  • Okey. Combinado. Até amanhã após o sol se esconder.
  • Até amanhã.
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Na manhã seguinte, Nego ao terminar seus afazeres não conseguiu fazer com que sua companheira levantasse do leito, para explicar-lhe porque não trabalhou durante a noite e para saborear o café da manhã já servido pelos empregados da mansão.
Por mais que ele insistisse Olga recusava-se a ficar de pé devido as fortes dores que sentia em todos os ossos do corpo.
A persistência dele foi tanta que ela até tentou se levantar, mas caiu sentada, pois não se agüentava em pé.
Parece que o tombo deslocou-lhe alguma vértebra da coluna porque seu pescoço ficou virado apenas para um lado. Exatamente para o lado oposto de onde estava seu marido e por isso ela nem o olhava de frente.
Ele desesperado uivou pedindo socorro, para depois dirigir-lhe a pergunta, ainda aos berros.
  • O que está acontecendo com você?
  • Não sei. Mas não consigo andar. Avise a Dona Zezé para que me leve ou chame um médico urgente, pois acho que minha doença não é tão simples como pensava.
  • Nem será preciso avisá-la, pois a ridícula velha gorda sardenta filha da puta está chegando e então saberá de seu problema.
  • Há muitos dias eu já me queixo a ela, mas sempre me conforta dizendo ser coisa passageira, mas agora ela terá de levar-me ao médico, pois não dá mais para suportar as dores.
  • Então ela já sabia de sua doença e nada fez?
  • Ainda não, mas graças a Deus, agora ela me socorrerá. Estou muito mal.
Foi chamado o médico para Olga, que prescreveu os remédios necessários, mas bastou passar apenas mais um dia para verificar que sua piora era crescente.
O marido e os filhos nada mais faziam a não ser ficar a seu lado, chorando e rezando por vê-la sofrendo tanto e a cada hora que passava mais definhada, consumindo-se em dores.
Embora o médico não houvesse definido com presteza qual era a doença os familiares tinham certeza tratar-se de algo realmente muito grave, pois por mais que ela tomasse medicamentos e injeções doloridas não mostrava sinais de melhora. Até pelo contrário. Aumentava-lhe as dores e seu estado era cada vez pior.
Vômitos e diarréia já eram constantes.
Seu olhar vidrado e sem foco deixava claro que se ainda enxergava era muito pouco.
Alimentos já não passavam por sua garganta.
Seu sangue vez por outra escorria pelos cantos da boca junto ao vômito.
Bastou passar apenas mais dois dias para toda a família perceber que ela estava em estado terminal e irrecuperável independente das constantes visitas do médico que a assistia.
Somente os envolvidos com a doença de Olga ficaram sabendo do drama daquela família, porque simplesmente ninguém os visitava.
Os amigos da família porque eram raros e mesmo sendo amigos evitavam o Nego, pelo seu permanente mau humor além de ser valentão e briguento.
Os apenas conhecidos, entretanto tendentes a tornarem-se inimigos porque ajudavam aos que tentavam prejudicá-lo, tramando com eles as escondidas, tinham o mesmo temor. Igual ao do diabo à cruz. Também esses se mantinham afastados de sua casa e nada ficaram sabendo.
Dos inimigos nem é preciso comentar.
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Sigilosamente Bororó com o quarteto de inimigos de Nego e os apenas conhecidos Tonho e Fuzarca continuaram articulando seus planos para denunciá-lo e finalmente Tonho conseguiu convencer Bororó e sua turma que o plano inicial dos magricelas seria certo com apenas uma pequena alteração.
Não colocariam nenhum pássaro morto próximo à casa de Nego para transformá-lo em responsável pelo massacre das aves nos viveiros, por saberem ser impossível para ele.
Tal chacina como a primeira ficaria com o culpado ignorado pela policia e pelo fazendeiro, entretanto faria Nego pensar que como ele, outros também desejavam destruir os animais mais queridos do homem rico.
Esse delito deixaria claro que quem o tenha praticado pretendia molestar o velho e isso induziria Nego saber que tem mais pessoas com a mesma motivação sua e então ele se abriria para alguém com o intuito de descobrir seus colaboradores desconhecidos.
Para ele ser informado quem foi o causador desse atentado inevitavelmente teria de falar com outros para saber quem pensava como ele e fatalmente confessaria seu crime e seus motivos, possivelmente a seu único amigo que era justamente o idealizador da idéia.
Foi assim que vários pássaros do viveiro foram destruídos nessa madrugada, longe das vistas do fazendeiro, sua família e empregados que com certeza dormiam na hora do acontecido.
A matança foi executada pelo quarteto de amigos inseparáveis, mas vista de perto pelo pessoal de Bororó que a tudo assistiu de cima das árvores próximas ao pomar e ao lado dos viveiros e depois todos comemoraram tal atrocidade rindo as gargalhadas até o dia estar perto de amanhecer no outro lado do muro onde os quatro assassinos moravam.
Despediram e foram para suas respectivas casas.
Fuzarca e Tonho não quiseram presenciar e nem participar da comemoração, entretanto as várias jovens do alto de suas varandas a tudo observaram perplexas e revoltadas com o que viram.
Danton, Euclides, Gabrí e Felix, banharam-se e totalmente limpos e isentos de qualquer vestígio que pudesse incriminá-los, voltaram ao quintal da mansão onde dezenas de pássaros jaziam mortos dentro do imenso criadouro e foram conversar com os novos amigos que foram os mentores do plano.
Encontraram apenas Tonho e falaram pouco tempo com ele, pois conforme previam a polícia deveria chegar logo.
  • Você não foi para o nosso quintal comemorar, porque sei que com sua idade avançada e peso excessivo não conseguiria pular o muro, mas pelo menos assistiu a festança que aprontamos no viveiro?
  • É claro que não.
  • Como assim? Não teve nenhuma curiosidade em ver? Foi seu próprio plano e não quis observar o resultado?
  • Acontece que meu pescoço não dobra para cima igual ao de vocês. Só vejo para frente, para os lados e para baixo, portanto seria impossível eu ver o que vocês fizeram no alto das árvores.
  • Mas a espetáculo proporcionado por Nego você confirmou ter visto com seus amigos.
  • Acontece que ele fez o que fez no chão do galinheiro, por isso vi tudo perfeitamente a minha frente.
  • Acho bom nós voltarmos logo para casa para fingir estarmos dormindo, pois já ouço a sirena da polícia chegando para tentar descobrir o culpado.
Danton, Felix e Euclides, não se esqueçam o que combinamos. Nada sabemos, nada vimos e ninguém nos contou nada, pois chegamos agora pouco de uma festa longe daqui e fomos dormir com o dia já clareando.
  • Esse é o álibi de vocês? Vão alegar ter chegado bem depois do ocorrido?
  • Exato. Se preciso for, temos vários amigos, já orientados que jurarão e testemunharão termos estado em outro bairro longe daqui até bem depois das quatro da manhã.
  • Nada mal.
  • Tchau. Temos que ir depressa.
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Novamente a policia esteve presente e como de costume nada desvendou.
A equipe de profissionais da zoonose também nada descobriu, entretanto sugeriu duas atitudes sensatas a serem efetuadas pelo proprietário da casa, que concordou com ambas.
A primeira seria chamar o pessoal do IBAMA para recolher os pássaros que não foram mortos e todos os outros animais para levá-los e readaptá-los a viver na natureza, pois só assim ficariam livres e longe do cruel assassino.
Embora o fazendeiro houvesse concordado com o pessoal da zoonose, fizera as coisas a sua maneira e não conforme a sugerida.
Mandou que seus funcionários abrissem as portas dos viveiros para os pássaros voarem para onde quisessem.
Instruiu também para que em grandes tanques de água recolhessem os peixes dos aquários e demais animais aquáticos dos lagos artificiais e os transferissem para sua fazenda em Minas Gerais onde deveriam ser colocados em açudes de criação.
Que reunissem todos os macacos, as cabras, os porcos, os pôneis, os coelhos, as avestruzes... Enfim todos os animais, com exceção dos cães e transferisse-os qual Noel fez em sua arca, para a mesma fazenda o mais rápido possível para viverem soltos em seus respectivos habitat.
Nessa mesma manhã começaram a providenciar tal mudança, cuja atitude tomada foi diferente da proposta pelos veterinários, mas foi dessa forma que o fazendeiro movido por sua própria vontade, mandou que fizessem.
Já tinha planejando isso desde o massacre das galinhas e esse novo atentado foi a gota d’água para ele fazer acontecer tal transferência.
Os pássaros soltos não voaram para muito além das imediações por total falta de conhecimento do mundo que os cercava, pois estavam confinados há muito tempo ou eram nativos no próprio local. Não sabiam exatamente como caçar alimentos, pois eles os tinham de forma sistemática oferecida pelo seu dono e muito menos imaginavam como se defender de agressores externos.
Em poucos minutos foram totalmente eliminados, por meninos na rua ou gatos da vizinhança.
Os demais animais felizmente não tiveram o mesmo destino, pois foram levados são e salvos para a fazenda de onde tinham vindo.
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A segunda sugestão dos médicos seria prontamente atendida conforme proposto e para isso a esposa do fazendeiro estava conversando com eles que lhes falavam que era necessário sacrificar Olga, pois ela estava com a doença do carrapato e por não ter sido diagnosticada tal enfermidade a tempo não haveria outra coisa a ser feita.
Foi exatamente ao ouvir isso que Nego atacou violentamente a senhora Zezé.
Vários profissionais da equipe da zoonose agiram rápidos e conseguiu contê-lo e colocar-lhe uma focinheira impedindo-o de qualquer ato.
O mesmo foi feito com os filhos do casal que rosnavam e se mostravam agressivos a ponto de atacarem seguindo o exemplo do pai.
Olga que acordou de seu desmaio proveniente de uma pequena melhora, ocasionada por algum medicamento recém aplicado, ao ver toda sua família naquela ridícula situação chamou o marido para uma conversa.
  • Meu querido. Primeiro quero dizer que hoje, ainda bem cedo fiquei sabendo da desgraça no viveiro das aves, mas isso me deixou até feliz por saber que tal feito não pode de forma alguma ter sido seu, o que me fez crer que da outra vez você também estava inocente. Confesso-lhe que sempre suspeitei que tivesse sido o causador da morte das galinhas, mas o que não estou entendendo são essas focinheiras em todos vocês.
  • Eu tentei atacar a velha gorda sardenta filha da puta.
  • Ficou louco?
  • Gostaria de ter sido mordido por algum rato ou morcego infestado do vírus da raiva para realmente ter ficado louco e ter conseguido o que apenas tentei e não consegui. Ela é perversa e mesquinha e não merece nenhuma morte a não ser a de ser comida viva por javalis selvagens.
  • Porque meu amor? Que morte horrorosa?
  • Ouvi toda a conversa dela com os veterinários da zoonose. Você está com a febre maculosa em estado terminal e não tem mais recuperação.
  • Mas isso é um absurdo, pois basta usar Frontline que é o produto recomendado por qualquer veterinário e o mais utilizado no mundo para controle de carrapatos em cães e gatos. Será que ela nunca o usou em nós?
  • Com certeza não, pois até ouvi-a dizendo que o tal médico que sempre lhe visita é apenas um rapaz amigo dela.
Não é médico veterinário porra nenhuma e nem farmacêutico, pois se trata apenas de um vendedor de remédios e cosméticos na farmácia da esquina. Nada entende de doenças e medicamentos. Sabe apenas olhar o nome dos produtos solicitados, na tela do micro para ver o preço e receber o valor.
Mal e porcamente aplica umas injeções. Coisa que qualquer um sabe fazer, principalmente em nós que nem usam nenhum dos cuidados que dedicam aos humanos.
  • Mas ele aplicava-me injeções e dava-me remédios, portanto ele deveria saber que fazia.
  • Sabia nada. Era tudo indicado e comprado pela velha gorda sardenta filha da puta, sem nenhuma prescrição médica.
  • Mas que absurdo. Pelo menos agora estou sendo assistida por veterinários verdadeiros e com certeza eles me recuperarão, não é?
  • Sabe que não sou muito adepto a mentiras, portanto vou falar-lhe tudo conforme está.
  • Já imagino por ver suas lágrimas rolando pelo seu rosto abaixo.
  • Pois é fato. Você sofrerá eutanásia, pois não há mais jeito.
  • Que bandida a tal Dona Zezé. Agora também acho que ela é uma velha gorda sardenta filha da puta, muito avarenta e cruel.
  • Muito em breve ela terá o que merece. Eu lhe prometo.
  • Os meninos sabem de tudo?
  • Sabem e não se conformam.
  • Agora concordo que devam continuar praticando todo o mal que alguém anda fazendo à eles, pois realmente merecem ser punidos.
  • Nossa vingança está apenas começando. Aliás, preciso lhe contar que o primeiro ataque para hostilizar o fazendeiro fui eu quem executou e deve ter outros insatisfeitos como eu que executaram o segundo e vou descobrir quem foi para nos aliarmos e iniciar com todas as minhas forças nossa revolta, pois agora já tenho também nossos filhos como aliados.
Ao saberem de como aconteceu seu infortúnio eles concordaram comigo e já são adeptos em tomar o poder dos humanos.
  • Agora eu também concordo embora nada mais possa fazer para ajudá-lo, mas digo-lhe que estou realmente muito orgulhosa de você por estar planejando a extinção dos homens de nosso planeta.
  • Vá tranqüila minha adorada e tenha certeza que nossa vitória será dedicada a você e logo todos saberão de sua existência. Assim como Luiz Carlos Prestes deixou sua esposa alémã Olga Benário famosa, no futuro não muito distante sua vida também será lida e assistida em filmes no mundo todo, minha alémanzinha querida.
  • Vou descansar um pouco porque me sinto muito sonolenta e creio que vou dormir.
  • É o efeito da injeção de calmante que lhe aplicaram. Assim que os veterinários visitarem toda a vizinhança voltarão e com você já dormindo irão aplicar-lhe o veneno letal que culminará com sua morte.
  • Eles não falam que se trata de eutanásia e sim de sacrifício, não é?
  • É a maldita discriminação deles para conosco.
  • Agora entendo sua revolta.
  • Somos inferiorizados até nas expressões corriqueiras, como por exemplo: As mulheres dos homens são suas mulheres e as nossas são nossas fêmeas. Quando elas estão querendo procriar estão em sua época fértil e vocês estão no cio. Ao se relacionarem sexualmente eles fazem amor e nós cruzamos. Ao estarem gestantes estão grávidas e vocês estão prenhas. Ao nascer os bebês delas é porque deram à luz e vocês pariram e não foi bebê. Foi a cria. Se forem vários filhos não são gêmeos ou trigêmeos como os delas. É ninhada e vai por aí a fora até culminar com o tal do sacrifício no lugar de eutanásia.
Eles não têm por nós o mínimo respeito ou carinho. Querem apenas que permaneçamos obedientes e fieis e até falam que somos os seus melhores amigos, entretanto jamais ouvi qualquer cão falar que tem algum homem como seu maior amigo.
  • Estou vendo que a velha gorda sardenta filha da puta está chegando com os veterinários e com certeza está chegando minha hora.
Adeus meu querido e boa sorte daqui para frente. Desejo que logo consiga arrumar outra companheira a qual fará sua esposa para no meu lugar ajudá-lo nos ensinamentos de nossos filhos. Adeus.
  • Não se vá, por favor. Você é o maior amor que sempre tive em toda minha vida. Fique conosco. Eu e os meninos vamos fazer o possível e o impossível para impedir seu assassinato.
  • Agora não se trata mais de homicídio, pois estou desenganada e nada mais poderão fazer. O crime já foi executado há mais de quinze dias.
  • Poderiam ter evitado chegar a esse ponto não é? Cretina de velha. Vou estraçalhá-la pior do que fiz com as galinhas. Não sei como, mas vou impedir que lhe matem.
  • Agora é tarde, mas vou continuar acordada pelo menos para irritá-los com a demora de meu sono.
  • Ficarei a seu lado conversando para ajudá-la nessa tarefa. Não sairei de perto de você até o ultimo instante e se preciso for morrerei junto. Os meninos também já fizeram esse juramento e vamos impedi-los nem que seja a chutes e cabeçadas.
  • Obrigada meu eterno amor.
Toda a família de cães ouviu quando o veterinário falou com Senhora Zezé, que o macho e as crias da cadela por estarem próximos e inquietos estavam impedindo-a de dormir para ele consumar o sacrifício e que ela deveria chamar alguém para afastar tais animais, que mais aparentavam feras selvagens e não amestradas como eram.
Escutaram também a cruel resposta da mulher quando disse que nem precisaria esperá-la dormir, pois era uma cadela velha e imprestável que só a aborrecia parindo filhotes e aumentando suas despesas com alimentação, remédios e eventualmente com vacinas. Que poderia aplicar-lhe a injeção com ela acordada mesmo, pois se houvesse qualquer sofrimento não se importava, pois até já estava de saco cheio dela.
Novamente viram e ouviram muito bem o veterinário insistindo para que pelo menos tirasse os cães de perto.
Ao desenrolar de toda conversa entre os humanos ficaram sabendo que tal profissional não estava em momento algum resguardando a eles o direito de não sofrerem ao assistir a matriarca morrer, pois concordava plenamente com a mulher do fazendeiro e foi mais além. Falou que eles não tendo sentimentos não iriam padecer e talvez até seriam capazes de comer as carnes da cadela se estivessem com fome e assim desejassem, mas devido aos seus enormes corpos e força que tinham e por ele ser estranho sentia-se amedrontado com suas presenças, mesmo com os equipamentos colocados em seus focinhos que os impediriam de morder.
Olga deu um pequeno gemido, que não foi de dor e sim de tristeza quando ouviu outra expressão discriminatória referente a seus rostos.
Novamente gemeu e desta vez alto e forte.
Abriu a imensa boca deixando a mostra seus maravilhosos e pontiagudos caninos em sinal de protesto ao lembrar-se ter ouvido que seus parentes seriam capazes de comer suas carnes. Odiou aquele homem, pois canibais eles não são, nunca foram e jamais serão.
Lembrou-se que canibalismo só existe entre os malditos humanos, que desde a pré-história até hoje, banqueteiam-se com suas carnes de péssimo sabor, ou simplesmente comem-se uns aos outros, por outras diversas formas de crueldade.
Recordou-se de inúmeros casos que tomou conhecimento dessa prática:
Em 1912, no Haiti (Caraíbas), um grupo de haitianos matou e comeu uma garota de 12 anos em uma cerimônia Woodoo.
Na mesma época em Nova Guiné a tribo Fore, da Papua para compensar as carências de proteínas passou a realizar um ritual onde os homens comiam os músculos enquanto as mulheres e crianças o cérebro de outros membros da tribo que já tinham falecido.
Em 1920 Albert Fish, americano, estuprou, matou e devorou várias crianças.
Em 1924 o alémão Fritz Harmann, conhecido como vampiro de Hannover, foi condenado pelo assassinato de 27 garotos. Ele fazia salsicha da carne dos meninos para consumo próprio e para venda.
Em 1972, um avião da Força Aérea Uruguaia, que transportava a Seleção de Rúgbi do país caiu na Cordilheira dos Andes e apenas 16 pessoas se salvaram. Elas confessaram que tiveram que comer os corpos dos que haviam morrido, para sobreviver.
Esse caso foi perdoado pela opinião pública humana e por todos os animais, pois não havia outra alternativa a eles.
Entre 1978 e 1990 o russo Andrei Chikatilo executou e comeu mais de 50 pessoas.
Em 1981 aconteceram os vários crimes de canibalismo do Dr. Hannibal Lecter, que...
Mesmo sentindo fortes dores, balançou a cabeça em sinal de auto repreensão, pois tal história era fictícia elaborada pelo escritor Thomas Harris, cujos filmes iniciaram com o Dragão Vermelho, mas que afinal de contas, graças a magistral interpretação do ator Anthony Hopkins serviram para a apologia e disseminação do canibalismo, muito em moda a partir de então.
Recordou-se que Nego desejou que Dona Zezé fosse comida viva por javalis famintos. Com certeza foi por influencia de uma das cenas dos filmes sobre Dr. Lecter.
Em 2002 a polícia alémã prendeu Armin Meiwers de Rotenburgo e encontrou pedaços do corpo de Bernd-Jurgen Brandes no frigorífico de sua casa, pois Armin devorava-o aos poucos. Deu-se até ao requinte de comer seu penis flambado.
Recentemente, no Mar de Beaufort, no Alasca, pesquisadores americanos que estudam a região, identificaram um caso inédito de canibalismo entre animais. Duas fêmeas, um macho jovem e um filhote de ursos-polares foram atacados e comidos por um grupo de machos. Tal fato ocorreu, pois o degelo está reduzindo o território de caça deles e muitos ficaram sem alimento.
A mudança radical de seu habitat, provocada pelo homem, foi a causadora do degelo e estimativas apontam que os ursos-polares podem desaparecer em vinte anos, graças aos feitos dos homens.
Lembrou-se que esse único caso acontecido entre animais, em todos os tempos e também perfeitamente perdoável como o dos atletas Uruguaios, foi provocado exatamente pelos humanos.
Sua última lembrança desses fatos que estão na internet para quem quiser ver, inclusive com várias fotos de assustar qualquer um foi sobre a prática aceitável em um país asiático, onde o consumo da carne de bebês está em moda.
Em Taiwan os bebês ou fetos mortos são vendidos por 50 a 70 dólares em hospitais e em supermercados para satisfazer a grande procura deles para grelhar em churrascos.
Fez suas últimas preces, fechou os olhos e partiu feliz por ter feito, pelo menos no momento final de sua vida algo contra seus grandes inimigos. Não permitiu que eles concluíssem sua morte como fizeram com a outra Olga. E principalmente salvara a vida de seus familiares que inevitavelmente iriam atacá-los, mesmo não tendo possibilidade de usarem seus caninos que são suas únicas armas e seriam fáceis presas nas mãos dos humanos assassinos.
Nego e os filhos permaneceram mais de duas horas chorando e orando ao lado da morta e só saíram quando foram laçados e arrastados para o canil por empregados da casa, que comentaram maldosa e covardemente que eles estavam esperando o corpo da cadela esfriar para comê-la.
Não havia mesmo como encontrar nenhum humano que pensasse ou agisse como animal, pois só tinham pensamentos maldosos e atos cruéis, próprios dos humanos.
Talvez pudessem encontrar tribos de índios ainda selvagens e decentes, mas seria difícil, pois no mundo inteiro já estavam contaminados pelos civilizados.
Não poupariam um sequer quando acontecesse guerra que agora era proposta por quatro elementos e não só por Nego.
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Depois do ataque que os gatos fizeram as aves do fazendeiro, as várias pombas que moravam nos altos telhados das mansões espalharam pela cidade toda que os cães e os gatos haviam se rebelado contra as aves, matando-as de forma insuportável e não pela simples necessidade fisiológica de se alimentarem.
Elas eram sabedoras e até concordavam que existem mortes que se fazem necessárias para manter a cadeia alimentar e o equilíbrio ecológico, mas jamais deveria ter acontecido daquela forma totalmente humana. Sem nenhuma necessidade. Apenas como esporte ou pelo simples prazer de matar.
Tal fato foi difundido por todo país e grandes aves como os falcões, os gaviões e as águias decidiram fazer justiça. Os vingadores eram aproximadamente três mil e através de um porta-voz, que evidentemente não foi nenhum falcão, pois suas presas preferidas são exatamente os pombos, procuraram saber de Branca, Cleo e Cíntia quais sujeitos haviam feito a matança para serem punidos.
Elas por serem as pombas que mais se destacavam entre todas por suas lideranças e por morarem exatamente sobre o local onde ocorreram os crimes, dos quais foram testemunhas oculares eram as mais indicadas para informá-los com exatidão.
O urubu que foi o enviado das grandes aves soube por elas que os culpados foram cães e gatos provenientes não se sabe de onde, pois não moravam na região.
Elas conheciam todos do bairro sem exceção e isentaram os verdadeiros criminosos da culpa.
A ave mandada perguntou onde encontraria os pássaros sobreviventes para saber deles quais foram os culpados e souberam que não permaneceram vivos mais que alguns minutos após soltos pelo fazendeiro.
As aves de rapina decidiram como desforra que cada uma delas mataria pelo menos 329 cães e gatos, que foi o número, entre galinhas e pássaros diversos as aves assassinadas friamente por tais raças de animais tão logo souberam pelo portador da resposta nada esclarecedora.
As amigas mentirosas foram recriminadas pelas demais pombas por não terem delatado os verdadeiros culpados e inclusive por tê-los protegido dos executores da vingança.
A justificativa delas foi por ter grande interesse em manter o cão e os gatos criminosos vivos, para descobrir exatamente o que os fez proceder daquela maneira.
Desconfiavam que algo muito estranho estivesse ocorrendo, pois cães e gatos são inimigos mortais naturais e pelos massacres ocorridos contra sua raça deixou-lhes a impressão de que eles estavam unidos para um determinado fim que aparentemente era exterminar as aves.
Se a vingança houvesse sido feita sobre eles como elas ficariam sabendo o motivo da guerra deles contra elas? E se houvessem outros cães e gatos matando aves pelo mundo a fora. Como se salvariam?
Teriam de conservá-los vivos para descobrirem tudo, pois as aves de rapina não saberiam investigá-los e por serem muito fortes com certeza sobreviveriam se todos os cães e gatos se voltassem contra todas as aves.
Elas que vivem em locais onde está infestado desses atuais inimigos seriam massacradas assim como os demais pássaros pequenos por não terem a força e o poder de vôo das grandes aves.
Foi questionado pelas amigas que seria difícil os cães e gatos destruí-las em virtude de não voarem como elas.
  • Acontece minhas queridas que os cães nos matariam se pousássemos no solo e os gatos nos estraçalhariam sobre as árvores e as casas, portando só nos restaria a condição de permanecermos eternamente voando, sem repouso e alimentação. Seria possível isso?
  • Vocês têm razão. Não sobreviveríamos. É melhor mesmo deixá-los vivos e conseguir que nos digam o que está acontecendo.
Foi com essa mentira que as pombas salvaram os cães Nego e seus filhos Príncipe, Mike e Lenon, assim como os gatos Gabrí, Felix, Danton e Euclides.
As aves de rapina obtiveram êxito em sua vingança, pois a partir de então filhotes de cães e de gatos além de animais adultos mesmo os de grande porte apareceram mortos pelo país a fora.
Quase um milhão de indivíduos foram içados por enormes garras e lançados sobre pedras ou em alto mar, incluído os que foram devorados pelas próprias aves predadoras.
Se fossemos contabilizar outros que foram assassinados em tocaias por corujas e urubus e os contaminados por morcegos hematófagos passariam dos sete dígitos.
Bastou apenas uma semana para a consumação da vingança e tudo voltar ao normal.
Não houve noticiários nas televisões e nem na imprensa escrita, pois esse enorme número de mortes foram espalhadas por toda a nação e não localizada em apenas uma determinada região e em seu maior número em fazendas devido a dificuldade das enormes aves efetuarem o serviço dentro das cidades.
Também porque não se tratava de notícias como as costumeiramente chamadas pela própria imprensa de “mundo cão”, pois tal mundo é relacionado ao sofrimento de homens e não dos cães, pois mortes e desaparecimentos desses animais são totalmente aceitáveis, permitidos e conceituados como normal.
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Todos os animais do zoológico particular tinham sido transferidos, ficando apenas os sobreviventes da família de Olga que iriam continuar suas tarefas de cães de guarda.
Ilesos e alheios ao que acontecia naquela semana Nego e seus filhos executavam seu plano de como viver na mansão.
O fazendeiro e sua esposa proibiram-nos de permanecerem soltos, pois passaram a temê-los e os mantinham acorrentados no canil durante o dia e só mandavam soltá-los a noite para que procedessem a seus afazeres de vigilância e segurança.
As reclamações dos empregados do casal passaram a ser constantes, alegando que os animais não alimentavam, não se sabe por que e que estavam transformando-se em verdadeiras feras e eles próprios sentiam ameaçados em lidar com eles.
Informaram que frequentemente os animais avançavam nos muros e nas grades da casa tentando atacar transeuntes e carros que passavam. Que os gatos do visinho sequer ousavam subir nos muros divisórios.
Eles atualmente eram uma grande ameaça a todos.
Os cães estavam assim de caso pensado, pois já haviam iniciado sua guerra particular contra a humanidade e já punha em prática o seu início.
Haviam combinado que por enquanto não atacariam ninguém, pois seriam mortos porque não tinham seu quartel general para se abrigarem depois de consumado qualquer ataque real. Nessa casa eles ficariam a mercê dos inimigos, por isso de forma já definida mostrar-se-iam ferozes, apenas ameaçando e amedrontando pessoas e fingindo não se alimentarem. Isso eles faziam as escondidas. O intuito deles era serem tirados de lá e enviados à alguma fazenda do homem rico onde ficariam soltos e poderiam formar e treinar seu exercito com todos os animais da terra que com certeza adeririam a causa.
Eles ficaram felizes, poucos dias depois, ao saber que o fazendeiro adquiriu em um pet shop um casal de filhotes de outros cães, pois concluíram que a brilhante idéia colocada em prática havia surtido efeito.
Enganaram-se redondamente, pois por mais que eles conhecessem os homens não conseguiam medir o tamanho exato da maldade humana.
O fazendeiro solicitou à equipe da zoonose a vinda de um determinado veterinário seu amigo antigo para examiná-los, pois conforme suas informações ao mencionado órgão eles estavam doentes, possivelmente com a raiva.
Combinou com o corrupto amigo veterinário, por uma determinada quantidade de reais a justificada morte daqueles animais, pois embora ele próprio tivesse a vontade e coragem de matá-los a tiros evitou tal coisa, pois tinha muitos empregados na casa e algum deles poderia delatá-lo a Sociedade Protetora de Animais e também pela difícil tarefa de desfazer-se dos corpos.
O trabalho seria como já feito em diversas ocasiões de forma limpa e legal, própria dos poderosos.
Todos os funcionários de tal repartição pública sabem da proibição pela SPA a qualquer pessoa que queira sacrificar animais que não estejam doentes terminais ou com raiva, mas o poder do dinheiro pode tudo e tal profissional já servia o fazendeiro em seus desejos durante anos, portanto as mortes de Nego e seus filhos estavam próximas.
Apesar de estarem presos por correntes nas cruéis coleiras com pontiagudos pregos que furavam impiedosamente seus pescoços também estavam com focinheiras, mas levaram vantagem na briga com os humanos que tentaram aplicar-lhes injeções de veneno.
Eles tinham a seu favor outros fatores importantes. Eram muito mais fortes, estavam em número superior e principalmente defendiam suas vidas.
O fazendeiro nada fez ao ver seu funcionário e o veterinário levar trombadas e violentos tombos provocados pela ira dos cães.
O empregado que mantinha suas mãos ocupadas segurando pelas correntes dois cães em cada, era arrastado e jogado de um lado para outro como uma inútil marionete e o nada valente médico levava fortes trombadas e cabeçadas das feras e não se mantinha em pé de forma nenhuma.
Entretanto a briga levou a exaustão não só os humanos, por isso Nego e os filhos em um momento de descuido deixaram os homens fugirem rapidamente para um lugar seguro.
Ironicamente eles se refugiaram para dentro do canil dos animais.
O funcionário do fazendeiro propôs deixar os cães vivos, pois ele próprio no dia seguinte como iria viajar para Minas, levaria os animais para lá e os deixaria as suas próprias sortes no mato, caso o gerente da fazenda não os quisesse.
O homem rico recusou, pois disse que com suas armas de fogo, ele próprio poria fim àqueles bichos, que os vigiava atentos impedindo-os ameaçadores de saírem do improvisado, hilário e nada cômodo esconderijo.
A ausência de um celular, pois o do médico caira no chão na contenta e jazia quebrado longe deles, não permitiu que chamassem reforços e se mantiveram enjaulados por longos trinta minutos até que finalmente tudo ficou resolvido.
A insistência do funcionário para que o patrão deixasse-o levar os cães vivos para longe culminou com sua concordância e também com suas libertações, pois a atitude de Nego de aproximar-se, docilmente e tentar lamber a mão de tal homem em sinal de agradecimento os fez entender que também os outros cães concordavam com tal proposta.
O cão não tinha a possibilidade de tal bajulação, porque estava como os demais de focinheira, mas a atitude e o gesto foram bastante esclarecedores aos humanos que só entendem três atitudes deles.
Quando estão com a orelha em pé, rosnando e babando estão na iminência de atacar.
Quando lambem as pessoas estão mostrando-se gratos por alguma coisa e quando balançam suas caudas é por estarem felizes.
Foi fácil enganá-los, pois além do gesto do pai, a postura dos filhos foi a de balançar suas caudas.
Os homens não entenderam o porquê dos cães ex-amigos que atualmente tinham se transformado em feras selvagens, terem comportado de forma tão amistosa.
Comentaram que por algum instinto selvagem pressentiram que não estavam mais ameaçados de morte e por isso acalmaram-se permitindo suas próprias libertações.
Nenhum deles percebeu que todos os animais riam, por saberem exatamente tudo que falavam e por terem sido vitoriosos nessa que foi a primeira batalha entre cães e homens, da grande guerra que estaria por vir.
Com absoluta certeza eles gargalhariam se suas anatomias lhes permitissem, por ver aqueles homens importantes ridiculamente presos em um canil e até certo ponto contentes por estarem lá.
Os animais estavam convictos que conseguiriam aniquilar toda raça humana na batalha final que aconteceria em breve.
Os cães tinham um grande trunfo, pois eles e todos os demais animais têm o dom de ouvir, falar e entenderem-se entre si e aos humanos ao passo que os homens nada entendiam de suas linguagens e isso facilitaria a guerra que se aproximava.
Aliás, os homens nem se entendem a si próprios, mesmo falando a mesma língua. Geralmente escutam e entendem apenas e tão somente o que lhes interessam ouvir e não o que lhes é dito.
Essa dificuldade humana começou a partir da tentativa da construção de uma torre na Babilônia pelos descendentes de Noé, com a intenção de eternizar seus nomes.
A decisão era fazê-la tão alta que alcançasse o céu.
Esta soberba provocou a ira de Deus, que para castigá-los, confundiu-lhes as línguas e os espalhou por toda a Terra.
Nenhum animal participou dessa ousadia por isso não foram punidos e continuaram até os dias atuais entendendo a linguagem de todos os seres vivos falantes e se comunicando entre si, exceto com os humanos por total incapacidade desses últimos.
Há quem diga que essa torre pertence a mitologia, mas suas ruínas ainda estão lá onde existia a cidade de Babel, capital da antiga Babilônia para quem quiser ver e constatar.
No outro dia foram levados para a fazenda cujo gerente, por telefone havia concordado em ficar com os animais de raça pura, pois reeducados seriam de muita serventia, na procriação com fêmeas de boa procedência para aumentar a quantidade e qualidade de filhotes a serem vendidos a preços exorbitantes.
Deu certeza que iria conquistá-los e reeducá-los rapidamente.
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Cleo, Cíntia e Branca com outras pombas, várias andorinhas e pardais que a tudo presenciaram, viajaram acompanhando pelo ar o veículo para descobrir para onde os cães estavam sendo levados.
Não precisaram demorar muito tempo na fazenda aonde chegaram para descobrir o porquê dos crimes de Nego.
Ele e os filhos que mudaram radicalmente seus comportamentos tornando-se dóceis ao administrador conseguiram ficar soltos e ao ficar livre dele a primeira coisa que Nego fez foi visitar o seu quase amigo Tonho que o recepcionou como sempre cabisbaixo.
O porco recebeu-o receoso e assustado, mas foi tranqüilizado pelo cão que disse pretender conversar de forma totalmente amigável sobre um assunto importante e de grande interesse aos animais.
Contou-lhe sobre sua vontade e soube pelo agora realmente amigo sobre a façanha dos gatos cuja idéia fora dele.
Tonho disse que levaria pouco tempo para ele e Fuzarca convencerem seus iguais a aderirem a causa, pois acreditava ser rápida a aceitação porque todos estavam fartos de serem ceias dos homens, principalmente nos finais de ano.
Foi nesse encontro que Nego informou que pretendia ser amigo de todos, inclusive dos gatos, pois deveriam unir-se para o bem de todos e convidou Tonho a ajudá-lo nos planos em virtude de sua raça ser entre os animais considerados como os mais cabeças, pois figuravam entre os de maior cérebro.
O porco agradeceu tal elogio e comentou que através de Bororó e sua equipe rapidamente conseguiriam adeptos por todas as florestas do país, devido suas facilidades de locomoção sobre as árvores.
Nesse momento, foi Branca quem entrou na conversa, informando-os que faria o trabalho entre os pássaros informando a todos que participassem da queda dos humanos e se dispôs em voltar voando à cidade de onde havia saído para avisar a Felix e seus amigos o que estava acontecendo para que eles também viessem para Minas reunir-se com eles.
Os quatro gatos não foram avisados pelas pombas e nem por nenhuma ave pequena sobre o que estava acontecendo, pois elas tinham medo deles porque eles ainda não participavam da trégua combinada na fazenda de Minas entre os lideres e suas raças.
Por intermédio de uma coruja amiga Branca mandou o recado às aves de rapina, também suas predadoras para que levassem urgente os gatos até a fazenda para se encontrar com o cão Nego, sem dizer exatamente qual o motivo para nenhum dos envolvidos. Explicara somente que era necessária a total segurança deles para o bem de todos os animais.  Ela e algumas amigas iriam à frente para orientá-los e ao chegar lá todos ficariam sabendo do que se tratava.
Os falcões que já haviam terminado sua vingança contra os cães e os gatos agiram conforme solicitado pela pomba com a qual até já simpatizavam pelos seus feitos sem sequer ainda a conhecer pessoalmente.
Os gatos viajaram desconfortavelmente pelos céus durante várias horas, içados que foram por quatro enormes falcões sem nenhuma conversa.
Quando foram soltos com vida perto do chiqueiro dos porcos, vomitando pela inexperiência em voar e trêmulos de medo, borraram-se todo ao serem colocados frente a frente com o assustador e conforme viram na mansão, atualmente muito mais feroz cão e seus filhos.
Os macacos comandados e liderados por Birigui já estavam fazendo rapidamente seu trabalho de conseguir reunir e convencer todos os símios para a revolução. Apenas Bororó com as fêmeas que amamentavam filhotes estavam próximos ao chiqueiro, mas riram tanto do desespero dos gatos que fizeram todos dispersarem rápido porque o grande alarido chamou a atenção de vários vaqueiros ao local.
O quarteto de felinos nada entendeu e fugiram assustados, mas sem saber para onde, pois não conheciam a região.
Esconderam-se em uma gruta, pois imaginavam que iriam levar uma grande surra de Nego. Trêmulos dentro do buraco permaneceram por alguns minutos. Repentinamente apareceu-lhes à entrada da caverna um enorme pit bull.
Choraram copiosamente, pois descobriram que não iriam apenas apanhar. Seriam impiedosamente destroçados, principalmente porque atrás daquele assustador animal entraram mais dois sem orelhas e sem rabos, da mesma raça, ferocidade e feiúra.
Os cães lhes deram boas vindas e explicaram-lhe a união entre os animais. Falaram que em pouco tempo Nego havia convencido-os da permanente amizade que reinaria entre todas as raças de animais e sua conseqüente união definitiva para destruírem os humanos e apossarem-se do comando da terra.
Logo na primeira reunião em caráter de extrema necessidade e urgência Nego havia decretado o primeiro ato institucional com dois itens que determinava:
(1º.) Que todos os animais brasileiros ficassem amigos imediatamente.
(2º.) Obediência total e irrestrita, sempre com urgência e sem nenhuma discussão aos desígnios de Nego, chefe da nação animal.
Salvos e sujos os gatos riam e choravam ao mesmo tempo, por saberem que todos eram seus amigos.
Unanimemente todos os animais do ar e da terra reconheceram Nego como seu comandante e aderiram à guerra submetendo-se às regras dele, quaisquer que fossem sem reclamação.
Ele enviou oficialmente e com urgência várias gaivotas, petréis mergulhadores, pelicanos, biguás e albatrozes para a Patagônia para conseguirem que os pingüins se comunicassem com todas as espécies marinhas conseguindo que eles aderissem à causa animal e para tal já enviou suas exigências imediatas que era o AI 1.
Tais aves ao entrarem em território Argentino e em águas no alto mar, evidentemente não pertencentes ao território brasileiro, mantiveram suas inimizades com os peixes e não infringindo ao ato institucional em vigor, comia-os como sempre fizeram.
Por tais ocorrências a marinha teve suas dúvidas na união que julgou unilateral e como resposta mandou informar que precisaria pensar muito para decidir.
Sem que o poderoso cão comandante soubesse qual era o empecilho continuava aguardando, sem tomar nenhuma providência contra as aves marinhas que se alimentavam as escondidas em além-mar de peixes não brasileiros.
Enquanto aguardava a demorada resposta foi dando prosseguimento aos seus projetos em terra.
Formou seu ministério, composto com os gatos Felix e Euclides, os macacos Bororó, Prego e Birigui, as pombas Branca e Cíntia, os porcos Tonho e Fuzarca, os falcões Rei e Rex, a águia Ema, as onças Pintura, Felina e Aquarela, os cães Amigo, Dócil e as cadelas Eva e Mansa.
Os porcos e os pitt bulls que moravam na fazenda teriam de fugir de lá e mudar-se com ele para as matas. Os gatos e as pombas que vieram da cidade concordaram em ficar e os demais já pertenciam às matas e montanhas da região.
Os ministros teriam cada um, uma grande pasta à zelar e comandar, mas tal idéia imediatamente foi modificada e o ministério foi dissolvido antes mesmo de ser instalado. Ninguém tomou posse de nada e eles ficaram apenas como assessores permanentes do cão.
Os demais animais do mundo comporiam o segundo escalão e seriam os assessores provisórios quando convocados ao ser necessário.
Logo no segundo dia as reuniões entre os vários adeptos a causa já eram constituídas de grandes multidões e seus encontros deveriam mudar para longe da fazenda para não ficar as vistas dos homens que poderiam descobrir-lhes os planos.
Os macacos mais conhecedores das matas indicaram um excelente local com mina de água translúcida, muita vegetação e grandes arvores frutíferas. Era um verdadeiro éden, situado em um grande vale entre rochas altíssimas povoadas pelas aves de rapina, que fariam a permanente vigilância. Os falcões confirmaram ser o local propício, pois habitavam lá.
Nego falou com seus filhos para que eles permanecessem na fazenda para vigiarem os humanos e que lá ficassem até que os chamasse, pois ele iria para tal local na floresta longe de todos para ser lá o seu quartel general.
Apenas Nego e seus assessores perpétuos ficariam morando no local e seria permitida a entrada se necessário fosse de todos os animais do planeta, entretanto somente quando ele os chamasse para reuniões.
Todos deveriam permanecer em seus locais habituais onde receberiam todas as informações importantes.
Tal qual o austríaco Hitler motivou para sua guerra o povo alémão, um pastor alémão gritava a altos brados à maciça população brasileira de animais.
Sua guerra seria popular e com a participação de toda a nação, entretanto não haveria quartéis, comandantes, tropas independentes e nem lideres de facções. Ele seria o único no comando e decisões.
Com o passar dos dias Nego já havia promulgado mais três atos institucionais que os animais acatavam e obedeciam fielmente, pois ele agradava multidões com seus inflamados discursos.
O segundo ato criado orientava e exigia de todos os animais o seguinte:
a) Estava definitivamente proibida todas as atitudes agressivas entre eles e contra os humanos até que tudo estivesse definido, organizado e devidamente autorizado por Nego, comandante geral para o ataque aos humanos.
b) Todos prestariam obediência a todo e qualquer enviado do chefe da nação animal que se identificaria devidamente.
c) Sem nenhuma exceção e de ambos os sexos com idade a partir da adolescência participariam dos treinamentos de guerrilha.
O terceiro ato regulamentava sobre a alimentação.
a) A alimentação seria a base de insetos, capim, ervas, frutos, água que poderiam ser obtidas pelo próprio indivíduo direto e a vontade na natureza.
b) leite e ovos somente com vales refeições fornecidos diretamente por Nego que controlaria seu consumo ou pelos assessores que ele determinasse.
O quarto ato exigia que se alguma pessoa tivesse conhecimento de qualquer viagem, atitude, gesto, ato, conversa, decisão, deliberação, ordem, ou qualquer informação por mais insignificante que possa parecer de seu chefe maior, deveria manter segredo absoluto e permanente, excluindo-se os casos em que ele próprio ou portador por ele indicado oficialmente, determinasse a divulgação.
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Nego em seus contundentes discursos geralmente alegava ter havido inicialmente a morte das aves, mas que era de extrema necessidade para ser livre de sua escravidão, para poder agir.
Esclarecia em altos gritos que em toda e qualquer situação de emergência, para se conseguir consertar qualquer problema grave em uma nação alguns dentre a multidão deveriam pagar seu preço no qual foi exatamente sua raça quem mais pagou, pois foi próximo de um milhão de animais que foram mortos, com seu devido perdão aos que praticaram a matança.
Alegava que naquela ocasião em que as aves de rapina atacaram, os gatos muito mais leves e rápidos em sua maioria conseguiram se safar e os de sua raça não tiveram a mesma sorte, por isso quase que a totalidade dos mortos teriam sido cães.
Lembrou a todos que não houve e nunca haverá por parte dele uma só retaliação contra as aves de rapina ou outra qualquer, pela morte deles.
Águias, falcões, abutres, gaviões, urubus e corujas presentes concordavam com tal acontecido e eram as primeiras e as que mais aplaudiam Nego em tais discursos.
A multidão ovacionava-o e já o considerava um Deus.
Seus ardentes discursos inflamavam os bovinos, pois lhes gritava declarando que não mais puxariam pesados arados nas fazendas dos homens. Não seriam mais alimentos de ninguém e viveriam até a velhice, coisa que poucos sabiam como era, pois dificilmente chegavam a idades avançadas.
Suas mulheres após a revolução só teriam de fornecer seu leite aos seus próprios filhos e não aos dos humanos.
Os cavalos deixariam de ser burros de carga dos homens. Não mais seriam escravizados e obrigados ao transporte nem de carga e nem de passageiro.
As pombas não prestariam mais nenhum trabalho difícil de voar para longas e cansativas viagens transportando suas cartas e recados na maioria das vezes sem nenhuma necessidade.
Os porcos não seriam mais ridiculamente reduzidos a torresmo.
As galinhas teriam seus ovos postos apenas para o destino que a natureza determinou. Para a geração de seus filhos.
Era impossível não acreditar naquele cão de voz grossa e alta com surpreendente poder de persuasão.
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O tempo passava rápido e a dificuldade era em conseguir que os animais aquáticos aderissem ao levante e a demora aborrecia alguns participantes que se julgavam importantes, mas não houve dissidentes. Talvez pelo temor ao AI 5 já em vigor e que instituiu a pena de morte a qualquer insubordinação ao comando.
Apenas algumas zangas escondidas e nada mais.
O mais ranzinza era o porco Tonho que em certa conversa com seu amigo Fuzarca falou:
  • Geralmente eu quem tenho as melhores idéias estou relegado ao segundo plano. Não tenho nenhuma vocação para ser Che Guevara, mas já estou pensando seriamente em deixar tudo e partir para outras terras. Talvez aqui na América do Sul mesmo.
  • Desculpe-me meu querido “Ernestito”, mas o que pretende é exatamente o que ele fez. Viu no que deu? Os Castros estão até hoje no poder e ele?
  • Foi só um pensamento bobo. Impensado até.
  • Então deixe dessas bobagens e continuemos unidos a Nego que tudo dará certo.
  • Mas eu sou imensamente mais competente que ele. Eu já teria atacado os humanos há muitos anos.
  • Mas não tendo o poder de sua oratória para dominar as massas conseguiria reunir todos para tal causa como ele fez?
  • Isso é verdade, mas estamos perdendo muito tempo em iniciar a revolta. Não sei o que ele quer mais além do que já conseguimos. Todos os animais da terra e do ar já estão unanimemente unidos graças a seus inflamados discursos.
Nosso exercito muito bem treinado, pois por minha idéia todas as raças ensinaram o que foi possível às demais a fazerem o que cada uma faz de melhor. Para que precisamos esperar mais?
  • Ele já tem a nosso lado o exercito e a aeronáutica, mas quer unificar todas as armas. Só vai dar inicio ao massacre quando conseguir convencer a marinha também.
  • Para que? Não acha que está querendo poder demais?
  • Conforme ele diz correremos o risco dos humanos aliarem-se aos animais dos rios e dos mares e ficarem mais fortes que nós. Faz sentido tal pensamento.
  • Não sei. Já estamos há muito tempo só nos organizando e bolando planos e nada de efetivo foi concluído. Afinal qual é a serventia da marinha?
  • Já disse. Sua idéia é unificar todas as armas.
  • Idéias, idéias e mais idéias. Várias delas já foram mal sucedidas. Lembra-se quando ele determinou que os macacos roubassem computadores e celulares, para através deles se comunicar a distância pela internet?
  • Sim me lembro. Foi realmente péssima.
  • Eu não soube da pilhagem antes de acontecer, mas consegui a tempo convencê-lo de desfazer das máquinas antes de serem usadas, pois poderíamos ser descobertos exatamente através delas pelos humanos que não se desgrudam de seus micros e telefones e sabem manuseá-los com muita facilidade. Eles nos interceptariam com a maior facilidade.
Outra idéia idiota dele foi de tentar unir todo o planeta e perdeu anos nessas manobras. Foi com muito custo também que o induzi em pensar por enquanto só no Brasil.
Foi difícil convencê-lo que nosso sucesso, num futuro próximo seria exemplo para o restante da terra promover seus próprios levantes e todos se libertariam como nós.
Poderemos até vir a ser exportadores de conhecimentos, técnicas de guerra e armas.
Mas não, ele tem a idéia fixa de ser o dono do mundo. Quer o poder sobre toda a terra e não estou gostando como estão caminhando as coisas.
  • Você sabe muito bem que ele não gosta de suas intromissões e só as aceita porque reconhece sua maior competência, mas cuidado porque em algum dia num momento de descontrole ele pode acabar com você. Sei que ele morre de inveja de sua competência. Tome muito cuidado com o que você faz ou fala para escapar do AI 5.
  • Eu não farei nada. Estou apenas conversando com você, mas é claro que ele deveria colocar no poder junto dele muitos outros e não ficar só e trocando a todo instante seus assessores. Essa estratégia é totalmente errada. Acho que ele tem é medo que lhe tomem o comando que quer apenas para si.
  • Acho que você está até certo pensando assim, entretanto não só a idéia principal como seus atos colocaram-no no pedestal que está e de lá não pode cair.
Pode ser também que ele não queira mais pessoas no comando para não acontecer outros palpites infelizes como os do caso dos micros e dos celulares que não foram idéias dele e sim de subalternos e também para não haver vazamento de informações, que é muito comum em todo governo permanente.
  • Tenho medo não é de vazamento de informações e sim de esvaziamento de adeptos.
  • Está enganado, pois até crianças ainda pequenas querem lutar ao lado de seus irmãos mais velhos e de seus pais.
  • Tomara que esteja certo, mas eu desconfio que na verdade ele não quer mais fazer nenhuma guerra.
  • Como assim?
  • Acho que ele já conseguiu o que queria.
  • O que?
  • Ser o rei dos animais. Não percebe que ele já tomou tal título dos leões que nem reclamam?
  • E desde quando tem leões nas matas brasileiras? Só existem em circos e zoológicos e trazidos da África. Só vivem de bucho cheio e fazendo o que seus tratadores mandam.
  • É mesmo. Dei mancada.
  • A propósito. Eles são reis de que? Essa besteira foi inventada pelos humanos e nem sei por quê. Os preguiçosos só fazem é comer, bocejar e dormir. Nem sequer caçam, pois são suas mulheres que fazem isso, além de surrá-los quando os descuidados machucam os filhotes. Não mandam nem nelas. Que reis são eles?
  • Okey. Errado ou não o título ao leão, continuo achando que o Nego está satisfeito com seu poder e nem quer mais fazer nenhuma guerra. Está confortavelmente instalado como o rei das selvas brasileiras. O Tarzan animal.
  • Deixe de besteira e vamos dormir que já é tarde e na nossa idade não dá para perder noite de sono a menos que seja para uma orgia com algumas leitoazinhas de leite.
  • Seu porco chauvinista e pedófilo.
  • Eu não sou o padre Félix Barbosa Carreiro.
Rindo das brincadeiras foram dormir o sono dos justos.
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As propagandas da guerra continuaram ano após ano e Felix, Gabrí e Danton lembravam-se com saudades do companheiro Euclides que havia sido encontrado morto anos antes.
Recordavam que ele não se conformava, conforme dizia, em ser apenas um entregador de recados.
Ele reclamava constantemente, termos sido nós os principais no levante que estava sendo preparado. Argumentava que tudo aconteceu de fato somente a partir do ataque aos pássaros idealizado por ele.
Que somente o massacre às galinhas feito por Nego, isolado não levaria a nada, pois o cão naquela época não falou e nem falaria com ninguém, simplesmente porque sabia que sequer seria ouvido.
Lembraram que em suas conversas, Euclides insistia que tudo aconteceu após seus feitos e que ele não era nenhum Tiradentes para ficar apenas levando recados de lá para cá e vice versa e acabar enforcado.
Eles acalmavam-no dizendo que deveriam ser gratos por terem sido chamados para permanecer junto ao chefe, que por sinal a partir de então e até atualmente continuava amigo.
Rememoravam que quando comentavam que eles no comando não teriam nenhum poder sobre os poderosos cães, por sinal seus maiores predadores e atualmente carne e unha com as donas das maiores unhas do mundo que eram as aves de rapina, também apreciadoras de suas carnes deixava-o trêmulo e assustado.
  • Euclides você já conheceu suas garras de perto. Esqueceu daquela viagem maravilhosa?
Tal pergunta feita por Felix sempre fora o suficiente para acalmar o magricela e medroso Euclides que entendia muito bem que o lugar que conseguiram só em ser convidado e trazido de longe para assessorar Nego já estava ótimo e despedia deles para ir visitar seus visinhos que era uma grande família de ratos amigos.
Entretanto os gatos amigos ainda choravam de tristeza a falta do líder embora já houvesse passado muito tempo.
Para a posteridade foi divulgado que quando Euclides em serviço de levar recado à um grupo de felinos no pantanal, por algum descuido, talvez provocado pelo cansaço da viagem, foi devorado por ariranhas do Rio Miranda.
Tais animais consideravam-se aquáticos e não respeitavam os atos institucionais.
Souberam tratar-se de Euclides, pois foi encontrado por alguns urubus que não mais podiam comer restos de mortos, quando faziam suas rondas na região e sobrevoando próximos ao local da tragédia viram um esqueleto descarnado com aspecto de recente.
Foram averiguar e confirmaram ser esqueleto de felino de porte pequeno, bastante semelhante a um gato, que foi devorado por ferozes ariranhas.
Durante alguns dias ficou a dúvida se era mesmo o Euclides ou não, mas foi confirmado ser ele pelo seu misterioso desaparecimento sem sequer informar às onças do pantanal mato-grossense o recado levado, embora naquela época tenha sido visto por lá.
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Em tal ocasião, Bororó havia sugerido ao chefe do comando que todo emissário que fosse prestar algum serviço onde houvesse algum perigo deveria ir escoltado por aves pelo ar para evitar tais desventuras e obteve uma resposta enérgica que se fosse para elas escoltarem outros, elas próprias levariam os recados como na maioria das vezes já faziam.
O chipanzé era outro descontente, pois se julgava como os anteriores ter maior direito em decisões sobre o poder instalado.
Havia há muito tempo, transferido a liderança de seu grupo natural ao primo Birigui, para se dedicar inteiramente ao levante, mas raramente suas idéias eram acatadas e colocadas em prática, embora como ele próprio fazia questão de dizer que por ser um dos animais mais inteligentes da terra teria de ser ouvido com mais freqüência. Que suas sugestões competentes e sábias nunca eram aceitas por medo de rivalidade.
Reclamava que por ele ser muito brincalhão não recebia a atenção merecida e que não estava nada satisfeito em continuar sendo considerado apenas o bobo da corte, pois não tinha vocação para ser nenhum Arlequim ou Pierrô.
Birigui em tom de brincadeira sempre o repreendia lembrando-o que agora era ele quem exigia respeito por ser o atual líder do grupo familiar e principalmente pelo perigoso AI 5 que acabaria com sua vida se continuasse manifestando desejo em discordar das ordens de Nego.
  • Agora que você é o chefe de nossa tribo vou respeitar suas ordens e obedecê-lo poderoso chefão.
Sempre com essa frase brincalhona terminavam as inquietações de Bororó que saia dando gargalhadas e correndo em disparada para ir voar pelos cipós das árvores altas, fazendo malabarismos com as mãos, os pé e a cauda.
Era evidente que ele não acatava a sugestão do amigo por obediência de liderado e sim pelo pavor de ser morto pelo AI 5.
Mas foi.
Isto é. Não foi exatamente morto. Ele morreu por acidente de trabalho causado por sua total desatenção ao saltar de um cipó imaginando haver outro pela frente e nada encontrando esborrachou-se nas pedras onde moravam as águas e os gaviões uns cinqüenta metros abaixo de onde pulou no vazio.
Estava em uma missão oficial sigilosa cuja determinação havia sido do próprio Nego, que mandou fazer seu enterro com honras de herói assim como havia feito anos antes, simbolicamente ao gato Euclides, cujo corpo nunca foi resgatado.
Todos os animais acreditaram que sua falta de juízo, pois vivia brincando e desatento, além de sua visão ter ficado fraca devido a idade já avançada, foram os causadores do acidente.
Oraram por ele e aceitaram a explicação do acidente.
Somente os símios duvidaram dessa história que foi oficialmente divulgada, pois sabiam exatamente tudo que eles eram capazes. Tal estupidez não ocorreria nem se fossem totalmente cegos.
Mesmo que houvesse soltado das mãos no salto ao verificar o erro facilmente se agarraria novamente no mesmo cipó ou em algum galho da arvore com os pés ou mesmo com a cauda evitando a queda.
Para eles isso era rotineiro e muito comum acontecer e jamais houve nenhum acidente desse tipo registrado na história.
A bem da verdade era a brincadeira favorita do macaco Bororó.
Passaram a ter muitas dúvidas também do acidente de trabalho do gato Euclides, já esquecido pela maioria, pois o AI 5 impedia à todos até de pensar.
Eles eram os únicos a terem absoluta certeza de que o acidente de Bororó nunca existiu. Foi fabricado e provavelmente o do gato Euclides também.
Mesmo tristes continuaram suas vidas brincalhonas saltando de galho em galho, propositadamente sempre fingindo terem errado os saltos com as mãos, para em seguida agarrarem outro galho ou cipó com os pés ou com a cauda.
Não falaram à ninguém sobre tal facilidade de isso ser feito, mas mostraram claramente que o acidente de Bororó era falso. Até as crianças de tenra idade acompanhava os adultos e os velhos na prática de tais brincadeiras.
Jamais alguém comentou haver entendido o recado, porém eles cumpriram sua parte mostrando o engodo.
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Nego não iniciava a revolução mesmo tendo passado 25 anos e por estar tremendamente preocupado com toda essa demora, Tonho foi até a fazenda falar com Lenon, filho mais velho do cão.
Encontrou todos os rapazes muito felizes na varanda da casa do administrador e conversaram longamente até que o trio de irmãos, mesmo sem ser chamados, decidiu ir até a presença do pai ter uma conversa séria com ele.
Viajaram com o amigo, que os guiou até o esconderijo na mata. Lá chegando foram bem recebidos, mas severamente repreendidos por não terem esperado sua solicitação para virem até o quartel general. Deveriam permanecer entre os homens e mandarem informações apenas pelos pombos sobre o que acontecia nas cidades, principalmente na capital do país que seria o local a ser invadido em primeiro lugar.
Conversaram por longo tempo:
  • Pai preste muita atenção no que temos a dizer. É urgente que inicie logo essa guerra, pois o país está passando por sérios e graves problemas que poderão nunca mais ser solucionados e para ser correto digo-lhe que tudo está sendo ocasionado por você.
  • Que atrevimento é esse Príncipe? Falar assim comigo como se fossemos iguais.
  • Não era essa a principal idéia de sua guerra? Que todos fossem iguais a você?
  • Você também está se rebelando Mike?
Lenon você que é o mais velho nada fala com esses pirralhos insubordinados?
  • Sinto muito pai, mas para ser franco eu concordo plenamente com eles, pois a situação já se tornou insuportável.
  • Que situação é essa?
  • Já lhe enviamos muitos portadores com notícias e pelo que nos consta nenhuma providência foi tomada.  Seu ato institucional que transformou todos os animais em vegetarianos está trazendo muitos transtornos.
Ratos, coelhos e muitos outros animais de rápida procriação estão proliferando de tal forma que tropeçamos neles a todo instante.
As pastagens estão desaparecendo assim como todas as plantas, pois conforme noticiários da TV e dos jornais os animais estão comendo, além dos frutos, suas flores, folhas e até raízes. As sementes mal germinam e logo seus brotos desaparecem porque eles comem tudo. O Brasil está um caos não só porque os animais comem toda a vegetação, mas também porque está havendo escassez de água.
As florestas estão acabando muito mais rapidamente que quando o homem desmatava com queimadas e cortes ilegais de árvores. Já existem muitos desertos pelo Brasil afora.
Os humanos até que tentam fazer alguma coisa. Inutilmente plantam novas árvores que desaparecem rapidamente. Bombardeiam as nuvens para fazer chover, mas o indiscriminado nascimento dos animais é tanto que estão devorando tudo que nasce e bebendo toda a água.
Sem que você jamais imaginasse sua revolução já está fazendo muitas vítimas entre eles, mas não da forma que você pretendia. Na verdade você está fazendo uma revolução contra o planeta e não contra seus habitantes humanos. Tudo sucumbirá em pouco tempo.
  • Vocês não sabem o que falam.
  • Pai. Nós é que temos de lhe perdoar porque é você quem não sabe o que faz.
  • Seus moleques atrevidos. Olhem ao redor. O campo está florido, com as matas exatamente como sempre foram e os rios fluindo água normalmente. Não está existindo nenhuma catástrofe.
  • Só aqui em sua fortaleza onde moram poucos animais.
  • Aqui moram todos os que encontrei e seus descendentes nascidos depois, portanto a população atualmente deve estar enorme e nada do que falaram está acontecendo.
  • Errado, pois muitos que ficaram com você já morreram e a grande maioria dos nascidos depois mudou-se, ou por vontade própria ou expulsos pelos próprios pais por não concordarem com suas leis.
  • Está falando besteiras uma atrás da outra Lenon.
  • Creia em nós pai. Não estamos exagerando em nada. Tudo que falamos é a pura realidade. Dê uma volta pelo país que verá o que está acontecendo.
  • Se o que falam for verdade o que devo fazer então seus sabichões?
  • Acabar urgente com esses decretos.
  • Para todos voltarem a ser canibais e antropófagos? Todos os animais sairão comendo-se uns aos outros por ai a fora?
  • Acho que não entende exatamente o que significam tais termos.
Saiba que antropofagia significa alimentar-se de seres humanos.
São raros os animais que os atacavam para comer. Apenas jacarés, tigres, onças e alguns outros e mesmo assim se eles se sentissem ameaçados por eles.
Jamais algum animal procurou os humanos para caçá-los. Nunca os atacavam por simples prazer o que até seria bom para sua causa se fosse assim.
Entre os homens existe tal prática com muito maior freqüência e isso sim que além de antropofagia é também canibalismo, porque canibalismo significa comer um ser da mesma espécie e simplesmente nenhum animal a não ser o homem faz isso.
  • As onças não comiam os ratos, os coelhos e os preás? As aves de rapina não se alimentavam de aves pequenas e de animais de médio e pequeno porte?
As onças não caçavam para comer os veados, os coelhos e muitos outros? Isso não era uma carnificina que deve continuar não existindo entre nós?
  • E lógico que o errado é como está agora e não como antes. A alimentação deve continuar como sempre foi antes de suas leis. Os animais carnívoros devem permanecer se alimentando de suas presas preferidas. Tudo faz parte da cadeia alimentar e da permanente manutenção e controle do eco sistema.
Meu pai, seus atos estão destruindo todo o equilíbrio até então existente e acabando com a biosfera terrestre.
A destruição do planeta que os humanos fazem lentamente e em menor escala agora está terrivelmente acelerada e sendo feita pela irresponsabilidade de apenas um elemento que é você.
  • Está louco?
Os irmãos a um só tempo responderam ao pai:
  • Quem está louco é o senhor.
  • Até hoje, passados muitos anos da implantação do AI 5 não houve um animal sequer que foi condenado à morte, mas se vocês não se desculparem e calarem imediatamente serão os primeiros.
  • Fique a vontade e faça cumprir suas determinações se assim desejar.
Foi a resposta em coro.
Os jovens cães corriam sério perigo, mas não estavam dispostos a abrir mão de suas sugestões corretas mesmo que para isso fossem condenados a morte, mas o porco Tonho que assistia a tudo escondido, rapidamente apareceu de surpresa solicitando uma urgente audiência com Nego, antes dele decretar a pena de morte aos filhos.
Nego, que não sabia da presença oculta dele interrompeu e encerrou sua conversa com os filhos para evitar testemunhas que suas ordens estavam sendo questionadas por seus próprios filhos.
A solicitada audiência era para o porco informar que soube que pessoal do mar iria finalmente enviar a resposta definitiva sobre sua participação através da tartaruga Rosa.
Nego pediu que ele aguardasse um pouco, pois tinha de sair rápido por algo urgente a fazer. Regressaria logo.
Sem que ninguém visse enviou um urubu às altas montanhas para solicitar a presença dos três maiores e mais fortes falcões, pois teria um serviço especial para eles executarem.
Lenon, Mike e Príncipe ainda pretendiam terminar o assunto com o pai tão logo ele voltasse, mas foram impedidos pelo hábil porco que havia solicitado conversar em particular com Nego e pediu que os cães fossem visitar seus antigos amigos deixando o assunto entre eles sem terminar e consequentemente sem nenhuma atitude drástica que estava prestes a ser tomada.
Enquanto aguardavam a volta do cão o porco falou aos rapazes.
  • Não adianta meninos. Nada o fará mudar de idéia, mas para vocês preservarem suas vidas não entrem em conflito com ele, que é intransigente.  Creio que a partir de alguns dias as coisas mudarão, pois já sei que a notícia que virá através de Rosa é que o pessoal da marinha não o apoiará e então ele terá de decidir o inicio do combate contra os humanos sem ela.
  • A marinha resolveu assim?
  • Sim. Por isso aconselho-os a nada mais discutirem sobre o certo ou errado e voltar para suas vidas na fazenda.
  • Não. Nós ficaremos e daremos todo o apoio a nosso pai, pois sua decepção será muito grande ao saber disso.
  • Como vocês quiserem, mas não criem caso com ele, pois acho que ao receber a notícia, finalmente ele fará desencadear a guerra apenas por terra e ar que já está de bom tamanho. Seremos facilmente vitoriosos mesmo sem a marinha que até acho que nada nos ajudaria. Eles não sairiam das águas para vir combater os humanos que estão em terra e os humanos jamais iriam atacá-los no mar, pois estarão envolvidos em se defender de nós, mas isso nunca entrou na cabeça dura de Nego.
Talvez amanhã ou depois chegue oficialmente tal comunicado que eu soube pela gaivota Marina.
  • Então ainda não está confirmado? Não pode ser fofoca?
  • Não. Já está decidido e confirmado por eles. Eu soube informalmente por ela que esteve em alto mar na última reunião deles, mas como ela não faz parte da marinha, pois é da aeronáutica não poderia ser a porta voz autorizada deles. Será a tartaruga Rosa que virá até a praia de Anchieta no Espírito Santo trazer a notícia oficial.
Antes de minha conversa com ele aconselho-os a se desculparem, pois ele já está voltando.
  • Não é o momento certo, pois ele interrompeu nossa conversa exatamente para que você não soubesse do que falávamos e não devemos tocar no assunto em sua presença.
Vamos aceitar seu conselho e visitar velhos amigos e conversaremos com ele amanhã logo ao acordarmos.
Diga-nos uma coisa Tonho. Nosso pai nunca arrumou nenhuma outra esposa, amante ou namorada?
  • Nada. Só vive pensando na guerra. E vocês casaram? Tem filhos?
  • Sim. Todos já somos casados, cheios de filhos e netos.
  • Parabéns e até amanhã.
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  • Qual o recado que me traz?
  • Trata-se da recusa da marinha em unir-se a nós e participar da guerra.
  • Você agora é o mensageiro deles?
  • É claro que não. Apenas soube do assunto pela gaivota Marina que assistiu a reunião no mar e me disse.
  • Porque à você? Não deveria ser para mim?
  • Não foi nada formal. Falou-me apenas pela amizade que tenho com ela.
  • E por acaso ela é minha inimiga?
  • Não se trata disso. É que você é sempre muito ocupado e não gosta de ser incomodado por informações que ainda não estejam na hora.
  • Então você está ciente que me atrapalha não é? Eu estava ocupado quando chegou para dizer-me algo que ainda não era o momento.
  • Nós somos amigos antigos, ou não?
  • Éramos. Você vive a dar palpites em minhas decisões como se eu não soubesse como resolver as coisas. Há muito tempo percebo que está pretendendo tomar-me o poder, pois sempre incentivou o pessoal a prestar-lhe esclarecimentos de muitas coisas, antes mesmo de dirigirem-se a mim.
  • Está enganado Nego. Não é nada disso.
  • Onde estão meus filhos?
  • Foram visitar os amigos.
  • Mas ainda não tínhamos terminado um assunto importante e inadiável.
  • Foi conselho meu para que parassem com a discussão que estava acontecendo entre vocês.
  • Então estou certo mesmo em pensar que você está querendo roubar-me o lugar?
  • É claro que não. Sou amigo de todos e não poderia ver seus meninos serem executados injustamente.
  • Não me julga justo? Assistiu toda a desobediência proibida deles?
  • Sim. Por isso intervi para salvá-los.
  • E não sabe que com tudo isso decretou sua execução?
  • Como assim?
  • Desobedeceu minhas ordens, várias vezes e de muitas formas, só nessa visita inoportuna.
  • Você estava prestes a dar a palavra final sobre a execução dos garotos. Tive de impedir enquanto estava apenas na ameaça. Afinal de contas são seus filhos e você jamais poderia mandar matá-los.
  • Agora é você quem decide o que é certo ou errado? O que eu devo fazer ou deixar de fazer?
Dirigindo-se aos falcões disse:
  • Rei aproxime-se com os outros.
  • Sim senhor. Estamos as suas ordens.
  • Esse individuo acabou de ser condenado a morte. Podem eliminá-lo e como premio ao serviço executado autorizo-os comer suas carnes, já que não será aproveitada para nada.
Tonho ainda teve tempo de dirigir-lhe seu último desabafo.
  • Você perguntou-me se sou eu quem decide o que é certo ou errado não foi? Respondo-lhe sem medo de errar que o que é certo realmente eu decido e o errado como sempre é você quem determina.
Até hoje acertou apenas nessa sua atitude que foi em doar meu corpo às aves. Minha carne com certeza os satisfará e dará prazer ao se alimentarem dela por ser de ótimo sabor. Tenha certeza que todos os animais vão querer dividi-la, mas quanto a você, só os urubus se servirão e mesmo assim quando estiver bem podre, totalmente irreconhecível e cheio de bactérias para não ser tão indigesta conforme deve ser ao natural.
Nego pretendia retirar-se logo após assistir a execução, mas teve de demorar-se um pouco, pois foram várias aves de rapina, além de cães, gatos, galinhas, coelhos e vários outros animais que se aproximaram para participarem famintos do inesperado banquete. Teve até porcos que aproximaram com a mesma finalidade.
Ele proibiu-os a todos, ordenando-os retirarem, pois a carne de Tonho seria apenas dos falcões.
Sem remorsos ele se afastou para seu repouso noturno.
Os animais expulsos afastaram-se e em pequenos grupos formavam reuniões informais, exaltados e nervosos, porém em voz baixa para não serem surpreendidos.
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Nego não conseguiu dormir, pois ficou refletindo sobre tudo que aconteceu durante a tarde e inicio da noite.
Primeiro sentiu-se confortável, pois chamara as aves com a finalidade de executar seus filhos, mas conforme Tonho tinha falado a sentença ainda não tinha sido dada.
Estava sim na iminência, mas não decretada por isso ainda poderia perdoá-los.
Levantou-se na madrugada e sem saber das aglomerações familiares que estavam existindo em toda a mata determinou a uma das corujas assessoras naquela noite que fosse chamar outras três fortes aves com urgência.
Instruiu-as para darem em seu nome voz de prisão e levar seus filhos de volta a fazenda naquele mesmo momento com ordens expressas para eles não regressarem até que fossem chamados. Lá ficariam severamente vigiados por elas e outros elementos que mandaria por terra para essa finalidade.
Sabia que se os filhos permanecessem no quartel tomariam conhecimento da morte do porco e iriam questionar e ele não teria como evitar a execução deles também.
Assim procedendo impediria suas mortes prematuras ao mesmo tempo em que ficaria livre das possíveis ameaças e inevitáveis revoltas dos filhos.
Após isso dormiu depressa, mas por pouco tempo. Acordou sobressaltado e se pôs a pensar novamente sobre tudo. Lembrou-se da longa conversa com os filhos que terminou em briga.
Recordou quando ouviu Lenon falar que canibalismo é quando um indivíduo come carne de outro da mesma espécie e que isso nunca aconteceu com nenhum animal, com única exceção que foi a de um grupo de ursos polares por total falta de alimentos causada por humanos.
Lembrou-se ter visto vários porcos aproximando-se do corpo de Tonho com a finalidade de devorá-lo. Realmente nunca ouvira dizer que porco comesse porco e ficou intrigado porque aqueles queriam fazer isso. Relembrou o caso dos ursos e pensou que se os porcos iriam comer o Tonho é porque não tinham alimentos. E não por culpa de humanos. Será que a fome deles era tanta que praticariam o canibalismo mesmo não sendo carnívoros e muito menos canibais? Pensou assustado. Será que de fato as coisas andam tão ruins e descontrolados no Brasil motivadas pelos atos institucionais conforme seus filhos disseram?
Chegou a conclusão que tais atos deveriam ser revistos, mas correria o perigo de perder o controle se afrouxasse em suas leis e decidiu deixar conforme estava e tentou descansar.
Não era possível dormir, pois tinha outro enorme problema que deveria ser resolvido dentro de dois dias.
Pelo que soube pelo Tonho talvez no outro dia chegasse o aviso formal de seu encontro com Rosa que lhe informaria oficialmente a não aceitação dos animais marinhos em participar da guerra.
Isso não seria um descumprimento deles a seus atos institucionais? Para fazer justiça deveria punir a todos com a pena de morte. Mas, como?
Como ele conseguiria executar todos os animais aquáticos, se para isso precisaria de milhões de outros também aquáticos para fazer cumprir tal resolução.
Jamais conseguiria isso e como ficaria sua situação com o exercito e a aeronáutica?
Sem dormir a noite toda, levantou-se logo cedo e através de todos os assessores que foi possível convocar nas matas mandou que noticiassem urgente à todos a execução do porco Tonho, mas que a partir daquele momento ele tinha revogado o AI 5.
Só após ter tomado essa providencia e mandado divulgá-la que percebeu que como a marinha jamais tinha aderido à guerra e sequer o reconhecido como líder nunca obedeceu aos atos institucionais e pelo mesmo motivo como não eram seus subordinados ele jamais fez algo contra seus participantes.
A informação que estava próxima a chegar simplesmente ratificava o que já era normal, portanto não estaria sendo desrespeitado por nenhum súdito e em conseqüência disso não seria obrigado a nenhuma atitude contra a marinha.
Já era tarde para uma contra ordem, por isso deixou o AI 5 definitivamente anulado.
Deitou-se em seu leito para finalmente adormecer.
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Devido ao esgotamento físico e mental adquirido pelos transtornos do dia anterior e pela noite de insônia ele impensadamente havia cometido outro grande erro na manhã que aboliu o temido AI 5.
Nego simplesmente acabou com o ato institucional quando deveria modificá-lo e não anulá-lo por completo, pois com certeza iria propiciar várias interpretações e atitudes diferentes de seus vassalos a partir de então.
O primeiro a questionar foi o macaco Birigui quando em conversa com um de seus filhos comentou:
  • O AI 5 instituiu a pena de morte a qualquer insubordinação ao Nego. E agora como fica com sua extinção? As insubordinações serão punidas de outra forma, ou simplesmente serão permitidas?
  • É claro que punidas por outra maneira, né pai.
  • Há controvérsias, pois agora como não existe nenhum ato em vigor que proíba as insubordinações, elas terão de ser permitidas sem nenhuma repreensão.
  • Está a fim de desobedecê-lo?
  • Sei de muitos que com certeza estão.
  • Quem são?
  • Pelo menos todos nós macacos. Ou estou errado, meu filho?
  • Absolutamente certo, mas devemos aguardar e continuar calados, por enquanto.
  • Desde a morte da pomba Branca que também foi um ato encomendado igual ao do gato Euclides e de nosso saudoso companheiro Bororó, ninguém mais fala sobre problemas, soluções ou simples pensamento a quem quer que seja, pois inevitavelmente tem alcagüete entre nós, por isso temos sempre de ficar com a boca fechada.
  • Pois é. Todos que mais questionavam as leis morreram de acidentes, sempre em serviço da pátria. Muito estranho não acha pai?
  • Lembra-se como aconteceu com a pomba Branca? Também foi mandada pelo Nego a serviço na fronteira do Brasil com a Colômbia e por não saber exatamente onde era a linha divisória entre os paises, passou para o lado de lá e foi devorada por uma onça que é lógico, não obedecia aos atos institucionais brasileiros.
  • Lembro-me muito bem dessa lorota pra fazer boi dormir.
  • O pior da história é que foram os Falcões Rei e o Rex as testemunhas oculares que alegaram não ter conseguido impedir, embora tivessem tentado.
  • O que eles estariam fazendo lá?
  • Com certeza vigiando para certificar-se da eficiência do acidente é claro.
  • Serão eles os únicos delatores?
  • Suas presenças no local provam que eles além de denunciantes são também paus mandados de Nego, e tenho certeza que não são os únicos. Não sei informar quem são, mas têm muitos outros que vivem no chão.
Como as aves sempre ficam no ar não ouviriam as reclamações nossas, dos gatos, das vacas e de outros, para poderem informar ao Nego. Na aeronáutica, além deles imagino que também os papagaios Louro e Verdinho que pouco falam com a gente também sejam. Esses só vivem repetindo as palavras dos humanos que creio que seja para disfarçar que não estão atentos as nossas conversas.
  • Isso só na nossa frente não é?
  • Pois é. Não será uma estratégia de Nego para eles nos ouvirem e dar com a língua nos dentes para ele?
  • Acho que a maioria das aves são espiãs.
  • Eu creio que as de rapina são todas assassinas e participam dos crimes encomendados por Nego, além de espiãs e delatoras, mas as outras com exceção dos dois papagaios acho que não são.
  • Desconfia de mais alguém?
  • Quase todos os cães. Para dizer a verdade acho que apenas o Pit Yuri que não é embora seja filho da cadela Mansa que com certeza faz parte da quadrilha.
  • Acho bom pararmos logo com esse papo, pois o falcão Rex passou dando um rasante e pode nos ouvir.
  • Aí bye bye pai e filho juntos.
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Galinhas, vacas, cavalos, coelhos, ratos e outros vários grupos também reunidos escondidos em pequenos grupos familiares comentavam sussurrando, exatamente as mesmas coisas, sempre atentos para não serem espionados.
O porco Fuzarca foi o único dos animais que comentou com seu neto, algo que ninguém percebera.
  • Eu creio que todos aqueles patos, gansos, perdizes, marrecos, codornas e pombos que foram abatidos por caçadas dos homens, teve a mão do Nego.
  • Como assim, vô?
  • Eu soube por seu tio avô que foi executado ontem, que um coelho lhe contou que quando os humanos caçaram milhares de aves aqui mesmo em Minas, ele escondido em uma toca no chão viu uma grande águia sobrevoando alto no local.
  • O que isso prova?
  • Acontece que em outra caçada de aves no estado de São Paulo também uma águia foi vista pelo macaco Prego sobrevoando nas alturas.
  • Não seria coincidência?
  • Até poderia ser se não fosse a mesma águia em ambos os casos. Exatamente a águia Ema que é a assessora principal do comandante em levar novos pássaros para treinamento de guerra. Nas duas vezes ela levava pássaros para iniciarem suas aulas. Ainda acha que foi coincidência ou mudou para premeditação?
  • Sendo assim já cheira mau. Como soube desse segundo caso?
  • Também pelo Tonho, pois são muitos os amigos dele que o respeitavam e lhe contavam sobre coisas estranhas que acontecem nesse governo, por baixo dos panos.
  • Porque Nego mandaria matar várias aves?
  • Porque nenhuma dessas raças pelo que Tonho me dizia concordava com as atitudes dele que em represália e as escondidas dava fim nelas assim como deu cabo de todos os outros que o incomodavam no comando, como seu tio, a Branca, o Bororó e o Euclides.
  • Mas pelo que sei meu tio avô era o mais contundente de todos e porque nunca fizeram nenhuma armadilha para conseguirem um acidente para ele? Só foi morto por motivo justo por desobediência grave diretamente dirigida ao comandante.
  • Por ser velho e gordo demais e não saber voar como a Branca, saltar pelas árvores sobre cipós como o Bororó, correr na velocidade do gato Euclides, jamais poderia ser enviado para longe de nossas vistas para acontecer algum acidente fatal, com as desculpas mentirosas arrumadas por ele.
  • Acho que o senhor tem toda razão.
  • Tenho mesmo, mas não quero que aconteça conosco o mesmo que aconteceu com ele, pois percebo que tem gente nos espionando. Veja a cadela Mansa, que de meiga não tem nada chegando de mansinho.
  • Mas a anulação do AI 5, não nos permite questionar e até insubordinarmos contra o Nego?
  • Talvez sim, mas não poderiam nos punir pelo AI 1 que está em vigor? Nele reza que todos os animais devem ser amigos e o fato de estarmos falando mal do todo poderoso chefão não pode ser considerado que estamos sendo seu inimigo?
  • Tem razão. É melhor calarmos.
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Mesmo com o dia já claro a insônia impedia Nego de dormir e exigia-lhe que permanecesse com seus pensamentos e lembranças e foi por isso que recordou de muitos abusos e injustiças cometidas. Falhas realmente muito graves e por isso bolava planos e mais planos para salvar seu desastrado governo.
Por volta de meio dia chegou a informação trazida por uma albatroz para que Nego fosse viajar ao encontro da tartaruga para receber a comunicação oficial da marinha.
A recepção a ave foi feita pelo falcão Rex que imediatamente notificou a Hotwaller Eva que a atendeu a porta da casa, pois poucos sabiam, mas ela era muito mais que uma simples assessora, porque Nego há muito já tinha esquecido Olga e suas promessas.
Ele convocou para a viajem ao Espírito Santo vinte falcões, vinte águias e vinte gaviões para levar sua comitiva que era composta de apenas ele e a companheira Eva.
As aves os levaram pelos céus, proporcionando a Nego ver com seus próprios olhos grande parte do estado de Minas Gerais, anteriormente próspero e conservando suas matas nativas, transformado em um imenso deserto onde não se via mais pastagens. Do alto só viu arbustos secos, répteis peçonhentos, ratos e carcaças de enormes rebanhos de gado.  Ordenou que seus batedores e seguranças modificassem o vôo e entrasse no Rio de Janeiro antes de irem para o Espírito Santo. Fizeram o mesmo sobre São Paulo.
Verificou que toda a região sudeste estava um caos. Exatamente a mais rica região do Brasil tinha virado sertão.  Perguntou-se o que teria acontecido com o sertão? Com um instantâneo senso de humor negro indagou a si mesmo. Teria virado mar?
Reconheceu a descontrolada e irresponsável ditadura que já durava 25 anos e estava realmente destruído o país conforme seus filhos disseram, por isso rapidamente ordenou à algumas aves para retornarem com a primeira dama, pois ela iria noticiar à todos que os atos institucionais número um, dois e três também seriam revogados assim que voltasse do encontro com a tartaruga. Para isso requeria a presença de todos os lideres de animais para uma assembléia solene em que ele revogaria tais atos.
Soube pela porta voz da marinha, exatamente o que já sabia, pois alegaram que por estarem no mar, não pertenciam a nenhuma nação específica por isso se isentariam de qualquer influencia não só dos animais como também dos homens.
Nego tentou afirmar que deveriam odiar os humanos por suas pescas e caças marinhas.
Soube que tal atitude nunca representou nenhuma ameaça, pois a quantidade dos pescados pelos humanos era infinitamente menor que a dos animais marinhos predadores do próprio mar como os tubarões, baleias, golfinhos e etc. Que a perda de peixes para os homens não representavam nem 0,001 por cento de suas próprias mortes naturais ou como alimentação aos animais maiores.
Como não havia nenhuma forma de argumentação o cão despediu e dormiu aquela noite, ao relento nas praias capixabas, recusando-se a receber qualquer animal que afluiu em grande número para o local para conhecê-lo. Queria ficar só e viajar na manhã seguinte bem cedo.
No outro dia sem falar uma só palavra e sequer despedir dos capixabas, partiu de volta ao seu quartel para falar a seu povo o que já tinha planejado depois de mandar noticiar que iria anular os atos institucionais.
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Por volta de meio dia já estava preparado para inflamá-los ao ataque definitivo aos humanos. Pelo menos esse desejo ainda os unia, pensava ele.
Estava sendo aguardado por uma multidão muito maior que a imaginada, pois era ciente que não mais agradava como anos antes. Teve uma grande surpresa com aquela enorme aglomeração a sua espera.
No Espírito Santo achou normal tal acumulo de animais, pois não conviviam com ele e nada sabiam de suas traiçoeiras façanhas e dele só tinham conhecimento por envio de maravilhosas informações.
Em Minas onde causou tantos abusos sentia-se desprestigiado por isso sua inesperada alegria ao ser recebido, embora sem os aplausos calorosos de outros tempos, mas por maciça presença de súditos.
Antes de subir ao palanque refletiu sobre seu discurso.
Seu plano em acabar com os atos institucionais era para fazer seus subalternos mais exaltados sentirem-se vitoriosos por verem seus desejos realizados e continuarem seus aliados para então promover a pretendida revolução de muitos anos antes.
Como sempre gritou-lhes como o Austríaco fazia aos alémães incendiando-os, porém ele só conseguia aplausos de seus aliados e protegidos cães e aves de rapina.
O restante da população animal na primeira hora de discurso manteve-se em total silencio, mas aos poucos se rebelavam e começavam as vaias em altíssimo som que impedia a qualquer espectador ouvi-lo.
Ele decidiu mudar de tática e deu a palavra aos participantes, que em ordem poderiam falar e defender suas idéias para todos participarem democraticamente para o sucesso da empreitada.
Era talvez sua última cartada.
A vaca Cândida apresentou-se:
  • Falo em nome de todo o rebanho do Brasil, que não agüentamos mais essa vida que nos colocou e que não concordamos mais em nos associar para destruir os humanos.
Bastou essa única frase, mesmo com um mugido nada eloqüente para ser interrompida por muitos minutos de aplausos calorosos, que Nego nunca tinha tido nem em seus velhos tempos de orador.
Irritado mas ainda não desanimado voltou ao colóquio perguntando a oradora:
  • Sua raça não estará satisfeita com a breve extinção que acontecerá dos atos institucionais? Com a queda deles poderão voltar a ser inimiga dos animais que quiserem. Poderão alimentar-se de qualquer um, pois por serem grandes e fortes sobressairão em qualquer briga. Que mais pretendem?
  • Acontece que não somos predadores de animal nenhum, pois nunca fomos ou seremos carnívoros. Fazer voltar a inimizade entre animais não nos interessa, pois sempre fomos de paz e o que queremos é a volta de nossas pastagens que não existem mais.
  • Não vê que ao aniquilarmos os humanos vocês deixarão de ter a obrigação de fornecer-lhes seu leite?
  • Por sua exigência fornecemos pelo menos umas vinte vezes mais aos animais das matas que aos humanos. Não nos alimentamos o suficiente para produzirmos leite sequer aos nossos bezerros, que morrem ainda na idade de amamentação, coisa que antigamente era raro acontecer.
  • Não serão mais churrascos dos homens. O que me diz disso?
  • Muito pouco nos incomodava termos animais abatidos para serem alimentos deles. Antes de você inventar esse comando para seu único bem estar e prazer éramos bem alimentadas e para cada morte tínhamos no mínimo um nascimento e a manutenção da espécie permanecia. Aliás, até crescia um pouco, mantendo assim o equilíbrio entre natalidade e mortalidade evitando a super população, ou a extinção, pois qualquer dos casos seria danosa a todo o sistema ecológico.
Nós que éramos o maior rebanho do mundo, antes de tudo isso acontecer estamos atualmente atrás de Índia, China, Estados Unidos, União Européia, Argentina, Austrália, México, Rússia, Canadá e África do Sul. Somos o ridículo décimo primeiro lugar e onde vamos parar? Logo ficaremos em último lugar junto com o Vaticano que não tem nenhum animal.
Sempre que a vaca Cândida discursava com seus mugidos fracos porem corretos, compreendidos e aceitos, era aplaudida por enorme platéia, principalmente de jovens abafando os protestos dos amigos de Nego que eram em muito menor número.
Em todo momento que Nego falava os apupos eram ensurdecedores, mesmo seus fieis companheiros cães e aves de rapina, já velhos tentassem aplaudir, mas mesmo assim muito aborrecido ele conseguiu ser ouvido, dirigindo-se ao touro Hercules.
  • Você que é o marido dessa infeliz nada fala?
  • O que quer que eu fale?
  • Impeça-a de falar tantas sandices. Não é macho?
  • Macho eu sou, mas machista não. Ela tem toda razão e não a impedirei de dizer as verdades que todos queremos que saiba. Ela é nossa porta voz e de muitas outras raças que se identificam com seus argumentos e concordam plenamente. Não é pessoal?
Novas estrondosas ovações.
Foi nesse momento que Nego sentiu sua derrota bem próxima e pela primeira vez imaginou seu impeachment ser possível. Nunca tinha visto tantas caras pintadas empunhando bandeiras verde e amarela.
Parecia uma grande tribo preparada para a guerra, mas não para a guerra pretendida por ele. O inimigo era apenas ele.
Mas não poderia desistir e conseguiu em um novo silencio mudar de assunto, dirigindo-se aos cães.
Foi interrompido por uma galinha que com seus estridentes gritos falou:
  • Não são só os bovinos que estão em extinção. Nós também estamos por suas irresponsáveis idéias.
  • Do que fala Senhora?
  • Que nós sempre só púnhamos um ou no máximo dois ovos diários e agora?
Somos obrigadas por sua exigência a um trabalho árduo e continuo que nos colocaram também entre os animais em aniquilamento.
Não reclamamos quanto à alimentação, pois a proliferação dos insetos nos permite muita comida, mas essa de colocar seis ovos diários passou dos limites.
Tornou-se insuportável, doloroso e impossível e muito maior é o número de nossas irmãs que morrem por terem suas cloacas arrebentadas que as que eram abatidas pelos homens e por alguns animais nossos predadores para sua sobrevivência.
Procriar é coisa rara entre nós, pois além de não haver ovos para serem chocados não podemos nos dar ao luxo de ficarmos deitadas a dia todo, como se nada estivéssemos fazendo. Sua guarda pessoal de cães e águias não permite, pois alegam ser vagabundagem nossa ficarmos deitadas em berço esplendido sobre ovos.
Para que você e todos os demais saibam estima-se que o Brasil em 1962 tinha mais de 175 milhões de galinhas e figurava entre os principais criadores do mundo e hoje? Nos ranking dos maiores após os doze primeiros figuram “outros”. É aí que estamos totalmente escondidas.
  • Cale a boca, sua arruaceira.
Berrou Nego impedindo-a de continuar seu discurso e a altos brados aboliu naquele exato momento os atos institucionais número um, dois e três.
Foi sua última e definitiva cartada para fomentar a discórdia que imaginou começar a partir de tal informação, mas nada conseguiu, pois os animais há muito já acostumados a serem amigos não ousaram investir-se uns contra os outros, mesmo existindo entre eles as caças e seus caçadores.
Seus guardiões eram poucos e compostos de idosos animais também nada fizeram por medo da grande quantidade de jovens e fortes bois, cavalos, javalis e búfalos que lhes olhavam ameaçadores.
Retiraram-se assustados e cautelosos.
Totalmente impossibilitado de manter a ordem, pois sua guarda pessoal constituída por velhos cães, aves de rapina e tigres que sempre foram corrompidos por ele para seus desmandos haviam desertado.
Com raríssimas exceções eles não tinham conseguido que seus filhos e netos lhes seguissem a carreira.
A maciça maioria dos jovens estava nesse comício, pintada e preparada para derrubar Nego, que se retirou cabisbaixo e devagar, ouvindo ao longe os estridentes gritos de uma jovem e esclarecida araponga que assumiu a direção da reunião popular.
Ouviu-a informando as pombas, que desde muitos anos antes de Nego, elas já não serviam ao homem como mensageiras, pois já haviam sido substituídas por carta, telegrafo e telefone, depois por telex e fax e atualmente por internet. Já eram totalmente livres muito antes do aparecimento de Nego e se deixaram influenciar pela eloqüência dele.
Que os cavalos também foram iludidos quando foi dito que eles iriam parar de puxar arados, diligencias e etc., pois tudo isso já não existia com o aparecimento dos tratores, plantadeiras e colheitadeiras e os meios de comunicação e de transportes.
Falou que com referencia as galinhas e aos bovinos não precisava esclarecer nada, pois elas próprias já haviam se posicionado.
  • Vocês macacos sempre foram livres para suas brincadeiras e em nada deveriam temer ao homem, assim como todos os animais ferozes das matas, pois de vocês eram os homens que temiam e fugiam por medo.
Vocês gatos, sabem muito bem de suas liberdades, pois por mais que os humanos tentam domesticá-los jamais conseguiram e por esse motivo vocês nunca executaram nenhuma tarefa a eles.
Simplesmente comem e bebem alimentos saudáveis e apenas servem como bibelôs as dondocas humanas que os mantêm totalmente libertos até a hora que vocês próprios somem sem darem a menor explicação, pois por suas eternas buscas de aventuras nunca se mantêm nos mesmos lugares, portanto já são tão livres como os anteriores.
Companheiras e companheiros cães, vocês sãos os únicos animais domésticos que não vivem plenamente livres na natureza. Sabemos que como aos gatos são muitíssimo bem tratados com vários direitos adquiridos como pet shop, hoteizinhos, veterinários, cabeleireiras e outras coisas mais, portanto levam uma vida que vários humanos gostariam de ter e não conseguem.
Alguns de vocês iguais aos gatos existem para serem apenas brinquedos de crianças e amados por elas e pelos adultos. Os maiores e por natureza ferozes são os únicos a prestarem serviços de segurança e vigilância, mas nada que não seja perfeitamente possível de se fazer por ser exatamente o que sabem e gostam e ganham muito bem para isso.
Por esses motivos insisto em que a tal revolução deva deixar de fazer parte dos pensamentos de todos e convido-os a voltarem a viver nossa vida conforme sempre foi ao lado dos homens.
Perguntou o porco Totonho que era neto de Fuzarca.
  • E para nós o que tem a dizer?
  • Vocês nunca foram domesticados, ensinados e exigidos em absolutamente nada. Pelo excelente sabor de suas carnes sempre foram usados apenas como alimentos deles, mas isso faz parte da cadeia alimentar, mas se quiser saber como vivem nas fazendas dos humanos, pergunte a seu avô que com certeza ele se lembra e lhe informará. A alimentação recebida é de primeira e a moradia asseada e limpa e não vivem nessa imensa sujeira que você vive. O banho que é uma coisa que você nem sabe do que se trata é diário e sua cor com certeza seria branca e não marrom como se apresenta.
  • Ela tem toda razão meu neto. Realmente é assim que os humanos nos tratam.
Foi Fuzarca quem discursou rápido concordando com as afirmações da jovem, para em seguida devolver-lhe a palavra, entretanto solicitando dela que se apresentasse, pois a maioria não a conhecia.
  • Chamo-me Ara Ponga e falarei mais algumas rápidas e breves palavras para encerrar minha participação.
Amigas e amigos, faço uso de tais termos, pois se aconteceu alguma coisa boa advinda dos atos institucionais de Nego foi apenas isso.
Obrigou-nos a sermos amigos, embora há pouco tenha tentado jogar-nos uns contra os outros anulando o ato institucional número 1, entretanto todos estamos nos portando conforme já existimos nesses últimos vinte e cinco anos.
Sou como milhões de outros com menos idade que isso, portanto aprendemos viver nessas condições e os mais velhos pelo que percebi claramente adquiriram tal bom hábito e continuamos sendo todos amigos.
Não me candidato a nada. Não pretendo ser nenhuma líder, mas serei o mais feliz dos animais se todos concordarem em manter essa tradição já adquirida de vivermos para sempre em paz e com amizade, sem chefes ou comandantes obrigando-nos a fazermos coisas que não sejam nossos próprios desejos.
Senhores carnívoros, sei perfeitamente que sou como muitos outros animais, caçados por nossos predadores e concordo plenamente que tal necessidade fisiológica deva recomeçar a existir a partir de agora como sempre foi necessário, mas peço-lhes que usem o bom senso e só matem quando realmente necessitarem para suas próprias subsistências e tenho dito.
Deixou o palanque e voou para longe, mas foi impossível deixar de ouvir o estrondoso e demorado aplauso e gritos de euforia que durou muitos minutos ininterruptos, mesmo ela não estando mais ao alcance das vistas dos demais.
De longe, onde se encontrava a ave ainda olhou para traz feliz por saber que a decisão de todos os animais do Brasil, coincidia com seus pensamentos.
O velho Fuzarca subiu ao palco apenas para declarar a reunião encerrada e todos se dispersaram para uma vida melhor.
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Nego chamou sua amante Eva e com ela caminhou cabisbaixo, devagar e calado até um vale próximo as montanhas. Nenhum animal que presenciou sua ida ao exílio auto decretado, coisa que era esperada por todos, os molestaram ou dirigiram a palavra.
Subiram ao topo das pedras, pois aprenderam tal façanha com as cabras montanhesas e lá assentaram ainda calados.
Estavam próximos ao ninho do falcão Rei, que voou para longe em sinal de respeito ao ex poderoso chefe.
A esposa do falcão que com ele viajou, perguntou-lhe:
  • Não fica perigoso deixarmos nosso filhote sozinho no ninho?
  • Acha que o Nego vai querer comê-lo?
  • Não é isso, pois sei que cão não come aves, mas o menino é muito pequeno. Nem sabe voar.
  • Mas sabe falar.
  • E o que importa ele saber falar se nós não estaremos com ele para conversarmos.
  • É por poucos dias. No máximo uma semana e o Nego deve sair de lá, pois terá fome e voltará para baixo.
  • E se ele virar ermitão e quiser morar nas montanhas para sempre.
  • Então seremos vizinhos.
  • Acho que deveríamos pegar a criança e levar conosco.
  • Não é necessário, pois voltaremos em sete dias e ele tem alimento suficiente e exatamente por faltar ainda muito tempo para voar não sairá do ninho e estará a salvo. Fique tranqüila e vamos aproveitar esses dias para caçarmos alguns pombos por aí.
  • Porque quer caçar? Estamos alimentados e não precisamos de nenhuma caça.
  • É para exercitarmos.
  • E o pacto entre os animais?
  • Eu não participei.
  • Mas todos os nossos filhos mais velhos sim e concordaram com a araponga Ara.
  • Ela que vá as favas e fique longe de mim senão será minha próxima vítima.
  • Mas já foram tantas quando trabalhava para o governo. Não acha que já deve parar com os assassinatos agora que já está tão velho?
  • Só pararei quando não tiver mais forças para caçar.
  • Será que você não tem mais jeito?
Já estamos muito velhos e prestes a morrermos e pelo menos nesse nosso final dê-me o prazer de vê-lo bom e decente.
  • Está bem. Não vou mais fazer nada errado, porque realmente já estou prestes a partir e pela destruição que vejo lá em baixo nesses quatro dias de viagem cheguei a conclusão que devo me redimir de todo o mau que ajudei Nego fazer ao país. Vou terminar nossos dias em paz como todos os demais.
  • Agora gostei de sua atitude e consegui sua promessa de que vai mudar de vida e por isso vou contar-lhe que estará viúvo nesses dias, pois estou muito mal de saúde e não devo viver muito tempo.
  • Então vamos voltar para que repouse em nossa casa.
  • Não resistirei a volta, portanto vamos continuar nosso vôo, pois esse será o meu último. Venha comigo até o cume da mais alta montanha daquela cordilheira a nossa frente. Deixe-me lá e volte para cuidar de nosso filho.
Assim foi feito e a ave morreu após esse longo passeio deixando o velho falcão viúvo e com um filho ainda pequeno para criar.
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Enquanto isso nas montanhas Nego totalmente derrotado, finalmente se recordou da esposa.
Enquanto sua amante Eva dormia ele permaneceu sobre as pedras olhando para o infinito e quando rebuscou na memória coisas que conversou com sua amada amante Olga lembrando-se de certos detalhes em antigas conversas:
  • Está bem Nego. Talvez eu esteja fazendo confusão mesmo, pois estou doente e confusa, mas nenhuma revolução aqui no Brasil nunca deu certo. Disso eu não tenho dúvidas, portanto vamos continuar vivendo conforme estamos, pois está ótimo.
Mire-se nos exemplos da Inconfidência Mineira, na Carioca, na Baiana ou Revolta dos Alfaiates, na do Pernambuco, na Guerra dos Emboabas, na dos Mascates, na Revolução Constitucionalista ou Guerra Paulista. Todas tiveram seus lideres presos ou mortos e nenhuma delas deu em nada.  
  • Por isso continuamos todos escravos ou dominados. Está certo que as anteriores foram feitas por homens e não por animais e como não temos a mesma incompetencia deles vamos fazer dar certo.
Chegou a conclusão e falou á si próprio: Fiz tudo errado, pois levei milhões de animais do Brasil para a morte sem me preocupar um só instante em me corrigir de tal erro incompreensível e inaceitável.
Ordenei que matassem milhões de animais de raças que eu não gostava, quando eu pregava que todos tinham de amar uns aos outros como a si próprios.
A noite não acabava e ele se perguntava constantemente:
  • Que punição eu mereço? A prisão perpétua? A pena de morte? A solidão para meus últimos anos de vida? Qual?
Conversava consigo mesmo fazendo-se tais perguntas em voz tão alta que acordou Eva que foi para junto dele.
Ela sussurrou algo em seu ouvido, mas precisou repetir em voz alta devido a deficiência auditiva do cão e apenas ele chorou quando ouviu o que ela disse.
Assim naquela noite de 31 de março, véspera do dia da mentira, nas matas da cidade de Juiz de Fora em Minas Gerais, terminou a revolução que nunca existiu, mas que deixou o Brasil quase que totalmente destruído.
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Ainda abatido com a morte da esposa, oito dias após sua saída o Falcão chega em sua casa.
Encontrou seu filhote são embora aflito por sua demora e conversaram:
  • Onde está a mãe?
  • Infelizmente ela estava muito velha e cansada e não resistiu nossa viajem que foi longa.
  • Parece-me que você também anda muito cansado.
  • Estou meu filho. Meus dias estão próximos. Mas mudando de assunto, o que aconteceu com aquele casal de cães que estava ali na frente?
  • O Senhor se refere ao Nego e Eva?
  • Como sabe quem eles eram?
  • Ouvi a última conversa deles na qual falaram seus nomes.
  • Então eles voltaram para as matas?
  • Não. Mataram-se.
  • Como?
  • Pularam do penhasco.
  • Como sabe se pularam ou desceram?
  • Porque ouvi Eva dando-lhe a idéia de se matarem atirando-se sobre as saliências de pedras que ficam a cinqüenta metros abaixo de nós.
  • Quero ouvir essa história direito.
Quem disse isso foi um velho urubu que passava próximo aos falcões e continuou falando:
  • Olá compadre. Então os restos de carne podre que eu e alguns companheiros comemos ontem eram do poderoso Nego?
  • Vocês o comeram?
  • Ao passarmos por aqui avistamos dois animais em decomposição bem embaixo daqui e os devoramos. Achei que eram dois burricos e só agora estou sabendo tratar-se do nosso ex-poderoso e querido chefe.
  • Foi exatamente assim que o finado porco Tonho falou que seria seu fim.
  • O que disse?
  • Nada não. Apenas pensei em voz alta.
  • Devemos informar a todos os animais onde estão as ossadas deles?
  • Para que?
  • Para que se faça um enterro digno e para no futuro as novas gerações visitarem seus túmulos.
  • Acha que isso é certo?
  • E não é?
  • Não concordo, pois só recentemente entendi que ele foi o maior tirano que já existiu sobre a terra e não merece nenhum reconhecimento. Sua morte deve continuar no anonimato e seus restos não devem ser encontrados. Ele precisa cair no esquecimento para sempre.
  • Tem razão. Seria até provável que no futuro a história viria transformá-lo indevidamente em herói nacional.
  • Temos inclusive a obrigação de nada divulgarmos, pois me lembrei agora que estamos proibidos de anunciar qualquer coisa a respeito dele.
  • Como assim? Existe alguém no poder que está inventando novos atos institucionais ou novas leis para nós cumprirmos?
  • Não. Somos totalmente livres, entretanto o ato institucional número 4 criado por Nego tem essa redação: “Que caso alguma pessoa tenha conhecimento de qualquer viagem, atitude, gesto, ato, conversa, decisão, deliberação, ordem, ou qualquer informação por mais insignificante que possa parecer de seu chefe maior, manter em segredo absoluto e permanente excluindo-se os casos em que ele próprio ou portador por ele indicado, oficialmente determine a divulgação”.
  • Mas ele anulou todos seus atos, portanto não temos motivo nenhum para cumpri-lo.
  • Não. Ele anulou primeiro o AI-5 e depois os de números um, dois e três, ficando o quatro em vigor, não sei se por esquecimento ou por sua própria vontade por isso ainda deveremos continuar obedecendo-o permanentemente não divulgando esse seu gesto, que foi o último.
  • Mas não poderá acontecer de alguém passar para frente?
  • Não, pois apenas nós dois que já estamos prestes a ir encontrá-lo no inferno e meu pequeno filho sabemos de sua morte. Meu menino ainda é muito pequeno e quando crescer provavelmente já esqueceu o que viu aqui.
  • Se realmente o menino esquecer, o segredo de sua morte ficará guardado para sempre.
Já viu a ossada deles ali em baixo?
  • Não.
  • Então venha cá perto da ribanceira que dá para ver daqui de cima.

Enquanto as velhas aves de rapina olhavam para baixo viram a queda da pequena ave que curiosa também aproximou-se do despenhadeiro caindo em queda livre. Embora os adultos tivessem em vôos rápidos tentado apanhá-la no ar não conseguiram e com isso ela bateu violentamente sobre os ossos dos cães. Eles espatifaram-se, saltaram e depois caíram junto da avezinha morta, partidos violentamente em vários pedaços pela montanha abaixo espalhando-se e sumindo na forte corredeira do rio que existia a uns trezentos metros abaixo, sem nenhuma possibilidade de serem encontrados e muito menos identificados.
Assim como o corpo de seu ídolo Hitler não foi encontrado, pois segundo a história, ele e sua amante Eva Braun, cometeram suicídio e foram queimados por seus comparsas para que ninguém tivesse esses corpos, o mesmo aconteceu com Nego e sua amante também Eva.
 
acabou



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