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   > Enquanto o ônibus não vem...



Amarilia Teixeira Couto
      CRôNICAS

Enquanto o ônibus não vem...

Gesto de ternura

Enquanto aguardava o ônibus ( que sempre demora), aproveitei para observar o meu entorno à procura de algo que me fizesse aguardar minha condução um pouco menos ansiosa. Na maioria das vezes é um aviso de “procura-se” afixado num poste ou na parede de um supermercado próximo ao ponto, que me prende o olhar.Como tem cãozinho desaparecido no meu bairro! O que me chama a atenção nesses avisos é o tom quase desesperador das palavras.Geralmente os(as) donos (as ) dos animaizinhos falam do vazio que a ausência do bichinho deixou, apelam ao bom-senso e ao coração das pessoas no sentido de reaver o que tanto procuram.Chego até a me emocionar com o que leio, pois quanto mais uma pessoa é solitária, mais ela se apega ao seu pet.E cada vez mais cães e gatos (em sua maioria) estão se tornando quase gente , fazendo mesmo parte das famílias ou, em algumas situações passam a ser a única família, o único amigo.O que me parece também algo bem triste.
Dessa vez, no entanto, não foi nenhum aviso que me capturou o olhar.Sempre encontro nas proximidades do ponto que utilizo, uma jovem mulher, moradora de rua.Já faz mais ou menos três anos que acompanho o seu ir e vir e presto atenção em suas falas e atitudes.Sempre a achei uma louquinha do bem, mesmo quando presenciei brigas que por pouco não terminaram em pancadaria.Tudo indica ser uma usuária de drogas, tal a sua oscilação de humor, que vai desde a tristeza, passando pela euforia exagerada e uma calma com rasgos de ternura que a acomete de vez em quando.Foi graças a essa variação que passei a observá-la mais atentamente.
Quando a vi pela primeira vez, chamou-me a atenção o cuidado que ela devotava ao pequeno barraco de papelão montado na calçada perto de um movimentado comércio.Ela varria a calçada e dobrava a “roupa de cama” com cuidado de uma dona de casa.Isso eu observei num relance de olhos, ao passar pelo local, em direção ao mercadinho onde faço com freqüência minhas compras do dia-a-dia. Como passava por ali diariamente, passei a observar com mais demora suas atitudes. Certa vez, uma de suas ações despertou –me o interesse sobremaneira.Esqueci de mencionar que nesse barraco improvisado, morava também  um senhor já idoso, de cabelos e barba enormes e grisalhos.Não posso afirmar se eles coabitavam o barraco, pois a via com ele apenas durante o dia. Sua figura afastava os transeuntes, principalmente pelo mau cheiro que exalava.A única que se aproximava e parecia cuidar dele era essa mulher.Lembro-me de ter me voltado para eles várias vezes enquanto fazia minha caminhada e, não raramente, entrevi um gesto de carinho, uma caneca estendida e até, pasmem! Um jornal lido em voz alta por ela, como se quisesse que o velho amigo voltasse pra o mundo em que estava. Ela falava com ele, lia as notícias mas parecia que nada o atingia.Presenciei outras cenas prosaicas, bem semelhantes a essas mais algumas vezes.Até que o barraco de papelão desapareceu e o velho mendigo também. Pensei com os meus botões: O que terá acontecido? Será que os dois foram para outro lugar?
Alguns dias depois, reencontrei a jovem mulher.Estava um pouco diferente, com uma barriga bem mais acentuada.Durante o tempo em que uma potencial gravidez foi se delineando, o seu humor ficou ainda mais oscilante.Ora a via aos gritos com uma determinada pessoa, ora esbravejava contra um inimigo invisível, ora a via prostrada, num canto, com o olhar perdido ao longe.
Alguns meses depois, a vi novamente no mesmo local, mas sem a barriga.Algo aconteceu, que não passava pelo nascimento da criança que se evidenciava.Não houve tempo para isso. Mas percebi uma mudança em seu comportamento para melhor.Aos poucos ela foi se acalmando, passou a ser uma pessoa mais sociável.Às vezes chego a ouvir uma gargalhada, ou um gesto de carinho para uma criança que passa por ela.
Ontem a cena que presenciei me tocou e me intrigou a um só tempo.Lá estava eu no mesmo ponto, aguardando o meu demorado ônibus quando a vejo do outro lado da rua, em frente ao banco.Ela estava com uma lata de cerveja na mão e , entre um gole e outro, conversava em alto e bom som com um motorista de uma Kombi que estava ali estacionada, quando uma senhora passa por ela com um criança de uns quatro anos de idade.Era um garotinho, uniformizado, indo para a escolinha que ficava a uns vinte metros dali. Foi então que sua atitude me surpreendeu.Ela simplesmente se derreteu com o garotinho.Chegou perto dele, conversou com a mãe (que não a evitou nem afastou a criança) e fez uma declaração de amor ao menino, dizendo:Deixa eu dar um abraço neste lindinho que eu amo.Como é fofo, meu Deus.E ao se aproximar do menininho,  pôs a mão que segurava a latinha de cerveja para trás, como a esconder algo que ela não achava adequado a uma criança.
O menino se foi com sua mãe e, no curto trajeto até a sua escolinha que ficava dentro do meu campo visual, percebi que ele voltou o olhar em direção à efusiva mulher algumas vezes.
Meu ônibus chegou enfim.E dessa vez, entrei sem nenhum aborrecimento pela longa demora. Mais uma vez foi a linguagem do afeto que me fez fortalecer a crença de que o ser humano ainda tem jeito.Enquanto existir um gesto de ternura, enquanto o afeto falar mais alto, a humanidade não estará condenada ao fim.
Pela janela, o meu olhar ainda buscava um resquício de ternura que encantou a minha tarde.A partir desse momento só fiz confirmar o que as minhas observações em relação a essa moradora de rua me comprovaram. Qualquer pré-julgamento pode induzir ao erro.Quem diria que uma pessoa tão só, abandonada à sua própria sorte, sem rumo na vida pudesse se revelar de forma tão sensível em relação ao outro?
É. O cotidiano pode sempre nos surpreender se tivermos o coração e os olhos abertos ao inesperado.


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