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   > A Morte Pede Carona



Vanderlei Antônio de Araújo
      CONTOS

A Morte Pede Carona

 

Em histórias de caçador só acredita quem quer. Geralmente, ninguém acredita, mas gosta de ouvir. Quando o assunto é contar mentira, nunca falta uma história de caçada ou pescaria. Meu cunhado me disse isso ao me contar este causo.

Esta história disse-me ele, aconteceu com meu compadre Zé Onofre, homem trabalhador, bom chefe de família e de muita confiança, Por isso, eu acredito na sua historia. Sentado bem ali naquele banco. Ele começou:

-“Dia desse compadre, fui caçar lá para as bandas do rio Paranã. Peguei minha espingarda, carreguei com chumbo grosso, apanhei uma rede, para nos casos de ter que dormir no mato. Quando a noite chegou, ainda não tinha encontrado nada. Decidi então, esperar em cima de uma árvore.

Subi, armei a rede num lugar alto de onde eu pudesse ver o animal chegar. Queria um bicho de carne boa, uma paca, um mateiro. Não mato bicho à toa, se for só para matar o pobre animal, eu não caço”.

 “No embornal, além da munição, levava uma lanterna, uma tigela com farofa de galinha e um taco de rapadura que era para enganar o estômago. Para passar o tempo preparei um bom cigarro de palha, com o fumo de rolo que sempre levo comigo. Acendi o cigarro e fiquei de olho bem aberto, pitando, observando, esperando... pitando.”

“Noite alta. Céu sem lua. O silêncio era interrompido apenas pelos pios dos curiangos. As sombras densas e espessas me fizeram cochilar e acho até que dormi. Pois, acordei assustado com um barulho que fez um arrepio subi pela minha espinha, passar pelos ombros, ganhar a cabeça e deixar meus cabelos todos em pé. Meu coração acelerou e o meu fôlego encurtou. Não vou negar que tive medo. Em todos os meus anos de caçador, jamais conhecera um momento de tamanha inquietação. Olhei em volta, não vi nada”.

“Recuperado do susto, voltei a cochilar. Não queria mais dormir. Para isso, fiz uma força danada para afastar o sono. Por isto, eu garanto que o que vi naquela noite não foi sonho. Eu estava bem acordado, esperando a caça que levaria para casa”.

“De repente, ouvi um matraquear embaixo da árvore: TAC, TAC, TAC... Parecia barulho de queixada. Fiquei animado. Peguei a lanterna e apontei na direção do barulho, prestando muita atenção para ver quem era o autor daquele matraqueado. Não demorou muito e um vulto muito estranho aparecer no foco de luz. Mas não consegui entender direito o que via. Saí da rede, peguei a espingarda, desci mais um pouco, e então consegui distinguir umas malhas brancas no bicho, parecia onça. Porém, não compreendia o que estava acontecendo. O matraquear saía das costas do animal”.

“Desci da árvore. Olhei em volta a procura de um lugar mais seguro, não queria terminar meus dias, destroçado por um animal feroz. Firmei a lanterna. Com os olhos bem abertos vi que era mesmo uma onça pintada. Estava tão magra que só tinha o couro e os ossos. Nas suas costas havia um esqueleto pregado. O matraquear era produzido pelas batidas dos ossos do esqueleto uns contra os outros, quando a onça andava. De tudo que já vi na vida, não me lembro de nada mais estranho e assustador. A onça sofria com aquele esqueleto pregado nas suas costas. Sofria muito. Com pena dela, dei-lhe um tiro e a livrei daquele sofrimento”.

“Depois, com calma, me aproximei para tentar entender o que se passava. Aí então, vi que aquele monte de ossos nas costas da onça era o esqueleto de um tamanduá. O bicho, numa briga com a danada, cravou-lhe as unhas no lombo. Não podendo mais se soltar, morreu de fome, enquanto ela sofrendo de dor andava pela mata sem poder parar, nem comer e nem beber, assustando os outros viventes com aquele esqueleto matraqueando nas suas costas”.

 



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