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   > OS ELEMENTOS PARAVERBAIS E NÃO VERBAIS PRESENTES NO GÊNERO DENÚNCIA ORAL COMO CO-CONSTRUTORES DE SENTIDO EM UMA PERSPECTIVA DA ANÁLISE DA CONVERSAÇÃO



Francisco José Costa dos Santos
      ARTIGOS

OS ELEMENTOS PARAVERBAIS E NÃO VERBAIS PRESENTES NO GÊNERO DENÚNCIA ORAL COMO CO-CONSTRUTORES DE SENTIDO EM UMA PERSPECTIVA DA ANÁLISE DA CONVERSAÇÃO

Resumo
Neste trabalho, buscamos caracterizar os elementos paraverbais e não verbais presentes no gênero denúncia oral sob a ótica conversacional. Tomando como campo de análise um pronunciamento feito pela deputada estadual do Rio de Janeiro, Cidinha Campos do PDT, buscamos mostrar que há esses elementos e que eles são decisivos para a compreensão da audiência e que contribuem de forma significativa para o estabelecimento de um campo propício do gênero denúncia oral para as intenções comunicativas do denunciante. Valemo-nos da base teórica de Catherine Kerbrat-Orechioni(2006), estudiosa da Análise da Conversação (doravante AC), para estabelecer as conceituações pertinentes e buscamos em Bakhtin(1996) o embasamento necessário para a concepção de gênero. Poderíamos e deveríamos, para dar conta da complexidade dessa análise, arregimentar diversas outras linhas teóricas, tais como: a sócio-retórica, atos de fala, análise crítica do discurso, a semiose, entre tantas outras, contudo, limitados pelo espaço, nos ateremos a AC e a teoria de gêneros discursivos. Como metodologia empregamos a revisão da bibliografia, transcrição da denúncia formulada pela deputada, a consequente análise e seus resultados, que apontam para a efetiva presença de elementos paraverbais e não verbais na denúncia oral e que os aludidos elementos assumem postura decisiva para os objetivos propostos no gênero em análise.
Palavras Chaves: AC, Paraverbais e não verbais, gênero denúncia oral

Origem da AC
            A AC surgiu como uma das expressões empíricas da etnometodologia. Criada na década de 60, a etnometodologia tornou-se mais conhecida a partir da publicação de Studies in Ethomethodology de Harold Garfinkel (1967). Essa corrente de estudos, segundo o autor,

...aborda as atividades práticas, as circunstâncias práticas e as situações de raciocínio sociológico prático, como temas de estudo empírico. Concedendo às atividades corriqueiras da vida cotidiana a mesma atenção que habitualmente se empresta aos acontecimentos extraordinários, tentamos compreendê-los como fenômenos de direito pleno (GARFINKEL,1967 p.1).

            Com a publicação de tal obra, estabelece-se um campo de investigação sociológica: a análise de propriedades de ações e do raciocínio prático que estão imbricados nas situações comuns da vida rotineira. Assim sendo, a etnometodologia traz para si a postura de uma corrente de investigação que se volta para a compreensão da forma com que os agentes “criam, reúnem, produzem e reproduzem as estruturas práticas para as quais se orientam” Heritage (1999). O autor parece dizer que, a etnometodologia busca compreender quais atitudes são adotadas por agentes para significar e dar ordenamento às suas condutas no desenvolvimento de ações cotidianas, ou seja, como compreendem o mundo e nele se orientam.
            Parece-nos aqui haver o estabelecimento da visão de interação uma vez que as atividades práticas desenvolvidas por agentes e o contexto nessas práticas, se influenciam mutuamente e, nesse sentido, vamos encontrar fulcro para compreender que a AC incorpora, de certa forma, em seus procedimentos de investigação postulados da etnometodologia.
            Ao enveredarmos pelo campo da AC, necessário se faz observar algumas premissas em relação a este campo de investigação e assim estabelecer ligações diretas entre a teoria e o objeto de estudo e dessa forma os trabalhos de Bakhtin nos levam à percepção de que:

O diálogo – a troca de palavras – é a forma mais natural da linguagem. Mais ainda: os enunciados longamente desenvolvidos, ainda que eles emanem de um interlocutor único – por exemplo, o discurso de um orador, o curso de um professor, o monólogo de um ator, as reflexões em voz alta de um homem só – são monólogos somente em sua forma exterior, mas em sua estrutura interna, semântica e estilística, eles são, com efeito, essencialmente diálogos. (VOLOCHINOV apud CHARAUDEAU e MAINGUENEAU, 2004, p.160-161).

            A reflexão acima deixa transparecer que, mesmo havendo a individualidade no discurso, esse constitui-se em dialógico a partir da compreensão que os elementos linguísticos lhe ofertam campos de interação dialógica e, sendo assim, é pertinente afirmar que o dialogismo é o princípio constitutivo da linguagem e da condição do sentido do discurso.
            Ainda em Bakhtin nos enlevamos pela ideia de polifonia, que nos leva a perceber a impossibilidade de analisar as palavras como signos neutros, transparentes e não afetados pelos conflitos sócio históricos que atingem os falantes de uma língua, mas como um discurso permeado por suas vozes, valores, desejos. A polifonia que permite que se identifique outras vozes determinantes do discurso do sujeito e isso se faz necessário pela carência de buscar-se compreender as condições comunicativas que culminam da denúncia oral em análise.
            Buscando compreender a noção de gênero, adentramos ainda mais no conhecimento de Bakhtin para encontrar base teórica à afirmação de que não há comunicação e/ou conversação fora de um gênero.
A riqueza e a diversidade dos gêneros discursivos são ilimitadas, porque as possibilidades de atividade humana são também inesgotáveis e porque cada esfera de atividade contém um repertório inteiro de gêneros discursivos que se diferenciam e se ampliam na mesma proporção que cada esfera particular se desenvolve e se torna cada vez mais complexa (Bakhtin1986 p. 60)
            Pelas palavras de Bakhtin, somos levados a entender que a AC transita nas mais diversas esferas das atividades humanas assumindo contornos contextuais próprios e procedimentos que permitem o estabelecimento de relações de sentidos que vão para além do uso da fala e permitem observar que as conversações são construtos coletivos, feitos não só de palavras, mas também de gestos, silêncios e entonações, conforme nos aponta Kerbrat-Orechioni (1996/2006 p.36) ao afirmar que “as conversações exploram diferentes sistemas semióticos para se constituir”.
            Esses sistemas estão postos em enquadres conversacionais no qual vislumbram-se elementos básicos de sua constituição como a linguagem, o contexto, o material verbal, o paraverbal e não verbal, os turnos de fala, os atos de fala, as relações, etc. Assim vislumbramos um enorme campo de ação postulado pela AC.
            É no arcabouço do pesquisador russo que nos abalizamos para definir a denúncia oral enquanto gênero discursivo já que este apresenta a forma prototípica constitutiva de um gênero enquanto prática social, ou seja, apresenta um enunciador que aponta desvios de construtos pactuados socialmente de outrem, estabelece-se por um canal comunicativo e tem aceitação cristalizada nas comunidades discursivas em que circula.
            No material em análise proposto para este trabalho, buscamos visualizar os propósitos comunicativos da deputada Cidinha Campos não para a audiência primeira (parlamentares), mas sim para o público eleitor do estado do Rio de Janeiro, além de caracterizar os elementos paraverbais e não verbais presentes no material analisado.
            Contudo, é importante traçar uma linha de compreensão da AC de maneira mais profícua, que nos leve a compreender que os estudos sobre a organização interacional da conversação, de forma geral, estão preocupados em compreender a organização situacional da ação e os procedimentos utilizados pelos participantes para produzir uma intercompreensão recíproca no curso das interlocuções. Nesse terreno, temas como a abertura e o fechamento das conversações, revezamento de turnos e o funcionamento dos pares adjacentes, já foram explorados pelos analistas da conversação, obviamente sem esgotar as discursões em torno do tema. Mas como já alertamos anteriormente, constitui-se nosso foco central de ação os elementos paraverbais e não verbais além das intencionalidades comunicativas presentes no material em análise que nos ateremos. Assim, é preciso compreender que elementos são estes e como se organizam.
            Kerbrat-Orechioni(1996/2006 p.36) vai chamar de material não verbal aquilo que é prosódico e vocal, ou seja, as unidades que são transmitidas ao canal auditivo, tais como entonações, particularidades de pronúncia, características da voz, etc., e de material não verbal aquilo se insere no campo da visualização. Conforme a autora, esses elementos são classificados como signos estáticos, cinéticos lentos e cinéticos rápidos. Os signos estáticos vão dar conta da aparência física dos participantes da conversação, enquanto que os cinéticos lentos apontam para o distanciamento, atitudes e posturas, por fim, os cinéticos rápidos vão tratar do jogo de olhares, mímicas, gestos, etc. Ao falarmos desses elementos é preciso realizar a observação sobre a importância destes materiais para o processo de análise por isso coloca-se como cabal observar a coerência do diálogo.
            Parafraseando Kerbrat-Orechioni, podemos dizer que se excluirmos da análise das conversações todos os elementos não verbais, seremos, em alguns casos, incapazes de explicar a coerência do diálogo, já que é nessa esfera de atuação que ocorre a interveniência sucessiva de atos verbais e não verbais. Continua a autora dizendo que “é impossível ao analista explicar o funcionamento global da interação, na medida em que nela intervêm simultaneamente elementos verbais, não verbais e paraverbais”.(Kerbrat-Orechioni, 1996/2006 p. 39)
            Podemos observar isto, por exemplo, em um convite para que alguém entre em um recinto. Quem convida, além do material verbal produzido oralmente, adenda um maneio com o braço ou cabeça e um sorriso que são percebidos pelo convidado, ou seja, a presença de materiais não verbais e paraverbais se comungam em um ritual para a produção de um sentido final.
            Mesmo tendo como norte neste trabalho o material paraverbal e não verbal, é preciso vislumbrar o material verbal como ancoragem para os demais, na medida em que estes estão postos como elementos complementares das intencionalidades comunicativas do locutor. Ou seja, as posturas, os gestos, os olhares, etc. funcionam como, o que chamamos de “satélites semânticos” para a compreensão almejada pelo locutor.
1. A Análise
            A hoje deputada estadual Cidinha Campos, pelo Partido Democrático Trabalhista (PDT), tem ao longo de sua carreira política angariado notoriedade por seus pronunciamentos de denúncia daquilo que ela classifica como “ilegal ou corrupção”. Oriunda profissionalmente da radiofonia, a parlamentar tem se notabilizado pelo uso de palavras duras quando se refere a casos de corrupção política e/ou afins. No caso em tela, o deputado estadual José Nader Júnior (PDS Partido Democrático Social) se lança candidato ao cargo de Conselheiro do Tribunal de Contas do Estado. Ocorre que ao longo de sua trajetória política, o parlamentar foi apontado por seus pares e pela mídia carioca e nacional, como partícipe de diversas ações “ilegais” as quais abalizam o discurso do gênero denúncia proferido por sua colega.
            O contexto espacial é a sala de sessões da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro, logo após o “lançamento” da candidatura do parlamentar ao TCE. Naquele momento, os parlamentares discutem um programa assistencial gerenciado pelo governo do estado, chamado de Programa do Leite, e a deputada Cidinha Campos está inscrita para fazer uso da palavra. O contexto chamado de participantes é composto de 28 parlamentares presentes na sala de sessões e, dentre eles, o corregedor que é citado pela denunciante e o próprio denunciado.
            Quando instada a fazer uso da palavra, decorre a seguinte situação comunicativa:
1. Pres1. com a palavra a ilustre ilustrada deputada Cidinha Campos
2. CC: acabou a discussão do leite?
3. Pres. ainda não
4. CC: o que mais tem?
5. Pres: não.. vossa excelência, vai discutir?
6. CC: não, não, eu quero falar dos que MAmam ((risos))
 
            No trecho acima, seguindo o padrão regimental, o presidente concede a palavra à parlamentar em análise (linha 1), referindo-se a esta com uma adjetivação (ilustre ilustrada), que parece querer dar maior destaque àquela que fará uso do turno de fala. E ela, quebrando o que seria usual em tal ambiente onde há expectativa de que se inicie um pronunciamento fazendo uso do jargão Sr. Presidente ou algo similar, lança em resposta, um questionamento (linha 2) à mesa diretora na pessoa de seu presidente,
1 Pres. Presidente
CC: Cidinha Campos
2dep: segundo deputado presente na interação
3dep: terceiro deputado presente na interação
 
recebendo uma resposta a tal questionamento (linha 3). No próximo turno (linha 4) um novo questionamento surge como sequência ao questionamento anterior. Na linha 5, pode-se perceber estupefação do parlamentar que preside a sessão, quando ele usa o material verbal “não” seguido de uma pausa (não verbal), um rosto de espanto (paraverbal) e um novo questionamento. A parlamentar então inicia seu pronunciamento com uma sequência de repetição de “nãos” em sentido positivo e caminha para a apresentação de sua real intenção comunicativa para aquela esfera.
            Quando a deputada afirma “eu quero falar dos que MAmam” faz uso de uma ressignificação da palavra mamar que dicionaristicamente falando, tem por significado Mamar: (latim mammo, -are) v. tr. e intr.1. Sugar o leite da mama ou do biberão. v. tr. 2. Chupar, sugar. No ato, a parlamentar se volta para a variação resignificada como: Infrm. Ingerir, geralmente em grandes quantidades e com avidez. = DEVORAR, EMBORCAR, 5. Infrm. Ficar indevida ou abusivamente com alguma coisa. = CHULAR, 6. Infrm. Enganar, ludibriar.
            A deputada coloca assim sua intenção de uso do gênero denúncia oral já neste trecho, ao referenciar tal verbete com este sentido. A ressignificação do termo é aceita pela comunidade discursiva presente na sessão, uma vez que provoca risos nos presentes, demonstrando que todos compreendem com clareza o sentido que é apregoado pela utilitária do turno de fala.
            Neste ponto, também é possível observar que a intencionalidade comunicativa da deputada está para além do plenário da assembleia legislativa do Rio de Janeiro. Uma vez que tendo a parlamentar o conhecimento de que a sessão não se restringe a sala de audiências, mas é transmitida pelas emissoras de rádio e televisão da assembleia e é recebida por profissionais da comunicação que atuam em diversos outros órgãos de imprensa, além da audiência indireta presente nas arquibancadas na condição de meros espectadores, o gênero denúncia oral utilizado assume patamares que extrapolam as paredes da sala e chegará a milhares de pessoas que possivelmente se verão representadas pelo enunciado da deputada e que, em futuro próximo, poderiam vir a ser potenciais eleitores.
            Quando a audiência primeira (parlamentares) se expressa com sorrisos (paraverbais), somos conduzidos à compreender que não apenas a usuária do turno, mas toda a audiência pactua socialmente da ressignificação do termo e, como bem evidencia Franchi(2004)
“A percepção imagética representa o elo de ligação entre o universo das linguagens e o mundo social. Não há, pois, imagem sem percepção, sem significação, sem que possa ser “lida” e interpretada de acordo com os códigos e contextos sociais, políticos, culturais e artísticos presentes na linguagem.” Franchi(2004 p. 3).
 
            Na sequência de sua fala, os elementos paraverbais e não verbais vão se tornar ainda mais evidentes quando a deputada utiliza-se de formas gestuais e expressivas para conotar ênfase ainda maior às suas palavras. Transcrevemos recortes da denúncia para caracterizar a ocorrência destes elementos aos quais nos referimos.

7. Pres. ah! aí já...((risos)) aí num tá na ordem do dia aqui (risos)
8. 3dep: ((pessoas da mesa diretora riem)) é o que senhora? Não entendi...
9. CC: estava falando do leite e eu gosto de falar de quem mama... não das crianças que têm
10. direito ((risos de fundo)) mas dos mar man jos...sa fa dos...sem vergonhas... cafa jestes que
11. infestam a politica nacional e infestam ((faz movimento com o braço)) esta casa ((vira-se para
12. o provável lado do acesso ao plenário)) eu subi feito uma DOIda... prá falar no primeiro
13. horário depois que ouvi o depoimento do deputado Nader se lançando candidato ao tribunal
14. de contas do estado... ((maneio de cabeça para cima indicando questionamento)) o que é
15. Isso? Eu ve::jo... aqui nessa casa o CINISmo... dos ladrões... vi ontem dessa tribuna... um
16. deputado falar em mora::l bons costumes ((faz movimento de marcação com o braço))que é
17. isso?... quando o pai dele tá preso o tio dele tá preso e ele é laranja dos dois (+0.3) roubando
18. o que?... vacina e remédio de criança... (+0.5) comé/ qui é isto? É um feu:::do o tribunal de
19. contas’ ... ou é um pasto? ...(+0.5) o Pai é ladrão... denunciado na CPI enquadrado por
20. corrupção... o filho ((bate nas folhas de papel que tem nas mãos)) tá no MESmo inquérito na
21. polícia que (...) aberto na polícia federal na operação pasSÁR:gada enquadrado em ((ergue o
22. dedo em riste)) (...) ... agora eu num to falando do pai que já saiu... na compulsória... to
23. falando do filho ((faz sinal com o braço no sentido de entrada)) que quer entrar no RA::::bo
24. do PAi ...(0.3) cor:::rupção ... formação de QUAdrilha artigo duzentos e oitenta e oito
25. cor::rupção passiva artigo trezentos e dezessete advocacia administrativa artigo trezentos e
26. vinte e um do código penal ...(+0.3) ele não sabe qu/que prá ser conselheiro do tribunal
27. de contas tem que ter notório saber:: e re pu TA ção i li ba da?
 
            Tomemos a linha 7, quando após o uso da forma jocosa que provocara risos no plenário o turno de fala é retomado pelo presidente, que apresenta o riso como material paraverbal e não verbal (a expressão corporal típica do riso) como a comungar da compreensão do termo “mamar” empregado pela deputada.
            Na linha 8, uma terceira pessoa interage na situação. Contudo, a entonação dada pelo interactante, leva-nos a compreender que, apesar de confessar não haver entendido o que foi dito, ele na realidade tem pleno entendimento do termo utilizado e busca trazer ainda mais comicidade (visão do pesquisador) ao evento comunicativo.
            Na linha 10, outro elemento arregimentado pela deputada é a silabação que busca dar maior ênfase a este trecho do discurso:
10 ((risos de fundo)) mas dos mar man jos sa fa dos sem vergonhas cafa jestes que
            Quando a parlamentar pronuncia as palavras marmanjos, safados e cafajestes, o faz de maneira sibalada, marcando estas por sua entonação pausada e carregada de significações. Marmanjos, safados e cafajestes aqui assumem um papel semântico bem mais forte que o sentido dicionarizado. Pela marcação entonacional e pelo enfatismo, o valor dado a estas palavras vai para além do dicionário, emerge para a vivência socialmente marcada por ações que convergem para a compreensão de que tais sujeitos desenvolveram “quebras” das situações socialmente e historicamente pactuadas.
            Portanto, a silabação enquanto elemento paraverbal é uma das marcas recorrentes utilizadas pela parlamentar para reforçar a sua visão sobre o denunciado e ainda mais, busca ela angariar audiência e ressonância de suas palavras e conceitos na audiência não apenas imediata (demais parlamentares), mas sim de todo o eleitorado do Estado do Rio de Janeiro.
            As pausas intencionais e as entonações mais enfáticas dadas pela parlamentar constituem-se em campos de excelência para os estudos em AC. O uso das pausas (paraverbal) é estrategicamente colocado para dar consistência na produção de sentido e reforço da estrutura do gênero denúncia oral.
            Outro elemento não verbal está no olhar fito no presidente da sessão, durante a maior parte do tempo em que a parlamentar tem o turno de fala e suas feições parecem demonstra ira pelos acontecimentos que ela traz à tona.
            Na linha 12, quando a deputada faz uma pausa entre a palavra DOIda (na qual ela faz a escolha linguística pela entonação mais forte) e a palavra prá, parece-nos buscar a reafirmação do termo utilizado e mais ainda, reforçar sua indignação com o que havia escutado anteriormente.

12 acesso ao plenário)) eu subi feito uma DOIda... prá falar no primeiro horário depois que ouvi o

            A palavra “doida” aqui empregada está, não para o sentido de perda de capacidades mentais, mas sim, mostra uma ansiedade em dar resposta a um evento comunicativo anteriormente ocorrido.
            Em diversos outros pontos do discurso denunciativo, as pausas (paraverbais) e os gestos (não verbais) vão se sucedendo como forma de ratificar as escolhas verbais utilizadas. Nas linhas 11, 12, 13, 14, 15, 16, 19, 21 e 22 deste recorte, vamos observar a presença de diversos elementos não verbais arregimentados pela deputada como suporte linguístico ao seu discurso.
            Elementos como: linha 11 e 12 ((vira-se para o provável lado do acesso ao plenário)), 13 e 14 ((maneio de cabeça para cima indicando questionamento)), 15 e 16 ((faz movimento de marcação com o braço)), 19 ((bate nas folhas de papel que tem nas mãos)), 21 ((ergue o dedo em riste)), 22 ((faz sinal com o braço no sentido de entrada)), mostram que as escolhas linguísticas feitas não são em vão e que cada escolha verbal necessariamente está vinculada a uma escolha paraverbal e não verbal, que lhes completem o sentido, e mais ainda, mostram através da semiótica posições comportamentais da deputada que em nosso entendimento marcam mais ainda a personalidade forte e um posicionamento ideológico que nos parece trazer à baila toda uma história de vida da parlamentar voltada para o efetivo combate aos gargalos sociais patrocinados por corrupções de toda sorte e corruptos na mais ampla acepção da palavra.
            Na linha 29, a presença de uma intrusão de fala é outro elemento que merece consideração. Neste caso temos aqui um interactante que não teve concedido pela usuária do turno de fala a autorização ou chamamento ao uso, mas mesmo assim, intervém de forma intrusa parasitando o circuito interlocutivo. Esse evento quebra o princípio da alternância defendido por Kerbrat-Orechioni que nos afirma:
            Para que haja diálogo, é preciso que sejam postos em presença ao menos dois interlocutores que falem “alternadamente”. (...) a intrusão é um delito conversacional que diz respeito não ao momento da sucessão, mas à natureza do sucessor: é um falante “ilegítimo” que se apossa da palavra. Kerbrat-Orechioni(2006 p.50 )

27. advocacia administrativa artigo trezentos e vinte e um do código penal ...(+03) ele não sabe
28. qu/que prá ser conselheiro do tribunal de contas tem que ter no tó rio saber:: e re pu TA
29. 4dep: sabe sim
30. ção I LI BA DA?... isso é uma reputação ilibada? ((lê no papel que tem nas mãos)) corrupção

          Nas linhas 64 e 65, encontramos outro ponto fundante no discurso parlamentar e que reafirma o propósito comunicativo de proceder a denúncia oral, senão vejamos:

64. o voto da outra canalhada toda....eu vou dar o nome dos deputados associados a essa camarilha
65. e acho que vão sobrar poucos... obrigado,
 
          A deputada amplia ainda mais o seu intuito comunicativo se valendo do gênero denúncia oral quando afirma que denunciará publicamente seus pares que se associarem aos intentos do deputado Nader Filho e parece dar um tom ainda mais forte quando enuncia que grande parte de parlamento carioca está contaminado pela corrupção. No trecho “eu vou dar o nome dos deputados associados a essa camarilha e acho que vão sobrar poucos” ela pré-anuncia que tal ato de fala poderia indicar que um número reduzido de parlamentares se mantêm fiel aos princípios daquilo que é socialmente pactuado como conduta moral irrefutável. Para reforçar tal afirmação, a parlamentar associa ao material verbal uma expressividade no olhar mais “arregalado” e o movimento contínuo de subida e descida do dedo indicador.

2. Considerações Finais
            A presença de elementos paraverbais e não verbais efetivamente se configuram em rico material que corroboram para dinamicidade do gênero denúncia oral e para os estudos em AC já que ofertam significações complementares para o material verbal. São os signos estáticos, os cinéticos lentos e rápidos que dão o apoio visual e perceptual para consolidar as intenções comunicativas do locutor estabelecendo estreitas relações com a audiência e as intencionalidades pretendidas.
            Obviamente que não apenas no gênero denúncia oral tais elementos estão presentes, contudo, em tal gênero o suporte dado por esses elementos permitem que ocorra uma interação que não poderia ser percebida se o gênero utilizado para a denúncia fosse escrito e não o oral, construindo-se em uma particularidade deste gênero dada pela presença dos elementos paraverbais e não verbais enquanto marcas de reafirmação das escolhas linguísticas formatadas pelos elementos verbais.

Referências


BAKHTIN
, Mikhail. Estética da criação verbal. 4.ed. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
___________. Marxismo e filosofia da linguagem. 9.ed. São Paulo: Hucitec, 1999.
__________ . Speech Genres & Other Late Essays. Austin: Univ. of Texas. 1986.
BRAIT, Beth. (Org.) Bakhtin: conceitos-chave. São Paulo: Contexto, 2005a.
CHARAUDEAU, P., MAINGUENEAU, D. () Dicionário de Análise do Discurso. Trad. Fabiana Komesu. São Paulo: Contexto; 2004
Dicionário Eletrônico Priberam da Língua Portuguesa; disponível em http://www.priberam.com
FRANCHI, Antonio Carlos; Estratégia persuasiva e intenção comunicativa da imagem; no prelo, SC, 2004.
KERBRAT-ORECHIONI, C.; Análise da Conversação: princípios e métodos; São Paulo-SP; Parábola; 2006.
MACHADO, Arlindo. A Televisão levada a sério. 3 ed. São Paulo: Senac, 2003
MARCHUSCHI, L. Antonio; Análise da Conversação; 5ª ed; São Paulo-SP; Ática; 2003.
TRAVERSO, Véronique. L'analyse des conversations. Paris, Nathan, 1999.
Vídeo da denúncia disponível em: http://youtu.be/q21rM03_R18 acessado em 04/05/2011 09.12.22
Transcrição completa disponível em: http://www.4shared.com/file/yK



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