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   > Afinal, o que é o amor?



Jacqueline Oliveira Pereira
      CONTOS

Afinal, o que é o amor?

- Que fique bem claro que eu não quero essa criança, não quero ter nenhum contato com ela , não vou registrar e nem dar nenhum apoio e também não quero que saia dizendo por aí que esse filho é meu. Sinceramente,  não sei por que está fazendo isso, você também não quer, não entendo o porquê em querer carregar esse fardo. Olha, eu sempre gostei de você,sempre aguentei as suas mudanças de humor e você nunca reconheceu nada do que fiz. O que posso fazer é te dar uma ajuda financeira, mas só entre nós dois e vou fazer isso só por ti,ta entendendo? Não tenho  e nunca vou ter nenhum sentimento por essa criança.
Fiquei chocada com tamanha frieza,o tom rude e cruel em sua voz me fez paralisar por um instante.
- Espera um pouco, deixa eu ver se entendi.Você não vai nem sequer registrar seu filho e acha que eu quero dinheiro seu! Pois vou lhe falar uma coisa,eu não preciso de você para nada. Não se preocupe que não vou exigir nada.Pode continuar sua vida de farras, não irei lhe atrapalhar e não precisamos nos falar novamente,acho que já deixou tudo bem claro.Adeus.
Fui embora, mas quase que não conseguia andar,minhas pernas ficaram bambas e por pouco não caí.Parei em uma pracinha que estava em reforma,sentei em um banco sujo e quebrado,mas que me deu algum conforto naquele momento. De certa forma eu estava igual aquele banco,totalmente despedaçada, a diferença é que todos podiam passar e ver a desgraça dele e comigo não,meu sofrimento era interno,meu sangramento era por dentro . Olhei para os lados e estava tudo deserto. Senti-me abandonada e sem rumo.Para onde eu iria agora?Como contaria aos meus pais que iria ser mãe solteira e que o pai não iria nem registrar o filho? E naquele momento senti o peso das minhas escolhas.
Comecei a lembrar do fracasso que tinha sido minha vida. Estava com vinte e oito anos,frequentava uma faculdade que detestava e que estava demorando muito para terminar,já estava lá há 10 anos.Todos da minha turma já haviam se formado, eu era a mais atrasada,pensei que também não tinha emprego e nem a esperança de um,pois,quem contrataria uma mulher grávida?Ninguém, é claro.Também tinha o problema familiar,eu odiava meus pais,sempre fora assim,desde pequena, sempre falei que com 18 anos eu iria embora e nunca mais eles me veriam.Mas ao contrario do que sonhava aquela época,ainda estava naquela casa suja e vivendo as custas deles.Eu era um fiasco, alguém que não conseguira realizar nenhum dos sonhos,uma criatura triste que vagava pelos bares,bebendo e procurando um pouco da ilusão de felicidade que a bebida proporciona,contando migalhas para comprar uma dose de cachaça. E naquela hora,naquela tarde ,achei que não aguentaria.
Recebi uma ligação de uma amiga me convidando para um bar e eu sem pensar em nada resolvi aceitar.Era um bar pequeno de esquina em um bairro bem agitado de fortaleza,lá começamos a beber,tudo estava animado,minha vida estava normal outra vez,outros amigos chegaram e mais bebida ,todos alegres divertiam-se naquela pequena birosca com mesas e cadeiras desconfortáveis mas que teimávamos em ir pois o dono,um senhor de seus aproximadamente  58 anos, nos recebia com muita cortesia. Começou a ficar tarde e a vontade de dançar  surgiu, saímos,outro bar,agora esse tinha musica,e dançamos muito.As luzes pareciam transcender e eu achei que estava livre mas, o orvalho da manhã surgiu para estragar a traiçoeira noite e com ele veio a realidade. De novo eu me deteriorava.
Ele veio em meus pensamentos. Não ,não era uma pessoa especial,não tivemos nada de bom ou de feliz. Aquele autarca nunca me amou de verdade.Parei em frente ao portão da casa que eu odiava e me veio a lembrança da infância. Como num flash me veio a lembrança de meu irmão e do meu vizinho Seu José.
Meu meio irmão filho do meu pai com uma de suas conquistas apareceu na nossa casa, meu pai era muito galanteador sempre foi muito jovial e naquela época era soldado da "GLORIOSA POLÍCIA MILITAR DO CEARÁ",  as mulheres enlouqueciam quando ele passava de farda,magro e alto despertava desejos lascivos em todas que o viam.
Carlos era o nome do rapaz e já tinha uns 17 anos. Vi quando meus pais foram para a sala ,eles brigaram, mas logo em seguida apareceram e nos apresentaram a mim e as minhas patéticas irmãs que só sorriram, sempre assim não ligando para nada só para o que elas iam ganhar. Na hora achei estranho,só tinha 6 anos, não entendi nada,não compreendia como um irmão poderia aparecer do nada.  Após a reunião corri para o quintal e subi no pé de goiaba, onde eu sempre ia para me esconder quando  estava prestes a levar uma surra por motivos meus ou por de minhas irmãs, minha mãe nunca deixara meu pai bater nelas, então ele ficava com tanta raiva que batia o dobro em mim, mesmo se eu não tivesse culpa alguma. Minha mãe  apontava para mim e então lá vinha ele com o seu cinto largo cinza com várias fivelas e me batia até que eu não aguentasse mais.Eu implorava perdão, muitas vezes sem saber nem o porquê e quando ele cansava o braço eu dava graças a Deus e rezava para que ele não voltasse.Após a surra minha mãe chegava no nosso quarto com minha irmã que tinha a verdadeira culpa, segurando-a e protegendo-a como uma leoa.
 às vezes quando não conseguia escapar ia para árvore pensar e ficava lá até anoitecer chorando e perguntando:
-Deus, porque ela também não me defende?Porque não se colocava na frente dele e fala como fala com minhas irmãs "na minha filha você não vai bater!". será que eu não era sua filha, assim como Carlos? Por isso me odiava tanto? Será que eu era só mais uma filha bastarda que meu pai trouxera para casa, então eu pensava: que bom ter um irmão, ele pode cuidar de mim, ele vai me entender, agora podemos nos ajudar,vai ser uma boa coisa.E fiquei tão feliz que agradeci a Deus por te-lô mandado.
Com o passar do tempo Carlos se mostrou tímido, mas minha mãe não gostava dele. Fazia simpatias com Carmem, minha irmã mais velha, na esperança de que ele fosse embora. Certa vez, ouvi uma conversa entre elas de que Carlos havia sido concebido antes do casamento deles.
Carlos sempre ia nos buscar na escola e sempre me pegava com força e falava perto de mim tentando me fazer sorrir e uma vez ele falou no ônibus;
-Rebeca, esconde sua carteirinha senão eu vou ter que pagar sua passagem. Eu não entendi,  mas ele sussurrou no meu ouvido, é que você é pequenina e pode passar por debaixo da catraca sem pagar, como se fosse uma criança de idade menor. Eu fiquei super feliz com a aventura e escondi rapidamente , deu tudo certo, passei e o trocador nem percebeu, quando descemos do ônibus ele piscou para mim e esse foi nosso primeiro segredo.
Às vezes à tarde, depois que fazíamos o dever de casa, meu pai deixava eu e minhas irmãs brincar na casa do Seu José que era um velhinho que morava na casa da frente, o quintal dele era enorme e íamos todos da vizinhança, era muito legal, brincávamos de tudo, esconde esconde, pega pega...brincávamos até suar.Então Seu José me chamava para ir para seu quarto, era um quarto pequeno mas tinha muitas coisas,várias fotos de sua família e vários brinquedos, o velhinho me contava muitas historias e eu adorava, me sentia especial porque ele só chamava a mim, era um mundo mágico onde só eu importava,onde  se eu estava bem ou mal tinha alguém para cuidar de mim, Seu José realmente se importava,contava algum conto de fada que sempre me fazia sentir melhor, aos poucos fomos nos aproximado mais  e mais e agora quando ia lá Seu José comprava bonecas de panos para mim, mas eu não podia levá-las para casa, era o meu primeiro segredo com ele,éramos como melhores amigos.
Em casa minha mãe me ignorava cada vez mais, escutava ela conversando com as vizitas: essa aí não sei porque nasceu tão feia, as minhas outras filhas são lindas, deve ser porque nasceu sozinha.
Eu havia nascido em um dia de chuva, estava caindo um temporal e minha mãe estava muito irritada , falava que eu não prestava nem para nascer em um dia descente. Meu tio Ricardo e que depois tornou-se meu padrinho é que a ajudou a ir ao hospital, pois meu pai estava trabalhando, quando chegamos o médico falou que era para ir para a sala de parto porque não havia mais tempo e saiu para se preparar.Quando voltou, minutos depois, eu já havia chegado ao mundo, SOZINHA, sem a ajuda de ninguém. O médico ficou assustado mas viu que estava tudo bem.Um tempo depois retornamos para casa.Minha mãe sempre conta essa história, fala que eu sempre fui sozinha, até na hora de nascer.Então eu pensava que poderia ser um ser solitário em busca de respostas, de felicidade, somente atrás de um pouco de afeto e compreensão ou quem sabe de uma leoa que também me defendesse.
Os anos  passaram-se e fui tendo mais confiança no Carlos e no Seu José... Papai sempre foi muito rígido com as tarefas da escola e quando terminávamos o dever de casa ele nos esperava sentado em um sofá velho no quintal, chamava uma por uma e quem errasse a lição levava uma palmada na mão e só saia de lá quando acertasse.
Eu sempre era a última e em um desses dias chegou Carlos, sentou-se ao meu lado, eu estava nervosa pois era a próxima, então meu meio irmão pegou minha mão e falou:
 -Tenho uma maneira de você ficar mais calma!
 E baixou as calças, na hora não tive reação pois estava preocupada de mais em não apanhar. Carlos pegou minha pequena mão bem devagar, olhou em meus olhos e sussurrou:
-Confie em mim,sou seu irmão lembra? Eu te amo.
Simplesmente me deixei levar, ele tirou seu órgão roxo da cueca e levou minha mão até lá.
-Acaricie, você vai ficar mais calma.
Puxei minha mão, eu não queria ,mas com a voz firme ele disse:
-Você não confia em mim?
Assenti com a cabeça. Carlos levou minha mão novamente ao seu órgão e pediu para que eu o massageasse, subindo e descendo e eu o fiz. Quando estava saindo um liquido meio transparente  meu pai gritou meu nome.
-Venha aqui Rebeca, agora é a sua vez, espero que tenha estudado.
Carlos puxou meu braço com força e falou:
-Não esqueça, esse é nosso segredinho e eu te amo viu!
...e esse foi o segundo de uma série de segredos.
No outro dia fui a casa de Seu José, como de costume,estava muito confusa com o que acontecera, então contei tudo.
- Não tem problema querida, todos fazem essas coisas, sente-se aqui que vou te explicar. É importante que você entenda que essas coisas só acontecem com pessoas que se amam muito, por isso que seu papai e sua mamãe não fazem com você, mas com certeza devem fazer com suas irmãs, isso tudo é normal minha princesinha só que ninguém comenta.        
Fez uma trança no meu cabelo e me entregou papel e canetinha para eu desenhar. Fiz um desenho lindo. Seu José e eu de mãos dadas. Ele adorou e colocou junto com umas fotos de outras crianças que eu não conhecia.
Fui para casa e após uns meses acordei no meio da noite gritando, pedindo socorro. Meus pais não estavam em casa e Carlos chegou, abraçou-me, tentou acalmar-me mas a essa altura eu já tinha medo de ficar sozinha com ele. Perguntei por meus pais e ele falou que haviam saído para uma festa e só iam chegar mais tarde. Começou a me acariciar, passou as mãos pelo meus cabelos e em seguida desceu, começou a fazer o que sempre fazia , dizia que me amava mas tinha uma coisa diferente, ele estava mais ofegante, tirou minha calcinha , eu pedi que ele parece mas não adiantou,em segundos estava em cima de mim, sentia repulsa, mas não chorei, nem falei mais nada. Quando percebi ,o liquido que sempre ficava em minhas mãos ou em minha boca agora estava em minhas pernas. Ele me deu um beijo no rosto e me abraçou forte,falou que eu era a pessoa que ele mais amava na vida e se eu falasse o que tinha acontecido ele nunca mais ia me defender da culpa que minha  mãe sempre colocava em mim para que eu apanhasse no lugar das minhas irmãs e também não ia mais  me amar.
Naquela noite chorei muito, não sabia o que tinha acontecido, eu sentia nojo.No dia seguinte resolvi que ia contar para os meus pais, era natal e eu tinha certeza que eles estavam felizes. Quando acordei, todos já estavam de pé e com seus presentes, corri para receber o meu quando meu pai me puxou pelo braço.
-Querida, não tinha dinheiro para comprar presentes para todas então só comprei para suas irmãs, você tem que entender. Mas não se preocupe porque eu te amo muito.
Fiquei parada, sem reação, minha mãe nem sequer veio me abraçar,todos estavam felizes e eu não fazia parte desta felicidade. Fomos todos brincar na casa de Seu José , minhas irmãs estavam radiantes com seus presentes, todos estavam mostrando o que ganharam, Seu José percebeu que eu estava parada ao longe e me chamou, não queria ir mas ele falou que tinha uma surpresa para mim, eu fiquei eufórica e fui correndo, ele fechou a porta ligou a TV e veio com uma boneca linda, pediu para que eu sentasse no seu colo, como de costume fez uma trança no meu cabelo depois pediu para eu me levantar e então mostrou-me todo o seu amor baixando minha calcinha e me acariciando e se acariciando ao mesmo tempo...
De repente alguém toca meu ombro, levei um susto, era meu pai, mandou-me entrar, eu o olhei com desprezo, obedeci, deitei na cama mas não conseguia dormir. Comecei a sentir muitas dores na barriga, gritei por minha irmã e fomos para o hospital, no carro, meu pai e minha irmã olhavam-me com um ar de felicidade. Chegando lá o rude médico mal me examinou e falou que eu não tinha nada, que a dor que eu sentia era psicológica fruto dos remédios controlados que eu tomava há anos e que havia parado por causa da gravidez. Na volta para casa as dores aumentaram e eu comecei a gritar, já não aguentava mais, meu pai mandou -me calar a boca, quando ia se virando para me dar um tapa, senti algo saindo...era meu filho,havia sangue por todo lado e eu gritei.
-Pai, estou perdendo meu filho.
Abri as pernas e ele estava lá, mas não saiu por completo, puxei-o e acabei arrancando sua pequenina cabeça pois, o resto do corpo estava preso. Enfiei a mão e puxei novamente, com o dobro de força, com o desprezo pelas pessoas que convivia...consegui retirar os restos mortais. Olhei para aquele corpo falecido e não senti nada, não consegui estabelecer nenhum vinculo materno. Levantei a cabeça e olhando pela janela do carro avistei a lua, simplesmente linda. Observei-a dançando com as nuvens  e entre sorrisos e lágrimas  continuei no único caminho que me foi destinado, o único que eu sabia.
Ao chegar em casa voltei para meu quarto, olhei para o lado, e lá estava meu cachorrinho, totalmente em defeso, peguei-o, acariciei sua cabeça, segurei-o com força, ele se debatia lindamente, olhava-me com ar de piedade e de desespero mas eu tinha que o salvar desse mundo perverso,  mais uns minutos e a paz reinou, o seu rosto ficou com um semblante tão calmo. Quem dera alguém me ajudar assim também, quem sabe algum dia...porque o amor sempre salva.
 



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