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   > Boneco de Madeira



Rangel Luiz dos Santos
      CONTOS

Boneco de Madeira

Carta de Igor. 
      Gênova, dezembro de 1808.
    Caro senhor Gepeto,
     há dias que aguardo minha encomenda. Sei bem que o trabalho de um artista pode ser longo, ainda mais aqueles que, como o senhor, é minimalista e trabalha com perfeição os menores detalhes. Contudo, o natalício de minha filha se aproxima e como presente gostaria de dar a ela o boneco que lhe encomendei. Por isso, peço que se puder me enviá-lo dentro de uma semana, o que creio ser tempo mais do que razoável, ficarei grato. Quanto ao pagamento, resolvi adiantá-lo e já enviar juntamente com essa carta, pois sei que o senhor perdeu sua esposa recentemente e que teve várias despesas com o funeral. Além disso, conheço sua índole e sei que irá cumprir com o combinado.
Agradecido,
    L. Igor
 

    Carta de Gepeto.
    Milão, dezembro de 1808. 
    Caro, senhor Igor,
    Desculpe a demora em lhe dar alguma satisfação. O senhor me conhece e sabe como sou cumpridor dos prazos que estabeleço com meus clientes. Por isso, posso dizer ao senhor que o boneco que me encomendou já está pronto há semanas e se não o enviei ainda, é por fortes motivos, os quais ainda não ousei relatar a ninguém. Mas como o senhor é o dono do boneco e o fornecedor da matéria prima, sinto-me na obrigação de lhe dar uma resposta. Por isso, não peço que me dê crédito, eu mesmo não acreditaria se me fosse relatado fato tão estranho através de informais correspondências. Contudo, o relato que se segue, posso lhe garantir, é a mais pura verdade.
    Há oito semanas, quando recebi do senhor o pedido para que fizesse um boneco de presente para seu filho, confesso que tive a intenção de negar. Afinal, não havia completado nem o primeiro mês de falecimento de minha esposa, que como o senhor sabe era minha única paixão na vida. A bem da verdade, e isso revelo apenas agora, era suspeita nossa que ela estivesse grávida, já que suas regras, sempre pontuais nesses trinta anos de casados, estavam atrasadas há mais de vinte dias. Parecia que finalmente Deus tinha dado ouvido às nossas preces, pois há muito sonhávamos em ter um filho. No entanto, mais por nossa relação antiga, do que por real interesse, aceitei o trabalho. Como combinado, o senhor me enviou o tronco de madeira conforme eu havia pedido e me debrucei sobre o trabalho a fim de terminá-lo o mais rapidamente possível.
    Na realidade, no início, foi como uma válvula de escape, já que, concentrado nessa tarefa, eu esquecia, por alguns minutos, o luto que se agarrava a minha alma. Mas os dias foram se passando e eu não conseguia terminar o trabalho. Aos poucos fui percebendo que aquele boneco tinha algo de especial, pois, mesmo contra minha vontade, minhas mãos insistiam em moldar nele as mesmas feições que minha esposa e eu, imaginávamos que teria o nosso filho. E foi assim que, sem nenhuma intenção consciente, o boneco acabou tendo os olhos azuis e o sorriso encantador de minha falecida esposa, os cabelos pretos e lisos como os meus em minha juventude e o resto uma mistura de avós, tios e outros parentes, que insistem em aparecer em nossos bebês. Apenas o nariz não havia saído como o de nenhum parente, o órgão saíra pequeno e achatado demais e, por isso mesmo, tive de refazê-lo maior e mais afinado por várias vezes até que percebi que estava tão grande e pontudo como de minha bisavó, Clotilde.
    Acabado o boneco, eu sabia que deveria entregá-lo ao senhor. Mas tal gesto me foi impossível, já que naquele bloco de madeira estava impressa a única fotografia do meu inexistente filho. Por isso, deixei-o sobre a mesa da cozinha por um ou dois dias. No entanto, aquele não me pareceu um lugar apropriado para deixar uma criança ainda tão pequena e frágil. Sendo assim, decidi pegar o berço que foi de minha esposa e restaurá-lo. Foi nele, que deixei o boneco por algumas semanas e ali ele teria ficado por alguns meses ou talvez anos não fosse a visita inesperada de uma velha senhora, que se apresentou como sendo a Fada Azul.
    No início, eu quis rir do nome, não o fiz por respeito à senhora que ali se apresentava. Ela revelou conhecer todo meu drama, a morte de minha esposa, sua suposta gravidez e até a existência do boneco e o berço, no qual eu o instalara. Teria eu caído no chão, se já estivesse sentado, ao ouvir o relato detalhado de minha vida feito pela mulher. Eu não havia falado da gravidez de minha esposa a ninguém e tampouco comentado sobre o boneco ou sua localização, como aquela velha senhora poderia saber de tudo aquilo?
    Mas em seguida, um sopro de razão me invadiu a cabeça e imaginado tratar-se de alguma velha bisbilhoteira, que talvez estivesse vigiando meus passos de longe, pus-me a expulsá-la aos gritos. Mas a velha pouco ou nada se incomodou, apenas sinalizou com o indicador nos lábios que eu me calasse, o que, mesmo a contragosto acabei obedecendo. “Ouça!” – sussurrou ela. “A criança chora no berço. Vá rápido, seu filho despertou!”.
    De fato, um choro de criança invadia a sala e certamente vinha do meu quarto. Corri para lá, a fim de ver o que era e qual não foi meu espanto, ao ver de pé, tal qual um menino de quatro ou cinco anos, meu boneco de madeira. Peguei-o no colo, cuidadosamente, acariciei-o por alguns instantes e o choro se foi. Quando estiquei meus braços para poder contemplar novamente o meu filho, pude ouvir sair dele, ainda que com o trocar de letras comum às crianças, um sonoro “babai” – era eu, o “papai” da criança mais especial do mundo.
    Quando retornei a sala, a senhora não estava mais lá. Havia deixado apenas um bilhete, lá explicava que há muito observava as trevas que se abatiam sobre mim. Explicava também, que havia se compadecido com minha dor e que por isso, pôs no boneco a alma do bebê, que minha esposa aguardava. Disse também, para eu tomar cuidado com um tal Grilo Falante, que vai tentar roubar meu filho de mim.
    Senhor Igor, sei que irá pensar que não suportando a dor da perda da minha esposa acabei por sucumbir à loucura. Mas o que digo é o que aconteceu. Oxalá, eu pudesse ir vê-lo pessoalmente para mostrar-lhe meu filho e provar tudo o que escrevi. Mas por hora, não posso, ele acabou pegando um resfriado e creio que viajar nesse tempo de inverno pode piorar ainda mais a frágil saúde dele.
    Portanto, envio de volta ao senhor o dinheiro que me adiantou e junto algum a mais, já que a matéria prima também foi fornecida pelo senhor. Espero ainda que encontre algum presente a tempo para poder dar no aniversário de sua filha, pois agora que sou pai também, sei que tudo o que mais queremos é a felicidade dessas criaturinhas que tanto amamos. Sem mais delongas, peço desculpas e me despeço desejando saúde ao senhor e a sua família. 
E. Gepeto.


                    * * *

    Caro leitor, antes de continuar a narrar os fatos que se sucederam a essa troca de cartas, devo revelar-lhes a forma como elas chegaram às minhas mãos. Único parente vivo do senhor Ernesto Gepeto, fui procurado por um ajudante do senhor Ludovico Igor, o qual me entregou as cartas junto com um caixote. O enredo até elas chegarem a minhas mãos é o que relato abaixo.
 
    Após enviar uma terceira carta ao senhor Gepeto, a qual não tive acesso, e não obter nenhum tipo de resposta, o senhor Igor decidiu ir pessoalmente procurá-lo. Não que tivesse acreditado em qualquer detalhe místico da carta que ele havia recebido, mas, por temer a sanidade mental do velho marceneiro, pensou que uma visita amigável poderia esclarecer de alguma forma o que se passava.
    Foi assim, que, na manhã do dia de Reis, o mercador Igor partiu com um ajudante rumo à casa de meu primo. A viagem durou um dia inteiro a cavalo e, como chegaram de noite os dois viajantes resolveram dormir em uma pousada a poucos quilômetros do sítio de Gepeto.
    Mas tão logo amanheceu, os dois partiram rumo ao sítio do velho, para esclarecer o que lá se passava. Quando chegaram próximo a casa, perceberam o descuido em que o local se encontrara. O mato crescia ao redor, algumas partes do telhado haviam cedido e os poucos animais que meu primo possuía estavam abandonados.
    Aproximando-se mais um pouco, o senhor Igor bateu palmas para verificar se havia alguém em casa, mas ninguém respondeu. Bateram à porta, pois ainda era cedo e podia ser que alguém estivesse dormindo, mas nenhum som saiu lá de dentro. Montado em seus cavalos, os dois viajantes rodearam a casa, mas nada perceberam.
    Estavam já se preparando para voltarem, quando uma sombra foi avistada pelo acompanhante do mercador na janela. Mas ao fixar os olhos, o vulto havia desaparecido. “Talvez seja apenas um reflexo” – pensou consigo. Mas ao deitar os olhos novamente na janela pôde ver, mesmo que por alguns instantes, o semblante serelepe de uma criança. Alertou, então, ao senhor Igor que, mesmo descrente, resolveu verificar.
    O mercador aproximou-se da janela e fixou os olhos pelo vidro no qual não via mais do que o reflexo do sol. Mais perto, pôde observar o interior da casa sem nenhum sinal de vida, alguns reflexos causados pelos raios solares ainda o atrapalhavam de contemplar todos os cantos da casa, por isso colou o rosto junto ao vidro e fez uma proteção colocando as mãos junto às laterais dos olhos. Ainda assim, a casa parecia vazia. Já estava prestes a se afastar quando, esbugalhados olhos azuis surgiram quase do nada de frente ao seu rosto. O senhor Igor, apesar de toda a coragem comum aos homens de Milão, saltou para trás e deu um pequeno grito, tamanho susto levou.
    Já recuperado, percebeu tratar de uma criança, que novamente havia se escondido. Dirigiu-se até a porta e tentou comunicar-se com o menino:   
    — Ei, garoto, posso falar com o senhor Gepeto? – o menino ainda tinha o rosto fixo na janela, mas nada respondia.
    — Se você não abrir ou não falar comigo, eu vou ter que arrombar a porta.
    Diante da ameaça o garoto cedeu. De sua janela gritou:
    — Meu pai não está.
    — Quem é seu pai? – perguntou receoso da resposta o senhor Igor.
    — Gepeto é meu pai. Ele disse para eu não falar com estranhos.
    — Mas eu sou um amigo dele. Vamos abra a porta! – insistiu o mercador.
    O diálogo teria se prolongado por alguns instantes não fosse o ajudante perceber que as respostas dadas pelo garoto eram sussurradas antes por uma voz masculina. Certamente, era o senhor Gepeto. Alertado do fato, foi a ele que o senhor Igor passou a se dirigir. Insistiu que ele abrisse a porta por cerca de cinco minutos, até que a impaciência chegou e ele decidiu arrombá-la.
 A velha porta, consumida por cupins pouca resistência ofereceu. Chegando na sala, os dois viajantes viram de pé encostados na parede o senhor Gepeto e a criança de pé com o rosto escondido entre as pernas do pai e com um choro leve, como que assustado. Com um instinto paterno o velho marceneiro arrancou um canivete do bolso, certamente alguma ferramenta usada no próprio trabalho e ameaçou os dois invasores:
   — Como ousam invadir minha casa e assustar a mim e meu filho. Fora daqui, os dois.
    De fato só agora o senhor Igor havia percebido que pudesse ter assustado a criança. Fez questão de desculpar–se, antes de prosseguir:
   — Senhor Gepeto, o senhor não tem filhos, de quem é essa criança?
   — O que ocorreu eu já lhe relatei na última carta que lhe enviei. Se não acreditou, nada posso fazer.
   A sala escura fez com que o mercador e seu ajudante demorassem a perceber o que ali estava ocorrendo. Apenas mais próximos e agora já um tanto mais calmos, entenderam o cenário grotesco que se apresentava diante dos dois. Na verdade, apenas um quadro de Brughel ou Velásquez poderiam ser tão horripilantes. De fato, muito do que meu primo narrara em sua carta era realidade e, agora, visível aos olhos do incrédulo Igor.
   Não era uma criança de carne e osso que estava entre as pernas do marceneiro. Era, tão simplesmente, na medida em que se pode chamar de simples, algo tão engenhoso, um legítimo e perfeito boneco de madeira. Mais de perto era possível ainda notar que, tal como a boneca Olympia do terrível conto de Hoffmann, a criança não chorava e nem tinha qualquer movimento feito por si mesma. Ela era toda controlada por habilidosos mecanismos de fios comandados pelo senhor Gepeto. Também a sua voz e seu choro não eram mais do que meros truques de ventriloquismo, muito bem elaborados pelo marceneiro.
   Contudo, a forma agressiva do senhor Gepeto, denunciava seu estado mental. Por algum motivo, ele acreditava que realmente aquele boneco era vivo e ignorava ser ele próprio a alma do autômato. O senhor Igor ainda tentou convencê-lo de sua debilidade mental, mas foi tudo em vão. O velho marceneiro continuou em seus devaneios, com o boneco entre as pernas e, imitando com perfeição a voz de uma criança, gritava:
   — O Grilo, babai, o grilo. Não deixe ele me levar.
   Percebendo que nada poderia fazer naquele instante, o senhor Igor e seu ajudante foram embora. Procuraram o sanatório municipal e voltaram para Milão. Lá dias depois ficaram sabendo da internação forçada de meu primo e me procuraram para relatar o ocorrido, já que eu era o único parente a quem podiam recorrer.
   Dois dias depois fui até o hospital, onde me deparei com meu primo segurando o boneco no colo e contando-lhe algumas histórias. Ele demorou alguns segundos para me reconhecer, mas tão logo o fez, correu e me abraçou fortemente. Apresentou-me o boneco como se fosse seu filho legítimo, o que, por advertência médica, não o contrariei. Conversamos por cerca de uma hora, até que quando me despedi ele pediu que eu cuidasse de seu filho, pois era seu único parente e ele não queria que a criança permanecesse ali. Antes de partir, ele me deu algumas orientações de como alimentá-lo e da importância de fazê-lo dormir cedo. Em seguida, com os olhos cheios de lágrimas beijou o boneco como se beijasse realmente seu filho e o entregou a mim.
   Saí de lá comovido. Mas já sabendo de toda a história e ciente que ainda não tinha chegado o aniversário da filha de Igor, decidi entregar a ele o boneco. Ele aceitou. Ofereceu-me uma recompensa, a qual recusei e parti.
   Três semanas depois, um homem bateu em minha porta com um caixote nas mãos e as duas cartas que publiquei antes. Era o tal ajudante do senhor Igor. Ele me disse que lá dentro estava o boneco e que se eu quisesse poderia destruí-lo já que o mercador e toda a sua família estavam convencidos que o objeto estava endemoniado. Questionei a ele o motivo daquela crença e ele, mesmo a contragosto, me revelou o que se segue:
   A filha do mercador, de fato acabou recebendo o boneco de presente. Foi uma paixão a primeira vista. A garota se encantou com o brinquedo, não desgrudava dele hora nenhuma. Até que em uma noite, já deitados estavam o senhor Igor e sua esposa, ouviram do quarto da filha um choro intenso. Imaginando que ela tivesse se machucado, o casal correu até o local, onde ela estava.
   Lá, em um canto iluminado por uma vela, a garota conversava com o boneco como se ele fosse vivo. A mãe foi a primeira a perguntar:
   — Minha filha, por que você está chorando?
   — Não sou eu mamãe, é o Pinóquio.
   De fato o casal sabia que o choro da filha era diferente.
   — Quem? – perguntou a mãe.
   — Pinóquio, o boneco.
  — Pensei que ele se chamasse Fred, não foi esse o nome que você lhe deu? – indagou o mercador.
   — Foi sim – respondeu a garota – mas ele me disse que o pai dele, o senhor Gepeto, o chama de Pinóquio. E que o senhor é um grilo falante chato. Pode dizer a ele que está enganado?
   Ao ouvir as palavras da filha, um enorme pavor tomou conta da alma do senhor Igor. Como a filha poderia saber o nome do senhor Gepeto ou o apelido de grilo que ele lhe dera? Toda aquela história era sinistra demais, mesmo para um homem racional como ele. Por isso, no dia seguinte mandou ao ajudante que me entregasse o boneco e as cartas trocadas entre eles.
   Também eu teria me chocado com a história, não fosse perceber alguns detalhes que passaram despercebidos pelo mercador milanês. As duas cartas que me chegaram, tinham pequenas manchas de polegares minúsculos, certamente os da filha de seu Igor, que lera as cartas e conhecia boa parte da história. Foi assim, que a menina ficou sabendo o nome do senhor Gepeto. Quanto aos diálogos tratados pela menina com o boneco, são muito comuns com qualquer criança, ainda mais alimentados por essas cartas, certamente lidas horas antes. Sobre a ciência da menina do apelido grilo ligado ao pai, somente o mercador não percebeu que a alcunha dada a ele pelo meu primo é apenas um anagrama infantil, e por isso mesmo percebido pela criança, com as iniciais que ele assina suas cartas L. IGOR, misturando as letras temos GRILO. Contudo, vocês me perguntarão sobre o choro de criança ouvido pelo mercador e sua esposa. Sobre isso, devo revelar–lhes que eu mesmo já acordei com soluços infantis vindos do canto do quarto no qual instalei o boneco e que não foram nem uma, nem duas vezes que vizinhos vieram me perguntar sobre a criança tristonha que avistaram vertendo lágrimas pela janela de noite na sala de cima. Se explicação há para isso, peço que ma deem, pois mesmo eu estou crente de que mistérios há que a razão não pode abarcar
 


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