Busca: 

Apelido:

Senha:


Esqueci minha senha
 
  Área do autor

Publique seu texto
  Gêneros dos textos  
  Artigos (651)  
  Contos (939)  
  Crônicas (730)  
  Ensaios (169)  
  Entrevistas (35)  
  Infantil (202)  
  Pensamentos (640)  
  Poesias (2496)  
  Resenhas (129)  

 
 
Elixir do amor - A cura...
Michele Stringhini
R$ 34,90
(A Vista)



Gestão Empresarial e...
Juliane H Cantini
R$ 44,20
(A Vista)






   > A Noite Escura da Alma



Margarete Ribeiro Salomão
      ENSAIOS

A Noite Escura da Alma



A Noite Escura da Alma
    A mítica “noite escura da alma” é a nossa descida deliberada até ao degrau mais baixo de nós mesmos, com autoaceitação e sem autojulgamento, para resgatarmos a nossa integridade genuína.
  O autoconhecimento nos assusta e, por isso, muitas vezes, preferimos a superfície da vida. Mas, desse modo, deixamos de conhecê-la em profundidade. E, assim, mesmo quando somos premiados com longos anos de vida, não chegamos a conhecer a intensidade magnífica da existência.
  Portanto, embora sejam belíssimas as superfícies meramente aparentes do mundo, valerá a pena nos aprofundarmos na difícil empreitada de nos autoconhecer por inteiro.
    Sem saber, autoidealizamo-nos, isolando no inconsciente a quase totalidade de nós mesmos. Em geral, reconhecemos apenas uma ínfima fração da nossa verdadeira identidade. Mas para nos percebermos por inteiro, assim como fazemos em relação a uma escada, temos que começar pelo degrau mais baixo, para em seguida irmos em direção ao topo.
  Somente será possível enxergarmos o “degrau” mais baixo de nós mesmos, quando nos livrarmos do autoengano e do julgamento alheio, que são reforçados pelas religiões, ao induzirem toda a humanidade a se manter fragmentada pela separação do bem e do mal.
   Fragmentados, isolados e enfraquecidos, ficamos susceptíveis à exploração pelo sistema vigente, o qual por sua vez favorece todas as religiões e, assim ainda nos leva a acreditar que dispomos de liberdade de escolha.
     A compreensão da nossa complexidade existencial possibilitará a autoaceitação, livrando-nos da idealização separadora em nós mesmos e à nossa volta. Então olharemos para a inclinação maligna dentro de nós, sem nenhuma atitude moralizadora: pelo resgate da nossa inteireza verdadeira, recuperaremos nossa inocência transparente e não julgadora, cujo valor é insuperável.
   A visualização e a devida aceitação do mais baixo de nós, sem o autojulgamento separador, irão nos direcionar ao cume de nós mesmos: deixaremos de ficar divididos e pequenos.
   Ao deixarmos de causar separação em nós, deixaremos de julgar também ao próximo, por já podermos admitir em nós toda a multiplicidade de caracteres humanos possíveis. Então atingiremos a unificação com Tudo-que-é ou agora -- iluminação. 
     Sem fazermos isso, continuaremos encobertos pela escuridão que se projeta a partir da pequena criança repleta de inclinação maligna, profundamente escondida em nós: tão íntima e tão hipócrita, a ponto de nos confundir, fazendo-nos pensar que a Imagem Idealizada com a qual se veste, seja quem somos.
  A Hipocrisia Idealizada nos faz pequenos, mesquinhos e julgadores. 
         Nossa autoidealização nos faz mandar para o inconsciente praticamente toda a nossa energia vital, juntamente com a quase totalidade dos nossos caracteres que julgamos negativamente. Então precisamos encontrar formas distorcidas que envolvam medo, risco e rebeldia, para acessarmos no Inconsciente Coletivo a energia vital distorcida que se encontra em abundância lá. Jogos de azar, consumismo envolvendo risco de endividamento, fofoca, traição, drogas, etc., são formas distorcidas de acesso a essa energia inconsciente e distorcida.
        Grandes astros sentem o tédio com maior intensidade do que as pessoas comuns, porque estas ainda sonham com conquistas materiais a serem atingidas, enquanto eles já atingiram todos os patamares de conquistas materiais e não alcançaram o tão sonhado preenchimento. Este somente poderá ser adquirido pelo despertar da inconsciência de nós mesmos: quando pudermos galgar os degraus mais baixos da "escada" que somos! Somente então perceberemos a nossa verdadeira identidade de seres completos.
        A escada funciona com excelência como representação metafórica para a nossa integridade, pois na escada assim como em nós, os degraus mais baixos são necessários para ascendermos a níveis mais elevados. Assim como a escada, também nós contemos todos os caracteres ou "degraus" que compõem um ser humano. Sem enxergarmos os “degraus” mais baixos de nós mesmos, jamais ascenderemos à nossa verdade interconectada.
        Apenas as circunstâncias de nossas histórias de vida nos fazem agir de formas diferentes, não sendo nenhuma pessoa melhor ou pior do que a outra.
        Somos um, no sentido de que a mesma essência imaterial se encontra no núcleo de verdade de todos nós. Quando tivermos essa percepção, iremos parar o julgamento separador do bem e do mal em nós e à nossa volta. Os resultados serão inefáveis: vale a pena pagar para ver!
        A separação interior promovida pelo autojulgamento estaciona a nossa totalidade no inconsciente e nos mantém presos ao passado, de onde vivemos a idealizar um futuro salvador e irreal.
     A “escada” que se direciona ao ponto mais alto da existência humana na Terra somente pode ser acessada a partir de seu degrau mais baixo.
    A magnífica “escada”, somente pode receber a luz da consciência para se tornar resplandecente e nos rumar ao Paraíso Interior, se o seu degrau mais baixo puder ser visto por nós.
     O Paraíso Perdido significa a nossa iluminação pelo resgate da nossa inocência genuína não julgadora, na qual o dualismo do bem e do mal não pode obter eco.
     A misteriosa “noite escura da alma” é narrada na Bíblia, em Gênesis (28:11-12):
        Após 20 anos, Jacob regressava à Terra onde nascera. À noite, no deserto, juntamente com esposa, filhos e servos, pararam para descansar. Ele estava angustiado e cheio de medo. Esaú, seu irmão gêmeo, havia prometido matá-lo, pois Jacob trapaceara e lhe roubara a bênção do pai: Jacob se empossara como o novo patriarca da família, cujo direito assegurado pela primogenitura, pertencia ao irmão Esaú, nascido apenas alguns segundos antes dele. Naquela noite, no deserto, Jacob deitou sua cabeça sobre uma pedra e sonhou com anjos subindo e descendo por uma escada. Jacob se transformou depois desse sonho, e seu nome passou a ser Israel.
    Em Gênesis (25:25-26), assim está na Bíblia:
  “E saiu o primeiro, vermelho, todo ele, como coberto de pelo, e chamaram seu nome Esaú. E depois saiu seu irmão, e sua mão agarrava o calcanhar de Esaú; e chamou seu nome Jacob.”
  Toda essa história representa, de forma metafórica, nosso ingresso e nossa saída do dualismo separativo egocêntrico. Ao compreendermos que habita dentro de nós mesmos uma pequena personagem inconsciente, repleta de medo de aniquilação e de inclinação maligna, poderemos lançar sobre ela o nosso olhar consciente e livre de autojulgamento. O entendimento nos permite nos perdoar. Então paramos o autojulgamento separativo e dissipamos a cortina que encobre a nossa percepção da verdadeira realidade: nossa unificação a Tudo-que-é no agora.
    Naquela noite no deserto, Jacob mergulhou dentro de si como nunca havia feito. Ele lutou contra o anjo da morte que morava dentro dele – metáfora para sua descida testemunhada pelo ramo descendente da dupla espiral egoica. Ele ficou diante do grande inimigo dentro de si, e pôde compreendê-lo, fazendo cicatrizar em si a velha ferida, restando-lhe uma sequela cicatricial que lhe deixou com o andar coxeante. O termo bíblico “deserto” tem conotação metafórica para nosso esvaziamento interior de medos e de desejos, quando entramos em estado de rendição ou entrega interior.
    Quando acessarmos o inconsciente, deixaremos de nos ver pelo rótulo da incapacidade, pertencente à pequena criança inconsciente e negativa, porque ela se dissipa com nosso olhar consciente sobre nós. Assim nos livramos da “cegueira” que impede a nossa percepção do esplendor da Presença Verdadeira no instante zero do agora. O resultado é o imediato cessar do julgamento mental separador do bem e do mal em nós e à nossa volta: unificação a Tudo-que-é ou iluminação.
     Jacob, desde cedo, demonstrou possuir qualidades que o faziam merecedor da sucessão de seu pai no comando daquela comunidade onde viviam. No entanto, pela diferença de apenas alguns segundos, seu irmão foi considerado o primogênito.
    Quando adultos, com a ajuda da mãe, Jacob decidiu romper com a regra pré-estabelecida, garantindo melhor resultado para a descendência do nome de seu velho pai: uma pele de cabra encobriu seu corpo sem pelos, de forma que o pai, já cego, o confundisse com Esaú e assim o abençoasse como o novo patriarca. Esaú chegou logo em seguida, jurando que mataria o irmão. Por isso, Jacob foi morar com seu tio Labão na cidade de Harã, apaixonando-se pela filha dele, sua prima Raquel. O tio o obrigou a trabalhar sete anos de graça para lhe conceder em casamento a filha, mas o enganou e o obrigou a se casar com sua outra filha Lea, dobrando para 14 anos o tempo de trabalho gratuito, mas assim lhe garantindo a grande prole gerada a partir das duas esposas.
    O nome Israel é composto de três partes: Is-ra-el. “Is” vem da palavra Ísis, a deusa egípcia da Lua, ou de Ishtar a deusa babilônica da Lua. “Ra” vem do deus egípcio do Sol e “el” vem de Elohim, a palavra hebraica cuja tradução é Deus. “El” é a mesma raiz da qual os muçulmanos derivam a palavra “Alá”, que também se traduz para Deus.
   Os opostos representados de forma metafórica pela Lua e pelo Sol se complementam na divina integridade de Israel.
   Em hebraico, Jacob significa trapaceiro.  Mas ao encarar o “anjo da morte”, metáfora representando a pequena criança distorcida que mora em nós, ou seja, o nosso lado oculto, ele se tornou inteiro: ele se tornou Israel.
   Ele se livrou da necessidade da aprovação alheia, por ter cicatrizado a velha ferida provocada pela dor de rejeição, que o mantinha em constante rota de fuga.
     Esvaziado de medos e de desejos, Israel se manteve em estado calmo e assertivo e, assim foi ao encontro do irmão: então pôde descobrir que também Esaú se encontrava esvaziado de antigas mágoas, indo amorosamente ao seu encontro.
    Ao testemunharmos a nossa descida pelo ramo descendente da dupla espiral do ego, traremos para o presente a pequena criança negativa que fomos e, sentiremos sua presença como uma enorme ferida muito doída e ainda aberta em nosso peito. A cicatrização acontecerá pela nossa compreensão do crescente equívoco de merecimento de rejeição e de necessidade de fuga da aniquilação. Então descobriremos que sequer precisamos de perdão, porque a compreensão esclarecerá tudo: renasceremos e resgataremos a nossa transparência inocente e genuína.
        O benefício de trazer para o presente a pequena criança que se esconde em nossos inconscientes significa a nossa possibilidade de presenciarmos o agora, ou seja, a nossa própria vida.
       O contínuo giro do ego humano contorna a pequena criança inconsciente, emaranhando-a com a energia vital representada principalmente pela libido humana tornada inconsciente, distorcendo-se cada vez mais por se manter distante da luz da consciência, conferindo o poder destruidor doInconsciente Coletivo.    
       Para resgatarmos do inconsciente a quase totalidade de nós e da realidade á nossa volta que ainda desconhecemos, temos que lançar sobre tudo o nosso olhar consciente, admitindo essa totalidade humana em nós pela nossa compreensão da integridade e da grandiosidade Daquilo-que-é. Podemos fazer isso com nossa descida deliberada pelo ramo descendente da dupla espiral representante do nosso ego, testemunhando sem julgar aquilo que se esconde de nós no inconsciente: fazemos isso através do Observador Neutro que genuinamente somos.
       Como num labirinto, a porta de saída é a mesma de entrada: a “pequena criança que fomos” se tornou inconsciente em nossa primeira infância quando fizemos uma descida vertiginosa pelo ramo descendente da dupla espiral representativa do nosso ego, cujo resultado foi a amnésia infantil.     
        O nosso acesso ao inconsciente está representado nas seguintes palavras de Jesus, em Mateus (13: 52):
        “Por isso, toda pessoa instruída acerca do reino dos céus, é semelhante a um pai de família, o qual tira do seu tesouro coisas novas e coisas velhas.”
        O resgate da pequena criança aprisionada no passado está representado no texto bíblico acima pela expressão “coisas velhas”. Após o nosso acesso ao inconsciente, saímos da estagnação inconsciente no passado e deixamos de sempre girar dentro do mesmo fechado circuito egocêntrico, pois acessamos o novo, ou seja, acessamos o agora.       
         A “escada” que nos conduz à nossa integridade magnífica é como o trajeto efetuado pelos pássaros no céu: nunca há rastros! Ela se renova de momento a momento. Ela é o agora.
         O medo é um guia do caminho ou da “escada”, porque nos mostra que saímos da Testemunha Neutra, ou do Observador Neutro, ou do Consciente Coletivo, ou do agora.
       O medo significa que operamos a partir da separação, ou seja, a partir da pequena criança equivocada que se esconde em nossos inconscientes. Ela é medrosa e teme estar em constante risco de aniquilação. Ela, equivocadamente, suspeitou-se rejeitada e inválida.
        Ao contrário do medo, a fé é a certeza da nossa verdade, da nossa invulnerabilidade: é a certeza da nossa natureza sutil e eterna. O medo é a antítese da fé e começa a nos dominar através de uma dúvida a respeito da nossa validade e merecimento pela vida.
        O medo precisa ser visto como algo não mais real do que qualquer outro equívoco infantil.
   Vemos apenas uma pequenina parte da realidade, já que a maior parte se tornou inconsciente. Por isso, podemos dizer que permanecemos adormecidos neste mundo, enquanto não despertarmos da inconsciência que nos domina.
    Para iniciarmos o caminho em direção ao despertar, temos que encontrar maneiras criativas de nos vermos assumindo os papéis da personalidade ou ego. Essa visão precisa ser desapegada e livre do autojulgamento. Afinal, já podemos nos saber livres de qualquer culpa, lembrando-nos de que apenas fluímos no rio da vida: sofremos influências e geramos outras. Essa é a única forma de conhecermos a personalidade. Temos que nos tornar capazes de vê-la agir a partir do condicionamento padronizado que recebemos do meio social e, que assim não pode ser quem verdadeiramente somos, pois veio de fora. Poderemos transcendê-la depois de vê-la. Chamamos a isso de autoconhecimento, apesar de sabermos que a personalidade não é real -- foi ditada pela sociedade, família, meio comunitário. É exterior e é falsa. Não vem de quem somos genuinamente. Entretanto, oferece o contraste necessário para conhecermos a pureza que somos em essência. Todavia, se nunca buscarmos a visualização dessa personalidade que não é nosso eu genuíno, deixaremos de presenciar a maior beleza conferida pela existência: ver o esplendor da essência sutil que genuinamente somos se revelando no meio contrastante representado pela limitação material.
     Somente no presente podemos acessar aNossa Verdade. Entretanto, apenas presenciamos o momento presente quando estamos em estado de rendição, com aceitação e boa vontade ao conteúdo que o seu contínuo desdobrar nos apresenta. Apenas em estado de aceitação, manifestando boa vontade, mesmo sendo pela rendição, podemos nos livrar do comando da Imagem Idealizada misturada com a pequena criança negativa, para fazermos sintonia com Aquilo-que-é, ou seja, com o presente. Somente ao nos esvaziarmos de medos e de desejos, poderemos alcançar o alinhamento com o Elo Vital Criativo ou Relâmpago Brilhante da Criação que nos une e nos direciona à nossa criatividade genuína, permitindo-nos criar em conjunto bem aventuranças para todos.
    Entretanto, para garantirmos acesso à nossa essência verdadeira, temos que nos livrar de qualquer expectativa. Temos que nos colocar esvaziados de medos e de desejos, pois eles pertencem à Imagem Idealizada emaranhada na pequena criança distorcida. Ou seja, temos que nos esvaziar de praticamente todos os nossos pensamentos, pois se originam dos nossos equívocos, mantendo-nos na contínua busca de provas do nosso valor para fugirmos do medo de merecimento de aniquilação. Não podemos colocar mais chá dentro de uma xícara cheia, pois ele simplesmente transbordaria!
          Para fazermos nosso esvaziamento de medos e de desejos, primeiro temos que nos permitir sentir a dor decorrente de um nosso problema atual. Temos que dar a permissão para que a dor atual seja sentida de fato, sem fazermos nenhuma projeção de culpa exterior.  Somente assim chegaremos aonde se esconde a pequena criança equivocada. Somente assim poderemos trazê-la para o presente para lançarmos sobre ela a luz do nosso olhar.
    Longe da presença de um salvador: relembrando uma vez mais que todos o somos, ou seja, temos que ficar completamente a sós.
    Então, pela primeira vez, poderemos admitir a nossa própria sensação de incompetência e de falta de excelência no quesito causador da nossa atual dor emocional. Temos que deixá-la vir. Sabemos que ela não pode nos matar. Dessa vez, precisamos senti-la, sem racionalizar e sem culpar terceiros.
       Temos que senti-la, sem usar nenhum artifício.  Agora, não podemos encontrar culpados para a nossa dor, como sempre temos feito. É isso que mantém a humanidade, praticamente, composta de adultos que em verdade são apenas crianças imaturas, negativas, distorcidas e destrutivas.
        Devido à nossa imaturidade, sempre tivemos medo de que tal dor nos trouxesse a aniquilação, mas já podemos entender que agora é diferente. Afinal, não somos mais um bebezinho frágil. Já sabemos que podemos suportá-la. Sabemos que ela não pode nos deixar em risco de perecimento.
       Não queremos mais deixá-la nos impedir de avançar além daquele ponto da nossa infância, em torno do qual passamos a vida a girar: sempre repetindo a mesma rota padronizada de fuga da dor da rejeição, sem conseguirmos diminuir nosso medo inconsciente e nossa igualmente inconsciente ânsia por proteção. 
        Basta deixá-la doer dessa vez. Pela primeira vez na vida, temos que decidir não lançar mão de nenhuma tentativa de nos defender com racionalizações e projeções de culpa em ninguém.
    Absolutamente ninguém pode receber a culpa, desta vez. Temos que nos deixar abater por toda a sensação de incompetência pessoal, que sempre mantivemos inconsciente, devido à reatividade padronizada da nossa rota de fuga da dor da rejeição. Desta vez, temos que nos permitir chorar a velha sensação de incompetência, com verdade e muita dor, sem lançarmos mão de nenhum artifício egocêntrico para evitá-la. Quando nosso peito parecer estar prestes a se arrebentar de dor, ou seja, no momento em que a ferida atual estiver verdadeiramente aberta e doendo muito -- somente quando estivermos vivenciando tal sentimento de dor, exatamente neste momento, observaremos a extensão que ela ocupa em nosso peito, como se houvesse uma ferida aberta ali. Temos que nos lembrar de observar todo o formato do buraco que parece estar aberto em nosso peito.
  Então, neste exato momento, temos que nos lembrar da dor infantil de rejeição, que nunca havíamos nos permitido sentir. Temos que olhar para a pequena criança que vive escondida em nosso inconsciente. Podemos perceber a sua fragilidade por se sentir rejeitada e em risco de aniquilação, porque desconhece que se equivoca ao desejar absurdamente um amor impossível.
  Poderemos então olhar para a negatividade decorrente da nossa suspeita infantil de incapacidade que nos levou ao julgamento de que talvez não fôssemos bons o bastante. Poderemos olhar para o desejo infantil de vingança, de ódio, de raiva e culpabilização daqueles aos quais julgamos não terem sido capazes de nos amar da forma absurda que desejamos. Poderemos também olhar para o crescente entorpecimento usado na rota de fuga da dor da rejeição.
 Tudo se distorce e se emaranha ao medo de aniquilação, e à exacerbação da libido tornada inconsciente, durante o evento conflitivo infantil de impossível solução, por se alicerçar numa premissa irreal.
    O giro egocêntrico contorna a criança inconsciente, emaranhando e distorcendo tudo negativamente, juntando-se ao bolo distorcido a armadura representada pela Imagem Idealizada, com a qual a pequena criança se veste, fazendo-nos pensar que seja a verdade que somos.
  A pequena criança continua presente em nós, sempre buscando o domínio daqueles aos quais jamais irá conquistar o amor absurdo, como ainda continuamos desejando.
   Primeiro, temos que olhar bem para a pequena criança inconsciente, reconhecendo todo o seu sofrimento e toda a sua dor, buscando olhar para o sua crescente suspeita de incapacidade. Temos que reconhecer também como tudo isso a deixa cheia dos sentimentos de inadequação, ódio e desejo de vingança.
  Neste ponto, é importante nos darmos conta de que o núcleo da nossa dor atual é o mesmo núcleo onde se esconde a criança ferida sobrevivente de nossos conflitos infantis sem solução. É a mesma dor de rejeição decorrente da impossibilidade de realização do absurdo desejo infantil por amor.
    Temos que perceber que ainda o desejamos da mesma forma e com a mesma necessidade de prontidão, sem esperas. Temos que perceber a mesma ausência de sensibilidade pelas necessidades alheias, exatamente como deseja a pequena criança escondida em nossos inconscientes. Ela permanece escondida do nosso acesso, mas ocupando toda a nossa vida, ditando-nos a necessidade de um amor impossível, e nos deixando entorpecidos, e com um sentimento de incapacidade e inadequação, uma vez que nunca receberemos tal amor. É dessa forma que nos mantém sob o jugo cruel de uma Imagem Idealizada escravizante.
   Sob o aspecto emocional, ainda não acessamos o crescimento: ainda não sabemos que não podemos reconhecer a impossibilidade de tal absurdo amor, uma vez que essa área da nossa vida não pode ser acessada em nosso modo corriqueiro de viver. Por isso, a depressão assola toda a humanidade, tornando-se a causa de um importante percentual de adoecimento humano e de suicídios. Enriquecendo de forma absurda a Indústria Farmacêutica
    Somente poderemos acessar o nosso amadurecimento emocional, quando, com o nosso olhar consciente de nós, retirarmos da inconsciência a pequenina criança negativa, que trazemos em nosso inconsciente.
   Então, pela primeira vez, poderemos autorizá-la a sentir a dor que nunca antes nos permitíramos sentir. Pois, já sabemos que tal dor não pode nos matar, agora. Temos que observar a extensão da velha dor nunca sentida em nosso peito no presente, e então temos que compará-la com a extensão ocupada pela nossa dor emocional atual. Ao fazermos a comparação, verificaremos que a ferida atual se sobrepõe com exatidão sobre a velha ferida. Assim perceberemos que o núcleo da nossa dor atual é o mesmo daquela velha dor infantil, que nunca antes nos permitíramos sentir.
        Depois de acessá-La, poderemos olhar para Ela e esclarecê-La com o nosso entendimento adulto. Temos que nos lembrar de que a pequena criança inconsciente e negativa é emocionalmente desequilibrada, mas tem nas mãos, tamanho poder, como se fosse uma bomba atômica – nossa energia vital distorcida. É sempre bom, lembrarmo-nos de manter muita delicadeza em nossos diálogos íntimos com ela, ao percebermos o seu acordar tempestuoso, que nos deixa com aquela angústia sem explicação -- origina-se do sentimento interior de incompetência e menos valia do acordar da pequena criança equivocada em nosso inconsciente. Podemos nos lembrar do que ficou inconsciente: da tristeza de suspeitarmos de rejeição por parte das pessoas que mais amávamos, e do medo de aniquilação embutido nessa suspeita. Então vemos que a criança distorcida presente no Inconsciente Coletivo, responsável pelos crimes hediondos da humanidade, tem razão de ter ficado assim.
         Então o choro vai sair: pela primeira vez, a nossa maturidade permitirá que a pequena criança equivocada, ainda hoje escondida em nosso inconsciente, sinta e chore a dor da rejeição sem a necessidade das racionalizações padronizadas para não admiti-la. Já sabemos que não morreremos por senti-la.  Então choramos muito, porque é através do nosso choro que ela, pela primeira vez, poderá chorar a sua velha dor.
       Esta criança negativa dita a nossa personalidade, formatando-a no emaranhado de equívocos que geraram a inconsciência de nós. Poderemos acessá-la para apoiá-la e esclarecê-la com nosso entendimento adulto, mas ela continuará sempre a ser uma sombra escondida, ditando a nossa reatividade emocional que permanece equivocada. Mas podemos nos manter em estado de alerta, buscando sempre nos posicionar no Observador Neutro, a essência imaculada que verdadeiramente somos. De onde sempre poderemos olhar para o caos resultante dos equívocos infantis em nós e à nossa volta.
       Depois de esclarecermos a pequena criança a respeito de cada quesito emocional, cresceremos e adquiriremos a capacidade de acesso ao novo que se apresenta a cada desdobrar do eterno agora. Mas temos que nos lembrar de nunca sermos rudes com ela. Nunca poderemos lhe dizer cruamente o quanto é ignorante ou equivocada. Poderíamos agravar ainda mais a sua suspeita de rejeição e a sua necessidade de se manter na mesma rota de fuga: nossos dias se tornariam bem difíceis! Primeiro temos que apoiá-la, para que ela perceba a razão dos nossos equívocos infantis, para que perceba a vítima digna de compaixão e misericórdia que todos somos, para que assim se permita chorar.       
        Somente depois que ela chorar a dor, da forma como nunca havia se permitido fazer, ficará presente e acessível a nós. Então poderemos esclarecê-la de que os adultos que nos trataram inadequadamente em nossa infância, talvez estivessem passando por situações complicadas, as quais apenas acontecem aos adultos, sem haver nenhuma relação pessoal conosco.
        Somente teremos acesso à pequena criança negativa e inconsciente, se a trouxermos para o presente, e isso não acontece apenas por obra dessa leitura.
       Apenas acessando-a no presente, iremos deixá-la ciente do equívoco que representa o absurdo imediatismo que ela requisita. Então poderemos esclarecê-La da necessidade de consideração pelas necessidades alheias.
       Depois de deixar a temida dor vir e após senti-la com toda a sua intensidade, descobriremos não ser necessário reagir para não senti-la. É o medo da aniquilação que faz a dor se parecer tão terrível. Mas nosso medo se dissipa pela nossa aceitação da dor, sob a luz do nosso olhar consciente sobre nós. Então descobrimos que a nossa aceitação a tornou amenizada. Descobrimos que a nossa aceitação é o verdadeiro analgésico.
      Uma pessoa que padeça de um tipo crônico de dor pode ter a prova dessa analgesia, experimentando-a em si mesma. No auge de uma enxaqueca, se a pessoa se lembrar da lei dualista do mundo, de que somente vamos tão alto quanto tenhamos ido abaixo, ela poderá aceitar a dor como troca pelos prazeres que a vida nos oferece a cada novo instante. Nesse momento de dor, a recordação do prazer advindo do sabor delicioso de uma iguaria alimentícia ou aquele advindo de um encontro amoroso, comparativamente demonstrará possuir intensidade da mesma ordem de grandeza do incômodo doloroso. Nossa rendição ao presente nos permitirá buscar a melhor conduta: ingerir um analgésico e relaxar enquanto o início de sua ação ainda não tiver começado. Essa é uma forma de nos livrarmos de nossos equívocos, permitindo-nos acessar a Nossa Verdade, para termos de volta a nossa abundante alegria, representada pela nossa inocente aceitação e boa vontade ao eterno desdobrar do presente.
       A dor de não ser amado pertencente à pequena criança, ao se dissipar, levará embora também a nossa dor atual. Pois, a velha ferida sempre foi a verdadeira causadora das nossas dores emocionais.
      Então seremos invadidos por um bem-estar que não nos lembramos de tê-lo experimentado antes. Descobriremos a verdade sobre aquilo que se encontra no núcleo de todas as nossas mazelas – a necessidade equivocada de uma aceitação e de um amor absurdo, juntamente com o medo de rejeição e de aniquilação. 
       Temos que limpar cada aspecto equivocado de cada vez para dissiparmos os padrões arcaicos que tornam os nossos egos disfuncionais. Assim teremos que repetir o exercício de acessar a pequena criança inconsciente no núcleo de cada uma das nossas dificuldades existenciais.
     Com o tempo, estaremos cada vez mais perto de presenciar nossos problemas existenciais com tal discernimento, a ponto de enxergar o núcleo do equívoco no exato momento do acontecimento separativo que o gerou: a pequena criança distorcida escondida em nossos inconscientes, com seu desejo de ser amada da forma equivocada como sempre quis.
      Dessa forma, chegaremos ao núcleo das nossas dificuldades existenciaisno momento cada vez mais próximo daquele em que os nossos conflitos estiverem acontecendo. 
   Ao vivenciarmos a dor da qual sempre temos fugido, trazendo a pequena criança inconsciente para o presente, então descobriremos que a nossa aceitação da dor é o remédio que irá amenizá-la. O nosso medo pertence à pequena criança inconsciente em nós. Ele faz as nossas dores parecerem terríveis, mas a pequena criança deixará de nos comandar, quando for por nós acessada no presente.  
   Somente então deixaremos de buscar na vida essa forma infantil de amor. Passaremos a compreender que o verdadeiro amor deve ser oferecido primeiro, porque é recíproco. Passaremos a procurar o amor de uma forma diferente, oferecendo-o, em vez de ficarmos esperando recebê-lo, por não necessitarmos mais reproduzir o conflito da infância.
 Deixaremos de ferir os outros, de forma que eles passarão a não mais terem que nos provocar. Contudo, se mesmo assim recebermos alguma provocação, poderemos compreender a situação dos nossos circunstantes, que ainda se encontram mergulhados no velho conflito infantil e, assim lhes responderemos com amor e compaixão.
    Ficaremos iluminados, porque conscientes de nós mesmos, passaremos a nos manter no presente, em Nossa Verdade, e dissiparemos a Imagem Idealizada que antes nos comandava e nos separava. Assim ficaremos em sintonia com o Consciente Coletivo, e nos tornaremos perceptivos do Elo Vital Criativo que nos une e nos move em direção à nossa criatividade genuína. Sentiremos alegria e entusiasmo em nossa criação de bem aventuranças para todos.
      Nossos equívocos nos fazem persistir pela vida afora agarrados às bordas da nossa Superfície Idealizada, enquanto nos impedem de decidir a fazer a verdadeira viagem das nossas vidas: a viagem ao nosso inconsciente, para resgatarmos de lá a nossa verdadeira alegria de viver.
      Terapias, viagens, massagens, cursos, rituais religiosos, palestras, cultos, orações, retiros espiritualistas, biodança, exercícios de yoga, sessões de desobsessão, exorcismos, calmantes, antidepressivos, entrega a grandes paixões, cirurgias plásticas são artifícios exteriores que nos conferem algum alívio momentâneo para o nosso mal-estar íntimo, mas precisamos nos vigiar para que o Inimigo Idealizado em nós não se alimente com tudo isso.  Poderemos ficar ainda mais vulneráveis, porque ao reforçarem a nossa Imagem Idealizada, aumentarão o nosso sentimento de distinção e de separação interior e em relação aos nossos semelhantes, tornando-nos ainda mais julgadores e pequenos. 
     A forma agradável ou desagradável daquilo que vemos à nossa volta depende do nosso estado de aceitação ou de negação do agora.
    Quando viajamos, sem saber, afrouxamos a rígida estrutura do ego e, assim nos permitimos presenciar com maior frequência o brilho do instante zero do novo. Esse é um dos motivos de serem tão maravilhosas as nossas viagens!
     A beleza está em toda a Terra. Sempre podemos contemplar a natureza: dunas, lagos, rios, montanhas, vales, planícies, jardins ou silenciosas florestas.
    Por todo o planeta há pássaros, borboletas e flores emoldurando as construções humanas. A diferença entre o belo e o feio se encontra em nosso estado interior de aceitação ou de não aceitação do presente!
   Ao nos esvaziarmos da Imagem Idealizada, contribuiremos com benefícios coletivos, pois deixaremos de contribuir na construção da Negatividade Inconsciente Coletiva, responsável pelo caos do mundo físico.
     Dessa forma, deixaremos de ser mais um indivíduo inconsciente a se escandalizar com o caos noticiado cotidianamente pela imprensa falada e escrita, jamais percebendo a própria inconsciência envolvida na gênese da criminalidade humana.
        Ao retirarmos do nosso inconsciente o “lixo” representado pelos nossos equívocos infantis, não o deixaremos mais se emaranhando com a libido humana e com toda a trama equivocada humana que foi tornada inconsciente. Assim evitamos que tal produto deletério potencialize ainda mais o poder destruidor do Inconsciente Coletivo, o qual é responsável pela destrutividade humana planetária.
   É assim que nos tornamos os verdadeiros ceifeiros referidos por Jesus, em Mateus (9: 37):
“A seara é realmente grande, mas poucos os ceifeiros.”              


CADASTRE-SE GRATUITAMENTE
Você poderá votar e deixar sua opinião sobre este texto. Para isso, basta informar seu apelido e sua senha na parte superior esquerda da página. Se você ainda não estiver cadastrado, cadastre-se gratuitamente clicando aqui