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   > Viúva Negra



Andre luiz carvalho ferrao
      CONTOS

Viúva Negra

 Viúva Negra
Por André Carvalho
 
Para ouvir ao som
De Vanessa da mata
 
Sou assim mesma, desquitada e sozinha.
Não sou de mastigar palavras. O que digo eu digo e pronto e que seja feita a minha vontade.
Muitos já tentaram me destruir. Outros até me canonizar.
Que ingênuos não sabem que já fiz de tudo nessa vida e ainda por cima tenho sonhos.
Pode ate ser clichê ou parecer que estou louca. Mas não estou. Ou ainda não descobriram a minha verdadeira loucura. O que importa é que eu tenho meus sonhos guardados entre meus seios fartos de tantos amores.
Lá onde tantos já esfregaram as suas caras lavadas. Seus desejos reprimidos.
Esse tais sonhos me tornaram uma solitária, por que sonho de olhos abertos.
Não tenho mais tempo para detalhes mundanos como dormir ou descansar em paz.
Meu sonífero é uma garrafa de wiske holandês e meus cigarros que fumo e fumo para preencher esse meu vazio de tantas noites, e ultimamente de dias também.
Chamam-me de viúva negra. Talvez por eu usar sempre esse vestido longo negro. Ou talvez por que eu já tenha sido casada três vezes e meus três maridos tenham ido desfrutar do gozo desse tal descanso eterno. Enquanto eu, sozinha, desfruto desses atrozes dias que me consomem.
Acha que eu ligo quando passo na rua e os ouço zombarem de mim? Ridicularizam-me apenas por eu maquilar meu rosto farto de dias.
Lembro-me de quando me convidaram para fazer um show como vedete em um teatro. E nem atriz eu era. Veja só como essa gente é ridícula. Esses mesmo que hoje me zombam. Ainda assim eu fui lá cantei e dancei e todos me aplaudiram de pé: uma, duas, três vezes... E quando dei por mim, estava viciada, extasiada por aqueles aplausos que me enchiam de prazer e me faziam querer cada vez mais. E pensar que aquela gente toda nem imaginava que aquela personificação que eles viam maquilada diante deles se trancava todas as noites no quarto para chorar como uma criança abandonada que só precisa de colo. Talvez seja isso também que faz eles zombarem de mim hoje. Ou será que desde os palcos eles já zombavam de mim? Não sei dizer. Mas como disse, eu não ligo mais para isso.
Todas as tardes eu visto meu melhor xale preto e eu vou a um bar em Ipanema. Tomo meus drinques deMarguerite até meus olhos pesarem e saio andando rija em direção a praia de Copacabana onde assisto o pôr do sol na esperança de um dia aconchegar novamente meus amores em meu peito ou até encontrar aquela que estará comigo, como uma velha amiga, quando minha vontade de viver não for mais atendida.
Sou só nesse mundo e nessa vida e no momento estou muito satisfeita comigo mesma. Não faço mais minhas preces que antes fazia com tanta diligencia, mas também não deixei essa desconhecida a quem chamam distraidamente de fé. Talvez eu seja jogada em algum lugar escaldante pela eternidade ou até viva em um paraíso. Tenho muitas duvidas em relação a isso. Já ajudei tantos necessitados, alimentei crianças famintas e fiz muitas doações. Mas também já trepei com tantos homens, mais do que gostaria que minha mente cansada conseguisse lembrar e praguejei muitos que me injuriavam. Eu que, nem ao menos, me percorri toda já estou cansada disso tudo. Eu tenho ambições. Sei que parece muito para uma mulher como eu, mas gosto de dizer que outrora já encantei muitos corações com minha beleza juvenil. Destruir lares e sonhos. E ainda por cima, com eu disse, também tenho os meus sonhos bem guardados onde ninguém possa me ridicularizar por eles existirem. E é só o que me resta daqueles dias, lembranças.
Não sou esse tipo de mulher emotiva dada a romantismos ou coisas do tipo, talvez eu tenha sido em algum momento entre meu primeiro ou segundo casamento, não lembro. A vida me levou isso também, assim como tantas outras coisas.
Não sou fingida, sei admitir quando estou errada. Sei reconhecer que tenho medos e frustra-me saber que não posso encará-los de frente.  Sento em uma mesa de bar bebo tudo o que tenho vontade até virem uns fudidos me botarem para fora como se eu fosse uma cadela, velha e louca.
Tenho dinheiro para bancar as minhas loucuras, mas essa gente pensa que sou como esses mendigos que andam pelas calçadas imundas atrasando os outros pedindo esmolas.
Então perco o controle e destruo tudo: a mesa, os copos, o bar e tudo mais o que meus olhos cansados conseguem enxergar, para pagar tudo no outro dia. Já nem conto mais os lugares da qual eu fui expulsa. Não volto lá por causa disso, mas sim por que apesar da idade sou uma mulher extremamente orgulhosa. Mostraria a esses fudidos meus fios brancos se eu já não os tivesse encobrido com meu véu negro. Assim como muita coisa em mim.
Será que essa gente fingida não percebe que quando estou sentada em um bar ou quebrando tudo é por que ainda não encontrei a minha felicidade ou quem eu sou?
Esses fudidos não sabem, mas por mais ridícula que eu seja ainda me tranco no meu quarto sem eles verem e choro por que ainda tenho medo de amar.
Eu queria ser a mãe do mundo para reuni-los nos meus seios e protegê-los de tantos perigos. Acalentá-los nas noites de pesadelos e fazê-los dormir com um beijo de boa noite. Mas tudo o que eles querem de mim é zombar e me expulsar dos bares.
Não culpo Deus por isso acho que ele esta ocupado demais para lidar com uma velha louca de cabelos pintados de vermelho, cor de sangue. Acho até que ele tentou me ajudar, mas eu não vi por que estava sentada em alguma mesa de bar procurando pagar um garotão para me satisfazer por uma noite.
Eu não desistir da vida. Acho que foi ela quem desistiu de mim. Eu só fiz a minha parte em não querer mais tentar.
Eu olho no espelho e vejo todas as marcas estampadas no meu rosto que foi a única coisa que o tempo deixou em mim, cheguei até por um momento a não me reconhecer, mas então me lembro de tudo que já passei nessa vida. Toda a dor, mágoa, alegrias e tristezas que vivi. É quando começo a me ver em mim mesma. Como se tudo fosse um filme antigo e eu não fosse a personagem principal.
Hoje mais uma vez me sinto cansada, mas não me sinto mais sozinha. Sinto que não estou mais retrocedendo nos meus passos. Alguma coisa havia mudado e pela primeira vez eu estava preparada para aquela mudança toda.
Vesti meu melhor xale preto e fui para um bar em Ipanema. Tomei uma única taça de Marguerite holandesa. Fui andando e bailando pela praia de Copacabana arrastando meu vestido negro pela areia. O sol já havia se posto, mas eu estava ali para ouvir o marulho das ondas que vinham beijar meus pés descalços.
Não havia mais ninguém para rir ou zombar de mim e pela primeira vez eu me sentia feliz e livre como há muito tempo eu não me sentia. O vento amaciava meu rosto em agradecimento por eu esta ali. Em resposta eu abrir bem meus braços e respirei aquele ar que vinha encher meus pulmões cansados, pela ultima vez.


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