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   > O galo de campina fujão e de vôo cambaleante



Yago Bezerra Pessoa
      CRôNICAS

O galo de campina fujão e de vôo cambaleante

O galo de campina fujão e de vôo cambaleante
 
Certo dia, quase que normal se comparado aos anteriores, prestes a sair de casa para ir ao meu trabalho de ensinar, olhei para o fundo do quintal de minha casa e ali o avistei, alegre e saltitante, resplandecendo de prazer por está livre e em contato com a seca terra de meu Ceará, que tão confiante esperava por chuvas que a hidratassem. Ele era o pássaro de campina de meu pai, que por algum motivo até então desconhecido, encontrara uma fresta em sua gaiola, o seu portal de liberdade e de retorno à sua essência natural, que lhe oportunizava o vôo livre e a retomada de sua natureza, além de o contato com sua própria espécie.
Estava ele com suas penas mais brilhantes e com as cores mais vivas do que aquelas que observávamos quando confinado em sua circunscrita cela. Pareceu-me que a beleza das coisas só poderia ser vistas em sua totalidade e não em sua unicidade. Pois assim como o pássaro campina, todas as outras criaturas conhecidas só se permitem visualizar por completo quando permeadas em seu estado natural e não em uma abstrata idealização humana.
Como pode os homens ver como belo aquilo que não o é? O simples fato de não ser completo já é contraditório ao belo. A natureza de tudo só acontece no todo e não em sua discriminação individualista. O campina, quando livre de sua câmara odiosa se fez mais belo por encontrar-se integrado às suas realidades. Assim somos todos nós em essência, próprios de um todo ressonante em tudo.
A decepção do pobre pássaro veio depois que eu, por um ímpeto ato, tentei privar-lhe a mais sonhada, conquistada e já vivida liberdade de encontrar-se sobre sua vontade. Refletindo sobre esta minha postura em querer tirar do bicho a sua merecida e devida alforria, lembrei-me de que a sua alucinada fuga me traria sérios problemas com meu pai, que estava trabalhando, por sinal ele era da polícia militar e atuava em presídios estaduais, daí podemos prever o seu distinto gosto ou prazer em privar as criaturas da liberdade física, sabendo claro que, no caso do amado pássaro podia-se dizer que este era inocente em sua sentença.
Portanto, certo de que seria julgado como alguém que teve descaso, descuido ou possível cumplicidade para com a fuga consumada, já que era sabida em minha casa a pertinente defesa que eu assumia com relação à liberdade dos animais, decidi resgatá-lo do mundo natural e devolvê-lo àquela ideia de mundo abstrato e sem sentido, onde o pobre tinha como missão pular de uma vareta para outra, em uma constante alienação.
Pensei ser fácil resgatá-lo, mas para meu engano não foi, mesmo tendo o campina perdido sua prática de vôo, este dava saltos de asas abertas para mim amedrontadores, pois a cada salto eu o via mais longe de minhas mãos e por consequência de sua gaiola.
Em um dos lados do quintal da nossa casa, havia pilhas de telhas velhas e gastas que se encontravam escoradas junto ao muro, o que permitiu ao pequeno pássaro de cabeça vermelha esconder-se e proteger-se de minha pretensão.
Tendo o senso de que a hora estava correndo e de que logo eu devia sair, desisti do resgate e tendo sido orientado por minha sábia mãe, depositei junto às telhas a gaiola com água e sementes, para que ele se sentisse convidado a voltar para a sua casa.  Impressionante foi refletir que aquele gesto possuía um significado muito maior do que esperar que o indefeso voltasse à sua indiferente jaula. Acima de tudo demonstrava uma postura sensível e humanizada, pois ao pássaro foi permitido o discernimento em fugir ou entregar-se e voltar à clausura.
Quando retornei para casa depois de uma tarde de trabalho, fui informado por minha mãe de que o amável animal havia sem pressão ou espreita entrado em sua gaiola e ali permanecido quieto e calmo. Dessa forma, pude compreender que mesmo com todo o desgosto que é viver em clausura involuntária, o pássaro mostrou sua postura em ficar naquele estado considerado por muitos como de maldade.
Assim sendo, passei a considerar que a nossa postura quanto à vida, realmente só é possível de se ver quando em sua totalidade, pois como sujeitos de um mundo heterogêneo e complexo em cada simplicidade, nós só somos enxergados se nos mostramos por completo e em ressonância com o que fazemos, pois assim como o pássaro galo de campina deixou que a sua decisão repercutisse em todos nós, também nos deixou significar de que a postura de minha família para com o seu trato estava coerente com a sua vontade de viver.


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