Busca: 

Apelido:

Senha:


Esqueci minha senha
 
  Área do autor

Publique seu texto
  Gêneros dos textos  
  Artigos (651)  
  Contos (939)  
  Crônicas (730)  
  Ensaios (169)  
  Entrevistas (35)  
  Infantil (204)  
  Pensamentos (640)  
  Poesias (2501)  
  Resenhas (129)  

 
 
Os segredos de Lauriana
Airo Zamoner
R$ 25,50
(A Vista)



A Construção
Airo Zamoner
R$ 17,40
(A Vista)






   > O galo de campina fujão e de vôo cambaleante



Yago Bezerra Pessoa
      CRôNICAS

O galo de campina fujão e de vôo cambaleante

O galo de campina fujão e de vôo cambaleante
 
Certo dia, quase que normal se comparado aos anteriores, prestes a sair de casa para ir ao meu trabalho de ensinar, olhei para o fundo do quintal de minha casa e ali o avistei, alegre e saltitante, resplandecendo de prazer por está livre e em contato com a seca terra de meu Ceará, que tão confiante esperava por chuvas que a hidratassem. Ele era o pássaro de campina de meu pai, que por algum motivo até então desconhecido, encontrara uma fresta em sua gaiola, o seu portal de liberdade e de retorno à sua essência natural, que lhe oportunizava o vôo livre e a retomada de sua natureza, além de o contato com sua própria espécie.
Estava ele com suas penas mais brilhantes e com as cores mais vivas do que aquelas que observávamos quando confinado em sua circunscrita cela. Pareceu-me que a beleza das coisas só poderia ser vistas em sua totalidade e não em sua unicidade. Pois assim como o pássaro campina, todas as outras criaturas conhecidas só se permitem visualizar por completo quando permeadas em seu estado natural e não em uma abstrata idealização humana.
Como pode os homens ver como belo aquilo que não o é? O simples fato de não ser completo já é contraditório ao belo. A natureza de tudo só acontece no todo e não em sua discriminação individualista. O campina, quando livre de sua câmara odiosa se fez mais belo por encontrar-se integrado às suas realidades. Assim somos todos nós em essência, próprios de um todo ressonante em tudo.
A decepção do pobre pássaro veio depois que eu, por um ímpeto ato, tentei privar-lhe a mais sonhada, conquistada e já vivida liberdade de encontrar-se sobre sua vontade. Refletindo sobre esta minha postura em querer tirar do bicho a sua merecida e devida alforria, lembrei-me de que a sua alucinada fuga me traria sérios problemas com meu pai, que estava trabalhando, por sinal ele era da polícia militar e atuava em presídios estaduais, daí podemos prever o seu distinto gosto ou prazer em privar as criaturas da liberdade física, sabendo claro que, no caso do amado pássaro podia-se dizer que este era inocente em sua sentença.
Portanto, certo de que seria julgado como alguém que teve descaso, descuido ou possível cumplicidade para com a fuga consumada, já que era sabida em minha casa a pertinente defesa que eu assumia com relação à liberdade dos animais, decidi resgatá-lo do mundo natural e devolvê-lo àquela ideia de mundo abstrato e sem sentido, onde o pobre tinha como missão pular de uma vareta para outra, em uma constante alienação.
Pensei ser fácil resgatá-lo, mas para meu engano não foi, mesmo tendo o campina perdido sua prática de vôo, este dava saltos de asas abertas para mim amedrontadores, pois a cada salto eu o via mais longe de minhas mãos e por consequência de sua gaiola.
Em um dos lados do quintal da nossa casa, havia pilhas de telhas velhas e gastas que se encontravam escoradas junto ao muro, o que permitiu ao pequeno pássaro de cabeça vermelha esconder-se e proteger-se de minha pretensão.
Tendo o senso de que a hora estava correndo e de que logo eu devia sair, desisti do resgate e tendo sido orientado por minha sábia mãe, depositei junto às telhas a gaiola com água e sementes, para que ele se sentisse convidado a voltar para a sua casa.  Impressionante foi refletir que aquele gesto possuía um significado muito maior do que esperar que o indefeso voltasse à sua indiferente jaula. Acima de tudo demonstrava uma postura sensível e humanizada, pois ao pássaro foi permitido o discernimento em fugir ou entregar-se e voltar à clausura.
Quando retornei para casa depois de uma tarde de trabalho, fui informado por minha mãe de que o amável animal havia sem pressão ou espreita entrado em sua gaiola e ali permanecido quieto e calmo. Dessa forma, pude compreender que mesmo com todo o desgosto que é viver em clausura involuntária, o pássaro mostrou sua postura em ficar naquele estado considerado por muitos como de maldade.
Assim sendo, passei a considerar que a nossa postura quanto à vida, realmente só é possível de se ver quando em sua totalidade, pois como sujeitos de um mundo heterogêneo e complexo em cada simplicidade, nós só somos enxergados se nos mostramos por completo e em ressonância com o que fazemos, pois assim como o pássaro galo de campina deixou que a sua decisão repercutisse em todos nós, também nos deixou significar de que a postura de minha família para com o seu trato estava coerente com a sua vontade de viver.


CADASTRE-SE GRATUITAMENTE
Você poderá votar e deixar sua opinião sobre este texto. Para isso, basta informar seu apelido e sua senha na parte superior esquerda da página. Se você ainda não estiver cadastrado, cadastre-se gratuitamente clicando aqui