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AMAURI CHICARELLI
      CRôNICAS

VENTOS

VENTOS

 

Quando ta muito frio mesmo, andar em cima do Viaduto do Chá não é brincadeira. Apesar de todas as mudanças climáticas, São Paulo continua castigando seus moradores  com uma garoa fina e intensa no outono e no inverno. É tão fina  e gelada que entra pelo nariz e dependendo da temperatura, a sinusite é inevitável. Em cima do viaduto a gente sente o vento que sobe do Vale do Anhangabau castigando o nariz e as orelhas, ainda mais de quem prefere se molhar um pouco a andar de guarda chuva. Mas eu gosto desse tipo de clima. Gosto da aparência européia que a cidade empresta a si mesma e das pessoas bem vestidas com capas, sobretudos e roupas de inverno que dão um tom mais elegante ao desleixo comum e inevitável dos dias de calor.

 

Tinha acabado de sair do trabalho na Rua da Consolação  e pretendia ir até o Parque Dom Pedro tomar o ônibus, porque o ônibus que passava ali até o Parque  demorava mais que a eternidade e não havia condução direta para o bairro em que eu morava. Era uma caminhada um tanto longa, mas a agitação do centro da cidade e o trânsito constante, obriga a gente a ficar de olho ao atravessar as ruas e se desviar dos outros pedestres e principalmente das mulheres armadas de guarda chuvas, que são sempre um perigo para os olhos. Essas atividades essenciais pra preservar a  vida ou pelo menos os membros inteiros causa uma distração constante de maneira que nem percebemos a distância do ponto de partida até o Parque.

 

Eu estava cansado porque não tinha dormido bem, estava numa de minhas fases na qual pensava o tempo todo e em qualquer coisa. Não conseguia relaxar e as imagens do dia passavam numa sucessão aleatória e desconcertante. Em cima do viaduto pensava na manifestação de algumas moças nuas nas escadas do Teatro Municipal naquela manhã, protestando contra o machismo e a favor da igualdade dos sexos. Dezenas de homens se aglomeravam em frente a escadaria enquanto a líder das moças gritava palavras de ordem e as outras três seguravam cartazes exigindo igualdade de direitos e condições.  Os homens tiravam fotos com os celulares, alheios  à finalidade dos protestos e as mulheres olhavam feio para aqueles corpos nus da cintura pra cima. Perfeitos. Enquanto algumas senhoras de idade avançada faziam o sinal da cruz ou gestos de desafio para o céu.

 

Desde o começo da travessia do viaduto senti que não seria uma passagem normal como nos outros dias. Pouco depois da Praça Ramos, olhei para o céu cinzento e imóvel e em seguida  para o outro lado de onde a estátua do patriarca muito elegante, olhava eternamente pra direção contrária. Tive uma sensação estranha de que os carros, ônibus e pedestres moviam-se lentamente sobre a pista central e as calçadas. Continuei andando sem conseguir parar de pensar. Lembrava do tempo em que passava quase o dia inteiro no centro da cidade pagando títulos e duplicatas nos bancos e nos cartórios. Trabalhava de Boy e só ia na empresa pela manhã, pegava a pasta 007 e saia apressado pra terminar o trabalho o mais rápido possível. Quase sempre conseguia terminar tudo antes das três da tarde e então ficava zanzando pelas ruas, olhando os preços dos tênis, discos de rock ou livros usados nos diversos sebos espalhados naquela região. Não tinha pressa alguma de voltar pra casa. Conhecia todos os cinemas da Avenida São João e ia de um a um babando em frente aos cartazes de filmes proibidos para menores. As fotos mostravam as mulheres nuas mas com os bicos dos peitos cobertos por uma fita. Não cansava de olhar. Acho que já era conhecido de todos os porteiros de cinemas da avenida. Quando finalmente terminava de ver tudo, ia para algum fliperama gastar o dinheiro do almoço em jogos de todos os tipos.

 

Caminhava na calçada como se andasse dentro de uma piscina onde a água batia acima dos joelhos dificultando a marcha. A imagem das feministas surgia  novamente, desta vez sendo arrastadas pela polícia e fotografadas por profissionais da imprensa que provavelmente foram avisados com antecedência do protesto. Amanhã elas estariam estampadas em todos os jornais e na internet com seus corpos nus nas escadas e sendo carregadas pelos policiais. Não tinha sentido qualquer desejo vendo aquelas moças parcialmente peladas. Estava cansado da nudez na TV, nas bancas de revistas nos sites da web e em toda a parte onde a mídia estivesse presente. Ficava mais excitado vendo uma mulher com uma saia curta e um decote discreto imaginando o que havia escondido ali do que com a nudez explicita. Não tinha mais graça. Os cartazes do cinema já não traziam as fitas cobrindo as partes que a censura do passado proibia de mostrar. Os fliperamas haviam desaparecido da cidade e do mundo. Só os ventos não haviam mudado e continuavam entrando pelo nariz junto com a umidade da garoa gelada.

 

Lembrava de como gostava de passar no Largo do Paissandu e ver as prostitutas fazendo sinais aos homens que passavam e como ficava orgulhoso quando alguma delas fazia o típico sinal de “vamos lá meu bem?” . Quando isso acontecia, eu tinha certeza que já era homem e perdia até o jeito de andar de tanto contentamento. Essas imagens se misturavam com a dos colegas de escritório. Com o Paulo, Cristina, Lourenço e todos os outros. O Paulo era o chefe  mas era o que eu chamava de “cara legal”. Quando explicava alguma coisa pra alguém, terminava a frase sempre do mesmo jeito. __Simples né? E a gente por algum motivo achava que realmente aquilo era muito simples, por mais complicado que fosse. Mas agora, enquanto andava dentro daquela piscina imaginária, não podia ver mais nada como simples. Só o passado morto parecia simples porque era passado e não incomodava mais. Só a sensação de liberdade numa tarde distante era fácil de entender e de aceitar. Todo o presente parecia uma jaula que sufocava por todos os lados daquele labirinto de prédios e de solidão.

 

.Teria que voltar pra casa e esquentar a comida. Teria que tomar banho, fazer a barba, ver os noticiários da TV e procurar alguma coisa pra ler até o sono chegar. Todas as coisas tinham ido embora. Todas as pessoas foram levadas. Todos os amores foram carregados pelos ventos que eu só podia sentir mas não podia ver. Precisava acordar cedo na manhã seguinte e repetir o ritual diário de levantar, escovar os dentes, tomar café e ir para o trabalho ouvir as mesmas reclamações, as mesmas piadas e  os mesmos sons repetidos ano após ano e depois atravessar de novo o Viaduto do Chá. Só então me dei conta que já havia feito a travessia. Quando cheguei na praça do outro lado, tropecei em alguma coisa e com um movimento espontâneo olhei pra trás e vi que a velocidade das coisas tinha voltado ao normal. Ia quase virando para continuar meu caminho, quando senti uma enorme sensação de perda, de saudade e de despedida como se nunca mais voltaria a estar naquele lugar. Do outro lado podia ver parte do Teatro Municipal e o formigueiro de pessoas andando em sua frente e à sua volta. As palavras do meu antigo chefe voltaram com um choque em minha mente. Fiquei assustado quando pensei ter ouvido aquela voz alegre dizendo.

__Simples né?

Retomei meu caminho e continuei andando e repetindo em silêncio pra mim mesmo. __Não! Não é tão simples.




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