Busca: 

Apelido:

Senha:


Esqueci minha senha
 
  Área do autor

Publique seu texto
  Gêneros dos textos  
  Artigos (651)  
  Contos (939)  
  Crônicas (730)  
  Ensaios (169)  
  Entrevistas (35)  
  Infantil (202)  
  Pensamentos (640)  
  Poesias (2496)  
  Resenhas (129)  

 
 
Entardecer em Porto...
Ingrid Regina...
R$ 66,42
(A Vista)



Arquitetura-03-418
Airo Zamoner
R$ 104,00
(A Vista)






   > 25 DE MARÇO DIA DA LIBERTAÇÃO DO NEGRO NO CEARÁ - PARTE I



William Augusto Pereira
      ARTIGOS

25 DE MARÇO DIA DA LIBERTAÇÃO DO NEGRO NO CEARÁ - PARTE I

25 DE MARÇO: DIA DA LIBERTAÇÃO DOS ESCRAVOS
PARTE I
 NEGROS EM EXTINSÃO OU, A SAGA DA IDEOLOGIA DA INVISIBILIDADE:
CADÊ OS NEGROS NEGRADA
William Augusto Pereira
Ser negro no Ceará não é ser descendente de ex-escravo, não é ser moreno descendente de  português ou francês,quando aqui viviam.  Ser negro é pertencer a raiz africana, cujos traços étnicos identificam a pessoa. Ser negro no Ceará é assumir uma negritude  cearense, que não é diferente da do Brasil, mas que se diferencia no modo de ser negro em uma terra que persiste em afirmar que não existe negro; é resistir contra a ideologia da invisibilidade criada pela elite do Estado do Ceará e que, ainda  hoje, é alimentada pelos ditos especialistas.
 
Existe uma controvérsia ou um erro histórico quanto a abolição do negro escravizado no Ceará. Alguns especialistas dizem:
 “É uma data significativa porque foi um marco no movimento abolicionista. Do ponto de vista econômico, repercutiu pouco. Mas, do ponto de vista social, é importante simbolicamente”, classifica o doutor em história social, Eurípedes Antônio Funes.
Segundo ele, mesmo o número de escravos do Ceará não chegando a 3% da população à época, a abolição repercutiu no resto do País.  (jornal o povo 25.03.2013)
Faltou a compreensão de quantas  pessoas habitavam o Ceará nesse período provincial para se entender  esse quantitativo de 3% dessa população. Sabemos através do senso de 1872 que, os negros escravizados representavam 15,24% da população brasileira. Os estrangeiros somavam 3,8%, a maioria deles portugueses, alemães, africanos livres e franceses.
 É oportuno salientar que toda elite cearense colonial tinha escravos em suas propriedades, além da igreja e órgão oficiais, pois um escravo era um objeto como outro qualquer. Uma peça de muita serventia. Alguns deles com valor de várias cabeças de gados, portanto caro, preciso para aquela realidade no Brasil escravocrata.
Governo nenhum sanciona uma lei  sem um meritum causae, isto é, sem um mérito da causa, com objetivo justo e decisivo. Após análise e convencimentos de seus pares e decidido no parlamento. Se existiu uma causa para abolir os negros escravizados no Ceará é porque havia escravidão, e não era em percentagens pequenas como são repassadas essas informações pelos especialistas, e repetidas nas escolas e fixadas no senso comum da sociedade. A escravidão era um fato real em todo território nacional. E o Ceará não escapou dessa realidade, não.
Segundo  o professor Américo Souza que afirma:

 “O processo cearense não foi humanista. O objetivo não era libertar os escravos porque é errado escravizar. A questão era econômica. Se vivia uma crise e a Assembléia Provincial aprovou leis nas quais destinava altas dotações orçamentárias para o Estado comprar escravos dos senhores e libertá-los. É que nem o FHC (ex-presidente Fernando Henrique Cardoso) salvando os bancos”, compara Souza.(jornal o povo 25.03.2013)

Interessante  a indagação do professor  Souza, mas  entra em conflito do que afirmou Funes. Afinal de contas o fim da abolição abalou ou não, a economia provincial.
É importante saber que cinco anos antes da abolição no Ceará, que ocorreu em 1884, o estado foi acometido de uma grade seca que exterminou um terço de sua população. Estou me referindo da seca de 1877-1879, portanto, três anos de martírios, mortes, êxodo, de destruição, saques, da população do Ceará. Foram três anos seguidos sem chuva,sem colheita, sem plantio, com perda de rebanhos, venda em massa de negros escravizados para o sudeste, fugas de famílias, deixando despovoado o sertão. Aracati que contava com  cinco mil habitantes passou a abrigar mais de 60 mil pessoas. Fortaleza converteu-se na capital do desespero: de 21 mil habitantes pelo senso de 1872 passou a ter 130 mil habitantes. Inicia-se as favelas e guetos nesse centro urbano. A economia provincial, já estava abalada, nesse período pela crise do algodão e com a seca quase acaba por completa. O povo morre de fome. Um terço da população do Ceará é perdida na seca de 1877. Estima-se 200 mil pessoas mortas.
O censo de 1872
Em junho de 1804, os dados populacionais indicavam um contingente total de 77.369 habitantes no Ceará, com predominância de pretos e pardos (61 %) sobre os brancos (39 %) e que na sua maioria (74%) viviam na condição de livre. Cerca de 70 anos depois, em 1872, a população residente no Ceará foi elevada em oito vezes o número de habitantes do início do século, chegara a 721.983 pessoas. Verifica-se nesse último ano a presença absoluta e relativa dos pardos (50 % do total da população), que somados aos pretos e caboclos chegaram a 63%, perfazendo um contingente de 453.120 pessoas. Os brancos decresceram relativamente (37%), embora em termos absolutos houvessem incrementado quase na mesma proporção que da população total, pois passaram de 30.336 pessoas para 268.863.(Scripta Nova.  Revista Electrónica de Geografía y Ciencias Sociales. Universidad de Barcelona [ISSN 1138-9788]  Nº 94 (73), 1 de agosto de 2001)
Apesar de existir ao longo da história do negro escravizado  rebeliões, fugas e a organização de quilombos já existissem no Brasil desde o século XVI e várias rebeliões regionais já tivessem a emancipação dos cativos em pauta, uma campanha organizada só acontece nas últimas décadas do século XIX.

A questão entra na agenda institucional a partir do final de agosto de 1880, quando é fundada a Sociedade Brasileira Contra a Escravidão. Começavam, no Parlamento, os debates sobre o projeto de libertação geral, apresentado pelo deputado pernambucano Joaquim Nabuco (1849-1910).

Uma intensa pressão popular resulta na libertação dos negros no Ceará, em 1884. Uma aguda crise na lavoura e reflexos da seca de 1877, além da ação de grupos urbanos, inviabilizaram o regime de cativeiro na região. Incentivado por esse desenlace, o abolicionismo toma ares de movimento em diversas províncias, como Rio Grande do Sul, Amazonas, Goiás, Pará, Rio Grande do Norte, Piauí e Paraná.
Portanto, não dá para deixar de visualizar mais de 100 agrupamentos negros ou comunidades negras espalhadas pelo território cearense.
COMUNIDADES  REMANESCENTES DE QUILOMBOS NO ESTADO DO CEARÁ
MAPA SITUACIONAL DAS COMUNIDADES REMANESCENTES DE QUILOMBOS DO CEARÁ
  MUNICÍPIOS COMUNIDADE QUILOMBOLA INÍCIO DA OCUPAÇÃO Nº DE FAMÍLIAS
01 Aquiraz Catolé dos Pereiros,    
Estrada Nova,    
Goiabeiras, 1924  
Lagoa do Ramo,    
Lagoa do Mato    
 Pereiral    
02 Aiuaba Zumbi    
03 Baturité Serra do Evaristo    
Castelo    
Bananeiras    
Jordão    
04 Crato Luanda    
05 Crateús Queimadas   145
Ingá,    
Poti,    
Tucuns    
06 Chaval Mucambo    
  Coreaú - Moraújo Timbaúba de baixo   59
    Timbaúba de Cima    
07 Ererê Tomé Vieira    
08 Fortaleza Pirambu,    
Mucuripe    
Bom Jardim    
Jardim Iracema    
Paupina    
Genibaú    
Barra do Ceará.    
09 Horizonte Alto alegre   821
Alto Estrela  
Cajueiro da Malhada  
Vila Nova  
Alto da Boa Vista  
10 Independência Barragem    
Pelo Sinal,    
Jucás    
Traqueiras    
11 Ipueiras Coité    
Cobras    
 Sitio dos Negros    
Feijão,    
Pau D’arco    
12 Iracema Bastiões   400
13 Monsenhor Tabosa Jacinto de Dentro    
Mundo Novo    
Lagoa dos Santos    
Serra Velha    
Tourão    
14 Novo oriente Barra    
Barrigudinha    
Bom Sucesso    
Lagoa de Dentro    
Mirador    
Santo Antônio    
Paraná    
15 Pereiro Crioulos    
Trindade    
16 Porteiras Sousa    
17 Pacajus Base    
18 Parambú São Consolo    
Silveira    
São Roberto    
Saco Virgem    
Quiterianópolis    
Uruburetama    
19 Quixeramobim Mearim    
20 Salitre Lagoa dos Criolos    
21 Tururu Água preta,   82
Conceição dos Caetanos    
22 Tamboril Açudinho    
Torres    
Possidônio,    
Serra dos Mates    
Santo Antônio    
23 Uruburetama Parandu    
         
total 23 municípios 74 comunidades    
 
 Assim, o Ceará ganha neste ano de 2013 mais um feriado do dia 25 de março. Comemora-se a Data Magna do Ceará. A Emenda Constitucional que instituiu o feriado, de autoria do deputado Lula Morais, foi aprovada pela Assembléia Legislativa em 1º de dezembro de 2011, sendo promulgada e publicada no Diário Oficial do Estado em 6 de dezembro de 2011. Quem ganha com isso foi a luta do movimento negro no Ceará, a sociedade cearense e a história do nosso povo.
 


Teólogo, Filósofo, Membro Efetivo e Secretário da Comissão Cearense de Folclore, Coordenador de formação do Fórum da economia do Negro, pesquisado de quilombos no estado do Ceará, membro da Associação Nação Iracema
 A fonte dos dados originais é Revista do Instituto do Ceará. Tomo XXIX, p.279, apresentados por Funes, 2000, p.104.
 A fonte dos dados originais é o Censo demográfico de 1872 in Revista do Instituto do Ceará. Tomo XXIX, p.279, apresentados por Funes, 2000, p.105.
              Centro de Defesa da Vida e Resgate da Cultura Negra no Ceará . Pesquisa coordenada pelo Prof. William Augusto Pereira.


CADASTRE-SE GRATUITAMENTE
Você poderá votar e deixar sua opinião sobre este texto. Para isso, basta informar seu apelido e sua senha na parte superior esquerda da página. Se você ainda não estiver cadastrado, cadastre-se gratuitamente clicando aqui