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   > Quem paga essa conta?



Airo Zamoner
      CONTOS

Quem paga essa conta?



Mesas, cadeiras e vidas se espalhavam pela calçada barulhenta. O Sol se esbaldava em queimaduras, despejando-se pelos contornos da cidade. O garçom se esgueirava pelos labirintos esbanjando habilidades.
Sentados, gozando o relaxo delicioso do corpo cansado, bebíamos o mundo pelos copos espumantes.
Repassávamos a confusão de nossas histórias na busca de alguma ordem enrustida nos confins do tempo.
Ríamos a risada dos picadeiros e a bebida gelada cascateava pela garganta, ricochetando festiva nas dobras intestinas, criando cócegas insatisfeitas de excitação.
O prazer se aconchegava à tristeza encurralada e numa luta terminal, perdiam-se nas cavernas incertas de nossas míseras lembranças.
Inexplicavelmente a luz incandescente que invadia o caos, acinzentou-se. Meu interlocutor assustado, arqueólogo pungente de nosso passado confuso, desmaiou o copo, fazendo-o espatifar-se em parábolas brilhantes, ferinas, perigosas.
Seus olhos se perderam em dimensões absurdas.
Sacudi-o pelos ombros, derrubando a mesa, craquelando vidros. Ele se apagou em fade contínuo. Sumiu de meus olhos estarrecidos. Percebi que fazia o mesmo comigo, enquanto o garçom, estupefato, agitava freneticamente a conta em nossos narizes, perguntando aos indiferentes fregueses:
– Quem paga esta conta?
Extraviados em nossas entranhas, revistamos as prateleiras ensangüentadas, empoeiradas e apodrecidas. Examinamos objetos disformes, ávidos a desemprenhar mensagens represadas.
O espelho esmaecido das paredes visguentas refletiu nossas imagens de meninos assustados, navegando pelo tempo, numa revista minuciosa de momentos introvertidos.
O amontoado desordeiro dos pecados se aconchegava num abraço promíscuo com o monturo de alegrias isoladas.
Os dois, mergulhamos sobre aqueles estoques abjetos e imponderáveis de coisa alguma, com a coragem sugada de ingenuidades perdidas.
Tentamos, e tentamos com denodo e alma, remover cada unidade e reorganizar o tumulto com esmero cartesiano. Esvoaçamos pelo espaço úmido das entranhas sujas, com desembaraço de bruxos. Frustramo-nos. Obstinadamente, um a um, os teimosos objetos, num ato de prestidigitação alucinante, voltaram ordenadamente a se desordenar.
A cabeça se esboroou em dores renovadas. A ânsia incontida de fugir e voltar à mesa do bar devolveu lucidez e lógica.
Associamo-nos apressadamente para a fuga suicida num esforço final. Saímos de nossos próprios avessos, de nossas consciências indomáveis, sem perceber a artimanha do destino.
Inexplicavelmente o cinza que cobria a desordem, coloriu-se.
Aqui fora o sol continuava a derreter ouro pelos raios fogosos. A luz ainda se afadigava pedante e indiferente no éter próximo.
Os copos gelados estavam intactos, escorrendo espumas aliciantes. As parábolas de cacos se desfizeram em retorno, apagando-se em buracos negros da lembrança imediata. Aliviamo-nos do destino.
O garçom sacudiu o papel e equilibrou a bandeja indisciplinada. Insistiu:
– Quem paga essa conta?

Airo Zamoner lança está semana o livro "Contos de Curitiba"


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