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   > Assassinato a meia noite e dois minutos



orlando ciuffi filho
      CONTOS

Assassinato a meia noite e dois minutos

 ASSASSINATO A MEIA NOITE E DOIS MINUTOS
O CIUFFI
 
 
Uma enorme quantidade de sangue já coagulado e seco estava ao lado do corpo de uma mulher demonstrando claramente à faxineira que a encontrou naquele sábado, que sua morte havia acontecido horas antes de sua chegada a casa.
Eram sete horas daquela abafada e calorenta manhã de verão, embora o céu estivesse nublado e o sol pouco aparecia entre as nuvens negras e espessas prognosticando uma tempestade, quando Dona Rute apanhou chorando e trêmula o aparelho telefônico que chegou a cair de sua mão nas duas primeiras tentativas de efetuar a ligação.
Tentou novamente e após ser atendida pediu para falar urgente com o detetive Alexandre Grozzi.
Informaram-lhe que ele não se encontrava e ela contou ao atendente o que viu na mansão onde trabalha como faxineira.
O agente policial que a ouviu, gravou o que ela contou e disse-lhe que por estarem muito distante do endereço iria repassar suas informações à central de polícia que notificaria à delegacia de seu bairro que era próxima do local do incidente.
Antes de desligar informou-a que se ela mesma ligasse ao delegado do bairro seria mais rápido ainda e deu-lhe o numero do telefone e desta vez ela ligou para o lugar certo avisando ter encontrado sua patroa já totalmente sem vida.
Explicou muito bem que a achou com o pescoço cortado e com seu sangue já seco formando uma enorme mancha no tapete do chão de seu escritório pessoal.
Comentou não ter a menor dúvida sobre sua morte e por esse motivo o delegado Ataíde Santoro, após mandar a atendente orientá-la em não tocar em nada, começou formar com esmero a equipe que o acompanharia nessa diligência.
Oito experientes agentes foram escolhidos para compor o grupo que ele levaria ao endereço fornecido por Dona Rute.
Na escolha e formação da equipe foram gastos quase trinta minutos, portanto uma longa demora para o atendimento de um chamado urgente.
Mesmo estando alguns agentes convocados envolvidos com seus relatórios de outras investigações anteriores foram exigidos nesse caso para comporem a equipe de Dr. Ataíde.
Todos eram os melhores em suas atividades. Eles fariam seus serviços bem depressa, mas com presteza e exatidão, pois se tratavam de homens muito experientes e bem treinados em investigações criminais, consequentemente rápidos e perfeitos.
Esse excelente grupo quando reunido elucidava qualquer delito considerado insolúvel à grande maioria de outras equipes de agentes do país e sempre de modo irrepreensível e sem delongas.
   Tal fato fez com que o investigador Caio Miranda, conhecido mais por detetive Miranda perguntasse ao delegado:
   Doutor Ataíde. Não por mim, mas todos os demais que escolheu são exatamente os melhores agentes da polícia civil de São Paulo em seus respectivos cargos. Por que isso? Trata-se de alguma parente ou conhecida sua para querer toda essa pressa na solução do caso?
   Deixe sua falsa modéstia de lado, pois sabe muito bem que você é o melhor de todos, não somente de São Paulo, mas do Brasil e talvez até do mundo todo.
   Agradeço, embora não creio que eu mereça tal elogio, mas, por favor, não fuja de minha pergunta que foi querer saber por que de sua urgência em desvendar esse crime.
   Não se trata disso detetive Miranda. Foi apenas por todos vocês estarem desocupados.
   Não é o caso de Carlos, de Álvaro, de Euclides e nem o meu. Nós tivemos de parar relatórios importantes para acompanhá-lo.
Essa frase foi dita pelo investigador, olhando para os sapatos do delegado, que percebeu tal atitude e também olhou para os próprios pés ao mesmo tempo em que perguntou:
   Alguma coisa com meus sapatos, investigador?
   Nada não. Apenas estou vendo que são bonitos e com certeza importados, ou estou enganado?
   Enganou. São nacionais mesmo.
   Pensei que fossem italianos.
   Mesmo nível. É um Ferracini.
   E qual é a resposta para minha pergunta anterior?
   Porque todas essas perguntas detetive? Está me interrogando?
   Ainda não. Quem sabe num futuro próximo.
Sempre que um agente investigativo fazia pelo menos duas perguntas sucessivas ao delegado ele brincalhão fazia essa mesma pergunta e obtinha sempre a mesma resposta, que geralmente terminava com o assunto e era motivo de muitas risadas entre os policiais.
A brincadeira acabou assim, e o delgado após cientificá-los de todas as informações recebidas, partiu em dois carros pequenos e um grande.
oooOooo
Com exceção de Dr. Ataíde que tinha trinta e quatro anos de idade e dezesseis de polícia, onde começou com dezoito anos exercendo o cargo de perito criminal até se formar em direito e tornar-se delegado com todo mérito, os demais tinham mais de cinquenta anos de idade e todos com mais de trinta de serviços prestados à lei.
Carlos Alberto, o perito criminal estava com cinquenta e oito anos de idade. Estudara biologia e genética humana, para ser o excelente profissional que se transformou. Desde jovem além desses cursos efetuou vários outros aprendendo tudo sobre os órgãos do corpo humano, seus valores, seus funcionamentos e suas necessidades, consequentemente adquirindo extraordinária capacidade que o transformou no melhor perito entre todos do país. 
Fora esse o motivo de sempre orientar os agentes novatos a fazerem o mesmo.  Foi ele o maior incentivador do delegado Ataíde Santoro estudar quando ele era apenas um jovem agente iniciando na polícia, ainda sem cargo definido.
Euclides Sá, o perito papiloscopista estava com cinquenta e quatro anos de idade e já havia exercido o cargo de perito criminal durante vinte anos e também como o outro adquirira o mesmo aprendizado.
O agente Álvaro Alencar de cinquenta e cinco anos exercia o cargo de fotógrafo há vinte. Ao entrar na polícia civil trabalhou durante os cinco primeiros anos no Instituto Médico Legal e depois exerceu o cargo de investigador, mas dois anos após percebeu que não tinha o dom necessário para intuir sobre fatos estranhos do comportamento humano e dedicou-se em retratar locais onde ocorrera algum crime. Unindo sua vocação que era a fotografia mais a experiência adquirida na necropsia e no cargo de investigador tornou-se o fotógrafo criminal excelente que era.  Sem dúvida o melhor do país. Nos cinco anos que auxiliou nas autópsias, também estudou muito sobre o corpo humano aprendendo tudo o que os outros sabiam.
Dois eram investigadores e um deles detinha a honra de ser o maior esclarecedor de crimes considerados insolúveis em todos os tempos na capital paulista onde prestava serviços desde jovem. Era o conceituado inspetor Caio Miranda com cinquenta e nove anos de idade e o único que não tinha os mesmo cursos dos demais. Estudara bem menos. Sempre fora avesso à teoria. Quando ainda era iniciante na polícia matriculou-se em um curso de psicologia, mas não o concluiu, por ter sido considerado extremamente desatento pelo mestre. Seu desinteresse às doutrinas teóricas era por ele crer que para ser um bom investigador a pessoa precisaria ter dez por cento de aprendizado acadêmico, dez de sorte, dez de trabalho e setenta de intuição. Ele preferiu abrir mão dos primeiros dez por cento, porque os restantes noventa ele tinha em sua própria natureza, bem antes de ser policial.
Quando adolescente descobria os criminosos nos romances policiais misteriosos que lia, sempre antes de ele ser divulgado pela famosa autora inglesa conhecida pelos cognomes Rainha do Crime e Duquesa da Morte, entre outros.
O então garoto Caio Miranda analisava as pistas encontradas pelo detetive belga ou pela velhinha solteirona e chegava às mesmas conclusões deles, antes de serem anunciadas pelos heróis do romance.
Esse foi o motivo que o levou a entrar na polícia para exercer essa atividade, pois sua intuição era muitíssima aguçada desde aquele longínquo tempo, aliada a sua grande inteligência, além de sua excelente memória.
Nunca mais estudou nada, entretanto enquanto os outros estudavam, ele descobria pistas e mais pistas, por mais excêntricas, incoerentes e ilógicas que pareciam e sempre o levavam a desvendar crimes supostamente perfeitos que nenhum agente ligado apenas às estatísticas, às teorias científicas, e com pouco pensamento criativo, conseguia sequer imaginar.
O outro, o inspetor Júlio Souza, também tinha cinquenta e nove anos, carregando em seu currículo, todos os cursos dos demais, incluindo psicologia e direito.
Nunca conseguiu passar para o cargo de delegado que era seu grande sonho e talvez por essa frustração jamais conseguiu ser tão brilhante quanto seu colega, mas sua ampla experiência e estudos fizeram-no estar entre os melhores.
Era muito competente e magnífico em seu trabalho, porém não tinha o dom do detetive Miranda, pois a imensa percepção e capacidade deste substituíram-lhe todos os cursos teóricos incompletos e os não feitos.
O policial Robson Silva era motorista, com cinquenta e dois anos de idade, com o mesmo aprendizado dos outros, além de exímio az no volante, pois antes de entrar na polícia era corredor de carros.
Os outros dois agentes que foram com a incumbência de efetuar a segurança e o isolamento da casa também fariam a remoção do corpo, tão logo fosse devidamente fotografado por todos os ângulos pelo agente Álvaro Alencar e periciado pelo agente Carlos Alberto.
Seus nomes eram Cândido Júnior com cinquenta e três anos e Adolfo Rodrigues, com cinquenta e cinco e ambos com os mesmos estudos e aprendizado dos demais.
Todos eles eram exímios atiradores e embora com idades já avançadas, extremamente ágeis em várias modalidades de lutas de defesa pessoal, de ataque e principalmente as de imobilizações.
Faz-se necessário dizer também que todos tinham os mesmos conhecimentos do perito criminal e dos investigadores e exatamente por esses predicados o delegado sempre procurava convocar pelo menos um ou dois deles em suas diligências quando os encontrava ociosos em suas atividades.
O enorme furgão, próprio para a remoção de corpos foi guiado pelo motorista Robson Silva e levava os agentes Candido e Adolfo.
Um dos carros pequenos transportava o delegado e os dois investigadores e era guiado pelo próprio delegado.
Carlos Alberto conduzia o outro carro acompanhado pelos agentes Euclides e Álvaro.
Ambos os carros com suas estridentes sirenes ligadas foram abrindo caminho para o carro grande que vinha atrás e assim a viagem pelas ruas de São Paulo foi bastante veloz e por isso chegaram ao local do crime após dezesseis minutos, compensando o tempo gasto na reunião demorada.
Dr. Ataíde Santoro antes de sair da delegacia, zeloso como era, havia tido a preocupação de solicitar que mandassem uma ambulância para o mesmo destino deles, para o caso de encontrar a mulher com vida, pois a informação recebida poderia estar errada.
Independente de tal atitude ser praxe, assim agiu por que muitas vezes perde-se uma vida preciosa por falta de socorro imediato e ele como todo bom profissional e principalmente por ser perfeccionista em tudo que fazia, nunca cometeu esse equívoco sem nenhuma possibilidade de reparação posterior.
Esses eficientes homens da lei fariam além da investigação minuciosa do ocorrido, também a remoção do corpo para o necrotério, para posterior necropsia se realmente a encontrassem morta.
Eles chegaram todos juntos e antes das oito horas da manhã já estavam no endereço recebido e enquanto o delegado, o fotógrafo, o perito criminal e o papiloscopista entraram correndo, os demais ficaram providenciando o isolamento da casa em cuja rua já havia uma grande aglomeração de vizinhos e curiosos que tinham ouvido os gritos, o choro e as lamentações da empregada em desespero.
Os quatro que penetraram rapidamente pela porta já aberta por Dona Rute, ao chegarem à sala de estar, antes de subirem a escada que os levariam ao andar superior, tiveram de desviar-se de grossas gotas de água que atravessando a laje do teto, caiam ruidosamente no andar de baixo.
Pingavam sobre alguns objetos de metal em cima de um móvel emitindo o som de uma música macabra, semelhante às tocadas em filmes de terror.
Tal som era terrivelmente assustador o que fez com que o fotógrafo perguntasse aos demais:
   Será que iremos encontrar o Freddy Krueger lá em cima?
   Deixe de piadas Álvaro.
   Doutor. A defunta não vai se importar se a encontrarmos, com Hannibal Lecter comendo seus miolos ou jogando baralho com Jack Estripador ao seu lado.
Mesmo que for qualquer outro demônio que estiver lá, ela não falará mais nada se o relato da empregada estiver correto, e se por acaso ela quiser conversar com alguém é lá no inferno com Lúcifer e não conosco.
   Tudo bem. Não vou mais chamar a atenção de ninguém. Podem brincar a vontade desde que não seja na frente de civis, pois estaríamos nos desprestigiando e ficará mau para a corporação.
   Alguma vez fizemos gracinha que não fosse só entre nós doutor?
   Concordo. Inclusive eu também faço pilhérias. Nesse trabalho estressante que escolhemos, temos de estar sempre brincando e alegres para conseguirmos suportá-lo, portanto zombem a vontade. Estão liberados para brincar.
   Então está tudo certo?
   Ok. Hoje estou cansado e irritado, por isso meu mau humor. Desculpem-me.
   Então vamos continuar com a bagunça, mas de forma organizada desde que não seja vista por alheios? Ok. Delegado?
   Tudo bem. Façam como quiseram.
   Chegamos. Credo. Veem o que eu vejo?
   Que estrago medonho fizeram nela!
Eles se depararam com o cadáver de uma mulher estendido inerte no tapete do escritório particular ao lado de todo o sangue que ela tinha circulando em seu corpo quando viva.
Tal visão deixou claro a esses especialistas, assim como havia deixado a leiga Dona Rute que o corpo estendido na posição decúbito ventral realmente estava sem vida há muito tempo.
No dormitório ao lado do escritório nada foi encontrado pelo perito criminal que o visitou acompanhado do papiloscopista e do fotógrafo com suas armas engatilhadas e prontas para qualquer eventualidade. Não encontraram ninguém no quarto de dormir e nem na casa, pois a vistoriaram inteira.
oooOooo
A ambulância chegou nesse momento e seu motorista e os paramédicos foram informados que poderiam regressar, pois ali não havia mais necessidade deles para absolutamente nada.
A morte da jovem já estava confirmada pelo perito ao vê-la degolada com seu sangue todo fora do corpo pintando grande parte do tapete cinza claro de vermelho. 
Enquanto o fotógrafo e o papiloscopista faziam seu trabalho dentro da casa à vista do perito criminal que os auxiliava nas investigações internas, o delegado conversava com a faxineira em um canto afastado, pois ela se recusava ficar vendo o corpo de sua patroa naquele estado. 
Os demais agentes impediam a entrada de curiosos e os investigadores principais procuravam possíveis vestígios do assassino na frente da casa para elucidar o crime o quanto antes, se lá mesmo colhessem provas suficientes para tal.
Eles recolheram tudo que poderia ter sido manuseado pelo homicida nas últimas doze horas, pois conforme o telefonema à delegacia feito pela faxineira relatando o que vira e respondendo o que lhe fora solicitado souberam que a empregada e patroa haviam conversado pelo celular no dia do crime por volta de dezenove horas.
Dona Rute tinha informado que havia conversado com ela ainda em seu escritório que mantinha em um shopping próximo, por isso a conclusão de todos foi que o crime só poderia ter ocorrido à noite ou no início da madrugada, após sua volta para casa que sempre era próximo de vinte e uma horas.
Algumas pontas de cigarros, um pedaço de lápis, uma caneta quebrada, uma caixa de acrílico própria para a guarda de DVD, um emaranhado de cabelos que mais pareciam pelos de cachorro e um isqueiro ainda com gás foram recolhidos na frente da residência.
Depois os investigadores deram a volta no quarteirão para vistoriar pelos fundos da casa e lá nada encontraram a não ser coisas realmente inúteis como excrementos de cachorros, latas de alimentos amassadas, enferrujadas e abandonadas há muitos dias. Alguns maços e guimbas de cigarros já sujos pelo grande tempo que estavam no chão.
Encontraram também tubos de batom velhos, preservativos usados, cachimbos quebrados que foram usados para fumar maconha e crack, velhas seringas sujas que por não ter mais serventia foram descartadas por seus usuários.
Os viciados em drogas injetáveis provavelmente jogaram-nas na praça que costumavam frequentar que ficava no início da rua e junto com os demais lixos foram trazidas pelas enxurradas das chuvas, pois a rua descia para um grande bueiro de águas pluviais em sua parte baixa.
Enfim tudo que encontraram nos fundos daquele quarteirão era simplesmente lixo antigo e nada foi recolhido, pois eram coisas usadas há muito tempo e não nas últimas horas.
A rua tinha três quarteirões de distância e era sem saída. Logo após a segunda casa adiante da residência da assassinada ela terminava em uma enorme pedra que dava início a um morro.
Os detetives andaram por toda sua extensão e verificaram que não havia nenhuma construção cuja porta principal fosse por esse lado. Era o fundo de todas as casas cujas entradas se fazia pelo outro lado.
Apenas poucas construções mantinham portões de entrada para carro daquele lado, encravados em muros altos, bastante sólidos e construídos com altura de quatro metros.
Muitos tinham cerca eletrificada sobre eles, outros tinham enormes cacos de vidros cimentados ou afiadíssimas lanças de ferro chumbadas como os vidros em seu topo. Alguns tinham arame farpado e a maioria simplesmente não tinham nada para proteger alguma invasão por esse lado, pois com certeza seus moradores julgavam seus altíssimos muros intransponíveis.
Possivelmente essas casas mantinham cães ferozes para fazer a vigilância pelo lado de dentro do quintal.
A rua era estreita e do lado oposto, em toda sua extensão existia um altíssimo muro que cercava um condomínio de residências baixas de alto padrão, portanto nem janelas de edifícios vizinhos existiam para se enxergar a quase inexistente movimentação da rua pouco usada e bastante tranquila.
A escassa circulação de pessoas era efetuada apenas por uma ínfima quantidade de andarilhos que a usavam para suas eventuais farras noturnas, pois a impressão que deixava era que se isso acontecia era coisa muito rara.
Diurnamente os varredores de rua da prefeitura também pouco passavam por lá em virtude de não terem recolhido os objetos encontrados pelos investigadores que datavam de muitos dias.
O agente Caio Miranda, coçou o queixo, depois a cabeça e ficou olhando aparentemente desatento para o chão onde estava plantada uma árvore no meio da calçada em frente o muro que fechava o quintal da casa de Estela.
Depois, ainda com os olhos meio fechados, olhou para seu tronco e seus fortes e grossos galhos que começavam ramificar e espalhar-se em outros a apenas pouco mais de dois metros de altura no caule principal.
Chamou o investigador Júlio que procurava pistas no meio da rua e disse-lhe:
   Foi por aqui que houve a invasão.
   Eu já tinha certeza disso, desde que vi que não há a mínima segurança por esse lado, ao contrário que pela frente.
   Já estamos progredindo.
   Foi por esse muro que os vagabundos maconheiros invadiram para assaltar a casa.
   Concordo com você que o assassino entrou por aqui, mas pelo que soubemos pelo rádio contado pelo agente Carlos Alberto, nada da casa desapareceu, portanto aparentemente não houve pilhagem. Só o crime.
   Mesmo assim creio terem sido eles, que por algum motivo não tiveram tempo ou condições de levar nada.
   Eu não acredito nisso. A pessoa que entrou por aqui foi só para matar e fugir.
   Sei lá.
   Faça um favor para mim. Dê novamente uma andada na rua toda e recolha as folhas caídas debaixo das árvores. Pode juntá-las sem se preocupar de quais árvores caíram.
   Para que isso?
   Para eu ter certeza de uma coisa.
   Ok. Farei isso, mas quero saber por quê?
   Depois lhe conto. Agora vá enquanto continuo pensando mais coisas.
Enquanto o investigador Júlio foi fazer o solicitado, deixou o detetive Miranda com seus olhos apenas semicerrados que era seu cacoete para enxergar melhor, ao contrário da maioria das pessoas que quando querem enxergar mais os mantém bem abertos, examinando aquela árvore compenetrado e pensativo, com ares de quem já tinha descoberto muita coisa.
Durante vários minutos permaneceu pensando e falando sozinho. Era outra de suas manias. Com voz alta ele falava consigo mesmo em tom interrogativo e respondia geralmente agressivo e bravo chamando-se de idiota por tê-las feito, quando suas respostas eram simples e óbvias.
Quando respondia com voz baixa, era porque não achara as respostas e simplesmente dizia:
   Caio Miranda você precisa pensar mais e melhor para ficar sabendo o que quer ou então pergunte a quem já sabe a resposta. Essa é a lógica. Não destrua mais seus neurônios, pois com certeza já são poucos que restam.
Ele via que tal arvore era muito fácil de ser escalada para permitir o acesso de alguém que por ventura quisesse saltar sobre o alto muro existente sem ser visto e nem filmado pelas câmeras, só colocadas na frente dessas residências.
Saindo desse transe que não foi momentâneo como na maioria das vezes, pois demorou muito e movimentando a cabeça em um gesto de inconformado, parou de pensar, abriu bem os olhos, falou algo ininteligível em voz alta novamente para si mesmo e passou à ação.
Em seguida disse bem claramente:
   O que está esperando? Vá Caio. Suba logo nessa árvore e vá descobrir o que precisa descobrir.
Teimoso como era não obedeceu nem a si próprio e antes de subir na árvore, ficou olhando aos muros e aos telhados das casas dos vizinhos que era apenas isso que conseguia ver de sua posição no chão. Afastou-se até o outro lado da rua e tornou olhar as mesmas casas, e mesmo nas pontas dos pés, o que conseguiu enxergar foram exatamente as mesmas coisas. O mesmo muro a sua frente e parte dos telhados das mesmas casas.
Satisfeito com o que viu, ou melhor, com o que não viu apontou o dedo indicador em riste para as casas em questão e xingou seus moradores de babacas e estúpidos. Desta vez bem alto, gritando até, para quem quisesse ouvir essa grande verdade.
Ele não tinha visto nos muros e nem nas casas nenhuma câmara de segurança para fazer a vigilância por este lado.
Não tinha ninguém perto para ouvir seu desabafo, a não ser seu colega Júlio, que vinha regressando com apenas quatro folhas na mão, mas ele não se importando mais com os acessos de pitiatismo do colega não comentou nada sobre sua histeria.
Nesse momento o detetive Miranda abaixou-se e recolheu quinze folhas encontradas embaixo dessa árvore, pois concluiu que realmente alguém as derrubou quando recentemente escalou-a.
   Por que recolher tanto lixo Miranda?
   Não é lixo sua múmia. Essas folhas foram derrubadas por alguém que subiu na árvore recentemente.
A princípio eu pensei que todas foram derrubadas ontem, mas não foram. Nove foram derrubadas à noite ou na madrugada de ontem e seis foram durante a noite ou madrugada de anteontem.
   Intuição?
   Não. Certeza. Durante esse clima seco de verão venta muito pouco e já há dias que não ocorre esse fenômeno para as folhas terem caído por tal feito da natureza.
Olhando para as folhas nas mãos de Júlio, comentou:
   Vejo que embaixo de dezesseis árvores você encontrou apenas quatro folhas secas caídas ao acaso, ou derrubadas por grandes aves, pois vento não existe.
Por que acha que só nessa arvore caíram quinze?
   Foi o cara que subiu na arvore quem as derrubou, mas como você sabe que visitei dezesseis árvores?
   Foi fácil calcular. Estou vendo que nesse quarteirão tem seis árvores plantadas e a rua inteira tem três quadras, por isso são dezoito árvores no total e como você só foi procurá-las daqui para traz, ficaram essas duas sem você visitar, portanto sobraram as dezesseis que falei.
   Nossa. Você parece mulher. Repara em tudo.
   Mulher não. Pareço um investigador atento.
   Eu bem que poderia ter ido dormir sem essa. 
   Não me leve a mal, mas foi você mesmo quem deu a deixa para eu enxovalhar você. 
   Sei de sua franqueza e sinceridade. Sempre fala o que quer doa a quem doer. A culpa foi minha por ter sido burro como fui.
   Esqueça.
   Concordo, assim como também concordo com você que as folhas dessa árvore foram derrubadas por alguém, mas essa de umas terem sido ontem e outras anteontem foi um grande chute, não foi?
   É claro que não.  Veja nessa mão como elas já estão secas por terem ficado no sol durante o dia todo de ontem e essas outras como ainda estão com a coloração verde bem forte. Essas que estão bem vivas e cheias de clorofila foram derrubadas na noite ou madrugada passada e não estão queimadas como as outras, pois ficaram expostas só nessa pequena parte da manhã cujo sol está fraco. Aliás, nem apareceu direito ainda. Fica mais tempo escondido pelas nuvens que irradiando seus raios na terra, isto é, aqui em São Paulo.
   Vivendo e aprendendo.
   Pode jogar fora as quatro que trouxe que já não servirão para mais nada, e dê-me dois sacos plásticos para mandarmos analisar as que eu apanhei, separadas umas das outras.
   Por que fui como um tolo agachando toda hora até o final da rua procurando e apanhando folhas para depois você mandar jogar fora por não servir para nada?
   Eu disse que agora elas já não servem mais, porque eu apenas queria constatar que seriam poucas as que traria para ter certeza de que as daqui não caíram ao acaso como elas.
   Quer dizer que se eu trouxesse um montão de folhas, tal como umas duzentas ou mais, sua conclusão seria que o invasor subiu em todas as árvores derrubando folhas ou seria que todas elas caíram sozinhas, inclusive as daqui.
   Sei lá o que eu iria pensar. Não aconteceu assim como diz então por que vou esquentar meus miolos para pensar tal resposta inútil?
   Só pensa no necessário?
   É claro.
   Não acha que quebrar paradigmas é indispensável.
   É claro que sim. Mas quando eu quebro algum para pensar em suas vicissitudes, porque continuar pensando nas alternativas possíveis de como era antes?
   Para compará-las.
   Desculpe-me Júlio, mas se abandono padrões existentes quando acho que se tornaram obsoletos a ponto de substituí-los, eu quero desligar-me totalmente deles.
Jamais iria abdicar deles, se ainda os quisesse mantê-los em meus pensamentos e então não justificaria quebrar nenhum padrão.
   Acho que devo aposentar o mais rápido possível. Estou ficando ancião mesmo.
Desculpe-me por essa outra tremenda idiotice.
   Erros existem e até são necessários para descobrirmos como conseguir os acertos, portanto não é preciso parar com tudo por alguma bobagem que às vezes cometemos.
   É que eu já estou cansado mesmo, e você?
   E eu o que? Quer saber se estou cansado ou se quero aposentar?
   Você nem pensa em parar não é? Porque não dá aulas para os novatos na corporação. Cada dia que trabalho com você aprendo muito mais coisas que em curso completo durante um ano.
   Eu dar aulas? Não tenho a mínima vocação para isso e muito menos saco para aguentar alunos, mas agradeço o elogio.
Por falar em aposentadoria creio que dentro de alguns dias, vou requerer a minha.
   Pretende parar e abandonar essa ocorrência na minha mão?
   Parar? Só quando morrer. Quero montar um escritório e trabalhar como detetive particular, e nesse caso já estou bem perto da solução. Tenho muitas pistas e creio que logo o elucidarei. Por falar em pistas, tudo que recolhemos na outra rua também pode ser descartado por que o indivíduo nem esteve daquele lado.
   Tem certeza?  
   Absoluta.
   Eu nem comecei imaginar nada e vem você dizendo que já está quase descobrindo tudo sem sequer ver o local do crime? Quem você acha que foi o criminoso?
   Tenho muitas pistas, porém nenhuma prova concreta para acusar meu suspeito, por isso não posso dizer nada ainda, mas em breve anunciarei quem foi.
Provarei minhas descobertas, mandarei prendê-lo e o levarei a justiça.
Terminada a conversa o detetive subiu na árvore sem nenhuma dificuldade embora já tivesse com quase sessenta anos de idade e só não fez a travessia para o outro lado, pois teria de subir no muro para depois descer para o chão do outro lado. Saltar da árvore para o muro e depois para o quintal destruiria os vestígios que ele verificou que o assassino deixou sobre o muro e na grama do outro lado, por ter feito o salto na calada da noite.
Sacou seus binóculos e vistoriou todo o quintal a sua frente. Estava tudo bem limpo e nada viu de anormal.
Parte dele era de grama que estava muito bem aparada e não existia nenhuma árvore.
Muitos vasos com flores enfeitavam o pátio, simplesmente colocados no chão de maneira organizada e outros sobre suportes altos, próprios para pendurar vasos decorativos.
Onde o piso era ladrilhado, viu uma piscina, um cômodo com um visor no centro da porta caracterizando ser a entrada para uma sauna e ao lado outra porta que imaginou ser o sanitário, pois o chuveiro era próximo à piscina ao ar livre para os banhistas.
Viu também uma churrasqueira além de um espaço para a guarda de quatro veículos, sem, entretanto ter nenhum estacionado.
Com exceção da piscina e da ducha que foram construídas ao ar livre o restante era totalmente coberto, e esse espaço ocupava toda a extensão da casa.
Em sua lateral esquerda havia um corredor para a saída e entrada de veículos que se fazia pela frente do imóvel. Nesse corredor havia um carro estacionado ao lado da casa, bem antes de chegar ao quintal, porém bem depois de ter entrado pelo portão principal.
À direita da construção, o investigador viu a lavanderia também coberta e um canil bastante grande que abrigaria enormes cães ferozes.
Normalmente esses grandes animais vivem em casal, portanto deveriam ser pelo menos dois. Não viu nenhum animal solto e imaginou que a mulher assassinada teria morrido, antes de soltá-los para fazerem a vigilância noturna da casa.
Eles já haviam recebido pelo rádio, a comunicação do perito Carlos Alberto que o homicídio da mulher teria sido no final da noite anterior ou no início da madrugada, pelo fato de ter ficado sabendo que ela sempre chegava em casa a noite e também por seus próprios cálculos.
Ele sempre informava suas descobertas ao detetive Miranda enquanto ele ficava fora da casa, pois toda informação passada poderia ser-lhe útil.
Detetive Miranda tinha concluído pelo fato de os cães permanecerem trancados, que a morte da mulher teria sido logo após chegar que era por volta de vinte e uma horas e não no final da noite ou início da madrugada conforme imagina o perito. Julgou que ele tivesse errado em seus cálculos, pois pensava estar certo em suas conclusões.
Passado mais algum tempo o detetive tratou de descer da árvore, pois já estava na hora de entrar para fazer suas verificações dentro da residência.
Seu colega Júlio já tinha ido ao chamado do delegado pelo rádio, por já estar prestes a iniciar o trabalho do perito que sempre era com a presença dos investigadores. 
Como sempre o agente Caio Miranda só iria quando bem entendesse por isso o agente Júlio após chamá-lo foi encontrar-se com os demais colegas.
O detetive Miranda sempre demorava, pois acreditava muito nas investigações externas e até tinha razão, pois muitos assassinatos ele havia solucionado sem sequer chegar perto do morto.
Desvendou-os só em coletar pistas pelo lado de fora, pois são mais difíceis para o criminoso eliminá-las ou mesmo perceber que as deixara, por isso, ao contrário da maioria dos detetives ele dava muito valor a essas pesquisas ao redor, até mais que as no local do crime.  
O investigador Júlio antes de ir ao encontro dos outros havia conversado com detetive Miranda:
   Vamos detetive Miranda. Já está em nossa vez de encontrarmos algo lá dentro.
   Vou ficar mais alguns minutos, pois aqui estou vendo muita coisa interessante.
   Alguma mulher dançando pelada na vizinhança?
   Vai ficar sabendo depois, que é muito melhor que isso. São coisas importantes para elucidar esse crime rapidamente.
   Porque elucidar através de caminhos tortuosos? Lá dentro podemos encontrar pistas mais importantes e resolver isso mais facilmente.
   O que, por exemplo?
   A mulher pode ter deixado uma câmara de filmar ligada dentro de seu escritório e ter um filme completo de todo seu assassinato e daí é só pegarmos o ator coadjuvante e prendê-lo. Não seria ótimo se tivesse acontecido isso?
   Porque chama o assassino de coadjuvante? Acha que foi crime de mando para ter um principal?
   Não. O assassino é o segundo no elenco porque a principal é a defunta. Foi ele quem fez o espetáculo, mas quem apareceu mais foi ela.
Com certeza foi fotografada milhares de vezes pelo Álvaro, sobre seu tapete vermelho.
   Não foi falado pelo rádio que ela estava sobre um tapete cinza claro?
   Sim, mas ele foi pintado de vermelho com todo o sangue dela derramado.
   Deixa de falar tantas besteiras, embora fosse ótimo se tivesse acontecido conforme está imaginando. Seria bem mais fácil se encontrássemos um filme registrando o homicídio, mas mesmo assim vou ver mais e já estarei indo encontrá-los.
A maior parte das marcas deixadas pelos criminosos é geralmente fora do local do crime onde ele nunca as deixa, portanto vou ficar um pouco mais até descobrir pistas concretas para chegar ao criminoso ou pelo menos bem perto dele.
O detetive Miranda, desceu da árvore, olhou ao redor dela e viu que três folhas foram desprendidas dos galhos por ele próprio sem perceber.
Havia derrubado menos folhas que o criminoso, e com seu brilhante e criativo intelecto deduziu por isso que o assassino seria mais pesado que ele, mais rápido para andar sobre os galhos, portanto também deveria ser mais jovem. 
Imaginou-o grande por pesar mais de seus noventa quilos e não gordo, pois isso lhe tiraria a agilidade, portanto seria uma pessoa com idade abaixo dos quarenta anos e com altura bem superior aos seus um metro e setenta centímetros e pesando mais de noventa quilos.
Coçou o queixo pensativo. Depois coçou também a cabeça mais absorto ainda e falou sozinho, como sempre em voz alta.
Disse que depois que estivesse dentro da casa, se não existisse o tal filme faria uma completa pesquisa no quintal pelo lado de dentro.
Seria mais coerente, embora sequer soubesse como aconteceu a morte e se no próprio local do homicídio já desvendaria o crime independente do possível filme imaginado pelo detetive Júlio.
Riu as gargalhadas por somente nesse momento lembrar-se que tal fato já tinha acontecido em um dos vários crimes que investigou.
Durante muito tempo isso havia sido motivo de pilhéria com ele.
Seus colegas assistiram todo o crime pelo filme encontrado e não o chamaram enquanto estava na rua.
Algemaram o assassino dentro da própria casa, evacuaram e lacraram a residência e levaram o criminoso preso.
Naquela ocasião o detetive Miranda tinha ficado coletando suas pistas do lado de fora durante mais de duas horas e quando imaginou que deveriam estar precisando dele foi à frente da residência e a encontrou trancada, e nenhuma viatura estava parada na calçada esperando por ele.
Foi de ônibus para a delegacia e lá recebeu por mais de dez minutos aplausos de escárnio de seus colegas, pois o crime já estava devidamente esclarecido pelo filme encontrado que mostrou toda a ação criminosa.
Ele não pode sequer informar que reuniu pistas suficientes para prender o mordomo como principal suspeito, pois suas descobertas levaram-no a ele.
As pistas encontradas pelo detetive Miranda eram bastante convincentes e o induziam a considerá-lo como o assassino, mas seus argumentos ainda teriam de ser provados e o mordomo já estava devidamente preso, não como suspeito, mas sim como executor e já réu confesso daquele assassinato.
Lembrou-se que naquela ocasião, só não aposentou porque ainda não tinha tempo suficiente para isso, mas tirou férias e licença em seguida e ficou afastado por três longos meses, daquela delegacia e dos colegas gozadores.
Atualmente esse acontecimento não mais o incomodava, pois serviu para provar que ele com suas consideradas malucas investigações sempre chegava ao criminoso, como de fato chegou sem precisar ver nenhum filme como os colegas.
Essa era a grande diferença desse investigador, pois mesmo antes de entrar na casa, só sabendo que lá havia uma mulher morta, já tinha pesquisado e descoberto como se deu a entrada oculta, o possível peso, a altura e a idade do criminoso antes de ir para seu trabalho investigativo no local do crime.
Aliado a esses descobrimentos já tinha outros dados que lhe permitia saber quem era o criminoso.
Infelizmente faltava o mais difícil que era descobrir a motivação, ou conseguir uma prova realmente convincente para confirmar suas conclusões e prender o homicida que não teria como se safar, por mais inteligente e competente que fosse.
Nesse momento recebeu novo aviso pelo rádio que deveria entrar logo e fazer suas investigações próximas ao cadáver, pois estava demorando demais.
Finalmente obedeceu ao chamado que desta vez foi do delegado, que o informou que todas as fotos já foram feitas pelo agente Álvaro, e o agente Carlos Alberto já iria começar seu trabalho no corpo da mulher, portanto ele deveria estar presente para participar dessa fase, pois faz parte da investigação como um todo.
Voltou para a entrada principal e se dirigiu devagar ao encontro dos colegas olhando atentamente toda a sala onde a música macabra dos pingos de água continuava diabolicamente irritante embora a torneira inquieta já houvesse sido fechada pelo papiloscopista.
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Após a seção de fotos tiradas do cadáver por todos os ângulos, feitas pelo agente Álvaro, incluindo muitas outras de todo o ambiente, o perito criminal Carlos Alberto iniciou seu trabalho, enquanto os investigadores procuravam pistas e o papiloscopista impressões digitais dentro do escritório e ao lado da morta.
Carlos Alberto viu oficialmente o que todos já tinham visto e que era a grande quantidade de sangue que saiu pela veia jugular e pela artéria carótida, pois foram seccionadas com um único corte profundo, já que tais vasos condutores de sangue caminham juntos em ambos os lados do pescoço.
A artéria levando o sangue oxigenado do coração para a cabeça e a veia trazendo-o de volta já sem oxigênio para o pulmão purificá-lo, devolvê-lo ao coração para o ciclo continuar.
Virou o corpo que estava de bruços e percebeu um pequeno ferimento na testa sem nenhuma gravidade, pois com certeza foi provocado pela queda do cadáver já sem vida.
Começou tirar a roupa da defunta, quando o delegado perguntou-lhe assustado:
   Carlos Alberto, como pode uma pessoa ter seu pescoço cortado e seu sangue não ter espirrado para todo lado? Não tem sangue esguichado em lugar nenhum.
   Dr. Ataíde a degola geralmente é efetuada com a pessoa já morta por outras causas. Com certeza só houve o corte do pescoço com ela já no chão e o sangue só saiu onde está mesmo. Desculpe-me, mas não precisa ter muita experiência para saber disso.
   Eu ia fazer a mesma pergunta Carlos.
   Você detetive Miranda? Também não sabia disso?
   Vivendo e aprendendo.
   Não acha que já está bem velhinho para essas simples questões. Vai dizer que nunca viu um boi ser morto em nenhum frigorífico. Primeiro leva a porrada na cabeça que já o mata para depois ser decepado para escoar o sangue, pois com ele dentro do corpo do animal estraga o sabor da carne. Qualquer criança já viu isso. Com qualquer animal primeiro mata depois sangra e é isso o que todos os criminosos fazem com seus desafetos quando querem sangrá-lo.
   Você disse que faz isso com o boi para o sangue não estragar a carne e no caso dos humanos, seriam tais criminosos que fazem a sangria, todos canibais para comer a carne depois?
   Claro que não seu decrépito. Em alguns casos até que é isso, mas na maioria das vezes sangram para terem certeza que a morte será concluída, caso no ato anterior tenha apenas ferido, ou por serem muito violentos mesmo.
O delegado interrompeu a conversa dos dois agentes falando ao perito:
   Esqueça sua aula de matadouro e continue seu trabalho.
Enquanto falava o delegado bocejou alto, demonstrando estar com muito sono e cansado.
   Não dormiu direito doutor?
   Pois é detetive Miranda. Na noite passada estive até de manhã com uma linda garota em um motel.
Não dormi nada e tive de chegar muito cedo à delegacia para resolver uma série de coisas antes de ir para casa. Acabamos sendo chamados para ver esse crime e agora estou aqui.
   Em qual motel foi?
   Não está sendo curioso demais?
   Ainda nem fiz a próxima pergunta.
   Qual é?
   Com quem passou a noite?
   Com sua mãe, seu indiscreto.
   Não está perdoando nem uma velhinha com quase noventa anos, seu tarado.
   Está me interrogando?
   Ainda não.
   Porque ainda não? Pretende me interrogar?
   Nunca se sabe. Talvez num futuro próximo. 
   Deixe de pilherias investigador Miranda e vamos desvendar logo esse crime e deixe os meus para depois.
   Como quiser. Primeiro esse.
Risos de todos os policiais pela brincadeira de ambos e o investigador voltou a falar, após o delegado bocejar novamente:
   Vá para sua casa descansar que o restante fica por nossa conta Doutor. Amanhã lerá nossos relatórios.
   Obrigado, mas já que estou aqui quero acompanhar tudo de perto.
   Não confia em nossa investigação?
   Deixa de ser besta detetive. Vocês são os melhores homens que tenho a minha disposição por isso os chamei para fazer essa investigação que tenho certeza descobrirão o assassino rapidamente.
Carlos Alberto terminou de desnudar a defunta para verificar qual foi o trauma que teria provocado sua morte antes do corte no pescoço e apenas viu além do grave ferimento toda a beleza de seu rosto e o harmonioso corpo perfeito.
Nesse momento o delegado resolveu assentar-se em uma cadeira, alegando que iria tirar um cochilo, pois a noitada que passou no motel o deixou realmente muito cansado e após ouvi-lo o detetive voltou a falar com ele.
   Doutor quando lhe perguntei qual o motel que frequenta não era pilhéria. Tem uma agente nova, ou estagiária não sei, que anda me dando mole e pretendo ter um romance com ela.
   Nova na idade ou na polícia?
   Em ambas as coisas.
   Então vai precisar de muito Viagra, pois você já está velho.
   Nem tanto.
   Fique com o ticket de meu cartão que você verá o endereço e o preço para passar a noite toda como eu passei ontem.
   Eis as vantagens de ser viúvo como nós. Pode-se pagar com cartão e até guardar os cupons e as notas fiscais que ninguém irá descobrir nossas noitadas não é doutor?
   Guarde o cupom fiscal e vamos prestar atenção nos exames do agente Carlos Alberto.
O detetive guardou o ticket no bolso e agachou com o delegado, próximos ao perito e a morta, no momento que Carlos Alberto tornou a colocá-la de costas totalmente sem roupas.
Enorme foi o seu susto ao verificar que havia mais cinco perfurações violentas e fatais e todas pelas costas, que não foram vistas inicialmente, pois sua blusa vermelha escondeu o sangue saído por esses locais. 
A enorme mancha de sangue que tinha esvaído do pescoço dela chamou muito à atenção impedindo de ser visto tais furos, mas agora estava nítido saber como ela foi morta antes de ser quase decepada.
Depois dos exames minuciosos relatou que a jovem fora agredida inicialmente por trás com duas perfurações que certamente destruíram os pulmões e o coração. Outro furo fora abaixo da nuca quebrando a coluna cervical na quarta vértebra e as outras duas perfuraram um rim e o fígado.
Já com ela no chão foi efetuada a degola, que decepou a jugular e a carótida juntas, por onde escoou todo seu sangue. 
O perito informou ao delegado e aos investigadores, embora eles próprios houvessem chegado à mesma conclusão, que qualquer um dos golpes certamente seria mortal, independente de terem sido vários os furos encontrados no corpo inanimado da mulher.
Era impossível saber qual foi o primeiro, mas com certeza ele já a matara sem necessidade dos outros quatro e muito menos do corte no pescoço.
Comentou que o criminoso estava com muito ódio e não parou sua ação que aparentava vingança devido à grande violência do crime.
Não houve briga, pois todos os objetos e móveis estavam em seus devidos lugares determinando que a vítima fora surpreendida sem ter nenhuma possibilidade de reação ou defesa. Com certeza sem sequer ver quem lhe causou o esfaqueamento, se tivesse sido usado uma faca, pois o objeto perfurante usado não foi encontrado, entretanto pela grande experiência em examinar cadáveres, o agente Carlos Alberto estava convencido tratar-se de uma faça de caça e inclusive comentou:
   Álvaro pensou que tivesse sido o Freddy Krueger, mas eu acho que foi o Jason Voorhees, com sua famosa faca machete.
   Você também vem com gracinhas?
   Não Doutor. Não se trata de brincadeira, pois tenho convicção que o assassino usou uma faca de caça semelhante a que Jason usa nos filmes que aparece. Feita de aço, comprida como uma espada, fina na ponta como uma baioneta e afiada o suficiente para cortar ossos como a de açougueiros. Autêntica arma muito usada pelos caçadores. Seu corte corta não só ossos, mas até ferro sem precisar usar muita força.
O agente Euclides colheu todas as impressões digitais existentes na casa, que posteriormente ao serem devidamente examinadas em laboratório constataram serem as da própria morta e também muitas outras deixadas pela faxineira.
Elas foram encontradas na maçaneta da porta de entrada pela frente da casa e na outra porta que entra do corredor externo para a sala de jantar onde estava o carro dela estacionado. Foram localizadas também em vários móveis e gravadas no corrimão da escada que sai da sala de jantar para o andar superior onde fica o escritório. Na maçaneta da porta que liga a cozinha para o quintal nada tinha pelo lado de dentro, mas não foi verificado por fora, pois a porta estava trancada, portanto o papiloscopista faria essa verificação quando fosse para o quintal.
No escritório foi encontrado sobre o tapete onde jazia a morta, distante dela quatro metros, próximo a porta de entrada, uma poça de urina, mas Dona Rute que não fora dispensada e continuava presente, informou ter sido ela pelo susto que levou ao ver a patroa naquele estado.
A banheira da suíte já tinha sido esvaziada, mas havia transbordado água durante muitas horas, pois certamente ela fora surpreendida quando se preparava para o banho. Esse local estava totalmente alagado, mas apenas um par de chinelos além de um ursinho de pelúcia que deveria enfeitar a cama flutuava na água limpa.
A cama estava arrumada demonstrando não ter sido usada.
O piso do closet onde também tinha a banheira ficava em um nível abaixo do quarto de dormir aproximadamente uns dez centímetros deixando tal ambiente igual a uma piscina, cuja água ainda presente continuava infiltrando pela laje caindo ruidosamente no andar de baixo.
O criminoso não se deu ao trabalho de desligar a torneira e tão pouco de roubar nada.
Nem se preocupou em olhar o quarto ao lado do escritório. Esteve ali apenas para matar Estela e desaparecer. Ele tinha certeza que ela estava só.
Sumiu não deixando nenhum vestígio de sua estada na residência para ser identificado, procurado e caçado.
Era certamente um matador profissional ou então um homem muito experiente, pois sequer um minúsculo pedaço de fio de linha seu ele deixou como vestígio.
Nenhuma marca de sua presença no local foi localizada pelos investigadores.
Nada que pudesse fazer aquela experiente equipe suspeitar quem fora o assassino, mas seu perfil foi claramente identificado.
Tinham certeza que era muito violento e agira com imenso ódio, portanto imaginaram ser um crime por vingança, por isso bastava apenas saber quem eram os inimigos de Estela, pois entre eles estaria o homicida.
Deveria ser homem devido à grande força empregada nos golpes, mas mesmo assim não descartaram a possibilidade de ter sido uma mulher.
Foi muito competente, porque atuara com muita cautela, pois ficou claro ter usado luvas para impedir de ficarem suas digitais.
Foi verificado pelas quase imperceptíveis marcas deixadas no tapete, que o invasor usava apenas meias grossas ao invés de calçados, para evitar ruídos de sua aproximação e também para não deixar terra ou outra coisa qualquer vinda na sola do calçado que poderia ser rastreado.
Na pior das hipóteses a forma do solado de um calçado definiria pelo menos o sexo do assassino, ao passo que apenas as marcas dos pés não.
Ele era conhecedor do corpo humano e sabia muito bem acertar os locais vitais com precisão, portanto poderia ser um médico cirurgião, um trabalhador de frigoríficos, um açougueiro ou mesmo um caçador experiente em abater e esquartejar caças para saber exatamente onde ficavam os órgãos vitais para não errar nenhum golpe desferido neles. 
Outro dado entendido foi de que o crime foi premeditado de maneira inteligente, mesmo tendo os investigadores Caio Miranda e Júlio Souza terem descoberto como ele entrou pelo quintal além de seus dotes físicos, apesar de ainda nada terem informado aos demais.
A casa fechada era uma evidência que a pessoa que cometeu o crime tinha chave para abri-la e fechá-la ao sair, e isso deixava como suspeita apenas a empregada, pois a chave de Estela foi encontrada em sua mesa de trabalho, portanto não foi com ela que o assassino fechou a casa ao sair após o crime. 
Pela fisionomia calma que a morta apresentava concluíram que ela nem sentiu dor e muito menos teve condições de se virar para ver quem a esfaqueava com tanto ódio, portanto ela foi agredida sem ter tido conhecimento da invasão.
Ficou a dúvida se era um estranho silencioso que estudou antecipadamente os movimentos de Estela e invadiu a mansão ou se era alguém de sua amizade que estava dentro da casa com sua permissão e simplesmente a matou pelas costas sem que ela suspeitasse de nada.
O mais provável era que sua morte foi cometida por uma pessoa que estava com ela dentro de casa e era de sua inteira confiança, colocando assim Dona Rute como principal suspeita, mas tudo isso era ainda simples suposições e nada de concreto.
Em qualquer das situações, qual seria o motivo? Era a pergunta que todos se faziam.
   Esqueci de avisá-los meus amigos, que vou colocar no meu relatório que ela pode ter sido morta a meia noite e dois minutos.
   Como tem certeza assim tão clara do horário, sem que nenhum exame do corpo tenha sido feito, detetive? O próprio Carlos Alberto que é o perito criminal alegou ter sido no final da noite ou início da madrugada. Como você diz um horário exato, com horas e até minutos?
O detetive Miranda tornou a dirigir-se ao delegado esclarecendo.
   Posso até ser mais exato. Foi zero hora, dois minutos e trinta e oito segundos.
   Estou achando que hoje estão com brincadeiras demais.
   Não é nenhuma brincadeira.
   Então é adivinhação?
   Não. Foi muito simples Doutor. Eu vi o horário em que o relógio de pulso da morta parou. Na queda do corpo deve ter quebrado seu mecanismo e ele parou exatamente no horário mencionado, portanto isso é um fato real, que possivelmente será confirmado nos exames do corpo. Se não chegarem a esse horário o erro será do laboratório e não meu.
   Você não acha que está usando de jactância?
   Não se trata de ostentação de minha parte, mas certeza do que falo por que vi, a menos que ela usasse um relógio quebrado marcando tal horário. Coisa improvável, pois se trata de uma pessoa rica cujo relógio é de ótima procedência.
   Alguém mais viu o horário?
Ninguém respondeu nada.
   Pois é detetive. Foi só você quem viu. Foi você quem o tirou do pulso dela para colocar no saco plástico junto aos outros pertences dela?
   Claro que não. Eu jamais toco no corpo de nenhum defunto.
   Tem medo?
   Não é medo. Tenho esse costume. Nunca deixo minhas marcas em nenhum assassinado. Posso complicar-me depois. O senhor quer colocar suas digitais nela?
   É claro que não. Afinal como viu o relógio?
   Quando ainda estava no pulso dela no momento em que Carlos Alberto retirou-o para colocar junto aos objetos recolhidos.
   Vou apelidá-lo de olhos de lince.
   Meu trabalho não é esse? Ver coisas não percebidas por todos?
   Então o crime foi na madrugada mesmo. Pouco depois da meia noite.
   Para ser sincero eu ainda penso que tenha sido algumas horas antes. À noite logo após ela chegar, mas os exames do corpo vão confirmar à hora exata e se eu me enganara em meus raciocínios anteriores.
   Então está em duvidas sobre suas intuições e suas visões?
   Sim. Embora no caso de ter sido antes não é nenhuma intuição e sim conclusão lógica dos fatos, pelo menos pelo que constatei até agora.
   Então se for confirmada a hora do relógio significa que você errou em suas conclusões anteriores por terem sido precipitadas?
   É lógico que aceito ter errado, embora não tenha sido precipitação minha.
   Vai saber que não acerta em tudo. Erra também, pois você saberá que foi meia noite quando o legista efetuar a necropsia.
   Como todo mundo estou sujeito a erros e acertos. O importante é acertar muito mais que errar. Esse é o melhor desequilíbrio mental e de atitudes que todos devemos ter.
   Desequilíbrio ou equilíbrio?
   É claro que é desequilíbrio, pois se estivesse equilibrado, seria metade de erros e metade de acertos, não acha? Esse percentual é péssimo.
   Sim. Sei. Obrigado pela aula de filosofia, detetive.
oooOooo
Os trabalhos do papiloscopista, do fotógrafo e do perito já estavam concluídos por isso o delegado chamou pelo radio os agentes Robson Silva, Candido Junior e Adolfo Rodrigues para que levassem a morta para o IML e que estavam dispensados de voltarem à delegacia porque ele também não iria. Com o investigador Júlio tomaria os depoimentos da empregada e das pessoas vizinhas, enquanto o agente Miranda com Álvaro e Euclides verificariam o restante da casa e o quintal.
Deveriam ficar nesse trabalho o dia todo e depois iriam descansar.
Dispensou também o perito Carlos Alberto, pois ele não seria mais necessário.
Carlos Alberto foi juntar-se aos outros no carro resgate, deixando os dois carros pequenos para os cinco que ainda permaneceriam no local.
Levou com ele, um enorme saco plástico onde estavam as roupas da mulher, seu celular, sua bolsa e seu chaveiro com duas chaves que estavam sobre a mesa de trabalho e outro saco menor com as joias retiradas de seu corpo, para que tudo fosse examinado no laboratório.
Antes de ele afastar-se perguntou se o investigador Júlio não queria entregar-lhe suas sacolas plásticas com possíveis pistas encontradas e quem respondeu foi o detetive Miranda, olhando para o detetive Júlio que confirmou sua resposta.
   Ainda faltam coisas para serem encontradas no quintal.
   Como sabe detetive Miranda?
   Intuição.
oooOooo
O delegado chamou Dona Rute, que estava chorando assentada em uma cadeira num canto do escritório e pediu ao agente Euclides para que fosse convocar todos os vizinhos, inclusive das três casas em frente e que aguardassem na sala de baixo, pois iriam prestar esclarecimentos preliminares, ali mesmo, aos investigadores.
Só na segunda feira que todos iriam à delegacia, para na presença do escrivão prestar seus depoimentos oficialmente.
   Delegado. Como tem muita gente na rua vou convidar também os curiosos que alegarem ter visto ou souberem de algo, mesmo que não morem ao lado. Concorda com isso?
   Com uma equipe dessa não se comete nenhum engano e é por isso que não deixo nenhum de vocês aposentar. Está corretíssimo Euclides. Faça isso e obrigado.
   Eu quem agradeço pelo elogio.
A empregada respondendo ao detetive Miranda que havia feito o primeiro questionamento querendo saber dela tudo sobre a patroa nos últimos meses, sua convivência com a morta nesse tempo e o que fez na sexta feira durante o dia todo e a noite até sábado de manhã.
Ela que já estava mais calma informou aos policiais que Estela era divorciada há pouco mais de um ano, sem receber visitas do ex-marido e que nenhum amigo ou namorado jamais a visitou, pois eram muito amigas e em suas confidências ela nunca se referiu a nada disso.
Falou que conversavam muito nos dias de sua faxina que eram duas vezes por semana, sobre a família da jovem que não aparecia há vários meses, pois eles moravam em outro estado e sobre seu progresso cada vez maior na atividade que exercia.
Disse que ela era arquiteta muito competente e dedicada e cada dia que passava ia colecionando mais e mais clientes na alta esfera social da capital paulista.
Que ela não tinha nenhum inimigo e que sempre lhe falava que jamais iria relacionar-se com outro, pois ainda amava o ex, apesar do grande trauma causado pela separação.
Nesse momento o delegado interrompeu-a e também ao detetive Miranda que deveria conduzir a indagação, deixando-o com a boca aberta prestes a fazer alguma interferência naquele mesmo instante.
A inesperada intromissão do delegado foi para ele fazer apenas duas perguntas em sequência, que exigiriam várias respostas, pois uma das perguntas teve vários tópicos.
Quis saber por que eles se divorciaram e quais eram as atividades profissionais e as de lazer de cada um deles antes e depois da separação.
Dona Rute respondeu:
   Estela exercia em ambas as épocas a profissão de arquiteta e seu lazer era leitura e de vez em quando uma peça teatral no tempo em que ficou casada. Antes só pensava em trabalhar para evoluir como profissional e depois de divorciada voltou a trabalhar mais arduamente ainda, mas tenho certeza que era mais para se manter permanentemente ocupada para esquecer seu sofrimento por não estar mais com Dr. Moura.
Com referência a ele e ao divórcio foi por que Dr. Moura que era médico há muitos anos ficou muito doente, com grande depressão, por ter respondido a um processo por erro médico no qual morreu um paciente em cirurgia. Sua doença acentuou-se demasiado quando ele perdeu a causa, tendo de pagar uma altíssima indenização à família do morto, além de ter recebido uma séria repreensão pelo Conselho Regional de Medicina. Esses acontecimentos o deixaram tão desgostoso que abandonou definitivamente a profissão.
Depois disso ele exigiu de Estela o divórcio, pois não queria mais morar na cidade. Vendeu tudo o que tinham como a clínica médica, seu maravilhoso carro e todos imóveis, dividindo o dinheiro em partes iguais entre eles.
Só não venderam a casa que ficou para Estela morar e o sítio em Valinhos, onde ele passaria o resto de sua vida longe da civilização. Conforme ele dizia iria viver de caça e pesca que é o que ele fazia como lazer.
   Então além de médico ele era caçador também?
   Sim. Doutor. As únicas coisas que ele tem lá no sítio são suas armas para caçar.
   Acho que já basta, ou tem algo mais que gostaria de falar?
   Tenho sim.
   O que é?
   Tanto eu como Estela ficamos sabendo que o dinheiro que coube ao Dr. Moura ele doou a metade para seus pais e a outra metade para instituições de caridade, ficando totalmente sem nada a não ser a roça.
   Qual a importância de dizer isso, Dona Rute?
   Para deixar claro que era um bom homem e que abandonou tudo, isolando-se do mundo indo morar apenas com alguns animais, por muito desgosto.
Suas companhias eram umas poucas galinhas, uns porcos, um único cavalo para sua locomoção e alguns cachorros velhos que eram amigos de longa data.
   Já está bom tudo que falou. Obrigado.
O delegado a dispensou, mas o detetive Miranda insatisfeito com essas únicas perguntas do delegado decidiu conversar mais tempo com ela, e também queria fazer uma vistoria no quintal e precisava de ajuda dela para isso.
Esses foram os motivos de solicitar permissão ao delegado para continuar conversando com Dona Rute.
O delegado falou-lhe que precisariam interrogar mais pessoas e o detetive Miranda disse que conversaria com ela na cozinha, enquanto ele e o agente Júlio se incumbiriam de investigar os onze vizinhos que apareceram e estavam aguardando serem chamados.
Foi repreendido pelo delegado que lhe perguntou:
   Não será mais importante inquirir os outros e não ela que já falou tudo que sabia?
   Doutor desculpe-me, mas se ela que convivia dois dias por semana dentro da casa com a morta enquanto viva não tiver muito mais coisas importantes a falar, os simples vizinhos terão muito menos ainda.
   Ela já disse tudo que era importante, mas tudo bem. Vá com ela e ao passar na sala mande subir um dos que estão esperando.
Dona Rute permaneceu na sala, em silêncio sem saber se saía ou não, aguardando a decisão deles apenas ouvindo o que conversavam, sem interrompê-los.
Como entre seus cacoetes o detive Miranda falava consigo mesmo em voz alta, no momento que se retirava com Dona Rute para irem conversar disse:
   Caio seu cabeça de vento. Não se esqueça novamente de avisá-la que ela precisa ir alimentar os cães que estão presos provavelmente sem alimento e água.
   Mas...
   O que ia falar depois do mas, delegado?
   Parei de falar porque ouvi um barulho estranho e completando minha fala interrompida pergunto-lhe: Mas, como sabe que tem cachorros presos no canil?
   Porque pelo lado de fora, sobre uma árvore na rua eu vi que existe um canil e não avistei nenhum cão solto no quintal.
   Então faça isso antes que os animais morram de fome e sede enquanto eu e Júlio interrogamos os vizinhos.
Álvaro e Euclides aproveitem e vasculhem melhor o andar de baixo e depois vão com detetive Miranda ver se encontram algo no quintal, depois que ele conversar com a faxineira.
Detetive Miranda chamou Dona Rute à cozinha e antes mesmo de terminar de descer as escadas, parou-se e disse-lhe ter visto o canil fechado e nenhum cão solto, portanto eles deveriam estar presos por isso pediu-lhe que fosse alimentá-los primeiro para conversarem depois.
Antes de ela responder qualquer coisa, ele continuou falando que depois de alimentá-los ela deveria mantê-los presos porque ele iria dar uma longa volta atrás da casa.
   Acontece senhor policial que desde que Dr. Moura e Estela compraram essa casa, nunca existiu nenhum cão.
   Nenhum?
   Nenhum. Dona Estela nunca concordou com Dr. Moura em ter esses animais por ter muito medo deles.
Bastou essa resposta para o detetive novamente coçar o queixo, depois a cabeça, além de fechar os olhos, que eram os gestos instintivos que fazia quando pensava, desligando-se de tudo que estava ao seu redor.
Nesse momento de reflexão descobriu por que se enganou imaginando que a hora do crime teria sido mais cedo pelo fato de Estela não ter ido soltar os animais quando chegou.
Realmente errou por precipitação, pois não havia nenhum animal a ser solto.
Ele tinha visto a hora no relógio quebrado, mas não tinha plena certeza da hora exata do crime, mas agora ficou sabendo que ela morreu mesmo no horário visto no relógio também considerado por Carlos Alberto como sendo o mais provável.
Agora como isso passou a ser certo, concluiu o porquê de as folhas coletadas no chão com colorações desiguais foram derrubadas em dias diferentes.
Concluiu que o assassino tinha ido na noite anterior para matar a arquiteta, mas ao ver o enorme canil amedrontou-se e deixou para voltar no dia seguinte com veneno para primeiro matar os animais antes de saltar para o quintal para não ser estraçalhado pelas feras.
Teria a faca para o crime e possivelmente também um revólver, mas não poderia fazer barulho na destruição dos cachorros com tais armas, pois seus latidos e os tiros disparados alertariam não só Estela, como toda a vizinhança.
Detetive Miranda falou sozinho sem lembrar-se que Dona Rute estava a seu lado aguardando a próxima pergunta e por isso ele continuando com suas imaginações, perguntou a si próprio:
   Preciso encontrar alguma pista no quintal que resolva isso, para eu eliminar a possibilidade de o assassino ser o ex-marido, pois ele sabendo da inexistência de cães faria o serviço no primeiro dia mesmo. Não teria necessidade de voltar no outro.
Refletiu mais um pouco e chamou-se de estúpido em voz alta, para depois sem emitir sons apenas pensando concluir:
Talvez Dr. Moura tenha imaginado que a mulher quando passou a morar sozinha criara coragem e comprara alguns animais.
Falou alto novamente para si próprio:
   É melhor perguntar para quem sabe do que tentar adivinhar as coisas. Não foi para isso que quis conversar com Dona Rute? Então converse com ela e pergunte o que precisar saber, pois certamente ela sabe muito mais que você, sobre essa casa e seus moradores.
Saiu do transe que novamente durou muito tempo e perguntou a Sra. Rute que o olhava ainda assustada com seus costumeiros pitís.
   O que falávamos mesmo?
   Eu tinha terminado de falar-lhe que nunca teve nenhum cão e o senhor ficou coçando o queixo e a cabeça como um... como se estivesse pensando alguma coisa importante.
   Você ia falar: como um macaco?
   Desculpe-me. O senhor lê os pensamentos dos outros?
   Ainda não. Apenas leio os lábios.
   Isso eu já tinha percebido quando falava com o delegado sobre os cães e o canil, porque eu também tenho essa mania de ler os lábios.
   Se ouviu falarmos sobre isso, por que não respondeu naquela hora que não tinham cães?
   Porque a conversa não era comigo e eu não iria me intrometer na conversa de policiais.   
   Tudo bem. Não se deve falar mesmo quando não está na conversa. Continue onde paramos.
   Por falar em “onde paramos”, não está percebendo que paramos no meio da escada? Não é melhor continuarmos andando e irmos até a cozinha?
   Certo. Vamos para lá, mas pode continuar falando.
   Eu já tinha respondido sua pergunta dizendo que não tinha nenhum cão e estava esperando o senhor voltar à realidade para continuarmos a conversa. Qual é sua próxima pergunta senhor policial?
   Lembrei-me qual era a próxima pergunta.
Por que na casa tem um canil se não tem cães? Diga-me se deixou os telefones dos familiares da vítima para serem avisados.
   O senhor faz uma pergunta e depois outra totalmente fora do contexto. Qual o senhor quer saber primeiro?
   É claro que é a segunda.
   Realmente não entendo sua forma de ordenar as coisas.
   Não importa. Responda-me a segunda e depois a primeira. É nessa ordem que quero.
   Foi a primeira coisa que o delegado me perguntou logo que chegou e eu já forneci a ele que ligou imediatamente de seu celular aos pais de Estela chamando-os urgente.
Tem mais alguma pergunta antes da primeira ou posso respondê-la?
   Quero saber sobre o canil a menos que primeiro queira confessar seu crime.
   Usando sua lógica que o último será o primeiro, confesso-lhe que sou totalmente inocente e jamais mataria alguém por motivo nenhum, principalmente Estela que eu amava como a uma filha. Sou pobre, mas fui educada com carinho e vivo minha vida somente para fazer o bem, principalmente às pessoas, e antes que pergunte outra coisa, informo ao senhor que com relação ao canil ele já estava construído quando Dr. Moura e a Estela compraram a casa.
   Eles nunca tiveram nenhum cão? Por quê?
   Agora respondendo na ordem correta, queira o senhor ou não, a primeira resposta é não, e a segunda é porque Estela nunca quis, por medo deles.
O Doutor sempre quis tê-los, pois gosta muito de cachorros. Sempre dizia que cães perdigueiros ajudam muito em suas caçadas, mas Estela morria de medo dessas feras, até quando as via em filmes.
O canil sempre só serviu para guardar o cloro, a bomba d’água da piscina, além de carvão e os espetos da churrasqueira e também os galões de eucalipto líquido para a sauna.
   Ele era caçador?
   Isso já disse que sim, mas o senhor perguntou se ele era e não se ele é. Por quê? O senhor acha que ele já era também?
   A senhora é bem esperta. Por uma simples mudança no tempo verbal já percebe o que ainda não foi mencionado.
   Realmente sou muito atenta ao que vejo, ao que ouço e mais ainda ao que eu imagino.
   Infelizmente creio que sim. Que ele já foi assassinado, mas isso por enquanto ainda não interessa.
Por acaso foi a senhora quem o matou também após matar Estela?
   É claro que não senhor policial. Está doido? Já lhe disse que eu nunca farei mal a ninguém e essa pergunta repetitiva está me aborrecendo se é que me permite ficar irritada com suas perguntas que me aborrecem.
   Minha investigação a aborrece? Por quê?
   Aborrecem sim. Porque sei que um investigador deve fazer perguntas que possam ajuda-lo desvendar um crime, mas perguntas sem base em nada se foi a pessoa interrogada quem matou passa dos limites da coerência e da decência.
   É investigadora ou fez algum curso sobre isso?
   Não. Mas tenho o suficiente bom senso para saber o que é certo e o que é errado. Para se acusar formalmente alguém precisa-se ter no mínimo alguma prova convincente.
   Tem razão. Não mais lhe perguntarei se a senhora quem os matou. Está bom assim?
   Está bom senhor policial.
   Desculpa-me por minha grosseria? Prometo que nunca mais farei isso, até porque tenho certeza que a senhora não tem nada com o assassinato.
   Desculpo-o senhor policial.
   Meu nome é Caio Miranda. Pode chamar-me de detetive Miranda, ou somente detetive, ou só Miranda, ou então Caio. Senhor policial soa muito desagradável. Parece autoridade.
   Mas o senhor não é uma autoridade?
   Não. Apenas investigo crimes depois de cometidos, para descobrir quem foi o bandido. Já descobri muitos homicidas informando ao delegado minhas descobertas, mas jamais prendi pessoalmente algum, e muito menos atirei em alguma pessoa.
   Está bem senhor, digo, detetive Miranda.
   Estou certo que o verdadeiro assassino preparou seu crime para parecer ter sido o ex-marido, deixando pistas para incriminá-lo. Depois o matou forjando um suicídio ou um acidente para ele não se defender e o caso ser encerrado, como sendo um marido revoltado, ou em crise que acaba assassinando a esposa e depois se matando.
   Dr. Moura jamais teria motivo de ficar revoltado com Estela, pois foi ele quem não quis mais viver com ela, embora ela tivesse ido procurá-lo muitas vezes e ele sempre recusou voltar. Se ele tivesse surtado e vindo aqui matá-la ele teria equilíbrio mental para fazer de tudo para encobrir o crime?
E para que fazer isso se iria se matar depois?
E também não seria o mais provável matar-se ao lado dela?
   Agora foi a senhora que me encheu de perguntas e respondendo na sua ordem digo que tem razão em tudo que pensou. Com referência à última digo-lhe por experiência que quando uma pessoa fora de si mata um ente querido para se matar depois o mais comum é cometer o ato tresloucado ao lado ou próximo de sua vítima, mas nem sempre acontece assim.
Às vezes a intenção é só matar e fogir, mas depois que cai a ficha se mata para não assumir as consequências de seu ato.
   Então acha que pode ter sido ele?
   Não. Tenho certeza que não foi isso que aconteceu. Quem matou Estela foi outra pessoa. Já lhe disse isso e não penso que seja a senhora.
   Será possível que ele também tenha sido assassinado mesmo?
   Também já falei sobre isso, mas são só conjecturas e não fato concreto ainda.
   Mas então...
   Espere um pouquinho Dona Rute. É a senhora quem está me investigando ou eu à senhora?
   Desculpe-me detetive. Continue perguntando o que quer saber.
   Já passou o endereço do sítio do Dr. Moura ao delegado?
   Não. Porque não sei onde é. Só sei que fica em Valinhos, mas não sei o lugar certo, embora eu tenha ido com eles lá, algumas vezes. Por não saber informar o lugar corretamente, dei o telefone dos pais do Dr. Moura ao delegado para ele conseguir melhores informações.  
   Mas diga-me: Estela fazia muito uso do espaço maravilhoso do quintal? Muitas festas? Muitos amigos, namorados ou amantes? Coisas assim? Espere que tenho uma pergunta que deverá ser respondida antes.
   Qual é?
   Porque muitas coisas que lhe pergunto diz-me que já falou ao delegado, ou que já entregou ao delegado? Quando foi isso?
   Foi logo pela manhã, enquanto o senhor estava na rua. Ele já tinha conversado comigo e feito várias perguntas. Tudo que lhe disse já ter entregado à ele, também já havia sido solicitado por ele.  
   Entendo.
   Posso responder a outra pergunta?
   Ainda não. O delegado já sabia da profissão deles quando lhe perguntou quando eu estava interrogando-a?
   Sim. Eu já tinha lhe falado. Perguntou de novo, talvez para ver se eu mentira em alguma coisa na primeira vez, ou para que vocês detetives também soubessem, pois não estavam presentes quando falei pela primeira vez.
   Tenho certeza que foi a segunda situação. Ele queria que todos nós ouvíssemos a senhora falando sobre o casal.
   Tem alguma coisa errada nisso?
   Nada errado. Está certíssimo. Que é que lhe perguntei que ficou para trás?
   Sobre festas no quintal com Estela, amigos ou amantes, etc.
   Então me responda.
   Pode ser agora ou quer saber alguma outra coisa antes?
   Fale-me das festas de Estela, amigos ou amantes, etc.
   Quando o casal estava junto faziam muitas festas, mas depois da separação nunca mais houve.
Naquela época as festas eram semanais com muitos amigos deles, mas depois que ela ficou sozinha a patroa só usava mesmo a sauna e mesmo assim muito pouco. Raramente também davas umas nadadas, mas jamais acendeu um só toco de carvão na churrasqueira, ou trouxe algum convidado aqui.
Tinha muita amizade na vizinhança, mas suas conversas sempre aconteciam na saída da garagem, pois raramente ela ficava em casa.
   E nos finais de semana?
   Seu final de semana era só o domingo e ela passava o dia todo em seu escritório trabalhando, desde quando levantava até a hora de dormir. Pedia uma pizza ou alguma refeição qualquer com delivery e não saía de casa para nada.
   Com delivery. Não gostei da expressão ianque. Significa com entrega. Não?
   Está na moda.
   Conta-me mais sobre o casal. Por que houve a separação deles e como Estela vivia depois de divorciada, aliás, não precisa falar sobre isso, pois segunda-feira nós a ouviremos no interrogatório oficial na delegacia junto com o delegado e o escrivão.
   Então estou dispensada?
   Ainda não. Responda-me mais algumas perguntas que depois a liberarei.
   Sei que sou considerada suspeita por ter a chave da entrada da casa, mas pode ter certeza que não fui eu.
   Eu tenho essa certeza. Pode ficar tranquila. Vai haver muitas perguntas, mas basta você ser correta e não esconder nada do que sabe que tudo vai acabar bem para você.
   Obrigada.
   Você falou que o médico ficou revoltado com sua repreensão pelo conselho de medicina e quis ir morar sozinho no mato. É isso?
   Sim.
   Nunca mais voltou?
   Se voltou alguma vez para São Paulo não sei, mas aqui na casa ou no escritório de Estela nunca mais apareceu.
   Como tem certeza disso?
   Porque ela sempre me falava que ele não queria voltar nunca mais, apesar de sua insistência em trazê-lo. Ela o amava demais e estava muito triste por estar sem ele.
   A lavanderia me pareceu desativa quando olhei pelo muro, pois vi apenas uma máquina de lavar bem velha. Com aspecto de estragada e desligada.
   Quando a patroa passou a morar sozinha, comprou uma máquina nova e eu a uso para lavar as roupas dela dentro de casa. A máquina está no banheiro aqui ao lado da cozinha que é também para meu uso.
Tem mais dois banheiros aqui em baixo, mas nunca são usados porque não vem ninguém hospedar-se ou sequer visitá-la.
Sua mãe e seu pai com a irmã, só vieram três vezes quando ela estava casada e apenas uma única vez depois. Isso foi logo após separação.
   E seus primos, tios e sobrinhos nunca a procuraram?
   Porque pergunta sobre esses parentes, que eu nunca soube se ela tem?
   Porque quando uma mulher jovem fica viúva ou separa-se, são exatamente esses que vêm procurá-la para prestar socorro rápido.
É realmente muito mais difícil ficar livres deles que dos estranhos que também as procuram para as mesmíssimas coisas. Você me entende?
   Entendo perfeitamente. Quando eu era jovem e até bonitinha e fiquei viúva, foi terrível tal assédio dos parentes. São sempre os primos que mais se apiedam da gente, mas no caso dela nada disso aconteceu. Nunca conheci nenhum parente que não fosse seus pais e uma irmã, que como já disse visitam-na muito pouco. Moram em Porto Alegre que fica bem longe para estar vindo muito.
   Essa porta da cozinha para o quintal tem chave independente ou é a mesma que abre a porta de entrada?
   É a mesma. Aliás, abre também a porta lateral que entra na sala de jantar pelo corredor onde passam os carros.
   Como você entra quando vem trabalhar?
   Entro direto pela porta da rua. Não tenho o controle remoto para abrir o portão lateral que entra para a garagem.
   E seus patrões como faziam para entrar em casa?
   Abriam o portão da garagem com controle remoto de dentro dos carros e entravam em casa ou pela porta lateral no corredor ou pela porta da cozinha, dependendo de onde colocavam o veículo. Dr. Moura sempre deixava o carro no corredor, mesmo quando vinha à noite para dormir, portanto sempre entrava pela porta lateral, entretanto a patroa, naquela época, nunca tinha lugar certo.
   Você disse que naquela época ela não tinha lugar certo e depois passou a ter?
   Quando casada de fato não tinha porta certa para entrar. Quando o carro do patrão já estava no corredor ela colocava o dela nos fundos, nas garagens, mas quando ela chegava primeiro deixava seu carro no corredor e ele parava na rua mesmo, mas depois que ficou sozinha, passou a usar só a porta lateral.
   Então o carro do médico dormia algumas vezes na rua?
   Não. A noite ele sempre chegava primeiro e ela quando chegava ia direto para o quintal. Ela só punha no corredor durante o dia.
   Depois da separação ela adotou só o corredor?
   Sim. Quando ela chegava já estava escuro e tinha medo do quintal, embora ele fique sempre com as luzes acessas e tenha um muro altíssimo. Mesmo assim ela se preocupava.
   Antes ela não tinha medo?
   Não. Sentia-se segura, pois bastava ela acionar o controle para abrir o portão que o Dr. Moura já ia esperá-la no quintal e entravam juntos.
   Entendo. Ele lhe transmitia segurança. Era bom marido para ela?
   Excelente. Sempre foi uma pessoa das melhores que já conheci, e por falta da segurança que ele lhe transmitia, quando ela ficou sozinha adotou a entrada lateral e nunca mais colocou seu carro nas garagens.
   Então a porta da cozinha para a piscina só é usada pela senhora?
   Nem por mim. Acostumei usar a saída lateral para ir aos fundos e a principal para ir à rua.
   Então a porta da cozinha é pouco usada?
   Posso garantir que de um ano para cá nunca mais foi usada, pois só íamos ao quintal pela porta lateral que sempre permanece aberta.
   As luzes dos fundos ficavam acessas durante a noite toda ou eram apagadas por ela quando chegava?
   Sempre acessas, pois do quarto de Estela dá para ver todo o quintal e antes de dormir ela olhava para certificar-se se estava tudo em ordem.
   Como sabe tudo que ela fazia a noite se trabalhava apenas durante os dias?
   Eu a acompanho desde quando era solteira e morava em um apartamento. Eu era sua empregada domestica e morava com ela e depois...
   Do escritório não vê o quintal, não é? A janela só dá vista para o lado esquerdo da casa.
   Sim.
   Então estando no escritório nada se vê no quintal? Nem pelo menos uma parte dele?
   Absolutamente nada.
   Qual o horário que ela parava com seus afazeres dentro de casa para ir dormir? Você sabe?
   Sim. Ela chegava de seus trabalhos no shopping nove horas da noite e ficava direto no escritório até uma hora da madrugada, para depois recolher-se para seu descanso.
   Sempre foi assim?
   Quando solteira já tinha esse hábito, mas no tempo de casada não. Nessa época ela até dormia bem cedo. Por volta de onze horas.
   Você me disse que morava com ela quando solteira, mas sabe de sua rotina completa depois de casada. Como sabe tudo isso?
   Eu já ia falar sobre isso quando o senhor me interrompeu para saber da janela do escritório.
   Então continue falando o que pretendia antes.
   Eu trabalhava aqui todos os dias e morava com eles.
   Então não morou com ela só no tempo de solteira?
   Não. Vim para cá e morei com eles muitos anos. Praticamente todo o tempo que durou o casamento. Quando eles se separaram Estela não tinha muito mais serviço para eu fazer por isso passei a trabalhar somente dois dias por semana. Venho nas terças feiras e nos sábados.
   Mas porque deixou de morar com ela, justamente quando ela voltou a viver sozinha e com certeza a época que mais precisava de companhia?
   Uns três meses antes da separação do casal eu já não morava, porque tinha conhecido meu velho e fui morar com ele.
   Entendi tudo. Então está casada?
   Não mais. Fiquei amasiada pouco mais de seis meses. Não deu certo. Ele é muito mulherengo e safado. Atualmente até que somos bons amigos.
   Porque então não voltou a morar com Estela?
   Minha filha veio morar comigo com três filhos pequenos, por isso continuo em minha casa, pois independente de eu gostar muito de Estela, gosto mais de minha filha e de meus netos.
   Entendo.
   Já são quase quatorze horas e ninguém de vocês comeu nada. Quer que eu faça comida para vocês?
   Não. Nada disso. Nunca temos hora para alimentar. Estamos sempre trabalhando e só comemos quando terminamos nosso serviço.
   Pelo menos um copo de leite ou suco, ou uma taça de vinho?
   Não. Nada. Obrigado.
   Então posso ir para minha casa? Já estou dispensada?
   Ainda não. Só mais algumas perguntas.
Quando lhe perguntei junto ao delegado sobre seu conhecimento das atitudes da patroa você afirmou categoricamente que ela não tinha nenhum namorado ou amante que a visitava, simplesmente porque era muito amiga e ela inevitavelmente teria contado para você.
Confirma isso?
   Sim.
   Acontece que agora sei que ela só chegava em casa as vinte e uma horas, e você com certeza já não estava, pois seu horário já tinha encerrado não é certo?
   Sim.
   Ela poderia muito bem chegar com alguém ou receber depois e passar a noite toda e até o dia seguinte inteiro com tal pessoa nos dias que você não vinha, portanto como pode afirmar com toda segurança que ela não recebia ninguém? Apenas por ser amiga dela?
Ela poderia muito bem não querer contar nada para você e receber alguém aqui, ou até dormir em um motel ou na casa de algum namorado.
   Detetive Miranda. O senhor tem razão em dizer que ela poderia receber alguém ou até dormir fora com alguém e nada me contar, porque não a conheceu como eu.
Eu tenho certeza que se isso tivesse acontecido, ela me contaria assim como me contou tudo logo no dia seguinte ao conhecer Dr. Moura, da mesma maneira que já havia me contado sobre seus namorados anteriores e até seus casos amorosos daquela época.
Nunca escondeu nada de mim. Considerava-me sua mãe aqui em São Paulo.
Mas não é só por isso, que sei que ela nunca arrumou ninguém.
Ela jamais lavou sequer um copo. Até suas roupas íntimas deixa para que eu lave, portanto sempre que chego para meu serviço a cada três dias, encontro exatamente a mesma quantidade de roupas de camas trocadas, suas roupas usadas, suas toalhas e tudo o mais dentro do baú para serem lavadas.  
Jamais vi vestígios de homem nessa casa, tais como cigarros, copos com restos de bebidas, pratos com sobras de comida, cheiro de perfume ou desodorante diferente dos dela.
Absolutamente nada que não fora usado apenas por ela.
Ela acordava sempre por volta de nove horas, tomava seu banho, se aprontava para ir trabalhar no escritório que tem no Shopping Conselheiro Arruda. Por lá mesmo almoçava, lanchava e fazia sua refeição noturna e aqui em casa nunca encontrei nada que não fossem apenas copos sujos com seu batom, usados para tomar água, ou xícaras usadas para o leite noturno ou para o chá pela manhã.
Comida aqui nem se faz, pois eu própria me alimento comprando uma marmita no restaurante aqui perto.
   Como ofereceu para fazer comida para nós?
   Por educação.
   E se eu por falta de educação aceitasse?
   Eu compraria o necessário no supermercado próximo e faria. Simples assim, não acha?
   Tem dinheiro para isso?
   É claro que sim. A patroa sempre foi uma excelente pessoa, e todo mês além de meu salário, deixa-me uma importância mais que suficiente para eu comprar tudo que acaba como sabão, papel higiênico, chá...
   Não precisa enumerar tudo que compra. Já entendi todo o funcionamento da casa e sua participação. Obrigado.
   Estou finalmente dispensada, por hoje?
   Agora pode ir para sua casa, mas antes deixe seu endereço, o número de seu telefone fixo e celular anotados com o delegado, caso os tenha.
   Já fiz isso.
   Então obrigado e passe bem.
   O senhor vai descobrir quem matou a patroa?
   Fique certa que sim. E muito rapidamente, pois acredito até que já sei quem foi.
   Já? Quem foi?
   Tenho grande desconfiança. Para dizer a verdade já tenho certeza saber, mas preciso encontrar provas conclusivas, portanto não fale nada para ninguém que lhe falei isso. Nem segunda na delegacia e nem em sua casa para seus familiares. Está certo?
   Guardarei nosso segredo.
   Será por pouco tempo, pois logo ele será preso e nada mais ficará em sigilo.
Antes de sair deixe comigo sua chave para eu ir ao quintal.
   Já a deixei com o delegado, mas o senhor pode sair pela porta lateral que está aberta.
   Um último favor. Chame o Euclides e o Álvaro. Não. Pode deixar. Eu mesmo faço isso. Bom restante de dia e até segunda-feira.
Tem certeza que não se lembra de mais nada que possa ajudar-nos esclarecer esse crime?
   Tenho.
   Durante o restante do dia e no decorrer da noite de hoje e amanhã tente lembrar alguma coisa por mais insignificante que lhe possa parecer que tenha sido estranho ao comportamento dela que pode ser muito útil. Está bem?
   Um instante detetive Miranda. Realmente houve um inicio de conversa entre nós que só agora estou lembrando.
No dia pareceu-me que seria uma possibilidade de ela ter conhecido algum príncipe encantado, mas depois acabou em nada.
   Fale o que foi que aconteceu.
   Há mais ou menos uns dois meses ela falou-me pela manhã antes de ir para seu trabalho que no dia anterior tinha conhecido uma pessoa, mas que estava atrasada para ir trabalhar e me contaria na próxima vez que eu viesse trabalhar.
   E o que foi que ela falou em seu retorno?
   Absolutamente nada, por isso eu perguntei-lhe o que ela queria me contar três dias antes. Ela simplesmente respondeu-me não ser nada interessante, pois fora apenas uma situação já ultrapassada e que não tinha mais nenhuma importância ou necessidade de falar sobre o assunto. Que tinha sido apenas uma bobagem que nem gostaria de lembrar-se.
   E então?
   Eu não perguntei mais nada por se tratar de algo sem o mínimo valor para ela que nem se dignou a um mínimo comentário. Qualquer coisa que tenha acontecido naquele dia com certeza ela já tinha esquecido e eu jamais iria tocar em um assunto já encerrado que não tinha mais nenhum significado para ela.
   Mas porque você lembrou-se disso agora, mesmo sendo algo sem nenhuma importância?
   Porque pelo jeito com que ela falou-me ter conhecido alguém, deu-me a impressão de não ter sido nenhuma nova amiga ou algum futuro cliente. Por intuição feminina entendi que seria um possível namorado.
   Então esse é o assassino. Tente lembrar-se do dia em que ela conheceu tal indivíduo.
   Tenho anotado em casa todos os dias que vim trabalhar, por isso não será difícil verificar o dia exato em minhas anotações.
   Assim que você verificar isso em sua casa, ligue para mim.
   Não posso falar-lhe na segunda na delegacia?
   Não. Leve meu cartão e ligue para meu celular ainda hoje. Assim que chegar em sua casa e verificar suas anotações. Está bem?
   Certo detetive. Farei isso.
   Segunda na delegacia eu não lhe questionarei. Você será interrogada pelo investigador Júlio e pelo delegado, portanto responderá ao que eles lhe perguntarem e se nas perguntas não houver necessidade de falar sobre isso, não fale, entretanto se tal informação se encaixar dentro de alguma pergunta feita não esconda. Responda tudo com honestidade e correção conforme as perguntas forem sendo feitas. Está entendido?
   Sim. Assim que eu chegar em casa vejo o dia do mês que vim trabalhar e telefono para o senhor.  Só falta saber isso, pois o dia da semana foi terça-feira e o mês foi novembro do ano passado. Disso tenho certeza.
   Então foi em uma segunda feira de novembro que ela conheceu o cara.
   Correto, pois na terça de manhã iria me contar sobre ele se não estivesse atrasada.
   Então bom fim de semana e até segunda, mas antes disso telefone-me falando qual foi o dia do mês de novembro que veio trabalhar e houve tal conversa.
   Pode deixar que assim que chegar em casa eu vejo e ligo para o senhor.
oooOooo
Quando o detetive Miranda, o fotógrafo e o papiloscopista foram para o quintal da casa, a vizinhança começou ser questionada pelo delegado e pelo investigador Júlio Souza e todos alegaram não terem presenciado nada em momento algum, durante a noite e a madrugada anterior.
Nenhuma pessoa conhecida ou estranha foi vista rondando o local ou dirigindo-se a casa de Estela, portanto coisa alguma foi acrescentada para esclarecer o silencioso crime da meia noite.
Nenhuma briga, nenhum grito, nada foi ouvido ou visto pelos vizinhos
oooOooo
Logo que os agentes foram para o terreno aos fundos da casa comandados pelo detetive Miranda, este solicitou a Euclides para tentar encontrar impressões digitais na maçaneta da porta que liga a cozinha ao quintal por ambos os lados dela.
Ao examiná-la o papiloscopista informou-o que a maçaneta tinha sido usada muito recentemente, possivelmente na noite anterior embora por sua aparência não era usada há muito tempo com essa única exceção.
Pelo lado de fora ela apresentava claramente pelo acúmulo de pó grudado não só nela como em toda a fechadura que essa porta não era usada há muito tempo. Estava sendo confirmado o que fora dito por Dona Rute.
Esse agente percebeu marcas na fechadura pela introdução recente de chave e que a maçaneta fora girada. Viu também marcas que determinavam que a porta fora aberta sendo empurrada por uma mão.
Não havia nenhuma digital, pois certamente a pessoa que a abriu e fechou estava de luvas cirúrgicas, exatamente para não deixar suas marcas.
Coletou amostras que posteriormente seriam examinadas no laboratório, mas seus conhecimentos permitiram afirmar que a invasão tinha acontecido por ali com toda certeza.
Próximo a porta foi verificado marcas de pés calçados apenas com meias, iguais as marcas que encontraram no local do crime.
Nesse ponto pelo fato do piso ser de granito, e a pessoa ao entrar estar com os pés úmidos por ter feito a travessia sobre o gramado evidentemente molhado pela água que a grama contém, tais marcas ficaram bem mais nítidas que as encontradas no tapete seco do escritório próximo a assassinada.
Descobriu que eram pés de homem devido seu tamanho. Ele calculou ser de medida quarenta e três ou quarenta e quatro.
Detetive Miranda que sabia e trabalhava com a possibilidade de que o homem que invadiu a casa não fora o ex-marido somou mais essa declaração a suas suposições, pois por costume ele deveria entrar pela porta lateral que sempre utilizara e não por essa porta, mas tinha necessidade de outras informações para ter certeza.
O detetive pediu ao agente fotógrafo que vasculhasse por todo o quintal, próximo ao muro a procura de vestígios de carne com veneno para matar os cães, enquanto iria com o outro percorrer o caminho da porta até o muro. Primeiro traçaram uma linha reta imaginária, do local de onde o invasor saltou o muro até a porta para pesquisarem essa passagem.
Caminharam ao lado do possível trajeto utilizado para não destruir pistas e foram olhando ao chão na grama bem aparada a procura de marcas, mas nada encontraram pelo caminho feito.
No local onde o invasor deveria ter saltado do muro para o chão viram marcas profundas na grama com as mesmas características das pegadas já encontradas anteriormente, além de outras bem mais visíveis do solado de sapatos ou botas que inclusive deixaram terra sobre o gramado firme da casa. Certamente era terra vinda de outra localidade, por que a grama estava plantada sobre areia.
Essas pegadas eram do mesmo tamanho que as que foram deixadas pela pessoa pesada e alta com pés grandes, conforme conclusões anteriores já concebidas pelo detetive Miranda. Também aparentavam ser de uma pessoa semelhante à outra em peso e tamanho pela profundidade das marcas e pelo tamanho das passadas.
Entreolharam-se com esse descobrimento inusitado e constataram a possibilidade de serem duas pessoas invasoras e não apenas uma como estava sendo imaginado, pois no local do crime as marcas eram de apenas uma pessoa sem sapato.
   Quem seria o outro e qual o motivo de sua presença, detetive?
   Ainda não pensei em nada. Continue procurando mais vestígios.
O agente Álvaro vistoriava próximo ao muro, carne com veneno, pois o detetive Miranda comentou ser esse o possível procedimento do bandido para matar os cães que ele pode ter pensado existir na casa.
Realmente o agente encontrou manchas em três lugares diferentes no quintal com vestígios de sangue e as mesmas pegadas com os pés calçados apenas com meias.
Fotografou tais locais e chamou pelos companheiros para verem e para o papiloscopista colher amostras da grama suja para análise.
A conclusão deles foi que o assassino havia atirado do alto do muro tais pedaços de carne envenenada esperado o ataque dos cães que não aconteceu, pois não havia nenhum animal.
Depois de efetuado seu crime, em sua volta procurou pela carne atirada e recolheu levando consigo para dar sumiço depois, entretanto em outro local os agentes encontraram um pedaço de carne enrolada, que provavelmente o bandido não encontrou quando procurou antes de fugir.
Deve ter perdido muito tempo nesse trabalho que acabou deixando essa prova de que quem invadiu a casa tinha medo de encontrar cães.
Pelo cheiro do veneno ao abrirem o bife enrolado os agentes souberam no mesmo instante ser estricnina, por isso o agente Álvaro perguntou ao agente Caio Miranda:
   Porque ele quis matar os cães?
   Ora essa. Para não ser atacado e morto por eles.
   Mas os cachorros não o atacariam, pois sendo amigos dele não haveria perigo algum. Esses animais reconhecem seus donos mesmo depois de muitos anos de separação.
   E quem lhe disse que eles se conheciam?
   Não é o ex-marido da mulher quem a matou?
   É claro que não. Ele até sabia que nunca existiu nenhum cão na casa. Foi outra pessoa que está deixando pistas para pensarmos que foi ele. Tenho certeza que a pessoa é outra.
   Você está dizendo que o criminoso está deixando pistas para incriminar o ex, mas essa pista prova exatamente o contrário. Deixa claro que não foi o ex porque como você acaba de dizer, ele sabia da inexistência de animais.
   Pois é. Por essa ele não esperava. Não imaginava que fossemos encontrar o veneno. Mas, pensando bem. Pode até ter sido sim o ex-marido quem matou Estela.
   Porra detetive. Foi ou não foi o tal Dr. Moura. Cada minuto você fala uma coisa.
   Por enquanto estou apenas determinando como aconteceu a invasão. Só depois que vou concentrar-me em saber de fato quem foi, embora eu tenha pensado muito em outra pessoa, mas nada posso afirmar ainda, enquanto não descobrir a motivação ou provas contundentes que não deixem dúvidas.
   Porque acabou de dizer que pode ter sido o marido?
   Eu praticamente já o tinha excluído pelo fato de saber que ele embora gostasse muito de cachorros, nunca pode ter nenhum, pois sua esposa tinha verdadeiro horror desses animais.
Eu imaginava que ele não se assustaria quando viu o canil na noite anterior ao crime, pois sabia da existência dele apenas para guardar coisas, portanto não voltaria no outro dia com veneno para matar os animais que ele sabia não existir. Agora penso que ele imaginando que quando ele a deixou, ela por medo ainda maior de ficar desprotegida arrumou coragem e comprou alguns animais ferozes para sua segurança e tais animais desconhecidos dele o estraçalhariam se ele invadisse na primeira noite. Se foi isso que aconteceu pode ter sido ele mesmo e não a pessoa que eu estou imaginando ser.
   Então voltou a estaca zero.
   Ainda não. Euclides veja lá em cima do muro as marcas que eu vi deixadas lá ainda com sapatos se o homem além de grande é pesado como eu imagino.
O agente subiu ao topo do muro, que de dentro para fora era acessível, pois por esse lado a altura era menos de dois metros, porque o terreno antes da construção da casa para ficar no mesmo nível da rua da frente possivelmente precisou ser aterrado e aplanado e aconteceu de ficar mais próximo do topo do muro que pelo lado de fora.
O agente encontrou marcas de solado de calçados semelhantes as já vistas no chão, além de alguns fios de cabelo. Recolheu tudo e juntou as pistas já encontradas.
Detetive Miranda e os outros dois fizeram o caminho em direção a porta da cozinha, desta vez sobre a linha imaginária examinando com maior atenção.
Verificaram muitas marcas de ida e de volta com sapato até a metade do percurso. Elas muitas vezes estavam em cima das marcas de pés descalços o que ficou claro que a pessoa calçada não estava junto da descalça.
Jamais poderiam andar exatamente no mesmo lugar ao mesmo tempo. É uma simples lei de física. Concluíram que o homem calçado veio depois e até apenas a metade do caminho e voltou pra ir embora. Continuaram em direção à porta da cozinha, vendo apenas as marcas deixadas pela pessoa descalça.
Nesse trajeto não encontram mais nenhum fio de cabelo, que tinham sido achados várias vezes até o local das pegadas de sapato.
Assim ficou provado que a pessoa calçada só foi até a metade do quintal deixando fios de cabelos e voltou.
Álvaro comentou com o detetive Miranda:
   Parece-me que essas marcas de sapato e os fios de cabelo foram plantados.
   Eu tenho certeza que sim, pois são muitos e só estão até a metade do caminho, portanto o cabelo e essas pegadas estão aí para incriminar alguém que deverá ser o Dr. Moura.
   Então agora ele também estará morto?
   Evidentemente. Sabe se o delegado já mandou alguma equipe ir atrás dele?
   Pelo menos já tentou. Eu estava com ele quando Dona Rute forneceu-lhe o telefone dos parentes para ele descobrir o endereço e mandar buscá-lo.
   Encontraram o homem?
   Não responderam ao chamado no telefone chamado e Dr. Ataíde ligou para a delegacia passando o número pedindo para ficarem insistindo até encontrarem alguém para dizer como achar Dr. Moura. Até a hora que estive com ele não tinha chegado nenhuma informação.
   Vejam vocês dois. Todos nós passamos sob aquele vaso de plantas que fica no caminho, mas como somos mais ou menos da mesma altura passamos por baixo dele. O criminoso como me parece ser mais alto que nós pode ter esbarrado nele e deixado seu verdadeiro cabelo lá.
Correram em direção ao vaso e o detetive Miranda encontrou um fio bem mais comprido que os outros e alegre comentou com o papiloscopista:
   Agora peguei esse filho da puta.
Recolha esse e guarde-o separado dos demais, pois seu DNA vai dizer-nos quem é o verdadeiro assassino, se for compatível com quem eu penso.
   Quem você pensa que é?
   Desculpe-me, mas não posso agir de forma irresponsável acusando alguém que eu ainda não posso provar. Deixemos que o laboratório faça sua parte e então terei a prova que preciso.
   Detetive Miranda. Infelizmente você ainda não tem prova nenhuma.
   Porque Euclides?
   Porque esse fio não é cabelo. É um fio de nylon, que pode estar ai ao acaso ou até ter sido arrancado de uma meia que o bandido usava na cabeça, para não perder nenhum fio de seu próprio cabelo.
   Cretino. Filho da puta. Pensou em tudo para não deixar pista. Vamos embora que aqui não encontraremos mais nada e já está tarde.
   Estou com fome.
   Logo estará na hora do jantar e então comeremos. Vamos ver se o delegado e Júlio já terminaram para irmos todos para casa.
Nessa hora o detetive Miranda recebeu um telefonema em seu celular.
   Dona Rute? Descobriu o dia certo?
Ela respondeu-lhe que sim e que o dia que trabalhou na casa de Estela, foi vinte de novembro em uma terça feira, portanto ela teria conhecido o tal homem, na segunda feira dia dezenove.
Após ouvir a resposta despediu-se e começou com seus cacoetes e acabou dizendo alto:
   Não me recordo nada do que ele fez no dia dezenove de novembro, mas vou averiguar.
   O que foi investigador?
   Nada não Euclides. Eu falei comigo mesmo.
   Então fale mais baixo, pois você está pertinho de você, portanto não precisa gritar.
   Deixe de ser chato. Falo da altura que quiser.
oooOooo
O delegado, o investigador Júlio e os outros três agentes que já tinham voltado do quintal assistiram aos filmes das câmeras de segurança, não só da casa em questão como das demais que foram solicitadas aos vizinhos e absolutamente nada foi visto que os ajudassem na elucidação do crime.
Foi capitado pelas câmeras da casa de Estela apenas as imagens de alguns carros passando ou algum vizinho entrando em suas respectivas residências.
Viram também o filme que mostrava Estela chegando, às vinte horas e cinquenta e quatro minutos daquele fatídico dia de dezessete de janeiro, procedendo exatamente conforme seu costume. Chegara sozinha e de dentro do carro com seu controle remoto abriu o portão eletrônico e entrou. Nada mais foi mostrado no filme, pois a câmara da casa só registrava o ambiente externo até aquele ângulo movimentando-se para captar outras imagens.
No filme da câmara do vizinho de frente viram sua entrada no corredor da casa até quando parou na entrada lateral. Viram o portão da casa de Estela fechando-se eletronicamente após sua passagem e ninguém invadindo nesse único momento possível, portanto ela entrou em sua residência e lá permaneceu durante as próximas três horas sem ninguém ter sido visto acompanhando-a e nem invadindo a casa, naquele momento de sua entrada pela garagem.
Em suas conversas, o delegado e seus agentes só suspeitavam que não fora um crime para assalto, pois sequer as joias pessoais foram tiradas do corpo da vítima.
Ela foi encontrada totalmente vestida e nenhuma peça de suas roupas fora retirada ou rasgada, portanto aparentemente não houve abuso sexual.
Foi um crime por vingança e os únicos suspeitos continuavam sendo a empregada por ter a chave da casa, e o ex-marido por também haver possibilidade de ainda tê-la, além de ser médico e caçador. Ambas as atividades se enquadravam no perfil do assassino, pois ele usou uma faca de caça e soube muito bem manuseá-la perfurando exatamente os órgãos vitais mais importantes do corpo humano, que danificados causariam morte imediata.
Detetive Miranda perguntou ao delegado:
   Dr. Ataíde. O senhor conseguiu encontrar os pais do Dr. Moura?
   Ainda não Miranda, mas um dos moradores daqui deu-me o endereço deles e telefonei para a chefatura para mandarem gente lá pessoalmente e já obtive resposta que a casa está fechada e vizinhos deles informaram que eles viajaram para o exterior à alguns dias e só voltarão daqui a dois meses.
   Que azar. Ninguém sabe do celular deles para os encontrarmos onde quer que estejam?
   Isso foi perguntado e nada conseguido, mas eu já telefonei ao colega de uma delegacia de Valinhos para eles fazerem uma varredura na zona rural de lá até encontrarem o sítio.
   Até agora nada?
   Quando telefonei agora pouco já estava escurecendo, por isso acho que eles só irão fazer as buscas a partir de amanhã. Acredito que só encontrarão no decorrer do dia ou na segunda, pois pelo nome ele é totalmente desconhecido do pessoal de lá e talvez eles precisem trabalhar muito para encontrá-lo.  
oooOooo
Após jantar solitário em seu apartamento, o detetive Miranda ficou toda a noite e madrugada pensando sobre o que viu e supôs, para encontrar as respostas pretendidas e não conseguiu de maneira nenhuma como incriminar com êxito a pessoa que ele julgava ser o assassino.
Ele permanecia convicto em suas suposições que quem assassinara Estela não fora seu ex-marido, simplesmente por sua aguçada percepção oriunda de seus raciocínios que geralmente eram sempre considerados ilógicos, pelos colegas de serviço, até conseguir as provas reais para exigir a confissão do culpado, mandar prendê-lo e mostrar mais outra vez sua grande atuação como investigador.
Nesse caso, ele definitivamente não tinha conseguido nada que lhe permitisse dizer quem era e pensava seriamente que não iria conseguir, pois o assassino tinha sido esperto ao extremo e agido com muita inteligência e competência, uma das qualidades de seu suspeito.
Ficou até o dia clarear raciocinando até que desistindo resolveu descansar um pouco porque imaginava que teria um longo dia, naquele domingo que amanhecia.
Coçou o queixo, depois a cabeça e desistiu de desistir e continuou forçando seu cérebro e exigindo dele que encontrasse a solução e por mais que se esforçasse não imaginou nenhum pretexto para que uma pessoa totalmente desconhecida da vítima a matasse com tanto ódio.
Teria de encontrar a tal motivação e o que conseguiu foi passar toda a manhã em claro, sem dormir absolutamente nada até na hora do almoço.
Em seus quarenta anos de atividade policial, como agente investigativo, já tinha visto muitos crimes e começou buscar algum caso semelhante em sua memória e sua conclusão sempre o levava a um mesmo raciocínio.
Tinha definitivamente de ser alguém conhecido, mas pelo que soube Estela não tinha nenhum inimigo. Nem o próprio ex-marido tinha nenhum motivo para odiá-la, pois ele quem decidiu abandoná-la e não o contrário, além de ela ter sido sempre amorosa e dedicada a ele, mesmo depois de separados e simplesmente não lhe provocando nenhum ciúme, pois nunca mais se relacionou com homem nenhum.
Ela nada fizera para provocar-lhe tanto ódio. Nada. Não havia nenhum motivo para ele odiá-la.
Foi mais longe buscar entre os contos policiais e de mistério que lia quando adolescente.
Jamais nenhum escritor atribuiu seu crime fictício que não fosse praticado por alguém conhecido que matou por vários motivos, entre os mais comuns:
Vingança por traição conjugal.
Namorados desprezados.
Amigos por inveja do sucesso do outro.
Amigas para se verem livres de concorrências.  
Ciúme doentio de um dos cônjuges.
Mordomos por se sentirem humilhados.
Parentes para herdarem valores.
Agiotas por não receberem dívidas.
Traficantes pelo mesmo motivo.
Credores diversos idem idem.
O assassinato de Estela não se enquadrava em nenhuma dessas possibilidades.
Começou a imaginar ter sido um desconhecido e analisou em suas informações reais e fictícias.
Estranhos geralmente matam para assaltar, para estuprar ou quando são pilhados em tentativa de um simples roubo.
Esse crime também não estava em hipótese alguma dentro dessas classificações.
Drogados ou psicóticos e também pessoas extremamente más, matam sem nenhum motivo, entretanto nesses casos, assim como não tiveram discernimento para não cometer o crime também não teriam para encobri-lo, muito menos plantando provas para incriminar outro.
Decidiu que nenhuma informação por sua vivência ou por conhecimento adquirido levava-o a nenhuma solução, por isso resolveu continuar pensando em ser mesmo o seu suspeito quem a matou, embora ele não a conhecesse e nem tinha motivos para ter tal ódio.
Muitos indícios de ser a pessoa que imaginava ele já tinha, mas faltava o mais importante que era a motivação ou uma prova realmente irrefutável e essa ele não tinha, embora pensasse que no dia seguinte conseguiria, portanto iria dormir e descansar.
Alimentou-se em um restaurante próximo e decidiu dormir o resto do dia e a noite toda, até segunda de manhã, pois se sentia esgotado física e mentalmente.
Infelizmente o cérebro do detetive Miranda não parava de trabalhar e não o deixava adormecer.
Não tinha sequer como acusar seu suspeito, sob pena de ter de amargar um processo por calúnia.
Ficou bastante claro que nas investigações de sábado as pistas deixadas levariam direto ao Dr. Moura que ele imaginava com muita cautela ser mais uma vítima do mesmo assassino e que em breve seria encontrado morto em seu sítio.
Novamente coçou o queixo e a cabeça e decidiu levantar e ir procurar as provas inexistentes no Shopping Conselheiro Arruda.
Foi para lá tentar encontrar testemunhas que viram Estela receber alguém em seu escritório naquela segunda feira dia dezenove de novembro.
Conversou com vizinhos da sala da moça que nada souberam informar.
Apenas uma vizinha cujo escritório fica ao lado disse tê-la visto sair por volta de dez horas.
Informou que ela trancou a porta e inclusive a cumprimentou com ares de quem estava muito infeliz, mas que não soube se ela apenas fora a um rápido café na lanchonete ou se iria embora o que era mais provável devido sua expressão de angustia ou mesmo de dor física.
   Senhor Detetive. Cheguei até perguntar-lhe, se ela estava passando mal.
   Qual foi a resposta?
   Nenhuma. Ou ela não me ouviu ou fez-se de surda para não ter de falar.
   Viu quando ela voltou?
   Não. Saí para meu almoço, para meu lanche da tarde e no final do dia para ir embora e nada mais vi. Pensei: ou ela esteve trancada o dia todo lá dentro ou teria realmente saído pela manhã e não voltado mais.
   Não tentou saber batendo em sua porta para tirar sua dúvida sobre a saúde dela.
   Não. Não somos tão amigas assim. Somente vizinhas de sala e nosso relacionamento, pelo fato de ela ser muito reservada sempre foi restrito a apenas um rápido cumprimento.
   Entendo.
   Como a senhora lembra-se de tudo isso sem sequer serem tão amigas se já passaram dois meses? Não pode tudo isso que me contou ter acontecido em outro dia qualquer?
   Eu sabia que dia dezenove de novembro era a data em que ela comemorava seu casamento. Sempre nesse dia ela enviava-me um pedaço de bolo que ela fornecia aos vizinhos de sala em comemoração a essa data, e foi justamente por ser nesse dia que ela já separada, passou por mim chorando que eu lembrei-me da data, que antes era festiva e passou a ser tristonha, pois ela amava demais o marido dela.
   Tem os filmes de sua câmara de segurança desse dia?
   Não. Pois passamos quase quinze dias sem nossas câmeras de porta funcionando, pois estavam sendo trocadas. Começaram o serviço no dia quinze de novembro e só foram religadas para funcionamento no dia vinte e quatro.
   Então todas as lojas ficaram sem segurança no shopping inteiro todo esse tempo?
   Não. O serviço foi feito aos poucos. De área em área. Atualmente estão terminando o serviço no quinto e último piso.
Nos dias que algumas lojas ficam sem as câmeras funcionando o shopping mantém mais vigilantes armados fazendo a segurança da área, além das câmeras que estão no alto circulando e gravando com uma amplitude maior que as nossas na própria porta da sala.
   Obrigado.
O detetive foi saber em todos os restaurantes e lanchonetes se naquele dia dezenove de novembro foi servido alguma comida ou lanche ao escritório dela e descobriu que ela era freguesa de apenas um deles em todas suas refeições e lanches durante anos. Todos os atendentes a conheciam e informaram que jamais ela solicitou entrega. Sempre ia pessoalmente e desacompanhada fazer suas refeições e lanches. A única exceção era exatamente nos dias dezenove de novembro de anos anteriores em que ela e Dr. Moura encomendavam um bolo para comemorar o aniversário de casamento deles, mas como nesse último dezenove de novembro como ela já estava separada não fizeram a encomenda e ela sequer apareceu no local.
Procurou a administração do shopping e foi devidamente atendido e nos filmes daquele dia das duas câmeras altas próximas a seu escritório nada viu gravado mostrando Estela caminhando pelo corredor, entrando ou saindo de sua sala, pois coincidentemente a seus movimentos, tais câmeras monitoravam outro lugar.
Nos filmes guardados também do restaurante que ela frequentava não foi visto sua presença em momento algum naquele dia, embora ela tenha sido vista pela vizinha, portanto, o detetive imaginou que ela exceto aquela pequena saída, retornado e passado o dia todo dentro de sua sala fechada.
   Não lhe disse detetive? Os funcionários que ficam vendo os filmes no momento de suas filmagens apenas mantêm o foco na mesma imagem quando vêem algo estranho a normalidade, portanto não houve nada que chamasse a atenção deles.
   Sempre acontece assim?
   É claro. Os funcionários são bem treinados e muito atentos e quando percebem algo estranho mantém as câmeras mais tempo no mesmo foco até tirar suas dúvidas sobre o problema, além de imediatamente acionarem os vigilantes armados para tal local.
   Entendo. Nenhum incidente nesse dia?
   Nada de grave. Apenas duas suspeitas, mas ambas foram no último piso e nada de importante, além de uma na garagem.
   Todas as lojas têm câmeras dentro delas?
   Todas as lojas que funcionam com vendas diretas a consumidores sim, mas os escritórios, e os consultórios não têm, pois o fluxo de clientes é pequeno e geralmente eles só são procurados por pessoas já conhecidas, e mesmo que entrar um estranho será realmente para algo lícito, porque não há nenhum produto a ser roubado.
Essas salas só têm as câmeras externas na porta para filmar quem entra e quem sai, a menos que o proprietário coloque algum tipo de monitoramento interno por conta própria e nesse caso o shopping não monitora esses aparelhos que nem sequer sabe da existência.
   Quero ver dentro do escritório de arquitetura de Estela.
   Perfeitamente.
O funcionário administrativo do shopping apanhou a chave mestra que tinha e abriu a porta do escritório de Estela e nele o investigador não encontrou nenhuma câmara instalada, embora tivesse visto em uma prateleira alguns DVDs.
Nada que lhe chamou a atenção, por serem apenas quatro que provavelmente seriam filmes ou músicas que Estela assistia em seus horários ociosos, mas mesmo assim olhou-os e todos tinham um selo escrito: Pertencem a Estela Moura Arquitetura e Decorações. Em dois deles estava escrito “Minha residência” e nos outros dois “Meu escritório”.
O detetive imaginou tratar-se de vídeos usados para o trabalho o que foi confirmado pelo funcionário que a conhecia bem e ele devolveu-os ao armário e a seguir solicitou ao rapaz que o acompanhava.
   Posso ver o tal filme da garagem?
   Vamos fechar o escritório e voltar à administração para eu mostrar-lhe, mas era apenas um homem empurrando um carro e os seguranças lá estiveram e até ajudaram o idoso empurrar seu uno velho que não queria pegar na partida.
   Então não precisa mostrar o filme.
   Como queira.
   Espere. Quero ver sim, pois posso reconhecer o carro que preciso saber se esteve estacionado aqui naquele dia.
   Reconhecer um carro é possível, mas ler suas placas é dificílimo.  
   Então a segurança desse shopping é falha.
   Estamos trocando todo o sistema por outro muito superior. Com resolução de imagens maravilhosas, mas na garagem ainda não foram instaladas nenhuma câmara das novas. Vão começar o serviço só na quarta feira próxima, após terminarem o quinto piso.
   Mesmo assim quero ver um filme de dezenove de novembro.
   Em qual horário, pois se quiser ver todos levaria um dia inteiro.
   Entre doze horas e doze e meia.
   Ok.
Nesse horário escolhido ao acaso o detetive realmente não viu o carro que pudesse identificar como sendo o de seu suspeito e mesmo as imagens não sendo muito boas seria possível vê-lo se ele estivesse lá. Escolheu outros horários, sendo um logo ao iniciar o expediente e outro no da tarde, e novamente não viu o carro de seu suspeito.
Preferiu não perder mais seu tempo e se retirou agradecendo a gentileza do funcionário.
Perdeu sua tarde nessas pesquisas e nada encontrou e por já ser noite, alimentou-se e finalmente foi dormir para iniciar novo dia de trabalho na segunda feira.
oooOooo
Não muito longe dali outra pessoa também tinha permanecido a noite e a madrugada acordada, recordando todas suas atitudes e ardis para esconder seus crimes para ter certeza que não errou em nada.
Rememorou tudo. Desde o planejamento até a execução para o caso de perceber algum deslize que o prejudicaria ainda ter tempo e possibilidade de encobri-lo, ou arrumar um álibi para sair livre de toda investigação que estaria sendo feita.
Lembrou perfeitamente desde o instante que conheceu Estela, até o momento que decidiu dar cabo dela.
Depois se lembrou do planejamento de seu crime perfeito e principalmente da execução sem deixar vestígios que o incriminassem para permanecer impune para sempre.
Recordou:
...Há dois meses no Shopping Conselheiro Arruda quando lá estive de manhã para tomar café, vi encostada em uma pilastra aquela linda mulher que chamou minha atenção na hora, deixando-me ansioso em conquistá-la, embora eu tivesse de voltar rápido do café.
Aproximei-me como se fora ao acaso para tentar minha sempre irresistível cantada, mas percebi que ela olhou-me triste, chorando baixo e muito emocionada, pois as lágrimas escorriam pelas faces e seus soluços, embora baixos, demonstravam imensa dor.
Percebia-se nitidamente que não era dor física, e sim da alma. Era imensa a tristeza estampada naquele rosto angelical.
Estava desesperada e naquele momento o que ela precisava mesmo era de alguém que tivesse paciência em ouvi-la desabafar na tentativa de amenizar sua angústia.
Eu precisaria dar-lhe muito apoio e compreensão para conseguir conquistá-la.
Essa situação forçou-me a mudar meu método de aproximação, pois eu teria de transformar-me em um perfeito cavalheiro, tornando-me seu amigo para ouvir suas lamúrias e confortá-la. 
No estado em que ela se encontrava, mesmo eu sendo um estranho, mas se agisse com sutileza ganharia sua confiança e com certeza ela se sentiria grata por eu estar aproximando-me com um cidadão humanitário com a única intenção de ajudá-la sair daquela melancolia. Passado seu desassossego ela acabaria por entregar-se a mim.  
Como um bom samaritano, com extrema gentileza cheguei até ela e enxuguei-lhe as lágrimas em meu lenço de papel perfumado, dizendo apenas: Não há nenhuma dor no mundo que não possa ser aplacada, ilustre senhora e eu estou aqui para isso.  
Deu certo.
Ela ingênua e carente, humildemente, talvez sentindo em mim um anjo que veio salvar-lhe da aflição, aceitou meu afago singelo sem a mínima objeção e então eu cavalheirescamente levei-a para assentarmos em uma mesa para conversarmos para ela desafogar suas mágoas, pois eu não teria a mínima possibilidade de seduzi-la naquele momento.
Nenhum conhecido viu-me, pois sempre quando alguém me reconhece na rua vem logo puxar conversa e naqueles poucos minutos não houve sequer um cumprimento, mesmo de estranhos.
Conhecidos dela também não tinha nenhum por perto, pois não houve ninguém para dirigir-lhe uma simples saudação ou aproximação para consolá-la, estando ela naquele estado.
Pelo atendimento do garçom ficou claro que ela não frequentava aquela cafeteria, pois não aconteceu o costumeiro cumprimento cordial que eles dedicam aos fregueses tradicionais.
Rapidamente tomamos um café simples e propus-lhe irmos conversar amistosamente em um local menos movimentado e tranquilo, até porque eu não poderia ser visto por ninguém naquela hora e dentro de um shopping.
É claro que eu estava pensando em levá-la a uma bela suíte de motel, e ela, ansiosa por um ombro amigo disse ter seu escritório no segundo piso do shopping e para manter-me atencioso e educado acompanhei-a subindo as escadas rolantes e fomos para lá, sem que eu sugerisse a sonhada suíte.
Muito trêmula ela não conseguiu abrir a porta e eu sempre cortês apanhei seu chaveiro com apenas duas chaves e abri a porta, mas por descuido coloquei-o no bolso sem perceber e ela também.
Uma chave foi usada para eu abrir a porta do escritório e a outra deveria ser de sua residência. E era. Vim saber disso depois.
Entramos e por hábito verifiquei não existir nenhuma câmara filmadora dentro do escritório, assim como já tinha visto que também não existiam na porta da entrada, e passamos o dia todo conversando e ela contando sobre sua separação que fazia pouco menos de um ano e que naquele dia era o dia de comemoração do sexto ano de casamento feliz e por isso sua imensa angústia. 
Ela ainda amava o marido e contou-me tudo sobre Dr. Moura e seu desgosto por ter sido condenado por erro médico e seu abandono a medicina e a própria vida civilizada.
Falou-me que muitas vezes foi ao sítio dele em Valinhos, local em que ele se refugiou para viver apenas de caça por ter sido caçador desde menino, tentar trazê-lo de volta e ele irredutível nunca aceitou seus convites.
Ela disse-me que sempre que o procura só o encontra embriagado, pois aborrecido como ficou com tudo e com todos adquiriu o vício da bebida.
Contou-me que ele emagrecera demais e que ela achava que ele não viveria muito tempo levando aquela vida em total abandono e isso a desgostava demais a cada dia que passava.
Ele havia perdido mais de trinta quilos nesse quase um ano de exílio voluntário, passando a pesar mais ou menos sessenta dos seus mais de noventa quilos habituais.
Seu maior desejo era trazê-lo de volta, mesmo que ele não a quisesse mais.
Isso não mais a preocupava, pois o que ela queria era tirá-lo de lá, pois estava vendo-o morrer a míngua longe da civilização, principalmente sendo um excelente médico que sempre fora.
Nesse momento veio-me uma brilhante ideia, por isso empreguei o artifício de fazer-me o melhor de seus amigos, oferecendo-me em visitá-lo e tentar dissuadi-lo de morar como um eremita no meio do mato.
É lógico que eu não iria fazer isso, mas tinha de mostrar-me prestativo e excelente amigo, para conseguir depois o que de fato eu queria.
Mentindo aleguei ter um sítio naquela região e ela ao indicar-me o local, aconteceu de eu saber exatamente onde era, pois eu conheço toda zona rural de lá como a palma de minha mão, pois quando garoto, morei naquelas imediações e conhecia todos os ranchos e fazendas.
As horas foram passando e nossa conversa que acontecia com muitas variantes sempre voltava ao mesmo tema, sem chance para eu investir em meu desejo.
Nesse dia não dava mais, embora ela já estivesse calma com o decorrer do tempo, entretanto sem possibilidade nenhuma para eu tentar alguma sedução.
Ela ficou tão contente por ter conhecido um perfeito cavalheiro e ter se aberto comigo que com certeza em um futuro próximo se entregaria.
Nesse dia não poderia de forma alguma mudar minha atitude e tentar nada, pois fiquei totalmente sem ação e deixei o tempo passar e a conversa fluir conforme estava, sem sequer lembrar-me do importante compromisso que eu tinha nesse dia pela manhã.
Já passava do meio dia e eu nem a aliciara e faltara com minha obrigação, entretanto encantado por ela continuei ouvindo-a.
Ela falou-me tudo sobre ela.
Que vivia só. Que horas acordava para vir para seu escritório. Que horas voltava. Que permanecia todos os dias trabalhando em casa em seu escritório particular até madrugada para depois dormir e acordar no outro dia e repetir tudo de novo, tentando inutilmente esquecer seu grande amor que se tornara em um fugitivo de sua própria existência.
Disse-me que tinha uma empregada que ia às terças-feiras e sábados fazer a limpeza da casa.
Só faltou dar-me seu endereço, mas mostrou-me dois filmes de sua casa e pelos DVDs descobri onde era, pois tenho um enorme conhecimento de quase todos os lugares de São Paulo.  Sabia exatamente qual era sua bela mansão e onde ficava, pois os filmes mostravam a casa por fora e por dentro, cheia de detalhes dos cômodos e dos móveis internos e externos.
Ela usava tais filmes demonstrativos em sua empresa, para ilustrar seus clientes seu trabalho como arquiteta, decoradora e paisagista.
Por sua esmerada educação e ética profissional ela não exibia casa de nenhum cliente, mas a dela sim, pois além de ser bela era decorada com muito bom gosto. Sua residência era maravilhosa.
Eu estava animado com tal amizade repentina, pois se não fosse nesse dia, com certeza em outro eu conseguiria o que desejava.
Com mais intimidade em nosso relacionamento amigável as conversas seriam outras e as atitudes também, portanto não avancei o sinal, mesmo estando desejando possuí-la ali mesmo em seu escritório.
Apesar de ela já estar serena e liberta de suas tormentas mantinha e portava-se educada e fina, por isso tive de acalmar-me e conservar minha gentileza até o fim.
Seria no próximo encontro que inevitavelmente aconteceria o que eu queria, por isso continuei fazendo todo o esforço possível para conter-me para depois conseguir satisfazer meu desejo que só aumentava com o passar das horas.
Ficamos o dia todo naquela sala fechada sem a presença de ninguém e sequer tive condições ou oportunidade para um único beijo.
Não havia clima para isso e eu tinha de manter o respeito e esperar.
Quando caí em mim já estava próximo de dezessete horas e eu havia abandonado completamente meu sério compromisso, mas valeu à pena tal investimento, pois iria conquistar a melhor mulher que jamais tinha chegado perto.
Falei que precisava ir e ela já aliviada desculpou-se por nada ter-me oferecido para comer e deu-me duas barras de cereal que aceitei, colocando-as no bolso.
Aproximou-se de mim, virando um pouco a face para eu dar-lhe o tradicional beijinho de despedida, dizendo que ficou feliz em conhecer-me e para eu voltar outras vezes.
Foi nesse momento que ela com um esboço de sorriso nos lábios disse-me não ter ouvido de mim nada a meu respeito e que só sabia meu nome porque eu disse na aproximação ser o economista Jorge Azevedo que trabalhava na bolsa de valores. Nome, profissão e afazeres totalmente falsos, pois eu nunca disse meu verdadeiro nome e muito menos minha atividade profissional em minhas conquistas.
Satisfeito com o desfecho desse encontro fui rápido para o estacionamento apanhar meu carro para ir ao meu compromisso esquecido e completamente abandonado.
Quando coloquei a mão no bolso para apanhar a chave do carro, descobri o chaveiro de Estela. Voltei rápido para dentro do shopping e lá mesmo mandei fazer uma cópia da chave que imaginei ser da residência dela para quando eu a conquistasse definitivamente já ter uma para ir procurá-la em sua própria mansão.
Nesse momento imaginava que ela se ainda não tinha gostado de mim logo iria se apaixonar-se.
Subi a escada rolante de maneira normal para não chamar atenção de ninguém e voltei ao escritório dela onde devolvi-lhe seu chaveiro desculpando-me por tê-lo colocado no bolso sem querer, mas não disse ter tirado cópia de nenhuma chave, pois eu não tinha esse direito e muito menos permissão para fazer o que fiz.
Ela agradeceu alegando que sem as chaves até que fecharia o escritório por ter uma cópia guardada no escritório do shopping, mas que não entraria em casa, pois a outra era da residência e por ser o mesmo segredo em todas as entradas só tinha aquela do chaveiro, pois a outra ficava com a diarista.
Novamente nos despedimos rapidamente e ela desta vez não me ofereceu a face, mas mesmo assim eu a beijei.
Fingindo pressa ao afastar-me, propositadamente toquei seus lábios com certa volúpia ao invés do rosto.
Ela afastou-se assustada, mas nada falou.
Dei apenas dois passos e olhei para trás, imaginando vê-la feliz vendo-me afastar, mas enganei-me redondamente.
Ela já tinha entrado e fechado a porta atrás de si de forma brusca.
Pensei que embora ela tivesse se enamorado por mim, ainda queria manter a compostura conseguida durante o dia todo. Em outro dia com certeza seria diferente.
Voei com o carro tentando recuperar meu tempo perdido durante o dia inteiro para meu compromisso, mas cheguei tarde demais e eu nada mais poderia fazer para salvar a situação que eu provoquei devido minha ausência.
Passado a terça feira em que fiquei muito atarefado, no outro dia procurei por ela, pois nesse dia ela quem me consolaria pela perda que tive, pois eu considerava ter sido ela a culpada de meu problema.
Teria de conquistá-la a qualquer custo e rápido para não nos perdermos em conversas fúteis.
Ela me recebeu na porta de seu escritório, pedindo desculpas por ter-me usado na segunda feira talvez até irritando-me em ouvir suas lamúrias, mas não demonstrou nenhum interesse em convidar-me para entrar.
Provavelmente ela tinha ficado um pouco chateada com aquele beijo roubado na despedida e decidiu fazer-se de difícil, por isso agi rápido.
Forcei minha entrada e abracei-a na tentativa de beijá-la com sofreguidão.
Levei uma forte joelhada nos testículos ao mesmo tempo em que um soco no rosto.
Enquanto eu me recompunha de sua imprevista reação, vi que ela já estava com o dedo no botão que aciona o alarme solicitando a presença dos vigilantes.
Nem sei se ela apertou o botão ou se só ameaçou, pois desapareci imediatamente, por que não poderia em hipótese alguma envolver-me em nenhum escândalo, mas cheio de ódio já comecei arquitetar minha vingança naquele momento.
Minha raiva por ela era enorme, primeiro por eu ter passado um dia inteiro com ela e nada conseguido. Segundo por ter tido nesse dia uma enorme perda justamente pela minha ausência, terceiro pela joelhada, pelo murro e pela ameaça de entregar-me aos seguranças como se eu fosse um ladrão ou um tarado qualquer. Por último por que depois de todo esse ocorrido, sabia que ela jamais iria aceitar-me, e por isso decidi que ela não seria de mais ninguém.
Demorei quase dois meses para a conclusão do plano infalível totalmente indecifrável por qualquer investigador.
Lembrei-me muito bem que na segunda-feira tinha procurado ver se dentro do escritório de Estela tinha alguma câmara de segurança e descobri que não tinha absolutamente nada, portanto minha estada lá não foi registrada.
Fui ao shopping para tentar de alguma forma conseguir que a administração mostrasse-me os filmes da hora que entrei e da hora que saí, para assegurar-me se tinha sido filmado pela câmara instalada no teto do andar. 
Para minha sorte soube que estavam trocando todo o sistema de segurança do shopping e naquele corredor não tinha nenhuma câmara ativada, portanto era outro assunto que eu não precisaria me preocupar. Procurei saber se alguma loja havia acionado o alarme solicitando vigilantes e não houve isso, portanto ela só ameaçou-me e consequentemente não deu queixa de mim que provavelmente geraria algum retrato falado.
Ciente que ninguém que me conhece me vira com ela naquele dia, e que não fui filmado em tempo algum poderia bolar meu plano, pois não correria risco de ser descoberto.
Pensei na possibilidade de algum conhecido dela tê-la visto acompanhada de um homem, no café ou entrando em seu escritório, mas eu poderia ser confundido com um cliente ou um amigo qualquer, sem que tal conhecido dela saber descrever-me por ter sido visto rapidamente se fosse o caso.
Tal ou tais pessoas que só a conhecem jamais poderiam delatar-me. Se prestassem algum esclarecimento posterior à polícia diriam tê-la visto com um homem com traje esportivo e de óculos escuros, que por acaso me trajava naquele dia.
Completamente diferente do meu dia a dia cujo traje é social e nunca óculos escuros, pois só os uso quando estou vestido esportivamente e isso é raro.
Só acontece em alguns finais de semana e nunca em uma segunda feira, ou na quarta que me apresentei mais ou menos com os mesmos trajes anteriores.
Esforcei-me para lembrar qualquer possibilidade de ter sido visto e reconhecido e realmente não houve um momento sequer. Na quarta feira minha estada foi rapidíssima e com certeza também não foi vista por ninguém.
No início de minha revolta minha memória estava bastante fresca, pois minha estada naquele shopping tinha sido bem recente, portanto a certeza de não ter sido visto era inequívoca.
Fui mais além e até imaginei que se algum policial esperto verificasse pelas câmeras de filmagem do estacionamento poderia checar todos os carros e jamais encontrariam o meu, pois quando lá estive em ambas as vezes, fui com o carro de minha esposa, pois o meu estava em conserto e só o apanhei no final da semana.
Recordei-me de todos esses fatos, mas nem precisava pensar nesses acontecimentos de dois meses atrás, pois toda investigação geralmente é feita apenas em uns poucos dias que antecedem um crime e nunca em todos os dias anteriores, pois senão a polícia procuraria indefinidamente até chegar dez, vinte, trinta ou quarenta anos antes.  É impossível fazer isso.
Só quando há uma delação ou informação de algum possível suspeito é que vasculharão até muito tempo anterior, mas nesse caso não haverá nem uma coisa nem outra.
Como eu poderia ser suspeito de um crime de uma pessoa totalmente desconhecida, e principalmente por eu não ser nenhum delinquente para ser investigado?  
Nunca saberão que estive lá, portanto se o restante eu fizer com perfeição não me descobrirão nunca, por isso decidi que poderia planejar minha vingança de forma perfeita.      
Conclui que de posse da chave que eu tinha e que abriria todas as portas das entradas, eu deveria invadir pelos fundos, pois pelo filme visto da frente da casa eu já sabia que tinham várias guaritas com guardas armados, portões eletrônicos e câmeras de vigilância, portanto meu plano iniciava em primeiro eu localizar a casa e examiná-la pelos fundos estudando a melhor alternativa para entrar por lá. 
Nada tinha além dos altos muros, mas facilmente alcançados através de árvores plantadas no meio do passeio, que facilitavam a subida.
Deveria aparecer por volta de zero hora, pois não encontraria com ninguém pela tal rua mal iluminada, sem saída e sem ninguém transitando ou sequer vendo-a, e Estela estaria trabalhando em seu escritório residencial, pois eu sabia de todas suas rotinas.
Entraria descalço para não deixar marcas de meu sapato e também para não fazer barulho e iria encontrá-la assentada em uma banqueta almofadada alta e sem encosto, de costas para a porta de seu escritório particular por onde eu entraria silenciosamente.
Tinha visto no filme que mostrava a casa, e memorizei nesse cômodo como estavam dispostos os móveis por ter boa memória e inclusive porque gostei muito dele, pensando na ocasião em modificar o que tenho em minha casa transformando-o ao mesmo estilo do dela, pela beleza, bom gosto e conforto.
Eu a mataria com uma faca de caçador, sem que ela sequer visse meu ataque. Sei muito bem furar órgãos, pois sei exatamente onde se localizam no corpo humano, pois além de ter estudado muito sobre anatomia, quando eu era adolescente trabalhei em abatedouro de animais e tenho pleno conhecimento de como matar e sangrar.
Usaria uma faca machete que perfura qualquer coisa com muita facilidade por ser comprida e dura, ter ponta de baioneta e também por ser muito afiada.
Depois voltaria pelo mesmo caminho, iria até o sítio do ex-marido, matando-o com um tiro no ouvido, colocando a arma em sua mão, simulando suicídio.
Deixo a faca usada em Estela suja com seu sangue, em qualquer lugar perto do morto para ser facilmente encontrada e volto à mansão usando o sapato dele para deixar pistas com terra do sitio dele, além de um punhado de seus cabelos para a mesma finalidade e vou direto para meu trabalho, para não deixar nenhuma suspeita recair sobre mim. Aliás, coisa totalmente impossível, pois nunca tinha visto aquele casal, não pertencia a seu circulo de amizades, não morava perto e jamais tive nenhuma ligação com eles.
Muito simples assim, pois ela estará sozinha e distraída em seu trabalho e não pressentirá minha aproximação tornando as coisas fáceis e o imbecil do ex-marido deverá estar em sono profundo devido a hora tardia e por estar sempre bêbado.
A investigação policial levará a ele que será encontrado morto e a conclusão será que ele por ter se arrependido pelo que fez com a ex-esposa se matou depois.
Não precisarei comprar nenhuma das armas, pois tenho ambas e ninguém sabe da existência delas e assim completarei minha vingança e ficarei impune.
Ele percebeu em suas lembranças, que para executar seu primeiro crime havia cometido alguns pequenos erros e avaliou-os para saber se poderiam ou não identificá-lo.
...Eu tinha planejado a invasão na casa de Estela para quinta feira, para que o corpo já em inicio de decomposição fosse encontrado no sábado pela manhã quando a faxineira aparecesse para seu serviço.
Fui matá-la nesse dia, mas quando estava sobre a árvore para pular para o quintal verifiquei ter um grande canil, não mostrado no DVD do quintal e embora não tenha visto nenhum cão solto, imaginei que eles estivessem em algum lugar e não apareceram por não ter percebido minha presença silenciosa sobre a árvore.
Quando fiz o exame da casa há vários dias para idealizar como entrar não subi na árvore para ver o quintal, pois fora durante o dia e não poderia chamar atenção, por isso não sabia da existência dos animais.
Havia cometido esse erro, mas totalmente corrigível. Bastava voltar no dia seguinte melhor preparado.
Fui embora para voltar na sexta feira com carne envenenada para jogar para eles.
Vacilei novamente nesse momento, pois se tivesse feito algum barulho para chamar a atenção deles para confirmar sua existência teria descoberto que não tinha nenhum animal feroz na casa e faria como planejado na própria quinta.
Isso não alterou nada, pois se ela fosse encontrada dois dias depois, ou apenas um não mudaria nada nos exames laboratoriais.
Apenas perdi tempo para preparar alimento envenenado para matar os cães, antes dela.
Voltei na sexta e nesse dia novamente cometi outro erro, pois os quatro pedaços de carne envenenada não foram consumidos por animal nenhum e tive de apanhá-los na volta. Para encontrá-los perdi mais de meia hora para minha viagem até o sítio e tive de abandonar um pedaço que não consegui encontrar, pois não podia ficar muito tempo procurando-o e com certeza os policiais o encontraram ontem.
Pensei: Será que esse erro me prejudicará?
Conclui que o pedaço de carne encontrado por eles também não me complicará, porque a carne foi manuseada por mim com as mãos enluvadas, portanto sem nenhuma digital.
Absolutamente não me envolveria, pois se tivessem animais mortos eles iriam autopsiá-los e descobririam que foram envenenados, mas com cães mortos ou sem cães isso não identifica ninguém, além de seu marido pelas pistas que deixei.
Todas as provas plantadas serão decisivas contra o Dr. Moura e os policiais vão imaginar apenas que primeiro ele tentou dar fim nos animais.
Pensariam que ele preocupou-se em encontrar cães desconhecidos, pois depois de um ano de ausência na casa isso seria perfeitamente normal.
A carne envenenada seria considerada ter sido jogada por ele e não por outra pessoa.
A morte de Dr. Moura aconteceu melhor do que o previsto, pois ele estava dormindo, totalmente desmaiado pelo excesso de bebida e facilmente eu o assassinei, sem nenhum problema, pois o idiota mantinha em seu sítio apenas cachorros vira latas que não se incomodaram com minha presença.
Nem precisei matá-lo e depois colocar a arma em sua mão. Coloquei-a primeiro, pois ele estava tão bêbado que nem se mexeu na rede onde dormia ao relento, portanto o tiro foi dado com o revolver em sua própria mão, auxiliado por mim é claro.
Toda a pólvora perdida na detonação ficou impregnada em sua mão e isso é uma tremenda prova de que foi ele quem efetuou o disparo em si próprio.
Cometi apenas pequenos deslizes que em nada influenciarão e não encontrarão nada contra mim, por isso vou dormir tranquilo.
oooOooo
Na segunda feira pela manhã, todos os intimados já estavam na delegacia, quando o detetive Miranda chegou.
Cumprimentou-os e se dirigiu ao departamento administrativo.
Conversou com um policial que lhe entregou um grosso livro aberto que ele primeiro folheou-o depois voltou à última página assinando seu ponto.
Em seguida foi à sala do delegado.
Ele já estava presente e com o investigador Júlio colhia o depoimento de Sra. Silvia, amiga, vizinha e dentista de Estela, por isso o detetive ficou assistindo o interrogatório, aguardando seu término.
O que ela falou foi digitado rapidamente pelo escrivão, e era exatamente tudo que já era sabido por todos. Que Estela era uma arquiteta de residências de alto padrão com vinte e oito anos de idade e que ficara casada até um ano antes e que depois disso jamais recebeu nenhum amigo ou namorado em sua residência.
Que o marido após a separação nunca mais foi visto por ninguém nas imediações, pois jamais a procurou.
Que Estela morava nesse local desde que se casou há seis anos e fez muitas amizades entre os adjacentes.
Informou que nunca ninguém de sua família presenciou ou ouviu briga do casal e mesmo sendo muito amigas, Estela nunca se queixou nem antes nem após o divórcio referindo-se em ter sido ameaçada pelo marido que sempre foi um excelente homem, ou por qualquer outra pessoa.
Disse que por Estela ser muito reservada em sua vida pessoal nunca falou a causa da separação, pelo menos para ela.
Que ela em sua profissão não fizera nenhuma inimizade, pois era um serviço ao qual só conseguia amigos e nunca inimigos, por isso não teve conhecimento de ninguém que pudesse odiá-la para fazer o que fizeram com ela.
O detetive Miranda assistiu até o final desse interrogatório e depois se dirigiu ao delegado falando que precisaria ficar afastado pelo menos no período da manhã e ao receber permissão saiu apressado da sala, quase trombando com Dona Rute que vinha entrando por já ter sido chamada.
Cumprimentaram-se e ele saiu para a rua e ela entrou na sala do delegado.
Ao interrogá-la o investigador Júlio a fez confirmar que tinha sua própria chave para entrar na casa de Estela, e que era a mesma que recebeu desde quando começou trabalhar como faxineira do lugar, portanto a assassinada Estela não se deu ao trabalho de trocar o segredo da fechadura após o divórcio, por isso seu ex-marido passou a ser, como Dona Rute, outro suspeito, pois não houve arrombamento.
Era certo que o assassino havia entrado, abrindo a porta e fechando-a quando saiu, pois Dona Rute disse tê-la encontrada trancada quando chegou pela manhã.
Como ela era considerada suspeita do crime todas as perguntas que lhe foram dirigidas eram com o intuito de ela informar com exatidão toda sua movimentação durante o dia de sexta até o sábado pela manhã.
Ela respondeu sem hesitar e apresentou seu álibi que depois seria verificado pelo investigador Júlio.
Nesse momento entrou um agente na sala do delegado, avisando-o que a polícia de Valinhos telefonou informando que encontrou o sítio de Dr. Moura e ele morto com um tiro no ouvido e uma arma na mão.
Que estavam trazendo o corpo e todas as provas não só do suicídio como também uma faca suja de sangue, que provavelmente teria sido usada para matar Estela.  
Mesmo com a provável elucidação do crime da meia noite e dois minutos, como ficou conhecido pela mídia, o competente e zeloso delegado mandou que o investigador Júlio fosse checar o álibi da faxineira e dispensou as demais pessoas avisando-as que se preciso fosse ele novamente as convocaria.
Ao visitar o bairro em que Dona Rute morava, o investigador Júlio interrogou sua filha, seus netos e seus vizinhos que declararam que ela permaneceu na sexta feira passada desde as dezenove horas quando retornou de sua faxina até vinte e uma horas fazendo os afazeres domésticos em sua residência. Depois foi para seu emprego noturno onde é babá de dois filhos de um casal de empresários.
Ele já tinha os endereços de ambos os locais e confirmou com a patroa diurna a permanência de Dona Rute na sexta-feira durante o dia todo fazendo seu trabalho que durou até dezoito horas.
Sua empregadora noturna admitiu sua chegada às vinte e duas horas e garantiu que ela permaneceu toda a noite no quarto de seus filhos gêmeos.
Informou-lhe que o trabalho dela é apenas ficar com os meninos durante a noite, pois um deles tem um problema cardíaco que é conhecido como sopro diastólico e eles têm medo do menino dormir sem a presença de um adulto para prestar-lhe socorro até que sare por si só, ou que seja indicada uma cirurgia corretiva da válvula cardíaca defeituosa quando estiver maior.
Como as crianças já estavam na pré-adolescência, não davam trabalho e ela dormia a noite toda, o que lhe era possível trabalhar durante o dia em faxinas, pois sempre estaria descansada e com disposição para tal jornada dupla de trabalho.
Nessa averiguação, uma das crianças que já tinha nove anos e estava presente falou ao investigador:
   Senhor policial. Tenho certeza que a vovó Rute esteve em minha casa a noite inteira, porque ela ficou lendo um livro religioso para nós até meia noite quando mandou-nos dormir. Acordei depois e a ouvi roncando em sua cama que fica no mesmo quarto meu e de meu irmão. Não só a ouvi como a vi, pois ela dorme com um abajur aceso ao lado de sua cama.
O agente Júlio perguntou à empresária com certa rispidez.
   Esses meninos ficam até tarde acordados?
   Só de sexta para sábado e de sábado para o domingo, pois não têm de acordar cedo para escola, por isso eu permito que fiquem com Dona Rute até mais tarde, nos finais de semana, sendo doutrinados por ela no ensino religioso.
   Então ela passou mesmo a noite toda aqui?
   Sim e só saiu por volta de seis horas da manhã para ir direto a residência da arquiteta.
Tudo confirmado e Dona Rute deixou de ser considerada suspeita, pois o único tempo em que ela não foi vista pelas empregadoras fora das dezoito horas às vinte e duas.
Essas quatro horas evidentemente foram usadas na viagem do trabalho diurno para sua residência, seus serviços rotineiros em sua própria casa e sua ida para o trabalho noturno.
O investigador Júlio havia cronometrado e o tempo gasto foi de setenta e três minutos em ambas as viagens.
Como Dona Rute não tinha carro e dependia de ônibus ou metrô, realmente sobrou pouco tempo para ficar em sua casa, evidenciando não ter havido a mínima possibilidade em momento algum de ter ido até a mansão de Estela, a não ser mesmo no sábado pela manhã conforme dissera.
A constatação de que a morte da arquiteta acontecera bem próximo da zero hora, confirmava plenamente o álibi dela, por estar repleto de testemunhas que ela esteve a noite toda com os meninos gêmeos, desde vinte e duas horas da sexta até o dia de sábado ao amanhecer.
O detetive Júlio fez seu relatório confirmando o álibi de Dona Rute e foi para sua casa, pois já era noite quando terminou seu documento.
Mesmo assim quando ele se preparava para dormir, ainda pensou na possibilidade de ela ter saído as dezoito horas de seu emprego diurno, ter ido até a mansão de Estela esperando-a dentro da casa, matando-a assim que ela chegou e ido para seu emprego noturno chegando as vinte e duas horas.
Pensou muito nessa possibilidade e chegou a conclusão de que para isso, a filha, os netos e os vizinhos da faxineira seriam todos seus cúmplices, pois alegaram que ela esteve em sua casa entre dezenove e vinte e uma horas. Concluiu que se eles tivessem de fato mentido, o crime poderia ter sido conforme ele pensara.
Sabia que ela não teria como levar a faca com a qual assassinou Estela até o rancho do ex-marido, mas concluiu que a faca suja de sangue encontrada no sítio poderia estar suja com o sangue de algum animal morto pelo médico e não ser a mesma usada para assassinar Estela.
Que o Dr. Moura teria coincidentemente suicidado, naquela mesma madrugada, por qualquer outro motivo.
Continuou pensando e lembrou-se que Dona Rute não apareceu nos filmes da câmara de segurança entrando na casa pela frente, mas ela poderia ter pulado o muro por trás.
Imaginou-se tremendamente esperto e iria solucionar esse caso mais rapidamente e com mais acerto que seu colega detetive Miranda, se aprofundasse em seus pensamentos e conseguisse uma prova que foi Dona Rute a homicida.
Tudo que pensou poderia ser possível, mas não conseguia imaginar como aqueles fios de cabelos encontrados, que pelo tamanho pareciam ser de homem. Por fim, concebeu que eles poderiam estar no quintal ao acaso e não ser de nenhum dos envolvidos.
Lembrou-se que Dona Rute não teria a mínima necessidade de invadir a casa pelos fundos em duas noites seguidas jogado veneno para os cães que ela sabia não existirem, mas imaginou que ela teria feito isso exatamente para iludi-los.
Mesmo que ela estivesse mentindo não saber onde era o sítio de Dr. Moura, jamais chegaria lá para assassiná-lo e voltar, não tendo nenhum meio de locomoção motorizado para fazer o percurso, entretanto ela não precisava ir, pois só queria matar Estela e isso ela já havia feito. 
Seus pés eram muito menores que as marcas encontradas, mas detetive Júlio justificou a si próprio que ela poderia estar calçada com algum sapato de homem para deixar as pegadas grandes que a deixariam fora de suspeitas.
E as marcas encontradas sem sapato? Também foram deixadas por pés maiores que os seus.
Concebeu que ela poderia ter colocado meias maiores que seus pés, com enchimentos na frente para deixar as marcas sem sapatos, também grandes.
Estava cansado e resolveu dormir para no outro dia continuar com suas brilhantes conclusões para mudar seu relatório e incriminar a faxineira.
Bastou cair no sono por duas horas para acordar parodiando seu colega detetive Miranda, gritando consigo mesmo.
   Deixe de ser idiota Júlio. Só pensou absurdo. A Dona Rute não tem nada a ver com esse crime. Seu álibi é totalmente correto, consistente e convincente. Continue dormindo que amanhã terá que pensar mais e melhor para descobrir o verdadeiro assassino, se é que não foi mesmo o ex-marido.
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O detetive Miranda após ter saído naquela manhã da delegacia dirigiu-se a um hospital próximo ao Shopping Conselheiro Arruda, e conversou com o atendente que estava de plantão na portaria.
Eles verificaram na tela do computador o registro de internações e constataram que às oito horas e cinquenta e cinco minutos do dia dezenove de novembro anterior, a senhora Sônia Cruz Sant’Ana de Assis, entrara para uma cirurgia estética para diminuição de seios a ser realizada às dez horas e trinta minutos.
O detetive sabia que tal operação era uma exigência do marido, por que ele os achava muito volumosos para seu gosto.
Verificou o nome e a assinatura do responsável pela internação e viu que fora o próprio esposo que a levara.
Em seguida perguntou ao rapaz:
   Você sabe me dizer se o marido acompanhou a esposa durante a operação e também depois dela?
   Eu nem os vi, porque nesse dia eu não trabalhei. Foi minha folga, mas está registrado que a senhora Sônia veio a óbito no mesmo dia às doze horas e cinquenta e seis minutos por complicações após a intervenção cirúrgica.
   O que consta como causa da morte?
   Choque anafilático.
   Dentro de um hospital deixaram-na morrer?
   Deve ter acontecido de ela ter passado mal em seu apartamento e seu acompanhante não tendo percebido não solicitou socorro com tempo suficiente para salvá-la.
   Também pode ser que ele estivesse ausente quando ela começou passar mal?
   Sim. Pode ter acontecido isso, mas não creio, pois consta que a remoção do corpo foi feita por ele próprio às dezessete horas e vinte e três minutos, portanto há de se concluir que ele esteve presente o tempo todo. O mais provável é que ele se distraiu ou dormiu na cama ao lado não percebendo os sintomas da mulher que por si só não teria condições de pedir socorro, ao começar as convulsões causadas pela falta de ar do choque que ocorreu por forte alergia aos medicamentos após a cirurgia.
   Não há como saber se o marido ausentou-se ou não?
   Sem a mínima possibilidade, porque ele só assina para entrar recebendo seu crachá de circulação livre dentro do hospital. Pode entrar e sair não só do apartamento do paciente como do próprio hospital bastando para isso que mantenha sempre o crachá consigo. Quando voltou da rua, caso tenha saído, bastava exibir o crachá na entrada e voltar ao apartamento sem que ninguém saiba que hora saiu ou que hora entrou.
   Então não consigo de forma nenhuma saber se o marido ficou o tempo todo com ela ou se ausentou o dia inteiro só voltando no final da tarde, encontrando-a morta, por exemplo?
   Não há a mínima possibilidade de descobrir isso a não ser perguntando para ele.
   Quando eu fizer isso a resposta será de que permaneceu o dia todo ao lado da esposa e que não a viu morrendo, porque estava concentrado e de olhos fechados orando fervorosamente para ela.
   Com certeza ouvirá qualquer coisa parecida com isso.
   Muito obrigado e me diga onde fica a administração.
   Espere um momento, pois no fichário do computador consta qual foi a enfermeira que a encontrou agonizando e ela está aqui hoje.
   Sabe quem foi?
   Sei. Foi Dona Rute.
   Dona Rute? É impossível?
   O senhor a conhece?
   Sim, mas a vi agora pouco na delegacia.
   Deve ser outra com o mesmo nome, não acha detetive?
   Pode ser. É provável.
   Procure-a na enfermaria do quinto andar e converse com ela. Fica ao lado esquerdo da saída do elevador.
   Obrigado.
O detetive foi ao andar informado e procurou pela enfermeira Dona Rute, encontrando-a. Tratava-se realmente de outra pessoa totalmente diferente de sua já conhecida Dona Rute.
Apresentou-se à ela, e após sua pergunta foi informado, que ela lembrava dos fatos acontecidos naquela cirurgia em que a paciente faleceu, pois mortes nesse hospital sempre foi coisa rara.
Ela lhe contou que ao ir aplicar-lhe alguns sedativos, encontrou-a agonizando.
Outros enfermeiros que ela solicitou, transferiram-na para a UTI, mas que foi impossível salvá-la, pois estava muito mal e sem possibilidade de ser salva.
   Os procedimentos executados foram...
   Não preciso saber o que fizeram. Quero saber da senhora se o marido estava no apartamento na hora que a senhora a encontrou.
   Não tinha ninguém. Ela estava só.
   E o marido estava onde?
   Não sei. Deve ter-se ausentado para seu almoço. Talvez.
   Quando iniciam as convulsões causadas por choque anafilático o tempo para socorro pode ser demorado ou a pessoa deve ser socorrida com urgência?
   Sempre com a maior urgência possível, mas em muitos casos salva-se uma pessoa, mesmo que demore algum tempo a ser socorrida e o contrário também é possível. Alguns choques são fulminantes e mesmo que a assistência seja muito rápida a pessoa pode ir a óbito.
   Nesse caso?
   Não se sabe se foi fulminante sem possibilidade de perder tempo ou se foi a demora no socorro que impediu a cura.
   Não dá para saber?
   Não.
    A senhora tem certeza que o marido estava ausente?
   Absoluta, pelo menos no momento em que a encontrei agonizando.
   E durante o tempo em que ela ficou na UTI ele esteve lá?
   Isso não sei, pois meu trabalho é só nos apartamentos e após eu encontrá-la, apenas informei a necessidade de transferência para a emergência e nada mais soube a não ser sua conclusão final que está registrada como sendo óbito.
   Então não dá para saber se o marido acompanhou-a ou não na UTI?
   Acompanhar eu tenho certeza que não, pois lá não é permitido acompanhantes. Se ele esteve foi do lado de fora e nunca dentro das salas de socorro.
   Que horas foi mesmo que ela faleceu?
   Deixe-me verificar e ler todos os registros no computador para o senhor. Qual era o nome completo dela detetive?
   Sônia Cruz Sant’Ana de Assis.
    Encontrei. Aqui tem tudo registrado. Ela não tem o mesmo sobrenome do marido? Estou vendo o nome dele e não tem o sobrenome Assis.
   Eles não eram casados oficialmente.
   Então é isso.
   Aqui consta         que ela foi internada por ele as oito horas e cinquenta e cinco minutos no dia dezenove de novem...
   Tudo isso eu já sei, pois o atendente lá fora já me informou. Quero que leia o que aconteceu só depois que a senhora a achou?
   Tudo bem. A técnica de enfermagem Rute Almejara de Albuquerque encontrou a paciente inconsciente aparentando ter sido acometida por choque anafilático, às doze horas e vinte e cinco minutos, e enviou-a urgente para a emergência, mas embora os médicos Doutor Claudio Rokart, Ana G. Souza Lins Almeida e Cristofen Rud tenham tentado vários medicamentos e procedimentos diversos não houve condições de reverter a situação e ela faleceu ás doze horas e cinquenta e seis minutos.
A causa da morte foi choque anafilático seguido de e o corpo foi entregue ao esposo que a retirou para a funerária às dezessete horas e vinte e três minutos. Só tem isso registrado.
   Bastante resumido e não esclareceu nada do que eu quero.
    O que o senhor quer saber exatamente?
   Se o marido esteve o dia inteiro no hospital, ou se a internou pela manhã e voltou no fim da tarde apenas para retirar o cadáver, por exemplo.
   Não dá para saber nada disso, pois nossa preocupação sempre é somente com o paciente e nunca com os acompanhantes, a não ser em casos esporádicos quando eles próprios têm algum problema de saúde e também precisamos socorrê-los, o que não foi o caso, senão estaria registrado.
   Pela sua experiência dá para saber se uma pessoa seria salva se fosse socorrida imediatamente após o início das convulsões?
   Já lhe falei sobre isso. Geralmente sim, mas algumas vezes a alergia é tão forte, que provoca um trauma tão violento que por sua vez desencadeia outros problemas até mais graves e então não há jeito, mesmo que o socorro seja muito rápido.
   Com Sônia seria possível salvá-la?
   Quando a encontrei não sei se ela começou passar mal pouco antes de eu chegar, ou se já fazia algum tempo. Aliás, nem podia ser a muito tempo, pois conforme registro estou vendo que ela chegou da cirurgia às onze horas e trinta e cinco minutos. Até que a colocaram na cama e aplicaram os primeiros medicamentos, ela ficou com os enfermeiros até bem próximo de meio dia, portanto se esteve sem acompanhante, o tempo que ela permaneceu sozinha foi somente de meio dia até meio dia e vinte e cinco minutos, quando eu a encontrei já muito ruim. Para ser sincera ela já estava morrendo, pois de acordo com os registros, coisa que eu nem sabia, desencadeou outros problemas graves, que no caso foi um .
   Significa uma grande hemorragia interna não?
   Exatamente.
   Ela pode ter ficado totalmente abandonada durante quase meia hora e se aconteceu o problema logo ao meio dia e alguém estivesse presente e chamasse socorro poderia não evoluir para a hemorragia ela ser salva ou não?
   Como já lhe disse na maioria das vezes a cura é totalmente possível, mas as vezes não, mesmo o atendimento tendo sido super-rápido.
   Resumindo tudo que conversamos. Ela poderia ser salva ou vir a falecer dependendo do choque ter sido fulminante ou não, mesmo que tivesse sido atendida de imediato?
   Correto.
   E nesse caso específico sabe-se que ela foi encontrada sozinha, mas é impossível saber se o acompanhante ausentara-se por pouco ou por muito tempo?
   Também correto.
   Então não descobri nada.
   Nem sei exatamente o que o senhor quer descobrir sobre nosso procedimento com ela.
De forma grosseira e quase gritando o detetive falou:
   Sobre ela e sobre o hospital não quero saber coisa alguma. Apenas pretendo descobrir se o esposo dela esteve aqui durante o dia inteiro em dezenove de novembro?
A resposta foi no mesmo tom de agressividade, tornando o restante da conversa bastante desagradável:
   Porque não perguntou antes se é só isso que quer saber?
   Então diga logo o que sabe? O que tem a me falar sobre isso?
   Absolutamente nada.
   Então passe muito bem e obrigado. Até nunca mais.
   Grosso.
   Já estou com quase cem quilos e espero ficar mais grosso ainda.
   Adeus, policial. Espero que se enfartar não venha para esse hospital.
   Por quê? Você me mataria antes do tempo?
   Não. Pelo contrário. Faria de tudo para recuperá-lo para viver mais alguns anos cheio de sequelas.
Totalmente desanimado por não ter conseguido o que pretendia, o detetive Miranda saiu falando alto, mas desta vez não era mais com a enfermeira. Era consigo mesmo.
Não voltou à delegacia, pois foi direto ao necrotério conhecer o defunto e lá se encontrou com Dona Rute que nesse dia por ter ido prestar depoimento não foi ao seu trabalho de faxina em casa de ninguém e por saber que encontraram o corpo de Dr. Moura foi visitá-lo.
   O que a senhora faz aqui?
   Vim ver o Dr. Moura e rezar pela alma dele.
   Reze por mim também, pois a pouco me jogaram uma praga.
   Quem foi?
   Dona Rute.
   Eu não. Até que gosto do senhor.
   É a outra. A rabugenta da enfermeira.
   Entendo.
   Está parecendo comigo.
   Por quê?
   Porque uso muito essa expressão, quando não entendo nada do que me dizem.
   Diz entende, quando não entende nada?
   Exatamente.
   Entendo.
   Ele estourou os miolos com uma arma bem potente. Veja que entrou pelo ouvido e saiu por cima da cabeça.
   Muito estranho ter acontecido assim, senhor policial.
   Caio ou Miranda ou detetive. Esqueceu? Mas o que está achando estranho no suicídio do homem?
   Duas coisas que confirmam o que o senhor já me falou.
   O que eu lhe falei?
   Que ele seria assassinado.
   O que você tem a falar sobre isso?
   Que ele nunca teve uma arma pequena como revólver, pelo menos nos anos em que morei com eles. Só usava espingardas para a caça e facões.
   E a outra coisa?
   Que o tiro foi em seu ouvido direito e como ele era canhoto o tiro foi dado com a mão errada.
   Tenho que dar um jeito de fazer o filho da puta confessar. Só assim consigo provar que os dois crimes foram cometidos por ele.  Para ser mais claro, acho... Acho não. Tenho forte suspeita que ele matou uma terceira pessoa para se esconder plenamente. Não tenho como provar nada. Ele cometeu muitos erros, mas não deixou nenhum vestígio que o incrimine diretamente. Tirou de sua frente qualquer sinal ou testemunha que o poderia incriminar.
   Diga-me claramente quem o senhor acha que foi para eu tentar ajudá-lo, antes que todo mundo seja assassinado por esse seu amigo serial.
   Porque disse meu amigo?
   Porque tudo que fala dele passa-me essa impressão.
   Está sendo muito astuta.
   Obrigada pelo elogio. Meu ex-marido também me achava bem esperta. Alias, foi por isso que se separou de mim.
   Sinto muito por sua separação Dona Rute e também por não poder falar quem é o meu amigo assassino em série.
Não posso falar nada para ninguém. Só mesmo para meu amigo e é o que farei depois de amanhã para fazê-lo confessar seus crimes.
   Então concorda que o assassino é seu amigo?
   Quem lhe disse que é meu amigo?
   O senhor acabou de falar na frase anterior. E como vai fazê-lo confessar sem nenhuma prova?
   Ainda hoje vou verificar mais uma coisa e amanhã outra, mas dê no que dê vou falar claramente com ele e exigir sua confissão.
   Não é perigoso para o senhor? 
   Não tenho mais nenhuma alternativa e não posso permitir que todas as provas depois de analisadas pelo laboratório leve a opinião pública, os jornalistas e as autoridades aceitarem que foi o marido que matou a esposa e depois suicidou, pois tornará tudo muito mais difícil para mim. Tenho de agir antes de acontecer isso.
   E a terceira pessoa assassinada?
   Ela aparentemente não tem nada a ver com o caso, portanto aparecerá morta sem nenhuma ligação e ficará como um crime qualquer insolúvel.
   O senhor disse que ela aparecerá morta?
   Sim. Foi o que eu disse respondendo-lhe sua pergunta.
   Não fiz a pergunta de forma correta. Eu gostaria de saber se o senhor usou o feminino, referindo-se a uma pessoa que poderá ser de qualquer sexo, ou se referiu a uma mulher.
   A uma mulher.
   Obrigada.
   A senhora é muito ardilosa. Está tirando-me informações secretas e eu sem prestar atenção vou falando. Não quero mais conversar com a senhora. Passe bem.
   Boa tarde detetive e até qualquer dia.
O detetive despediu-se de Dona Rute, foi até a rua parou um táxi e pediu ao motorista para levá-lo à delegacia.
oooOooo
 
Chegando lá o detetive Miranda procurou pelo delegado Ataíde Santoro e conversaram:
   Doutor preciso de sua permissão para visitar o sítio do médico em Valinhos. Posso ir amanhã logo cedo?
   Não imagino por que precisará ir lá.
   Recolher algumas provas.
   Mas já trouxeram tudo. O corpo do médico que se suicidou, seu revólver e o facão que assassinou Estela.
   Creio que encontrarei mais coisas.
   Para aumentar as provas contra ele?
   Talvez não contra ele.
   Contra quem então?
   Eu creio que ele não foi o assassino da esposa e que nem tenha cometido o suicídio.
   Tudo indica que sim. Devemos aguardar os resultados do laboratório. Se os cabelos encontrados por você no quintal da morta for dele, o facão sujo de sangue encontrado no rancho for o sangue de Estela deixa claro que ele a matou não acha? A arma encontrada em sua própria mão suja com a fuligem da pólvora do revólver permitirá qualquer legista afirmar que foi ele quem atirou em si próprio.
Se for confirmado também que ele morreu horas depois dela fica bem claro também o arrependimento, ou a loucura sei lá, levando-o ao suicídio.
   Eu quero entender melhor outra situação.
   Qual situação?
   Ainda não posso afirmar nada, mas após minha ida lá farei meu relatório.
   Ok. Então vá.
   Preciso que o agente Euclides vá comigo. Pode ser?
   Chame-o aqui em minha sala para eu falar com ele. Chame também o motorista Robson para eu avisá-lo para levá-los.
Rapidamente detetive Miranda chamou os colegas agentes e eles tiveram permissão do delegado para irem até o sítio em Valinhos, após informá-los para procurarem o delegado de lá, chamado Piero Assunção Neto para que ele lhes ensinasse o caminho.
O detetive agradeceu, combinou com os colegas para no dia seguinte encontrarem-se em frente a mansão da falecida às oito horas da manhã e após a saída deles da sala voltou a dirigir-se ao delegado.
   Preciso o restante da tarde para verificar outra coisa. Estou dispensado?
   Pode ir detetive, mas está trabalhando muito nesse caso. Não precisa tanto desgaste, pois todas as evidências estão deixando tudo muito claro. Basta aguardarmos os resultados do laboratório para tudo se encaixar e o caso estará resolvido.
   Pode ser, mas ainda tenho muitas dúvidas.
   Fique a vontade e vá a caça desse assassino misterioso que você acha que sabe quem é e boa sorte.
oooOooo
Durante a tarde detetive Miranda fez o que pretendia e no dia seguinte os três agentes viajaram até Valinhos e procuraram o delegado Piero.
Ele se prontificou em mandar alguns homens em outra viatura, mas o detetive solicitou que fosse apenas um que soubesse o caminho corretamente, que tivesse estado no sítio quando encontraram Dr. Moura e que fosse no carro deles.
Foi convocado o investigador conhecido como detetive Souza para acompanhá-los.
Na viatura de São Paulo, enquanto o detetive Souza orientava o caminho ao agente Robson ia conversando com o detetive Miranda que lhe perguntou:
   Detetive Souza. O sítio fica longe daqui?
   Depois de sairmos da cidade uns vinte e cinco minutos em estrada de terra.
   Quanto tempo andaremos antes da tal estrada?
   Dez minutos no máximo, para atravessar a cidade.
   Então de sua delegacia até lá demoraremos pouco mais de meia hora?
   Correto.
   Mais uma hora e meia desde nossa saída de São Paulo, exatamente de frente a casa da morta, posso concluir que da casa dela até o sítio demora-se duas horas.
   Se você marcou o tempo de lá até aqui, sim.
   Cronometrei até a delegacia de vocês. Deu uma hora e vinte e oito minutos.
   Por que essas contas?
   Para saber que horas o Dr. Moura foi assassinado.
   Mas ele não foi assassinado. Ele suicidou-se.
   É o que dizem.
   É o que ficou bem claro. Estive lá e vi a arma em sua mão. A pólvora do disparo ficou impregnada nela. Está em nosso relatório e deverá ser confirmado pela necropsia.
   Na mão err...Deixa prá lá.
   Robson ali na frente uns duzentos metros a esquerda tem a saída para a estradinha de terra que nos levará lá. É só seguir em frente até o final. Tem várias entradas para outros sítios, mas o dele é o último onde a estrada acaba exatamente na porta da casa.
   Detetive Souza. Informe-nos quando passarmos em frente ao sítio anterior ao dele, para que Robson vá devagar, para eu e o Euclides procurarmos marcas de pneus de carro que tenha ido até lá antes de vocês.
   Em todo o caminho só encontrarão marcas das nossas viaturas, pois fomos e voltamos em três carros grandes na madrugada de ontem.
   Para que tanta gente para pegar um só?
   Porque de sua delegacia disseram que ele era muito perigoso e que deveríamos tomar cuidado.
   Quem deu essa informação?
   Foi a agente de vocês chamada Miriam.
O detetive Miranda imediatamente telefonou e conversou com a agente Miriam, perguntando-lhe como foi o recado que ela deveria passar ao delegado de Valinhos e ela respondeu.
   O doutor Ataíde pediu-me que ligasse à delegacia de Valinhos e solicitasse que procurassem e prendessem o Dr. Aloísio Moura que tem um sítio e mora sozinho nele com alguns cães velhos há pouco menos de um ano, pois era suspeito de ter assassinado sua ex-esposa.
   Essas foram as palavras do delegado?
   Sim. Por quê?
   Porque aqui disseram que você falou para tomarem muito cuidado, pois ele era muito perigoso.
   Falei alguma mentira? Quando o delegado pediu-me para enviar o recado a Valinhos, estava conversando com o investigador Júlio e outros agentes e contaram para nós como o médico monstro matou a ex-mulher por isso não tive nenhuma dúvida de sua violência.
   Por que não transmitiu o recado exatamente como foi pedido?
   Fiquei preocupada com a segurança de nossos colegas daí, por isso pintei o indivíduo como se fosse o inferno todo e não só um capeta.  
   Entendo. Obrigado e passe bem.
Quem entrou na conversa foi o papiloscopista Euclides, falando para o investigador Souza.
   O cara era realmente um demônio. Você nem imagina o estrago que fez na mulher.
   Era tão perigoso que destruiu a si próprio com um belo balaço no ouvido.
   Euclides. Acha que encontrará alguma marca de pneus de carro pequeno na estrada?
   Detetive Miranda. Se sua vontade era de encontrar marcas de pneus no caminho, podemos voltar, pois nada encontraremos. O chão está muito seco e cheio de poeira. As viaturas de Valinhos destruíram todas as marcas de carro que tenha passado aqui antes deles.
   Isso eu já sei, assim como agora sei também que suas botas destruíram qualquer pegada deixada próxima a casa na madrugada de sábado.
Quem respondeu foi o detetive Souza.
   É outra coisa que com certeza aconteceu.
Alguns minutos depois, detetive Souza falou:
   Estamos quase chegando. A casa em que encontramos o suicida é aquela lá na frente. Dá para ir de carro até sua entrada.
Viemos devagar e atentos, mas como ninguém nos ameaçou chegamos até a porta e já vimos o morto em sua rede, com alguns cachorros velhos e dóceis latindo ao redor dele.
   Entendo.
Ao chegarem o agente Euclides mostrou ao detetive Miranda as marcas dos solados das botas dos vários agentes de Valinhos, espalhadas por todo o pátio e dentro da casa.
   Detetive Souza onde foi encontrada a faca suja de sangue?
   Logo aqui perto da rede mesmo. Em cima dessa banqueta. Ele nem se deu ao trabalho de sumir com ela e a recolhemos para análises e devemos encontrá-la com suas digitais.
   Tenho certeza que não terá nenhuma digital. Nem dele nem de ninguém.
   Eu soube que ele fez tudo na mansão da ex- mulher sem deixar marcas, mas quando chegou aqui decidiu se matar e não escondeu mais nada.
   É isso que me dá certeza de que não foi ele quem matou Estela.
   Então quem foi?
   Foi um doido que não posso acusar formalmente porque não deixou um único vestígio. Eu pensei que aqui eu pudesse encontrar algo, mas a enorme quantidade de homens de sua delegacia destruiu qualquer possível pista dele.
Após falar isso, o detetive afastou-se dos colegas, coçou o queijo, depois a cabeça e fechou os olhos falando alto, mas nada que pudesse ser entendido pelos outros, motivo com que fez seu colega detetive, além de rir perguntasse ao motorista Robson:
   Em que língua ele está falando?
   Desta vez acho que nem ele mesmo sabe.
   Sempre dá isso nele?
   Só quando está pensando.
   Cada louco com sua mania.
   Mas esse maluco não é nada doido. Tem seus cacoetes, mas descobre qualquer crime considerado insolúvel por toda a polícia. Ele é o maluco certeza.
   Não seria maluco beleza que você quis dizer?
   Não. É certeza mesmo. Ele acerta tudo e acho que quando sair desse transe virá com alguma grande ideia.
Veja detetive Souza. Ele está abrindo os olhos. Deve ter visto algo muito importante.
   Com os olhos fechados ele vê alguma coisa?
   Dentro de seu cérebro sim.
O detetive Miranda gritou aos colegas de onde estava olhando para a estrada.
   Venham cá, todos vocês.
Detetive Souza. Vocês vieram em vários homens armados para prender um único indivíduo por isso chegaram com as viaturas até aqui no pátio. Estou certo?
   Completamente.
   Diga-me se viesse apenas você teria toda essa coragem?
   É claro que não. Viria sem o veículo, devagar e com cuidado para surpreendê-lo.
   Então seu carro seria deixado longe o suficiente para ele não perceber sua aproximação. Não é isso?
   Exato.
O detetive perguntou aos outros dois agentes:
   Vocês fariam o mesmo se estivessem sós?
   Positivo.
Responderam os outros dois agentes.
   Então vamos à estrada procurar onde o homicida deixou o carro para vir a pé até aqui matar o médico. Tenho certeza que foi embaixo de uma árvore que vi antes da curva que vem para cá. Vamos lá. Fica mais ou menos uns trezentos metros daqui.
Os quatro agentes foram a pé voltando pela estrada até próximo a uma árvore frondosa que o detetive mostrou. Ela ficava distante da casa o suficiente para o criminoso parar sob ela e vir a pé sem fazer barulho em sua vinda.
   Todos nós paramos aqui e vai só o Euclides descobrir quais foram as marcas que ele deixou lá.
Na volta o papiloscopista chegou repleto de informações.
   Encontrei não muito nítido, mas vi marcas de pneus embaixo da árvore conforme você pensou Miranda.
Para estacionar sob ela o carro deixou a estrada a direita andando uns dez metros fora dela e as viaturas passaram direto não desfazendo das marcas que ficaram no trajeto do carro e nem sob a árvore onde ficou estacionado.
Percebi outros sinais que definem a manobra do carro regressando do local, além de marcas do solado de um sapato tamanho grande, de onde o carro teria ficado estacionado até o meio da estrada esburacada e cheia de poeira.
   Dá para saber se essas pegadas vão até a casa?
   Só existem até a estrada, pois a passagem das viaturas destruiu tudo que pudesse estar marcado nela, mas dá para perceber que as pegadas ao rumar-se da árvore até a estrada estão em direção à casa do sítio concluindo que tal pessoa dirigiu-se para lá. Isso é fácil perceber.
   Euclides. Os rastros deixados pelos pneus dá para saber qual é a marca ou a largura deles?  
   A marca dos pneus não, mas é de aro treze, geralmente usados em carros de passeio pequenos.
   Em um Fiat Palio, por exemplo?
   Positivo.
   E as pegadas do homem andando até á estrada?
   Quase nada dá para falar a não ser que foram feitas por alguém de pés grandes e pesado.  
   Está ótimo, pois era exatamente isso que eu queria ouvir.
   Então beleza.
   São iguais as marcas deixadas no quintal de Estela, ou não?
   É quase certo serem de outro calçado, mas pode muito bem terem sido deixadas pela mesma pessoa.
   Por que você acha isso?
   As pegadas na grama sob a árvore são praticamente iguais às deixadas no quintal da mansão em profundidade. E não é só isso que me permite falar que pode ser da mesma pessoa. Também o tamanho, o peso ao andar e a distância das passadas.
   Isso era outra coisa que eu queria ouvir. Vamos voltar para São Paulo, pois já tenho certeza quem foi e como tudo aconteceu.
   Então quem foi?
   Continuo sem nenhuma prova consistente para incriminá-lo, por isso nada posso falar.
   Mas acabou de falar que descobriu tudo.
   Pois é. Que descobri quem foi e como foi é certo, entretanto não sei a motivação e nem tenho uma única prova sólida.
   Então são apenas suposições.
   Não. São certezas absolutas, mas sem nada que eu possa provar.
   Então detetive, continua na estaca zero.
   Infelizmente só posso apertá-lo e conseguir sua confissão.
   Que será impossível. Ninguém vai confessar sabendo que nada o incrimina.
   Esse é meu grande problema. Minha última investigação antes de me aposentar parece que está fadada a ficar sem punição, mas não vou desistir enquanto não apanhá-lo, mesmo que tenha de continuar ativo na polícia mais duzentos anos.
Voltaram a Valinhos para agradeceram a gentileza do delegado, mas esse cordialmente os convidou para ficarem e almoçarem juntos.
Satisfizeram-se por conta do Dr. Piero em uma churrascaria e depois regressaram para São Paulo.
Apenas o agente Robson voltou para a delegacia para guardar o veículo.  Os outros dois foram para suas casas para irem no outro dia pela manhã, à delegacia.
oooOooo
Na manhã de quarta feira o detetive Miranda informou ao delegado que já desvendara o crime da meia noite e dois minutos e precisaria conversar com ele a portas trancadas.
   O que tem a falar comigo de tão urgente e sigiloso, detetive Miranda?
   Venho informar-lhe que terminei meu trabalho investigativo do crime da senhora Estela e de seu ex-marido.
   Não foi ele quem matou a mulher e depois se suicidou?
   Não Doutor. Isso é o que o assassino queria que descobríssemos.
O criminoso matou Estela, assassinando-a com uma faca de caçador, empregando conhecimentos que têm os caçadores e os médicos, para que o ex-marido que era caçador e também médico cirurgião transformasse no principal suspeito.
Depois de matar a mulher a mesma pessoa, viajou até o sítio em Valinhos, assassinou-o forjando um suicídio para que ele não fosse preso e pudesse apresentar seu álibi se defendendo.
O verdadeiro assassino ficaria livre, pois a conclusão final seria de que o marido assassinou a esposa e depois suicidou encerrando tudo.
   E não foi exatamente isso que aconteceu?
   É lógico que não.
   Então quem foi que fez tudo?
   Tenho muita coisa a lhe informar e o senhor tirará suas próprias conclusões para que o homicida seja preso, confesse seus crimes e depois pague por eles.
   Não está sendo precipitado?
   Preciso apenas da confissão do bandido.
   Assim fica fácil. Se for preciso uma confissão para se desvendar um crime não precisa de investigador.
   Tem razão doutor. Vou pedir minha aposentadoria ainda hoje depois de conversarmos.
   Porque tanta pressa. Acho melhor você esperar as análises do laboratório que vão comprovar que foi o ex-marido o assassino.
   Tenho todas as pistas e vou dizer-lhe como descobri tudo, embora ainda não tenha como provar nada. Logo conseguirei uma prova concreta para levar o homicida para a prisão por muitos anos pelos crimes cometidos.
   Continuo afirmando que está muito afoito e se não tem como provar a culpa de ninguém vai levar um baita processo por calúnia.
   Vamos assentar para calmamente eu contar-lhe tudo que descobri e como tenho certeza saber quem foi o criminoso. O senhor vai concordar que eu estou certo em minhas conclusões.
   Tudo bem. Deixe-me dizer ao pessoal lá de fora que não atenderei ninguém em minha sala para conversarmos e eu tomar conhecimento de suas insanidades.
   Faça isso.
Feito o combinado e com uma jarra de água e uma enorme garrafa térmica com café eles se assentaram um frente ao outro. O delegado no sofá e o investigador em uma poltrona.
Nesse momento Dona Rute chegou a delegacia querendo conversar urgente com o detetive Miranda, mas foi informada que ele tinha acabado de entrar para conversar com o delegado e ele disse que não poderiam ser interrompidos para nada.
   Mas é urgentíssimo. Ele tem de me atender antes de conversar com o Dr. Ataíde.
   Só há uma maneira de alguém entrar naquela sala.
   Qual é?
   Lá estão um delegado e um agente investigador e pelas normas da polícia civil eles só podem ser interrompidos se for por alguém de nível superior ou pelo menos igual ao deles, desde que seja da própria polícia.
   Igual a qualquer um deles, ou apenas do delegado que é superior?
   A qualquer um deles. Pode ser outro agente investigador.
   O agente Júlio está aqui?
   Não. Nem sei se ele virá hoje.
   Obrigada. Voltarei com um investigador de outra delegacia, pode ser?
   Perfeitamente. Desde que seja conhecido ou que se identifique devidamente.
   Voltarei logo.
   Como queira.
Enquanto isso dentro do escritório trancado os dois homens conversavam:
   Conte-me quem é o suspeito e dê-me as provas para eu mandar buscá-lo e efetuar sua prisão temporária. Está bem assim?
O detetive nada falou durante algum tempo enquanto pensava como começar e por isso o delegado voltou a falar.
   Está me parecendo que está muito nervoso detetive.
   Estou sim e o mesmo acontece com o senhor.
   Eu estou completamente tranquilo, agente.
   Então porque está com o suor escorrendo por todo seu rosto?
   É o calor que está muito forte.
   Não aqui dentro, pois o ar condicionado está ligado no máximo. A sala está até gelada.
   Vá ao assunto logo e deixe de rodeios.
   Ok. Doutor. Vou ser claro, dê no que der. O assassino é o senhor.
   Está louco? Isso é absurdo.
   Por que está com seu coldre aberto e sua mão próxima ao cabo do revólver?
   Nem tinha reparado nisso, seu maluco. Quais besteiras e doidices arrumou contra mim?
   Não é nenhuma loucura e muito menos asneiras de minha parte. Tenho certeza que matou tanto Estela como Dr. Moura e outra pessoa que deve ser uma prostituta.
   Está maluco mesmo. Vou mandar prendê-lo imediatamente.
   Faça isso que quem irá conversar com o senhor será um promotor público, ou o próprio Secretário da Segurança.
   Desembuche logo. Fale tudo o que quer e depois rua. Irei exonerá-lo assim que acabar de ouvir suas palhaçadas.
   Doutor, seu grande erro foi após matar Estela, viajar duas horas para ir matar o ex-marido, voltar para plantar provas, isto é, apenas algumas marcas das botas dele com terra do sítio e alguns fios de seus cabelos e não ter ido dormir para descansar e deixar as coisas irem se desenrolando normalmente.
Possivelmente o senhor se safaria, pois foi um crime quase perfeito, mas como decidiu ir para a delegacia fingindo estar trabalhando normalmente para acompanhar e coordenar nossos passos, acabou cometendo uma enorme quantidade de erros que fizeram com que eu desvendasse como tudo aconteceu logo no início das investigações.
Preste atenção em seus descuidos que me fizeram descobrir que foi o senhor quem assassinou Estela, seu ex-marido e uma garota de programa.
Ao receber o telefonema de Dona Rute que informou ter encontrado a patroa morta, qualquer delegado chamaria o mais rápido possível os homens mais disponíveis e partiria correndo para o local, até para tentar salvar a pessoa, caso não estivesse morta.
O senhor não fez isso e demorou muito na formação da equipe e tal fato me chamou a atenção e já comecei imaginar sua certeza de que não haveria ninguém a ser salva e muito menos para ser presa no local, ou próximo dele.
O senhor várias vezes deixou de ir a muitas diligências quando estava resolvendo algum assunto importante para não interrompê-lo e, no entanto, além de perder muito tempo, reuniu uma equipe com os melhores agentes que mesmo estando atarefados não respeitou seus direitos de continuarem seus afazeres.
Alegou a mim quando lhe questionei sobre isso que nos julgava desocupados. Sabia muito bem que vários de nós estávamos fazendo relatórios importantíssimos sobre outras investigações.
Isso me fez julgar que o senhor tinha muita pressa em solucionar o caso e queria que fossem os melhores agentes, para que entendessem as pistas propositadamente deixadas para serem seguidas. Por quê? Foi minha pergunta naquele momento.
Nessa mesma conversa vi pequenas marcas esverdeadas na parte lateral próximas ao solado de seu sapato preto. Logo imaginei que poderiam ser manchas provenientes de mato, grama, capim ou folhas pisadas. O senhor percebeu que eu olhei para seus pés e seus sapatos foram trocados ainda antes de sairmos da delegacia, com certeza nesse escritório e depois deu sumiço nele. Logo ao sairmos eu vi que os tinha trocado.
Foi com o anterior que sumiu na árvore nos fundos da casa de Estela, pisando e derrubando folhas e se não tivesse desaparecido com ele, talvez o queimando para sempre seria uma ótima prova que não existe mais.
Sua pergunta idiota ao perito sobre a degola, em que fui obrigado a cometer a mesma estupidez, foi a saída que encontrei para tirar o senhor do foco, pois não sei qual o intuito que encontrou para se fazer de desentendido, mas isso só seria ruim para o senhor se eu não o salvasse naquele momento.  O perito Carlos desconfiaria na hora do senhor, mas ele acabou se perdendo quando eu também me fiz de idiota e eu como já tinha sérias desconfianças suas somei mais essa.
Não sei se estou certo, mas acredito que tenha sido por seu cansaço que falou aquela asneira, acreditando que se fazendo de desentendido de uma coisa que até uma criança sabe, desviaria a atenção sobre você, mas o tiro saiu pela culatra, pois surtiu o efeito contrário. Fez-me pensar ainda mais em sua culpa.
Logo depois o senhor novamente se denunciou fingindo estar com muito sono, bocejando alto para logo apresentar seu álibi que era dizer que passou a noite em um motel. Sabemos que é mulherengo e que isso acontece, aliás, muito assiduamente, mas nunca vem trabalhar no dia seguinte pela manhã.
Sempre aparece na delegacia só depois do almoço, por isso ficou claro que sua ida logo cedo fora proposital para organizar uma equipe muito competente para desvendar logo o crime, no qual as pistas deixadas pelo senhor levava ao ex-marido da morta.
   Detetive. Quando eu disse ter passado a noite em um motel, você veio logo querendo saber em que motel fui. Veio com uma desculpa esfarrapada, alegando ter arrumado uma estagiária, mas sua intenção era ir checar. Fez isso?
   É claro que sim. O senhor fez questão de guardar o ticket, pois passar uma noite inteira em um motel e conseguir provar isso seria seu álibi perfeito.
   Checou e comprovou que entrei no motel antes das vinte e duas horas e só saí as cinco e trinta da manhã?
   Chequei e tudo confere. Vi pelas câmeras da portaria o senhor entrando em seu carro com uma loira de cabelos compridos exatamente às vinte e uma horas e quarenta e nove minutos e vi novamente seu carro sendo filmado saindo as cinco e trinta e cinco minutos.
   Viu se era eu mesmo com uma loira?
   Sim. Ela estava a seu lado. O senhor fez questão de se mostrar em close para a câmera, não só na entrada como na saída. Que infantil tal procedimento não acha? Inclusive deve ter exigido dela para não olhar para a câmera, pois ela só apareceu de costas para não poder ser reconhecida. Loira de cabelos compridos geralmente é o padrão dessas garotas. Sobre isso vou falar depois.
   Acho que deve retirar-se antes que eu chame outros agentes para prendê-lo seu maluco.
   Doutor. Já lhe disse uma vez e torno a repetir. Faça isso e terá de ouvir meu relatório sendo proferido por um promotor.
   Continue com sua palhaçada.
   Então, por favor, procure não interromper-me:
Depois daquele bocejo inventado, realmente o senhor oscitou novamente demonstrando estar de fato com muito sono e cansado, pela noite desgastante em que matou duas pessoas. Até então eu só pensava no casal. Não tinha ainda imaginado sobre o assassinato da prostituta.
Naquela mesma conversa, quando disse: “Deixa de ser besta detetive Miranda. Vocês são os melhores homens que tenho a minha disposição, por isso os chamei para fazer essa investigação que tenho certeza descobrirão o assassino depressa.” Isso confirmou minha suspeita que o senhor queria que o crime fosse esclarecido rapidamente para não chamar muito a atenção da mídia sobre o caso e começar muita gente entrar na história.
   Isso não é o procedimento certo?
   Com certeza, entretanto o senhor sempre nos solicitou ir demonstrando as provas aos poucos, para ficar sempre aparecendo em programas de televisão.
   Deixe de ser besta. Sempre fui muito cauteloso e faço isso para aguardar os resultados do laboratório e informar o final com completa segurança.
   Por que desta vez foi diferente? Bastou o corpo do médico chegar para o senhor aparecer nas telinhas dizendo que o caso já estava encerrado.
   Porque está muito claro e definitivamente concluído.
   É o que o senhor quer que a mídia e a opinião pública pensem.
   Acontece...
   Deixe-me continuar.   
No início de minhas perguntas à Dona Rute o senhor interrompeu-nos para fazer com ela seu interrogatório, coisa que não é comum, pois quem faz as perguntas geralmente são os investigadores.
Não lhe perguntou nada que a forçasse confessar o crime que seria o correto uma vez que naquele momento o único indício que tínhamos era ser ela a culpada por ter a chave da casa. Como não houve arrombamento ela era única suspeita.
Não agiu conforme o óbvio, pois já sabia que ela não era culpada de nada e seu interesse era guiá-la a colocar o ex-marido de Estela na berlinda.
As respostas dela sobre o motivo do divórcio do casal, as atividades anteriores e posteriores fizeram-nos saber o que Dr. Moura fazia. Era médico cirurgião, portanto perfeito para furar corretamente os órgãos vitais, e caçador, profissão ideal para o assassino usar uma faca de caça e cortar o pescoço da vítima.
Foi uma entrevista planejada para com apenas duas perguntas levar-nos a incriminar o ex-marido que seria encontrado morto quando fossemos procurá-lo, pois o senhor já o havia matado na mesma madrugada logo depois da ex-esposa.
Quando o senhor dispensou Dona Rute, eu insatisfeito com as poucas perguntas feitas a ela pedi permissão para continuarmos conversando e o senhor disse que ela já tinha falado tudo que era necessário. Ela só tinha dito que o ex-marido era médico e caçador, portanto era para nós nos satisfazermos em saber que ele era o assassino e ponto final.
Quando eu disse em voz alta que iria falar com ela para alimentar os cães, novamente descuidou-se dizendo qualquer coisa parecida com: “Mas não tem nenhum cão no quintal para ser alimentado”, por isso após dizer “mas” interrompeu a frase, e logo a seguir veio com a desculpa idiota dizendo ter ouvido um barulho estranho, que não existiu senão todos nós presentes também teríamos ouvido. Ninguém ouviu nada. Perguntei para todos.
   Não será que por vocês serem velhos gagás, não estão surdos também?
   O senhor pensa que sairá livre dessa, não é? Por isso que tenta debochar de mim, mas eu o colocarei atrás das grades nem que seja a última coisa que faço nessa vida.
   Estou completamente tranquilo e sem receio de nada, seu imbecil.
   Voltando ao assunto, o senhor desculpou-se por ter interrompido e falou outra frase que foi: Mas como sabe que tem cachorro preso no canil? Tentou se safar do primeiro erro e acabou cometendo outro. Não percebeu que eu estava muito atento e lendo em seus lábios percebi claramente mesmo sem emissão de som, apenas pelos movimentos labiais que iria pronunciar o “não” após o “mas” e não o “como” por isso conclui que a frase correta seria mesmo alguma coisa parecida com a que eu já disse. “mas não tem nenhum ...”
   Que palhaçada. Vamos logo com isso, pois tenho mais o que fazer.
Seu outro grande erro modificando a frase muito rapidamente sem pensar direito, foi que disse “mas como sabe que tem cachorro preso no canil”? Ninguém lhe disse que naquela casa tem um canil.
Quando chegamos o senhor entrou pela porta principal direto para o escritório. Como sabia de existência de um canil no quintal da casa? Foi mais um motivo para eu imaginá-lo sobre o muro em duas noites seguidas olhando o tal canil a procura de cães.
Quando conversava comigo sobre a hora da morte que eu me referi ter sido provavelmente final da tarde ou início da noite, embora o relógio, possivelmente quebrado na queda mostrava o horário de meia noite e dois minutos, o senhor foi muito incisivo em afirmar que eu tinha errado em minha primeira conclusão. Deixou bem claro mais uma vez que sabia o horário do crime. Naquele momento deu-me outra dica de ter sido o assassino.
Falou com muita convicção que foi meia noite.
   Que provas você tem contra mim seu doido?
   Infelizmente nenhuma.
   E você acha que algum promotor vai acreditar nesse monte de besteiras que inventou contra mim?
   Tenho mais coisas a falar.
   Não quero mais ouvir absurdos. Saia de minha sala imediatamente seu cretino.
   Acho melhor o senhor ouvir tudo e depois chamar o escrivão para anotar sua confissão.
   Faz-me rir, seu desgraçado. Vou exonerá-lo assim que terminarmos. Continue com suas asneiras, mas termine logo.
   Diga-me uma coisa. O senhor acha que teria sido possível o Dr. Moura ter assassinado Estela a meia noite aqui em São Paulo e ter cometido suicídio em sua casa entre duas e três da manhã em um sítio afastado em Valinhos?
   Por que não?
   Porque seu meio de transporte era um cavalo velho, que demoraria muitas horas para fazer essa viagem. A pé o tempo seria maior ainda. Não vai dizer-me que ele alugou um carro em locadora, pois se fosse o caso o carro seria encontrado no sítio. Alugar um táxi também é totalmente inviável, pois aquele enorme facão não foi enrolado em pano ou sacola nenhuma para ficar com o sangue de Estela nele a viagem inteira. Eu vi o facão e tenho certeza que ele foi levado com muito cuidado para não ser limpo e deixar o sangue de Estela impregnado nele.
Nenhum motorista de táxi levaria ninguém com aquela enorme arma suja de sangue na mão.
Também vi seu cadáver e ele está tão magro e muito leve para deixar as marcas de seu sapato com tanto peso como foram deixadas no quintal da casa da ex-esposa.
O morto estava descalço quando morreu e suas botas não foram encontradas em lugar nenhum no sítio, por quê?
O senhor não teve tempo nem poderia arriscar-se em nova viagem ao sítio para devolver-lhe o calçado, pois poderia encontrar-se com gente lá. O que iria falar? Deu sumiço nelas da mesma forma que com os seus sapatos, quando eu os vi manchados de verde da clorofila das folhas.
Tem mais: O senhor provavelmente já sabia que o médico adquirira o vício da bebida, portanto foi fácil colocar-lhe a arma na mão e ajudá-lo disparar no próprio ouvido, estando desmaiado de bêbado.
Seu erro nisso doutor, foi não procurar saber se ele era destro ou canhoto e como nós, a maioria somos destro colocou a arma em sua mão direita, mas ele era canhoto, portanto não foi ele quem se matou.
O laboratório através de exames vai descobrir a quantidade de bebida ingerida por ele e facilmente saberá que estaria muito bêbado, desmaiado ou mesmo morto quando o tiro foi disparado em seu ouvido.  Vai ser facílimo provar que não foi ele quem efetuou o disparo na própria cabeça e que não teria tido tempo de antes ter matado a ex-esposa.
   Ok detetive. Concordo com você que será fácil demonstrar que ele não assassinou a esposa e se matou, mas isso não lhe dá o direito de dizer que fui eu, apenas por suas suposições em conversas que tivemos e que você interpretou conforme seu desejo.
Que motivo eu teria para matar uma pessoa que eu jamais soube da existência e inclusive saber que ela tinha um ex-marido e onde morava para ir matá-lo para incriminá-lo? Exatamente em uma noite em que eu passei em um motel e você já comprovou isso.
   Sobre isso também foi fácil descobrir e depois eu falo como aconteceu. Antes tenho outras coisas a lhe dizer.
Quando conversei com Dona Rute ela disse-me que no dia vinte de novembro, em uma terça feira pela manhã Estela falou-lhe apenas por alto que ela teria conhecido alguém no dia anterior.
Pela forma dela se expressar Dona Rute desconfiou ter sido um possível futuro namorado e como eu já suspeitava do senhor procurei saber o que fez na segunda feira dia dezenove de novembro.
   Deve ter descoberto que naquele dia nem vim trabalhar porque levei minha esposa para operar. Cheguei ao hospital perto de nove horas, acompanhei a operação que durou de dez e trinta até onze e trinta quando ela foi para o apartamento. Perto de treze horas ela faleceu e fiquei providenciando o enterro. Levei seu corpo no final da tarde para ser velado e fizemos o funeral no dia seguinte pela manhã. Todos vocês compareceram, não se lembra?
   Sobre o enterro e o velório concordo, mas fiz investigação no hospital e de fato internou-a pela manhã. Infelizmente não consegui nenhuma prova que após isso sumiu o dia inteiro, que foi o que o senhor fez para ficar com Estela que deve ter conhecido recentemente, ou no próprio dia caso tenha ido ao shopping que fica perto e era nele que ela tinha seu escritório de arquitetura e decoração.
A única coisa que sei é que quando a enfermeira encontrou sua mulher morrendo ela estava sozinha. O senhor não estava presente.
   Eu estava almoçando entre meio dia e uma da tarde e realmente ela foi encontrada passando mal nesse horário que me ausentei. Que prova você acha que tem, de que eu não fiquei no hospital o dia todo?
   Nenhuma, entretanto o senhor também não tem como provar que esteve lá. Nenhum atendente, enfermeiro ou médico conversou consigo durante o dia todo. Só foi visto ao entrar pela manhã e depois das dezessete quando sua esposa já estava morta há muitas horas. Só nesses horários que encontrará testemunhas que dirão terem conversado com o senhor, ou pelo menos terem-no visto.
   Realmente talvez não tenha falado com ninguém, mas isso não significa absolutamente nada como prova de que matei alguém dois meses depois.
   Mas pode significar que esteve com Estela naquele dia, portanto ela não seria uma estranha para o senhor dois meses depois.
   Nunca a vi a não ser nesse sábado.
Você procurou saber naquele shopping se eu estive lá alguma vez ou se fui buscar Estela para levá-la a um motel, ou qualquer coisa parecida?
   Fiz isso.
   Descobriu o que?
   Nada. Nem seu carro eu vi estacionado na garagem do shopping.
   Então se não descobriu nada por que me incrimina e quer que eu confesse um crime que nunca sequer sonhei em cometer?
   Porque sei que foi o senhor.
   Só porque você quer não é suficiente para acusar ninguém.
   Doutor. Quando vi os filmes do estacionamento do shopping procurei encontrar o seu carro e de fato não vi, mas depois me lembrei que no enterro o senhor usou o carro de sua esposa porque o seu estava em conserto.  
Voltei ao shopping e vi nos filmes daquele dia vários carros marca Fiat modelo Pálio cor prata no estacionamento, mas pelas câmeras de lá não deu para identificar as placas, portanto não posso afirmar que vi o carro dela lá, mas com certeza permaneceu lá o dia todo. Procurei filmes com sua provável entrada e também saída e de fato não o vi em momento algum, mas isso não significa que não tenha estado lá. Simplesmente as câmeras circulando por toda a garagem não o apanhou em nenhum desses dois momentos.
   Então o que tem contra mim, por que até agora só falou um monte de asneiras e mais nada.
   Lembra-se que me deu o ticket do motel em que esteve na noite dos crimes?
   Claro. Eu pensei que quisesse realmente fazer o que me falou, ou seja, coisa muito melhor do que ficar inventando disparates.
   Esteve no motel na sexta feira, mas descobri que já havia ido lá também na quinta.
   Qual o problema? Não sou nenhum velho broxa igual a você.
   O senhor subiu em uma árvore que fica próximo ao muro, na quinta e também na sexta, derrubando folhas no chão. Essas folhas estão no laboratório para análise para comprovar que umas caíram em um dia e outras no outro.
Concluí que esteve sobre o muro para assassinar Estela na quinta feira e desistiu com medo de cães. Foi nessa quinta que o senhor soube que tem um canil naquele quintal.
Voltou na sexta para matar os animais e descobrindo que não existia nenhum, saltou o muro e consumou seu crime.
Pois bem procurei o motel que por sinal não é o que sempre costuma frequentar que fica em outro bairro, bem distante.
Nesse que o senhor nem é conhecido dos atendentes fica perto da mansão de Estela, do shopping onde ela tinha o escritório e também do hospital onde sua esposa faleceu.
Meio estranho, mas vamos continuar.
   Quanta comparação idiota. Nunca imaginei que fosse tão cretino assim. Tenho impressão que muitos crimes solucionados por você só o foram porque as pessoas incriminadas para se verem livres de suas maluquices confessaram-se culpadas sem de fato o serem.
   Se pensa assim porque não confessa também?
   Não sou idiota para me sentir assustado com suas sandices.
   Posso continuar?
   Vá em frente, pois todas essas besteiras já estão me fazendo rir muito mais que se estivesse vendo uma comédia com Mazzaropi, Cantinflas e Charlie Chaplin juntos.
   Fiz a averiguação e descobri que realmente entrou no motel no horário que disse assim como saiu na manhã de sábado. Como eu sabia que esse seria seu álibi, verifiquei os filmes com muita atenção. Esse teria sido o mesmo álibi para quinta feira se tivesse dado certo, por isso vi os filmes de quinta também. Tanto na entrada como na saída da quinta aparentemente era a mesma loira, pois como já disse só foi filmada por traz. Seu rosto não apareceu nenhuma vez.
O interessante é que ela entrou bem acordada a seu lado e nas saídas ela estava dormindo, pois você a amparava com seu braço direito para parecer que a abraçava, mas tenho certeza que dormia. Nos dois dias aconteceu a mesma coisa.
   E qual o problema eu ter ido duas noites seguidas em um motel e se minha acompanhante estava ou não dormindo ao sair?
   Minha conclusão foi que levou a jovem para serem filmados entrando no motel por volta de vinte e duas horas. Logo depois você deu uma boa noite cinderela para a garota que dormiu a noite toda. Saiu do motel a pé pulando o muro longe das câmeras que só existem nas entradas e saídas de carro e foi até perto dali onde já tinha deixado estacionado o carro Fiat que foi de sua esposa e que o senhor ainda o mantém.
Na quinta como não deu certo voltou ao motel logo depois.  Saiu de lá e foi filmado à zero horas e quarenta e seis minutos. Deixou a garota em algum canto de rua qualquer e depois foi dormir em sua casa normalmente.
Na sexta, para não envolver outra garota de programa com sonífero, procurou a mesma moça e procedeu da mesma forma. Deve ter dado um bom dinheiro para ela voltar consigo ao motel, para depois de matá-la recuperar a grana é claro e desaparecer com uma provável testemunha contra o senhor.
Foi a mansão matar os cães que não existiam, saltou matou Estela, depois foi até Valinhos matar o ex-marido dela e voltou novamente para a mansão calçado com as botas do doutor e trazendo uma mexa de seu cabelo, que cortou com uma tesoura ou canivete.
Percebi no defunto onde estava cortada uma parte de seus cabelos, portanto eles não caíram de sua cabeça. Foram cortados.
Plantou-os aleatoriamente e voltou ao motel. Desta vez ao sair deveria dar fim também na jovem, pois ela deve ter reclamado por ter entrado no motel no dia anterior e ter apagado até no dia seguinte quando acordou em algum lugar estranho. O senhor deve ter dito que ela bebeu demais por isso a levou e deixou no lugar onde ela amanheceu, mas que nessa noite seria diferente.
É claro que seria diferente, pois depois dos seus crimes praticados, ela ao ver os noticiários e para aparecer na televisão e falar que esteve com um cara que lhe deu boa noite cinderela em duas noites seguidas seria certeza. Ela faria seu retrato falado e adeus Dr. Ataíde.
Seria delatado por uma prostitua, por isso tinha de matá-la também.
O senhor depois de ter saído do motel deu cabo dela e sumiu com o corpo que pode ter sido de manhã mesmo ou depois de nosso trabalho na casa de Estela, pois naquele dia o senhor não apareceu na delegacia com seu carro e nem com o Palio que deve ter ficado nas proximidades do motel, pois para entrar e sair de lá usou seu carro pessoal.
No sábado o senhor foi para a delegacia de taxi e depois usou o mesmo procedimento para ir até onde estava o Fiat que usou para ir a casa de Estela e ao sítio em Valinhos deixando-o próximo ao motel quando voltou, para novamente entrar pelo muro sem ser visto.
Por que usou um táxi e não telefonou mandando um agente ir apanhá-lo e levá-lo de volta em um carro oficial?
Saiu com seu carro grande onde estava o corpo da prostituta para escondê-lo definitivamente em algum lugar. Infelizmente, creio eu, que ele não aparecerá.
   Que imaginação fértil. Depois que ficar desempregado, forçosamente terá que aposentar, por isso aconselho-o para não morrer de tédio que vire escritor de estórias policiais e de mistério. Vai se dar bem, pois tudo que está falando só será aceito e acreditado por leitores de ficção, pois na realidade tudo isso é um tremendo absurdo, que não fará ninguém crer.
   Por que antes de falar para a agente Miriam para ligar à delegacia de Valinhos, comentou próximo dela sobre a grande crueldade do homem que seria procurado?
   Porque isso sempre é comum de se falar entre nós dentro de uma delegacia.
   Não foi simplesmente ao acaso. Sabendo que ela além de muito preocupada com a segurança de todos é altamente influenciável e fofoqueira e assustaria tanto o delegado de lá que mandaria várias viaturas até o sítio, e com isso encobriria qualquer rastro deixado pelo Fiat que usou para ir assassinar o médico.
   Você está precisando de um psiquiatra. Está totalmente paranoico.   
   Tudo que falei é a mais pura verdade. Estou vendo pela sua fisionomia que concorda comigo. Falta apenas confessar que foi o senhor quem matou as três pessoas e dizer o que fez com o corpo da garota, para pelo menos um enterro digno.
   Estou com tanto medo de você como tenho de uma lesma já morta.
Agora Dr. Ataíde achava graça das acusações do detetive. A todo momento ria dele, pois percebera que nada que ele tinha concluído o incriminava, por não existir nenhuma prova real.
Nesse momento o detetive estava muito preocupado com a calma que substituiu a preocupação inicial do delegado.
Sentiu que se inverteram os papéis. Quem estava excessivamente nervoso agora era ele, pois suava muito e não conseguia ver como chegara a tantas conclusões que agora até lhe pareciam realmente confusas, como em um filme de ficção. Não tinha como provar absolutamente nada.
Ia tentar sua última cartada que seria dizer ao delegado que no filme de sua entrada no motel na sexta feira a noite estava com uma roupa e na saída assim como na delegacia após ter vindo direto do motel conforme ele disse, estava vestido diferente.  Alegaria que tinha se trocado porque sujara a anterior com sangue das vítimas, com terra do sítio, com muito suor pela correria, etc.
Desistiu por que isso também não era prova de nada. É bastante comum uma pessoa ir passar a noite em um motel e levar outra roupa para usar pela manhã após o banho e tudo bem.
Coçou seu queixo, depois a cabeça e com os olhos fechados tentou pensar em alguma saída para a situação em que se meteu. Não conseguiu pensar em nada e calado permaneceu por poucos minutos, mas que pareceram horas intermináveis.
O delegado rompeu aqueles momentos de silêncio falando:
   Você está correndo um sério risco de aparecer morto.
   Se isso acontecer é a prova que preciso para o senhor pegar uma prisão de muitos anos.
   Enquanto você perde seu tempo acusando-me o verdadeiro assassino lhe pega distraído.
   Se isso acontecer estará confessando todos os assassinatos além do meu, pois minhas acusações são só contra o senhor e mais ninguém, portanto se eu aparecer morto será sua auto incriminação.
   Contou essas besteiras para mais pessoas?
   Para ninguém, mais deixei várias cópias desse dossiê guardadas em locais só conhecidos por alguns amigos influentes com orientação de tomarem conhecimento delas se eu aparecer morto ou desaparecido.
   Fez bem. Quem são esses seus fieis amigos?
   Além do Secretário da Segurança Pública, vários juízes e promotores também.
O silencio voltou a reinar no ambiente, com ambos encarando-se e odiando um ao outro com todas suas fúrias.
O detetive levantou-se e o delegado fez o mesmo e continuaram se afrontando afastados um do outro menos de quatro metros de distância. Ambos com suas mãos bem próximas do cabo de suas armas, iguais aos antigos filmes americanos de faroeste.
oooOooo
Ninguém ousava mover-se e assim ficaram até que a porta escancarou e uma voz enérgica anunciou.
   Todos dois coloquem suas armas bem devagar no chão.
Era o Secretário da Segurança Pública quem falou e com ele estavam um delegado e um investigador de outra delegacia e vários agentes dessa mesma delegacia, todos com suas armas engatilhadas e apontadas para os dois contendores, que nada puderam fazer a não ser obedecer à ordem recebida.
Foi o Dr. Ataíde quem falou agressivamente.
   Prendam esse detetive louco.
Sua surpresa foi enorme quando os agentes chegaram até ele e o algemaram.
   Que faz aqui investigador Grozzi?
   Vim a pedido de Dona Rute lhe salvar detetive Miranda.
   Qual delas? A enfermeira?
   Não. A faxineira.
   Onde ela está?
   Pode entrar Dona Rute e venha falar e mostrar para o Miranda o que descobriu.
Ela entrou risonha e olhando para o detetive Miranda falou-lhe.
   Creio que escapou por pouco não senhor policial?
   Tudo bem. Estou reduzido mesmo a apenas “senhor policial”. O que a senhora tem a dizer?
   Detetive Miranda. Desde nossa primeira conversa, quando o senhor falou-me que desconfiava de alguém, enquanto me interrogava na mansão da Estela comecei imaginar quem poderia ser.
Como o senhor não conhecia Estela, nem seu ex-marido, seus relacionamentos pessoais, seus clientes nem ninguém ligado a ela, suas desconfianças induziram-me em imaginar que pensava em alguém conhecido seu e não dela.
Lembra-se que me contou que sua suspeita era que o assassino era seu conhecido?
   Foi sem pensar que disse isso. Foi a senhora quem fez-me falar isso.
   Eu que conhecia muito bem a Estela sabia que seus ex-namorados e seu ex-marido tinham perfis bem próximos, por isso conclui que ela jamais iria influenciar-se pela beleza de nenhum de sua equipe, pois são todos velhos e feios, com uma única exceção.
Isso me obrigou a pensar no delegado que além de jovem é muito bonito e com certeza poderia encantá-la pelos seus dotes físicos.
Muitas outras dicas suas mantiveram meu raciocínio encaminhando para ele e por esse motivo comecei prestar muita atenção em tudo que ele e o senhor falavam.
   Além disso, o que mais eu falei ou ingenuamente deixei-a perceber?
   Quando o senhor estava me investigando o delegado interrompeu-o e a mim também, para fazer a tal pergunta que forçosamente obrigava-me a falar que o ex-marido era médico e caçador para todos vocês suspeitarem dele.  Naquele momento eu vi claramente por sua expressão facial que percebeu o interesse dele em desviar toda a atenção de vocês para o Dr. Moura.
Ouvi em outra conversa entre vocês quando ele se referiu aos animais presos no canil, sem que ele tivesse conhecimento do canil a menos que tivesse visto de cima da árvore atrás do muro, e por aí a fora, foram muitas informações, frases e gestos que eu ia percebendo no senhor sua desconfiança de ser ele o criminoso e isso me induziu a também desconfiar dele.
   Soltem-me e cale a boca dessa maldita mulher e prenda-a imediatamente, meus subalternos.
   Ataíde Santoro feche essa latrina você, pois quem está preso aqui é somente o ex-chefe dessa delegacia. Pode continuar Dona Rute que não será mais interrompida.
   Obrigada delegado Cândido.
Para resumir tudo, foram várias dicas que me fizeram ter certeza de ser o Dr. Ataíde o culpado, baseada nas informações que colhia do detetive Miranda.
Precisava ajudá-lo prender o delegado, pois ele havia confessado ter muitas e muitas provas que o convenciam plenamente saber quem era o homicida, mas não conseguiria provar nada e iria conversar com ele exigindo sua confissão.
Eu tinha certeza que ele não iria conseguir essa confissão, além de simplesmente começar a correr risco de ser assassinado também.
Pus-me a pensar como encontrar essa prova tão importante para auxiliá-lo.
Foi bem fácil. Eu sabia que Estela tinha conhecido alguém durante seu horário de trabalho, naquele dia dezenove de novembro, portanto seria no shopping.
Eu sabia que ela estava sem câmera na porta da entrada do escritório, pois estavam trocando todos os aparelhos. Sabia também que ela tinha comprado da empresa que instalava as novas câmeras, uma particular para ser colocada dentro de sua empresa e ela disse-me que eles a instalaram naquele mesmo dia depois do expediente deles no shopping que encerrou às dezoito horas, portanto era só eu assistir os filmes daquela noite e dos dias posteriores que eu veria o que aconteceu por lá.
   Isso não é verdade Dona Rute.
   Porque diz isso detetive?
   Porque estive ontem no shopping e informaram-me não haver nenhuma câmera instalada dentro da sala dela, inclusive entrei e vistoriei tudo e não tem mesmo.
   Não tem realmente, entretanto naquele dia dezenove à noite foi instalada, mas ela a desativou dois dias depois, mesmo as do shopping ainda não estarem funcionando. Ela só funcionou segunda a noite, terça e quarta feira.
   Porque ela não manteve a que havia instalado?
   Porque na quarta feira ela percebeu a irritação de um cliente que se viu sendo filmado e ela para não continuar sendo inconveniente com eles gravando-os dentro do escritório mandou desligarem-na na quarta a noite.
   Mas seria para sua própria segurança.
   O escritório dela não atende grande público, como uma loja de vendas comum. Lá só entrava uma ou duas pessoas por vez, para solicitar orçamentos em suas mansões e essas pessoas geralmente ou eram conhecidas ou recomendadas por seus próprios clientes.
Bastava serem filmados na hora de entrarem.
   Entendo. Continua o que falava.
   O importante seria eu encontrar um filme da segunda feira quando ela conheceu o delegado, mas ainda não existia a câmera que só foi colocada a noite. Como no dia seguinte ela falou que iria contar-me algo, mas que não teria tempo, pois estava atrasada, eu no sábado cobrei-lhe tal conversa. Só soube dela que aquele acontecimento não tinha mais nenhuma importância para ela, por isso fiquei convencida que teria acontecido outro encontro terminando o encantamento inicial dela, entre terça e sexta.
Eu sabia que quanto menos vestígios existissem na casa seria melhor para o delegado, por isso procurei-o alegando ter de fazer a limpeza, pois os pais de Estela iriam deixar o hotel e ficariam na casa.
Essa ideia só me acorreu ontem à tarde, e ele prontamente fez-me a devolução do chaveiro que tinha também a chave do escritório.
O próprio delegado me disse para limpar tudo muito bem limpo, pois já haviam feito todas as averiguações necessárias.
   Por que não me procurou para eu ir com você até o escritório ver tais filmes?
   Eu não poderia incomodá-lo para isso. Poderia não dar em nada, afinal eu teria filmes só de terça e quarta feira e o rompimento deles poderia ter sido na quinta ou na sexta.
Dois filmes com o título “Minha Residência” eu já conhecia, pois ela sempre os usava para exibir seus trabalhos, mas encontrei outros dois filmes com o título “Meu Escritório” totalmente estranhos para mim e levei-os para a casa dela e lá assisti.
Passei a noite e a madrugada toda vendo os filmes da terça feira e nada vi de importante, entretanto logo no inicio do filme de quarta estava gravada toda a cena acontecida entre ela e Dr. Ataíde.
É só assistirem que o verão agarrando-a com brutalidade e sem sua permissão. Agiu como um tarado violento e ela se defendendo com uma joelhada em seu saco e com um potente soco na cara.
   Tem tudo isso gravado?
   Tudinho e bem nítido não deixando nenhuma dúvida.
   Outra vez as malditas câmeras de filmar com seus DVDs, foram melhores que eu. Desta vez vou aposentar mesmo.
   Malditas não. Benditas, pois o senhor estava correndo muito perigo e só está a salvo graças a elas.
   Eu poderia não ser o morto no duelo que estava prestes a acontecer.
   Não tenho essa certeza, pois como o senhor já me disse é apenas um investigador que descobre o crime dos outros e nunca atirou em ninguém, ao passo que seu contendor é um assassino cruel e era certo que o morto seria o senhor e não ele.
   Talvez.
Diga-me como a senhora conseguiu fazer o detetive Grozzi entrar nessa história?
Quem respondeu foi o próprio investigador Grozzi.
   Ela é minha ex-companheira.
   Dona Rute?
   Porque acha que só vivi com ela pouco mais de seis meses?
   Nem imagino.
   Porque ela com toda sua esperteza e perguntinhas ingênuas como quem não quer nada, descobria todas minhas infidelidades praticamente nas mesmas horas que aconteciam. Fui obrigado a cair fora.
Risadas de todos na sala, menos do delegado que não participava mais de nenhuma brincadeira, pois já estava devidamente trancafiado, após ver o filme em que foi o artista principal.
No momento que viu aquela pequena cena que o incriminava e exigiria dele muita coisa a esclarecer, olhando para Dona Rute, apenas disse:
   Maldita. Descoberto por uma faxineira.
Quem lhe respondeu foi o investigador Grozzi.
   Ela não é uma faxineira qualquer. Ela é Dona Rute.
ACABOU.


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