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   > Final de uma história que já teve fim



orlando ciuffi filho
      CONTOS

Final de uma história que já teve fim

 FINAL DE UMA HISTORIA QUE JÁ TEVE FIM.
O CIUFFI
 
Introdução do autor:
Desde criança eu já lia. Gostava de tudo, inclusive dos grandes romances da literatura universal, cujo acesso era dificultado tanto em casa como nas escolas aos meninos de pouca idade, mas mesmo assim eu os conseguia e lia.
O único livro que realmente jamais tive vontade e interesse em ler foi a bíblia. Todos os demais eram um enorme divertimento e distração que foi evoluindo a tal ponto que se tornou necessário para satisfazer meu grande apetite pela leitura a continuidade desse divertimento que com o passar dos anos, não era mais uma simples distração e sim uma delirante obrigação, que permaneceu por toda a minha vida. 
Já na adolescência entre os atuais e os Best seller`s da época sempre tive tempo e prazer em reler os velhos, consagrados, admiráveis e surpreendentes clássicos da literatura mundial.
Nessa fase ainda lia simplesmente por hábito, mas à medida que o tempo passava eu os enxergava com outros olhos. Eram já com os olhos da visão, do entendimento, da compreensão e do conhecimento, portanto lia tudo que conseguia encontrar. Seleções, X-9, almanaques, jornais, religiosos de diversas crenças mesmo as consideradas inadequadas, didáticos, romances de amor, faroestes, eróticos, terror, autoajuda, conhecimento cientifico, épicos, mágicas, alimentação, biográficos, policiais, suspense, hipnose, revistas em quadrinhos, gibis, super heróis, curiosidades, Realidade, depois Veja, Cruzeiro, Manchete, livros de aventura, etc. Até bulas de remédios eu lia e por incrível que pareça ainda as leio até hoje.
Foi nessa fase que resolvi também começar escrever. Simplesmente extraia do nada absoluto e criava historias sobre coisa nenhuma evidentemente não servindo para nada. Algumas narrações foram escritas e por sorte, com o tempo, por não terem valor algum, as laudas acabaram sendo colocadas em seu devido lugar. Na lata de lixo desaparecendo para sempre, assim como o conteúdo em minha memória seletiva, que só registra o que gosto.
Quando adulto ainda conservando o mesmo prazer e disposição para a leitura lia de outra forma. Com os olhos do aprendizado, muitas vezes modificando meus conceitos e outras vezes questionando e até irando-me, tamanha era minha inicial revolta por ler histórias medíocres que jamais entendi o porquê de terem sido escritas. Passei a ter raiva de muitas editoras importantes por terem-nas publicado e principalmente de seus autores por havê-las criado e não as abandonado como fez um simples amador como eu. Desfazendo-se de tais imundícies atirando-as ao fosso.
Logo no inicio da fase adulta já havia abandonado vários tipos de leitura. De todos os anteriores só me dedicava aos romances de terror, policiais, suspenses, aventuras, Best seller`s em geral, bulas de remédios, além dos clássicos que nunca abandonei. Já os lia em uma fase meio crítica.   
Ainda mantendo inalterado meu incessante encanto pela leitura também continuei escrevendo e desta vez iniciei meu primeiro romance sério, inspirado em um grave problema brasileiro. Terminei-o quando já era idoso. Demorei mais de trinta anos para escrevê-lo, e por mais incrível que pareça o grave problema brasileiro ainda continuava existindo assim como existe até hoje. A única modificação que ocorreu é que tal problema atualmente é muito mais grave que fora há quase meio século.
Já velho, continuo com o mesmo gosto, entretanto leio com os olhos da crítica, da censura, agora com a intransigente repugnância por certas historias e por determinados autores que continuam jogando seus dejetos nas livrarias ao invés de na privada.
Mesmo assim continuo acirrado devorador de livros.
Tenho tido muito mais tempo para esses antigos e inesgotáveis prazeres, pois aposentado nada mais faço a não ser ler e escrever, dedicando maior tempo em criar histórias do que propriamente em ler as já escritas.
Tenho já concluído além do primeiro livro que demorou mais de trinta anos, outros cinco e vários contos.
Atualmente sou bem rápido nisso, pois infelizmente como sou amador mesmo, não por gosto, mas porque nunca nenhuma editora tenha dado importância às minhas obras, embora eu as ache ótimas, não me dou ao trabalho de correções e aprofundamento em pesquisas escrevendo apenas com meus parcos conhecimentos adquiridos com o tempo.
(O final de uma história que já teve fim) trata-se de um desejo meu, uma enorme ousadia em dar continuidade a alguns personagens abandonados em um romance entre os que mais gosto cujo autor terminou sua obra em 1939.
John Ernest Steinbeck nasceu e viveu na Califórnia e antes, durante e depois da grande depressão de 1930 escrevia.
Em 1939, escreveu As Vinhas da Ira, considerado sua Obra Prima.
Ele conta a exploração que foram submetidos os trabalhadores itinerantes e sazonais, através da historia da família Joad, que migra de Oklahoma para a Califórnia, atraída pela ilusória fartura da região. Essa trágica odisséia recebeu o premio Pulitzer e foi levada à tela por John Ford em 1940. 
Não pesquisei absolutamente nada sobre o filme que nunca vi.
Desculpe-me os cinéfilos, mas os poucos filmes que assisti como exemplo: Dona Flor e seus Dois Maridos, Gabriela, Papillon, O Poderoso chefão, O Código Da Vince, Silencio dos Inocentes, Assassinato no Expresso do Oriente, Ulisses e talvez mais alguns outros poucos, aborreceram-me. Tais filmes estão muito aquém de se igualarem ou mostrarem pelo menos uma pequena parcela da grandiosidade das narrações escritas, por isso não vejo mais nenhum filme baseado em grandes obras.
Voltando a falar sobre As Vinhas da Ira, é sabido que Steinbeck inspirou-se na grande depressão que assolou os Estados Unidos na década de 1930, também chamada de Crise de 1929. Por esse motivo tenho certeza que o cenário usado por ele foi totalmente verídico com base em fatos reais, porque a Califórnia foi um dos estados mais atingidos pelo colapso financeiro, moral e humano daquela época.
Não somente a Califórnia enfrentou os problemas das falências de inúmeras empresas, o fechamento de diversas casas comerciais e industriais, além do grande desemprego, endividamento dos fazendeiros, miséria e pobreza da população, como também teve que enfrentar um grande número de migrantes vindos de outras partes do país.
Aproximadamente um milhão e quinhentas mil pessoas instalaram-se no estado ao longo da década de 1930, vindas primariamente de estados agrários da região centro oeste do país, em busca de emprego na Califórnia, que então era o único estado industrializado da região oeste norte americano.
O governo de lá chegou a implementar leis que proibiam que pessoas desempregadas vindas de outros estados se instalassem em suas terras.
Tais leis, porém, foram consideradas inconstitucionais pela Suprema Corte dos Estados Unidos, mas independente disso continuaram sendo aplicadas pelos latifundiários, grandes empresários, xerifes e policiais corruptos, para a infelicidade e destruição das famílias desesperadas e esfomeadas, que tão somente procuravam emprego e trabalho, para sua sobrevivência. 
As condições sócio econômicas de Los Angeles caíram drasticamente à medida que milhares de pessoas eram demitidas de seus trabalhos.
Houve falência em massa de inúmeros estabelecimentos comerciais e industriais, o que agravava ainda mais a crise. Porém, a população da cidade continuava a crescer rapidamente, uma vez que milhares de pessoas desempregadas, vindas de todas as partes do país, iam para lá com a esperança de encontrar emprego.
A economia da cidade apenas voltaria a crescer quando os Estados Unidos entraram na , lutando ao lado dos Aliados.  
Fábricas produziam armas, unidades militares e outros equipamentos usados pelas forças militares americanas, empregando a maior parte da força de trabalho que até então estava desempregada devido aos efeitos da enorme crise que foi considerada a pior e a mais longa recessão econômica do .
Este longo período causou altas taxas de , quedas drásticas do de diversos países, bem como reduções intensas na produção industrial, nos preços de , em praticamente todo medidor de atividade econômica, em diversos países no mundo.
O dia de 1929 é considerado popularmente o início da Grande Depressão, mas a produção industrial americana já havia começado a cair a partir de julho do mesmo ano, causando um período de leve recessão econômica que se estendeu até 24 de outubro, quando valores de ações na de , a , caíram violentamente.
Este dia que foi chamado milhares de acionistas perderam, literalmente da noite para o dia, grandes somas em dinheiro. Muitos perderam tudo o que tinham.
Essa quebra na bolsa de valores de Nova Iorque piorou dramaticamente os efeitos da recessão já existente, causando grande e queda nas taxas de venda de produtos, que por sua vez obrigaram o fechamento de inúmeras empresas comerciais e industriais, elevando assim de maneira assustadora os índices de desemprego.
O colapso continuou na (o dia 28 de outubro) e (o dia 29). Tais efeitos foram sentidos no mundo inteiro.
Os efeitos negativos da Grande Depressão atingiram seu ápice nos Estados Unidos em . Neste ano, o Presidente americano Franklin Delano Roosevelt aprovou uma série de medidas conhecidas como New Deal (bem estar público).
O New Deal, juntamente com programas de ajuda social realizados por todos os estados americanos, minimizaram os efeitos da Depressão a partir de 1933, entretanto a grande maioria das famílias esfomeadas e desempregadas acabou por serem implacavelmente destruídas.Foi sobre isso que Steinbeck escreveu sua obra prima

 
 
Mãe e filhos durante a grande depressão californiana em 1929.
 
 
 
 
A fotografia Migrant Mother, uma das fotos estadunidenses mais famosas da década de 1930, mostrando Florence Owens Thompson, mãe de sete crianças, com 32 anos de idade em Nipono, California, em março de 1936, em busca de emprego ou de ajuda social para sustentar sua família. Seu marido havia perdido o emprego em 1931, e morrera no mesmo ano.
Só não sei dizer (sequer pesquisei) se a família Joad realmente existiu e o que Steinbeck escreveu, foi na época contado por algum sobrevivente dela, evidentemente só podendo ser escrito até onde lhe foi dito, concluindo com seu maravilhoso final, quer tenha sido real ou se tudo que foi escrito veio do imaginário dele.
Se foi uma história real depois do seu final tudo o que viria acontecer com a família Joad, obviamente ficou reservado ao futuro, portanto os demais acontecimentos, sem a possibilidade de Steinbeck contar sobre eles.
Entretanto ele pode ter criado em sua fantasia tal romance com seus personagens, e não ter tido o minino interesse em esticar além do final criado por ele, o que aconteceu com os Joad’s restantes.  Sendo tal família pertencente apenas à sua imaginação entendo e reconheço que sua intenção não era de imortalizar nenhum, Herói, Detetive, Mágico, Tarzan, Espadachim, Lutador, Mascarado, Monstro, Rei ou qualquer coisa dessa natureza.
Sua pretensão foi mostrar a grave situação das famílias pobres que migraram para a Califórnia na época da grande recessão e isso ele fez com maestria não só nessa como em outras historias, como por exemplo, em Luta Incerta e Ratos e Homens, portanto nada tenho a questionar sobre a obra que acho admirável e que lerei ainda muitas outras vezes.
Eu como não tenho muita coisa a fazer resolvi dar um pouco mais de vida e até mesmo glorificar alguns dos que sobreviveram da história mencionada.
No romance de Steinbeck morreram ou desapareceram definitivamente seis personagens em momentos necessários, mas outros sete ficaram com suas trajetórias interrompidas que poderiam vir a ser boas ou más.
Em As Vinhas da Ira a família Joad era composta de doze pessoas, que eram: O Avô, A Avó, Tommy Joad sempre chamado apenas de Pai, sua esposa, somente Mãe e seus filhos: o mais velho Noah, o Tommy ou Tom, o Al, a Rosa de Sharon chamada por eles de Rosasharn, a Ruthie e o Winfield. Tinha também o Tio John irmão do Pai e o Connie marido de Rosa de Sharon.
Pouco antes da viagem que fizeram de Oklahoma para a Califórnia, juntou-se e com eles partiu para a aventura, o antigo amigo da família e ex-pregador Jin Casy, totalizando treze pessoas, que foram os principais personagens do enredo.
Retiraram-se de um sítio falido e destruído pelos bancos que se apossavam de todas as terras, em um velho caminhão com todas suas tralhas, algum alimento e um pouco de dinheiro.
No decorrer da experiência arriscada o Avô morreu ainda no inicio da viagem quando a família Joad conheceu o casal Ivy e Sairy Wilson e com seu falecimento concluiu o papel que lhe foi destinado na história.
Tempo depois, quem não resistiu foi Noah o filho mais velho do casal Joad que abandonou a família num momento de total desânimo e desespero. Não tendo coragem de atravessar o deserto ficou as margens de um rio onde dizia que ia passar o resto de sua vida pescando, portanto também ele teve sua participação finalizada.
Os demais a duras penas atravessaram o terreno hostil e ermo e já em terras férteis da Califórnia, morreu a Avó na noite anterior a chegada. Ela também teve sua historia devidamente concluída.
Algum tempo depois, sofrendo a miséria e as humilhações que já eram pertinentes às centenas de milhares de migrantes foi a vez de Connie fugir do convívio deles na tentativa de retornar a sua terra de origem e assim saiu de cena, tendo cumprido seu papel na narrativa, deixando sua esposa Rosa de Sharon grávida e prestes a ter um filho.
Os milhares de miseráveis passando por muitas situações de injustiça causada por fazendeiros e pela policia da Califórnia, onde a família estava acampada a procura de trabalho, em uma revolta fez com que Tom enfurecido agredisse um policial escondendo-se em seguida para evitar sua morte.
Jin Casy o ex-pregador confessou ter sido o agressor, salvando-o. Foi preso em seu lugar e provisoriamente se perdeu do grupo e da narrativa, voltando posteriormente à história como líder de um movimento de trabalhadores grevistas.
Ele foi o quinto personagem que o escritor determinou como completa sua participação, matando-o. No momento de seu assassinato, Tom que tinha acabado de reencontrá-lo, presenciou tal fato e revidou, eliminando o assassino, mas foi violentamente ferido no rosto e fugiu em tempo de se esconder dos agressores.
Permaneceu próximo ao acampamento onde estava a família e Mãe levava-lhe alimentação, impedindo-o de aparecer perante as pessoas para não ser reconhecido e preso ou morto.
Fortes chuvas e violenta inundação obrigaram-no procurar outro abrigo e isso o separou definitivamente do restante da família.
A história criada por John Steinbeck teve seu final sem a volta bem sucedida ou a morte de Tom que como a Mãe, a meu entender, foram os mais importantes personagens do romance.
Ele concluiu sua maravilhosa narrativa com tal tempestade onde toda a família a beira da iminente destruição por fortes enchentes teve de abdicar do lugar onde estavam.
Combinaram que ficariam no local tomando conta dos míseros pertences apenas Al com o casal Wainwright e a filha Aggie que estava vivendo maritalmente com ele. Tal casal era recém-conhecido da família Joad e foi a Sra.Wainwright que com a Mãe quase a vias de se afogarem dentro do vagão abandonado onde moravam, tentarem de tudo para salvar o nenê de Rosa de Sharon na hora do parto. Foi em vão, pois ele nasceu morto.
A Mãe, o Pai, Rosa de Sharon o tio John e as duas crianças abandonaram o vagão onde moravam, o caminhão e seus demais pertences para tentaram se abrigar em uma região mais alta, pois as águas já haviam invadido os vagões da linha férrea abandonada onde moravam centenas de famílias.
Afastaram-se vagarosamente com a água a altura do peito pela estrada de rodagem que estava em um plano mais elevado que os trilhos da estrada de ferro a procura de melhor abrigo.
Durante muito tempo caminharam com água até o pescoço, tentando chegar a um galpão visto ao alto, quando ouviram:
[..... – Depressa! – gritou Mãe. – Vem chuva grossa!
Vamos pela cerca, é mais rápido. Faz força, Rosasharn. – A moça atravessou a vala da estrada semicarregada, e depois os outros a ajudaram a passar a cerca. Veio, então, uma forte rajada de vento. A chuva chicoteava-os, enquanto eles chafurdavam no lodo, galgando a pequena elevação, rumo ao galpão. Este estava agora quase oculto pela cortina de chuva, que se despencava assobiando, impelida pelas rajadas cada vez mais fortes. Rosa de Sharon escorregou. Cravou os dedos nos braços de Pai e Mãe. 
 – Pai, será que você pode carregar ela?
Pai debruçou-se sobre a moça e tomou-a nos braços.
– De qualquer maneira, a gente já está toda ensopada. Vamos ligeiro – disse. – Ruthie, Winfield, vocês vão adiante. 
Ofegando, eles chegaram ao galpão, afinal. Entraram tropeçando pelo lado esquerdo da construção. Não havia porta nesse lado. Algumas ferramentas de agricultura, enferrujadas, jaziam num canto, um disco de arado, um gradador quebrado e uma roda de ferro. A chuva fustigava o teto e formava compacta cortina à entrada. Pai sentou delicadamente Rosa de Sharon sobre um caixote gorduroso.
– Grande Deus! – disse, suspirando.
Mãe disse:
– Pode ser que tenha palha ai dentro. Olha aquela porta.
– Deu um empurrão na porta, que girou nos gonzos enferrujados. – Tem sim! Gritou. – Tem palha! Vamos entrar, todos.
Era escuro lá dentro. Uma luz fraca apenas penetrava pelas fendas das paredes de tábuas.
– Deita, Rosasharn – disse Mãe. Deita’í e descansa, ouviu? Vou ver se dou um jeito de te secar a roupa.
Winfield disse:
– Mãe! – E a chuva que fustigava o teto do galpão abafou sua voz. – Mãe!
– Que é? Que é que tu quer?
– Olha, ali naquele canto.
Mãe olhou. Havia dois vultos recortando-se na penumbra; um homem, deitado de costas, e um menino, sentado ao lado dele. De olhos arregalados, fixos nos recém-chegados.
Quando estes o olharam, o menino lentamente pôs-se de pé e acercou-se deles. Tinha uma voz grasnante:
– Este galpão é seu? – perguntou.
– Não. – disse Mãe. – a gente entrou aqui por causa da chuva, mas não é nosso. ‘Tamos com uma moça doente aqui. Será que vocês tem algum cobertor seco para emprestar? Ela tem que tirar o vestido molhado.
O menino regressou ao seu canto, apanhou um cobertor sujo e estendeu-o a Mãe.
– Muito obrigada. – disse ela. – Que é que esse moço tem?
O menino respondeu com aquele grasnar monótono:
– Primeiro ele ‘teve doente: agora ‘tá morrendo de fome.
– O que?!
– É isso. Morrendo de fome. Ficou doente na colheita do algodão e faz seis dias que não come nada.
Mãe foi ao canto obscuro e debruçou-se sobre o homem. Poderia ter uns cinqüenta anos. Seu rosto era barbudo e os olhos muito abertos fixavam o nada. O menino colocou-se ao lado da Mãe.
– Ele é teu pai? – perguntou ela.
– É, sim. Ele sempre dizia que não ‘tava com fome e não comia quase nada. Dava toda comida pra mim. Agora ‘tá fraco que nem pode mais se mexer.
A chuva amainou outra vez e tamborilava com brandura no teto do galpão. O homem magro moveu os lábios. Mãe ajoelhou-se ao lado dele e encostou o ouvido à boca do homem, cujos lábios tornaram a mover-se sussurrando qualquer coisa.
– Bem. – disse Mãe. – naturalmente. Fique sossegado. Espere só até eu tirar as roupas molhadas da minha filha.
Mãe voltou para junto de Rosa de Sharon.
– Trata de te despir, anda. – disse. Estendeu o cobertor, fazendo dele uma cortina para escondê-la dos olhos dos outros. E, quando Rosasharn ficou nua, Mãe enrolou-a no cobertor.
O menino estava, agora, novamente ao lado de Mãe, explicando:
– Eu não sabia de nada. Ele sempre dizia que já tinha comido ou então que não tinha fome. A noite passada, eu entrei numa casa, quebrando a vidraça de uma janela e roubei um pão. Dei um pedaço pra ele comer, mas vomitou tudo e depois ficou mais fraco ainda. Devia era tomar sopa ou leite ou coisas assim. Será que a senhora tem algum dinheiro para comprar leite?
– Mãe disse:
– Ssciu, fica quietinho. A gente dá um jeito, já, já.
– Ele ‘tá morrendo! Ele vai morrer de fome, ‘tou te dizendo.  
– Ssciu! – fez Mãe. Lançou olhares a Pai e tio John, que estavam contemplando o doente. Olhou Rosa de Sharon, envolta no cobertor. Seus olhares fugiram dos de Rosa de Sharon e tornaram a encontrá-los.
E as duas mulheres liam tudo nas respectivas almas. A moça ofegava, respirava com um ritmo curto e apressado.
Ela disse:
– Sim.
– Mãe sorriu.
– Eu sabia. Eu sabia que tu me compreendeu. – olhou as mãos enlaçadas com firmeza sobre o colo.               
Rosa de Sharon disse baixinho:
– Saiam vocês todos... por favor. – A chuva fustigava fracamente o teto.
Mãe inclinou-se sobre a filha e com a palma da mão afastou as mechas revoltas que lhe caiam sobre a testa e lhe deu um beijo na testa.
– Bom, andem depressa, vão saindo. – disse Mãe, pondo-se de pé. – Fiquem aí fora um pouquinho.
Ruthie abriu a boca para dizer qualquer coisa.
– Ssciu! – fez Mãe. – Fique quieta e vá saindo. – Empurrou-a porta afora, e o mesmo fez com os outros. Por fim, pegando o menino pela mão, também saiu, fechando a porta guinchante atrás de si.
Por um minuto Rosa de Sharon permaneceu imóvel no centro do galpão, em cujo teto cochichava a chuva. Depois ergueu-se pesadamente, enrolando-se mais no cobertor. Lentamente, dirigiu-se ao canto escuro e quedou-se a olhar o rosto sofredor do desconhecido, lendo-lhe nos olhos arregalados e cheios de temor. Então, com vagar, dobrou os joelhos e deitou-se ao lado dele. O homem esboçou um movimento negativo com a cabeça, um movimento fraco e muito lento. Rosa de Sharon desfez-se do cobertor, deixando os seios desnudos.
– Tem de ser – falou, aproximando-se mais dele, e puxando-lhe a cabeça a si. – Assim – disse. Apoiou-lhe a cabeça com a direita, e seus dedos lhe sulcaram suavemente os cabelos. Ergueu os olhos e seu olhar percorreu o galpão escuro e seus lábios cerraram-se e ela sorriu misteriosamente.]
FIM
Exatamente com essas palavras esse foi o maravilhoso final do romance que terminou exatamente onde o autor propôs.
Como disse anteriormente pretendo que Pai, tio John, Al, Rosa de Sharon, Ruthie, Winfield e principalmente Mãe e Tom tenham mais participação, por isso atrevida e modestamente eu vou iniciar criando a história (Final de uma historia que já teve fim), para dar continuidade aos eventos que criarei para o restante da família Joad.
 
Estudos têm revelado que o leite materno pode ser usado para manter a saúde em geral e poderia inclusive ser uma cura milagrosa para doenças de adulto como câncer e diabetes.
Sabendo disso ou não Steinbeck, a Mãe e Rosa de Sharon fizeram a coisa certa.
Exceto o moribundo que amamentava nos seios de Rosa de Sharon, os demais se nutriam de raízes, plantas aquáticas, frutos silvestres que encontravam em abundancia dentro da inundação. Também de peixes que conseguiam pescar no rio e fora isso de pequenos animais caçados nas imediações do galpão e os dias foram passando embora a chuva tivesse terminado já há vários dias.
Mãe não concordava com os outros em voltar aos vagões para encontrar Al, pois não deixaria Rosa de Sharon sozinha em sua função de alimentar o desconhecido que melhorava em ritmo muito lento e nem o abandonaria levando a filha.
Pai e tio John ainda permaneciam com febre proveniente de alguma infecção causada pela lama e pela sujeira que encontraram durante a viagem.
Nenhum deles tendo argumentos nem coragem para ir contra a decisão da  mulher que tomara para si, graças a sua força e determinação, a liderança da família acatavam obedientes sua deliberação.
Não era apenas o moribundo que precisava de ajuda, pois tanto o Pai como o tio John, se bem que estavam bem melhores, ainda continuavam febris devido a forte gripe e possíveis infecções acometidas na enchente. Ainda exigiam alguns cuidados tanto de Mãe como das crianças que se incumbiam da pesca, da caça e da procura de frutos que encontravam.
Inquieto nos vagões Al via os dias passarem e o retorno dos familiares não acontecer, até que ele se dispôs a procurá-los.
O casal Wainwright e a filhaAggie que era sua esposa queriam ir juntos, mas ele garantiu-lhes o retorno breve.
Alegou que sozinho teria mais facilidade de locomoção para procurá-los, pois tinha certeza que eles teriam ido procurar abrigo em alguma região mais alta e tinham ido estrada afora no sentido sul, portanto não lhe seria difícil encontrá-los, fazendo o mesmo trajeto.
Embora Al já tivesse tentado de todas as formas colocar o caminhão em funcionamento, concluiu que ele não seria mais recuperado, pois algumas peças do motor estavam enferrujadas após tanto tempo inundado na água, lama e entulhos.
Os pneus foram totalmente inutilizados por troncos de arvores que vieram na enxurrada rasgando-os.
Necessitaria de muito dinheiro que seria impossível conseguir, para efetuar o conserto, por isso preferiu retirar e vender as partes aproveitáveis.
Entretanto os pertences da família ainda estavam ilesos dentro do vagão que eles ocupavam.
Combinou que sua esposa com seus pais ficariam em vigília, pois a maioria dos já amigos, os antigos abrigados no local tinha ido embora. Atualmente os vagões estavam sendo ocupados com outros migrantes tão miseráveis quanto os anteriores, porem desconhecidos e entre eles poderiam encontrar-se pessoas de más índoles, independentes dos que ainda chegariam, e poderiam roubar-lhes o pouco que ainda lhes restava.
Aggie e seus pais não poderiam descuidar-se de seus próprios pertences e nem dos da família Joad.
Al rumou-se em direção sul pela estrada, e bastou apenas um dia de caminhada lenta, para encontrar-se com os seus.
§  Oi Al. Você veio nos buscar? –Perguntou Ruthie que o viu chegando.
§  Sim, porque não voltaram se há muito tempo a chuva já acabou e até a inundação já escoou quase toda?
§  Mãe não quer ir. Fale com ela.
Todos se encontraram e Al reclamou com a Mãe sua postura de continuar no galpão e ela explicou-lhe os motivos.
§  Entendi, mas para tudo há de haver um jeito. Nós não estamos longe. – Respondeu Al.
§  É claro que estamos. Levamos mais de uma semana para chegarmos aqui.
§  No meio da escuridão dos céus naqueles dias de tempestade e da dificuldade de caminhar dentro da água até o peito com uma criança em seu pescoço, outra na do tio e Rosa de Sharon no colo do Pai, como vocês vieram, foi penoso e demorado. Agora que está sem chuva e o caminho quase seco, saindo daqui cedo antes do anoitecer chegaremos lá, onde ficarão muito mais confortáveis e seguros.
A chuva voltou fraca, mas persistente dando a impressão que ficaria dias para amainar.
§  O doente não pode andar e o Pai e o tio John, não poderão fazer força para ajudá-lo levar o homem, principalmente agora que voltou a chover.
§  Essa chuva é passageira. Logo abrandará.
§  Não parece isso não. Quando chove só serenando costuma ficar dias e dias para acabar.
§  Os três meninos e eu conduziremos o enfermo em uma maca improvisada com galhos de árvores e cobertores. Você, Rosa de Sharon, o Pai e o tio John, levarão só a vocês próprios, bem agasalhados com os panos e as palhas que tem no galpão. Acha que alguém não tem condição de caminhar entre vocês?
§  Acho que tu tem razão, se é só um dia de caminhada. Vou falar com todos e depois de amanhã cedo partiremos. Vamos esperar pelo menos mais um dia para o Pai e o tio John melhorarem mais um pouco, pois agora que chegou trazendo fósforos e alimentos, posso fazer uma sopa forte e quente para eles e as crianças. Com o fubá, ao invés de alimentos vou fazer uma massa quente para colocar de emplastos nos peitos deles para rápido aquecer-lhes os pulmões e acabar de vez com a gripe e a febre deles.
Chamou pelos meninos e pediu para que eles reunissem toda a família ao redor da fogueira que Al tinha feito na frente do galpão para conversarem todos juntos.
Conforme o hábito, os homens ficaram um ao lado do outro de cócoras e as mulheres e as crianças em pé perto da Mãe em frente aos homens, mas desta vez Mãe, a pedido de Al, mandou que as crianças voltassem e ficassem dentro da casa vigiando o doente com seu filho pequeno e mandassem que Rosa de Sharon viesse.
Mãe iniciou a conversa perguntando a Al.
§  Alguma notícia de Tom?
§  Nada.
§  Mau sinal. Ele não nos abandonaria, pelo menos sem antes falar comigo.
§  É estranho, mas ele ainda vai aparecer.
§  Como serão os trabalhos que estão para começar? Tem ouvido falar alguma coisa?
§  As coisas andam mudando e é por isso que reuni todos os adultos para escutar-me. Por toda a Califórnia se fala que já nesse inicio da colheita de morangos os preços devem ficar estáveis ou se cair será muito pouco.
§  Como assim? Os fazendeiros resolveram respeitar nossos direitos?
§  Eles não. Seremos nós mesmo que exigiremos.
§  De que forma?
§  O pessoal está sendo liderado por um homem e ninguém vai ceder aos abusos e trabalhar de graça não, como sempre acontecia aos migrantes miseráveis como nós que chegavam aos milhares.
§  Verdade isso?
§  Pelo que ‘tou sabendo, nesse longo tempo que ninguém ganhou nenhum dinheiro no estado inteiro, poucos morreram. De fome ninguém morreu. Apenas os já doentes que morreram de doença mesmo.
§  É serio mesmo?
§  É. As inundações trouxeram nas enxurradas, muitos alimentos das roças e dos armazéns, ainda aproveitáveis e também fizeram a proliferação de frutas silvestres e muito peixe. Até os pequenos animais rasteiros ficaram fáceis de serem caçados e por isso um tal Cara Amassada está divulgando de boca em boca que apenas para a comida, basta caçar ou pescar sem precisar trabalhar para ninguém. Todo o povo migrante está entendendo tal ensinamento e só trabalharão por preços justos.
§  Quem é esse?
§  Não sei ao certo. Só desconfio quem seja e como não tenho certeza, é melhor ficar calado. Dizem que o Cara Amassada ninguém encontra ele não. Nem a gente e muito menos a policia sabe onde encontrá-lo.
§  Não seria o Tom?
§  Porque ele, Mãe?
§  Não sei. Lembro-me muito bem que quando ele se safou após a morte do pregador, apareceu com o rosto destroçado por marretadas. Ele pode muito bem ter sarado das feridas e ficado com a cara amassada.
§  Eu nunca vi e nem ouvi dizer como o líder é fisicamente para comparar com o Tom.
§  Quando Tom encontrou-se com o reverendo Jin Casy após ele ter saído da cadeia e transformado em uma espécie de guia entre as multidões incentivando a greves dos trabalhadores...
§  Eu sei de tudo isso Mãe, esqueceu que eu sei?
§  Pois é. O Tom saiu e acabou encontrando ele por acaso. Viu quando o mataram e matou o matador dele, mas ficou muito ferido e fomos obrigados a sair do acampamento onde estávamos e com ele escondido no caminhão debaixo dos colchões você nos trouxe para os vagões. Está lembrado?
§  É claro que ‘tou lembrado de tudo isso. Eu sei exatamente como foi que aconteceu.
§  Ele escondeu-se próximo aos vagões e somente eu sabia exatamente onde ele ficou até curar-se, mas com as tempestades ele teve de sair de onde estava para outro local e depois eu também sai e nunca mais soube dele.
§  Mãe você está enganada. Todos nós sabíamos que ele estava num cano de esgoto perto dos vagões. Não se lembra de quando eu parei o caminhão para ele descer?
§  Naquele dia ele pediu para você parar o caminhão para ele ficar no tal cano, mas só ficou lá uma noite para eu encontrá-lo no dia seguinte, mas ele escondeu-se em outro lugar melhor e mais seguro, que não falei para ninguém.
§  Porque nunca me falou disso?
§  Por ordem dele. Ninguém podia saber, pois as crianças poderiam contar para alguém e também se todos vocês fossem vê-lo toda hora, poderiam pôr a vida dele em risco.
§  Está bem Mãe. Agora vou lhe contar. É ele mesmo que é o líder dos trabalhadores. Tenho certeza.
§  Porque você diz isso?
§  Já há algum tempo ouço dizer que o chefe dos trabalhadores é um antigo amigo do ex-pregador falante, que sabemos que é o pregador Jin Casy. Agora com você dizendo que na contenta em que ele se feriu, seu rosto ficou todo danificado, passei a ter certeza que ele é o Cara Amassada. Naquela noite que você o socorreu eu não vi o rosto dele durante a viagem, pois ficou escondido por você debaixo dos colchões na carroceria do caminhão. Quando ele desceu para ir para o tal cano de esgoto, também nada vi, na escuridão da noite. Eu sabia que ele estava machucado, mas não a ponto de ficar com a cara amassada depois de curado, pois eu nem sabia em qual local do corpo ele estava ferido. Você nunca disse. Agora que você está contando da gravidade dos ferimentos e que foram no rosto é que estou ligando todos os fatos e concluindo que é ele.
§  Como assim?
§  Que o tal Cara Amassada era amigo do ex pregador eu já tinha ouvido falar. Agora você me contando que os ferimentos do Tom eram no rosto e muito graves, estou entendendo que ele ao sarar tenha ficado com a cara amassada. Ele nunca foi de levar desaforos para casa e para se transformar no justiceiro, líder dos migrantes seria mesmo seu próximo passo.
§  Ele é estourado igual ao Pai, mas não tem maldade no coração e não acredito que ele fará mal a alguém.
§  Mas ele não está fazendo nada disso. Está guiando os migrantes a fazerem justiça, tal qual Gandhi fez recentemente libertando a índia da opressão sem matar absolutamente ninguém. Apenas orientando as pessoas de não aceitarem serem exploradas.
§  Então se é ele o líder dos trabalhadores vão acabar matando ele também igual fizeram com o ex-pregador.
§  Contaram-me que nem os migrantes o conhecem e ninguém o vê. Ele não faz igual o pregador que falava para multidões e mostrava a cara na frente das porteiras das fazendas cheias de vigilantes e policiais. Ele faz reuniões secretas com apenas umas poucas pessoas de sua inteira confiança e esses por sua vez, separados, fazem outras reuniões também escondidas com poucos amigos e assim por diante. Todo mundo acaba sabendo de como proceder e para onde ir procurar trabalho, etc. São informações secretas passadas de boca em boca sem ninguém saber de quem ou de onde partem as decisões.
§  Então ele está bem escondido?
§  Com certeza está. Totalmente em segurança.
§  Como funciona esse plano?
§  É até simples. Desde que todos cooperem e parece que estão cooperando.
§  Como é?
§  Nesses meses que se passaram sem nenhuma fazenda precisar de trabalhadores, é claro que ninguém foi perseguido pela policia e nem por capangas dos fazendeiros. Simplesmente nos deixaram para que morrêssemos a míngua, entretanto fomos sendo avisados para desfazermos de tudo que fosse possível vender, o que seria perfeitamente normal, mas ao invés de comprarmos comidas caras nos armazéns que sempre são dos próprios fazendeiros, precisaríamos adquirir o mínimo possível do básico necessário para cozinhar.
Deveríamos nos alimentar ao máximo de raízes, plantas e frutas nativas, além de pescarmos grande quantidade de peixes e caçarmos o que pudéssemos de animais e aves e salgá-los para ficarem conservados. Quando os fazendeiros começarem chamar trabalhadores para a colheita dos frutos que começarão logo, simplesmente nós exigiremos o preço justo e é claro que eles a principio concordarão, mas com a chegada de mais trabalhadores eles vão querer abaixar o preço como sempre fizeram, demitindo quem não aceitar, contratando os esfomeados que chegam. Sempre foi assim, mas de agora pra frente, todos recusaremos trabalhar por valores menores, porque temos comida guardada. Seremos dispensados, entretanto todos os novos que chegarem só trabalharão pelo preço justo, pois não terá ninguém passando fome, uma vez que também eles têm provisões guardadas. Daí os fazendeiros não poderão recusar o preço exigido senão não terão empregados e os frutos apodrecerão nas roças e eles irão à falência.
§  Mas e o que acontecerá com os primeiros que serão despedidos.
§  Simplesmente irão para outra fazenda, ocupar o lugar dos que saíram de lá por demissões, exigindo salários justos. Entendeu?
§  Acho que sim. Todos irão apenas trocando de fazenda para outra e assim por diante.
§  Exatamente. Todos farão rodízio até que os fazendeiros entendendo que é perda de tempo e dinheiro ficarem demitindo uns e admitindo outros sem poder abaixar salários. Eles simplesmente ficarão com os mesmos trabalhadores já acostumados em suas plantações pagando o valor certo durante toda a colheita.
§  Assim todo mundo fica ganhando direito. É muito bonito se isso acontecer de verdade, pois na prática será diferente. Têm os outros migrantes que vem em busca de sucesso e na hora da miséria acabam estragando tudo. Lembra-se quando viemos que fomos alertados sobre essa tal escravidão e nunca acreditamos enquanto não caímos na armadilha? Outros farão o mesmo e o plano irá por água abaixo, não acha?
§  Isso não vai acontecer mais.
§  Por quê?
§  Porque o Governo federal implantou o New Deal, que programará o bem estar público. Está restabelecendo e ampliando o mercado interno e organizando o mercado externo e para consolidar isso exige a manutenção e restabelecimento de preços dos produtos agrícolas e industriais, forçando a redução de débito e a expansão do credito, elevando o poder aquisitivo do povo em geral. Também criou o plano de ajuda social para os desempregados assim como a previdência social. Esse controle público será rigorosamente fiscalizado nas cidades onde fica mais fácil o acesso dos homens do próprio governo, mas nas roças onde os fazendeiros são verdadeiros donos ou deuses, nós faremos nossa parte e logo tudo voltará ao normal.
§  Será que vai dar certo mesmo? E o povo na miséria em outros estados não continuarão vindo para cá?
§  Não, pois serão poucos os que se aventurarão em sair de seus próprios estados perdendo a ajuda do governo para se aventurar na Califórnia, onde não receberão ajuda nenhuma, pois para conseguir o auxílio devem se manter em seus estados. Os poucos que ainda estão vindo para cá, estão sendo muito bem orientados por pessoas da cúpula do movimento dos trabalhadores sobre como funciona. Não são apenas alguns malucos e bêbados que encontramos que não nos faziam crer na historia deles, pois eles não nos inspiravam confiança.
Esses de agora sim. São organizados e esperam os novatos em todas as entradas para a Califórnia e explicam direito como funcionava e como irá funcionar de agora pra frente e até fornecem alimentos para que não tenham necessidade de trabalharem apenas pela comida.
§  Então você acredita que de agora em diante tudo vai dar certo? Todos vamos trabalhar e receber o merecido?
§  Pode até demorar um pouco e também ainda deverá haver muita matança de gente, mas logo logo tudo entrará nos eixos.
A conversa entre Al e Mãe foi na presença de toda a família, portanto todos ficaram sabendo sobre a situação atual o que fez com que Pai falasse.
§  Se quiserem partir agora eu concordo, pois só de saber disso já me sinto até curado e quero ir logo começar trabalhar.
§  Eu também concordo.  – Disse o tio John.
§  Mãe divergiu deles e combinaram partir só dois dias depois, logo pela manhã.
Foram dormir após alimentarem de carne de caça que assava no fogo feito por Al que além de clarear o ambiente serviu para fazer o jantar mais consistente. Mãe fez uma sopa com legumes e carne para todos que se alimentaram muito bem durante essa noite e no dia seguinte. Apenas Mãe permaneceu próxima a fogueira mais algum tempo enquanto as crianças chamadas por ela também se alimentaram. Enquanto isso ela preparou o emplasto de fubá quente para colocar no peito do Pai e do Tio John.
Partiram no dia combinado logo após o sol clarear sem nenhuma chuva ou chuvisco, mas infelizmente para o desconhecido que embora estivesse razoavelmente alimentado com o leite materno de Rosa de Sharom, a viagem durou poucas horas, pois ele não resistiu vindo a falecer, no meio da viagem.
Seu pequeno filho, ao ver os Joab abrindo a cova para enterrá-lo, saiu em disparada e nem Al que com seus irmãos menores correram em seu encalço conseguiram alcançá-lo e por isso ele desapareceu definitivamente do convívio da família Joad.
Os irmãos Joad ao regressarem encontraram a cova já pronta feita por Pai, Mãe e tio John que apenas os aguardavam para a oração de despedida. Al quis fazer o enterro igual ao do avô, mas foi impossível, pois nos quase dois meses que estiveram juntos, o menino filho do morto apenas se identificava como filho e se referia a seu pai, apenas como pai, portanto não tinham nome e endereço algum para deixar escrito dentro de uma garrafa junto ao corpo do morto identificando-o. Foi enterrado literalmente como indigente mesmo.
Enquanto toda a família orava em voz baixa para encomendar o defunto, tio John gritava:
§  Sou eu quem deveria ser enterrado aí. Cometi um pecado muito grave e mereço esse castigo. Tirem ele daí e me coloquem no seu lugar. Só assim vou pagar meus pecados.
Esses momentos de loucura de tio John já existiam de há muito, mas ninguém soube exatamente qual era o crime que ele se acusava.
Após esse desabafo, acocorou-se como sempre fazia e permaneceu mudo não participando das orações.
A ida deles até os vagões foi rápida conforme o esperado chegando ao inicio da noite.
Depois de jantarem fartamente a comida preparada pela Sra. Wainwright, com pai e tio John dormindo a sono solto, Mãe, Rosa de Sharon e o casal Wainwright conversaram a noite toda na metade do vagão que era dos Joad.
Na outra metade quem não dormiu foi Al e sua esposa Aggie, também conversando em voz baixa, pois dormiam próximo a eles, os irmãos pequenos.
No outro dia foram acordados cedo por um xerife e vários vigilantes do fazendeiro próximo que vieram exigir deles e de outros moradores, a desocupação após efetuarem a limpeza dos vagões, para que estivessem preparados para abrigo de outras famílias que não tardariam a ocupá-los, pois a fazenda logo ofereceria trabalho aos migrantes. Os homens quiseram reclamar e discutir, mas foram impedidos por Mãe que exigiu de todos obediência muda e apenas ela falou.
§  Senhor xerife, nós vamos trabalhar na colheita dos morangos dessa fazenda mesmo e pretendemos ocupar esse vagão, que já conservamos limpo, desde a colheita do algodão.
§  Quantos são?
§  Após rápida contagem nos dedos, Mãe respondeu. Somos dez. Quatro homens adultos, quatro mulheres também adultas e um menino e uma menina, já grandinhos.
§  Em uma hora voltaremos e quero todos os documentos.
§  Tudo bem.
§  Mas, Mãe você contou nós também? – Perguntou Aggie.
§  É claro. Não vamos ficar todos?
§  O Al ainda não lhe falou nada?
§  O que ele teria de me falar?
§  Nós vamos embora para Los Angeles.
§  O que? Você vai deixar de viver com o Al?
§  É claro que não. Ele vai também.
§  Como? Não é possível. Ele é o único que sabe guiar o caminhão para nós nos movimentarmos de um lugar para outro.
Quem respondeu foi o próprio Al.
§  Mãe o caminhão não presta para mais nada. Tudo que foi possível retirar dele e vender eu já fiz. O que sobrou aí é só uma carcaça que nada vale e vai ficar abandonada. Nós não temos mais nenhum veículo para consertar e locomover.
§  Mas não é possível você também nos deixar.
§  Mãe você sabe muito bem que só fiquei esses últimos dois anos junto da família era para guiar e consertar o caminhão e como agora ele não presta mais, eu quero ir para Los Angeles trabalhar em oficina mecânica que sempre foi meu desejo.
§  Não é possível! Mais um que desgarra da família.
§  Eu entrei na conversa no meio do caminho. Deixe-me falar qual é meu primeiro plano. É para todos nós irmos juntos para Los Angeles. O que acha?
§  De jeito nenhum. Só sei trabalhar em roça e não vou para lá nem morto. – Quem respondeu foi o Pai.
§  Temos de esperar o regresso do Tom. – Quem falou foi Mãe.
§  Mãe me deixa ir com eles? – Foi Ruthie que entrou na conversa.
§  Não. Em vocês que são crianças ainda mando eu. Vocês ficam e virando-se para Al continuou: Como vamos viver após sermos demitidos na primeira leva de trabalhadores. Vamos ter de aceitar trabalhar mais barato, pois nada temos de reserva. Lá no galpão só caçávamos para o alimento do dia. Não tínhamos sal para salgá-los e conservá-los.
§  Sou eu o culpado de tudo. Por causa de meus pecados, o plano bom que foi feito por um Joad vai ser destruído por outros Joad. É a minha culpa. Sou o causador de todos os males. Foram meus erros e meus pecados os culpados de toda essa discórdia. – Tio John voltava a falar as besteiras de sempre.
§  Deixa de se acusar tio John. Você não tem culpa de nada, e para você Mãe, vou dizer o seguinte: Como eu já imaginava a recusa de vocês em irem comigo eu havia planejado e preparado a solução. Tem muita caça salgada que vamos deixar para vocês e até um pouco do dinheiro que recebi com a venda de muitas peças do caminhão. Prometo que quando eu estiver bem empregado e bem instalado em Los Angeles voltarei para nos encontrar e levá-los para lá, para viverem comigo.
Todos estavam reunidos quando regressaram os vigilantes com o xerife exigindo os documentos e desta vez foi Al que começou tentando explicar:
§  Comissário, nós estamos terminando um assunto importante e logo vou lhe dizer do que se trata. Espere-nos mais uns minutos que nossa conversa está no fim.
§  Não venha com embromação que não estou aqui para isso. – Falou o xerife já sacando o revolver engatilhando-o.
§  Calma. Não se precipite delegado.
§  Se meu outro irmão tivesse aqui o senhor não seria tão valentão.
Quem disse isso foi Ruthie, sendo imediatamente repreendida pela mãe que a mandou calar a boca. Ela foi correndo e chorando para dentro do vagão.
O policial mantendo a arma em punho, assim como dois vigilantes entraram no vagão, revistando-o completamente e exigindo a presença da menina junto aos demais que permaneciam quietos fora do vagão contidos por outros homens armados.
Energicamente e aos gritos o delegado perguntou olhando para a menina.
§  Quem é esse irmão bravo?
§  É o Tom. – desta vez foi Winfield quem respondeu e a mãe não pode repreendê-lo, pois foi impedida pelo policial que pretendia interrogar apenas as crianças.
§  Será que finalmente achamos o tal Cara Amassada?
§  Quem é essa cara amassada? – indagou Winfield.
§  Deve ser seu irmão valente.
§  Pois saiba que meu irmão era e foi até o fim muito bonito e nunca teve a cara amassada não senhor.
§  Porque você disse que ele era bonito? Não é mais? Por quê?
§  Não. Não é mais e porque agora ele deve ser só caveira, pois já morreu há mais de dois anos e na cova dele só deve ter os ossos.
§  O que esse moleque está falando? - Perguntou o policial olhando para os adultos.
Mãe percebeu o truque do pequeno e esperto filho e tomou a palavra informando mentirosamente que quando vinham para a Califórnia seu filho Tommy Joad, foi morto em uma briga com três homens ainda no estado do Arizona. Inventou que ele foi assassinado com dois tiros no peito e indicou o local onde foi enterrado o avô referindo-se ao filho Tom, confirmando a história iniciada por Winfield.  Ela sabia que o xerife da Califórnia não iria até lá certificar-se, até porque eles estavam a procura de um jovem que deveria estar vivo em seu condado e não um defunto enterrado em outro estado longe de sua jurisdição há mais de dois anos. Ela sabia que a mentira do menino iludira o xerife, pois geralmente as crianças são muito verdadeiras e suas conversas são sempre convincentes e para melhorar ainda mais a situação deles falou-lhe que conferisse nessa própria fazenda os seus respectivos nomes, pois tinham trabalhado nela na colheita passada de algodão. Que se fizessem isso já verificariam a ausência de tal filho. Que sua família era somente a que estava presente com seus próprios documentos que estavam apresentando.
Os policiais conferiram todos os documentos e o xerife parou ao deparar que o documento apresentado pelo Pai onde constava o nome Tommy Joad, e perguntou-lhe rispidamente, novamente empunhando a arma que já estava no coldre.
§  Afinal Tommy Joad. Não está morto? O que você faz aqui?
§  Eu sou o Tommy Joad pai com quase sessenta anos. Confira a data do nascimento. O que morreu é meu filho que também era Tommy Joad, e se estivesse vivo e com seus documentos estaria agora com trinta e poucos anos.
§  Está bem. Todos estão certos e nenhum consta nas listas de procurados ou arruaceiros, mas você aí o que queria falar comigo.
§  Eu queria dizer que eu, minha esposa Aggie e meus sogros, o casal Wainwright, não vamos ficar. Nós iremos para Los Angeles, portanto não ocuparemos lugar nos vagões e nem iremos limpar nenhum.
§  Okey. Tem duas horas para arrumar suas coisas e sumirem daqui e vocês seis que vão ficar se ajeitem na metade do vagão que já estão, pois a outra metade será para nova família que chegar.
Retiraram-se, mas voltaram ao completar as duas horas para certificarem se Al e os demais tinham realmente saído e constataram que sim, porém o xerife encontrou-os alegres e falando alto e os questionou aos berros, novamente apontando-lhes a arma engatilhada.
§  Não era para vocês estarem tristes com a partida de parte da família? Porque estão alegres?
Como sempre, a Mãe quem tomava a iniciativa em todas as questões respondeu-lhe:
§  Além de já estarmos acostumados às desgraças desde que viemos para cá, já choramos o suficiente quando Al partiu, e agora estamos felizes, pois comentamos que os trabalhos vão iniciar logo e iremos ter dinheiro para comida que está faltando para nós há muito tempo. Olhe com seus próprios olhos que os dois homens mais velhos estão doentes. Verifique que ambos estão com febre. Veja minha filha mais velha, como está fraca e mal alimentada assim como eu e também os meninos. Não dá para perceber isso não? Seu desumano.
§  Acho que vocês estão escondendo alguma coisa. Vou ficar de olho em vocês.
§  Já fizeram seu serviço que é fiscalizar e conferir, portanto saiam de meu vagão, pois se meu filho falecido era bravo e corajoso é porque puxou a mim.
Assim falou, com uma panela de ferro em riste olhando séria para o xerife que afastou com os demais, assustado com a bravura da mulher.
§  Vou ficar com olhos em vocês.
§  Vá pro inferno.
Com a saída da comitiva de policiais eles voltaram a rir e comentar sobre o rápido e inteligente raciocínio de Winfield inventando aquela história, que salvou a asneira cometida pela Ruthie.
O único que não achava graça na história era tio John que resmungando falou para Mãe:
§  Você matou o Tom. Devia ter matado era a mim que mereço pelos meus pecados, não ele que é um menino muito bom e direito.
§  Cale a boca tio John. Ninguém matou ninguém. Foi só história do Winfield, que a Mãe confirmou, só para enganar o delegado. O Tom está bem vivo e escondido fazendo coisas boas para todo mundo. Ajudando o presidente ajudar nós. – Essa foi a fala de Pai.
Nesse mesmo dia a família se apresentou a fazenda, mas disseram que ainda era cedo para as contratações que só iniciariam dentro de uns dez dias.
Andando a esmo pelas imediações os Joad viam os policiais afixarem cartazes em todas as porteiras e árvores de todos os lugares visitados por eles. Tais cartazes diziam (Recompensa de 1000 dólares para quem entregar o Cara Amassada, vivo ou morto).
Todos ficaram apreensivos e temerosos e Mãe chorava escondido de todos, pela expectativa de perder o filho amado.
Pai que certo dia a viu nesse desespero chamou-lhe a atenção, recriminando-a.
§  Você que está nesses últimos anos tão forte não pode deixar-se ser vista assim. Toda cheia de medos e fraquezas.
§  Não tenho como suportar tanto sofrimento.
§  Os homens do xerife vivem a nos vigiar. Lembra-se que ele disse que ia ficar de olho em nós. Pois está fazendo isso e nada podemos demonstrar de desespero senão estaremos em maus lençóis.
§  Se forçarem-nos em contar a verdade estaremos enrolados e nem sequer podemos falar onde Tom está, pois nem sabemos.
§  E você faria isso?
§  Claro que não. Daria minha própria vida em troca da dele, mas se eles pegarem os pequenos que talvez não tenham a mesma disposição e eles falarem?
§  Vou conversar com todos sobre isso. Temos de continuar sempre com aquela mesma história, aconteça o que acontecer.
§  Eu lhe disse que entregaria minha vida no lugar da de Tom, mas por outro lado eu entregaria a dele em troca da das crianças pequenas, portanto você tem de parar com sua angustia de qualquer modo e impedir aos demais de choramingas.
§  Você tem razão. Não deixarei minhas lágrimas escorrerem, até porque acho que não as tenho mais. Já secaram. Devem ter sido as últimas gotas.
§  Mas sua cara de tristeza a delata.
§  Também mudarei meu semblante se é que será possível. Toda vez que ver alguém estranho, ou policial ou vigilante fingirei cara de alegre. ‘tá bom assim?
§   Desculpe Mãe, mas infelizmente é a única coisa que podemos fazer por Tom. Reúna a família para conversarmos sobre isso. É muito importante.
Passados mais ou menos sete ou oito dias, novos cartazes foram afixados nos mesmos lugares sobre os anteriores.
Neles estavam escrito em letras bem grandes. Já pegamos o Cara Amassada e na troca de tiros que houve tivemos que eliminá-lo definitivamente, juntamente com todo seu bando.  Em letras menores nos mesmos panfletos convocava os trabalhadores para encaminharem as fazendas, pois a colheita dos frutos da época iria começar em dois dias.
Não demorou meia hora para um estranho entregar sorrateiramente uma garrafa ao Pai, pedindo-lhe que só a abrisse e lesse o bilhete contido nela, escondido de todos, exceto de sua família. Tão rápido como chegou, o estranho desapareceu sem ser visto por ninguém. Nem mesmo o Pai viu o desconhecido que mantinha as abas do chapéu abaixado escondendo-lhe todo o rosto até próximo o nariz. As golas altas do capote fizeram a cobertura do queixo e da boca, portanto só foi possível Pai ver-lhe o nariz torto.
Ele reuniu todos e se trancaram no vagão, que embora estivesse sendo usado também por outra família, mas para a sorte deles tais moradores estavam na fila que se formou para o inicio das admissões no serviço da colheita próxima.
O bilhete foi escrito por Tom, pois todos reconheceram sua letra.
Pai começou a ler o seguinte.
Minha querida Mãe, Pai, tio John, Rosa de Sharon, Ruthie e Winfield.
Caso não reconheçam minha letra, entreguei-lhes o recado dentro de uma garrafa, pois usei esse critério para identificar o Avô em sua cova quando nós o enterramos e isso é coisa que só nós sabemos e para maior tranqüilidade de vocês de que eu estou vivo enderecei o bilhete a todos vocês. Sei que estão nos vagões onde ficaram quando de minha fuga, embora tenham saído durante a enchente para um galpão aqui perto mesmo e depois voltaram. Sei que Al tentou inutilmente consertar o caminhão e como foi impossível, vendeu o que pode para depois partir já casado para Los Angeles. Estou sempre perto de vocês vigiando-os para que nada de grave lhes possa acontecer.
Sei que já têm certeza de ter sido eu quem escreveu, por isso voltem para a fila para serem admitidos e não se preocupem comigo, pois estou bem.
Depois lhes mando outro bilhete, colocando durante a madrugada dentro do cano de esgoto ai perto para a mãe apanhar amanhã cedo. Nele vou explicar exatamente o que está acontecendo, e não se preocupem, pois está tudo sobre controle e eu estou bem vivo, até porque fui eu próprio que disfarçando a voz e escondendo o rosto entreguei a garrafa ao Pai em suas próprias mãos.
Informo-os que todos os trabalhadores já sabem que os panfletos da policia não passam de mentiras dos fazendeiros e dos policiais sobre minha morte para tentar desuni-los. Não vão cair na armadilha e trabalhar de graça, que é o que eles sempre quiseram.
Nosso plano que Al já sabia e que contou para vocês está e continuará sendo mantido, portanto tranqüilizem-se.
Acabando a leitura voltem imediatamente para a fila e bom trabalho a preços justos e continuem com a historia de que Tommy Joad Filho morreu há muito tempo com os tiros no peito e a cara intacta.
Soube dessa história porque em sua viagem o Al a contou para um amigo que levava informações a todos os trabalhadores e da mesma forma que elas vão também suas informações e reivindicações vêm até mim.
Agora ponham fogo nesse bilhete até que desapareça por completo.
A família, tranqüilizada pelo bilhete recebido de Tom, voltou a seus lugares e foram admitidos como trabalhadores na colheita de morangos sem nenhum problema, pois o preço inicial ofertado pelos fazendeiros eram sempre corretos.
Trabalharam com muito cuidado e não tão rápidos como na outra colheita de frutas para não as danificarem como já haviam feito antes e ficarem igual da outra vez sem receber pelos balaios colhidos com algumas frutas danificadas.
Nada de anormal aconteceu nesse primeiro dia para nenhum dos trabalhadores.
A mãe na expectativa de encontrar-se com Tom não esperou amanhecer para ir até o local receber a outra garrafa. De madrugada ainda foi para o local e assentou-se no tronco de uma árvore próxima espreitando para ver Tom chegar com o bilhete. Ficou escondida do lado oposto da estrada para que ninguém a visse de lá, entretanto ficou de frente para a mata. Sem que ela suspeitasse, Tom muito mais esperto e sagaz que ela, viu-a de longe muito antes de ela o enxergar, embora ela procurasse-o por toda possível trilha que o traria de dentro da mata.
Tom não podia correr nenhum risco e por esse motivo, mesmo tentado a encontrar-se com ela, não o fez e sorrateiramente colocou a garrafa no local combinado e partiu, entretanto de longe atirou uma pedra na Mãe para que ela o visse, mesmo que de longe.
Ela apanhou a garrafa, pois sabia ser impossível alcançá-lo mesmo correndo e também sabia que jamais poderia cometer tal estupidez, pois o colocaria em grande perigo.  Deu-se por satisfeita por vê-lo de longe e regressou ao vagão ainda bem antes do dia alvorecer. Novamente ansiosa e sem paciência para esperar o dia clarear acordou o Pai para que ele lesse a segunda carta. Foi impedida por ele de acender qualquer fogo dentro do vagão, porque além da outra família ao lado, poderiam chamar a atenção dos vigilantes e disse-lhe para dormir até que o dia iluminasse e então eles leriam o que estava escrito.
Logo pela manha Mãe foi preparar a primeira refeição da família e Pai que saiu do vagão viu que além das frutas e carne que eles tinham de reserva deixados pelo Al na comida preparada por Mãe tinha também leite e pão por isso perguntou aborrecido e bravo com ela.
§  Que pão e leite é esse Mãe?
§  Comprei agora pela manha com o vale que recebi da colheita de ontem.
§  Mas o Al não disse que o plano era para não gastar nada além de sal.
§  Foi só hoje, pois Rosa de Sharon, você e o tio John precisam de um pouco de leite. Os meninos também tem necessidade de leite e pão.
§  Você só faz o que bem entende. Não adianta nenhuma ordem para você cumprir, pois só faz o que quer mesmo.
§  Já disse. Foi só hoje. Comprei um pouco de fumo para você e o tio John, além de sal e também costelas com um pedaço de carne de porco fresca, café, torrões de açúcar, fósforos e velas.
§  Tudo bem. Mas não compre mais nada para os donos dos armazéns falirem conforme o plano.
§  Gastei só os vales que eu e você ganhamos, mas todos os demais estão guardados para serem trocados por dinheiro no fim da safra. Sem ser o pão, o leite e um pouco de carne fresca o restante era extremamente necessário, pois nada tínhamos. Nem fósforo para fazer fogo.
§  Está certo. Você tem razão, mas não gaste mais.
§  Está certo.  Nada comprando já será um baque para eles que não terão seus vales em troca de comida com preço aumentado e ainda terão de trocá-los por dinheiro para nós no final da colheita.
§  Entendeu bem. Então nada de gastos excessivos.
§  Agora acorde o pessoal para se alimentarem, lermos o recado de Tom e irmos para o trabalho.
§  Ainda não. Vamos esperar a outra família ir para a fazenda para podermos ler dentro do vagão sem ninguém ficar bisbilhotando qual é o segredo que tem na garrafa que você trouxe.
§  Tem razão. Está voltando a ser o homem sabido que sempre foi. Já é hora de você assumir de novo as rédeas da família, como sempre fez.
§  Sempre fui eu quem tomou conta de vocês, mas quando você tomou-me o poder mandando em todos nós o que eu podia fazer? Dar-lhes umas fortes palmadas, ou aceitar calado? Preferi aceitar calado.
§  Eu nunca me apoderei de nenhum poder. Apenas tomei as decisões da família a partir de quando você ficou muito agressivo com as brutalidades que nos impingiam e tive de puxar-lhe o cabresto senão você já tinha passado dessa para a pior, encrencando com esses policiais, vigilantes e fazendeiros cruéis e assassinos.
§  Agora sei que as coisas correrão de forma certa, portanto não ficarei mais bravo até por estar me sentido um pouco cansado com o peso da idade e já acostumado com você dirigindo tão bem a família. Confesso que nunca fui tão bom nisso quanto você.
§  Acho que esse foi o único elogio que ouvi de você em toda minha vida. Obrigada.
§  Mas se alguém bulir com qualquer um vocês, igual aquele imbecil daquele xerife fez com você e com as crianças eu não vou ficar mais quieto não. Vou botar ele pra correr, ou então pra ficar parado no mesmo lugar para sempre.
Poucos minutos depois a família que era composta pelo senhor Martin e senhora Suzany Liston, com os filhos Albert e Abraham, todos adultos que habitava o vagão há três dias saiu para a fazenda, pois provavelmente já haviam feito sua refeição lá dentro mesmo.  Com eles veio o restante da família Joab encontrarem com Pai e Mãe.
Pai convidou-os para comerem com eles, mas agradeceram e recusaram. Apenas Albert aceitou um pouco de café, que foi servido por Rosa de Sharon.
Na tranqüilidade do vagão fechado e á luz de vela, Pai leu o bilhete de Tom.
Família, não vou mais entregar-lhes recados pessoalmente, pois isso é um pouco perigoso, mas não se preocupem que estou em segurança. Os policiais ouvem falar de mim, mas só sabem o meu apelido (Cara Amassada), que é assim que sou conhecido, por infelizmente ter realmente ficado mais ou menos dessa forma na época que tudo começou. Depois que sarei definitivamente minha cara nem está tão amassada mais. Apenas o nariz um pouco torto, pois quebrou. O rosto já sarou e as cicatrizes aos poucos estão desaparecendo e para o lugar dos dentes já consegui dentadura, portanto nem faço mais jus ao apelido, mas é melhor que continuem pensando que o líder é um desfigurado de cara amassada, que nem sabem se é branco, preto, índio ou asiático. Jamais irão encontrá-lo.
Confesso para vocês que fui eu quem começou todo o movimento dos trabalhadores baseado nos sábios ensinamentos do ex-pregador Jin Casy. Como proceder eu sei que vocês já sabem, pois Al tinha a obrigação de explicar-lhes direito como vai funcionar, porque ele já sabia de tudo antes de partir, portanto é só fazerem como ele falou que será igual ao que todos os outros farão.  
Há muito tempo já planejamos tudo e divulgamos maciçamente o que todos têm de fazer e só falta colocar em prática para tudo correr direito.
É por esse motivo que os policiais e os fazendeiros desnorteados e talvez desconfiando ou mesmo sabendo do que irá acontecer estão tentando desarticular-nos.
Primeiro colocaram minha cabeça a premio pensando na possibilidade de alguém me entregar, mas é impossível, pois somos apenas cinco que nos conhecemos pessoalmente e esquematizamos como tudo deve ser feito.
Somos muito unidos, como irmãos e jamais um trairá o outro.
Como o xerife não conseguiu ninguém que me delatasse tentou novamente desorganizar os trabalhadores divulgando que nos encontraram e na troca de tiros nós morremos, mas foi outra artimanha suja.
Todos os trabalhadores já sabem da farsa, porque as informações deles são lentas, pois eles precisam de milhares de panfletos impressos para apenas algumas centenas de homens colarem nos lugares para serem lidos, ao passo que nós somos centenas de milhares de homens que de boca em boca transmitimos o que precisamos, portanto muito mais rápidos que eles.
Não acreditem se no futuro lerem algum comunicado sobre nós, tais como que transformamos em quadrilha de assaltantes, ou que estamos matando ou invadindo casas ou fazendas, violentando jovens indefesas ou que fomos capturados ou mortos, que tudo será mentira para tirar-nos o valor, esvaziar nossa causa e escravizarem novamente os trabalhadores.
Eu para não ser conhecido por mais ninguém inclusive pelos trabalhadores não participo da distribuição das mensagens. Os demais individualmente reúnem-se com alguns amigos, transmitindo as novidades e o modo de agir, solicitando que cada um faça o mesmo com seus próprios amigos e assim por diante.
Nas vezes que um é perguntado se é o criador da idéia, sempre responde que não. Que recebeu informações através de reuniões que anteriormente participou feita por outro amigo, resguardando-se assim todos eles como não sendo lideres até entre os próprios trabalhadores, que desconhecem totalmente nossa identidade, mas como são unânimes em considerar nossos procedimentos corretos acatam as informações sem discussões.
Meus amigos alegam nem sequer saber, comparando-se a uma corrente qual elo eles são. Só sabem que não estão na ponta de cima e nem na de baixo, e que eles apenas passam para frente o que lhes foi falado, mandado pelo líder Cara Amassada, portanto não correm nenhum risco e tão pouco tem seus nomes ou apelidos conhecidos. 
Só o nome Cara Amassada, que foi meu apelido quando tudo começou, foi exposto propositadamente para que todos saibam que existe um grupo organizado com chefe para ser respeitado e terem confiança de fazer o que lhes é passado.
Qualquer um de nós se por acaso morrermos por algum motivo, tal corrente não se arrebentará nunca, pois simplesmente outro capaz de pensar como nós assumirá o lugar, e são milhares e milhares de perfeitos substitutos que existem aqui na Califórnia. A única exigência é que sejam pessoas que não tem nenhum vínculo familiar, exatamente para não correr o risco que corro e o que é pior, pôr a família em perigo.
Se algum nós formos descobertos, poderá pôr tudo a perder, e é por esse motivo que agradeço que continuem deixando-me enterrado onde vocês já me sepultaram. Sei disso porque Al sem saber contou essa história há um dos meus amigos da liderança, que solicitou dele não mencionar mais tal fato a ninguém para não colocar-se em perigo, alegando categoricamente que seu irmão Tommy não é sequer conhecido dos lideres e muito menos é o líder. Meu amigo descreveu ao Al como é o Cara Amassada de forma completamente diferente de como eu sou para nem ele saber nada e esquecer-se completamente da história do Winfield e também do líder dos trabalhadores.
Essa é a única pessoa que sabe meu verdadeiro nome, pois ele ao confidenciar-me o que ouviu de Al, fez-me sentir na obrigação de contar-lhe toda minha história, portanto além de vocês só esse meu amigo sabe quem eu sou de verdade. 
Entre os cinco, sou o único que tem pais e irmãos, mas a partir de agora terei de desaparecer definitivamente até num futuro em que tudo terminará bem e possamos nos reencontrar, aconteça o que acontecer.
Vocês receberão sempre todas as informações e explicações necessárias de cada passo a dar no momento oportuno. Logo deverão ser procurados por algum amigo para participar da reunião dele.
Peço a todos e principalmente para você Ruthie que é para não falar absolutamente nada com ninguém sobre os planejamentos que forem recebendo, pois todo mundo será informado por pessoas preparadas para isso que farão as reuniões. Sei que sempre foi muito repentina, mas contenha-se, pois não estamos mais em nossa terra onde podíamos falar o que nos apetecesse. Aqui é diferente e quanto mais calada ficar melhor é. Não vá sair correndo e chorando, pois não estou lhe dando bronca e sim ensinamento, okey?
Winfield parabéns pela história fantasiosa e mentirosa que contou ao policial, mas cuidado, pois mentir não é nada certo para nenhuma pessoa decente. São raros os casos em que uma mentira é válida e até elogiada como está sendo a sua. Graças a ela salvaram-se várias vidas e só nesses casos é que são aceitas como necessárias e até corretas. Satisfaça-se com essa mentira e não arrume outras. Entendido?
Boa sorte e até um breve e belo futuro para todos. Queimem imediatamente esse bilhete e vão ao trabalho, que vou desaparecer para sempre, por enquanto.
Bastou apenas mais oito dias de trabalho, para outros milhares de trabalhadores procurarem trabalho nesse rancho. A oferta dos fazendeiros para a manutenção dos que já estavam consistia em aceitarem uma redução de 25% do preço por quilo de colheita. Ninguém aceitou e todos foram sumariamente demitidos, mas conforme o previsto os novatos que entraram em fila para serem admitidos um a um foram sendo dispensados, pois do mesmo modo que os demitidos, também não aceitaram ganhar inferior ao preço justo. Houve pânico entre os funcionários da fazenda, pois quase toda a safra ainda estava em suas plantas à espera de serem colhidas e sem trabalhadores elas apodreceriam na certa.
Uma inconseqüente ordem data por um dos donos foi mandar que os vigilantes obrigassem a força os homens irem para a lavoura. Teriam de trabalhar como escravos, debaixo de chibatadas e sem receberem absolutamente nada. A loucura de tal resolução transformou a fazenda em uma enorme praça de guerra.
Foi uma violenta carnificina, morrendo muitos trabalhadores, que em número bem maior revidaram a tal ato matando muitos vigilantes, além de destruírem grande parte das lavouras e das construções do rancho. A turma de trabalhadores que seria massacrada pelos homens na fazenda, fugiu em debandada e por determinação do xerife que com medo das represálias que sofreria de seus superiores, impediu aos seus comandados e aos vigilantes de os perseguirem. O xerife e seus subalternos também desapareceram cada qual para um lugar com destino ignorado, pois atualmente a Califórnia tinha novo governo que acatava as determinações do governo federal e não se compactuava com os empresários e fazendeiros escravocratas e muito menos com os policiais corruptos e assassinos.
Os empregados e vigilantes do rancho também fugiram, pois seriam visados pelos milhares e milhares de trabalhadores que poderiam matá-los um a um em tocaias, além da punição que receberiam do governo federal pela atitude tresloucada. Dentro da fazenda só ficaram seus donos, lamentando-se pelo grande erro cometido, sem nada poder fazer a não ser olhar seus frutos apodrecendo nos pés.
Esse fazendeiro talvez tenha sido o primeiro a falir, pois não apareceu mais ninguém para procurar trabalho em seu rancho.
Tal acontecimento ocorreu em outros ranchos e perto dali infelizmente para os Joab houve uma desgraça, pois na fazenda que se dirigiram após suas dispensas da anterior, também houve o mesmo motim.
O Pai que de uns tempos para cá voltou a agir como antes, ao invés de se dispersar como a maioria, ficou a procura de seus familiares para reuni-los e protegê-los na grande confusão semelhante ao ocorrido na fazenda de morangos e acabou sendo obrigado a participar do conflito.
Nesse rancho estava entre os policiais o mesmo xerife que raivosamente interrogara seus filhos pequenos.  
Pai viu quando o covarde acercou-se da Mãe segurando-a pelos cabelos chacoalhando-a e ameaçando dar-lhe uma coronhada no nariz.
Pai mandou rapidamente os demais correrem para as estradas, muniu-se de uma enorme pedra e foi até eles. No exato momento que o viu covarde colocando o revolver na boca da Mãe, com uma as mãos acertou a pedra com toda sua força, no alto da cabeça do xerife fazendo seus miolos espirrarem para todos os lados. Ao mesmo instante que assim procedeu com a outra mão desviou o revolver da boca da Mãe, cujo tiro desferido acertou exatamente a testa do fazendeiro que estava próximo.
Sr. Martin Liston que mantinha com a família Joab grande amizade desde que chegaram foi em seu auxilio com muitos outros amigos. Todos acabaram mortos por policiais e vigilantes, após sangrenta luta, pois eles preparados para a contenta se armaram de facas e revolveres eliminando pelos menos mais de duas dúzias de policiais vagabundos e corruptos e vigilantes assassinos contratados, além de ferirem outros tantos.
Assim acabou a revolta nesse rancho e antes de qualquer represália pelas autoridades federais, e da dispersão dos próprios homens da fazenda fizeram uma enorme vala, onde jogaram todos os corpos, ateando fogo nos cadáveres, com querosene.
Junto aos trabalhadores tinham também empregados e familiares dos donos, pois a destruição dessa foi bem pior que a outra e consequentemente a falência muito mais imediata.
O desespero tomou conta dos Joab e dos Liston pelo acontecido. Sequer puderam resgatar os corpos dos parentes para velarem-nos e os encomendarem aos céus em seus enterros.
A Sra. Suzany Liston quis regressar para seu estado de origem e somente o filho Abraham a acompanhou, pois Albert que se apaixonara e era correspondido decidiu ficar com Rosa de Sharon e o restante dos Joab.
A notícia desse acontecimento tão violento aliado ao outro já citado assim como outros parecidos em outras fazendas correrem não só por toda a Califórnia, como pelo país inteiro cujo presidente mandou tropas urgentes aos campos da Califórnia para definitivamente acabar com a carnificina. Tal segurança imposta pela policia federal assim como as totais destruições de ranchos inteiros serviram de orientação aos demais fazendeiros de que não deveriam mais assim proceder, pois estavam causando sua própria destruição, portanto foram apenas poucas centenas de trabalhadores que foram sacrificados, antes de tudo acalmar.
Os demais conseguiram trabalho bem remunerado e até certas regalias que os patrões passaram a oferecer para conseguirem os melhores trabalhadores.
O fato é que eles e os xerifes estavam de mãos atadas e nada mais podiam fazer contra os migrantes, mas sua raiva pelo Cara Amassada multiplicou-se a ponto de voltarem a caçá-lo e sua recompensa fora aumentada de 1.000 para 15.000 dólares, conforme cartazes espalhados por todo o estado. Ilustrava simbolicamente os cartazes o focinho de um cão da raça Bulldog e neles esclareciam que o rosto do procurado era totalmente desconhecido, portanto quem o trouxesse morto para poder receber a recompensa teria de provar sem deixar nenhuma dúvida ser o verdadeiro, ou que o trouxesse vivo para que ele próprio confessasse seus crimes contra o governo da Califórnia.
A frase abaixo, mentirosa na quantidade e na autoria dos crimes constava nos cartazes para iludir as pessoas. (Foi graças a ele que dezenas de milhares de humildes trabalhadores, fazendeiros e policiais honestos foram mortos, portanto entreguem-no para ele ser julgado por seus crimes).
Foram-lhe imputados além desses assassinatos cometidos pelos fazendeiros, xerifes e vigilantes, também a quebra de várias propriedades produtoras, com conseqüente diminuição da produção das lavouras do estado inflacionando os preços ao consumidor final.
Tamanho era o ódio por ele que se possível fosse declaravam-no como o culpado por toda a crise de 1930 no mundo inteiro.
Uma verdadeira onde de crimes foram praticados em nome da lei. Muitos caçadores de recompensa apareciam com pessoas mortas por eles sem, entretanto provar absolutamente tratar-se do Cara Amassada. As únicas provas eram determinadas pelas deformidades na face do morto que nada provavam, até porque ninguém nunca soube se o próprio Cara Amassada tivesse alguma deformidade. Muitos caçadores de recompensa considerados auxiliares da lei por alguns xerifes tão fora da lei como os próprios caçadores muitas vezes apareciam com um morto, cuja distorção no rosto era recente provocada por eles próprios ao assassinarem uma pessoa qualquer em busca da recompensa.
Várias pessoas foram trazidas vivas as delegacias de toda jurisdição, mas jamais alguém confessou ser o Cara Amassada, mesmo sendo sumariamente assassinadas a posterior em nome da lei.
Tal matança indiscriminada tanto de homens como de mulheres, pelos xerifes e caçadores de recompensa estava pondo em pânico toda a população do estado que tivesse qualquer sinal no rosto.
Até pintas de nascença serviam de pretexto para serem mortos e o pior é que as autoridades sempre arrumavam um crime qualquer para imputar aos mortos, para que seus crimes cometidos contra tais pessoas ficassem na legalidade.  
Infelizmente para os que perderam a vida heroicamente, tudo aconteceu tão bem feito e muito rapidamente pelos migrantes que os próprios lideres do movimento julgaram desnecessário mais reuniões e na última que fizeram combinaram suas dispersões para todos voltarem a trabalhar e só se reunirem quatro anos depois na localidade Brawley, no extremo sul da Califórnia.
A última missão dos lideres seria fazer como sempre pequenas reuniões entre amigos, alastrando para todos os migrantes, para que toda família que teve um ente querido morto pelos californianos, já que trabalhavam e recebiam direito economizassem nos próximos quatro anos uma moeda por semana. Bastava um pequeno níquel e para fornecerem o nome do parente falecido, pois iria ser construído um obelisco como sendo o local simbólico de seus sepultamentos.
Apenas Tom por ser ele de fato o Cara Amassada e com possibilidade de ser morto, mesmo sem provas, permaneceria escondido e só reapareceria no local combinado quatro anos depois. O local onde Tom foi procurar para passar esses anos foi McAlester, penitenciaria do estado de Oklahoma, onde deveria terminar sua pena de sete anos da qual havia cumprido quatro, antes de sair em condicional. Entregou-se por não ter respeitado a condicional conforme deveria e entregou-se para pagar o restante de sua pena nos próximos três anos, para depois ser totalmente libertado por te-la cumprido integralmente.
O antigo amigo que sabia de sua história vez por outra o procurava para levar notícias do que estava acontecendo na Califórnia e no próprio país.
Por ele ficou sabendo que aos poucos todos os Estados Unidos iam saindo da crise. Que seu pai morrera, seu tio John só vivia embriagado pelas estradas, totalmente sem mais nenhum juízo na cabeça e que Mãe, Rosa de Sharon, Winfield e Ruthie estavam bem, em companhia de Albert Liston, que sendo o atual marido de Rosa de Sharon tornou-se o chefe da família e era um bom homem.
Informou que a recompensa por ele tinha sido anulada e considerada injusta pela própria policia federal, mas mesmo assim ainda era constante alguém aparecer morto por apresentar algum defeito no rosto e por esse motivo ainda seria temerosa sua volta.
O tempo passava rápido e meses depois o tio John desapareceu do convívio dos demais não voltando no decorrer da noite deixando-os preocupados e Alfred e Winfield saíram pela madrugada afora a sua procura encontrando-o morto ao lado de uma estrada, atropelado por algum caminhão, pois embriagado não se cuidava em tais travessias. Foi o único da família que teve um enterro civilizado de acordo com todas as regras para tal ocorrência.
Decorrido os quatro anos, ninguém soube explicar como ou por quem foi construído, mas apareceu no sudeste da Califórnia, próximo da fronteira com o Arizona um obelisco de seis metros de altura simbolizando o jazigo dos migrantes mortos durante os anos que durou a recessão de 1930. Entre os milhares de nomes escritos constava o nome Cara Amassada e toda a família Joad ao ler as noticias nos jornais, nem pode chorar abertamente, pois seu segredo era para ser guardado eternamente.
Ruthie conheceu o jovem estudante de agronomia que era filho do proprietário da fazenda onde toda a família trabalhava, que após três anos ausente viera visitar os pais. Apaixonaram-se logo que se viram e começou um romance entre ambos.
Os velhos fazendeiros não se opunham ao namoro, por saber que seu filho encontrara uma moça de ótimos princípios e de boa criação além de bonita, com a única deficiência que era ter pouca cultura e estudo, mas como na época isso não era muito exigido das mulheres não apresentaria nenhum obstáculo para o bom relacionamento do casal.
Eles nem imaginavam que ela tinha muitos sonhos a realizar entre os quais um era instruir-se em alguma cidade grande.
Ruthie era copeira e arrumadeira na casa e mantinha seus afazeres normais, durante o dia só se encontrando com o namorado a noite. Ele passava seu dia pescando, caçando ou andando a cavalo não a atrapalhando nos serviços domésticos que ela exercia com esmero na casa dos velhos fazendeiros que os acolheram com o mesmo carinho que a família Joad tinha com eles.
Numa iluminada e agradável noite de primavera Mike, que era o nome do estudante perguntou a Ruthie se ela concordava em ser sua esposa e se sim fariam a comemoração do noivado antes de ele voltar para a faculdade para diplomar-se. Faltavam só seis meses.
Em suas juras de amor prometeu que a levaria para a Los Angeles tão logo tivesse condições de arrumar emprego e moradia para todos seus familiares, com exceção de Mãe, que já velha não deveria trabalhar mais, e ele a manteria com Ruthie em sua casa, após casarem.
Houve o questionamento com relação a futura moradia de Mike e Ruthie lhe perguntou:
§  Você não estudava agronomia, exatamente para vir morar na fazenda e tomar conta dela para seus pais?
§  Também diplomei-me nessa profissão.
§  Como assim?
§  Agronomia eu já terminei faz tempo e atualmente estou prestes a concluir o doutorado em engenharia de motores. Nesses três últimos anos eu estava na Inglaterra estudando na Rolls-Royce, especializando-me em motores para carro e turbinas de avião.
§  Mas não será agrônomo para tomar conta da fazenda de seus pais?
§  Não.
§  Mas eles sempre se referem a você como engenheiro agrônomo. Eles sabem de suas mudanças de plano? Não me diga que faz coisas que eles desconhecem. Você os ilude? Isso é traição com a família. Decepcionei-me com você.
§  Vamos com calma e nada de metralhar-me com mil perguntas e muito menos com decepções. Desde que eu era criança o sonho deles era que eu me tornasse agrônomo para cuidar da fazenda, mas meu sonho sempre foi morar na cidade grande e não na roça. Embora eu estudasse agronomia para satisfazê-los sempre lhes falava que não gostaria de viver como eles no meio do mato e aos poucos eles foram compreendendo meus desejos e também desgostosos com a crise que teve até recentemente eles próprios não querem mais ficar aqui, por isso concordaram que eu estudasse também outra coisa que eu achasse melhor para mim.
§  Então não tem nada sendo feito as escondidas?
§  Claro que não.
§  A fazenda nem é mais deles. Meu pai já a vendeu para um tio meu, irmão caçula dele e apenas continua morando aqui até que eu me instale definitivamente em Los Angeles para eles também irem para lá. Não percebeu que meu pai nada faz na fazenda? O escritório de administração é comandado por funcionários de meu tio que também não virá para cá. São agrônomos contratados que administram aqui.
Eu moro na casa que meu pai já construiu para eles e vão mudar-se para lá assim que eu desocupá-la e ir para a minha no mesmo quarteirão. Está para terminar as obras e ficará linda. É uma bela casa. Você vai gostar.
§  Mas tudo isso não é com dinheiro deles? Acha justo?
§  Tenho meu próprio dinheiro, que realmente me foi dado por eles, na ocasião da venda da fazenda como parte de minha herança que eles deram em vida, mas, além disso, eu também trabalho. Depois que fiz os estudos na Europa consegui e já trabalho há um ano nas fabricas Ford, onde sou um dos mais influentes engenheiros de carros.
§  Então estou falando com um grande empresário de carros?
§  Ainda não, mas não demorarei muito a ter minha própria fábrica com nova marca. Não está muito longe disso não.
§  Então aceito casar-me com você.
§  Por interesse?
§  Você sabe que não. Eu te amo demais e a resposta que dei dizendo que aceito saiu quase que espontaneamente sem eu querer porque veio do fundo de meu coração, mas não a considere, pois antes tenho de saber se minha família aprova minha decisão. Saiba que se dependesse só de mim eu ficaria com você mesmo se fosse um simples agricultor como todos de minha família, ou até se fosse inferior a nós.
§  Mas você tem dezenove anos, portanto maior de idade e dona de seus desejos.
§  Não é bem assim. Meus dezenove anos existem, graças a Mãe, ao Winfield, a Rosa de Sharon, ao Pai, ao Tom, ao Al, ao Noah ao tio John, ao Avô e a Avó.
§  O Tom e o Al estão desaparecidos e muitos outros já morreram, então só dependerá da confirmação de Winfield, Mãe e Rosa de Sharon?
§  Sim. Deles e agora também do Albert que faz parte da família por ser o marido de Rosa de Sharon.
§  Tudo bem. Espero sua resposta depois de falar com eles, que imagino que não desaprovarão. Amanhã voltaremos a falar no assunto quando você me dará a resposta definitiva para anunciarmos o noivado. Está bem assim?
§  Perfeitamente.
Reunidos na residência que a família Joad tinha na fazenda, Ruthie contou a novidade sem entrar em muitos detalhes para não influenciá-los com a possibilidade de muita fartura e muito dinheiro envolvido. Ela queria saber da real reação deles com relação ao seu casamento com Mike, porque para ela bastava ele, fosse quem fosse.
Tal assunto foi muito bem recebido por Winfield já com dezessete anos e há tempo alimentava a esperança de encontrar-se com o irmão Al para com ele trabalhar em mecânica que tornara sua grande paixão. Na atual fazenda onde estavam há mais de três anos trabalhava na manutenção de tratores, caminhões, caminhonetes e jipes e já aprendera bastante coisa.
Rosa de Sharon e seu marido Alfred também concordaram, pois ela uma simples cozinheira na fazenda e ele um agricultor sonhavam um futuro promissor não só para seu filho pequeno chamado Tommy Joad Liston, mas também para o próximo que estava a caminho.
Mãe na fazenda era praticamente apenas uma amiga da patroa, porque não tinha mais muita força para trabalhar duro.
Dava-se muito bem com tal amizade e por isso ficou indecisa por ter de abandonar a casa onde se sentia bem, apenas bordando, tricotando e conversando com a fazendeira ou às vezes inventando um doce ou uma comida qualquer quando ambas invadiam a cozinha de Rosa de Sharon. Mesmo imaginando a real possibilidade de encontrar-se com seu filho Al que estava em Los Angeles, sentia que sua ida a faria abandonar Tom, pois quando ele aparecesse seria nas fazendas que ele procuraria por ela e isso pesou muito o prato da balança para o lado ficar.
Ela jamais deixou de acreditar no que certo dia seu filho Tom disse-lhe: Que era para ela nunca acreditar em nada que ouvisse falar sobre ele. Sua possível morte, ou prisão ou qualquer outra coisa, por isso mesmo sabendo que constava o nome Cara Amassada no obelisco, jamais acreditou em sua morte.
Preferiu dizer que dá suas bênçãos aos noivos e que concordaria com o casamento, a ida de todos os outros para a cidade, desde que ela permanecesse na roça em companhia dos velhos patrões se eles permitissem.
Houve necessidade de Ruthie explicar que o plano dos fazendeiros também era de se mudarem para Los Angeles, pois a fazenda já havia sido vendida e a administração já entregue aos atuais donos. Só lhes faltavam entregar a casa sede que ninguém sabe qual destino eles dariam. Disse mais que seu namorado estava construindo uma casa para eles, incluindo ela, bem próxima de onde o casal de fazendeiros iria morar, portanto as visitas entre Mãe e sua patroa amiga seriam constantes.
Precisou do restante da noite para Mãe refletir, analisar e concluir que Tom procurando por eles nas fazendas, acabaria por chegar nessa onde seria informado pelos atuais donos os acontecimentos e para onde o antigo dono tinha mudado, levando sua família junto. Conseguiria o endereço deles em Los Angeles onde os encontraria.
Com esse raciocínio o fiel da balança pendeu para o outro lado então Mãe mudou sua decisão concordando em ir com os demais.
Tal casamento e mudança da família aconteceu no ano seguinte.
Bastou apenas mais um, para Tom, que estava vivo e em liberdade por ter cumprido sua pena com a justiça de Oklahoma.
Ele fez constar no obelisco de jazigo simbólico dos migrantes a morte de Cara Amassada para que tal mito desaparecesse para sempre.
Tommy Joad, ou simplesmente Tom descobriu na fazenda onde procurou por sua família, seu paradeiro e também viajou para Los Angeles, encontrando-se com eles.
Todos trabalhando com seu cunhado Mike em sua fabrica de carros e vivendo felizes.
A família Joad agora era composta por Mãe e os filhos Tommy e Winfeild ainda solteiros.
Al, sua esposa Aggie e seus três filhos Petrus, Sidney e Sheila.
Rosa de Sharon, seu marido Albert, seus filhos Tommy Joad Liston e Rebeca.
Ruthie, Mike e o recém nascido Gilbert.
Tom ficou longas horas com Mãe sentada em seu colo, chorando, rindo e conhecendo todos os demais membros da família e terminou dizendo-lhe:
§  Mãe, até que a vida não foi tão ruim para nós. Quando saímos todos praticamente na miséria de Oklahoma para virmos para cá, éramos doze e agora oito anos depois vivendo felizes na Califórnia, e mesmo com todas as tristes mortes ocorridas, já somos quinze e todos com um grandioso futuro pela frente.
§  Graças a sua incessante luta pelos semelhantes.
§  Prefiro crer que foi Jin Casy que começou tudo iluminado por seu poderoso Deus que fez tudo acontecer.
ACABOU.


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