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   > Acaso do ocaso



Airo Zamoner
      CONTOS

Acaso do ocaso



Andaram descontraídos, atravessando a praça.
Mudos, examinavam o caminho, escolhendo pontos simétricos para apoiar pés obedientes, refazendo a distração pueril recomposta pelo hábito involuntário criado nas lacunas de uma infância extraviada.
Lembranças pipocavam nas cabeças.
Vontades abafadas de falar morriam solitárias, escorregando pelos corpos, juntando-se aos pés distraídos.
Qualquer palavra imaginada escancarava inutilidade. Havia que se deixar o silêncio invadi-los com hostilidade, ocupando, à força, enormes espaços brancos a fustigar o conforto anímico por anos sem fim.
Bem que poderiam franquear seus olhares, trocando as tempestades mútuas que abafaram sonhos com a violência inevitável da realidade patética de ambos. Mas o miserável do tempo já havia providenciado o arquivo morto para as paixões desembestadas e amores ensurdecedores.
Nem um mísero sinal ousava importunar o curso da lógica, da realidade, do óbvio.
Qual o motivo empírico daquele encontro casual, assustador, devastando o interior até há pouco tão comodamente normalizado, calmo, conformado?
Ele ia para o Norte.
Ela para o Sul.
O encontro tardio revirou as histórias. Não ousaram falar, cumprimentar-se, dizer das saudades um do outro, expor angústias, nem fazer todas aquelas bobagens próprias para reencontros de envelhecidas memórias.
Não se deram as mãos.
Muito menos se beijaram.
Apenas viraram ambos para o Leste e saíram caminhando pela praça.
Juntos.
Braços roçando braços.
Esqueceram os destinos imediatos e não se importaram mais com o destino presente, nem planejaram o destino futuro.
Uma certa santidade esvoaçava por perto.
O mundo haveria de enguiçar suas engrenagens, estancar o tempo por respeito, abrir um novo horizonte por um átimo, deixá-los soltos, reverenciá-los ao extremo, retirar de perto todos os fragmentos sujos, dar pureza infinita à superfície daquela caminhada e deixar fluírem os seres etéreos da mentirosa liberdade absoluta.
Aos poucos, aproximou-se o final da praça. O Leste se apagou envergonhado. Desapareceu o destino improvisado.
Braços não mais de atritam.
Ela vira-se para o Sul.
Ele para o Norte.

Airo Zamoner é autor do livro recém lançado, “Contos de Curitiba”

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