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   > Inferno



orlando ciuffi filho
      CONTOS

Inferno

 INFERNO
O CIUFFI
 
Diante de várias pessoas silenciosas e atentas que mal se enxergavam devido a grande quantidade de fumaça preta proveniente dos incêndios caudados pelos violentos raios infernais que caiam a todos instantes próximos a nós, tornando o lugar escuro e tenebroso, nos raros momentos iluminado, apenas eu falava. 
Eu contava uma história acontecida comigo embora a todo instante fosse interrompido por gritos de agonia e correria de pessoas que passavam em pranto queimadas e desfiguradas pelas terríveis chamas intermináveis que nos mantinham presos no pequeno espaço que dispúnhamos à espera que tal inferno congelasse.
Quem lhes fala estava tempo atrás no bar Anarquia Total onde durante muitos anos frequentou e era amigo de todos que o chamavam carinhosamente de Velho gordo careca e de barbicha branca.
Em uma noite calma com temperatura elevada o vento forte que amenizava um pouco o calor, jogava areia, folhas secas, papeis velhos e guardanapos usados nos rostos e nos copos dos frequentadores das mesas postas nas calçadas do bar, azucrinando-os.
Eu usava a mesa mais afastada do passeio público em frente tal boteco de minha preferência ingerindo minhas costumeiras cervejas, fumando e comendo acarajé, sempre só e meditativo, quando chegou e se pôs a minha frente um desconhecido bem apessoado e finamente trajado.
Educadamente solicitou permissão para assentar-se, embora houvesse muitas outras mesas sem clientes, com cadeiras desocupadas.
Antes de minha resposta que certamente seria negativa tal individuo rapidamente acomodou-se em uma das cadeiras, portando na mão um enorme e bonito copo de cristal cheio de uísque com gelo.
Tomado de espantosa surpresa pelo atrevimento fiquei no momento sem nenhuma reação e calado ouvi-o:
O senhor quem escreveu os dois livros que falam da família Pereira da Silva, não foi?
Sim. E daí? O que lhe interessa tais livros? Por acaso quer comprar os direitos autorais para fazer alguma novela ou filme? Nunca vi sua cara na televisão, portanto não é diretor de merda nenhuma.
Foi minha resposta agressiva com enorme mau humor pela ousadia do jovem.
Tenho muitas revelações importantes a lhe fazer.
Não me diga que pretende contar-me sua história para que eu a escreva.
Saiba que não tenho o mínimo interesse nela e se me der licença prefiro permanecer apenas com meus pensamentos procurando inspiração para meu próximo livro. Só consigo isso quando estou absolutamente só e sem ninguém me aporrinhando, por conseguinte, faça-me o favor de retirar-se tão cortês como chegou, pois por sua história não dou a menor importância e muito menos por sua presença.
Está agitado, nervoso e até mal educado Velho gordo. Mantenha a compostura sem alterar a voz, pois não pretendo fazer-lhe mal algum. Apenas civilizadamente conversar, pois tenho certeza que tirará de nossa conversa subsídios para um livro verdadeiramente maravilhoso. Tão espetacular que jamais conseguirá outro.
Não me interesso por sua história. Ontem mesmo fui procurado por uma mulher ainda jovem, mas bastante desgastada, aparentando muito mais idade justamente pelos desabores que passou e passa. Contou-me ter sofrido em toda sua vida muitos aborrecimentos pelos crimes horríveis causados por seus filhos gêmeos e queria o mesmo de mim entre outras coisas, que até julguei justo e certo se realmente suas informações forem corretas. 
Ela procurou-me depois de educadamente mandar-me seu recado e só se apresentou após minha concordância e não invadindo meu espaço como você fez. Isso é uma coisa que não admito de ninguém.
Então me desculpe pelo que achou atrevimento de minha parte e me ouça. Tenho certeza que minha história será muito melhor que qualquer outra que possa tomar conhecimento.
Não creio, pois a da mulher eu já ouvi o suficiente para ficar convencido que será uma história muito interessante e até já concordei que a partir de hoje irei escutá-la sobre tudo e daqui a pouco ela já deverá chegar para conversarmos, portanto por obséquio meu caro levante-se e deixe-me só. Não o conheço. Não quero conhecê-lo e menos ainda tenho a menor necessidade e desejo em falar com você. Inclusive já estou arrependido de ter falado tanto, principalmente sobre o que vou ou deixar de fazer. Portanto saia já de minha mesa, deixe-me só e passe muito bem longe de mim.
Infelizmente não posso deixá-lo enquanto não o convencer em ouvir-me.
Então com licença. Saio eu. 
O rápido diálogo foi realmente sem alardes e em tom bem afável e sereno aparentando cortesia, entretanto levantei-me da cadeira.
Já de pé sorvi, como de hábito, em um só trago todo o conteúdo da cerveja de meu copo quase cheio para em seguida abandonar o local.
Não consegui um só passo. Cambaleei e desabei. Só não cai violentamente ao chão porque o estranho me amparou e colocou-me desacordado de volta a cadeira debruçando-me sobre a mesa com cuidado e delicadamente.
Alguns frequentadores e o dono do bar presenciaram a cena e correram assustados em meu socorro.
O estranho informou-os, com a boa educação que lhe era peculiar que ele é meu sobrinho que está me fazendo companhia enquanto minha esposa e meu filho mais velho permaneceriam em Paris, para onde viajaram em visita ao meu caçula que lá mora e trabalha. Avisou a todos que me levaria para dormir.
Meus amigos ficaram preocupados com meu comportamento inusitado, pois jamais fiquei bêbado a ponto de ser carregado totalmente inerte, mas nada puderam fazer em virtude da alegação do tal sobrinho que pagou minha despesa e ajudado por alguns me colocaram em seu carro importado com vidros blindados e escuros.
O “Filé” ainda insistiu, perguntando-lhe:
O senhor tem certeza que não devemos levá-lo a um hospital? Meu táxi está na porta e posso levá-los.
Não é necessário. Estou convicto de que é só embriagues. Estávamos a sós em sua casa e por minha tia ser abstêmia e totalmente antialcoólica estar viajando, ele começou embriagar-se lá mesmo. Como eu só bebo uísque ele acompanhou-me, mas usando seu pessoal modo de ingerir cerveja muito rapidamente fez o mesmo com o destilado e sem gelo. A cow-boy mesmo. Já bêbado insistiu em vir aqui comer um acarajé e embora já estivesse bem alto não o recriminei e deixei-o vir. Arrependi-me ao pensar na mistura que faria bebendo como seu hábito um monte de cervejas e imaginando que isso poderia acontecer vim buscá-lo e felizmente cheguei bem a tempo de socorrê-lo. Podem ficar tranquilos, pois por muitos anos fui Enfermeiro e saberei recuperá-lo logo. Se for necessário levá-lo-ei a um hospital.
oooOooo
Bom rapaz não?  Muito educado e sério. Foi o que a maioria dos meus amigos pensaram e muitos até falaram.
Foi o bom baiano dono do bar quem falou aos que estavam assombrados aguardando-o, voltar com alguns amigos, após ajudar o homem requintado com apurado zelo colocar-me totalmente desfalecido deitado no banco traseiro de seu enorme veículo.
Olharam curiosos para o carro que partiu devagar e silenciosamente, no exato momento em que uma mulher desconhecida do pessoal chegou ao bar para contar-me sobre sua desgraçada vida. 
Apenas o baiano a conhecia, pois no dia anterior ela esteve comigo por algum tempo e explicou o motivo de minha ausência, mas mesmo assim ela ficou algum tempo próximo a entrada do bar, aguardando minha possível volta. 
Os outros ficaram conversando e conjeturando sobre o incidente comigo com todos falando ao mesmo tempo atropelando-se uns aos outros sobre o assunto.
Bastou o danado de o Velho gordo ficar só em casa para extrapolar nos goles. Só mesmo sua esposa para colocar-lhe freios.
Sorte que o sobrinho ficará cuidando dele nesses dois meses de férias da família. 
Eu já sabia da viagem deles. Foi o próprio Jean quem me falou que viajaria hoje para Paris com a mãe, em visita ao Caio e com certeza para rever a ex-namorada, a atriz Lia Mendes que está lá.
Aquela morena gostosa que apareceu aqui algum tempo atrás, mandada pelo Caio para conversar com o Velho e que depois ficou morando aqui em São Paulo só para namorar o safado?
Sim. Porém ela voltou a trabalhar no cinema e está novamente na Europa.
Mas Jean está com ela ainda? Tenho visto ele sempre com uma garota clara e loira.
Qual loira? A de cabelos curtos ou compridos?
Ele tem mais de uma loira?
Tem várias, o sacana. 
Ele e a atriz bronze terminaram o romance há algum tempo e agora está por ai com loiras, ruivas, morenas e mulatas, mas já que foi ver o irmão qual é o problema em matar as saudades daquele deleite? Afinal de contas quem de vocês não gostaria de saborear um apetitoso jambo daquele?
Foram hoje cedo? 
Não. Foram depois do almoço. Com certeza ainda nem chegaram lá e o Velho sozinho aqui já está aprontando.
Não seria um sequestro relâmpago? 
Deixe de besteiras “Cano”. Você está delirando de bêbado.
Onde já se viu um homem rico num carrão daquele sequestrar um pobre, de bermudas e chinelos. Sem carteira com dinheiro, sem cheques ou cartões de banco e ainda na nossa cara e em seu luxuoso veículo?
Nesse tipo de sequestro os bandidos sempre usam o carro da vítima e não o próprio.
Tem razão Leonardo. Pelo aspecto e aparência de milionário do sobrinho era mais certo o Velho sequestrá-lo e não ele ao Velho.
Qual é o nome dele? Alguém sabe?
Não falou. Apenas disse que é Enfermeiro.
Disse que foi Enfermeiro e não que é.
Está certo “Cheirosinho”. Um Enfermeiro não teria condições de ter um carro importado e maravilhoso como o que nós vimos.
Atualmente deve ser um médico famoso ou algum empresário bem sucedido.
Sentiram o perfume dele? É coisa de gente limpa e chique.
Mas é um desconhecido. Alguém já o viu por aqui?
Com certeza só veio ao bar Anarquia à procura do Velho. Seu ambiente deve ser o mais grã-fino possível. Fasano, Bierquelle, Ladrillo e outros lugares desse naipe.
Mas mesmo assim estou achando tudo muito esquisito. 
“Cano”. Para você tudo é estranho, pois só entende de bebedeiras e cadelas prenhas. 
Eles se conhecem. Isso é certeza, pois além do rapaz saber da viajem da família do Velho, assentou-se em sua mesa sem ser rechaçado como qualquer um que faz isso sem seu consentimento.
Concordo com você Paulinho, pois, quando disse que o levaria para casa para cuidar dele vi apontar com o dedo em direção ao prédio onde o Velho mora.
Eu também vi, e com certeza irá socorrê-lo sim, seu “Cano” torto e tonto.
Então está bem. Tudo certo. Eu quem sou o encachaçado e não sei de nada e vocês são os sabichões donos da verdade que sempre estão certos. Continuamente dizem isso de mim seus malucos e já que acham que sou o bêbado ignorante não reclamem depois se algum mal acontecer ao Velho. 
Deixa de ser besta “Cano”. Você nunca acerta uma. Já amanhece alcoolizado e só faz e conversa besteiras o dia todo. Como quer que a gente acredite no que fala?
Está bom. Não digo mais nada, mas que tem coisa estranha aí tem. Ninguém me tira da cabeça que o cara é biruta e que está com más intenções com o Velho.
Quanta tolice. Deixe de falar merda.
Eu insisto minha gente. Devemos fazer alguma coisa por ele.
Você já disse que não ia falar mais nada, mas não fecha a matraca nunca? Pare logo com essa arenga.
Não seria bom ir algum de nós até o prédio onde o Velho mora saber dele?
Deixe de teimosia “Cano”. Com certeza os porteiros não nos atenderiam a essa hora para incomodar nenhum morador.
Nenhum de nós está sóbrio para fazer isso.
Estamos todos pra lá de Bagdá de bêbados e seriamos escorraçados de lá a ponta pés pelos seguranças se tentarmos ir aborrecer alguém do condomínio.
O bêbado insistente pediu:
Paulinho ligue no celular dele.
Já fiz isso. Deve estar desligado. Ninguém atende. Nem o Velho e nem o sobrinho.
A conversa sobre o assunto continuava como discussão impertinente e sem fim com todos falando juntos.
Vi quando o carro virou a esquina em direção ao edifício onde o Velho reside, portanto nenhuma preocupação devemos ter mesmo estando o bêbado “Cano” insistindo em algum perigo.
Aconteceu tudo tão repentinamente que ninguém teve tempo de perguntar o nome do benfeitor e sequer agradecê-lo por estar cuidando do nosso amigo.
Amanhã eles devem voltar e então ficaremos conhecendo-o. É gente de muita qualidade. Isso ele não deixou dúvida.  
Deve ser cheio da grana. Viram o carrão dele?
Preto, enorme e blindado. Parece carro de gangster.
Que gangster seu cachaça? Parece veículo de jogador de futebol, de artista ou de milionário que é o que ele deve ser.
Olhem o copo que ele deixou na mesa. É lindo. De cristal todo incrustado e trabalhado em alto relevo com filamentos que devem ser ouro. Com certeza é importado assim como o uísque.
Cheirei para sentir. Não é nenhuma porcaria nacional e nem falsificação barata vinda do Paraguai. Deve ser envelhecido na Escócia por mais de 20 anos antes de ser exportado.
Já que o “Pereira” entendido em uísque deu a dica vou é beber essa cachaça do endinheirado. O copo está cheio e o gelo ainda nem derreteu todo.
Você não toma jeito mesmo “Cano”. Vai beber resto de estranho?
Agora você acha que o cara é estranho não é “Pessoa”?
Mas isso ele é. Não é conhecido de ninguém daqui.
E daí? Pode ser resto, mas é de desconhecido rico e a cachaça é de primeira qualidade. Coisa que não se encontra aqui nesse boteco fedido e sujo do Baiano.
O eterno enxuga copos e filante de aperitivos dos fregueses ingeriu a bebida e ficou elogiando seu agradável paladar por muito tempo, zombando dos outros por ter sido o único a saborear tão delicioso líquido.
O dono do bar impediu-o de ficar com o copo como pretendia alegando que o Velho e o sobrinho provavelmente voltariam no dia seguinte e o copo seria devolvido.
O ébrio filão respondeu com a eterna sabedoria dos bêbados:
Ele não voltará aqui nessa espelunca nunca. Endinheirado como é levará o Velho para lugares elegantes e de bom gosto, se é que de fato não for fazer nenhum mal a ele.
Aposto um garrafa inteira de cana com qualquer um de vocês que ele nunca mais voltará aqui no Anarquia.
Eu topo a aposta com você “Cano”. Eles voltarão qualquer dia destes. Acho que amanhã mesmo.
Está fechada a aposta “Espingarda”. Se eles não aparecerem, nos próximos dez dias a contar de hoje eu ganho. Está feito?
Está. Pode marcar na folhinha, Baiano. Se voltarem antes de dez dias eu ganho. Se não aparecerem dentro do prazo eu perco e pago. Está fechado então “Cano”? Temos mais de quinze testemunhas.
Fechadíssimo. Mas é bico duro. Ninguém vai filar nem um gole do outro.
Feito.
O dono do bar interrompeu-os na aposta, tomando o copo da mão do bêbado falando:
Se não voltarem, ficarei com o copo e o devolverei ao Velho quando sua família voltar e ele aparecer novamente. Afinal se o sobrinho não regressar, o Velho é que será o único herdeiro do cristal bordado a ouro.
Alguém viu direito o rosto do homem?
Todos se entreolharam e apenas o permanente ébrio apelidado de Cano respondeu:
Eu que sou o beberrão irresponsável que ninguém dá nenhum valor fui o único quem reparou no pilantra.
Deixe de falar mal do homem seu imbecil.
Como ele é exatamente? Se é que você o viu direito mesmo conforme fala.
Vocês até foram com ele colocar o Velho no carro e nada viram? Pois saibam que o indivíduo é branco.
Seu cretino. Percebeu por que você não é digno de atenção. Só fala besteiras. Rosnou grosso que reparou no sujeito e só viu sua cor. Que ele é branco todo mundo sabe.
Tem muito mais coisas que percebi nele, além disso.
Pare de falar asneiras seu pau d’água.
Chega de palhaçada seu barril de aguardente.
Suma logo daqui e pare de incomodar, pinguço enjoado.
Calma gente. Já estão apelando com o “Cano”. Deixe-o falar.
Ora “Cachorro”. Nada se aproveita dos disparates que esse idiota encharcado de birita fala.
Todos vocês são tão ou mais bêbados que eu. Só são metidos a donos das verdades porque têm dinheiro para pagar suas canas e eu como não tenho sou obrigado a filar, mas somos sem vergonhas e paus d’água iguais, pois frequentamos e fazemos as mesmas coisas nesse boteco sujo do Baiano, portanto calem a boca e ouçam-me.
Aturdidos pela atitude enérgica e até certo ponto correta de “Cano” todos os amigos mesmo estando irritados, apreensivos aguardaram o bêbado continuar falando:
Ele é mais ou menos alto. Maior que qualquer um de nós. Aparenta entre 18 e 20 anos. Os cabelos são pretos e lisos com aspecto de pintados, embora ele seja jovem. Na verdade até parece ser peruca e não cabelo verdadeiro. 
É magro, entretanto bastante musculoso.
Devia ter acabado de fazer a barba, pois a pele de seu rosto é lisa como bumbum de neném. O restante do corpo não deu para ver, pois estava com a camisa de seda branca fechada no colarinho para o uso da gravata vermelha com riscos brancos que me impediu de ver qualquer outra parte de seu corpo. Seu terno de corte impecável era de um cinza bem escuro ou grafite. Quase preto.
A cor dos olhos eu não vi direito porque os óculos impediam, mas creio que são verdes como os do Jean. 
Sempre que olhava nunca ficava de frente. Virava o rosto para a direita dando impressão de ser cego ou não enxergar bem do olho direito e precisava desse artifício para ver com o esquerdo.
Querem saber mais coisas? A placa do carro, por exemplo? Ou a marca da gravata?
Desconcertados continuaram calados ouvindo o ébrio.
Vi também os sapatos pretos, o lenço vermelho no bolsinho do paletó. As unhas bem cuidadas com esmalte incolor...
Interromperam-no com todos falando ao mesmo tempo.
Caramba! 
Chega. 
Pare de tagarelar.
Está tentando nos enrolar para filar bebida?
Como você reparou tanto no homem? Depois de velho virou bicha?
Vão pro inferno. Reparei nele de propósito porque não fui com a cara dele. Continuo achando que tem alguma coisa de diabólica e aterrorizante no cara.
Beba mais essa pinga e vá para sua casa descansar e pare de encher o saco da gente. Amanhã quando acordar e se curar da ressaca não vai lembrar-se de mais nada desse monte de bobagens que falou.
Com esse maldito calor, porque o pilantra estava de terno e não a vontade como todo mundo?
Porque ele é chique e não pobretão como nós.
Eu continuo achando que aí tem coisa. E coisa ruim.
Você está delirando como sempre quando está de cara cheia.
Vá dormir porque ninguém mais vai lhe pagar nenhuma cachaça e nem deixá-lo falar mais nada.
Tome essa cachaça última que vou lhe pagar e suma de uma vez de perto de nós, e leve sua cadela prenha que como você só vive enchendo os culhões da gente.
Cano após beber com um só gole o trago oferecido saiu cambaleando, trocando os pés de tonto tentando ser rápido o que o tornava mais engraçado ainda deixando todos os demais rindo de seus gritos porque rua abaixo ameaçava:
Eu nunca vou esquecer sua cara seu salteador de velhos desprotegidos. Vou te pegar seu bandido e obrigá-lo na porrada a devolver o Velho gordo nosso amigo são e salvo.
Estou indo direto a casa dele que sei em qual prédio fica te arrebentar seu sequestrador de merda. Vou salvar o Velho depois de te dar uma surra daquelas. Você vai ver.
Quanto mais ele gritava absurdos mais se afastava em direção oposta à minha residência causando cada vez mais risos e diversão aos amigos que ficaram as gargalhadas.
oooOooo
 
Em outro local eu gritei assustado e terrivelmente amedrontado:
O que está acontecendo?
Nada que não tenha sido devidamente pensado e executado corretamente por mim.
Por que estou acorrentado como um animal selvagem e feroz?
Não está acorrentado, pois o que lhe prende não é corrente.
Eu sei que são cabos de aço e não correntes, seu filho da puta, mas insisto em saber por que estou preso pior que uma fera raivosa e perigosa. 
É necessário para sua própria segurança.
Seu bandido vagabundo. Quem é você?
Agora fez a pergunta que deveria ser a primeira, porém ainda não posso responder-lhe.
Solte-me seu maluco, cachorro, imbecil, cretino...
É impossível no momento.
Apareça, pois não o vejo.
Não faz a mínima diferença que me veja, pois me ouve e por enquanto é preferível assim. 
Estou reconhecendo sua voz. É o cara que me abordou no bar do Baiano.
Exatamente. Tenho muita coisa a lhe contar e você terá de ouvir-me e escrever um livro sobre o que eu falar.
Onde estou e como me trouxe?
Está no meu lar e trouxe-o com a ajuda de seus amigos do bar onde estava.
É mentira. Meus amigos jamais me trairiam mandando-me para essa armadilha.
Já lhe disse que tudo foi executado por mim, de modo perfeito e sem nenhum problema. Nunca erro e jamais falharei em minhas atitudes, decisões e ações.
Lá no bar onde fui lhe buscar você desmoronou em meus braços, por isso seus amigos auxiliaram-me, pois me passei por seu sobrinho que iria socorrê-lo de seu coma alcoólico.
Coma alcoólico? Está louco? Eu não tinha bebido nem duas cervejas como estaria alcoolizado?
Sem que você percebesse coloquei um forte sonífero em sua cerveja e você dormiu na hora, dando a impressão de desmaiado por embriagues.
Contei-lhes uma simples historieta idiota e os imbecis dos seus amigos acreditaram e até auxiliaram-me carregá-lo até meu carro, embora fosse desnecessário, mas deixei para que o vissem dormindo para dar mais credibilidade a minha história.
Sou o único homem sobre a face da terra que é totalmente razão e exato. Sou perfeito e isento de erros e asneiras, que só acontecem com vocês mortais perecíveis e descartáveis, portanto nunca cometo um simples engano.
Julga-se imortal e indestrutível? É isso?
Vai ouvir minha história e tirar suas próprias conclusões. Já está preparado para isso?
Não. Recuso-me a servi-lo e exijo que me solte imediatamente.
Não pretendo fazê-lo obedecer-me com ingestão de nenhuma droga ou com hipnose, pois poderá interferir em sua capacidade intelectual, que já não é muita e isso prejudicaria o livro que deverá retratar a pura verdade dita por mim.
Não permitirei que escreva nada que eu não aceite. Terá de estar totalmente sóbrio e consciente para escrever minha história depois de ouví-la da maneira correta. 
Sem nenhuma ficção inventada pela criatividade dos escritores. Somente o que eu determinar. 
Por que você mesmo não escreve?
Não tenho o dom para esse tipo de trabalho inferior. Além do que não conheço e nem pretendo conhecer nenhum editor para publicar.
E por que julga que eu escreverei algo que não me interessa e principalmente por não ter sido criado por mim?
Por seis motivos:
1. Porque para você interessar-se por alguma bobagem é muito comum. Qualquer coisa banal e cheia de mentiras já o contenta. Veja como seus dois idiotas e insignificantes livros satisfizeram-lhe. Sei que você se julga o máximo por aquelas duas porcarias, portanto se sentirá o mais orgulhoso dos mortais quando souber o que escreverá.
2. Você é incapaz de um trabalho inteligente e se agrada escrevendo quaisquer asneiras, julgando com isso ser um homem importante e como a história que vou lhe contar é muito conveniente, com certeza se interessará e muito em escrevê-la.
3. Nunca criou nada em seus únicos dois livros escritos. 
Paraízo foi roubado em quase sua totalidade de Sebastião Pereira da Silva, vulgo Tião, cujo final só conseguiu graças a mim que executei e o conduzi ao conhecimento. Para isso acontecer tive até que salvar-lhe a vida por duas vezes naquela época. 
O que você disse? 
Continue só ouvindo sem interromper-me. Vai saber tudo no momento certo.
Tempestade foi outra história que de seu só tem o tolo começo que nem precisou muito esforço, pois bastou apenas ver na televisão e ler em jornais sobre os estragos do temporal. O restante do estúpido livro foi praticamente ditado por Dr. Sebastião Pereira da Silva Filho apelidado Zinho, ajudado pelo mendigo que você chama de Velho Quim, pela atriz Lia Mendes e por seu filho Caio que mora em Paris e novamente por noticiários da televisão relatando o termino de minha real e verdadeira obra que foi o final de seu livro.
Falando em seu filho, esse sim é um cara competente se comparado aos homens atuais e muito mais inteligente que você, embora milênios de distância de minha perfeição e eu gostaria realmente de não ter de prejudicá-lo.
O que está insinuando?
Nada e não me interrompa. Por favor, continue apenas ouvindo.
4. É excêntrico e gosta imensamente de aparecer. Veja que se pôs em quase todos os momentos julgados convenientes nos livros tentando exibir-se. Ainda bem que só escreve livros e não roteiros de filmes, pois sua aparência física é horrorosa e estragaria qualquer película como fez o estúpido inglês Alfred Hitchcock com suas ridículas aparições, nos seus também incompetentes filmes de suspense.
5. Sua grande amizade pessoal com o editor tão insensato como você que sempre lhe facilitou na publicação dos outros livros o atenderá também nesse que realmente será ótimo. Ficará absolutamente empolgado e apaixonado pela obra que estou lhe propondo escrever e a editará sem hesitação. Finalmente terá seu best-seller, mesmo não merecendo.
6. Porque eu quero que escreva sobre minha vida e tudo que planejo mais cedo ou mais tarde sempre consigo. Nunca tenho pressa. Meu tempo é ilimitado, portanto espero-o atender-me.
Terminou?
De explicar-lhe porque escreverá minha história sim.
Responda-me agora. O que quis dizer quando falou que executou e conduziu-me ao final do Paraízo além de salvar-me a vida duas vezes e que o término do livro Tempestade foram informações pela TV do final de sua obra?
Só depois que entrarmos em acordo e ouvir-me saberá tudo. Terá de obedecer-me e escrever o que eu informar-lhe e inclusive antecipo que muita coisa do livro Tempestade, além de seu final também fui eu quem determinou.
Não acredito em nada que está falando e não me dobrarei jamais. Terá de matar-me.
Se matá-lo agora não escreverá, portanto não alimente tal ilusão que não lhe satisfarei tal mórbido desejo.
Você disse “se matá-lo agora”. Pretende matar-me depois? Após eu escrever tal livro?
Talvez.
Então me mate já, pois não escreverei nada.
Já disse e não vou repetir mais. Agora não farei isso. Depois, talvez.
Deixe-me ir embora.
Só depois de cumprir sua obrigação comigo.
Recuso-me definitivamente e aviso-o que tenho dois filhos que descobrirão meu rapto e colocarão a polícia inteira a procurar até encontrar-me.
Já cuidei de tudo para ficar tranquilamente aqui por dois meses ou mais, dependendo exclusivamente de você, sem nenhuma dificuldade para nós e nem para os seus.
Como assim?
Ouça essa fita que gravei.
oooOooo
 
O som da gravação do telefonema feito por mim para Paris estava bastante nítido e ouvi-me assim como escutei meus parentes.
Espantei com tudo que havia falado e ouvido sem que me lembrasse de absolutamente de nada.
Permaneci incrédulo durante mais de quinze minutos escutando tudo que foi falado entre mim, minha esposa e meus filhos.
Ouvi com total nitidez quando expliquei a eles que em virtude de ter ficado só, aceitei o convite de um antigo e grande amigo em hospedar-me em sua fazenda para lá ter a tranquilidade do campo e o tempo suficiente para escrever o livro que já criara em minha mente e que seria maravilhoso.
Que tais confortos me facilitariam e proporcionariam em tempo recorde a possibilidade de escrever a melhor de todas as minhas histórias.  
Ouvi-me esclarecendo que na fazenda que iria logo mais com o amigo não tinha telefone fixo e nem satélite próximo para captar aparelhos celulares, por isso não teríamos o mínimo contato nos próximos dois meses.
Orientei-os para o caso de eles regressarem dentro desse prazo e não me encontrarem em casa seria pelo motivo de ainda não ter terminado a história.
Que não se preocupassem, pois tão logo terminasse o livro estaria de volta para mandar publicá-lo.
O som não está ótimo? Pretende escutar novamente?
Como conseguiu isso?
Apenas hipnotizando-o e mandando portar-se conforme fez. Simples não?
Mas tal feito hipnótico é impossível.
Por que julga isso?
Porque nenhum hipnotizador pode manipular o cérebro de ninguém fazendo-o executar qualquer atitude contrária ao seu próprio desejo. O subconsciente do hipnotizado respeita sua moral e integridade recusando-se a obedecer e não faz nada não pertinente a sua própria aprovação.
Percebo que entende sobre hipnose, pois está totalmente correto em suas afirmações.
Acontece que o que lhe solicitei não desrespeitou em nada seu próprio modo de viver e agir. Você sabe muito bem que é um grande mentiroso que nunca se negou em contar e falar balelas, portanto foi fácil solicitar-lhe algo que já faz parte de seu caráter e de sua conduta rotineira. 
Seu subconsciente é bastante propício a tais canalhices, por isso seria mais correto ele recusar-se caso eu pedisse que falasse alguma coisa verdadeira ou séria. Foi apenas uma mentira a mais que solicitei que contasse, portanto está correto o que aconteceu sem nenhuma recusa e em nada ultrajando seu inconsciente corrompido e maldoso.
Como tem conhecimento sobre hipnose é sabedor que a pessoa hipnotizada pode atender qualquer sugestão solicitada desde que atenda a integridade de seu caráter, portanto sabe que se ele for um criminoso pode perfeitamente cometer um assassinato a pedido do hipnotizador sem nenhuma recusa. Tal solicitação não infringiu nenhuma atitude em seus princípios morais ou de ética, por isso antecipo-lhe já ter solicitado a assassinos hipnotizados que matassem e fui obedecido, assim como uma alcoólica e drogada satisfez meu pedido saltando de uma varanda do oitavo andar tentando voar. É claro que se espatifou no solo. Essa era a idéia. 
Está doido? Seu cretino, filho da puta, cafajeste.
Não me tirará do sério jamais. Quando souber de tudo entenderá por que lhe disse que sou só razão e isento de falhas, além de imune a emoções e sentimentos, portanto está gastando seu repertório de xingamentos à toa. Não me ofenderá e tão pouco me enfurecerá.
Há muitos anos senti pela primeira vez uma legítima emoção que me fez sentir meio idiota, como vocês, mas depois trabalhei isso e a deixei totalmente dominada evitando esses estúpidos descontroles. Não sou como vocês boçais que não tendo domínio sobre suas emoções deixam-nas comandarem-nos.
Só depois de mais de vinte anos que senti novo e real anseio, e recentemente pela terceira vez, mas nada que fuja a meu domínio.
Não farei nada do que quer, portanto mate-me, pois jamais lhe obedecerei.
Veremos.
Há quanto tempo estou aqui?
Faz dois dias que saiu de seu habitat.
Estou longe ou perto de onde me encontrou?
Isso eu não posso falar.
Por que não pode?
Porque jamais minto. Só falo o que é verdade e para que não saiba onde está simplesmente não respondo.
Se não mente como disse aos meus amigos no bar que era meu parente? Disse-lhes também que eu estava embriagado. Isso não foi mentira? 
Como já lhe disse não tenho sentimentos. Não tenho criatividade, nem dor, medo, sono ou outras banalidades inerentes a vocês, mas meu cérebro evoluído permite-me programar personagens a meu interesse e dar-lhes individualidade própria. Elas, depois de criadas por mim, podem agir, andar, mentir, falar e até pensar conforme lhes permito, para solucionar coisas necessárias a meu interesse. Não é de entendimento fácil para você enquanto não souber desde o início de minha vida, portanto só terá pleno conhecimento a partir do momento que conversarmos sobre minha origem e formação e eu explicar-lhe com mais detalhes sobre isso.
Quem está falando comigo? É você ou uma das tais personagens programadas?
No momento afirmo-lhe que sou eu próprio usando a voz da personagem Enfermeiro. O jovem que passou por seu sobrinho no bar e que inventou várias mentiras. Como você já conheceu sua voz estou usando-a para nos entendermos melhor. Dele só existe a voz, pois o caráter e as atitudes são as minhas próprias e não as dele que eu permiti ter naquele dia.
O que me induziu falar no telefone com minha família foram mentiras e se afirma ser isento de tal sentimento como pode inventá-las para eu falar a meus parentes.
Simples. Apenas dei vida e permissão ao jovem Enfermeiro para que ele orientasse-o como avisar sua família por que e quanto tempo iria ausentar-se. 
Toda atitude após eu hipnotizá-lo foi engenhosamente definida exclusivamente por ele.
Como pode ser isso que fala. São mentiras e invencionices. Nada disso que me confessa pode existir.
Garanto-lhe ser tudo verdade e possível para mim, por isso digo-lhe que deve ouvir-me e escrever minha história que obterá grandioso sucesso mostrando ao mundo os feitos e os poderes do homem possuidor do cérebro mais perfeito e funcional que existe sobre a terra.
O que você quer de mim exatamente?
Eu só estou tentando negociar consigo nosso encontro pessoal para que possamos conversar para eu lhe contar minha história.
Tudo bem. Quero falar frente a frente com você.
Está começando falar e agir com bom senso. É exatamente isso que pretendo desde que o procurei.
Explico-lhe novamente o que já lhe falei várias vezes. A história é muito interessante e conseguirá de fato seu melhor livro, portanto deve decidir-se sem ressalvas e rapidamente sobre minha proposta para então nos encontrarmos.
Porque tem de ser eu?
Por que você já está muito envolvido com minha vida por ter escrito os livros Paraíso e Tempestade.
O que tem a ver esses livros com você?
Após meu nascimento vou lhe contando e explicando tudo que escreveu nos outros dois livros e deverá chamar-se Bonança por vir depois de Tempestade, terminando calmamente e em definitivo com toda a história dos Ferreira da Silva.
Arrume outro. Eu recuso-me. Melhor dizendo talvez possamos entrar em acordo desde que me solte.
Como já disse. Fora de cogitação. Soltá-lo é impossível, por enquanto.
Então nada feito.
Aprisionado e estressado como estava mostrava minha grande fadiga e a pessoa que falava comigo com certeza me via e notando tal cansaço, disse-me com voz pacífica sempre no mesmo tom sem nenhuma emoção que naquele dia nossa conversa terminara e que era para eu descansar, pois voltaríamos a conversar no dia seguinte, porque já era tarde.
Ainda insisti perguntando:
Já é noite?
Nenhuma resposta. Meu interlocutor apenas conversaria quando quisesse sem dar nenhuma atenção ou obediência a meus gritos que foram muitos, durante horas.
Se eu tivesse obtido resposta à minha pergunta saberia pelo menos, mesmo sem saber para que, se era noite ou dia, pois era impossível descobrir ou até mesmo calcular a hora em que me encontrava.
Gritei, xinguei e blasfemei até ficar rouco e não consegui êxito em trazer meu inimigo de volta a conversa durante muito tempo sem preocupar-me com as horas que passavam. 
Não tinha a mínima noção se era dia. Se ele já terminara e era noite, ou se ela já cedia lugar à madrugada, ou mesmo se estava na manhã de algum dia qualquer. Estava totalmente perdido e próximo a loucura.
Após todo o tempo que passei conversando com meu raptor mais o que fiquei gritando e xingando, senti-me muito cansado e abatido a ponto de finalmente adormecer, embora o ambiente permanecesse com a mesma iluminação de sempre.
Nunca suficientemente claro e jamais totalmente apagado com suaves músicas apenas instrumentais sem acordes altos ou estridentes, ideal para acalentar e propiciar um sono profundo e reparador à maioria das pessoas de bom gosto. 
Tal luminosidade mesmo sendo bastante tênue e o som baixíssimo das melodias era absolutamente tudo que me irritava ao tentar dormir, pois minha preferência sempre fora a total escuridão e o silencio absoluto, mas o aconchego que o gigantesco e confortável colchão proporcionava naquele momento de total lassidão fez-me cair no sono. 
Entretanto, poucos minutos depois acordei sobressaltado. Sonolento mas ainda mantendo um pouco de lucidez e razoável calma. Refleti sobre minha condição e tive interesse em examinar minha real situação, por isso fiz um demorado exame verificando como estava aprisionado.
Observei tudo ao meu redor o mais minuciosamente possível verificando que estava agrilhoado em ambos os pulsos e tornozelos com fortes cabos de aço vindos do centro do teto da enorme sala.
Chegavam a meu corpo soldados em largas pulseiras e tornozeleiras de ferro atadas nos locais apropriados que não se moviam do lugar, mas não me machucavam ou apertavam.
Com certeza tais peças de ferro eram revestidas de algum material macio para não ferir-me, colado em minha pele para impedir qualquer movimentação dos mesmos.
Apesar de estarem até confortáveis sentia um pequeno incômodo não chegando a ser dor.
Pareciam pequenos ferimentos causados por picadas de pernilongos que muito me aborreciam por minha alergia ao veneno de tais insetos.
Entretanto em tal ambiente absolutamente limpo e asseado não havia meus pequeninos inimigos e mesmo que existissem jamais iriam picar-me exatamente nos locais impenetráveis onde estavam as pulseiras e tornozeleiras de ferro.
Perguntava-me constantemente o que seriam tais agulhadas quando as sentia, até chegar à conclusão óbvia que através dos cabos de aço, com certeza ocos, recebia a alimentação líquida que era introduzida diretamente em minhas veias.
As cordas de aço movimentavam esticando-se, semelhantes aos cintos de segurança dos carros. Bastavam pequenos puxões para travá-las na distancia que eu pretendesse mantê-las. 
Elas deslizavam suavemente e tornavam-se enormes quando eu as acionava permitindo-me qualquer movimento dentro do enorme ambiente feito de espelhos, que parecia ser circular.
Em meu passeio de reconhecimento com os cabos esticados ao máximo descobri que só me era permitido chegar até mais ou menos dois metros de distância das paredes.
Ao examinar mais próximo delas percebi que o formato não era em curva, portanto o local não era redondo. Minha cela tinha o contorno de um poliedro de doze lados e não arredondado conforme imaginara.
Senti-me insano ao ver-me de maneira grosseira, pois minhas imagens refletiam-se dezenas de vezes em todos os lados do duo decágono, desfiguradas e muito mais feias que meu enorme e horroroso corpanzil ao natural, ao qual há muito já me acostumara e até gostava.
Não me via de maneira correta como se vê em um labirinto de espelhos, cujas estreitas ruas andam em linha reta e suas curvas são formadas em ângulos de noventa graus. 
Imaginei-me dentro de um enorme caleidoscópio, embora tal aparelho seja um prisma triangular. Assim senti, pois me via em várias posições, às vezes corretas e outras totalmente desfiguradas dependendo do lugar que olhava. 
Verifiquei que em minha gigantesca cela sem nenhuma divisão existia exatamente ao centro o amplo e aconchegante colchão de espuma maciça e próximo a ele um bebedouro com água natural e gelada. 
Um pouco além havia um chuveiro e um lavatório. Vi na mesma direção um vaso sanitário que sem identificação alguma dentro de minha estranha prisão decidi considerá-lo como sendo minha referência em relação a meu posicionamento no colchão que por ser redondo e no centro do local quase redondo não deixava possibilidade de nenhuma certeza para definir algum ponto cardeal.
Assentei-me no colchão de frente para a latrina e passei a identificá-la como sendo o meu norte. 
A partir desse conceito poderia identificar os demais pontos.
Roupas para minha enorme obesidade estavam higienicamente colocadas em grande quantidade ao leste da cama. Próximo a elas haviam toalhas de banho e de rosto de papel grosso e macio fechadas em pacotes esterilizados e vários rolos de papel higiênico e guardanapos.
Tudo que estava a minha disposição era feito de papel, com exceção apenas das roupas que eram de tecido. 
Havia também todo o necessário para minha higiene pessoal, em saches de plástico fino, tudo colocado sobre o chão esmeradamente limpo e asseado.
No setor inverso ao sanitário, do outro lado da cama, estava um computador com iluminação exclusiva vindo do teto sem que eu visse nenhuma fiação elétrica aparente. Considerando minha posição tinha tal máquina na região sul. 
As três peças que compõem o aparelho (CPU, monitor e teclado) estavam chumbadas entre si e em um grande e pesado bloco maciço de granito sem a mínima possibilidade de mover absolutamente nada. 
Todas as peças do computador eram feitas em aço, sem nenhum parafuso a mostra e impossíveis de serem abertas arrancadas ou destruídas. 
Tal mesa de pedra maciça com certeza era furada para transportar a fiação que saia por baixo dos aparelhos atravessando-a e sumindo pelo solo para ser ligado em outro local longe dali.
Entre mim e a parede nada existia ao lado oeste.
Tudo naquela sala parecia-me impossível de ser destruído, de provocar incêndio ou usado para quebrar as espessas paredes que não eram espelhos de vidro e sim de aço polido.
Considerei que mesmo que fosse possível desvencilhar-me dos cabos de aço que me prendiam não teria como escapar dali, pois portas não existiam e as paredes eram indestrutíveis, mas mesmo verificando e constatando tudo isso tinha que tentar fugir, portanto continuei em minhas investigações.
Acionei o bebedouro e o chuveiro nada encontrando de diferente neles. 
O Vaso sanitário parecia que era como qualquer outro. Um acento normal, mas ao verificá-lo vi que no fundo não fazia a curva como os demais. Ele era semelhante às antigas latrinas de fazenda. Abaixo dele um buraco fundo. Apertei o botão da descarga e ouvi o som da água caindo, como em qualquer outro aparelho semelhante.
Enfiei um braço mesmo atado aos maleáveis cabos de aço que o acompanhou, mas não cheguei ao fundo ou a lugar algum. 
Fiz o mesmo com uma das pernas e descobri a mesma coisa. Nada de encontrar o fundo. Tentei enfiar ambas as pernas, mas foi impossível, pois no orifício não as cabia juntas, consequentemente meu corpo não passaria por lá.
Não consegui com ambos os braços e muito menos com a cabeça, pelo mesmo motivo.
Independente do ambiente não ser propício ao meu descanso finalmente dormi profundamente, pois meu corpo exaurido e desgastado pelo longo tempo acordado e pela ruína emocional e física que tomou conta mim fizeram-me apagar totalmente. 
oooOooo
 
Logo após acordar assustado com o alto som de uma sirena que chamou minha atenção percebi que o computador havia sido ligado e na tela do monitor também de aço tão esmeradamente polido que parecia vidro como a parede, apareceu escrito em letras maiúsculas:
LEIA COM ATENÇÃO, POIS ESSE AVISO DESAPARECERÁ EM QUINZE MINUTOS POR QUE O COMPUTADOR SERÁ DESLIGADO SEM POSSIBILIDADE DE VOCÊ ATIVÁ-LO. ELE SÓ VOLTARÁ A FUNCIONAR QUANDO EU ACHAR NECESSÁRIO E VOCÊ SÓ PODERÁ ACESSÁ-LO QUANDO EU PERMITIR PARA ESCREVER O LIVRO, APÓS NOSSA LONGA CONVERSA QUE PARA SEU CONFORTO E SEGURANÇA JÁ É URGENTE. 
ELE SÓ TEM UMA CONEXÃO DE REDE, QUE É COM O MEU É CLARO E EVIDENTEMENTE É DESPROVIDO DE INTERNET.
NENHUMA POSSIBILIDADE DE CONTATO COM OUTRAS PESSOAS FORA DAQUI, PORTANTO PARA NÃO MAIS PERDER O SEU TEMPO QUE JÁ ESTÁ PASSANDO RÁPIDO SAIBA QUE AQUI EM SEU LAR PROVISÓRIO NADA É POSSÍVEL SER DESTRUÍDO. NEM VOCÊ PRÓPRIO. 
EMBORA JÁ TENHA FEITO SUA INSPEÇÃO, INFORMO-LHE OUTROS DETALHES QUE TALVEZ TENHAM PASSADO DESPERCEBIDO A SUA PRECÁRIA E INGÊNUA INVESTIGAÇÃO.
SEUS SUSPENSÓRIOS DE AÇO NÃO SÃO CORRENTES COMPRIDAS PARA ENROLÁ-LAS EM SEU PESCOÇO E SALTAR DE CIMA DA MESA DO COMPUTADOR, ENFORCANDO-SE SE ENTRAR EM DESESPERO. ELAS SÃO DE FÁCIL MANUSEIO, MALEÁVEIS ATÉ, MAS NÃO SÃO DOBRÁVEIS E NÃO SE ENROLAM.
OS SABONETES E XAMPUS SÃO DE FABRICAÇÃO EXCLUSIVA SEM SODA CAUSTICA OU QUALQUER PRODUTO QUÍMICO PREJUDICIAL À SAÚDE E CASO OS BEBA, SEQUER TERÁ UMA DIARRÉIA. NÃO LHE FARÃO MAL ALGUM.
TUDO QUE TEM ACESSO É DE PAPEL, TECIDO OU PLÁSTICO E SÓ SERIAM INCENDIADOS SE CONSEGUISSE ALGUMA FAÍSCA OU FAGULHA, MAS NÃO TEM FÓSFOROS, NEM ISQUEIROS E A FIAÇÃO ELÉTRICA EMBUTIDA NÃO LHE ESTÁ DISPONÍVEL, PORTANTO É IMPOSSÍVEL DE VOCÊ CAUSAR UM CURTO CIRCUITO, QUE INCLUSIVE, SE CONSEGUISSE DE NADA ADIANTARIA A NÃO SER TALVEZ FERÍ-LO UM POUCO, POIS SEU QUARTO NÃO SE INCENDIARÁ POR NADA, A EXEÇÃO DE SUAS ROUPAS E AS TOALHAS DE PAPEL.
COM AS ROUPAS ATÉ PODERIA AMARRÁ-LAS UMAS AS OUTRAS FAZENDO UMA CORDA PARA SUA FORCA, MAS NÃO TERÁ ONDE NEM COMO PRENDER TAL CORDA E VOCÊ PRÓPRIO NÃO TERIA FORÇA PARA SUFOCAR-SE COM AS MÃOS.
SE TENTAR SALTAR DA MESA DO COMPUTADOR DE CABEÇA AO CHÃO NÃO CONSEGUIRÁ SEQUER UM PEQUENO GALO, POIS ALÉM DA BAIXA ALTURA PODE VERIFICAR QUE O CHÃO É MACIO COMO UM TATAME DE ARENAS DE JUDÔ PARA IMPEDIR FERIMENTOS.
JUNTO ÀS ROUPAS ENCONTRARÁ UM ENVELOPE COM ADESIVOS DE NICOTINA QUE PODERÁ USÁ-LOS COLANDO-OS EM SUA PELE PARA SUPRI-LO E SACIAR QUIMICAMENTE SEU ESTÚPIDO VÍCIO DE FUMAR.
O HÁBITO MECÂNICO DE LEVAR O CIGARRO A BOCA TERÁ DE ABANDONAR, ATÉ PORQUE É FÁCIL OU SE PREFERIR PODE SUGAR OS DEDOS.
A DROGA NICOTINA SERIA A ÚNICA CHANCE DE VOCÊ SE INTOXICAR, MAS VAI DESCOBRIR QUE EXISTEM APENAS SEIS ADESIVOS E SÓ OS RECEBERÁ DIA A DIA.
SE USÁ-LOS TODOS AO MESMO TEMPO QUASE NADA ACONTECERÁ.
SERIA SOMENTE O EQUIVALENTE AO CONSUMO DE SEIS CIGARROS FUMADOS AO MESMO TEMPO.
UMA LEVE TONTURA DE ALGUNS MINUTOS E NADA MAIS, VOLTANDO RAPIDAMENTE AO NORMAL.
SE ABSTIVER DO CONSUMO DIÁRIO NA TENTATIVA DE COLECIONAR EM VÁRIOS DIAS UMA GRANDE QUANTIDADE PARA USÁ-LOS DE UMA ÚNICA VEZ SERÁ IMPOSSÍVEL, POIS SEU MONITORAMENTO É PERMANENTE E SIMPLESMENTE SÓ TERÁ EM REPOSIÇÃO O QUE FALTAR, PARA NUNCA EXCEDER AO ESTOQUE MÁXIMO DE SEIS.  
MATAR-SE DE FOME TAMBÉM NÃO TERÁ ÊXITO, POIS O ALIMENTAREI COMO JÁ FAÇO NESSES DIAS EM QUE ESTÁ AQUI.
QUANDO COMEÇAR FINALMENTE OBEDECER-ME TERÁ O DIREITO DE SATISFAZER SUA ALIMENTAÇÃO POR MEIO DE COMIDAS SÓLIDAS, TAIS COMO SARAPATEL, VATAPÁ, MOCOTÓ, STROGONOFF, RABADA, COSTELETAS E FEIJOADA QUE SEI QUE ESTÃO ENTRE SEUS PRATOS PREDILETOS.
NÃO ESQUECI OU NÃO TOMEI CONHECIMENTO QUE SE DELICÍA COMENDO CHURRASCO OU BELOS BIFES DE PICANHA GROSSOS E GORDUROSOS, GRELHADOS E MAL ASSADOS, PORÉM INFELIZMENTE NÃO SERÁ POSSÍVEL, POIS SUA DIETA SERÁ APENAS DE COMIDAS EM QUE SÓ USARÁ COLHER OU A PRÓPRIA MÃO.
GARFOS E FACAS FICARÃO AUSENTES NESSES DIAS E MESMO AS COLHERES SERÃO DE PAPELÃO PLASTIFICADO QUE ALÉM DE QUEBRADIÇAS ESTRAGARÃO COM MUITA FACILIDADE.
SEI QUE JÁ VERIFICOU O VASO SANITÁRIO E VIU QUE ELE NÃO É COMO OS COMUNS. É POR ELE QUE DESTRUIRÁ TUDO O QUE FOR DESNECESSÁRIO.
NÃO SÓ AS FEZES E URINA, MAS TAMBÉM TODAS AS ROUPAS, TOALHAS, PRATOS, COPOS E COLHERES DEPOIS DE USADOS DEVERÃO SER LANÇADOS NELE, CUJA PRESSÃO FORTE DA ÁGUA LEVARÁ ATÉ O TRITURADOR QUE SERÁ AUTOMATICAMENTE ACIONADO DESTRUINDO TUDO.
JÁ PERCEBEU QUE O BURACO NÃO LHE CABERÁ CASO CONSIGA O IMPOSSÍVEL DE DESATAR-SE DOS CABOS DE AÇO E ENFIAR-SE POR ELE PARA SE FRAGMENTAR COMO MERDA.
SUAS AMARRAS AO SEREM ESTICADAS LHE PERMITIRÃO ATÉ ENFIAR UM DOS BRAÇOS OU UMA PERNA NO VÃO OCO DO VASO PARA TENTAR DESFAZER-SE DE UMA MÃO OU PÉ, NA TENTATIVA DE OBRIGAR-ME A SOCORRÊ-LO, MAS INFORMO-O QUE JAMAIS ALCANÇARIA O TRITURADOR, POIS ELE ESTÁ SITUADO A MAIS DE DOIS METROS ABAIXO DO RECIPIENTE SANITÁRIO. IMPOSSÍVEL DE SER ALCANÇADO. VI QUE INCLUSIVE JÁ TENTOU ISSO SEM NENHUM SUCESSO, PORTANTO DESISTA.
NÃO ESTOU ASSUSTANDO, PRESSIONANDO OU AMEDRONTANDO-O, MAS APENAS AJUDANDO-O EM SUA RÁPIDA E ESPONTÂNEA DECISÃO, ANTES DE PERDER MUITO TEMPO EM DESCOBRIR A TOTAL IMPOSSIBILIDADE DE SAFAR-SE DAQUI.
ACREDITE. VOCÊ ESTÁ LITERALMENTE ATADO A MIM.  
Passado alguns minutos o monitor ficou escuro. Gelei ao saber que corri o risco de decepar uma mão. Nunca suportei nem uma agulhada de injeção, por isso imaginei e senti a terrível dor de ter cortado uma mão inteira. Berrei a plenos pulmões:
Filho da puta miserável. Nunca me imaginei em ser um assassino até hoje, mas vou matá-lo assim que aparecer perto de mim, seu desgraçado. Imbecil.
Meus berros não duraram muito, pois logo em seguida ouvi meu sequestrador.
Calma Velho gordo. De nada adiantará blasfemar.
Solte-me daqui. Quero ir embora. 
Só depois que o livro Bonança estiver escrito terá permissão de sair para levá-lo para ser editado.
Tem de ser agora seu veado, filho da puta, assassino, cadela, bandido, homossexual, filho sem pai, travesti, maluco, desgraçado, maldito, doido, cafajeste, capeta. 
Poupe o fôlego, pois jamais me tirará a serenidade. Além de eu ser tudo o que falou e muito mais, nunca perco a calma. Você jamais conseguirá de mim qualquer emoção, portanto nada que gritou ofendeu ou elogiou-me. 
Você é gay, seu patife?
Acertou. Às vezes porto-me como tal.
É mulher? É fêmea? É Vagabunda?
Você continua correto. Em muitas ocasiões tenho de ser.
É homem? É Macho?
Novo acerto. Dependendo da necessidade assim me apresento e porto-me como tal perfeitamente bem.
Você é o demônio?
Permanece no caminho da verdade. Todos que me viram consideraram-me assim.
É desse mundo?
Claro que sim. Você já me viu pessoalmente várias vezes.
É de outro planeta?
Alguns já me julgaram até de outra galáxia pela perfeição de meu cérebro, o que não deixa de ser outro acerto, pois na terra atual não há ninguém como eu.
Venha até aqui cara a cara.
Ainda não está na hora. Primeiro tem de acalmar-se.
Não é possível, seu vagabundo. Imbecil. Jamais me acalmará e menos ainda me dominará. 
Tenha certeza que muito em breve conseguirei.
Não vem a mim por medo?
De quem?
De mim. É Claro.
De você não tenho.
De quem então?
De ninguém. Assim como todos os outros sentidos, medo é algo que jamais senti ou sentirei.
Seu calhorda, besta, idiota, estúpido, praga, miserável, maldito. Solte-me.
Nenhuma resposta. Somente aquela música em tom baixo das eruditas sinfonias por mais outras várias horas de meus gritos e imprecações.
Já quase sem voz de tanto gritar aquietei descansando deitado de costas no colchão embora mantivesse o cérebro arquitetando inutilmente algum plano de fuga.
Lembrei-me do que li que no fundo do vazo sanitário tem um triturador localizado a dois metros de profundidade.
Como os cabos de aço eram bastante flexíveis poderia com eles totalmente esticados enfiá-los semi dobrados, um a um até alcançar o triturador, que provavelmente os destroçariam e assim, pelo menos eu não ficaria atado como estava.
Não imaginava nenhuma maneira de fugir dali, mas pelo menos estaria desamarrado.
Atirei um rolo de papel higiênico inteiro dentro da passagem do vaso e logo após verifiquei a eficiência do aparelho cortante imaginando-o muito forte e capaz pelo barulho e rapidez com que destroçou o papel. Tentei novo teste com algumas toalhas e copos confirmando sua presteza.
Finalmente coloquei o cabo de aço de um dos braços, devidamente dobrado conforme idealizado empurrando-o até que ele chegou ao fundo, onde deveria estar o triturador e nada aconteceu. 
O aparelho não funcionou embora eu esfregasse o cabo ouvindo o som do contato entre o aço e a lâmina cortante e dava descarga ao mesmo tempo tentando ativá-lo sem nenhuma consequência.
Tirei o cabo de aço e joguei mais toalhas que provocaram novamente o trabalho do triturador. Insisti outra vez com o cabo de aço sem nenhum resultado. Não conseguiria quebrar minhas amarras. Pelo menos dessa forma. 
Xinguei a altos berros o tal “liquidificador imprestável”, até que suando de cansaço e enraivecido, não suportando mais aquelas melodias tão diferentes das de meu agrado gritei:
Pelo menos pare com essa maldita música que não suporto mais.
Não demorou muito tempo para o computador ligar com o som da sirene, com certeza para alertar-me. Estava escrito:
PRIMEIRO INFORMO-O QUE O TRITURADOR É MUITO PODEROSO, MAS INSUFICIENTE PARA QUEBRAR O AÇO E CASO ELE LIGASSE TENTARIA TRITURÁ-LO, MAS ISSO SÓ PROVOCARIA MUITOS E FORTES SOLAVANCOS EM VOCÊ QUE PODERIA MACHUCAR-SE COM GRAVIDADE E INUTILMENTE. 
AS LAMINAS CORTANTES DEMORARIAM, MAS ACABARIAM QUEBRANDO-SE, POIS NÃO CORTARIA O AÇO DAS CORDAS E AMBAS AS COISAS NÃO ME INTERESSAM. NEM MACHUCÁ-LO E NEM TER O APARELHO DANIFICADO, POR ISSO SAIBA QUE QUALQUER METAL QUE POR VENTURA VENHA SER ATIRADO PELO VASO, SERÁ IDENTIFICADO POR UMA CÉLULA ELETRÔNICA QUE DESATIVARÁ O APARELHO, NÃO O DEIXANDO FUNCIONAR, PORTANTO DESISTA EM TENTAR TAL BESTEIRA NOVAMENTE. 
SÓ O FARÁ CANSAR E PASSAR RAIVA DO “LIQUIDIFICADOR IMPRESTÁVEL” CONFORME EM SEUS GRITOS APELIDOU MEU PODEROSO E EXCELENTE APARELHO.
SEGUNDA INFORMAÇÃO: SEUS CANTORES DE BOSSA NOVA E MPB LHE SERÃO FORNECIDOS ASSIM QUE DECIDIR COLABORAR.
TERÁ INCLUSIVE SUAS CERVEJAS GELADAS A VONTADE E SUAS ALIMENTAÇÕES PREDILETAS.
DECIDA-SE QUE ESTOU AGUARDANDO SEM NENHUMA ANSIEDADE.
VOCÊ SABE QUE EU TENHO TEMPO, MAS O SEU ESGOTA-SE COM RAPIDEZ, PORTANTO SEJA SENSATO.
O computador desligou e eu berrei:
Como sabe tudo a meu respeito? Meus gostos pela música, alimentação e bebidas? Porque não conversa mais tempo comigo como já fez outras vezes, contando o que mais sabe sobre mim, ao invés de mandar-me notícias escritas na tela do computador?
Novamente o monitor foi ativado com três únicas frases:
NÃO TENHO CONVERSADO COM VOCÊ PARA NÃO PERDER TEMPO COM RESPOSTAS AS SUAS PERGUNTAS IDIOTAS.
ESTAREI A SUA DISPOSIÇÃO PESSOALMENTE SÓ APÓS VOCÊ DECIDIR COLABORAR. 
A PARTIR DE ENTÃO ESTAREI A SEU INTEIRO DISPOR PARA RESPONDER MUITAS DAS SUAS PERGUNTAS, MESMO QUE SEJAM INADEQUADAS.
oooOooo
 
Fiquei desestimulado em tentar a fuga, pois conscientizei que era realmente impossível, por isso pus-me a refletir sobre o que estava me acontecendo e como desvendar tais mistérios.
Durante muitas horas recordei fatos antigos e recentes, unindo-os na tentativa de decodificar o enigma.
Considerando tudo o que ouvira de meu raptor busquei na memória várias passagens, conversas, incidentes e acidentes acontecidos há muitos anos atrelando-os uns aos outros com esperança em desvendar o intrincado e complexo problema.
Lembrei-me que um velho mendigo aleijado salvou-me a vida quando Tião ia matar-me no assalto ao bar avisando-me com antecedência.
Isso acontecera na época em que escrevia o livro “Paraizo”.
Alguns dias antes, quando Sebastião atirou em mim de dentro de um caminhão em movimento o motorista instantes antes do disparo fez uma brusca manobra evitando minha morte.
Conforme percebi na época, naquele exato momento não vi nenhum motivo para tal movimento precipitado do condutor do veículo. Agora ao rememorar a cena passei a ter certeza que tal oscilação do caminhão fora proposital para impedir meu assassinato, pois meu raptor disse-me ter salvado minha vida duas vezes. Na época não ousei pensar nessa possibilidade, pois não imaginei nenhum motivo para ser salvo pelo comparsa de Tião, mas agora entendo ter sido isso o ocorrido, entretanto não tinha a mínima idéia do motivo.
Evidentemente foram essas as duas vezes em que fui salvo conforme a voz me falou.
Naquela primeira vez não tinha sido o mendigo o meu salvador.
Vi perfeitamente que foi um negro forte que estava no volante do caminhão.  Evidentemente era outro comparsa de meu sequestrador que servia de motorista ao meu inimigo daquele tempo.
Continuando em minha viagem ao passado recordei que o mendigo aparecia de vez em quando, durante anos contando-me fatos acontecidos no bairro onde o bandido Tião morava e comandava sua quadrilha.
Entre as várias informações foi ele quem me avisou do dia do extermínio do criminoso e até o local onde o encontraria esfaqueado, possibilitando-me presenciar tal morte e escrever o final da história do livro Paraízo. 
Considerando que o miserável que conversava comigo disse ter efetivado o final da história do livro “Paraizo” que foi assassinar Sebastião ficou claro que ele de alguma forma participou desses eventos e realmente não teve nenhuma pressa em resolvê-los.
Tais fatos aconteceram com uma diferença de quase vinte anos entre as duas primeiras ocorrências e a última.
Se o autor da morte de Tião foi mesmo ele, é claro que tinha de fato muita paciência e esperava muito tempo para conseguir o que queria.
Recordei-me também que ele disse ter hipnotizado criminosos sugerindo-lhes um assassinato que foi concretizado, portanto poderia ter sido assim que os guarda-costas de Tião mataram-no.
Fiquei intrigado em saber por que tanto tempo foi necessário esperar para matar Sebastião se ele já o conhecia desde o início de suas atividades no covil de criminosos.
O mendigo estava sempre próximo e em contato com ele quando me contava muitas coisas a seu respeito. Com certeza também contava tudo à meu raptor que é o seu patrão.
Fiquei imaginando, sem chegar à conclusão nenhuma, como o velho esmoleiro tinha tanto acesso aos desígnios do criminoso assassinado. E por que seu chefe que sabendo de todos seus passos não o matou naquela época se realmente era esse seu desejo? Irritei-me com meu sequestrador por isso.
Lembrei-me sem entender bem o que ouvi dele: “Porque eu quero que escreva sobre minha vida e tudo que planejo mais cedo ou mais tarde sempre consigo. Nunca tenho pressa. Meu tempo é ilimitado, portanto espero-o atender-me”.
Realmente não entendia porque esperar tantos anos para satisfazer seus desejos. É normal em todas as pessoas quererem as coisas sempre para o momento, ou para o mais rápido possível.
Novamente pensei no mendigo que me mostrou muitos caminhos não só quando escrevi meu primeiro livro, como também me ajudou e bisbilhotou quando escrevia Tempestade, que nada mais fora que a continuação do primeiro.
Por uns instantes imaginei serem todos a mesma pessoa, mas o pedinte não parecia em nada com meu raptor, que por sua vez era muito diferente do motorista do caminhão que me salvara.
O mendigo tinha o corpo mutilado. Não tinha uma mão e um pé, além de já ser velho e surdo desde aquela época longínqua.
O motorista do caminhão era negro e jovem vinte anos atrás, porém hoje deveria estar cinquentão.
Meu sequestrador é branco e atualmente ainda é bem jovem. 
Absolutamente não podem ser a mesma pessoa. É loucura.
Enervei-me ao lembrar que o homem que me prendeu de forma absurda tinha aparência de vinte anos aproximadamente e disse ter-me salvo por duas vezes.
Tais fatos ocorreram há mais de vinte anos, portanto ele com seus atuais vinte deveria estar nascendo naquela época. 
Como ele poderia mandar o motorista e o mendigo socorrer-me, se não passava de um neném, ou mesmo nem ter nascido ainda?
Não conseguia compreender nada por mais que me esforçasse.
Rememorei que ouvi da voz que também fora ele quem interferiu na história do livro Tempestade quando disse que só depois de entrarmos em acordo e ouvi-lo eu saberia tudo. Que deveria obedece-lo e escrever o que fosse informado. Para aguçar meu interesse antecipou que o final do Tempestade também fora ele quem determinou.
Aquelas trágicas mortes que me obrigaram definir o fim da história foram ocasionadas por ele? Como?
Nesse dia, incrédulo e desmemoriado como já estava nem me lembrei de que a morte da atriz também já havia sido explicada como ocorrera. 
Busquei fundo na memória e lembrei-me que o esmoleiro conhecido como velho Quim estava sempre presente enquanto escrevia o livro Tempestade conversando comigo quase que me inquirindo sobre o paradeiro de algum parente de Zinho caso soubesse de algum ainda vivo, principalmente após mostrar onde estava sepultado Tião para que o filho confirmasse a paternidade pelo exame DNA.
Agora estava claro porque o mendigo não aceitava esmolas. Ele apenas representava ser pedinte, sem de fato o ser. 
Era um espião do assassino desconhecido que se prestava a conseguir de mim informações para descobrir os parentes de Tião ainda vivos, para depois alguém matá-los. Qual o motivo? E porque tantas mortes?
Lembrei-me de que quando escrevia Tempestade, conversando com a atriz Lia Mendes disse-lhe:
“O andarilho nunca fica muito tempo no mesmo local e desta vez ficou horas sentado na calçada à nossa frente. Parece que propositadamente ficou ouvindo toda a história para depois sair”.
Ela assustada respondeu-me em seguida com outra pergunta:
“O senhor mesmo disse-me que ele é surdo e que só de frente conseguia ler nossas palavras pelos movimentos dos lábios. Como nos ouviria estando de costas?”
Impressionei-me ao reconhecer minha ignorância em crer que tal pessoa que se passava por surda, com certeza ouvia muito bem. Não era deficiente auditivo coisa nenhuma. Apenas fingia.
Naquela conversa a atriz tinha contado que Rosa e sua mãe Maria das Mercês Aguiar eram primas de Zinho e consequentemente sobrinhas de Tião. 
Recordei-me que ela até mencionou o endereço delas em Ribeirão Preto, com o pedinte “surdo” próximo a nós, estrategicamente assentado a nossa frente para ouvir tudo que falávamos. 
Com certeza após descobrir o endereço das primas de Zinho passou a informação ao assassino, porque menos de um mês depois, os jornais noticiaram o falecimento em Ribeirão Preto da Senhora Maria das Mercês Aguiar, mãe da famosa atriz Rosa Dantas. 
A causa mortis foi dada como infecção generalizada, mascarando o provável assassinato.
Lembrei-me que após isso em outra conversa com a atriz ela disse ter telefonado a Rosa no Canadá para avisar da morte da mãe. Mencionou o nome do hotel onde ela estava hospedada e o tempo que permaneceria lá.
Quando aconteceu essa conversa no bar tinha uma mesa ao nosso lado ocupada por um homem alto e forte, também jovem, aparentemente alheio ao que se passava ao redor, bebendo algum suco de frutas ou refrigerante. 
Esse homem era o mesmo que Zinho suspeitava que seguisse seus passos, identificando-o como o Alemão.
Não havia passado muitos dias dessa conversa, com certeza ouvida pelo tal Alemão, quando estávamos confabulando no bar Anarquia eu, meu filho Jean e a namorada atriz como fazer para contar a Zinho sobre a descoberta de suas primas Maria das Mercês e Rosa, quando nova notícia aterrorizante foi transmitida pela televisão.
Desta vez com muito alarde, pois a pessoa era muito conhecida e importante internacionalmente.
A famosa atriz Rosa Dantas que fazia estrondoso sucesso em todo o planeta no mundo do cinema, dos magnatas, dos atletas e no dos políticos mais influentes se atirara do alto de sua suíte onde estava hospedada no Marriott Toronto. 
Só após lembrar tal fato, que recordei que meu raptor já havia dito como a matou. Ela era a tal embriagada e drogada que foi hipnotizada por ele e mandada saltar do alto do edifício. 
Fato que foi um dos últimos tópicos do livro Tempestade.
A polícia do Canadá não teve dúvidas do suicídio, pois foram centenas de testemunhas que a viram saltando nua da varanda do oitavo andar arrebentando-se entre a multidão que estava embaixo próxima a piscina.
Outro assassinato disfarçado. 
Acrescentei esse Alemão como a quarta pessoa da quadrilha, também com características bem diferentes dos demais. 
Não demorou muito para o último dos Pereira da Silva morrer, pois assistimos também pela televisão a notícia do acidente fatal que vitimou tragicamente Sebastião Pereira da Silva Filho, conhecido por professor Zinho, seus dois filhos e sua esposa grávida.
Recordei-me que no jornal visto, falou que ele dirigia em altíssima velocidade em uma estrada cujo local era uma longa reta.
Que guiando em contra mão colidiu de frente com uma carreta que transportava barras de ferro.
Lembrei-me que a polícia técnica confirmou que não só ele teria ampla visão do caminhão vindo ao longe, como o próprio caminhoneiro teria ótima visibilidade de seu carro vindo do lado oposto.
Que ambos tinham enorme tempo e plenas condições de frearem ou desviarem-se um do outro muito antes de chocarem-se violentamente como aconteceu.
Estranhamente ambos dormiram ao volante no mesmo instante provocando o sinistro, ou ambos colidiram-se propositadamente para morrerem?
E a esposa e os filhos de Zinho também dormiam naquele exato momento e não viram nada para alertá-lo? 
O caminhão estava praticamente ileso, mas seu motorista foi retirado morto com o peito destroçado, cujos ossos das costelas perfuravam-lhe os pulmões, o coração e os intestinos, provocando morte instantânea.
Não usava seu cinto de segurança por quê?
Propositadamente para matar e morrer e não ser suspeito de assassinato?
Não fazia sentido, pois quem estava na contra mão não era o caminhão e sim o carro do meu amigo Zinho. Sem dúvida alguma foi ele quem cometeu a imprudência e o acidente.
Não foram encontradas marcas de freadas e nenhuma informação de ultrapassagens por nenhum dos veículos.
Aparentemente ambos avançaram em direção ao outro com o propósito estranho e inconcebível de chocarem-se.
Nenhum estava vivo para explicar e não houve testemunhas do caso.
Como de fato ninguém apareceu para elucidar o acidente ele foi considerado como uma grande tragédia do destino sem nenhuma possibilidade de investigação mais aprofundada e tudo foi devidamente arquivado.
Outro crime perfeito totalmente camuflado e insolúvel de meu raptor.
Nunca fizeram nenhuma averiguação mais cuidadosa das mortes totalmente definidas das primas de Zinho, pois não houve suspeita a respeito dos laudos médicos e das causas bastante claras e auto elucidativas e também do estranho acidente que vitimou o professor com sua esposa e filhos e com certeza outro inocente que foi o caminhoneiro.
Tudo isso recordei e absorto permaneci por muitas horas febril em meus atormentados e alucinados pensamentos decidindo-me finalmente ouvir o causador de todas essas mortes contar-me a verdade esclarecedora desses assassinatos e por que.
Estava interessado em saber como tudo aconteceu, pois meu compromisso com ele seria contar tudo a sociedade através de um livro meu.
Entretanto agora tinha certeza que seria morto após escrever o livro, mas ao mesmo tempo tinha de conhecer o criminoso para tentar safar-me, pois teria de ser libertado para voltar a minha vida normal para editar a história.  
Quando isso acontecesse eu daria um jeito de evitá-lo, ou de mandar prendê-lo usando o próprio livro como prova de seus crimes, mas para isso teria de ver seu rosto. 
Lembrei-me de minha recente conversa com ele quando disse:
“Não acredito em nada que está falando e não me dobrarei jamais. Terá de matar-me”.
“Se matá-lo agora não escreverá, portanto não alimente tal ilusão que não lhe satisfarei tão mórbido desejo”.
“Você disse (se matá-lo agora). Pretende matar-me depois? Após eu editar tal livro”? 
“Talvez”.
“Então me mate já, pois não escreverei nada”.
“Já disse e não vou repetir mais, agora não farei isso. Depois, talvez”.    
Sempre que lhe pedi para matar-me ele recusou, nunca afirmando que me mataria depois. Ficava somente no “talvez”.                                      
Imaginei que quando for solto para publicar o livro poderia conseguir escapar.
Como já conheço toda a quadrilha com exceção só dele tenho de conhecê-lo também. 
Pensei que meu homicídio se de fato for ocorrer poderá até levar muitos anos, pois o cruel assassino nunca tem pressa em desfazer-se de seus desafetos e como já estou velho poderei até morrer por doença ou por idade antes de ser assassinado. Decidi que iria concordar com o criminoso em ouvi-lo.
Lembrei-me novamente que ele nunca tinha afirmado que me mataria e como meu algoz sempre disse que nunca mentia ficou claro que minha morte ou minha soltura ainda não estava planejada. Havia ainda a esperança de continuar vivo. Iludido pensei: Quem sabe serei poupado. 
Finalmente entendi que o homem que me falava era de fato o culpado de todas essas mortes, embora uma tenha sido identificada como doença, outra como suicídio e a última como acidente automobilístico.
Aquele homem ardilosamente provocou tais crimes bárbaros. 
Recordei-me que quando lhe perguntei se ele era o demônio ouvi como resposta que pensava de forma correta, pois muitos o achavam demoníaco.
Alguma coisa de muito maligna estava por traz de tudo e resolvi que deveria descobrir mesmo que correndo o risco de morrer depois, mas de qualquer forma esse perigo já existia e era até muito maior se continuasse inimigo e não visse a cara do assassino calculista, frio, calmo, sanguinário e educado. 
Finalmente caiu-me a ficha. Eu não tinha mais dúvidas que o homem que me falava era de fato o causador de todas as mortes mencionadas. Algumas delas até já sabia como ocorreram, pois ele próprio contou-me. Tal bandido descobria fatos importantes através de seus espiões que tiravam de mim e de meus amigos o que lhe interessava saber, para depois consumar os assassinatos, sempre camuflados para não serem desvendados.
Naquela situação de alucinação decidi recapitular tudo vagarosamente antes de chamar pelo meu raptor.
O mendigo conhecido por velho Quim eu conhecia muito bem.
O alemão alto e forte recordava-me da fisionomia assim como a do Enfermeiro que me raptou que conclui que também era apenas mais um cúmplice. 
A loira bisbilhoteira que sempre vigiava o professor Zinho e a mim já me era conhecida. Essa cúmplice só me lembrei agora, na recapitulação dos fatos. 
Recordei que o bandido chefe informou-me que usava a voz do Enfermeiro por já ser-me conhecida, portanto não era o jovem o principal mandante dos crimes. Faltava conhecer somente o verdadeiro mentor da quadrilha.  
Decidi avisá-lo que conversaríamos para escrever o livro Bonança. Era a única maneira de vê-lo.
Entretanto estava muito cansado e inconscientemente comecei adormecer, mas quando estava entrando em sono profundo em uma rápida lucidez lembrei-me de outra coisa que tinha ouvido de meu opressor.
“Como já lhe disse em minha normalidade não tenho sentimentos. Não tenho criatividade, nem dor, medo, sono ou outras banalidades inerentes a vocês, mas meu cérebro evoluído permite-me programar personagens a meu interesse e dar-lhes individualidade própria. Elas podem agir, andar, mentir, falar e até pensar conforme lhes permito, para solucionar coisas necessárias a meu interesse. Não é de entendimento fácil para você enquanto não souber desde o início de minha vida, portanto só terá pleno conhecimento a partir do momento que conversarmos sobre minha origem e formação e eu explicar-lhe com mais detalhes sobre isso”.
Esforçando para me manter acordado e pensante tentei entender o que significava tal informação.
Será que não existe nenhuma dessas pessoas? São personagens programadas pelo indivíduo. Como? Imagens irreais? Ilusionismo? Hipnose coletiva? Slides projetados? Truques com espelhos? Efeitos especiais? Andróides? Robôs? Alienígenas? Não. Nada disso é possível. Existem apenas em filmes de ficção.
Demônios? Bestas? Deuses? Anjos? Fantasmas? Espíritos? Assombrações? Também nada disso poderia ser. Tais figuras pertencem somente aos folclores criados pelas religiões e seitas.
A voz havia dito que era humano. Que era gente desse planeta, entretanto tinha confirmado que muitos o julgavam de outra galáxia ou como o próprio diabo, entre outras coisas.
Por mais que me esforçasse não encontrei nenhuma resposta possível. 
Tais indivíduos, exceto o chefe, muitas outras pessoas além de mim viram e até conversaram com eles.
O professor Zinho, meu filho Jean, Dr. Carlos, Lia Mendes e eu próprio já afirmamos achar tais pessoas muito estranhas, mas nunca os julgamos sobrenaturais ou extraterrenos. Jamais foram tocadas por nós, mas as vimos em todas as dimensões e ângulos possíveis e embora as julgássemos esquisitas sempre as achamos totalmente reais.
Recordei novamente o final daquela informação passada pela voz:
“Não é de entendimento fácil para você enquanto não souber desde o início de minha vida, portanto só terá pleno conhecimento a partir do momento que conversarmos sobre minha origem e formação e eu explicar-lhe com mais detalhes sobre isso”.
Não me restava nenhuma alternativa a não ser colaborar com o raptor e agora eu até tinha muita pressa nisso, para desvendar tal mistério e os demais que se transformaram em mortes trágicas e violentas. 
Devido meu excessivo esgotamento adormeci profundamente sem antes gritar que decidira cooperar e que concordava em dialogar com o bandido desconhecido.
oooOooo
 
A sirene deve ter soado durante muito tempo, mas não me acordou, pois imagino ter passado a noite toda pensando e não a ouvi e nada li na tela do monitor caso tivesse algum aviso e tão pouco ouvi a voz que talvez tenha decidido falar comigo.
Acordei espantado com uma mão gelada que carinhosamente masturbava meu órgão genital adormecido, inerte e murcho. Assustado gritei:
O que é isso?
Não gosta de meus carinhos?
Tire essa mão daí, sua cachorra.
Calma senhor. Se é isso que deseja obedeço imediatamente.
Que faz aqui?
Vim acordá-lo, pois já é dia alto e continuava dormindo. Pensei que tivesse morrido durante o sono.
Estou muito bem embora não tenha dormido o suficiente. O que você quer?
Apenas acordá-lo, satisfazer-lhe sexualmente e deixá-lo mais sereno e calmo para começar escrever seu livro, pois sabemos que já decidiu isso.
Suma já daqui que não quero nada disso.
Tudo bem. Vou-me sem nenhum problema. Até logo.
Espere. Não vá ainda.
Ela parou ao meu chamado e permaneceu de frente para mim atendendo minha solicitação, praticamente nua, pois se cobria apenas com um longo véu transparente oferecendo-se sedutora e graciosa.
A loira que me acariciou era a mesma que Zinho e Jean em várias ocasiões tentaram inutilmente seduzir. Continuava como sempre com os longos cabelos cobrindo-lhe parte do rosto.
Ela já aparecera várias vezes próxima a mim ou a meus amigos sem sequer um ligeiro sorriso e muito menos uma conversa amigável com nenhum de nós.
Sempre com a pequena e educada frase “Por favor, não me incomode” enxotava quem dela se aproximasse. Jamais brindou alguém com a jovialidade animada como fazia agora.
Os jovens Jean e Zinho, sedutores e atraentes sempre tentaram aliciá-la para suas carícias e satisfações sexuais, mas nunca conseguiram dela sequer um flerte. Ela sempre séria os rejeitava polida e educadamente.
À mim nada fascinante, repelente até, ela estava propondo satisfação carnal e demonstrando grande interesse nisso. 
Olhei fixamente vasculhando e examinando cada milímetro de seu corpo e vi sob a transparência da renda, que nada a cobria, sua vulva que mais parecia as das bonecas infláveis vendidas em sex-shop. Foi a única coisa estranha que percebi, mas poderia perfeitamente ser normal, pois nos dias de hoje, através de plásticas e implantes fazem-se mudar tudo. Vai ver que fora modificada para fazer parte da moda atual que eu desconhecia. O restante me pareceu normal embora tenha verificado que todo seu corpo era liso. Sem nenhum cabelo, exceto na cabeça e sobre os lábios vaginais um mais parecido bigodinho do Hitler em sentido vertical, que pêlos pubianos. 
Totalmente recuperado do susto e lembrando-me das tais personagens fictícias, idealizei que a agarrando e batendo-lhe com força a desmancharia como pó ou fumaça desfazendo-me de tal ilusão provocada, pois no momento era o que minha descontrolada razão me dizia.
As cordas de aço que me prendiam não me atrapalhariam, pois eu sempre as mantinha esticadas e travadas compridas.
Eram indestrutíveis para impedir-me de arrebentá-las, mas bem maleáveis permitindo-me qualquer movimento.
Fiz o que minha alucinação determinou muito rapidamente agarrando e prendendo a jovem com as cordas para conseguir meu desígnio de destruí-la. 
Ela desvencilhou-se com a maior facilidade e para minha surpresa segurou-me firmemente com apenas dois dedos de uma das mãos em meu pescoço que me imobilizou, tal qual uma criança faz com sua boneca de pano. 
A força que causou tanta dor em todo meu corpo foi tão grande que me imaginei preso por um gigantesco polvo com mil tentáculos, mas era uma simples jovem que nem esforço fazia para manter-me totalmente inerte e prestes a desmaiar.
Ela soltou-me após alguns segundos sobre a cama afastando-se e deixando-me mais assustado que um ratinho frente a frente a um tigre gigante.
Não consegui ver exatamente para onde ela se encaminhou devido às várias imagens que eram refletidas por todos os lados, mas enxerguei em vários lugares um elevador deslizando silenciosamente para cima levando-a.
O som que permaneceu nos próximos minutos foi somente o das eruditas músicas clássicas que eu detesto. 
Mesmo estando muito dolorido assentei-me na confortável cama e continuei tentando encontrar alguma explicação, já que a pessoa era real e não ilusória como em meu delírio cheguei a imaginar.
Absorto em meus pensamentos que estavam transformando-se em desatinos não percebi o tempo passar e quando estava prestes a gritar chamando pelo meu raptor para conversar com ele e confirmar que iria obedece-lo, vi o elevador que descia em vários lugares da parede. Por isso aguardei ansioso e quieto.
Desta vez quem me apareceu foi o loiro alto e forte chamado por mim e meus amigos de Alemão.
Várias imagens dele, também seminu, coberto como a mulher aproximou-se com um enorme pênis ereto e assustador forçando-me a gritar:
Saia para lá com essa estrovenga, seu jumento. O que pensa que sou? Uma égua?
Calma senhor. Não pretendo fazer-lhe mal algum. Só vim para lhe dar prazer, já que não aceitou da mulher.
E por que eu não quis a loira pensa que quero homem?
Não é isso?
É claro que não seu idiota. 
Desculpe-me. Retiro-me e não o importunarei mais, mas primeiro diga-me se não tem necessidade de sexo?
Claro que não seu cretino. Nesse momento é o que menos quero ou penso. 
Percebi que o alemão virou-se de costas para afastar-se e o chamei.
Volte, pois quero conversar com você mais um pouco.
Estarei a sua disposição o quanto quiser e para o que desejar.
Quero apenas conversar.
Você está próximo a mim ou longe?
O senhor não percebe? Não enxerga bem?
São essas várias imagens refletidas nos espelhos que me confundem.
Excetuando-se as imagens eu estou exatamente a quarenta e oito centímetros a sua frente. Basta esticar seu braço para tocar-me.
Você é um robô? 
Não. Sou gente igual ao senhor. 
Tem certeza?
É claro.
Porque sua voz é igual a da moça e do Enfermeiro? Com timbres diferentes, mas sempre no mesmo tom. É um CD gravado sem nenhuma emoção?
Se fosse fita gravada como eu responderia suas perguntas de forma correta e imediata?
Pergunte o que quiser como já está fazendo que manterei o diálogo consigo por horas, dias, meses ou anos se assim desejar.
Se não é um autômato como depois de todo esse tempo que conversamos ainda mantêm a mesma ereção nesse seu gigantesco caralho?
Desestimulado de concluir o ato sexual qualquer homem desconcentra-se, perde a libido e o órgão sexual volta ao normal. Isso é o que acontece com qualquer um. Por que o mantêm em posição de coito?
Porque permaneço a sua disposição caso resolva querer.
Claro que não me interesso por homens. Está louco? Pode fazer murchar essa porcaria em minha frente.
Calma. Apenas respondi sua pergunta com a resposta correta.
Quem é você?
Sou um homem alto e forte de cor branca, cabelo loiro, geralmente identificado por você, seu filho, sua amiga atriz e o falecido professor Zinho como sendo o Alemão.
O professor Zinho morreu em um acidente ou foi assassinado? Explica-me isso.
Desculpe-me. Nada sei responder-lhe sobre tal pergunta.
Examinei-o inteiro e realmente não percebi nada de diferente de um ser humano, a não ser a ausência de pelos por todo o corpo e aquele gigantesco órgão sexual sempre preparado para a penetração e sobre ele o mesmo bigodinho da vagina da mulher, só que nele em sentido horizontal.
Nessa posição era exatamente igual ao bigode do já mencionado anticristo e cruel ditador nazista da segunda guerra.
Refleti sobre a resposta dada pelo Alemão quando perguntei se Zinho morreu acidentalmente ou se foi assassinado e conclui que uma pessoa normal provavelmente somente responderia: 
“Não sei”. Ou “Não fiquei sabendo”. Ou qualquer coisa mais ou menos assim. 
“Desculpe-me. Nada sei responder-lhe sobre tal pergunta”, soou muito estranho. Fez-me imaginar (Não fui programado para responder essa pergunta).
Frase muito semelhante às vistas na internet, quando a gente faz a pesquisa e obtém como resposta “tente novamente usando outra palavra ou use a palavra chave”, etc.
Uma máquina lotada com milhões de informações, mas que às vezes não entende uma pessoa em determinado questionamento, cujo retorno não fora programado.    
Realmente aquela resposta intrigou-me, pois já há muito estava encafifado com essas pessoas que me pareciam montadas e não humanas como se diziam ser. 
Decidi querer vê-lo por trás e sabia que determinando não querer mais sua companhia ele viraria para retirar-se.
Era evidente que ele me daria as costas para retirar-se como a moça já havia feito, mas afastaria sem dar-me o tempo suficiente para eu ver o que pretendia. Queria vê-lo parado a minha frente para examiná-lo detalhadamente por isso arrisquei pedir-lhe:
Faça-me um favor. Não vá ainda. Primeiro quero que se descubra do véu e depois que fique de costas para mim.
Pois não. Farei isso imediatamente se é assim que deseja.
Ato contínuo o rapaz desnudou-se totalmente e virou-se. Colocou as mãos ao solo com os quadris suspensos e seu enorme traseiro arreganhado deixou a mostra um abissal buraco no local que conhecemos por anus.
Tinha mais ou menos a mesma aparência da vagina da mulher. É claro que sem o fatídico bigodinho famoso.
Não é isso que quero. Quero apenas vê-lo de pé e por inteiro. Pelas costas.
Tudo bem. Está bom assim?
Após falar o jovem ficou de pé a minha frente na posição solicitada. 
Foi exaustivamente examinado na tentativa de eu encontrar algum lugar onde houvesse qualquer caixa para se colocar chips, pilhas ou baterias para ligá-lo ou desligá-lo. Nada encontrei atrás da mesma forma que nada vira pela frente.
Parecia-me mesmo um ser humano e não uma máquina conforme minha pré-loucura me fazia suspeitar.
Prestes a dizer-lhe que estava pronto a sujeitar-me as exigências de seu patrão desisti e insanamente tentei novo ataque.
Como o homem estava de costas e assim permaneceria por algum tempo imaginei agarrá-lo e destruí-lo como já tentara com a moça.
Desta vez atacaria com mais rapidez, determinação e força.
O resultado foi exatamente o mesmo. Com igual agilidade dela o rapaz escapou-se do abraço e me imobilizou com apenas uma das mãos que me segurou pela cabeça. Sem nenhum esforço deixou-me paralisado e cheio de dor, que me fez ter certeza que seria espremido como a um simples limão se o Alemão se dispusesse em fazer apenas um pouquinho mais de pressão com aquela enorme mão, também tão fria como a da loira. 
O visitante deixou-me sobre a cama e antes de afastar-se me perguntou:
O que está precisando para acalmar e cumprir seu compromisso?
Enraivecido grosseiramente respondi:
De estar com meus amigos, tomando uma cerveja gelada.
Com a dor e o mau humor que sentia naquele momento esqueci-me de dizer que estava disposto a falar que tinha decidido colaborar com o homem nunca visto e que já não falava comigo há muito tempo.
Olhei atentamente o homem que se afastava para não confundir com as demais imagens na tentativa de ficar sabendo onde ficava o elevador.  
Por mais cuidadoso em que permaneci foi difícil descobrir sua exata posição naquele gigantesco caleidoscópio em que estava dentro. Mesmo assim, imaginei ter descoberto o local certo. Defini que estaria a meu lado oeste já que nada havia naquele espaço entre a cama e a parede. Cheguei a essa conclusão apenas por dedução e não pela visão.
Ali em minha cela pouca coisa poderia enxergar naquela penumbra, além de não haver dia nem noite, portanto nunca sabia em qual horário me encontrava a não ser quando avisado.
Soube ser pela manhã quando fui repentinamente acordado pela moça, mas meu corpo sentia a necessidade de descanso, pois tinha passado à noite anterior acordado na tentativa de descobrir todos os mistérios que estavam existindo a minha volta e após adormecer tinha sido interrompido já fazia muito tempo. 
Deveria já estar no período da tarde, pois a chegada do Alemão demorou muito depois da saída da loira.
Continuei em êxtase por longo tempo sem nenhuma atitude e acabei adormecendo novamente devido o esgotamento físico e mental em que me encontrava.
Novamente fui acordado.
Desta vez por uma voz conhecida que me chamou baixo e próximo:
Meu amigo Velho gordo. Como vai?
Você?
Sim. Soube que você queria beber uma cerveja gelada com um amigo, portanto vim trazê-la.
Não é nada disso que quero. Quero de fato é ser solto daqui e estar com meus amigos verdadeiros.
Não me considera mais seu amigo?
Nunca fomos amigos.
Sempre me convidou para estar com você, durante anos.
O que aconteceu que não se interessa mais por mim?
É porque não lhe passo mais informações para seus livros?
Agora sei. Eu nunca o usei como sempre pensei.
Foi exatamente o contrário. Você nunca foi meu amigo. Sempre me utilizou para conseguir o que seu chefão queria.
Que é isso Velho gordo? Sempre fui seu amigo.
Que é isso velho Quim? Sempre foi meu inimigo.
Tanto é verdade que sou seu amigo que vim satisfazer sua vontade de saborear uma cervejinha bem gelada.
Infelizmente terá de tomar uma light sem fermentação e álcool e em copo descartável. Ela está acondicionada nessa jarra também descartável, mas está bem gelada conforme gosta. Sirva-se a vontade.
Estávamos frente a frente. Eu prisioneiro e o mendigo que durante anos informou-me de muitas coisas que foram usadas em meus livros.
Em contrapartida ficava sabendo muitas outras que eu descuidado permitia-lhe descobrir julgando-o um inofensivo pedinte surdo. 
Entretanto tratava-se afinal do mesmo pobre que havia me salvado a vida outrora, por isso tentei suplicante: 
Salva-me como já fez antigamente.
Desta vez nada posso fazer.
Pode jogar a bebida fora que não a quero, mas diga-me como sairei daqui?
Só depois de colaborar escrevendo o livro Bonança.
Pois então diga a seu chefe que colaborarei.
Quero apenas descansar por algumas horas, pois acho que troquei a noite pelo dia e nem sei que horas estamos.
Pode mandá-lo vir falar comigo que o receberei depois de descansar algumas horas. Estou insensato por falta de dormir. Preciso descansar um pouco. Sabe que horas são?
São dezessete e cinquenta e nove. Já é quase noite.
Então estou sem dormir há quarenta e oito horas?
Não. Está acordado a exatas quarenta e quatro horas, com vinte e três minutos de sono que teve pela manhã antes de ser despertado pela loira.
Então me deixe, por favor, antes que eu enlouqueça de vez. 
Está combinado. Vou retirar-me e você descansará essa noite sendo despertado só amanhã pela manhã para começar a ter conhecimento da história que irá transformar em livro. 
Espere um pouco. Tenho algumas perguntas a fazer-lhe.
Responderei o que for possível.
Quem é você?
Sou o mendigo conhecido por você e seus amigos como o velho Quim.
Isso eu sei. Quero saber se é humano.
É claro que sim.
É surdo como dizia?
Não. Ouço muito bem. Muito melhor que você. Agora posso afirmar-lhe isso. Passava-me por surdo por necessidade de assim me portar, exatamente para ouvir coisas necessárias.
Mas não tem a orelha nem o ouvido direito como ouve muito bem?
Pelo outro ouvido é claro, que funciona excepcionalmente bem em razão da ausência de um e por outro motivo muito mais importante que saberá depois. Ouço bem melhor que todas as pessoas que têm ambos.
Porque trabalha para um assassino cruel?
Com certeza existem muitos pelo mundo afora, mas não estou envolvido com nenhum homicida bárbaro como fala.
O que aconteceu que você não tem mão esquerda e nem pé direito?
Isso é uma história muito antiga e longa que você saberá depois, pois agora não temos tempo suficiente para tal dialogo.
Fiquei pensativo por algum tempo o que obrigou o mendigo perguntar-me:
Já está respondido tudo o que queria saber? Posso retirar-me?
Espere um pouco que ainda estou pensando em mais perguntas. 
Permaneci tentando indagar mais coisas, mas não encontrando nada para inquirir em minha insensatez provocada pelo pânico e minha teimosia nata, passei a idealizar outro plano de ataque. Esse não falharia. Com meu braço direito agarraria o mendigo quando ele fosse retirar-se imobilizando seu braço inteiro que também era o direito e que de costas ficaria na posição adequada. Com meu braço esquerdo agarraria a perna sã que era a perna esquerda do aleijado. 
Eu derrubaria com facilidade o mendigo que por ser bem mais velho e mais fraco que eu seria fácil fazê-lo meu refém.
Com ele em meu poder negociaria minha soltura. 
Desta vez não fracassaria por isso informei ao pedinte que não tinha mais perguntas a fazer, para que ele me desse às costas para retirar-se.
Fiz tudo exatamente como planejado, mas com a mesma destreza e força que os anteriores também me paralisou com apenas dois dedos, segurando-me por traz de uma orelha com a mesma pressão e força dos outros. 
Como eles, colocou-me na cama e retirou-se.
Exausto pelo cansaço e pela dor desmaiei e permaneci deitado passando do desfalecimento direto para o sono profundo durante toda a noite. 
oooOooo
 
Dormi por muito tempo e fui despertado pela sirene que me acordou na manhã seguinte. 
Não escutei nenhuma voz, mas vi na tela do monitor as informações:
ESTOU SABENDO QUE CONCORDA EM CONVERSARMOS, MAS TAMBÉM TOMEI CONHECIMENTO QUE AINDA PERMANECE MUITO ASSUSTADO, INSENSATO E IRRESPONSÁVEL EM SUAS ATITUDES AGRESSIVAS, PORÉM INÚTEIS.
JÁ TENTEI SATISFAZÊ-LO DE VÁRIAS MANEIRAS E VOCÊ CONTINUA REBELDE.
TERÁ QUATRO HORAS SEGUIDAS DE MÚSICAS DE SEUS ADORADOS ÍDOLOS.
APÓS ISSO QUE CREIO SER COMO ACALMÁ-LO FALAREI COM VOCÊ.
PORTANTO SATISFAÇA-SE COM SUAS PRECIOSAS MÚSICAS, POIS CREIO QUE ESSA SERÁ A ÚNICA E ÚLTIMA FORMA DE ACALMÁ-LO POR BEM. 
Desligado o monitor iniciou-se o repertório falado.
Elis interpretou O Bêbado e o Equilibrista.
Chico Buarque cantou Geni e o Zepelim, Construção e Mulheres de Atenas.
Jorge Ben os seguiu com a canção Vem chegando os Alquimistas. 
Raul Seixas com Gita. 
Gilberto Gil cantou Se eu quiser falar com Deus e Domingo no Parque.
Tais músicas ao invés de trazer-me tranquilidade, enlouqueciam-me ainda mais, pois gostava dessas músicas que misturam o real com o imaginário, em outras situações e não nessa em que me encontrava.
Estava dentro de uma ficção que jamais concebi e tais músicas me deprimiram de tal forma que quase me levaram a uma insanidade permanente. 
Amaldiçoei esses intérpretes que admirava e julgava como os melhores, assim como suas musicas agressivas tidas agora como além da imaginação e consequentemente de péssimo gosto.
Parece que propositalmente meu raptor queria provar-me que podemos até odiar quem amamos, pois era esse sentimento que tinha por meus ídolos que me torturavam com tais canções.
Depois ouvi Caetano, Tom Jobim, Bethânia, Gonzaguinha, Gal, Tim Maia, Vinicius, Toquinho, Dolores Duran, João Gilberto, Menescal, Carlinhos Lyra e também os anteriores com outras músicas menos hostis e assustadoras, voltando a apreciá-los a todos como sempre.
Acalmei-me com as musicas românticas e melodiosas pensando que em se conseguindo detestar quem amamos, poderíamos também adorar quem odiamos.
Seria essa a intenção do sequestrador? Fazer-me gostar dele? 
Deve ter sido apenas coincidência, pois ele confessara não sentir emoções, portanto não sabia o que era ódio ou amor. Se esse fato fosse verdadeiro não se preocuparia com isso.
Não tinha relógio para marcar o tempo e quando o som parou pensei não ter passado às quatro horas prometidas e desejava continuar ouvindo meus cantores prediletos por muito mais tempo. Preferiria ouvi-los continuamente até extinguir-se o meu período de viver.
Houve tempo de colocar dois adesivos de nicotina, um em cada braço antes de voltarem às músicas clássicas no ambiente e finalmente a voz do Enfermeiro perguntar-me calmamente:
Está feliz agora?
Volte com minhas músicas preferidas e não com essas eruditas que já sabe que não suporto.
Vou satisfazê-lo, entretanto quero ter certeza que irá fazer o que combinamos. Confirma que pensou e falou sobre isso, ou ainda continuará irresponsável?
Ouviu toda minha conversa com os outros?
É claro. Ouvi tudo perfeitamente bem.
Porque em momento algum não intercedeu nos diálogos?
Logo saberá.
Quando?
Assim que eu descer para estar pessoalmente com você.
Pode ser já. Estou pronto a recebê-lo para explicar-me tudo.
oooOooo
 
As famosas sinfonias clássicas pararam para minha alegria e instantaneamente Maysa e Agostinho dos Santos revezavam-se nas interpretações das músicas do Filme Orfeu do Carnaval primeira versão feita em 1958. No repertório ouvi as melodias “O nosso Amor” de Tom Jobim, “Felicidade” de Vinicius e Tom, “Manhã de Carnaval” de Luiz Bonfá, e “Samba do Orfeu” de Luiz Bonfá e Antonio Maria.
Estava maravilhado totalmente absorto escutando Agostinho dos Santos com sua aveludada voz cantar a melodia “Felicidade”, quando percebi a descida do elevador por todos os lados. Fiquei na expectativa de encontrar-me finalmente com meu opressor. 
Meu susto foi enorme quando me vi de frente com o Enfermeiro e mesclando agressividade com surpresa disse-lhe:
Não é com você que quero conversar.
Porque não?
Você é muito jovem, portanto é apenas mais outro enviado. Jamais poderia existir a não ser neném há mais de vinte anos, quando tudo começou. 
Naquela época eu tinha vinte anos. Hoje tenho quarenta e sete.
Com essa aparência?
Sim. Estou usando a feição do Enfermeiro.
Como assim? 
Não percebe que a voz que ouve não é a dele?
Realmente não é.
Então saiba que está falando de fato comigo e não com ele.
É mentira. Outra farsa.
Preste atenção em tudo que ouvir sem interrupções senão vai continuar nada entendendo e se permanecer sempre questionando, apenas atrapalhará nosso diálogo.
Se é que está usando a aparência do outro que eu não sei como, inevitavelmente terá sua própria fisionomia. Como explica isso? E porque não mostra sua cara? É ela que quero ver.  
Minha aparência é aterrorizante por isso uso a máscara que identifica o Enfermeiro.
Mas eu quero ver é a sua cara.
Você não gostará. Sou assombroso. Creio que nem o satanás seja tão feio.
Mesmo assim quero ver.
Então se delicie com suas músicas e aguarde-me mais algum tempo que volto para satisfazê-lo, já que assim deseja.
Vi-o afastar-se sem tentar nenhuma violência, pois sabia ser sempre eu quem sofria as consequências de tais atitudes e fiquei aguardando as várias imagens do elevador subindo.
Fiquei o mais perto possível da parede imaginando estar no lugar certo dele descer. Queria estar próximo a ele quando voltasse. Havia prestado atenção em todas as vezes que o vi o elevador em movimento por isso julguei ter marcado o lugar exato além da já falada dedução lógica. Tinha certeza que ele desceria a minha frente pelo lado oeste.
Total engano ou talvez não, pois as várias imagens refletiam o homem vindo de todos os lugares encaminhando-se para o centro do ambiente que era a cama.
A posição dela, que era exatamente no centro não havia dispersão e nem deformação de imagens como acontecia com as outras refletidas por todos os lados. Dirigi-me também para o mesmo lugar, pois enxergava tal local com grande facilidade.
Meu inimigo estava assentado em uma banqueta que trouxera aguardando-me aproximar-se.
Estava com uma capa que lhe cobria o corpo todo, do queixo para baixo.  Um chapéu de abas largas usado com elas dobradas para baixo escondia-lhe a cabeça, a testa e os olhos. Um cachecol tapava-lhe a boca e o nariz.
Tremendo de medo e de febre eu disse-lhe ao assentar-me na cama a sua frente.
Você está todo escondido, portanto nada vejo.
Tem coragem para ficar de frente com um monstro medonho que tenho certeza nunca viu igual?
Tenho. Mostre-se logo sua cara.
oooOooo
 
O individuo ficou de pé e eu medi-o com o olhar corajoso, porem apreensivo e vi que ele tinha pouco mais de um metro e meio de altura. Excessivamente magro mesmo estando todo coberto. 
Com sua mão direita desfez-se do chapéu e do cachecol, mostrando o rosto.
Imediatamente fechei os olhos com a intenção de nunca mais abri-los, mas como seria impossível conseguir isso, terrivelmente amedrontado encarei-o.
Uma caveira viva e falante seria menos repulsiva.
Faltava um quarto de sua cabeça. Grande parte do crânio do lado direito incluindo-se o olho e a orelha não existiam.  
Tal local era fechado em linha reta com algum material muito resistente. Talvez aço, lacrando com o que restava de seus ossos cranianos sem pelos e sem pele, o seu cérebro, ou parte dele, pois se ele estava lá com certeza não era em sua totalidade.
Tinha normal o restante de sua cabeça do lado esquerdo e da parte central.
Lá estavam o olho, a orelha, o nariz, a boca e o queixo porém, com muitas ressalvas.
A maçã do rosto e a orelha existente estavam em seus devidos lugares e quase perfeitamente corretas, embora a pele desse local fosse grossa como couro. 
O olho esquerdo não tinha cílios nem pálpebras. Era um enorme globo ocular exposto saltando da cavidade óssea.
O nariz não tinha cartilagens, músculos, pele ou couro. Era exatamente igual a uma caveira descarnada. Só existiam as fossas nasais.
Da boca só tinha o lábio inferior. Dentes nenhum. A língua enorme com a ponta fina como certos animais ficava sempre para fora. 
Seu queixo era quase normal, se bem que bastante feio semelhante ao de Noel Rosa. Cabelos ou pêlos, absolutamente nenhum.
Para descrever com mais precisão, direi que ele era três quartos de uma caveira, recoberta parcialmente por uma pele excessivamente grossa, semelhante aos couros duros que cobrem elefantes e outros animais de grande porte, entretanto nem nenhum pêlo. 
Rapidamente desfez-se das botas que calçava e das luvas. A mão esquerda e o pé direito não existiam. Tais membros terminavam com uns dez centímetros de ossos e nervos totalmente expostos, entretanto exercendo suas funções corretamente.
Vi um monstro terrivelmente assustador, muito mais horripilante que o mendigo conhecido como velho Quim, ou qualquer outro amputado ou deformado que já vira em toda minha vida, incluindo-se os vistos em filmes de terror.
O strip-tease continuou com ele retirando a capa que encobria o restante. 
No baixo abdômen exatamente no encontro das virilhas, não tinha nenhum órgão genital nem masculino nem feminino.
Suas costelas e os ossos dos quadris e das coxas não ficavam totalmente expostos porque sua grossa pele escondia parte desses locais.
Aquele corpo nada mais era que órgãos vitais em funcionamento normal visíveis através de um esqueleto humano metade coberto e metade completamente exposto.
A mão e o pé que eram inteiros mais pareciam uma mistura patas de aves com nadadeiras de peixe embora mantivessem o esboço dos dedos.
A cor chumbo de seu couro formava uma ridícula fantasia carnavalesca combinando com parte de seu crânio de cor metálica e outra parte muito branca vendo-se nitidamente o encontro dos ossos. Todos os ossos expostos pelo resto de seu corpo também eram muito brancos e suas vísceras e alguns órgãos na cor natural dos mesmos ajudavam na combinação dessa burlesca alegoria. 
Gostou do que viu?
Já vi piores em filmes de terror.
Menti descaradamente.
Acontece que neles existem maquiagens e máscaras horrendas escondendo os belos corpos e rostos dos atores e comigo é exatamente o contrário. Uso camuflagens bem feitas e bonitas para esconder minha monstruosidade verdadeira.
Então todas aquelas outras pessoas que vi era você disfarçado?
Sim.
O pavor era tanto que não conseguia deixar de olhá-lo fixamente. Vi naquela anormalidade que jamais imaginara poder existir, em pleno funcionamento alguns órgãos através dos ossos descobertos. Veias e artérias transportavam o sangue em perfeita atividade.
Sob minha observação enxerguei um dos pulmões exercendo sua função corretamente. Assim como um dos rins e o fígado. Tudo funcionava harmoniosamente como em qualquer pessoa perfeita.
Repentinamente caiu-me a ficha com o que estava acontecendo. Impossibilitado de manter-me durão como pretendia e terrivelmente amedrontado não consegui segurar o vômito. 
As fezes e a urina, assim como a biles pularam para fora de meu corpo pelos devidos e também pelos indevidos lugares, e após isso uma exagerada tremedeira parecendo um ataque epilético me fez perder os sentidos.
Enquanto me recuperava e tentava limpar minhas sujeiras e recompor-me o individuo se retirou carregando seu banco e seus pedaços dirigindo-se ao elevador que o levou.
Minutos após ouvi sua voz perguntando.
E agora? Pretende conversar comigo como eu sou ou prefere-me fantasiado?
Prefiro-o disfarçado.
Qual pessoa prefere?
Qualquer uma.
Irei como o Enfermeiro. Você já o conhece e ele é inteiro e bem feito. Muito melhor que o mendigo seu dileto amigo, cuja máscara foi minha primeira roupa que até foi bonita quando nova.
Está bem.
Levo meu banco ou permite-me assentar-se com você em sua cama?
Sempre quem decide é você mesmo. Pois então faça como quiser.
Logo estarei aí. 
oooOooo
 
Continuei ouvindo minhas músicas preferidas aguardando o retorno do aberração.
Enquanto esperava tomei banho pretendendo livrar-me de minhas imundices, por isso desisti de tentar descobrir o local do elevador, ficando quieto próximo da cama após lavar-me.
Ainda sentindo fortes náuseas, não conseguia segurar o vômito que insistia em sair, sufocando-me e consequentemente provocando mais náuseas.
A teimosa urina fluía por decisão própria e as fezes líquidas também eram expelidas espontaneamente. Tais excrementos misturando-se ao suor quente que escapava por todos meus poros como um chafariz transformou-se numa miscelânea fétida espalhada por meu corpo e infectou de horrível cheiro todo o ambiente.
Foi com esse invólucro de insuportável odor que recebi o jovem bonito e higiênico com aparência de vinte anos. 
O Enfermeiro que não deu mostras de sentir cheiro algum se pôs a meu lado educadamente perguntando-me:
Vai obrigar-me a imobilizá-lo novamente, ou manter-se-á calmo e atento?
Agora mais do que nunca ficarei tranquilo, pois estou muito intrigado, interessado e ansioso em saber sua história. Mas diga-me com quem estou falando? Desculpe-me a franqueza. Com o Enfermeiro ou com o Monstro? 
É claro que é comigo. Não está reconhecendo minha voz.
Não é a do Enfermeiro. Então é o Monstro?
Exato. Estou apenas usando seu disfarce e não me portarei como ele que de fato nem existe?
Como não existe se várias vezes já conversamos e até já tentei lutar com ele? Ainda não estou entendendo nada.
É uma longa história e você compreenderá à medida que eu for contando-a. Tenha paciência que conversaremos por muito tempo.
Demorará alguns dias, pois sei que você tem necessidade de descansar oito horas durante as noites. Não é? 
Peço-lhe, portanto interromper-me o menos possível, pois entenderá exatamente tudo na medida de minha dissertação esclarecedora. Porem se sentir necessidade de perguntas coerentes eu as responderei a qualquer tempo para que você não se perca. 
Quem é você?
Não insista com perguntas desnecessárias. Já lhe sugeri.
Está bem. Mas diga-me pelo menos seu nome.
Não tenho nenhum. Nunca tive e nem precisarei ter. Pode chamar-me de Enfermeiro já que me verá com tal máscara.
Como não tem nome? Todos têm.
Insistente não? Será preciso muita calma para saber com precisão a meu respeito. Aos poucos tudo ficará bastante claro para você.
Está bem. Calarei a boca.
Ótimo.
Lembra-se quando ouvimos a atriz Lia Mendes contar-nos sobre Mercedes prima de Zinho com um recém-nascido no colo prestes a atirar tal lixo ao mar?
Ela contou isso sim, entretanto foi somente a mim que ela falou e não a nós como referiu.
Eu disfarçado de mendigo, não estava assentado na calçada do bar a sua frente ouvindo tudo? Você mesmo comentou isso com a atriz.
Eu os ouvi muito bem. Eu disfarçado de seu querido amigo Velho Quim, cuja alcunha deu-me há tantos anos.
Apelidei-o assim porque me disse certa vez chamar-se Joaquim.
Engano seu. Jamais mencionei isso se referindo a mim.
Eu o ouvi dizer logo no primeiro dia em que conversamos.
Pois pode acreditar que nem houve apresentações. Eu nunca me engano e naquela época você sequer queria falar comigo e só o fez quando eu disse que tinha algo a informar-lhe sobre Tião. Avisei-o que ele iria matá-lo no outro dia.
Exatamente em tal ocasião nós nos conhecemos e nos apresentamos.
Está errado. Eu já o conhecia, pois até já havia salvado sua vida impedindo Tião de atirar em você quando eu guiava o caminhão.
Lembro-me disso também, mas o motorista não era um negro? 
Correto. Era eu com outro disfarce.
Porque comecei chamar o pedinte de velho Quim?
Não sei. Dirigia-se a mim com esse nome e eu aceitei, simplesmente por não ter outro. Atualmente identifico-me, quando camuflado de esmoleiro com esse nome apenas para facilitar conversas. A mim qualquer denominação serve.
Porque eu iria dar-lhe esse apelido?
Já disse. Não sei. Talvez no dia que o avisei do assalto que iria culminar com sua morte tenha se afastado do bar borrando de medo e na pressa deve ter ouvido alguém no bar apresentando-se a qualquer outro como Joaquim e isso o induziu em dar-me esse nome, que acabei adotando.
Isso agora em nada ajuda. Deixe estar. Estou começando a entender as coisas. O mendigo, a Loira, o Alemão e o Enfermeiro são suas camuflagens. Não são?
Não só eles. Têm muitas outras. Esqueceu-se do negro que lhe salvou mudando repentinamente o rumo do caminhão há vinte e cinco anos quatro meses e onze dias?  É outra das fantasias que uso. 
Esse tem até nome. Chama-se Alberto também conhecido como Negro Alberto ou simplesmente Negrão.
Se era amigo e motorista da quadrilha de Tião porque me salvou?
Mais adiante saberá.
Tem mais algum disfarce?
Sim. Você já viu além deles a enfermeira morena com identidade e passaporte cujo nome completo é Soraya Arruda Sartório Schimidt, o Enfermeiro Joel e o Edward, que é ruivo.
Quando os vi e porque conta-me tudo isso?
Mais adiante ficará sabendo quando os viu e irá entender porque estou lhe contando tudo isso. Ainda hoje já saberá o mais importante.
Não existem mentiras em tudo isso?
Já lhe disse e repito. Jamais minto, cometo erros e sou insensível a qualquer tipo de emoção. Necessito de poucas coisas para viver, pois eu me basto. 
Alimentação por exemplo me satisfaço com pouca quantidade e bebida ou outro tipo de droga jamais uso. 
Não dorme?
Não. Não tenho essa necessidade e obrigação. 
Insisto em perguntar. Nunca mentiu ou ingeriu bebida alcoólica mesmo?
Volto a afirmar-lhe. Nunca.
Como você explica que quando passa por mendigo diz ser surdo sem ser e que quando chegou ao bar para raptar-me como Enfermeiro trazia um copo com uísque, para beber?
Após você dormir com o sonífero que o Enfermeiro deu-lhe na bebida não ouviu a conversa entre ele e seus amigos. Foram muitas inverdades ditas por ele para enganá-los e conseguir tudo conforme planejado. Ele mente descaradamente igual ao velho Quim e a qualquer outro dos meus personagens.
Vou contar-lhe na íntegra tudo o que aconteceu no bar, após seu desmaio.
Tudo o que ocorreu em meu rapto ouvi atento e energicamente disse:
Então está confirmando que mente.
Você desviou totalmente a conversa que comecei, mas valeu a interrupção para que eu lhe esclarecesse algumas coisas, mesmo que ainda não seja a hora certa.
Sem entrar em muitos detalhes, pois mais a frente entenderá corretamente, vou adiantar-lhe determinadas coisas que você está julgando necessário agora para depois iniciar novamente a história. 
Por enquanto acredite e satisfaça-se sabendo que tenho o poder de valer-me dessas criaturas quando necessário. Decreto-lhes metas à executar e para isso ativo um cérebro paralelo ao meu, com comportamentos pessoais permitindo-lhes a possibilidade de atuarem com voz própria, movimentos individuais, atitudes e decisões indispensáveis a sua conduta, por isso quando é preciso elas podem executar coisas diferentes de mim, cujos pensamentos e ações são inerentes a eles.
Determino-lhes a prioridade a ser feita e dou-lhes o livre arbítrio de executá-la conforme decidirem que sempre são por seus próprios raciocínios que jamais falham, pois o cérebro em atividade neles, embora os permita certas atitudes diferentes das minhas, é também totalmente preciso e exato não admitindo erros.
Poderei dizer que é parte de minha inteligência infalível e perfeita a serviço de terceiros.  
É como se eu deixasse de pensar e agir, permanecendo apenas como expectador, permitindo-lhes vida própria. 
Mentir é uma das funções admitidas quando for preciso, para não atrapalhar no planejamento correto do executor.
Igual a qualquer um de vocês eles podem comer e beber, desde que não seja bebida alcoólica, cigarros ou qualquer outro tipo de droga que causa doenças e danos ao cérebro, pois tais coisas jamais minha inteligência permitirá.
O mendigo mentia dizendo-se surdo e o Enfermeiro além das mentiras, apenas transportou um copo cheio de uísque para se passar por uma pessoa como vocês. Ele não ingeriu tal líquido, apenas o conduziu. 
Estamos perdendo tempo com tais explicações, pois sobre isso já lhe falei e muito. Já deveria ter entendido.
Parece-me que tem a memória curta, portanto concentre-se e fique atento ao máximo para evitar repetições que é idiotice.
Quero eliminar todas as minhas dúvidas por isso desejo perguntar muitas coisas e acho que não deve deixar de responder-me. A propósito. Como quer que eu o chame?
Pode ser monstro mesmo, pois assim já fala.
Não se ofende?
Por quê? Não é isso que sou? Se preferir chama-me de Oitava maravilha do mundo moderno. Que acha?
Fica Monstro mesmo, melhor dizendo. Vou chamá-lo de Enfermeiro.
Como queira. Tanto faz.
Estou fedendo e como meus dejetos causadores do mau cheiro finalmente pararam quero assear-me. Posso?
Agora não. Fique como está para continuarmos.
Não se incomoda com o cheiro? 
Não. Nada sinto.
Porém está insuportável para mim e queira você ou não, irei limpar-me.
Assim falando eu teimosamente fui lavar-me e não fui interrompido, mas ouvi meu interlocutor dizendo:
Eu permiti tal atitude para não causar-lhe nenhuma dor, pois sabe perfeitamente bem a agonia que sente quando lhe seguro. Não volte a desrespeitar minhas regras para não sofrer as consequências. Está entendido?
Serei rápido. É que odeio cheiro forte, principalmente de suor e o meu ainda está misturado a cheiros piores. Não se trata de insubordinação, mas sim de higiene.
Enquanto se limpa continuaremos a conversa.
Está bem. Conforme eu perguntava você mencionou que quando divide o poder de seu cérebro com alguma outra personagem é como se você deixasse de existir, portanto imagino que quando assume sua verdadeira identidade nunca sabe o que eles fizeram. Como toma conhecimento do acontecido com eles? Eles gravam suas conversas com as pessoas e lhe passam depois? Como fazem isso?
Eu não disse que eu deixo de existir e sim que fico alheio a decisões permanecendo apenas como expectador, portanto sei exatamente tudo que fazem no exato momento de suas atitudes e também posso recordar tudo muitos anos depois, exatamente o que foi feito ou dito por qualquer um deles ou por mim próprio.
Eles têm conhecimentos de suas atividades? Eles sabem sobre você? Você conversa com eles? E eles entre si, se conhecem? Sabem alguma coisa um dos outros? 
Sim para as três primeiras perguntas e não para as duas últimas. Todos eles agindo com atitudes determinadas por mim sabem sobre minhas determinações, conhecem-me e conversam comigo mentalmente, mas uns aos outros se desconhecem totalmente. Eles nunca podem existir ao mesmo tempo.
Como você me explica que ao livrar-me da loira que pretendeu fazer sexo comigo ela cedeu seu lugar ao alemão que logo me apareceu propondo as mesmas coisas em sentido inverso, alegando que julgou por eu não ter aceitado a mulher talvez quisesse um homem. Creio que esse homem sabia tudo que acontecera com a mulher.
Muito simples. Nenhum de seus visitantes eram eles próprios que foram enviados. Todos os que lhe apareceram simplesmente era eu usando suas roupas.  
Eu sei de tudo que eles já fizeram em suas vidas que, diga-se de passagem, foi muito pouco. A grande maioria das vezes em que eles apareceram fui eu disfarçado.
Em apenas algumas vezes cujas necessidades são para ter alguma atitude que não posso executar tais como mentir, comer suas comidas, andar disforme e coxo como o mendigo, requebrar como as mulheres e algumas outras, é que lhes permito agirem por conta própria, pois cada qual tem suas habilidades e modos de ser.
Propor sexo como mulher e depois como homem não seria imprescindível pessoas diferentes?
Não necessariamente para mim, pois eu me permito ambas as atitudes.
Então se ambos que me apareceram foi você é obvio que mentiu em um dos casos.
Absolutamente. Jamais se soube se eu nasci homem ou mulher, portanto posso ser um ou outro que está correto. Você entenderá quando souber desde o início.
Se não tem sentimentos e emoções, como tem necessidade do ato sexual?
Sei da existência, necessidade e a grande satisfação dessa ação para vocês e as vezes a pratico para o agrado da pessoa da qual preciso conseguir alguma coisa que me proponho em conseguir. Faço sexo, porém sem nenhuma emoção, melhor dizendo. Sem nenhum tesão, como vocês dizem.
Estou começando entender alguma coisa.
Confirme se estou no caminho. Você está com a fantasia do Enfermeiro, mas não está falando com a voz dele e nem agindo e sentindo como ele. Acertei?
Sim. Estou apenas usando a máscara e vestimentas dele, mas o comportamento cerebral continua o meu, pois não passei parte de meu cérebro o direito de pensar como ele. 
Se eu voltar amanhã como outra pessoa será apenas aparência externa, pois os pensamentos e atos serão sempre os meus em todos nossos encontros.
Você conseguiria estar com a roupa de uma das personagens, usar a voz e trejeitos dela, mas com atitudes suas, ou isso não é admissível.
É totalmente possível, pois meu cérebro só não me permite mentir e ingerir alimentos ou bebidas prejudiciais a ele. Qualquer outra coisa sou capaz.
Já percebi que sim, pois estou percebendo que está falando com a voz e a postura do Enfermeiro.
Satisfeito?
Como pode ser isso? 
Outra perguntinha rápida. Se você não se permite mentiras como fará para safar-se se a resposta correta lhe complicar em alguma de minhas perguntas? Tenho certeza que ao responder sem mentir ficará enrascado e se prejudicará e isso a meu entender será uma falha sua.
De maneira nenhuma ocorrerá falha ocasionada por mim, pois em frações de segundo posso colocar qualquer um personagem a responder tal pergunta mentindo-lhe e estará resolvido.
Você disse-me que cada personagem tem suas maneiras independentes e distintas, portanto se está falando comigo com sua voz e colocar a enfermeira para dar-me alguma resposta mentirosa como ela saberá fazer a sua voz se ela não tem essa capacidade, conforme já disse.
Muito simples. Jamais colocarei em ação uma mulher para responder por mim. É lógico que usarei um homem.
Mas eles também não saberão imitá-lo. Como fazer?
Uma pequena e rápida resposta não dará para chamar atenção ao som diferente, até porque todos eles têm voz mais ou menos iguais a minha.  
Caso a resposta deva ser longa eu apenas não respondo, para não correr tal risco. 
Você deve lembrar-se que ao perguntar-me quando estava vestido de Alemão se o professor Zinho foi assassinado ou se foi acidente.
Eu poderia permitir ao próprio Alemão ou a qualquer auxiliar masculino responder-lhe “Não sei”. Jamais você perceberia a diferença entre minha voz e a do outro com apenas essas duas palavras. Mas preferi optar pela outra forma que é simplesmente recusar-me a dar informação. Lembra que respondi-lhe não ter condições para tal resposta.
Entretanto ao me perguntar quando trajado de mendigo se eu era surdo, eu respondi-lhe claramente que não sou, pois ele durante suas aparições deveria sempre continuar mentindo e falando que é surdo, porém eu não minto e respondi-lhe a verdade, pois já é necessário você saber de todas as verdades.
Agora posso responder-lhe que Zinho e sua família toda, incluindo Mercedes ou Maria das Mercês e Dra. Rosa foram suprimidos por mim. Faz parte de meus planos explicar-lhe o porquê e como tudo aconteceu. É só aguardar o momento certo. 
Embaralhei-me todinho novamente.
Sei disso, portanto não mais interrompa minha explanação para entender tudo corretamente. Estou repetindo muito o que já lhe falei. Imaginei-o mais inteligente do que realmente é.
Conte sua história que ficarei atento.
Voltando a pergunta que já lhe fiz há muito tempo.
Lembra-se quando ouvimos a atriz Lia Mendes contar-nos sobre Mercedes, prima de Zinho com um recém-nascido no colo prestes a atirar tal lixo no mar?
Está bem. Responderei como quer ouvir.
Berrei um sonoro:
Eu me lembro perfeitamente o que ela nos disse. Pode continuar.
Tal recém-nascido era eu. Havia nascido prematuro há alguns minutos antes do incidente.
Levou três tiros conforme ela falou?
Sim. Um na cabeça, destroçando parte do cérebro e da face direita com olho e ouvido juntos.
Outro me arrancou a mão esquerda e destruiu o aparelho genital que ninguém nunca soube qual era e o terceiro arrancou-me o pé direito.
Soube disso quando tinha seis anos, no hospital onde tentaram recuperar-me.
Tenho uma importante pergunta a fazer.
Você nunca desiste de suas impertinências não é? Que quer saber agora?
Não interromperei mais, depois de responder-me a essa pergunta, se conseguir.
Você refere-se a si próprio e fala como homem, entretanto falou-me que jamais alguém soube se era homem ou mulher. Explica isso.
Perfeitamente. Até a idade de treze anos jamais vi uma mulher a não ser por foto, tevê e jornais, pois fui criado e educado somente pelos médicos que me mantiveram escondido. É necessário dizer mais alguma coisa ou já está esclarecido?
Nunca soube até aquela época da existência de dois sexos?
É de fato pouco inteligente mesmo. É claro que aprendi desde pequeno sobre a existência da mulher e suas diferenças, mas acontece que aprendi tudo apenas com homens e inevitavelmente tinha que identificar-me com eles, adquirindo seus jeitos, gestos e voz. Por isso porto-me como tal.
Já está esclarecido. Continue com a história.
Quais foram os culpados, ou seja, Mercedes que me pariu e Ângelo seu amante que efetuou os disparos eu só soube quando estava com dezessete.
Na ocasião dos tiros fui recolhido por policiais que socorreram aquela massa de sangue e miolos sem conseguir descobrir os causadores de tal barbárie, pois ambos fugiram do local. 
Fui encaminhado a um hospital lá de Salvador onde tudo aconteceu.
Os médicos auxiliados por uma invisível e misteriosa mão milagrosa, conforme me falaram anos depois estancaram a hemorragia, suturaram o que foi possível no braço, na perna e no baixo ventre, deixando aberto o que sobrou do cérebro, pois nada podiam fazer.
Aguardando minha morte que imaginavam ser a qualquer momento continuavam rapidamente executando os procedimentos cirúrgicos. Eram surpreendentemente facilitados não se sabe por qual divindade, pois lhes parecia que minha própria carne refazia-se assim como as veias não esvaziavam como era o esperado. Perceberam que meu sangue era imediatamente refeito enquanto escorria, mesmo assim por pouco tempo, pois meus vasos sanguíneos rapidamente se corrigiam evitando o escoamento dele.  
Assustados com o milagre que viam continuavam suas atividades até concluir o que faziam sem sequer anestesiar-me, pois não me consideravam apto a viver.
Costuraram-me como a um boneco de pano apenas para fazer um enterro menos sujo, mas não se sabe como sobrevivi. Não morri como era o esperado e até certo ponto desejado.
Ninguém jamais soube explicar apesar de anos de estudos e pesquisas, mas meu cérebro não permitiu a parada de meus órgãos vitais.
Isso é incrível. Impossível de acreditar. Então milagres existem mesmo?
Um médico arriscou comentar após muitos estudos que meu cérebro ainda não estava em atividade quando sofri os disparos e que ele só passou a exercer plenamente suas funções após isso, portanto não reconheceu minha morte antes de ele próprio iniciar minha vida.
Loucura. Isso não pode ser admitido por ninguém. Nem em filmes ou romances e muito menos na vida real. Pelo menos por enquanto. Talvez só daqui a um milhão de anos. 
Mas foi a única explicação encontrada, pois até a miraculosa obra dos céus acabou descartada.
Descobriram que você está muito mais para ter sido obra dos demônios do que dos deuses não foi?
A piadinha está totalmente fora de hora, portanto mantenha-se atento e não tenta ser engraçado, pois não é, e já lhe falaram isso.
Esconderam-me sob sua vigilância durante anos, aguardando minha morte a qualquer instante, mas nunca acontecia.
Nunca li nada a respeito. Quando foi isso?
Tudo começou há quarenta e sete anos.
Jamais mencionaram sobre o bebê anomalia que estavam mantendo escondido em um cômodo isolado do hospital para não perderem o domínio e a posse de tal aberração, que inevitavelmente seria requisitada e tomada por outros paises mais evoluídos em medicina.
Quando eu tinha dois anos e praticamente o mesmo tamanho de quando fora achado, os médicos se questionaram e concluíram que eu não iria mais falecer como era o imaginado porque tudo funcionava adequadamente em meu corpo sem auxilio de aparelho algum.
Começaram a alimentar-me com vitaminas, remédios e algumas comidas sólidas na expectativa de meu fortalecimento e crescimento, pois até então eu não me alimentava com absolutamente nada.
O emprego desses produtos começou fazer efeito após eu ter três anos, mas crescia-me apenas ossos, nervos, músculos e órgãos vitais. 
Minha pele rasgava-se na medida em que eu ia aumentando de tamanho. Tentaram implantes delas, mas meu corpo rejeitava.
Aos poucos perceberam que minha própria pele formava-se irregularmente tentando cobrir-me. Ela era grossa e elástica. Conseguiam esticá-la sobre muitas partes expostas. 
Isso aconteceu a partir de minha idade de quatro anos até nove, quando eu já falava, andava, ouvia, enxergava e aprendia com facilidade o que me ensinavam. Eu era muito curioso e queria saber e aprender tudo que faziam. 
Eles não sabiam que eu não tinha dois dos sentidos que são: o olfato e o paladar e nem emoções ou sentimentos como amor, ódio, tristeza, rancor, saudade, medo, etc., por isso nunca deixavam ver-me em um espelho, mas não era preciso, pois eu vendo-os como eram percebia minha grande diferença pela simples percepção de minhas faltas visíveis. Jamais tive ressentimentos por ser como era.
Uma vez por ano trocavam o capacete de ferro que me cobria toda a cabeça, para manter intocável a parte dos miolos que sobrou e que funcionava apenas para manter-me vivo, por conta própria sem nenhuma interferência ou ajuda deles. 
Nessa ocasião já sabiam que eu não sentia dor, que não dormia e que pouca era a alimentação necessária para minha subsistência.
Descobriram também que eu tinha muita força para carregar aquela armadura de ferro sobre a cabeça, desde neném.
Fui mantido escondido de tudo e de todos durante doze anos, e foi nessa época que perceberam que meu crescimento havia parado já a mais ou menos um ano, por isso decidiram remendar-me definitivamente.
Tentaram serrar os ossos do braço sem mão e da perna sem pé e descobriram que eles eram mais fortes que o aço. Totalmente inquebráveis, por isso desistiram e deixaram como estavam até o ano seguinte quando tentaram novamente, evidentemente desistindo por completo após o que aconteceu e assim ficaram até hoje.
O que aconteceu nessa nova tentativa?
Mais adiante irá saber e por hoje já basta, pois vejo que seus olhos permanecem abertos com dificuldade. Deixo-o descansar e recomeçaremos amanhã a menos que tenha uma pergunta cuja resposta seja rápida e sem muitas explicações.
Apenas mais uma última pergunta. Eu vi os corpos nus da loira e do alemão e não percebi grande diferença com os seres humanos. Do que são feitos seus disfarces para ficarem tão perfeitos? São de cera?
Amanhã quando retornar mostro-lhe com luz forte para ver que existem muitas diferenças.
Nessa noite fui brindado com minhas melodias favoritas, embora isso não fosse de meu agrado para dormir, pois prefiro a ausência de qualquer barulho, mas pelo menos era melhor dormir ouvindo-as no lugar das músicas clássicas que não me agradam.
oooOooo
 
No outro dia ao acordar surpreendi-me com a claridade do ambiente.
A meu lado já se encontrava o Enfermeiro, que exibia-me o corpo nu. Vi que ele era igual a uma colcha de retalhos.
Todo seu corpo era feito aos pedaços que se ajustavam uns aos outros e após todos colocados ficavam muito mais próximos aos manequins de vitrine, que a um corpo humano. 
A cabeça e rosto era uma única peça.
Muito mais bem feita que os demais pedaços e estava bem próxima de um rosto verdadeiro. As próteses das mãos também eram bem confeccionadas passando perfeitamente por mãos humanas. 
Não existiam cabelos, mas muitos rostos bem barbeados também não mostram pelos e nas mãos pouco se repara nessa particularidade, por isso a ausência deles não mudava muito sua semelhança com corpos humanos.
Na claridade do ambiente percebi nitidamente que o órgão sexual do homem era de silicone. Igual a qualquer um de tamanho exagerado comprado em sex shop.  
É por ser tão mal feito que você só aparece cheio de roupas e sempre no escuro?
Correto. Mesmo os rostos sendo quase perfeitos, evito exibi-los muito, por isso sempre só me vêem de óculos, chapéus e golas altas quando homem, e cabelos sobre o rosto quando mulher. 
Que cabelos?
Perucas é claro. Já está satisfeito?
Ainda não. Quero saber por que seus bonecos não são bem feitos como tantos que hoje em dia fazem. Quase tão perfeitos quanto às pessoas.
Porque foram fabricados há muito tempo a pedido dos médicos que mesmo já conhecendo o grande poder de meu cérebro imaginavam que meu corpo poderia ficar vulnerável a objetos externos que por ventura viessem atingir-me causando-me ferimentos ou morte. Por isso mandaram confeccioná-las com material muito forte. A grande maioria das peças é de material sintético, mas tão duro quanto o aço.
Não estavam certos quanto a isso?
Não. Estavam enganados.
Por quê?
Já irá saber, pois continuarei minhas explicações e dentro de apenas alguns minutos tomará conhecimento. 
Está bem, mas primeiro quero mais algumas explicações antes de começar.
Pergunte.
Porque se deu ao trabalho de acender as luzes e mostrar-se a mim conforme está fazendo, além de deixar-me durante a noite com músicas de minha preferência?
Simplesmente para agradá-lo, pois necessito de sua colaboração de modo espontâneo e prefiro-o satisfeito.
Já que é assim solicito minhas noites sem som e sem iluminação, além de ser solto dessas amarras.
A partir dessa noite dormirá conforme gosta, entretanto as cordas de aço ainda não poderão ser tiradas. 
Por quê?
Não está no momento certo.
Acha que conseguirei fugir sem elas prendendo-me?
Não poderá sair daqui de maneira alguma, mas aguarde mais dois dias que o soltarei delas.
O que o impede de fazer isso agora? Já sabe que não tentarei brigar com você, pois não sou tão idiota a ponto de sofrer mais dores desnecessárias. Estou completamente ciente que jamais ganharei qualquer luta contra você.
Não se trata disso. Agora vou retomar a história do ponto em que parei ontem. Cale-se e preste atenção.
Iniciou-se o monólogo que eu impertinente insistia em transformar em diálogo tentando voltar ao assunto anterior na tentativa de forçá-lo em dizer por que me manteria com as algemas por mais dois dias.  Eu já desconfiava, mas queria ter certeza.
Repentinamente pensei melhor e julguei ser importante não deixá-lo saber que eu provavelmente já descobrira a resposta por suas evasivas, por isso calei-me sobre o assunto, pois seria de suma importância ele não desconfiar de nada. 
Não o interrompi mais e continuei ouvinte atento.
Todos os médicos, inclusive eu descobrimos que a parte que restou de meus miolos evoluiu muito mais que qualquer um já conseguira e funcionava de maneira super avançada com a finalidade exclusiva de impedir minha morte e manter-me a vida eterna. Essa sempre foi e será sua função primordial. Isso significa que por toda a eternidade funcionará dessa forma por isso julgo-me indestrutível.
Mas se alguma faca ou tiro atingir-lhe seus órgãos vitais visíveis, como o fígado o coração e os intestinos, não o matariam?
Sua intenção é saber meu ponto fraco e tentar matar-me?
Só curiosidade.
Pois bem. Isso não acontece, pois a evolução de meu cérebro chegou a tanto que qualquer parte de meu corpo ao ser retirado ou cortado, simplesmente regenera-se imediatamente, pois assim ele determina.
Não acredito.
Então veja.
O indivíduo monstruoso disfarçado de Enfermeiro arrancou com sua mão esquerda postiça a não menos postiça do braço direito, deixando a mostra seus próprios dedos deformados.
Tirou do bolso uma faca afiadíssima e cortou fora dois de seus dedos, assustando-me tanto que gritei abobalhado:
Está louco?
Não. Apenas provando-lhe o que disse.
Apanhou os tocos no chão e foi até o vaso sanitário jogá-los e quando voltou já usava a mão postiça onde supostamente cortara os dois dedos.
Indignado reclamei enérgico: 
Foi algum truque. Isto não é possível.
Calmamente o homem descalçou-se novamente da mão esticando-a a mim ao mesmo tempo que solicitou-me: 
Observe se há falta dos dedos. Apalpe e sinta com sua própria mão.
Não quero.
Vou cortá-los outra vez e ficar exibindo a mão para você ver meus dedos reaparecerem em poucos segundos perfeitos e inteiros em seus devidos lugares.
Mesmo não querendo ver, vi novamente.
Continuo não acreditando no que estou vendo.
Teria coragem de esfaquear-me com o punhal?
Como assim?
Tiro minha fantasia e deixo-o atingir-me onde quiser em meus órgãos visíveis. Poderá furar-me ou decepar-me os rins, o fígado, os pulmões ou o coração. Cortar meus nervos, minhas artérias e verá os estragos que você mesmo fizer serem imediatamente recuperados.
Não tenho coragem para isso.
Quer que eu mesmo me fure ou corte onde desejar?
Não. Prefiro acreditar, pois estou vendo seus dedos completos, embora os tocos cortados continuem no chão.
Posso recolocar de volta a mão postiça?
Prefiro que fique assim, pois quero vê-los se continuam funcionando corretamente.
Está certo. Deixarei você examinando e como nunca faço nada errado vou jogar o punhal no vaso sanitário para você não pensar em apanhá-lo para fazer uso dele em você próprio.
Você se vangloria de nunca cometer erros, mas a meu entender está se autocorrigindo de uma falha desfazendo-se da faca para que eu não a use em você embora você já houvesse me oferecido.
Não considera esse fato um grande erro? 
É claro que não. Se eu quiser impedi-lo de qualquer coisa, tal como furar-me ou furar-se me é facílimo devido minha rapidez de pensamento e de atos, além de que, caso tivesse aceitado apanhá-la com certeza estaria o tempo todo com minha mão segurando seu pulso e só o permitiria furar a mim se você concordasse em fazer o teste oferecido.
Já estava planejado assim, alias nem seria preciso desfazer-me da arma porque jamais você a tiraria de meu bolso. Apenas e tão somente assim procedi por total inutilidade do punhal e para não alimentar-lhe nenhuma ilusão inútil e desviar sua concentração da história.
Por falar em ilusão. Estou hipnotizado e nada disso está acontecendo. Não é isso?
Você está com seus plenos poderes mentais. Não está e nem será hipnotizado em momento algum, enquanto escreve, conforme já lhe disse, pois o quero totalmente sóbrio e equilibrado para ouvir e escrever tudo corretamente conforme conto.
Você me disse que o triturador não funciona quando se lança no vaso algum metal. Porque jogou a faca lá?
Apenas para deixá-la o mais longe possível de você. Poderia pretender alguma besteira.
Não percebeu que não houve nenhum barulho do aparelho. Ele não funcionou. A faca está apenas depositada no fundo e depois, por baixo eu a tirarei, para que a máquina volte a funcionar novamente.
Se é indestrutível porque usa as armaduras?
Para ter um rosto semelhante ao de vocês e manter-me entre as pessoas sem chamar atenção. Uso as mãos postiças pelo mesmo motivo e o restante para dar mais forma humana ao corpo disforme.
Porque você não faz tais corpos mais leves já que não precisa do aço para proteger-se?
Elas não são de aço embora sejam pesadas para vocês, mas para mim seu peso nada representa. Tenho condição de carregar peso centenas de vezes superior sem problema algum. Outro motivo é que não tenho aptidão para esse trabalho e a única pessoa que conheceu meu corpo mutilado para fazer as que já tenho não existe mais, e nunca pretendi revelar-me a mais ninguém, para modificá-las ou fazer outras.
A mim você se mostrou.
É o único homem vivo que me conhece.
Creio que por isso irá matar-me logo.
Já lhe falei que não tenho motivos imperiosos para isso. Contenta-se com o talvez.
Adianto-lhe que minha intenção da existência desse livro é justamente para mostrar ao mundo como sou, portanto se eu precisar matá-lo não será por ter-me visto deformado, pois isso todos saberão através da leitura desse seu best seller onde terão fotos minhas que eu lhe darei no momento oportuno para ser impressa nele.
Porque nunca teve um nome?
Você é insistente e burro mesmo não?
Meu nascimento conforme soube era totalmente indesejado e meu destino era a morte sumária no exato momento que viesse a vida, mas não foi possível, pois o amante de minha mãe apareceu impedindo-a de conseguir atirar-me no mar. Na tentativa de matá-la efetuou os disparos que eu recebi, pois ela usou-me com um escudo. 
Acha que essas pessoas iriam registrar-me?
Os médicos que me socorreram com certeza iriam providenciar tal certidão após minha morte, porém como o tempo foi passando e eu continuei vivo esconderam-me para estudos não divulgados. 
Durante meses aguardaram o desfecho fatal para quando isso acontecesse desfazerem-se de meu corpo. Provavelmente incinerando-o, pois jamais poderiam mostrar à sociedade aquele mostro que criaram.
Os meses tornaram-se anos e a necessidade de eles esconderem-me passou a ser primordial por isso jamais poderiam registrar-me.
Eu era chamado inicialmente de nenê anomalia e depois de garoto anomalia e finalmente apenas de anomalia. Prefere chamar-me assim ou fica Monstro mesmo conforme já deu mostras de gostar? 
Prefiro continuar tratando-o por Enfermeiro.
Por que seu cérebro que é tão competente e evoluído como diz não restaura-lhe os dedos cortados no formado correto como os nossos? 
Essa será a última resposta de hoje.
Talvez eu tenha nascido com deficiência congênita nos pés e mãos e meu cérebro quando iniciou suas atividades entendeu que deveriam ser assim por isso os manteve. 
Mas eu prefiro acreditar que foi ele quem modificou as extremidades dos meus membros, pois penso que é a evolução da raça humana. Como nosso planeta é formado por muito mais água e ar que terra creio que no futuro os homens deverão sofrer mutações para adaptar-se em viver também no mar e no ar. Acredito que tal evolução começará logo e pelos membros.
Por isso as nadadeiras?
Já está na hora de seu descanso. Vou retirar-me para amanhã logo cedo voltarmos a conversa.
Passemos a noite conversando. Para mim não há problema algum.
Sei que há. Você tem necessidade do repouso diário.
Trata-me como um doente e você meu atendente. Porque se passa por Enfermeiro?
A partir de amanhã falaremos mais.  Como já disse que o satisfarei em seus desejos para uma boa noite de sono vou retirar-me e deixá-lo a sós, no seu solicitado silêncio e escuro total. 
Ao retomarmos ao assunto proponho que suas perguntas aleatórias e fora de hora que só vão fazer nossa conversa ficar mais longa parem em definitivo. Proíba-se de pergunta inúteis só questione quando tiver muita dúvida, embora eu saiba que todas elas serão dirimidas com o andamento da narrativa. Tudo será esclarecido em breve. 
Boa noite e não sonhe comigo para evitar pesadelos. 
oooOooo
 
Nova manhã e o Monstro voltou à minha prisão trazendo em uma enorme bandeja de madeira que mais parecia uma mesa, um excelente desjejum composto de vários alimentos. Tinha biscoitos, pão, manteiga, tapioca, farofa, cuscús de coco e de galinha, ovos quentes, cozidos e fritos, torradas, presunto cozido, salame fatiado, ovos mexidos com queijo, fatias de bacon frito, mamão, melancia, melão, caqui, suco de laranja, de manga, de uva, de morango, leite, iogurte, chantili, água, cubos de gelo, café solúvel, caputino e café comum. Praticamente um café da manhã de um bom hotel. 
Todos os alimentos sólidos já estavam cortados em pequenos pedaços para serem comidos com a mão ou com a colher de plástico e os líquidos acondicionados em jarras também de plástico.
Acordou-me de maneira educada e gentil, desfilando em um bem talhado terno cinza claro, com a fisionomia do Enfermeiro.
Bom dia querido Velho gordo careca e de barbicha branca.
Não desejo o mesmo para você e nem aceito nada dessa frescura de gringo chique com desjejum de hotel quatro estrelas. Pela manhã basta-me apenas um gole de café e muitos cigarros.
Fique a vontade e aceite o que quiser. Prefere o café com leite, o solúvel ou caputino com chantili?
O simples. Preto forte e puro, sem açúcar. Apenas com três gotas de adoçante.
Então aproveite que está bem quente.
Prefiro-o frio. Quando esfriar bebo um pouco.
Trouxe-lhe alguns cigarros para quando tiver vontade. Sempre que estivermos juntos terá essa regalia de fumá-los, pois eu mesmo os acenderei para você para evitar a tentativa de provocar algum incêndio. É com Hollywood Vermelho que você gosta de destruir seus pulmões não?
Muita amabilidade sua e já que está bastante cordial e gentil porque não me solta?
Farei isso muito em breve.
Decidiu deixar-me voltar para casa?
Não disse isso. Falei que o soltarei, porém apenas o libertarei das cordas de aço e não de sua sala enquanto estiver ouvindo minha narração onde permanecerá até terminar o livro. 
Isso feito deixar-me-á ir ou me matará?
Eu o levarei para conseguir com seu amigo editor a publicação da história.
E depois? Será meu fim?
Quer saber de novo? Já é a oitava vez que pergunta.
Não importa. Se estou perguntando é porque quero uma resposta correta e definitiva.
Conforme meus planos ainda não concluídos de fato quiçá você não possa permanecer vivo.
Significa que depois de usado simplesmente serei descartado?
Se preferir definir assim, problema seu, porém eu ainda continuo dizendo talvez.
Fala tão cortês e friamente que é provável que vá matar-me. Para você, além de você próprio, ninguém e nenhuma coisa valem nada?
Correto.
Sabia que eu também tenho meus planos?
É evidente que deva tê-los. Para tudo na vida deve haver planejamentos. Eu que sou imensamente superior a você faço os meus. Porque você não os faria?        
Pois saiba. É provável que eu o mate primeiro.
Impossível.
Julga-se mesmo indestrutível?
Meu querido amigo Velho. Vejo que está novamente tentando descobrir meu ponto vulnerável, mas tenha certeza que jamais lhe darei alguma dica para descobrir, pois nem eu próprio tenho certeza se tenho ou não um local acessível a destruir-me. Apenas desconfio dessa remota possibilidade.
Julga-me inferior e idiota, porém consegui de você o que queria saber. Eu também já imaginava isso e sua resposta convenceu-me que estou no caminho certo, pois até já suponho qual seja tal local.
Como você julga poder destruir-me?
Continua menosprezando minha inteligência seu monstrengo horroroso. Respondo-lhe usando suas mesmas artimanhas. Eis uma resposta que não posso dar.
Pois tenha certeza que sua suposição sobre minha possível morte, persuadiu-me em decidir que você não poderá definitivamente continuar vivo, seu velho inferior.  
Então agora passou a ser categórico meu assassinato?
Sim. Absolutamente certo, mas vamos mudar de assunto, pois esse já esgotou por já estar decidido.
Como fui burro. Decretei minha morte.
Foi burro não. Você simplesmente é burro e imbecil.
Concordo com minha estupidez, mas não aceito encerrar o assunto.
Eu exijo o término e vamos a sua pergunta feita ontem à noite.
Não me lembro de nenhuma pergunta.
Tem memória curta mesmo. Deve ser o Alzaimem.
Não tenho essa doença e nenhuma outra. Nada sofro.
Pois saiba que você perguntou-me ontem porque me passo por Enfermeiro.
Agora me lembro. Então me responda por quê?
Eu aos doze anos de idade já sabia muita coisa sobre anatomia humana, doenças, remédios, tratamentos, doentes e suas possíveis curas ou suas impossibilidades disso.
Estudava muito sobre medicina e já sabia mais que muitos médicos que trabalham por aí somente a caça de dinheiro.
Os profissionais que me mantinham cativos resolveram usar-me como atendente aos diversos enfermos em estado terminal na UTI, nos trabalhos de limpeza e higiene deles, pois além da minha já mencionada capacidade eu não tendo nenhuma emoção não teria dó, receio ou medo em tocá-los por isso seria muito útil nessa atividade.
Minha força descomunal, minha ausência de necessidade de dormir e minha inteligência superior fariam de mim um excelente auxiliar.
O único empecilho era minha aparência, pois ninguém no hospital sabia de minha existência exceto aqueles cinco homens e jamais alguém suportaria ver tão monstruosa criatura, que além do pânico que causaria teria a necessidade da explicação sobre minha existência à sociedade.
Você é testemunha recente do que aconteceria com qualquer um, excluindo os médicos que participaram de minha montagem desde o início.
Sentiu o maior horror e medo de toda sua vida, não foi? Não precisa responder.
Foi nessa época que pensaram em meu primeiro disfarce. Deveria ser um boneco de aço recoberto de silicone com corpo e rosto de mulher, pois na ocasião o número de Enfermeiros era ainda muito pequeno. Deveria ser feito aos pedaços para serem calçados em meu desfigurado corpo.
Outro grande obstáculo seria minha conduta. Eu não falava ou agia como mulher e eles estariam correndo grande risco se fizessem o planejado.
Eu sabedor de tal idéia e como tinha curiosidade em viver livre junto a outras pessoas, no isolamento de meu esconderijo imaginei poder ter o comportamento de uma mulher.
Nunca tinha idealizado nada parecido. Era como se eu estivesse falando comigo mesmo querendo ser do sexo feminino.
Para minha surpresa uma pessoa respondeu-me internamente que ela faria o que eu desejasse como mulher. 
Ainda usando apenas minha sugestão perguntei-lhe se ela tinha possibilidade de falar com voz feminina. A resposta veio afirmativa dizendo-me ser de fato do sexo feminino conforme eu havia almejado.
Não entendi muito bem o que estava acontecendo e como teste desejei em seguida ser um homem forte da raça negra e a mesma coisa aconteceu.
Perguntei-lhe se ele tinha conhecimentos sobre enfermagem e soube dele que para ele saber bastava que eu assim desejasse que ele saberia exatamente tudo o que eu já conhecia. Quis saber se ele tinha conhecimento da existência de uma mulher a seu lado, ou próximo a ele. A resposta foi negativa, pois me afirmou que somente ele estava a meu dispor no instante que eu quisesse. 
Ato continuo pretendi falar com a mulher que respondeu estar a minhas ordens. Fiz-lhe as mesmas perguntas que ao homem e obtive exatamente as mesmas respostas.
Solicitei-lhe que andasse e falasse como uma mulher e ela imediatamente fez meu corpo caminhar exatamente como uma pessoa desse sexo e falou através de minha boca também com voz feminina.
Resolvi efetuar o mesmo teste com o homem apenas imaginando-o andar como tal, porém com postura e voz diferentes de mim e tudo aconteceu conforme eu desejei.
Ainda não havia sido confeccionada nenhuma fantasia, mas meus criados mentais usavam seu cérebro efetuando seus movimentos com meu próprio corpo. Eu assistia a tudo, apenas vendo e ouvindo sem impedi-los de nada, embora eu mantivesse sobre eles minha vontade a qualquer instante que desejasse.
Foi nesse dia que descobri que eu poderia criar a meu dispor várias pessoas com atitudes e vontades próprias. 
Dei permissão para fazerem tudo que necessitassem para sempre satisfazer meus desejos solicitados. Excetuando-se é claro a ingestão de bebidas alcoólicas, drogas e que nunca me comprometessem.
Passando a ter conhecimento desse meu feito e ciente que poderia criar tantas pessoas quanto desejasse, resolvi determinar que a mulher fosse conhecida como enfermeira Selminha e o negro como Enfermeiro Joel.
Por que tais nomes?
Sem motivo algum. Apenas me vieram à mente.
Explicou aos médicos sobre suas criações?
Não. A princípio pensei em fazer isso, mas quando eu disse aos cientistas que tinha uma demonstração a fazer-lhes houve necessidade de eu ativar a mulher para andar e falar com eles para terem certeza de que nada estaria errado se criassem um boneco de sexo feminino para eu usar como enfermeira.
Feito tal demonstração que deixou os médicos atônitos e eles perguntaram se era eu mesmo que estava imitando perfeitamente uma mulher.
A resposta imediata foi dada por ela que simplesmente respondeu. “Quem está falando com vocês sou eu. A enfermeira Selminha e não o Anomalia”.
Houve aplausos e risos de contentamento por parte deles por imaginarem-me perfeito no ato de imitar e bem humorado pela resposta, negando-me. Eu ainda por algum tempo mantive em atividade a personagem Selminha usando meu corpo conversando com eles que lhe perguntaram onde então estava o Anomalia já que ela havia tomado seu lugar.
Você imediatamente impediu-a de falar não foi? Estava correndo sério risco de ser desmascarado.
Não haveria problema algum, pois como eu já lhe disse iria contar-lhes sobre meu feito. Por isso deixei-a responder-lhes.
Nova e surpreendente resposta veio dela quando a ouvi dizendo que era realmente eu quem estava passando por mulher. Inclusive perguntou-lhes com sua voz feminina se a imitação estava bem feita ou se deixava alguma dúvida. 
Naquele momento descobri que ela podia mentir e decidi deixá-la a vontade passando-se por mim, perante o grupo de homens que decidiram que não haveria nenhum problema criarem a tal enfermeira.
Assim nasceu a enfermeira Selminha. Era ruiva e bonita.
Você não disse que sua primeira personagem foi o mendigo?
Disse-lhe que como mendigo uso minha primeira roupa e não que ele foi meu primeiro personagem, pois o primeiro foi Selminha. No devido tempo lhe explicarei sobre a roupa dela que acabei modificando para identificar o pedinte.
Desculpe pela interrupção.
Eu trabalharia a noite como auxiliar de enfermagem e de dia como ajudante de serviços gerais.
No primeiro dia que eu fazia faxina no hospital após a noite que trabalhei como atendente aos doentes em seus banhos, curativos e remoções quando mortos pelas doenças irrecuperáveis já chamei a atenção de alguns empregados, pois minha diferença entre os dois turnos era somente o uniforme. O de enfermeira Selminha era azul claro e o da faxineira marrom. A fisionomia era a mesma.
Conforme orientação dos médicos que sabiam que eu não mentia, exigiram-me que permanecesse sem falar com ninguém, por isso não me expliquei às pessoas que desconfiaram ser a mesma pessoa trabalhando em duas funções distintas e sem descanso.
Eu já havia criado a irmã gêmea idêntica a Selminha para ser faxineira e sair-se bem de qualquer situação de emergência, mas os médicos não sabiam disso, porque eu ainda não tinha lhes contado sobre o que eu podia fazer. Até nome tinha dado a ela. Era a Celinha.
Você não ia abrir o jogo com eles?
Preferi nada contar.
Por quê? Se nunca tinha sentido desejo para nada, porque o segredo em esconder-lhes tal fato? Terá de explicar-me qual foi o motivo.
Concordando com você informo-lhe que se eu não tinha nenhum motivo para esconder-lhes o caso porque deveria ter algum para contar-lhes? Simplesmente não quis dizer nada, por nada. Posso continuar?
Sim.
Nessa jornada dupla permaneci apenas dois dias, pois o assédio dos curiosos tornou-se maior no segundo dia, para o desespero dos médicos que decidiram tirar-me de cena, pois nada sabiam da existência da Celinha, com voz e trejeitos diferentes de Selminha para se mostrar com facilidade serem pessoas distintas embora gêmeas idênticas.
Tive de recolher-me ao meu esconderijo durante vários dias, até que me fizessem novo boneco de aço com silicone, com outra aparência.
A idéia que sugeri aos médicos fora de montar um homem negro, pois a diferença entre os sexos e a cor seria muito grande e assim nasceu o Enfermeiro Joel.
Para conseguir isso dei permissão a ele para fazer um teatrinho semelhante ao que a enfermeira Selminha fizera. Acharam-me ótimo.
Interrompi-o perguntando:
Você insiste em informar-me com frequência que não mente. Já disse que não fuma, não bebe e não usa drogas. Trabalhava com entusiasmo aos que lhe criaram, sem reclamar nem exigir nada.
Tudo isso me faz entender e julgá-lo como uma pessoa de boa índole, justo e ciente dos deveres. Porque mata com tanta facilidade?
Aguarde que saberá tudo no momento certo.
Eu julgo algumas respostas necessárias agora.
Está bem. Vou responder-lhe, mas depois exijo atenção total sem aparte, pois com certeza não haverá nenhum necessário. Saberá corretamente sobre tudo em sua devida ocasião.
O fato de eu não mentir é porque essa atitude é totalmente desnecessária e erro de conduta de muitas pessoas e minha inteligência nunca reconheceu essa asneira como necessária.
Coisas como paladar e olfato que são muito mais importantes não são reconhecidas, porque a mentira seria?
Usar drogas é prejudicial à saúde, principalmente ao cérebro. Eu o tenho apenas pela metade, embora ele seja evoluído como é não deve ser danificado, pois sem ele eu como qualquer outro ser humano não poderei viver, portanto está explicado o não uso de substâncias nocivas.
Trabalhar e atender as exigências dos meus salvadores era preciso para meu aprendizado. Eu tinha curiosidade em viver junto aos demais e quando isso me foi possível nada iria me impedir sem nenhuma outra pretensão a não ser a já dita. Simplesmente curiosidade.
De boa índole eu sou para comigo mesmo, pois sou a única pessoa pela qual eu me interesso.
Extinguir vidas e apropriar-me de algo dos outros, como dinheiro, por exemplo, para mim não significam atitudes erradas conforme suas leis determinam como assassinato e roubo. Trata-se de minha sobrevivência e qualquer ato imperioso a manter-me vivo meu cérebro reconhece como prioridade e me é lícito, por isso não sou impedido.
Está tudo claro até agora ou tem mais algum comentário? 
Aproveite esse intervalo, porque irei buscar comida para nós, pois já deve estar com fome, ou não?
Você disse que quando dá permissão à suas personagens de agir por conta própria fez-me entender que significa que seu cérebro se reparte para permite-lhes isso? Ou estou errado. 
Foi isso que entendeu? Não foi o que lhe falei. Talvez naquela ocasião tenha sido rápido na explicação e isso o induziu a assim pensar.
Seria uma interrupção oportuna na época se me solicitasse maiores esclarecimentos, mas não a fez por idiotice.
Faço agora. Qual é a verdade então?
Não conseguirá jamais pegar-me em erro. Não existem verdades e mentiras. Eu dando-lhe agora melhores explicações você pretende definir que essa é a verdade e a anterior teria sido mentira? É isso que pretende?
Preste atenção seu chato, e deixe de esforçar-se em ser inteligente, pois sei que não é. Tenho certeza que você também sabe. Eu sempre falo com razão e se entender algo diferente é por sua incapacidade de entendimento, e não por erro em minha explicação.
Vocês normais quando distraídos sendo repentinamente pegos por um movimento brusco de outros se assustam movendo um braço ou pulando de lado ou gritando. Estou certo? Quando algum objeto vai em direção aos seus olhos, rapidamente as pálpebras se fecham protegendo-os. Essas coisas acontecem com frequência com vocês, não é?
Tais movimentos e ações não foram idealizados pelo cérebro e sim pela medula que age rapidamente sem seu cérebro pensar em executar tais movimentos. Chama-se ato instintivo ou reflexo como você sabe, portanto tem conhecimento dessa função da medula óssea, ou não?
Sei sim senhor. Seu pseudosábio.
Com certeza sabe também, como todo mundo, que no encéfalo existe o cerebelo que está na parte terminal da caixa craniana entre o cérebro e a medula e é ele que permite o equilíbrio do esqueleto mantendo as pessoas eretas e também processa a coordenação motora do indivíduo. Tudo isso é feito sem a necessidade da inteligência proveniente do cérebro.
Isso eu não sabia.
Eu tive curiosidade de estudar minha cabeça, através das várias radiografias, cintilografias, eletroencefalografias, tomografias, etc. que foram tiradas de mim.
Os médicos viram que parte de meu cérebro que comanda a razão e a inteligência estava posicionada abaixo do cerebelo anexo a medula onde tudo se misturava. Totalmente diferente de todos os outros encéfalos já vistos. Onde deveria estar apenas o cerebelo tinha juntado parte de meu cérebro. A outra porção do cerebelo que cedeu seu lugar foi unir-se a medula, formando outra massa cerebral diferente. Inexistente em qualquer outro ser humano. 
A inteligência e conhecimento dos médicos não foram suficientes para entenderem nada, porém eu com minha capacidade mental superior percebi que minha medula e parte do cérebro que estava junto ao cerebelo formava outro cérebro e mantinha suas funções de equilíbrio e coordenação motora ao corpo corretas, mas não comandava atos instintivos como em vocês. Fiquei impossibilitado de ter atos reflexivos e também dois sentidos e em troca esse “outro cérebro” me permite em conexão e obediência ao cérebro principal a formação de outro ser que é comandado com ações pensadas e dirigidas exclusivamente por eles de forma totalmente correta.
Por isso meus auxiliares podem viver praticamente como vocês. A única diferença é que são muito mais capazes que vocês, pois esse minúsculo encéfalo é muito mais evoluído que os seus enormes miolos que iguais aos dos bois só servem para serem empanados e comidos.
Então você mentiu quando de seu primeiro esclarecimento, pois não me falou nada disso.
Simplesmente não houve explicação detalhada como agora. Eu tão somente para seu entendimento ter sido rápido na ocasião informei-lhe que doto minhas personalidades de atitudes individuais, permitindo-lhes inclusive a mentira com um cérebro paralelo e por não haver explicado o funcionamento não significa inverdades. 
Não posso discordar, ou posso?
Claro que não.
Mas então é esse o futuro dos seres humanos?
Como assim?
O homem do futuro será sem emoções e quando quiser criam outros seres independentes para fazer todos os desejos ruins de seus criadores? Eu não concordo que isso seja evolução e sim regressão.
Quem disse que o homem do futuro será assim?
Você. Quando se referiu as modificações de seus pés e mãos.
Com relação as modificações físicas eu creio ser realmente um avanço, embora eu não tenha certeza, entretanto com referencia a meu cérebro não disse tratar-se de evolução. Muito pelo contrário. Meu encéfalo é a miscelânea que é, devido aos disparos do revolver que além de destruí-lo em parte separou-o misturando-o em locais indevidos acontecendo isso comigo. Não é nenhum progresso realmente. Isso aconteceu apenas comigo e creio que jamais acontecerá.
Porque então se julga e diz superior e não inferior? As baratas têm o cérebro espalhado por todo o corpo e não deixa de ser apenas um inseto asqueroso. Difícil de morrer eu sei, tanto é que são pré-históricas e estão aqui enchendo o saco da gente até hoje, e é só para isso que prestam?
Compara-me a uma simples barata? Infeliz. O cérebro delas não é dotado de inteligência como os nossos.
Com relação à minha inteligência sou de fato superior e isso é um avanço, entretanto sou inapto a muitas coisas necessárias a perfeição que ainda virá no futuro.
Então não se julga perfeito?
É claro que não. Sou incapaz até de uma simples e corriqueira tarefa de escrever um livro.
Então sou melhor que você?
Inútil mortal. Estou comparando-me ao ser humano do futuro quando tiverem seu cérebro desenvolvido como o meu e intacto mantendo-lhes todos seus sentidos e emoções e não a você, seu retrogrado pré-histórico.
Tudo bem. Eu ainda chego lá. 
Assunto encerrado. Vou buscar nosso almoço.
Você come?
Já lhe disse que sim. Alimento-me sem abusos e não de comidas imprestáveis como vocês. Somente o necessário e alimentos saudáveis.
Não estou com fome. Vou apenas lanchar parte desse café da manhã que está aqui.
Nesse caso não trarei comida, pois eu não tenho essa obrigação.
Como queira.
Fique a vontade alimentando-se para depois recomeçarmos.
Gulosamente comi quase todo o Breakfast servido sem que o monstro nada servisse.
Recomeçamos a conversa que era muito mais solilóquio dele que diálogo nosso.
Para ser criado o Enfermeiro Joel, bastou apenas fazer a cabeça, o peitoral forte, os braços e mãos de um negro, pois o restante que ficaria encoberto pelas roupas seria mantido o da enfermeira Selminha.
Ele era um negro forte com pés pequenos que trabalhava durante o dia, enquanto Selminha totalmente diferente dele trabalhava a noite. Ambos como auxiliar de enfermagem na UTI sem nenhum problema.
Por decisão dos médicos eu só trabalhava dois dos três turnos de oito horas cada um, portanto restava-me oito horas inteiras para eu estudar em meu refúgio.
Seis meses se passaram assim.
Eu atendia moribundos em coma e o contato com seus parentes era pouco e rápido, pois as UTIs permitiam somente visitas breves em suas dependências e tais pessoas sempre se mantinham da mesma maneira. Apenas choravam seus doentes e oravam por eles.
Haviam me explicado sobre tais comportamentos e eu até então conhecia muito pouco da conduta dos seres humanos normais. Imaginava terem apenas essas duas emoções.
O único sentimento que sinto é a curiosidade que é muito aguçada por motivos óbvios e isso foi o motivo de meu progresso até hoje, entretanto satisfazia-me até então em reconhecer nas pessoas apenas aqueles dois anseios já falados. O medo da morte e a fé na cura.
Pouco era meu contato com os colegas de serviço e sempre só os via nos mesmos ambientes silenciosos e não percebia neles nenhuma emoção.
Sempre estavam quietos e atentos aos trabalhos. 
Julgava-os mais ou menos iguais a mim e dava-me por satisfeito por imaginar-me normal. Apenas com aparência diferente de todas as outras pessoas e pelo que soube era assustadora, sem saber sequer o que isso significava, por isso usava os disfarces.
Por hoje basta, pois deve descansar.
Peraí.
Já disse. Agora é hora de seu repouso.
oooOooo
 
Na outra manhã como já era hábito o Enfermeiro tomou a palavra determinando o rumo da conversa.
O que queria saber ontem antes de eu sair?
Não me recordo mais.
Creio que serei preciso gravar um DVD com toda nossa conversa, pois nunca se lembra de nada. Como conseguirá escrever minha história corretamente sem eu ter de ficar repetindo tudo a todo o momento?
Tenha certeza que saberei. Aguarde e verá.
Aguardarei. Tenho tempo.
Eu estava falando sobre os dois únicos sentimentos que percebi nos homens e ao retirar-me você disse peraí. Com certeza queria fazer alguma de suas tolas perguntas sobre isso.
Lembrei-me agora. Você disse que conheceu só os sentimentos de pesar e de fé. Convivendo muitos anos com os médicos e vendo suas reações espontâneas causadas por vários tipos de sentimentos não teria percebido muitos outros? Chegou até a me dizer que eles riram e aplaudiram quando lhes apresentou a enfermeira Selminha. Foi uma demonstração de contentamento deles e você comentou sobre o fato sabendo muito bem o que estava falando, portanto sabia o que era alegria.
Ontem quando lhe contei isso é claro que eu já conhecia o significado daquelas macaquices deles, mas na época eu nada entendi. Eu sabia que eles pretendiam uma pessoa que falasse e agisse como mulher por isso agi como tal, mas a reação que lhes causei não representou nada para mim. 
Depois do meu completo aprendizado soube que várias atitudes dos médicos em minha presença eram proporcionadas por emoções diferentes, tais como alegria, sofrimento, dor, cansaço, apreensão e outras mais que sempre vi durante os anos em que vivi com eles. Como nunca senti nenhum anseio nada me significava.
Desde que comecei enxergar, ouvir e falar, simplesmente pensei que meu semblante se fosse perfeito também apresentaria os mesmos trejeitos deles sem imaginar que nada me seria possível, pois para executá-los haveria a necessidade mental de sentir os apelos que não me são possíveis.
Como já sabia que você não era perfeito?
Simplesmente porque eu era mantido escondido pelos cinco médicos com aparências semelhantes entre si e totalmente diferentes de mim, por isso conclui que eu é quem era o imperfeito e não eles. 
Continuando a narrativa lembro-me muito bem exatamente quando começou meu completo aperfeiçoamento.
Foi quando vi uma velhinha morrendo.
A conduta de seus parentes com várias atitudes até então inusitadas para mim aguçaram muito minha curiosidade para o minucioso e longo estudo sobre a raça humana e sua conduta.
Seu filho também já velho, cheio de cabelos grisalhos e num estresse surpreendente, chorava a seu lado, enraivecido e enfraquecido ao mesmo tempo em que cheio de vigor tentava impedi-la da morte certa e inevitável, apenas com gestos, palavras e exigências pensando inutilmente que seu grande desejo pudesse mudar o rumo das coisas. 
Ele gritava, chorava, ficava terrivelmente irritado e irado e às vezes acalmava-se para instantes depois odiar o mundo, a si próprio, aos deuses e aos demônios que tentavam levar-lhe a mãezinha, tão pequenina que era em seu leito de morte na UTI do hospital em que eu trabalhava. 
Próximo da partida definitiva da velha senhora ele recebeu em visita seus irmãos, também bastante idosos. Brigava com eles por já estarem conformados e prometia reverter o irreversível trazendo-lhe saúde para amá-la por todo o sempre, querendo-a curada, mesmo vendo-a não respondendo a nenhum estímulo dele, das máquinas, dos médicos e dos medicamentos.
Tampouco os profissionais por mais que tentassem reanimá-la conseguiram tirá-la de seu coma profundo e sem volta.
Uma das irmãs era bem gorda e portava-se com muito respeito e chorona quando de sua visita.
A outra menos velha e ao contrário da primeira, era bem magra, mas como a gorda nada fazia a não ser chorar e sofrer. Com o irmão bravo ela brigava e irritava-se a todo instante. Bastava se olharem para arreliarem-se um com o outro.
Um velho gordo, careca e de barbicha branca, feio e até muito parecido com você que compunha o quarteto de irmãos, aparentemente o mais velho, pois assim parecia, tentava ser mais calmo, mas demonstrava claramente que sofria tanto quanto os demais, esforçando-se em vão em consolar e acalmá-los com sua horrível voz anasalada e chorosa.
As irmãs até se tranquilizavam um pouco com suas propostas de conforto, mas nada conseguia com o irmão que não era apenas um visitante como ele e sim o acompanhante e responsável permanente pela doente desde o início de tal angústia que já durava vários dias. 
Nunca vi ninguém sofrer tanto. É certo que eu jamais senti tal sentimento, mas pelo que posteriormente estudei sobre as emoções humanas pude quantificar tal dor considerando-a conforme disse.
Pelo que vi, esse homem era só desespero, amargura e agonia. Coisas que entre muitas outras abomino.
Imaginei-o enfartando após a notícia do óbito da mãe, mas isso não ocorreu. Ele conseguiu aguentar. Deve estar vivo por aí pintando seus quadros. Soube que ele era um artista plástico.
Até aquela época nunca tive nenhuma atitude a não ser, ser uma enfermeira e um Enfermeiro que asseava a velhinha dia e noite. 
Enfiava-lhe pela vagina tubos e mais tubos de algodão e gaze, tentando fazer a limpeza da hemorragia estomacal que era apenas um dos graves problemas que acabavam com a ela.
Os médicos imaginavam uma violenta hérnia gástrica que nunca souberam por falta de condições de efetuar-lhe uma endoscopia. Ela não resistiria. 
Seus rins já não funcionavam há vários dias. Sua urina era extraída por tubos de sucção e pouca era a quantidade que emanava deles.
Muitíssimo maior era a quantidade de líquido que saía dos pulmões totalmente danificados pela pneumonia ou talvez pela tuberculose já existente.
Médico algum se aventurou em tentar exames mais apurados, pois tinham convicção da impossibilidade de ela resistir a tais procedimentos. 
Também era impossível efetuar pelo menos uma ultra-sonografia do estomago e dos pulmões, pois não resistiria ao transporte até o laboratório que ficava como em todos os hospitais, erradamente muito longe das UTIs. Geralmente esse tipo de trabalho é terceirizado e os donos dos laboratórios os mantêm sempre próximos a alguma rua externa com acesso por ela para uso de seus clientes de fora do hospital. Isso é uma das grandes vergonhas para a saúde dos brasileiros, mas é assim. 
Todas as pessoas têm conhecimento disso e ninguém se preocupa e é lógico que não serei eu a incomodar-me.
Eu poderia levá-la nos braços com facilidade e cuidados necessários, mas os médicos exigiam-me conduta semelhante aos demais atendentes por isso nada fiz.
Você e os médicos não tiveram nenhuma compaixão para prestar tal socorro que sabiam ser possível?
Não fiz isso por não sentir e sequer saber o que era comiseração e por não ter sido solicitado.
Um dos médicos chegou a comentar sobre esse transporte, mas para não correr o risco da idosa falecer em meus braços e ele ser responsabilizado por tal atitude que seria considerada insensata, optou por não aprovar tal idéia.
Seria à eles muito comprometedor ter de demonstrar e provar tal eficiência e zelo que ela seria conduzida em meus fortes braços. Não poderiam correr riscos de eu vir a ser descoberto e conhecido.
Vários exames simples de raios-X foram efetuados, mas quase nada mostrou por ineficiência dos mesmos já totalmente ultrapassados e que poucas coisas detectam.
Ela respirava com dificuldade mesmo com aparelhos.
Nada via, nada ouvia e nada sentia.
Ela e os demais, com exceção do bravo filho acompanhante, estavam apenas a espera do desenlace. A velhinha por total desconhecimento de tudo e sem forças para reanimar e os filhos por desesperança. 
Num sábado após um acalorado desentendimento que eu nada entendi entre o irmão irritado e a irmã caçula também bastante estressada sobre como enterrá-la, assisti um fato inusitado.
A expectativa era de morte iminente e fiquei observando o filho desesperado chorar a grandes prantos e gritar com a irmã que insistia em seu intento de efetuar o enterro da mãe via cremação. Sua justificativa era que estaria atendendo a um anseio dela que por várias vezes tinha lhe dito assim querer por já haver assistido alguns funerais procederem-se dessa forma em sua própria família e principalmente por sempre ter dito do enorme medo de ser enterrada viva sob a terra conforme comentários dos próprios filhos.
A contenda é que o filho acompanhante achava que a senhorinha deveria ser enterrada conforme sua religião católica, embora tendo na discussão concordando com a irmã em cremá-la, mais para parar a discussão do que para tranquilizar-se, pois nunca se preocupava em acalmar-se. Com certeza assim fez descontentando-se imensamente, creio eu.
Passado algum tempo foi a irmã quem retrocedeu em seu desejo concordando em enterrá-la, também fato que deve te-la aborrecido por assim proceder.
Percebi que nenhum deles se mantinha convicto em suas decisões, o que achei absurdo, pois qualquer coisa que almejamos nunca devemos arrepender. Antes de qualquer deliberação deve-se refletir com calma e com razão para não acontecer como aconteceu. Eu que só resolvia e ainda só decido tudo apenas com a razão jamais imaginei qualquer ocorrência ser definida com dúvida e indecisão.
É por isso que demora em executar o que já pretendeu há muito tempo?
Não exatamente. Qualquer coisa que desejo faço de imediato quando possível, caso contrário aí sim espero o tempo suficiente para executar. Foi o caso de suprimir Mercedes, por exemplo. Passaram vinte anos para eu conseguir encontrá-la e consumar minha decisão que jamais foi repensada ou modificada ao longo dos anos. 
Com relação a mim, você titubeou, pois inicialmente pretendia deixar-me vivo e depois optou por matar-me.
Engano seu. Eu jamais disse que o deixaria vivo ou que o extinguiria. Sempre que me perguntava se eu iria matá-lo eu sempre respondi talvez, exatamente por não ter decidido nada. Somente optei pela sua exclusão no momento que você próprio ofereceu-me a obrigatoriedade de isso ser necessário.
Não dá para refletir melhor e mudar de idéia?
Jamais.
Nunca nenhum de seus planos deu errado?
Nunca.
Sobre mim. Não dá mesmo para mudar de idéia?
Como é covarde. Só de pensar em morrer borra-se todo. Já viveu muito e ainda quer viver mais?
É lógico que sim. Deixe-me continuar vivo.
Sobre isso já conversamos e está definido, mas tanquilize-se, pois só irá acontecer no momento certo. Tenha certeza que não será antes nem depois do momento exato a menos que morra antes. Se motivos alheios a minha vontade ocasionarem sua morte, é claro que não poderei fazer nada, mas de qualquer forma será consumada minha pretensão.
Continuando o assunto anterior digo-lhe: 
Pareceu-me que a moribunda senhora a tudo assistia, pois se recuperou estranhamente, fazendo ninguém sabe como seus batimentos cardíacos passarem de quatorze para trinta e quatro e logo depois para noventa e nove. Sua pressão arterial baixíssima que era de cinco por três subiu a dez por seis. Estranhamente readquiriu o limite da normalidade, mas permanecia em coma profundo.
Os médicos arriscaram a aguardada e quase insuportável ultra sonografia, sendo acompanhada pelo filho velho e gordo que insistia em aparentar calmo e constataram que o líquido que provinha incessantemente dos pulmões só poderia ser contido por delicada intervenção cirúrgica de altíssimo risco em pessoa razoavelmente sadia, com apenas tal dano.
Nela esse problema era talvez o mais simples. 
Sua idade quase centenária, sua dificuldade cerebral gravíssima que era o Mal de Alzaimen em estado avançadíssimo, suas artroses, suas artrites, mais sua insuficiência renal e sua incessável hemorragia estomacal, tornou quase impossível até um atestado de óbito correto quando ocorresse o falecimento.
Os irmãos chegaram finalmente a um acordo sobre como satisfazer a velha senhora, sem cremá-la e sem enterrá-la. Colocariam seu cadáver em uma gaveta mortuária em um cemitério da cidade, previamente construída por ela própria talvez por já imaginar tal polêmica em seu final.
Eu nunca soube o que foi atestado como causa mortis e tão pouco me interessei em saber.
Nada do que contei chocou-me, assustou-me, trouxe-me tristeza ou alegria, dó ou piedade, pois até então nunca havia tomado conhecimento de nenhum tipo desses sentimentos. Eram-me totalmente desconhecidos.
Nessa ocasião eu tinha quatorze anos e estava atendendo como ajudante de enfermagem há quatro meses, e nesse tempo não havia visto tanto movimento na UTI, que geralmente é permitida aos familiares por poucos minutos por dia. Nunca tinha acontecido nada parecido. Só via o choro e as rezas dos parentes que eu já ficara sabendo tratar-se de tristeza e esperança, pois já tinha sido informado da existência dessas emoções e de que era perfeitamente normal serem demonstrados pelas pessoas.
Jamais soube como esses irmãos conseguiram ficar perambulando, gritando, rindo, chorando, brigando e se perdoando para brigar novamente naquele local por tantos dias ininterruptos. 
A grande permanência deles na UTI eu não fiquei sabendo como foi conseguida, mas serviu para mostrar-me tudo que referi que jamais havia presenciado e por esse motivo decidi instruir-me sobre o comportamento humano e todos seus sentimentos natos, conforme já disse.
Dediquei-me intensamente nesse aprendizado de tal forma que sei absolutamente tudo sob todos os aspectos e atualmente nada me passa despercebido em nenhuma pessoa.
Porque iria se interessar por tais ocorrências já que nunca teve nenhum tipo de sentimentos?
Por muita curiosidade. Conforme já sabe esse foi o único sentimento mantido e exercido por meu cérebro inteligente, desde o início.
Graças a ele vivi. Aprendi andar, falar, ler, comer, fazer sexo mesmo não tendo nenhum órgão sexual, nadar, guiar carros, aviões, aprender e praticar enfermagem, medicina e muitas outras coisas. Minha aguçada curiosidade fez-me aprender tudo que sei e o que ainda aprenderei se é que ainda me falta instruir em alguma coisa.
Entendi.
Estudei muito nas minhas oito horas diárias de folga a ponto de entender tudo o que pode acontecer com as pessoas normais. Até o grande amor ou o desejo carnal quase irreprimível causado apenas por um simples olhar.
Depois de quatro insistentes anos de profundos estudos sobre as causas e reações das atitudes comportamentais do ser humano aprendi absolutamente tudo a respeito de amor, dor, ódio, excitação, medo, remorso, saudade, tédio, alegria, tristeza, vícios e as demais emoções que lhes é permitido sentir. Nesses anos consegui tantos conhecimentos que culminaram com a grande e maravilhosa evolução de meu cérebro chegando quase às raias da perfeição.
Infelizmente ainda não consigo com perfeição ler os pensamentos dos outros.
Isso é impossível, por enquanto. Não por mim, mas por vocês, pois há a necessidade de terem a inteligência evoluída para conseguirem a concentração e competência para transmitirem-me suas informações e isso é dificílimo aos seus cérebros atrasados e preguiçosos, que me permitem apenas entrar neles hipnotizando-os com facilidade.
Mas não sente nada disso que tomou conhecimento sobre nossos anseios e emoções?
Até aquela época não. Não sentia definitivamente nada, embora entendesse e conseguisse perceber o que as pessoas estavam sentindo ou quando iriam sentir baseado em certos acontecimentos ou em atitudes e aspirações que ocasionariam diversas reações nelas próprios ou em outras. 
Porque até aquela época? Agora sente algum sentimento?
Tive pela primeira vez um sentimento natural e muito forte há vários anos atrás e durante muito tempo permaneci com ele. É claro que devidamente controlado por mim.  
Qual foi?
O ódio.
Justo esse?
Sim. Justo esse. Quando eu tinha dezoito anos e com grande conhecimento em medicina atendia pacientes não só em sua limpeza, mas também em serviços de enfermagem em qualquer situação. 
Atendia internos feridos, operados, com “chiliques” e inclusive pacientes com doenças terminais e não somente aos que estavam em coma profundo e desenganado como no início. 
Consegui esse privilégio, pois dominava plenamente meus dois personagens, possibilitando-lhes portar-se totalmente como qualquer indivíduo, que ri, sofre, chora, reza e etc. É claro que apenas em fingimento, pois sentimentos não existem neles também, mas têm o dom de mentir e fingir.
Nunca contou sobre esse seu poder de criar indivíduos aos médicos.
Não.
Como estava dizendo nada era verdadeiro e sim criado por minha mente independente para integrar-me completamente com as pessoas.
Nessa época assistia uma senhora, que estava recuperando-se de uma cirurgia de estomago. Estava totalmente lúcida, porém muito carente, pois não tinha parentes para visitá-la. Esse foi o motivo que fez com que ela usasse tanto a Selminha como o Joel para suas conversas confidenciais. 
Quem era essa pessoa?
Não sei. Eu estava atendendo-a já há uns doze dias em sua higiene pessoal na enfermaria quando ela decidiu revelar a enfermeira Selminha um grande segredo seu.
Tal confissão fizera-me sentir um desejo que eu apenas tinha conhecimento da existência e que era a ira.
Ela contou-me em detalhes quando ajudou uma de suas amigas prostitutas dar a luz a um neném prematuro que por ser desnecessário e indesejado ia ser sacrificado, pois a mãe o atiraria ao mar.
Seu amante logo retornaria de uma longa viagem que fizera e ela jamais poderia mostrar-lhe um filho que engravidara sabe-se lá de quem. Sabia que pagaria caro tal ousadia e irresponsabilidade.
Antes de tal feito ser concretizado usou-o para proteger-se dos tiros que o amante efetuou sobre ela, pois chegara antes do previsto e a flagrara no exato momento em que ainda estava andando em direção ao oceano com o recém-nascido no colo.
A doente contou-me que assistiu a tudo bem próximo, vendo o assassino evadir-se após o crime.
Que antes de sua própria fuga viu sua amiga vadia levantando-se toda suja de sangue, escapando rápido aparentando não haver sido ferida, pois corria para longe, sem nenhuma dificuldade. Atirou o recém-nascido na areia que ficou imunda com seu sangue e miolos.  
Esse neném por acaso era você?
Exato. Fiquei sabendo quem foi a vagabunda que me usou como escudo e o homicida que me baleou três vezes desfigurando e destruindo minha vida humana para sempre, transformando-me no que sou.
A decaída que me pariu era Mercedes, fugida da casa de seus pais ainda jovem com um tal Ângelo seu amante que se tornara seu cafetão em Salvador e meu quase assassino.
O que fez com tal senhora, após a confissão que lhe causou ódio?
Apenas não lhe apliquei os medicamentos corretos e necessários, substituindo-os e introduzindo em seu sangue uma grande quantidade do vírus HIV. Ela rapidamente morreu de AIDS, embora estivesse quase curada da cirurgia do estomago.
Teve coragem de fazer isso?
Sim. Sem nenhum problema.
Isso satisfez sua revolta?
Claro que não. O ódio que determinou minha vingança não era contra ela sim contra Ângelo e principalmente contra Mercedes.
Tal vingança só consegui recentemente, graças a você e sua amiga atriz. Agora posso dizer tranquilamente que não sinto mais esse desejo de vingança e ódio.
Então viveu todo esse tempo odiando? Desde que tinha dezoito anos até recentemente?
Sim.
Então após matar sua mãe e satisfazer tal aspiração porque continuou matando?
Aguarde com calma que saberá tudo no devido momento.
Está na hora de nosso jantar. Vou buscá-lo. Demorarei mais ou menos uma hora e enquanto isso pode ir digitando o que já sabe para ir adiantando seu trabalho.
Prefiro ouvir até ao final para iniciá-lo. Escrevo somente depois da história concluída em minha mente. Acho melhor.
Tanto faz. Você quem decide sobre isso, mas não deixe faltar nada.
oooOooo
 
Enquanto eu ouvia as músicas de meu agrado fiquei imaginando como fugir do monstro após concluir o livro, pois tinha certeza que só seria possível assim, por isso resolvi ir digitando o livro, mesmo contrariando meu costume para mais rapidamente sair de onde estava.
Após quase uma hora a comida chegou trazida na mesma bandeja do café do outro dia.
Alimentamos comigo comendo fartamente e o sequestrador pouco, motivo para minha pergunta: 
Satisfaz-se com tão pouco?
Sim. Não necessito de muito alimento e nunca abuso, pois o excesso é nocivo à saúde.
Embora meus alimentos sejam de animais de ótima qualidade e as verduras e legumes orgânicos nunca como em excesso.
Realmente a carne e os miúdos estavam bem macios e os bolinhos de miolo de boi empanados ótimos.
Não são de boi.
Bezerro ou novilha?
Gente. Bebês no período da amamentação. A carne e os miúdos também.
O que? Fez-me comer carne humana? Canalha.
Meu sequestrador aguardou meu vômito exagerado durante vinte minutos para então responder-me perguntando.
Os humanos não são os mais perfeitos animais sobre a terra? Por conseguinte é mais saudável alimentar-se de suas carnes e entranhas. Não acha certo?
Solte-me já seu monstro.
Não é possível.
Não comerei mais nada que oferecer-me.
Não há problemas. Posso voltar a alimentá-lo conforme fiz até anteontem através de vitaminas injetadas em suas veias.
Prefere que eu volte a colocar suas cordas de aço transportando seus líquidos alimentares ou quer que eu aplique diariamente com injeções?
Coloque as cordas, pois odeio furadas de agulha, mas não vá me dizer que me alimenta com sangue humano?
Não desperdiço tal néctar com você.
Está bem. Faça assim, mas anestesie-me conforme fez da primeira vez, pois o que mais detesto é sentir dor e com certeza sentirei ao espetar minha veia nos pulsos antes de colocar as algemas. 
Farei isso, mas nesse caso não poderei soltá-lo como já tinha feito cumprindo minha promessa em satisfazê-lo.
Não faz mal.
Meus alimentos são ótimos. Chegou até comentar que são bons. Porque os recusa?
Vá pro inferno.
Nada tenho a fazer lá.
Faça o seguinte. Eu vou sentir bastante bem alimentado apenas com os lanches e frutas iguais ao que me serviu dias atrás, portanto gostaria de ser alimentado assim. Pode ser? 
Está bem. Farei como deseja. Terá sua alimentação através de frutos, legumes e verduras.
Tenho que agradecer?
Não é necessário e até amanhã, pois por hoje basta.
Minha indisposição não terminava por isso meu raptor determinou que a conversa acabasse nesse momento para que eu descansasse e reiniciaríamos no dia seguinte.
Despediu e retirou deixando-me raivoso e com grande incômodo estomacal, direto no vaso sanitário evacuando e vomitando exageradamente, muito depois de já ter desfeito de toda a carne humana ingerida.
Mesmo sentindo todo esse desconforto eu ainda lhe gritei:
Você disse que nunca muda de idéia após decidir alguma coisa e em menos de cinco minutos modificou várias vezes sua decisão, seu cachorro filho da puta e imbecil.
Primeiro você resolveu acorrentar-me novamente depois que já ter decidido soltar-me. Coisa que já tinha feito. 
Segundo porque resolveu concordar em manter-me solto e alimentar-me com injeções e depois optou por trazer-me legumes e lanches modificando novamente sua decisão pela terceira vez. Você é um grande charlatão e mentiroso. Não acreditarei em mais nada que falar-me seu cretino miserável.
oooOooo
 
No novo dia não houve o café da manhã semelhante ao anterior composto apenas de café e cigarros, já que havíamos combinado não ser servido mais almoço e jantar.
A farta mesa com o desjejum voltou eliminando-se todos os produtos de origem animal. Foi-me servido muitas frutas, sucos, legumes e verduras cruas, vinagre balsâmico, azeite de oliva do Egito, sal, pão, café e água.
Meio desiludido não fiz nenhuma reclamação e apenas resmungando atirei um a um tudo no vaso sanitário e dei descarga.
Após isso ingeri um pouco de água do bebedouro antes de aceitar os cigarros que visivelmente eram de fabricação Souza Cruz, portanto legítimos.
Comecei a conversa do dia muito irritado perguntando ao monstro disfarçado de Enfermeiro: 
Como você desfaz dos ossos e das carcaças de suas vítimas que lhe servem de alimentos?
Primeiro devo esclarecer-lhe sobre seu questionamento de ontem após eu sair, ou refletiu a noite toda e concluiu que é desnecessário?
É claro que quero explicação sim seu jumento.
Pois bem. Repare que acabei de perguntar-lhe se quer os esclarecimentos ou não. Você optou por querer e vou falar, mas caso optasse por não precisar é obvio que eu nada falaria, portanto saiba que estou apenas respondendo para satisfazer o seu desejo e não o meu.
O mesmo se deu ontem, pois lhe perguntei se optava por voltar aos cabos de aço conduzindo sua alimentação ou se preferia injeções e você escolheu o cabo de aço e eu apenas concordei em satisfazê-lo. 
Você que é indeciso mudando dos cabos de aço para os alimentos naturais e eu apenas novamente aquiesci, portanto não fui eu quem mudou de opinião em decisões já pensadas e sim você, seu eterno titubeante. Todas as decisões e alterações foram suas e não minhas.
Parece que foi isso mesmo.
Parece não. Foi exatamente assim.
Enrolou-me novamente.
Não faço isso. Tudo que falo ou faço é correto e exato sem nenhuma embrulhada, pois não preciso de tal subterfúgio. Aliás, nem sei como efetuar evasivas. A propósito, lembra-se quando me despedi ontem?
Sim. Gritei-lhe as perguntas que acaba de responder-me.
E eu fiz o que?
Nada. Apenas foi embora sem dar-me resposta.
Pois é. Um pouco antes eu tinha decidido retirar-me e disse “Não é necessário e até amanhã, pois por hoje basta”. Tal decisão de afastar-me era fato consumado e não voltei atrás, embora soubesse que você sofreria a noite toda por esperar alguma manifestação minha, mas isso é problema seu e não serei eu quem resolverá suas inquietações. 
Respondendo sua pergunta de hoje digo-lhe que tenho vários trituradores na casa que moem as sobras dos animaizinhos devorados transformando tudo em partículas minúsculas como pó, que são lançadas com os demais dejetos no esgoto normal da rua, desaparecendo em definitivo nas usinas da Prefeitura que recebem o material. Não fica nenhum vestígio.
Seu canalha assassino. Quanta maluquice e maldade.
Nada disso. Apenas sobrevivência da maneira mais saudável. Alimento-me apenas dos melhores legumes e frutas sem agrotóxicos e carnes de recém-nascidos do melhor animal que ainda não infectou seu corpo com alimentos danosos. Deveria fazer o mesmo. É a forma de alimentação mais saudável que existe.
Jamais seu calhorda estúpido.
Lembra-se onde paramos em nossa conversa sobre minha história?
Acho que me lembro, mas primeiro vou informar-lhe que não é tão imune à falhas conforme vive dizendo, pois ao contar-me como desfaz dos restos mortais dos bebês eliminados e comidos avisou-me que joga os ossos depois de moídos com os despojos no esgoto público. Deixou claro que estamos em algum lugar dentro da cidade e não afastados em alguma fazenda. Não acha que seu erro fez-me descobrir algo que gostaria que eu não soubesse?
Algum tempo antes realmente preferia que não soubesse onde está, mas como você próprio já determinou que não deve permanecer vivo, é claro que isso não importa mais.
Antes de assassinar-me terá de levar-me para editar e imprimir o livro, portanto terei tempo e liberdade para informar tudo à polícia que o caçará aqui.
É claro que isso será impossível, pois aliada a sua incapacidade de informar o lugar exato terá a polícia incompetente dificuldade em localizá-lo, mas como eu nunca deixo pistas quando sairmos daqui você ainda ficará alguns dias em outro local que já tenho preparado após eu demolir tudo aqui.
Nada sobrará a não ser um terreno desocupado, embora essa precaução seja desnecessária assim farei.
Você é quem faz tudo seu Super Faz Tudo?
Todo o trabalho braçal e de raciocínio exato sim. É fácil para mim, pois tenho condição e aptidão para executar tais tarefas rapidamente e sem falhas.
Tudo que tem aqui e o que você usa foi inventado por você?
Não. Como já lhe disse meu cérebro não me permite nenhuma criatividade. Jamais terei essa capacidade. Tudo que uso são coisas já criadas por outros que eu somente as compro conforme minha necessidade para proteger-me.
Então não é tão perfeito como se propõe.   
Claro que sou. Sou muitíssimo mais competente que qualquer pessoa existente na terra até o momento, pois sou indestrutível e apto a aprender muito mais coisas que qualquer um. Tudo proporcionado por meu poderoso cérebro.
Para você tomar conhecimento digo-lhe que sei o exato significado de todas as palavras da língua portuguesa e de todos os outros idiomas existentes no mundo, incluindo-se os dialetos, que simplesmente li uma única vez em seus melhores dicionários.
Voltemos ao assunto no ponto em que estávamos que é o que nos interessa. 
Que lhe interessa, pois nossos interesses são bem distintos. Eu quero ver-me livre de você e você quer-me atado a ti para ouvir e relatar seus crimes.
Se pensa assim tudo bem, mas continuemos a história.
Minha pergunta ontem sobre sua narração foi se após matar sua mãe e satisfazer seu desejo de vingança porque continuou matando? Quero saber por que matou sua meia irmã atriz e seu primo Zinho, que acho que é o final de sua história.
Errado. Essa pergunta foi feita após nosso jantar, quando eu tinha me adiantado na narrativa para informá-lo o quanto tempo alimentei meu ódio, entretanto estávamos ainda falando da velha prostituta que me informou sobre meu nascimento e minha “morte”. Preste atenção para a sequência dos fatos para não escrever tudo desordenado e fora de local.
Foi por ela que soube da origem de tal casal que decidi procurar em Salvador mesmo, pois conforme informações não voltariam a sua cidade natal por todo o mal que lá haviam causado.
Eu precisaria viver na cidade para a procura, mas os médicos mantinham-me cativo dentro do hospital.
Porque você se manteve preso e não fugiu usando sua força e competência? 
Nova pergunta inesperada. Não vamos nunca terminar esse livro. Por favor, tenha um pouco de bom senso e raciocine. Como eu iria viver fora de lá simplesmente desfazendo-me de todo mundo que visse a frente e correndo pelas ruas igual um lobisomem, ou um vampiro, ou qualquer outra besta que você vê nos filmes idiotas de horror?
Está certo. Não vou interromper mais. 
Meu primeiro passo foi planejar como sair para viver em liberdade e tranquilo entre as pessoas da cidade para localizá-los.
Os cientistas faziam por mim tudo que eu tinha necessidade para continuar vivo, servindo-lhes incógnito, como cobaia no laboratório, pois através de experiências comigo chegaram a muitas curas. Transplantes foram vários que fizeram usando rins, fígado, pâncreas, coração e sangue que eu fornecia. 
Não dá para não perguntar. Eles usaram partes suas em transplantes?
Em vários. Ganharam muito dinheiro de milionários que não pretendendo ficar em filas de espera por doadores de órgãos e se submetiam à operações que lhes eram ofertadas a altíssimo custo e com órgãos extraídos na hora da cirurgia, sem nenhum risco de infecções ou rejeições.
Como assim?
Tais operações não eram feitas nas tradicionais salas de cirurgias e sim no laboratório escondido que eles tinham. Como meu sangue recompunha instantaneamente depois de tirado eles simplesmente efetuavam uma troca total do sangue dos doentes pelo meu através de transfusão. Em seguida extraiam-me o órgão necessário, que também seria refeito em mim e o transferia direto para o receptor, sem causar nenhum problema a eles, que felizes recebiam um órgão completamente sadio, sem rejeições ou infecções.
Tenho de acreditar em tudo isso?
Crer não é necessário, mas escrever sim.
Desde quando os médicos sabiam que seu organismo se refazia ao ser cortado?
Quando descobriram que eu parara de crescer antes de completar treze anos e tentaram pela segunda e última vez serrar meus ossos para eu ser remendado definitivamente.
Estavam tentado cortar os ossos de meu braço quando por serem duros demais quebrou a serra que usavam e nesse incidente que poderia ter-me sido fatal, o pedaço dela que ficou com uma ponta fina qual um punhal cravou-se em meu coração não só o furando como o cortando ao meio devido a força com que fora impulsionado. O estrago não ficou só nisso, pois o médico desesperado e desajeitado ao tentar tirar com rapidez tal peça de meu peito aberto conseguiu cortar-me a carótida e um grande pedaço de um dos pulmões. Ficaram maravilhados vendo tudo ir sendo refeito imediatamente mesmo estando eles com os pedaços dos órgãos em suas mãos. A partir desse acontecimento começaram usar meus órgãos vivos para ganhar dinheiro dos interessados em transplantes urgentes.
Realmente não acredito.
Já disse não ter problema.
Posso cortar-lhe o coração ao meio? Agora tenho coragem para fazer isso se emprestar-me aquela faca bem afiada.
Já teve essa oportunidade e não quis. Agora não lhe permito mais.
Como você passou por tudo isso sem nenhuma objeção?
Nada me preocupava ou interessava, pois a ausência das emoções e o próprio desconhecimento delas não me proporcionavam nenhuma atitude.
Agora é diferente?
Um pouco. Naquela época ignorava que eu era o único ser na terra a ser como sou.
Após aquele inusitado desejo de ódio de senti passei a ter cautela com relação a meu descobrimento por outras pessoas. Sabia teoricamente sobre as aspirações delas de se satisfazerem quando algo era desejado, mas na prática só fui entender a força que move o individuo é realmente muito forte quando senti a ira e consequente vontade de vingar-me de Mercedes e Ângelo.
Continuo não tendo nenhum sentimento, mas tenho ciência de sua existência, suas reações e também as ambições provocadas nos outros e sei exatamente das loucuras que se fazem para satisfazê-las. 
Paises inteiros moverão mar, ar e terra para terem-me em seus laboratórios, portanto jamais poderei ser encontrado. Você é a única pessoa que sabe sobre mim.
Isso é outro aviso que serei morto? Porque não me mata agora então? Estou aguardando até ansioso por esse momento.
Sem resposta a essa besteira. Só depois do livro pronto.
Sabendo disso passei a evitar informações aos médicos e por esse motivo solicitei-lhes, sem que eles desconfiassem de meus planos, muitas coisas para minha futura vida que iniciaria em breve. 
Satisfizeram-me sem objeções, pois não imaginavam meus planos de fuga.
Então você mentia para eles?
Jamais. Eu apenas omitia minhas intenções.
Inicialmente substituíram a parte de meu crânio de aço, por outro material sintético e tão duro quanto o anterior, porem não metálico. Com o mesmo material trocaram todos os meus pedaços.
Não são de aço?
Outra vez pergunta-me isso? Já disse que não. O material é apenas da mesma cor.
Assim eu poderia passar por detectores de metais em bancos e aeroportos como qualquer pessoa normal?
Como sabia da existência de tais impedimentos que encontraria?
Eu sempre estudei muito, lia vários jornais, revistas e via televisão, além de conversar com pessoas, portanto tinha conhecimento de como se vivia nas ruas.
Antes que me interrompa com mais perguntas idiotas e inúteis saiba que no hospital aprendi praticando, dirigir carros e helicópteros.
Satisfazer sexualmente homens e mulheres internos com minhas mãos e boca e muitas outras coisas mais. Teoricamente aprendi pilotar aviões e barcos, se bem que até hoje nunca precisei usá-los a não ser como passageiro.
Foi nessa época que solicitei a criação de outra fantasia e aí originou a mulher morena, que futuramente virou enfermeira, com nome e documentação completa. Falsa é lógico, porém perfeita para meus permitidos, embora supervisionados passeios na cidade. Ela se chama Soraya.
Aos poucos adquiri permissão para entrar e sair do hospital só e livremente usando a fantasia dessa mulher, que se passava por uma visitante. 
Foi nessas minhas saídas que procurei o atelier do artista que confecciona minhas fantasias. Ele era paulistano, mas morava e trabalhava em Salvador.
Com dinheiro acumulado que aliviei de muitos doentes, de médicos e de trabalhadores do hospital consegui outras fantasias escondendo-as antes de desfazer-me do artista que as confeccionou. 
Ele sempre foi muito bem pago pelos cientistas para nada divulgar sobre mim, embora o que soubesse sempre foi muito pouco. Só soube de minha existência quando procurado para fazer minha primeira camuflagem quando eu já tinha quase treze anos, portanto só imaginava-me uma pessoa muito deformada por acidente e nada mais. Entretanto para não correr nenhum risco de qualquer interferência no sucesso de minha vida que logo iniciaria em total liberdade tive de suprimi-lo.
Você simplesmente o matou. Como?
De uma forma bem simples e já usada na prostituta internada no hospital. Nos vários dias que estive com ele para fazer-me novos disfarces hipnotizava-o e aplicava-lhe grande quantidade do vírus que o eliminou rapidamente com AIDS.
Sua morte foi muito comentada pela imprensa na época, pois se tratava de um famoso criador de máscaras para o carnaval e para efeitos especiais de filmes, mas sua doença mortal considerada totalmente correta, pois além de homossexual era viciado em drogas injetadas.
Imagino que o próximo passo era desfazer-se dos cientistas.
Exatamente. 
Detonei o laboratório fazendo desaparecer todos os documentos e estudos sobre mim e os cinco médicos juntos. Sai para longe do hospital com a fantasia do Negro Alberto que nunca havia sido vista por ninguém por ser uma das novas. 
Antes de destruir o laboratório onde ficava meu esconderijo, retirei todo o dinheiro do “caixa dois” que tais diretores mantinham, pois teria necessidade em minha vida futura. 
Como tudo que faço, fiz um trabalho tão perfeito que não ficou nenhum vestígio de incêndio provocado e sim a aparência de um violento acidente causado por explosão de vários tubos de oxigênio comprimido culminando com o fogo.
Lembro-me desse acidente em um grande hospital de Salvador. Foi muito divulgado, não só no Brasil como no mundo todo. 
Não me interrompa, por favor.
Foi bastante fácil comprar uma pequena casa para eu morar como Soraya Arruda Sartório Schimidt, que era o nome completo da mulher morena com documentação e adquirir um carro para minha locomoção. O lugar ficava após a colônia de pescadores no final da praia de Itapoã, próximo das dunas.
Usando somente essa fantasia passava meus dias e noites a procura da mulher que me pariu e seu companheiro, que tinham se separado desde que ele tentou matá-la. 
Foi fácil encontrar Ângelo, pois ele não fazia nada na vida a não ser frequentar as zonas de meretrício para cafetinar prostitutas. 
Passando-me por uma delas o aliciei e o levei a minha casa submetendo-me a suas carícias, mas embebedando-o até ficar totalmente grogue e sem poder de reação embora não precisasse, pois minha força seria suficiente para imobilizá-lo e fazer dele o que quisesse.
Trabalhei nele mais de quatro horas.
Cortei seu pênis e seus bagos que o fiz comer. Depois lhe arrebentei os tímpanos para torná-lo totalmente surdo. Cortei-lhe a língua e as cordas vocais deixando-o mudo. Furei seus olhos cegando-o e com ácido destruí-lhe as pontas dos dedos deixando-o sem impressões digitais. Inutilizei os tendões das mãos para eliminar seus movimentos.
Tudo foi feito sem nenhuma anestesia, intencionalmente, pois pretendia fazê-lo sofrer todas as dores, mas com muita assepsia para evitar infecções. Impedi hemorragias, e efetuei todas as suturas necessárias para ao cabo de sessenta e sete dias ele estar totalmente curado e cicatrizado, porém surdo, mudo e cego, sem a mínima possibilidade de se comunicar ou de ser identificado e principalmente sem o caralho e os culhões que vocês tanto veneram. 
Levei e abandonei-o na cidade de Belo Horizonte, pois soube em nossa conversa que nunca tinha estado lá, para sequer ser reconhecido por ninguém durante o restante de seus dias que gostaria que fossem muitos.
Nunca mais soube dele?
Que interesse deveria ter?
Saber se tudo havia dado certo, por exemplo?
Antecipadamente eu já sabia que não haveria erros.
Para se satisfazer com sua maldade seria outro motivo.
Não insista em suas burrices. Eu não sinto prazer por nada e tão pouco tenho vontade de saber resultados de feitos que eu mesmo já tenha determinado, pois tudo que faço eu já planejo o início, o meio e o fim, portanto ao fazer o que pretendo já sei quais serão os resultados finais e pronto.  
Continuei procurando Mercedes durante dois anos em todos os antros de prostituição de Salvador e de toda a Bahia.
O dinheiro surrupiado não acabava nunca?
Sim. Acabava. Mas conseguia mais.
Como?
Não faz o menor sentido na história por isso creio não ser necessário.
Mas é preciso incluir todas suas façanhas em sua biografia.
Qual o motivo?
Você não pretende que o mundo saiba sobre você? Não foi isso que me disse?
Foi e continua sendo meu atual desejo.
Então todas suas proezas são necessárias serem ditas. Ouvi errado ou você falou atual desejo?
Ouviu certo. Como já tinha dito anteriormente após desfazer-me de Mercedes cessou meu desejo de vingança para voltar novamente após alguns dias e que foi acabar com todo o restante dos remanescentes dos Pereira da Silva. Resolvi mais essa obrigação para depois sentir outra vontade que é a terceira e a mais recente das emoções.
Então me parece que está se tornando humano, pelo menos no que diz respeito a ter sentimentos.
É provável que sim, se bem que de forma muito lenta.
Você que é o romancista acha necessário informar sobre como consegui mais dinheiro, portanto vou satisfazê-lo.
Devido a descomunal força que tenho assim como meus personagens sempre nos foi fácil penetrar em várias mansões, onde conseguimos uma fortuna para eu não ter problemas econômicos por muitos anos. 
Jamais encontraram quem se apossou de tanto dinheiro, pois nunca ficou viva nenhuma testemunha.
Para sua informação tive muita participação do ruivo Edward nessas aquisições de dinheiro.
Lembro-me de antigos noticiários sobre um assassino em série que trucidou cruelmente muitas famílias após invadir suas casas em Salvador, mas ele foi encontrado e morto pela polícia em um dos assaltos e tal homem nem sequer era branco, portanto impossível de ser ruivo. Era um baiano negro. Vi suas fotos nos jornais da época.
Engano seu. O Edward forjou provas e incriminou um delinquente conhecido que passou por causador de tais crimes.
Como ele fez?
Também interessa isso?
É claro que sim. O escritor sou eu ou você?
Está bem. Informo-o, porém de maneira rápida, pois é um episódio que não creio tão importante, mas vamos lá. 
Já havia planejado tudo antes de iniciar.
Em todas as visitas as casas eu deixava pistas que orientassem a polícia de tratar-se de apenas uma única pessoa.  
Quando eu havia decidido que não precisava mais efetuar saques, coloquei a morena em ação para assediar um homem e conquistá-lo. É claro que se tratava de um marginal previamente escolhido pela fama de seus feitos, nos piores antros da cidade.
Embriagado e desmaiado ele foi levado então pelo Edward até uma das mansões onde seria coletado dinheiro pela última vez, deixando-o escondido em uma das varandas da casa onde não havia risco de ele ser visto. Ficaria dormindo ali por pouco tempo. Apenas o necessário para Edward desfazer-se da família e da criadagem e apanhar o dinheiro daquela casa. 
Ele fez o imprescindível com todos da mansão e propositadamente fez barulho suficiente para chamar a atenção de visinhos, transeuntes e principalmente da polícia para a parte de trás da casa onde estava o bandido desmaiado. Até o alarme de lá ele fez soar com a finalidade de atrair a polícia exatamente para lá.
Nesse lugar onde não houve nenhuma cautela por parte do Edward, pois foi no local mais escondido nos fundos da casa por ser o lugar mais próprio para a fuga. 
Quando os homens da lei apareceram no referido quintal foi fácil Edward agachado e não visto levantar o bandido adormecido para aparentar que ele iria saltar para a fuga para que tais policiais descarregassem suas armas sobre ele em pleno ar. Ele caiu crivado de balas e morto no chão.
O plano era exatamente esse. 
Inevitavelmente a polícia se dirigiu até o morto para encontrá-lo com as facas sujas de sangue das vítimas, uma mochila com o dinheiro e jóias da casa para não haver nenhuma dúvida. 
Tais homens da lei imaginando terem achado finalmente o criminoso solitário, permitiram-me sair tranquilamente pela frente da mansão, para nunca mais apanhar dinheiro de tal forma e o caso ficar definitivamente solucionado e encerrado.
Ao sair você poderia ser visto por algum policial que estaria viajando a frente da casa e seu plano daria errado e poderia até ser preso ou morto. Precisou contar com a sorte de ninguém estar lá, portanto acho que esse foi um procedimento arriscado e não exato conforme fala que sempre faz.
Fiz tudo de forma correta para terem certeza absoluta de encontrarem o assaltante pelos fundos para que a frente ficasse totalmente desguarnecida. O plano foi idealizado e executado de maneira perfeita e sem possibilidade de erros e se houve sorte foi deles e não minha.
Caso alguém me visse ele é quem seria morto e não eu. Esqueceu-se que sou indestrutível? 
Se acontecesse tal incompetência por parte dos policiais em vigiar a frente, seria apenas mais um crime cometido pelo serial, antes de morrer nos fundos da mansão ao tentar fugir por lá. 
Considerariam que o assassino morto tenha antes tentado sair pela frente matando um ou mais guardas e voltado para dentro para tentar fugir pelos fundos onde foi pego pelos outros que lá o aguardavam. 
Estaria o caso encerrado da mesma maneira, apenas acrescentando um ou mais defuntos se tivesse acontecido conforme imaginou.
Acho que está certo, mas tenho ainda algumas dúvidas que preciso sanar.
Quais?
Você disse tratar-se de obra de Edward e fala que ele fez isso, ou aquilo etc., e outras vezes fala na primeira pessoa como se tratasse de você.
Outra pergunta é que quando se refere a seus assassinatos sempre usa expressões como “fiz o necessário às pessoas ou simplesmente desfiz delas” e com relação aos roubos, fala “efetuei o saque ou coletei o dinheiro” ou outra coisa qualquer que não soa como crimes hediondos que são. Ao passo que ao falar do bandido que morreu você o trata de assassino e ladrão. A última pergunta é porque matou todas suas vítimas a facadas se lhe seria totalmente possível apenas hipnotizá-las para cometer os assaltos?
A primeira pergunta foi a mais estúpida, pois você já deveria saber.  Já lhe disse que posso usar meus personagens ou simplesmente seus disfarces, portanto quando me refiro a eles é porque são de fato eles que agiram e quando refiro a mim é porque sou eu que estou em atividade usando suas roupas.
No inicio da explicação eu disse que muita coisa foi planejada por Edward e não “tudo”, portanto nem sempre era ele. Às vezes era eu com sua mascara quem entrava nas casas. 
As outras duas perguntas também cretinas há muito você já soube. Meu cérebro não entende que tirar a vida de alguém ou apossar-me de dinheiro de outros sejam coisas erradas, pois faço isso quando necessário à resguardar minha identidade, para prover minha alimentação ou outra necessidade qualquer e nunca por nenhum prazer, até porque não sinto tal emoção. Minhas leis são feitas e ditadas por mim exclusivamente a mim e aos meus personagens.
Com referencia ao homem que usei tratava-se apenas de um humano comum que era um habituado contraventor de suas leis ridículas, portanto ele sim pode ser considerado com os termos empregados, pois ele infringia as leis impostas por vocês.
O último questionamento idiota digo-lhe que já tinha planejado criar um serial keller executando todas as pilhagens de dinheiro e eliminação das pessoas sempre da mesma forma para determinar ser o mesmo homem em todos os casos. Ele não poderia ser bonzinho apenas roubando, pois a polícia também poderia ter sido boazinha apenas prendendo-o e então ele não seria reconhecido pelos assaltados por não ter sido ele o delinquente e o plano não daria certo seu energúmeno. 
Não poderia ficar ninguém vivo para identificá-lo.
Quando ele morresse nas mãos da polícia terminaria definitivamente as buscas do assaltante assassino que não deixou nenhuma vítima viva para identifica-lo e testemunhar não ter sido ele.
Até que foi tudo muito bem planejado. Parabéns.
Foi após essas ocorrências que decidi procurar Mercedes em sua terra de origem. No Ceará.
As máscaras da enfermeira Selminha, do Enfermeiro Joel, da Soraya, do Alberto Negrão e do ruivo Edward foram guardadas, para evitar qualquer reconhecimento possível, pois já haviam sido usadas.
Porque essa preocupação?
Selminha e Joel sempre foram muito vistos no hospital e desapareceram na ocasião da explosão, por isso não poderiam aparecer por longos anos, pois seriam crivados de perguntas. A mascara da Selminha nunca mais usei, pois a modifiquei.
Soraya saia e entrava no hospital muitas vezes quando eu visitava o artista para confeccionar as demais máscaras e também andou muito pelos antros de prostituição a procura de Ângelo e Mercedes e por esse motivo também deveria ficar guardada durante anos.
Só recentemente a usei. E foram muitas vezes. A última foi quando fui ao Canadá.
Eliminar a Rosa?
Sim.
O Edward apareceu muito em Salvador na ocasião em que precisei conseguir dinheiro antes de acabarem minhas reservas extraídas no hospital. É óbvio que ele nunca foi visto nas casas, mas andava calmamente pelas ruas antes e depois dos casos concluídos.
A fantasia do Alberto Negrão eu tinha usado uma única vez quando me retirei do hospital após a explosão do laboratório, mas mesmo assim nunca a usei na Bahia.
Ainda tinha sem ter sido usada a mascara que estou agora que é identificada por Enfermeiro. Foi com ela que visitei o Ceará.
Quantas e quais as caracterizações que tem.
Aguarde para amanhã que as trarei para sua satisfação pessoal. Verá os oito rostos embora já conheça todos.
Todos não. A Soraya, o Enfermeiro Joel e o tal ruivo eu nunca vi.
É claro que sim. Quando vê-los você reconhecerá. Agora vou retirar-me para seu descanso.
O indivíduo retirou-se sem eu inquirir nada.
Mesmo estando cansado trabalhei bastante para continuar escrevendo a história, pois o computador já estava devidamente liberado para tal fim.
oooOooo
 
Nova manhã e o Enfermeiro regressou com uma mala enorme que aberta exibiu-me vários rostos. 
Apanhei a máscara do mendigo, falando:
É muito pesada. Como consegue carregar isso e mais as outras partes que deverão ter um peso bem maior? Esse material interno não é aço mesmo?
Sou forte o suficiente para sequer perceber peso algum e nada é aço, pois as duas primeiras que eram Selminha e Joel, feitas desse metal depois foram substituídas por outro material sintético que na verdade nem sei qual é e pouco me importo.
Aço, silicone, queijo ou manteiga não farão a mínima diferença, pois meu cérebro é suficiente para proteger-me o corpo todo. 
E sua cabeça, poderia ficar exposta.
Não sei. Acho que não, pois meu cérebro se for danificado talvez não tenha condições de se refazer, portanto minha caixa craniana deve manter-se muito bem protegida.
Isso é um fato concreto?
Não. Eu apenas creio que deva ser assim, mas saiba que jamais conseguirá atingir meus miolos para tentar descobrir se morrerei ou não. Estão maravilhosamente bem guardados e blindados sob meus indestrutíveis ossos e meu lado prótese também indefectível. O remendo não é removível, portanto impenetrável.
Veja essa camuflagem. É a do motorista Alberto Negrão que lhe salvou a vida vinte e cinco anos antes.
Obrigado Negrão. Devo-lhe a vida e qualquer dia retribuirei esse favor.
Falei debochado apanhando e apalpando também esse rosto com vontade de esmagá-lo se me fosse possível. 
Agora você reconhece todos meus disfarces? 
Essa morena muito bonita é a Soraya ou a Selminha?
A Soraya é lógico. Esqueceu-se que Selminha era ruiva?
Tinha esquecido. Onde está ela.
Não se lembra também que ela transformou-se no mendigo?
Não me recordava. Quando e como foi isso?
Quando cheguei a São Paulo tive necessidade de infiltrar-me sem riscos no abrigo do Sebastião e seu bando e nenhuma pessoa em seu estado perfeito de qualquer sexo seria bem recebida e eu precisaria ser aceito, por isso estraguei-a o suficiente para criar o seu amigo Velho Quim.
Mas o material empregado não é mais forte e duro que o aço?
Sim. 
Então como conseguiu?  
Muito simples. Qualquer material existente na terra ou produzido pelos atuais homens é fraco para minha força. Com minhas mãos posso tudo.
“Com minhas mãos?” Você só tem uma.
A ausente para você não representa o mesmo para mim. As pontas de meus ossos e os nervos existentes permitem-me fazer qualquer coisa como uma mão real.
Então você destruiu a Selminha?
Cortei-lhe os cabelos deixando-os raros e ralos com vê, além de branqueá-los. Arranquei vários dentes, uma orelha e um olho fazendo duas enormes cicatrizes nos locais, além de outros sulcos menores denotando envelhecimento. Não uso as próteses de meu pé e de minha mão inexistentes deixando tais locais bem visíveis, para que todos notem tais defeitos e uso roupas maltrapilhas que me identificam perfeitamente bem um velho de aparência totalmente incapaz, porém capaz de fazer exatamente tudo que me proponho.
Mas ele anda coxo e com dificuldade.
Ele sim, pois foi criado para assim caminhar, mas sua força, sua agilidade, sua visão, sua audição e seu tato são muito melhores que a de vocês.
E os seios da Selminha?
Nunca existiram. Uma simples enfermeira nunca teve a necessidade deles e nem do aparelho genital, portanto no Velho Quim nada existe desses pormenores assim como no Enfermeiro Joel que usa as mesmas próteses com exceção do rosto, do peitoral e dos braços que foram feitos exclusivamente para ele.
As demais camuflagens são completas?
Existe apenas um corpo perfeito de homem e um de mulher, que posso usar com cabeças diferentes para cada necessidade.
Você me diz ser perfeita aquela vagina da loira? E aquela enorme vara do alemão assim como seu buraco? São as genitálias mais imperfeitas que já vi em toda minha vida.
Você não gostou deles, mas há muita gente que gosta, pode ter certeza.
Continuei pegando os rostos em minhas mãos cravando-lhes as unhas, sempre compridas pelo total desleixo que sempre tive com minha aparência e percebi que o material de certa forma cedia. A forte pressão que aplicava não arranhava nem estragava, mas, notei que as máscaras não eram tão duras como ouvia falar.
Que pretende beliscando meus auxiliares? Agora que estão inertes faz-se de macho?
Não estou fazendo isso.
A todo instante está cravando suas frágeis garras neles.
Só para sentir sua firmeza.
Que conclusão chegou?
Que não são tão duros quanto fala, portanto só vive a falar-me mentiras.
Infeliz. A parte externa é apenas acabamento. Pergunta-me tudo que precisar saber, pois pelo que percebo não tem suficiente sabedoria para entender nada por si só.
Os rostos e todas as outras partes do corpo têm um acabamento em massa para dar uma melhor forma e cor de pessoas. Principalmente nos rostos onde é necessário mover-se os maxilares, os lábios e os olhos. Tais locais são bem maleáveis. Suas unhas não conseguiram fazer nenhum sulco ou arranhão, mas uma faca com bom corte ou um tiro pode danificar sim. Tal dano seria só superficial, pois internamente é impenetrável, embora não fosse necessário, pois conforme já sabe meu corpo se reconstruirá se for ferido.
Entendi. 
Esse ruivo realmente parece-me que não é estranho, mas a Soraya e o Enfermeiro Joel eu nunca vi.
Vou contar-lhe como os conheceu.
O Enfermeiro Joel assim como a Soraya que acabei atribuindo-lhes conhecimentos de enfermagem, trabalharam no hospital no bairro Paraíso de São Sebastião para vigiarem e descobrirem coisas de Dr. Sebastião Filho e na época que você fez uma visita ao médico por ocasião do nascimento de seu primeiro filho esteve em seu consultório e o Enfermeiro Joel estava lá. Serviu-lhe um café que na ocasião aceitou já adoçado com açúcar e quente, embora ficasse ridiculamente assoprando o conteúdo da xícara para esfriá-lo.
Lembra-se disso depois de tantos anos?
É claro. Você não se lembra?
Tenho memória seletiva e só recordo-me do que me interessa.
Pois está muito errado. Deveria memorizar tudo que lhe acontece durante a vida toda. É muito melhor para quando no futuro precisar reconhecer alguém ou recordar um fato antigo. Pode salvá-lo de algum perigo iminente a qualquer tempo.
Nunca tive inimigos a não ser agora, portanto jamais precisei disso.
Refere-se a mim como inimigo?
Não é?
Não.
Mas vai matar-me?
Não significa que eu seja seu inimigo. Apenas tenho necessidade disso.
Como eu conheci Soraya e o Edward.
Quando precisei entrar em seu apartamento.
O que? Em meu apartamento? Quando e como fez isso?
Exatamente há três anos oito meses e quinze dias, foi a primeira vez que estive em sua casa.
Foi lá mais de uma vez?
Sim. Lá estive quatro vezes. Em todas elas almocei com você e sua esposa além de passar o dia todo.
Como foi isso? É mentira. Isso é impossível.
Naquela ocasião eu já sabia que estava escrevendo o livro Tempestade que falava sobre a vida de Sebastiaozinho e eu precisava ler o que já tinha escrito para saber se havia possibilidade de descobrir o paradeiro de Mercedes prima dele, pois eu não conseguia encontrá-la em lugar nenhum.
Usei o russo Edward para trabalhar como porteiro em seu condomínio durante um ano e dois meses, tempo suficiente para ele ficar muito conhecido e querido, pois era de excelente qualidade profissional e de fácil trato com as pessoas que o admiravam pela gentileza e cortesia. Após ele provar ser de inteira confiança aos moradores ele prontificou-se em indicar uma moça para fazer os serviços de diarista para sua esposa, que muito zelosa só aceitava em sua casa para tais trabalhos, pessoas bem recomendadas. Soraya foi a sua residência para conversar sobre tal serviço e a empatia entre as mulheres foi imediata, graças a grande educação de sua esposa que é o seu oposto e a graciosidade com que Soraya se apresentou.
Nunca teve nenhuma Soraya trabalhando em minha casa e se esteve quatro vezes em minha mesa eu a reconheceria.
Alguns detalhes modificam as coisas. Ela como pode mentir, identificou-se como Luana e embora usasse o rosto, os braços e as pernas de cor morena de Soraya usou o peito e o abdômen magro do mendigo e a peruca da Loira. Ficou muito diferente da Soraya.
Nesses quatro dias semanais que esteve lá Luana ao limpar seu escritório copiou em DVD tudo o que tinha escrito sobre o Livro, que de nada me valeu por total desconhecimento que todos vocês tinham sobre o paradeiro de Mercedes.
Filho da puta. Então invadiu minha casa.
Está reclamando por quê? Foi de maneira totalmente pacifica e foram as quatro melhores faxinas que sua residência já teve por um preço bastante miserável que você permite sua esposa pagar tais profissionais.
Pergunte a ela quando se encontrarem se ela não insistiu com a faxineira Luana para continuar os serviços quando ela avisou que não poderia ir mais. Até ofereceu-lhe melhor remuneração.
Já é noite e vou deixá-lo descansar.    
Vai manter-me sem alimentos para sempre? Vou acabar morrendo por inanição e adeus livro. Não me alimentei de nada.
Porque não quis. Comida eu lhe trouxe e você jogou fora ou esqueceu-se disso?
Lembro-me muito bem. Não acreditei que eram saudáveis.
Bastava perguntar-me, pois como eu não minto lhe responderia que todos os legumes e hortaliças eram de origem vegetal sem agrotóxicos.
Fiz burrada.
Como sempre.
Não vai trazer-me nada para comer? 
Suas próprias banhas o satisfarão hoje. Amanhã trarei outros alimentos e saiba que serão da mesma qualidade que os de hoje, portanto não cometa a mesma estupidez.
Você jogou tudo fora e não pediu nada o dia todo. Pensei que não iria mais se alimentar. Tenho comigo um estojo com seringa, agulha e vitaminas. Quer que aplique em sua veia agora?
Nunca. Não pode ser as frutas e legumes?
Amanhã lhe trago tais alimentos, mas vê se não se revolta novamente por que senão decidirei sua alimentação por minha vontade não mais aceitando suas sugestões sempre indecisas.
Está certo. Não vacilarei mais.
Assim espero, pois não quero mais chiliques.
Tenha certeza que comerei. Mas não dá para trazer um sanduíche de queijo parmesão ou provolone com salame e cerveja.
Nunca mais terá nada desses péssimos produtos de origem animal e bebida.
Na primeira vez você trouxe.
Havia necessidade de agradá-lo. Agora não preciso mais. Basta alimentá-lo.
Crê ter-me conquistado?
Não?
Entretanto estou em suas mãos.
Só responderei mais duas perguntas e sairei. 
Se seu cérebro explodir e você não aparecer mais como faço para sair daqui?
Nunca pensei nisso e jamais pensarei e desejo-lhe boa noite e até amanhã, se não tiver mais nada a falar.
Tenho sim. Você finge ser muito educado e até simpático, mas eu nunca desejarei o mesmo para você. Tenha uma péssima noite e um ainda pior amanhecer.
Tanto faz.
Volte. Aceito a tal injeção hoje. 
Menti tentando segurá-lo mais tempo, mas foi impossível. Já havia gasto minhas duas perguntas.
oooOooo
 
Quase não dormi de tanta fome e pela manhã como tinha acordado muito cedo aguardei o anomalia durante aproximadamente duas horas escrevendo sobre sua história e quando ele chegou passamos toda a manhã e grande parte da tarde rememorando o que já havia ouvido, portanto só continuamos o dialogo à tarde, com ele falando enquanto eu novamente me alimentava avidamente. 
Comia e ouvia-o:
Visitei o Ceará usando os disfarces de um homem branco e de uma mulher clara que você e alguns de seus amigos conheceram e chamavam simplesmente de Alemão e de Loira. Ambos ficaram muitas vezes assentados em mesas próximas a vocês para descobrirem muitos de seus segredos importantes para mim, lembra-se?
Sim me lembro muito bem deles, principalmente porque os vi recentemente tentando fazer sexo comigo, mas como essas duas pessoas ficavam ao mesmo tempo no mesmo local, se na verdade só uma poderia aparecer conforme suas explicações anteriores?
Alguma vez você ou algum de seus amigos viram os dois no mesmo momento?
Eu não e creio que meus amigos também não.
Então está esclarecido. Eu disse-lhe a pouco que ambos os vigiavam, mas não disse que eram juntos. Ora um ora outro, em horários diferentes. Eles se revezavam. Voltando as explicações da viagem. No Ceará não encontrei Mercedes, mas descobri muita coisa a respeito da família Pereira da Silva. Descobri parentes de Ângelo e outras pessoas que me contaram tudo sobre tal família. 
Soube coisas desde o tempo de meu bisavô.
O velho José Antonio Pereira da Silva que gerou Afonso e Sebastião, quando apareceu por lá assassinou muitas pessoas para apossar-se de suas terras.
Sua mulher nunca conseguia gerar além dos dois filhos mais velhos uma filha conforme era o desejo do homem. Foram mais três meninos e o ódio e o desinteresse pela mulher finalmente fê-lo desfazer-se dela cortando-a aos pedaços e alimentando seus porcos e cachorros com suas carnes.
Antes de arrumar outra para conseguir o que queria morreu assassinado por vingança quando o Afonso era adolescente e Sebastião ainda muito pequeno. 
E os irmãos de Sebastião e Afonso estão onde?
Foram jogados aos porcos após nascerem, pois eram indesejáveis ao meu bisavô.
Credo?
Sim. O medonho que era conhecido como Zeca Malvadeza doou por genética sua perversidade aos filhos, que da mesma maneira transferiram aos seus descendentes tanto homens como mulheres.
Mas no livro de Tião conta que eles foram enviados a estudar pelo pai e isso me passou a impressão de ele ter sido uma pessoa boa e nobre.
Errado. Quando vivo amedrontava a todos que se comprometiam com ele por temor. As pessoas serviam-no, pois senão apareciam mortas como bestas peçonhentas. Os vizinhos é quem apadrinhavam seus filhos e mantinham a alimentação deles por imposição do meu bisavô. Aos estudos eram esses mesmos padrinhos quem enviavam os meus tios para outra cidade para mantê-los livre do Malvadeza.
Porque diz que sua crueldade tornou-se hereditária? Será que é porque você é tão ruim? E os demais? Qual foi a maldade deles? 
Por hoje basta, pois o percebo muito cansado e desatento, portanto continuaremos amanhã.
Nada falei porque estava realmente muito esgotado e até gostei da idéia.
oooOooo
 
Novo encontro na manhã seguinte e enquanto o Enfermeiro falava eu alimentava-me das saudáveis frutas e os legumes crus trazidos.
Já li o pouco que escreveu e considerei correto sobre o nosso encontro no bar onde tudo iniciou, mas não considero absolutamente nada para a minha história, além de estar cheio de erros não só de digitação como de formulação das frases, mas isso é fácil para eu corrigir. Aliás, você já deve ter visto que suas falhas já foram retificadas.
Não vi nada. Costumo ir escrevendo para corrigir após muita coisa já descrita. Farei isso depois.
O que escreveu ainda é quase nada e sem a menor necessidade. No primeiro capítulo fala sobre nós, e no segundo fala um monte de besteiras que aconteceu no bar após nossa saída.
Escrevi o que meus amigos ficaram falando no bar.
Como iria saber qual a conversa de lá após nossa saída? Tem algum poder de ouvir e ver coisas ao longe? Escreveu até sobre a chegada da tal mulher jovem com cara de velha e muitos netos, que iria contar-lhe sobre sua vida. Como sabe sobre isso?
Você é burro mesmo. O segundo capítulo que escrevi é criatividade minha. É só para encher linguiça. Nada do que está escrito aconteceu conforme narrado, mas mais ou menos o que teria ocorrido conforme minha suposição. Sobre o mulher que eu disse ter chegado estava combinado de ela ir-se encontrar comigo, portanto ela deve ter ido sim.
Vivendo e aprendendo. Então é inventando asneiras e mentiras que um escritor faz seu livro.
Para você pode-se dizer que sim. Na verdade é por esse dom de saber criar personagens com vida própria, do nada é que aparecem as obras primas literárias.
Mesmo dizendo que seus amigos são uns verdadeiros mentecaptos com você fez?
Não fiz isso. As pessoas em um romance são fictícias.
Nesse caso especifico não são, pois ouvi o nome de muitos deles quando lá estive e todos estão retratados por você como imbecis.
Pode ter certeza que a idéia transmitida não foi essa. Foi simplesmente para dar um pouco de humor a história.
Imagina-se escrevendo algo hilário?
Ainda não acertou. Você nada sente, portanto não tem a mínima possibilidade de dar nenhum palpite. O segundo capítulo foi tudo romanceado, assim como serão outros se for necessário, portanto, limita-se a contar sobre sua vida e corrija meus erros de digitação e se dê por satisfeito que estará fazendo muito. Talvez até possa colocá-lo como coautor do livro.
Porque tenta irritar-me lembrando de minhas limitações?
Para você ir vivendo e aprendendo que não é infalível como pensa.
Tem algo em mente planejado contra mim?
Vem você novamente tentando descobrir meus pensamentos. Leia-os se for capaz.
Se você tivesse a competência de transmiti-los com certeza eu os leria. Vamos exercitar um pouco para tentar conseguir tal feito. Fique de olhos bem fechados, bastante concentrado e não pensando absolutamente em nada que eu irei transferir alguma coisa para você.
Passou apenas trinta segundos para o Enfermeiro perguntar.
Sentiu que eu indaguei-lhe se achava minha história boa? 
Não aceitei nada disso. 
Você respondeu que não aceitou, porém eu perguntei se você sentiu. Sentiu ou não sentiu?
Absolutamente nada. 
Menti que não tinha recebido a comunicação mental que de fato senti, mas tive medo de colocar-se a disposição do Monstro e ele dominar-me a mente como já fazia com seus personagens internos.
Está negando por medo de alguma coisa ou realmente nada sentiu?
Se tentou hipnotizar-me e colocar alguma coisa em minha mente saiba que não conseguiu. Não estou mentindo.
Isso não é normal em você. Nós sabemos disso. Saiba que hipnotizar-lhe eu não tentei. Pode ter certeza. Eu faço isso com a maior facilidade em qualquer um ser humano. Faremos o teste de transmissão de pensamento novamente.
Não acha que agora é você quem está perdendo tempo com besteiras? Que lhe interessaria transmitir-me pensamentos se eu não sou capaz do feedback?
Nada. Apenas por curiosidade. Fala inglês?
Não. Apenas algumas palavras muito usadas.
Já que o negócio de transmitir e receber pensamentos trata-se de coisa impossível para mim, vamos deixar como está e continuarmos nossa conversa. 
Está certo. Deixemos como está.
Ótimo.
Lembra-se onde paramos ontem?
Sim. Você estava contando o que descobriu sobre seus antepassados e dizia-me que todos seriam propensos ao mal por genética.
Agora percebo que está ficando atento.
Nessa mesma viajem que fiz soube que Afonso quando iludia a esposa dizendo que iria procurar empregos na Bahia nas épocas de seca no sertão do Ceará fazia-o de fato, entretanto como matador profissional e não como um bóia fria conforme todos pensavam. Ele executou muitas mortes por mando e o que ele ganhava sempre fora gasto em orgias e jogo. Sua má índole fazia-o obrigar sua esposa Josefa prostituir-se com dezenas de malfeitores conseguidos por ele para arrumar dinheiro para suas farras e nunca para comprar algum alimento para os filhos. 
Sua morte não foi a que merecia. Foi somente um simples acidente caindo de uma obra em construção. Deveria ter sido devidamente punido, mas infelizmente não foi.
Você acha que todas as pessoas da família Pereira da Silva deveria ser castigadas por suas atitudes não acha?
Sim.
Então deseja o mesmo destino para você?
É claro que não. Já lhe disse que sou um caso a parte. Foi graças a essas pessoas que não posso viver como vocês e meu encéfalo propõe-me tudo que achar necessário para manter-me vivo e para proteger-me. Nada é praticado por motivos torpes. Todos meus atos que você pressupõe como crimes ou crueldades têm o motivo imperioso de resguardar-me e nunca simplesmente por maldade, até porque é um sentimento que não sinto.
É o que você diz.
Voltando ao assunto. Os filhos dele mantiveram o mesmo caráter.
Maria das Mercês, conhecida por Mercedes, seus irmãos Zezinho e Severino você soube de suas reputações e maldades pelo próprio Sebastião no livro Paraizo. Não valiam absolutamente nada desde adolescentes. Severino morreu jovem e não teve tempo para transformar-se totalmente em um crápula como o irmão, que acabou morto trocando tiros com a polícia.
Sobre minha meia irmã Rosa, você mesmo escreveu todas suas indignidades no livro Tempestade, por isso não é preciso dizer nada sobre ela.
Sobre Maria Quitéria e Josefa que tem a dizer?
Elas não foram descendentes de meu avô. Foram apenas esposas de Afonso e Sebastião. 
E da menina Das Dores, do Tião e do Zinho o que tem a falar?
A menina das Dores, apenas não teve tempo suficiente para transformar-se em uma perdida e assassina como as outras, pois também morreu jovem, mas já era uma grande vagabunda. Vadiava com o jovem patrão mantendo-o em suas mãos com ameaças e vultosos subornos.
Isso é mentira, pois se soube que morreu virgem e isenta de qualquer contato sexual com seu suposto assassino.
Com seu assassino realmente nada fez, mas com o patrão não perdeu tempo e tinha-o nas mãos tão logo foi morar em sua casa.
Mas e o exame admitindo-a imaculada. Fora comprado?
Não. Ela de fato manteve intacto seu hímen, porem existe muitas maneiras de satisfazer os idiotas homens e ela sabia fazer tudo muito bem, com as mãos a boca e o anus.
Como soube sobre isso?
Eu, fantasiado de Soraya procurei pelo jovem empresário mantendo com ele um romance no qual descobri tudo. Tinha de certificar-me sobre todas as pessoas da família Pereira da Silva.
Santo Deus. Quanta coisa acontece sem vir à tona.
Deixou-o vivo pelo menos?
É claro que não. Atualmente sua viúva é muitíssimo rica, pois com os filhos soube administrar muito bem os negócios que herdou.
Do Tião você sabe muito bem o grande criminoso, estuprador, assassino que foi mesmo pintado e bordado por ele próprio em seu livro como o Robin Hood brasileiro.
Fiquei sabendo pela Soraya quando trabalhou como enfermeira no hospital de Dr. Sebastiãozinho, muito estimado por você que ele mantinha a perversidade tão ou mais aguçada que seus antecessores.
Ele matou todos os velhos bandidos que não o idolatravam e que não aceitavam seu mando no lugar onde se fizera de herói, de maneira sutil e caridosa fornecendo aos familiares atestados de óbito por infartos ou velhice e ótimos funerais sempre no crematório da vila escondendo para sempre tais crimes praticados por ele.
Várias meninas morreram em abortos que ele exigia após desvirginá-las e engravidá-las, quando elas concordavam com tal prática. Quando não admitiam acabavam morrendo de alguma doença grave ou acidente, geralmente com ele alheio a tudo. Nada foi divulgado ou investigado porque seu dinheiro comprava tudo, mas muitas foram as vilezas que ele aprontou, não só com as adolescentes, mas também com muitos pais que incorruptíveis morreram inexplicavelmente de doenças repentinas e fulminantes. 
Voltando ao tempo que tinha descoberto sobre as personalidades de Afonso, de Sebastião e de todos seus descendentes, já destinei que toda essa facção da família Pereira da Silva deveria ser destruída.
Eu. O monstro indesejável que nunca deveria existir, só fui concebido graças a existência dessa prole, portanto ninguém tinha o direito de permanecer vivo e eu já naquela época havia determinado que destruiria um a um todos os que o tempo ou a natureza tivesse poupado. Isso incluiu os filhos de Sebastiãozinho e sua esposa grávida, pois ela não poderia gerar mais nenhum outro ser possuidor do DNA do Zeca Malvadeza para que tudo terminasse e finalmente chegasse a Bonança.
Vou retirar-me para o seu descanso e amanhã voltaremos a conversa.
oooOooo
 
Novo dia, outro encontro e continuação da conversa:
Mas então eliminar todos os descendentes de seu avô foi sua segunda emoção?
Correto.
Você disse-me ter tido outro desejo recentemente. Qual foi?
Após concluir meus planos perfeitos cheguei a conclusão que o povo deveria saber tudo sobre eles, por isso tive vontade de mostrar-me ao mundo. Esse é meu atual desejo, portanto estou usando-o para escrever minha história.
Então já que você assim quer qual a necessidade de matar-me após escrever o livro?
Você tornou-se perigoso para mim. Embora queira que o mundo saiba sobre mim eu não posso correr o risco de ser descoberto. Tenho de continuar incógnito e não posso ou desejo ser encontrado por ninguém, principalmente por você que já confessou querer matar-me.
Eu prometo não dizer a ninguém onde mora, até porque não sei. Você já disse que destruirá essa casa para nunca ser encontrada, portanto não a procurarei. Garanto-lhe que jamais tentarei fazer qualquer tentativa de eliminá-lo. Está claro agora? Depois de minhas promessas que perigo um velho como eu posso representar?
Nenhum. Mas estúpido e irresponsável como é tentará inventar mil maneiras e irá tomar muito meu tempo impedindo-o, portanto é muito mais prático eu excluí-lo e nunca ser importunado.
Mas matá-lo não é impossível?
Tenho quase certeza que sim.
Então eu não conseguirei. Insisto em afirmar-lhe que prometo nunca tentar nada.
Já me confessou imaginar meu possível ponto vulnerável, não se lembra?
Era blefe. Não imagino nada.
Você é mentiroso. Como saber quando fala a verdade?
Saio do país. Mudo-me com toda minha família para a China. Ficarei o mais longe possível de você. Pode crer. Confie em mim.
Meu cérebro não me permite dúvidas e você sabe que não é digno de confiança.
Vamos fazer a transmissão de pensamento e você verá que estou falando a mais pura das verdades.
Deixe de choros e vamos voltar à história.
Tenho uma idéia brilhante.
Fale qual a besteira desta vez.
Você destrói todas essas máscaras e procura um artista para confeccionar-lhe outras novas para usar e assim terá certeza que eu jamais o identificarei, portanto ficará a salvo de mim para sempre.
Mas e o artesão que as fará? Poderá ser procurado e encontrado por você e lhe dará o serviço.
Depois que ele fizer seus novos disfarces não lhe dê tempo. Simplesmente mate-o como faz com todo mundo, pois assim ele não poderá falar para mim e nem a ninguém mais quais foram as camuflagens feitas à você.
Mandando-me matar um inocente que nem sequer sabe quem será?
É meu cérebro inteligente que me determinou essa necessidade para me preservar. Para você não é assim? Poderá ser para mim também. Pelo menos essa vez.
Não é muito mais fácil eu manter os meus disfarces já existentes e excluir você?
Não acho isso correto.
Mas eu acho.
Tenho outra sugestão.
Outra bobagem. Fale.
Eu próprio de posse de um de seus rostos procurarei um fabricante e peço-lhes outras com as mesmas medidas e lhe entregarei e daí ele não ficará sabendo para quem é.
Hoje você está muito mais imbecil que sempre foi. Que importa ele saber para quem foi. Jamais alguém verá meu horrível rosto e ele me idenficará pelos disfarces que fizer, além de você que com certeza os verá antes de entregar-me. Nesse caso serão dois que conhecerão meus possíveis novos rostos.
Prometo que peço a quem for fazê-los não dizer-me como são e entregar-me lacrados em caixas de ferro fechadas a cadeado sem chave para que eu não veja.
Não seja ridículo com suas idéias idiotas. A qualquer tempo no futuro, para tentar caçar-me, você poderá procurá-lo e ele dirá ou mostrará os moldes ou fotos que me identificarão, pois eu não sabendo quem é ele nunca poderei impedi-lo disso. 
Eu lhe falo quem foi a pessoa e você eliminará para nunca acontecer isso.
Resultado final. Tal idéia ficou simplesmente um pouco pior que a primeira.
Não tem alguma providência melhor?
Tenho.
Qual é?
A que já está definida há algum tempo e está resolvido. Vamos voltar à história.
Não tem outro jeito mesmo?
Como eu já lhe disse decidi excluir da face da terra todos os descendentes de Zeca Malvadeza e vou contar-lhe como aconteceu com todos. 
Como eu não consegui encontrar Mercedes na Bahia e nem no Ceará, resolvi procurá-la em São Paulo, pois como disse soube que todos os demais Pereira da Silva tinham vindo para cá.
Meu primeiro passo foi encontrar Sebastião, pois o imaginei um fora de suas leis e já fantasiado de mendigo procurei nos antros de bandidagem e foi razoavelmente fácil localizá-lo na vila onde morava. Ele estava recém pertencente à quadrilha de seus companheiros de penitenciária. Um dos elementos de lá, que foi hipnotizado por mim, apresentou-me fantasiado de Negro Alberto como bom motorista e ótimo de briga por ser muito forte e fui aceito entre eles como motorista, além de saqueador, assaltante, assassino e etc.
Logo que me integrei ao grupo participei como motorista do caminhão no assalto ao depósito do restaurante de seu amigo Paulinho e vi o assassinato que Tião cometeu cortando com uma faca afiada um rapazinho ao meio quando eu o segurava por trás. Ele nem se preocupou se tal golpe iria ferir-me também. Só não me cortou, pois minha roupa protegeu-me e ele nem percebeu que a faca de açougueiro pegou em mim com muita força. Sua crueldade era tamanha que não se preocupou com isso.
O certo é que ele nem observou se me atingiu ou não e isso foi a salvação.
Tal faca lhe causaria dano?
É claro que não.
Então porque disse ter sido sua salvação?
Não disse “minha salvação”. Disse apenas “foi a salvação”, pois eu teria de dar explicações de porque não morri com o corte profundo recebido, portanto não tive necessidade de excluí-lo naquele momento, pois eu precisava conversar com ele para tentar descobrir Mercedes. Está esclarecido o que disse? Foi a salvação dele e da situação por não ter tido necessidade de ser modificada por erro dele e não meu.
Entendi.
Vou lembrá-lo de nossa conversa a noite no bar da vila que inclusive consta no livro Paraíso. Foi a seguinte:
Qual o seu nome negrão?
Chamo-me Alberto e vim de Salvador e você?
Tião. Sebastião Pereira da Silva do Ceará.
Por acaso é dos Pereira da Silva de Córrego Seco.
Sim sou de lá. Como soube?
Tive um amigo na Bahia que conheceu uma parenta sua. Uma tal de Mercedes.
É filha de meu irmão Fonso.
Sabe dela?
Nada. Vou contar-lhe sobre minha família. Aceite pelo menos um copo de cerveja.
Obrigado. Jamais bebi ou fumei.
Então fique com sua água mesmo.
Depois de muitas cervejas Sebastião me contou resumidamente sobre sua vida, dizendo-me inclusive que tinha tudo escrito nas folhas guardadas no saco de lixo atrás do guarda-roupa no quarto do menino que cortou ao meio e que tinha ido procurá-lo quando descobrimos que você o tinha roubado. Não me falou nada sobre o paradeiro de Mercedes, mas eu imaginei conseguir alguma coisa no tal livro que você tinha surrupiado.
Foi por isso que me salvou pela primeira vez?
Não seu boçal. Eu havia lhe salvado durante o dia e tal conversa fora a noite. A primeira vez foi quando Sebastião ameaçava o menino antes de matá-lo ele contou ter sido você o ladrão das folhas que estava escrita tal história. Eu ouvi toda a conversa entre eles, portanto já sabia que você estava com os escritos e precisaria deixá-lo vivo. Você teve sorte, pois quando ele o viu ao invés de simplesmente atirar e matá-lo, ele comentou antes quem era e o que iria fazer, portanto foi nesse momento que achei necessário salvá-lo.
Na ocasião Sebastião perguntou-me porque o solavanco no caminhão e eu dando permissão ao Alberto Negrão falar mentiras ele respondeu-lhe: 
Foi apenas reflexo de motorista. Um cachorro ia atravessando a rua e instintivamente desviei rápido. Sinto muito.
Eu havia feito a demonstração de minha força aos assaltantes colocando o cofre de ferro no caminhão para ser admitido definitivamente como segurança dos lideres e consegui. No dia seguinte participei da reunião que definiria o assalto no bar do Zé que culminaria com sua morte na próxima sexta feira. Pelo mesmo motivo de ter-lhe salvo antes lhe salvei novamente desse ardil e essa é que foi a segunda vez.
Lembra-se quando o procurei como mendigo para avisar-lhe sobre sua morte?
É claro.
Isso sua tal memória seletiva guardou?
Sim. Foi um fato importante e com certeza selecionado.
Em conversas com o Tião imaginei que se ele se tornasse o único chefe da quadrilha provavelmente o procuraria para reaver seus escritos por não ter sido publicado por você, pois ele sempre procurou saber em livrarias. Como Alberto Negrão, namorei na vila uma prostituta viciada em drogas e injetei-lhe grande quantidade do vírus HIV hipnotizando-a para assediar um dos chefes para transmitir-lhe a doença. Rapidamente ambos morreram.
Usando do mesmo artifício da hipnose convenci o outro chefe em ir até sua casa alegando que surpreenderia sua infiel esposa que sempre o traia naquele horário, propondo-lhe fazer o que fez.
Deixei Sebastião sozinho comandando a vila, mas nunca encontrei forma de convencê-lo em procurar-lhe, pois ele admitiu não ter como terminar seu livro e alegou também não conseguir publicá-lo, pois embora tivesse dinheiro para isso não teria como fazer tal história ser lida pelo país a fora. Seu desejo era divulgá-lo por todo o Brasil para encontrar sua sobrinha Mercedes e seu filho Sebastiãozinho em algum lugar, se ainda estivessem vivos. 
Ele disse-me que o livro teria muito mais possibilidade de ser editado e distribuído para todo o país se continuasse em suas mãos e não nas dele. 
Concordei e passei a procurá-lo como mendigo dando-lhe informações sobre as atividades de Sebastião para tentar ajudá-lo a finalizar a história, pois os anos iam passando e você não punha um ponto final naquela droga de livro.
Supus que você o terminaria se ele morresse e resolvi providenciar isso.
Em meus dias de folga como segurança de Sebastião, comecei comprar cocaína dos traficantes em grande quantidade durante muitos meses para ficar conhecido e amigo deles com o disfarce do Enfermeiro Joel que recomecei usar. Quando já estava bastante amigo dos inimigos de Sebastião, propús-lhes um meio de matá-lo subornando seu enorme e forte segurança que faria o trabalho por um determinado valor em dinheiro bastante razoável. Além de ele ser meu irmão mais novo iria me obedecer.  
Mas você mentia descaradamente a todo mundo? E vive a me dizer que não mente.
Toda vez em que um personagem meu mente é ele próprio que está em atividade momentaneamente para tal fato. Já lhe expliquei como isso funciona, portanto deixe de tentar pegar-me em erro, pois não conseguirá jamais. Procure nunca mais fazer-me pergunta repetida.
Continuando falar dos traficantes, digo-lhe que eles assustaram-se ao saber que Joel era irmão do fiel segurança de Sebastião, mas devido ao grande tempo que ele era freguês de altos valores e estar propondo tal fato confiaram nele, embora não acreditassem ser possível tal coisa. 
Eu dei-lhes provas gravadas em filme com o negro Alberto falando com Joel e concordando com a proposta de voltar com o irmão cheio de dinheiro para o Pernambuco que era o local de onde vieram.
Como montou o filme conversando com ele, se você e eles é uma única pessoa?
Foi simples. Contratei um vagabundo qualquer na rua com dinheiro suficiente para ele aceitar fazer tal encenação como se fosse Joel.
Mas teria necessidade de outro para filmar.
Também foi contratado. Tal elemento trouxe seu irmão no dia combinado.
Já entendi. Um deles usou a mascara do Negro Alberto e o outro a do negro Joel e hipnotizados conversaram o que você mandou enquanto os filmou. Acertei?
Mais ou menos, porque os indivíduos nada falaram. Toda a conversa foi iniciada com Joel falando e respondida por Alberto com suas próprias vozes.
Porque todo esse trabalho de montagem de fala se nenhum dos traficantes jamais chegou perto do Tião e seus seguranças? Não conheceriam a voz do Negro Alberto, portanto o tal contratado poderia falar o que você mandasse.
É idiota mesmo.
Eles não poderiam ter infiltrado nas lojas da rua Paim alguma pessoa aparentemente alheia, filmando ou simplesmente vigiando Sebastião conversando com seus seguranças e tal pessoa ser chamada para verificar a autenticidade do filme? Por que correria o risco se o trabalho foi até menor que se tivesse que mandar o bestalhão decorar as falas?
Tem razão? Pagou aos rapazes o combinado?
Perguntei-lhes se tinham parentes, para eu enviar o dinheiro como herança, mas infelizmente eles eram sós.
Entendo. Somando-se mais esses dois quantos foram no total?
Taí uma pergunta que realmente não sei a resposta, pois jamais tive a preocupação de contá-los, mas se for de extrema necessidade recordarei de todos os casos e em pouco tempo poderemos contá-los.
Não precisa ser exato. Apenas por curiosidade. Passa de cem?
Bem mais, considerando-se também os bebês.
Tinha até me esquecido das criançinhas?
Foram e ainda continuam sendo necessárias.
Não quero mais saber sobre isso.
Então vamos continuar.
Foi assim que deu cabo de Sebastião?
Começou assim. Com o filme ficou claro aos traficantes que o Negro Alberto passaria para o lado deles assassinando o Sebastião e os demais seguranças para não deixar rastro. O pagamento seria entregue a mim, disfarçado de Joel após tudo concluído e confirmado.
Lembro-me que na época o mendigo avisou-me onde o corpo dele seria jogado e fui para lá encontrando-o ainda com um fiapo de vida, que se esgotou no pronto socorro, após eu chamar a ambulância para socorrê-lo. Mas diga-me como conseguiu convencer os demais rapazes da segurança para esfaqueá-lo.
No início de nossa conversa já falei sobre isso quando conversávamos sobre hipnose.
Como os hipnotizou na presença do Tião?
Infeliz. É claro que não foi em sua presença. O Negro Alberto era o único que se mantinha sempre ao lado do patrão e os demais ficavam na casa em pontos estratégicos fazendo a vigilância e quando das saídas do chefe o Negrão reunia-os para informá-los aonde iriam e como deveriam proceder no trabalho. Ninguém jamais ousou conversar com o chefe e restringiam-se apenas em dar alguma resposta quando solicitada. Coisa que era muito rara, pois Sebastião só falava com o Alberto, portanto o total silencio e a postura deles naquele dia foi exatamente igual a todos os demais dias.
Eles viajaram em transe e assim permaneceram fazendo absolutamente tudo como de costume, pois lhes foi determinado na reunião que fiz, com eles mascarado como Alberto Negrão antes da saída. Só mudaria suas condutas no momento em que eu determinasse e tudo saiu a contento num simples estalar de dois dedos que era o sinal para o crime. 
Depois de jogado o corpo de Tião, levei-os ainda entorpecidos pela hipnose para o local em que eles seriam queimados no carro conforme combinado com os traficantes.
Mas soube-se que foram encontrados quatro corpos carbonizados o que levou a crer na época estar incluído o negro Alberto. Como foi isso?
Arrumei um homem na rua cujo corpo sem vida coloquei junto aos demais corpos dentro do carro antes de incendiá-lo.
Achou na rua um defunto e no carro todos os demais também estavam mortos? Morreram de susto ou tiveram infarto coletivo?
Está interrompendo muito, seu bode velho. Porque tal pergunta tão descabida?
Disse ter encontrado um corpo sem vida na rua e colocado no carro junto aos outros corpos, portanto conclui que todos já estavam mortos.
Disse ter encontrado um homem cujo corpo já sem vida coloquei junto aos outros, portanto é claro que eu fiz o serviço no homem, após já ter feito com os demais dentro do veiculo, seu imbecil.
Tudo bem. Está explicado, mas no filme não dizia que o Negro Alberto iria com o irmão para o Pernambuco?
Foi a idéia que o negro Joel deu inicialmente aos traficantes, para firmar o compromisso com eles, mas eles propuseram o preço triplicado para que Alberto também desaparecesse. A oferta foi realmente tentadora para qualquer pessoa, mas para mim nem seria necessário, pois nunca existiu irmão algum e mesmo que existisse mais algum irmão meu como foi o caso de minha irmã deveria ter o tal fim.
Mas você mudou de opinião após ter decidido levar seu irmão à Pernambuco e depois modificou para matá-lo. Não foi uma indecisão sua?
É burro mesmo em seu velho gordo. Quando disse em levar Alberto Negrão, tratava-se apenas de estudos para os traficantes decidirem, pois eu apenas dava a ideia para ele. Apenas dava sugestões e não as soluções finais. Eu propunha-lhes que conseguiria convencer Alberto Negrão matar Tião para eles por um determinado preço e que o levaria para Pernambuco, mas tudo eram mentiras do Joel e não minhas.
A minha meta era matar Sebastião, fato que não seria mudado, mas a forma deixei a cargo de Joel e dos traficantes. 
Assim como essa a outra imbecilidade sua eu já havia esclarecido a pouco quando falei que não existia nenhum irmão para eu matar, até porque quem foi eliminado foi um homem comum da rua e em se tratando das  conversas com os traficantes foram com o Joel e ele mente como qualquer humano idiota.
Eles lhe pagaram direito quando os procurou como Joel no outro dia?
É claro que não pretendiam isso. Com certeza não deixariam testemunhas, mas eu nem sequer dei-lhes tempo para atacarem-me, pois os estraçalhei primeiro, porque tinha pressa de sair de lá com toda a fortuna em ouro, dinheiro e jóias que arranquei do cofre. 
Tinha de agir antes de descobrirem a morte de Sebastião, pois eu tinha certeza da guerra que aconteceria entre as quadrilhas rivais e nisso eu não participaria, pois não tinha necessidade e em nada me interessava. 
Na época disseram que todos os chefes dos traficantes estavam mortos estraçalhados sem ninguém entender como aconteceu. Falaram até que foi Sebastião que voltou do inferno e tinha feito tal destruição.
Com isso você finalmente terminou o livro Paraíso que depois de publicado li e tomei conhecimento que pelo menos o filho de Sebastião estava vivo e bem próximo pelo fato de ele aparecer como um dos médicos a tentar socorrê-lo no final da história.
Sua intenção não era matar Sebastião para eu terminar o livro? Porque o deixou vivo embora com muitas facadas pelo corpo?
Deixei a cargo dos outros darem as punhaladas e eu mesmo nada fiz. Apenas assisti. Os incompetentes é quem não o mataram.
Quando o atirei na rua sabendo-o ainda vivo, poderia jogá-lo com força suficiente ou espremê-lo com minhas mãos para terminar sua vida, entretanto tinha certeza que era questão de poucos minutos para expirar por isso preferi deixá-lo sofrer mais um pouco. 
Vi que você estava próximo ao viaduto que eu lhe indiquei e tinha certeza que iria telefonar para a polícia que viria com ambulância socorrê-lo, mas meus conhecimentos de medicina deram-me a certeza que sua hemorragia não o deixaria vivo muito tempo, portanto deixei-o como ficou e acabou sendo melhor, pois com ele ainda vivo, apareceu-lhe o filho tentando socorrê-lo e dai você começou escrever sobre ele, trazendo-o para próximo de mim. 
 
Mas porque toda essa artimanha que durou vários meses para matar Sebastião se para você bastava quebrá-lo todo quando estivesse perto, ou enchê-lo de HIV como sempre fez com muitos outros?
Se Sebastião simplesmente fosse encontrado morto por uma simples queda, ou por doença como AIDS, não teria nenhum culpado de sua morte e nesse caso era importante para meus planos que os acusados fossem seus inimigos. Meu plano foi arquitetado para além da morte de Sebastião, também para eu ter acesso ao covil dos traficantes.
Eu estava precisando de dinheiro e deveria apossar-me de muito de uma única vez e sabia ser lá o melhor lugar e para isso teria de descobrir em qual das casas e o local exato encontraria o cofre deles, por isso fiz conforme lhe disse. Antecipadamente infiltrei-me e consegui a confiança deles para descobrir tudo.
Não seria mais rápido invadir um banco?
Matar todo mundo lá dentro, arrombar o cofre e sair correndo e matando todos que encontrasse pela frente nas ruas?  Não seria a cópia dos filmes de lobisomens americanos?
Poderia bolar um plano para fazer o serviço à noite, por exemplo.
Existe sim um plano para isso, mas não nas agencias bancarias por se tratar de locais legalmente constituídos com alarmes que alertariam os policiais e muito público. O chamamento das emissoras de televisões para o lugar faria com que eu me expusesse muito e isso não me é interessante, pois inevitavelmente voltaria a mesma situação de correrias e mortes desnecessárias.
O plano já previsto é para acontecer na própria casa da moeda que é muitíssimo mais tranquilo de executar, bastando para isso que eu infiltre algum de meus “auxiliares” para estudar e decorar os ambientes internos de lá, quando isso for necessário. 
Só será feito saques de dinheiro em bancos em última circunstancia. Só após esgotarem todos outros locais fáceis que são muitos.
Voltando ao assunto anterior já foi explicado como aconteceu a morte de Tião e a destruição dos chefes do tráfico de drogas, mas e a morte de Zinho como foi?
Ainda vai demorar um pouco para saber, pois tem muitas coisas antes disso e já está na hora de seu descanso, portanto boa noite e até amanhã.
oooOooo
 
Pensei em passar nessa noite muito tempo escrevendo, pois a história parecia já estar próxima de seu final e eu tinha escrito apenas o seu início, entretanto tinha coisas muito mais importantes a fazer que escrever a tal vida do anomalia.
Tinha de descobrir exatamente como fazer para me livrar dele, por isso consumi parte de meu tempo em meditação recordando os momentos em que eu pressionei-o tentando tirar-lhe informações importantes, pois acreditava já ter descoberto há algum tempo como destruí-lo. 
Recordei-me que ele aprendera desde criança até sair do hospital onde cresceu, tudo sobre medicina, artes, línguas, etc. Adquiriu muita cultura e aprendizado teórico e prático de várias atividades.
Vivendo nas ruas só fez foi matar e roubar e seu convívio com as pessoas sempre foi muito pouco. Só o tempo suficiente para assassinar quem estava em sua mira. 
Quando viveu durante anos na vila onde Tião comandava a quadrilha de bandidos, logo nos primeiros dias já conseguira o posto de segurança dos chefes, por conseguinte jamais saiu muito às ruas e seu contato com o povo de modo geral continuou por todos esses anos, praticamente inexistente.
Sempre viveu até os dias atuais em busca dos parentes para matá-los e seus planos sempre foram realmente muito limitados. Voltados tão somente para seus programados crimes.
Todas as centenas de pessoas que matou sempre seguiam três formas básicas. A hipnose seguida de introdução do vírus HIV para parecer morte por doença, mortes por facadas quando pretendia fingir ter sido cometido por uma pessoa comum ou simplesmente estraçalhando com suas poderosas mãos destroçando os indefesos para culpar os monstros do inferno.
Cheguei à conclusão que ele era realmente bastante restrito, pois nunca aprendeu as malandragens dos vagabundos de rua para iludir incautos. Tampouco aprendeu as sutilezas e artimanhas dos não vagabundos, mas pessoas experientes e criativas, como muitos de nós que vivemos em convívio com nossos semelhantes durante anos e muitas vezes precisamos de algum subterfúgio para nos isentar de alguma falha cometida, ou mesmo para enganar alguém.
Por sua total falta de diálogo com pessoas comuns além dos médicos servindo-lhes como cobaia durante muito tempo antigamente e como segurança do Sebastião com o qual tinha pouca comunicação o único ser humano que estava tendo convivência por um tempo razoável era comigo.
Embora me chamasse a todo instante de idiota, estúpido, imbecil, etc., concluí que eu era muito mais astuto que ele.
A partir do dia seguinte começaria agir com mais esperteza para te-lo sob meu domínio.  
Continuaria portando-me como inferior e menos competente para deixá-lo tranquilo achando-se mais ardiloso para mantê-lo sob controle e assim continuar ludibriando-o.
Entretanto se eu estivesse certo em minhas suposições só poderia realmente destruí-lo quando deixássemos aquela casa. 
Conclui que teria de terminar tal história com rapidez inclusive modificando o que já estava escrito levando a história como se fosse a minha e não a dele. 
Mudei o que já tinha escrito e passei tudo para a primeira pessoa, transformando-me na figura central ao invés dele conforme já tinha digitado. Fiz tal alteração durante a madrugada e ele ao chegar pela manhã foi logo comentando:
Porque mudou o rumo da história?
Não mudei direção nenhuma. Continua caminhando exatamente conforme aconteceu.
Antes você se tratava de o Velho gordo careca e de barbicha branca, porque era secundário na história e era eu o principal personagem e nessa noite reescreveu tudo trazendo você para o posto de principal. O que está pretendendo?
Roubar sua cena é claro.
Como assim?
Será uma história que tratará de um determinado tempo de minha vida em que passei com você. 
Ficará mais fácil a aceitação do público se souberem ser parte de minha vida, que se fosse a vida sua que é totalmente desconhecida cujo interesse seria bem menor.
Mas não irá dar mais valor a você que a mim?
Claro que não. Seremos considerados importantes no mesmo valor, pois nesses dias estamos levando nossa existência juntos e a história só representará esse período.
Como só esse período? Terá de contar tudo desde minha criação.
É claro será tudo contado, mas escrito simplesmente como informação de coisas já acontecidas. A trama mais importante tratará apenas desses dias que estaremos a sós.
Tais dias não têm a menor importância. Nem tem necessidade de ser escrito.
Não será a primeira vez que lhe pergunto: O escritor é você ou sou eu?
Então além desse início que fala sobre nosso encontro vai escrever tudo sobre nossa convivência aqui?
É claro. Estarei escrevendo como me alimenta, como tentei agarrá-lo na vã ilusão de destruí-lo, etc. e enquanto conversamos ou discutimos você irá contando sua vida desde o início como já está fazendo.
Não pretende que eu escreva: Era uma vez um menino monstro que blá, blá blá....
Nesse caso deixarei de ser a figura mais importante passando-a para você?
Não se trata disso. Ficará mais interessante. Creia em mim.
Nem me importo em ser você a figura central, pois em todas suas histórias eu sempre resolvi os finais para você excluindo do mundo dos vivos seu personagem principal, e sendo assim o livro Bonança não será diferente dos outros.
Não vai desistir de matar-me mesmo?
Não será mais possível.
Tudo bem. Já me resignei e aceito meu fim, pois um dia terá de acontecer mesmo. Pena que não será nada glorioso como sempre desejei. Só lhe peço que não me faça sofrer e que seja enquanto eu estiver dormindo para nada ver ou sofrer.
No devido tempo pensarei como fazer. Aviso-o com antecedência.
Não, por favor, faça-me surpresa para que eu não sofra por antecipação só em pensar.
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Nada do que vou falar agora com vocês foi escrito no livro. É parte de meu plano para conseguir escapar dele tão logo tivesse a primeira chance quando estivéssemos fora de sua fortaleza.
Meu medo de morrer nas mãos daquele animal era enorme e eu não estava nada conformado com a situação conforme muitas vezes lhe mentia, mas em nossas conversas eu mesclava momentos de grande desespero e implorava pela vida e em outros eu dizia-me conformado.
Certas ocasiões até me revoltava para passar-lhe a impressão de uma pessoa realmente muito assombrada, desesperada e medrosa como ele me julgava.
Nisso ele estava totalmente certo. Meu pavor era enorme, mas tinha que continuar arrumando forças para não enlouquecer de medo, ou ter um infarto antecipando os acontecimentos.
Meu intuito era deixar claro que eu sabia do meu fim breve e que não mais o ameaçava por ter certeza da impossibilidade. Teria de confundi-lo para ele despreocupar-se com minhas verdadeiras intenções, pois percebi conforme já disse sua grande ingenuidade e falta de conhecimento dos artifícios aplicados por pessoas astutas para iludir os menos esclarecidos conseguindo ludibriá-los.
Desde o início de minha narrativa em todos os momentos que falo sobre meus descobrimentos a respeito dele, meus planos e meus ardis esclareço que nada foi escrito. Tais coisas só estou falando com vocês nessa conversa, portanto nada estava sendo do conhecimento dele. Tratava-se apenas de meus pensamentos.
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A continuação de nosso dialogo foi assim:
Depois de você matar Tião e os traficantes o que fez?
Nada. Fiquei aguardando você terminar o livro para eu lê-lo e ficar ciente de alguma nova e importante informação dos demais parentes meus ainda vivos, pois através de Sebastião não iria descobrir mais nada. 
Naquela época eu nada entendia de computador e tão pouco tinha interesse nisso, portanto não havia como eu mandar algum auxiliar tirar de seu micro tal história por isso tive que finalizar Sebastião para você terminar a narração e publicar o livro.
Seu competente cérebro pode ser poderoso e eficiente, mas é muito lento em tomar decisões, não acha?
Concordo com você, pois para fazer-me interessar por informática não determinava nenhuma necessidade de me proteger.
Tal conhecimento só me serviria para fazer-me informar para meu ataque aos parentes e que fora motivado por uma forte emoção que senti não sei por quê. Sei que não foi pela razão tal procedimento e a única explicação é que foi causada pelo cerebelo, nas raríssimas vezes que ele produziu em mim alguma reação. Seu funcionamento parecia-me exclusivamente a de segurar meu esqueleto. 
E depois de matar Tião, o que fez?
Aguardei pelos acontecimentos que viriam. A espera não foi longa e com a publicação do Paraízo tomei conhecimento da existência de Sebastiãozinho.
Era outro que você iria matar. Porque após isso simplesmente não o procurou e o matou?
Porque eu imaginei através dele chegar ao meu alvo principal que era Mercedes, que nada soube pelo livro. Apenas que poderia estar ainda viva em algum lugar.
Esperei o rapaz localizá-la, pois acreditei na possibilidade disso após ele ler o livro, ou vice versa.
E se ele nunca comprasse e lesse o livro?
Eu já tinha providenciado para que lesse.
Como? 
Fiquei preparado para dar o livro a Dra. Rosa no aeroporto de Guarulhos. O “Paraizo” seria um brinde pela compra de qualquer produto que ela adquirisse nas bancas de lá. Ela se dirigiu a uma loja de livros e enquanto pesquisava os que lhe interessariam rapidamente hipnotizei o vendedor para brindá-la com o “Paraizo”. Qualquer loja que ela se encaminhasse o procedimento seria o mesmo. 
Impressionante. Para você tudo dá certo. Por que não tenta a sorte na Mega Sena?
Posso continuar?
Okey.
O tempo ia passando e as coisas acontecendo com ele sempre bem vigiado por mim disfarçado em algum auxiliar ou por eles próprios.
Quando o Enfermeiro Joel e a enfermeira Soraya trabalharam para ele na Vila de São Sebastião, Joel procurou ser seu amigo e a enfermeira fez amizade com sua esposa de forma muito forte. Tornaram-se confidentes uma da outra. Mais adiante precisaria disso.
Para que?
Logo saberá.
Você disse ter usado essa moça para entrar nos meus arquivos e furtar meu livro Tempestade e agora pouco confessou nada entender de computador. Como ela ou você fizeram isso sem entender nada?
Preste mais atenção às épocas, seu burro. Eu disse que nada entendia na ocasião que escrevia ou tentava terminar o Paraíso e foram longos anos de espera justamente por não ter condição de apanhá-lo, pois realmente nada entendia de informática naquela época. Entretanto quando Soraya ou Luana que foi o nome usado copiou o seu livro Tempestade eu já havia comprado um micro e seus livros para aprender tudo muito mais e melhor que você, diga-se de passagem.
Sabido.
O elogio é totalmente dispensável.
Seu monte de ossos podres, imbecil e cachorro filho da puta. Vá pro inferno que é seu lugar.
Você está muito mais próximo de lá que eu.
Veremos.
Voltou a fazer algum plano para destruir-me?
Sei que é impossível, mas mesmo assim desejo ver seu terrível fim.
Tenho certeza que você não verá.
Infelizmente talvez não, mas algum dia saberei sobre sua morte e ainda o verei penando nas profundezas do inferno.
Deixe de falar besteiras e vá adiantando seu trabalho, pois terei de ausentar-me por dois dias e capriche na digitação, pois estamos no final da história. 
Antes de sair deixarei várias frutas e legumes aqui para alimentar-se nesses dias. Quando voltar continuaremos.
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Nesses dois dias o livro foi sendo escrito rapidamente e já tinha tudo concluído e salvo no micro, exatamente até nossa última conversa.
Trabalhei num ritmo frenético até estar nessa condição e dali para frente só restava-me escrever a conversa do dia, por conseguinte ao termino de narração da historia eu a completaria na mesma noite e no outro dia iríamos embora dali.
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Finalmente o anomalia apareceu e por mais que eu insistisse não me disse o que o fez em sua ausência nesses dias.
Falou-me que no momento certo eu ficaria sabendo. Continuei muito curioso, mas nada descobri nem pelo menos uma pequena dica.
Falou que iria contar-me de que maneira descobriu Mercedes e sua filha, respectivamente sua mãe e irmã e como as matou.
A descoberta delas eu já sabia exatamente como foi, assim como suas mortes, mas os detalhes eu apenas imaginava.
Caso alguém não se lembra ele soube sobre Mercedes quando disfarçado de mendigo, próximo a mim no bar Anarquia escutou a atriz Lia Mendes contar-me o seu endereço em Ribeirão Preto e sobre Rosa foi quando algum tempo depois, também disfarçado, ouviu a mesma moça falar-me para onde tinha telefonado a Rosa avisando da morte da mãe. Desta vez era o alemão que estava ao nosso lado escutando tudo.
Matou a mãe procedendo como de hábito. Aplicou-lhe vírus HIV em doses excessivas para eliminá-la rapidamente de AIDS e na irmã injetou enormes quantidades de cocaína na veia e outras drogas na bebida para então, também como de costume, hipnotizá-la e mandá-la sair voando por uma janela de mais de vinte metros acima do solo.
Conversamos naquele dia com ele contando-me os pormenores desses crimes por minha exigência, pois minha intenção era demorar mais tempo onde estava e continuar mantendo minha integridade, pois não tinha ainda definido exatamente como destruí-lo para me salvar.
Eu estava preso a alguns detalhes, portanto precisava ganhar tempo e deveria mantê-lo sob meu domínio o máximo possível de tempo.
As várias perguntas que lhe fazia eu sempre dizia que eram importantes para a história, portanto sempre eram respondidas e com isso ia prolongando nossa permanência no local para mentalmente ir definindo meu procedimento, para ao voltar para casa, conseguir matá-lo.  
Como se aproximou de sua mãe para matá-la?
Isso é necessário?
Claro que sim. Devemos ser o mais elucidativo possível sobre tudo, para a total credibilidade e entendimento de todos.
Quando ela chamou a filha para cuidar dela, porque estava muito depressiva a beira de uma grave crise psíquica, contou sua vida pregressa à ela e a sua amiga que estava presente, pois nessa época eram amigas inseparáveis. Tal esclarecimento foi à causa de a filha abandoná-la definitivamente deixando-a a mercê da própria sorte.
Rosa contratou uma enfermeira para seus cuidados durante 24 horas por dia, pois Mercedes teria dinheiro suficiente para manter o pagamento por muitos anos. 
Todo esse acontecimento e o endereço dela foi dito pela sua amiga a você. Eu estava fantasiado de Mendigo perto de vocês escutando tudo. Lembra-se disso?
Sim.
Foi fácil eu ir com a fantasia da loira até Ribeirão Preto e manter-me a espreita durante vários dias perto da casa para descobrir todos os procedimentos da enfermeira, para providenciar e executar meu plano.
Descobri que ela abandonava a residência todos os dias, sem sequer fechar a porta, após meia noite para encontrar-se e manter relações sexuais com seu amante que era um morador do condomínio dentro de seu próprio carro estacionado na frente da casa daquela rua deserta. 
Notei que sempre trazia sua bolsa de mão, evidentemente com seus documentos para um eventual contratempo caso fosse vista por algum vigilante em ronda, embora fosse raro naquele chique e enorme condomínio fechado, cujos donos milionários sempre corrompiam os seguranças para não verem nada que faziam de errado.
Se era um condomínio fechado como fez para entrar lá?
Seduzi dois porteiros, pois uma linda mulher loira tem esse poder.
Permaneceu lá dentro todos os dias? 
Sim. Os vigias além de satisfeitos sexualmente pela loira foram subornados com dinheiro e informaram-me a escala do mês todo, para facilitar-me a saída e o acesso caso fosse necessário, em dias de seus plantões.
E todos os demais vigilantes cederam às propostas da loira em seus plantões?
Não houve necessidade, pois eu nunca precisei ausentar-me do condomínio. Eu havia entrado com meu carro e as noites eu me mantinha dentro dele para não ser surpreendido como possível ladra ou prostituta de rua, embora aqueles dois vigilantes soubessem por mim que eu estaria fazendo visita durante alguns dias a rapazes que me contrataram para fins de prazer carnal. 
Ficou com o carro parado todo o tempo num único lugar? Não chamou atenção de ninguém tal fato?
Não. Os dois jovens com os quais fiz amizade permitiram-me estacioná-lo em uma vaga no estacionamento para visitantes e lá era comum ter carros parados por longos períodos.
Mas como convenceu a enfermeira em ceder-lhe o lugar?
Não fiz isso. Os mesmos jovens deram-me todo o serviço quando mencionei tê-la visto sair da casa e entrar num carro com um homem no volante.
Soube que ela era formada em técnica de enfermagem e trabalhava em uma das mansões de lá mesmo quando sua patroa ao suspeitar de seus amores com o marido demitiu-a, por coincidência na mesma época que Rosa precisava contratar alguém.
A filha de Mercedes ao consultar a administração do local sobre o procedimento para admitir algum profissional da saúde, foi apresentada à jovem que estava saindo do outro emprego e ofereceu-lhe a vaga. Conforme descobri pelos rapazes sequer houve contrato de prestação de serviços, pois era de interesse de Rosa viajar urgente, assim como o emprego imediato seria muito bem aceito pela enfermeira, pois permaneceria próxima ao amante.
Fizeram um rápido acordo verbal e tudo passou a funcionar dessa forma.
Estamos realmente sem nenhuma segurança nesse país. Todo mundo é devasso. Quem não é corrupto é corruptor, e não só os políticos e os policiais como eu pensava.
Vai continuar falando besteiras, ou posso continuar?
Sim. E depois de descobrir esse detalhe sobre a moça o que fez?
Surpreendi e imobilizei-os dentro do carro de forma rápida para dar fim neles. Deixei-os desmaiados dentro do veículo guiando-o para um local bastante deserto onde provavelmente atearia fogo para queimar o carro e os passageiros, mas ao ver uma arma na bolsa da enfermeira decidi que ela o mataria e se suicidaria em seguida.
Finalmente eu lhe peguei na mentira. Disse-me várias vezes que nunca altera seus planos. Como se explica que pretendia queimá-los e depois mudou para um crime seguido de suicídio? Não vai dizer-me que foram eles quem modificaram o plano, pois ambos estavam desmaiados e nada fizeram ou falaram para você vir com a desculpa que sempre usa comigo, de que fora, eles quem vacilaram.  
Não houve mudança em minha determinação, que simplesmente era desfazer-me deles e isso eu fiz. Apenas modifiquei a maneira de como executar o trabalho, pois o momento ofereceu-me uma forma muito melhor e mais rápida que a anterior, portanto muito mais racional. Inclusive me daria muito mais tempo para resolver algumas coisas imprescindíveis antes do acontecimento ser descoberto.
Aceito a explicação. Continue.    
Hoje você enrolou tanto com suas perguntas inconvenientes que já está na hora de despedirmos, portanto deixe para amanhã para continuarmos como aconteceu em Ribeirão.
oooOooo
 
Escrevi toda nossa conversa e descansei até o dia seguinte para ouvir o final da história do tal livro Bonança. 
Nome completamente impróprio que o individuo escolheu, pois calmaria nunca houve. Somente crimes hediondos e maldades infindas.
Quando o aberração chegou já foi direto ao assunto sem sequer cumprimentar-me.
Esperei acordarem do desmaio colocando a arma na mão da jovem e fiz o que era necessário para calá-los para sempre.
A menina tinha até porte da arma e facilitaria qualquer investigador concluir o que aconteceu.
A esposa do homem que apenas desconfiava da traição dele com a enfermeira passou a ter certeza e aceitaria o fato de maneira compreensiva e em seu depoimento facilitaria ainda mais na elucidação do ocorrido.
Iriam supor que o homem pressionado pela esposa estaria tendo o último encontro com a amante para terminar seu romance e ela ao ser abandonada o teria assassinado e depois suicidado.
Não foi muito mais eficiente e convincente tal método?
Até que enfim.
Até que enfim o que? Gostou como fiz o serviço?
Não é isso. Finalmente matou gente sem hipnose, facadas, AIDS ou destruição sumária com suas mãos.
Foi uma oportunidade acontecida ao acaso por ver a arma na bolsa da enfermeira.
E suas impressões digitais nela e no carro não deixariam os investigadores à procura de uma terceira pessoa?
Eu não tenho impressões digitais em minhas mãos postiças. Esqueceu?
Eu sei. Já me contou. E os rapazes da portaria como desapareceu com eles?
Nada fiz com os moços.
Não seria perigoso deixá-los vivos já que iria ficar na casa de Mercedes servindo-a como enfermeira no lugar da morta?
Não excluo todos os que passam por mim ou conversam comigo quando não me oferecem nenhum risco. Se tivesse de eliminar todas as pessoas que vejo não teria quase ninguém mais sobre a face da terra. 
Seus amigos do bar com certeza estão lá. São, salvos e bêbados como sempre.
Nessa mesma madrugada após entrar na casa da vagabunda da Mercedes que eu sabia estar aberta apresentei-me como amiga de sua enfermeira que viajou as pressas após ela dormir para resolver problemas de ordem familiar em outra cidade. Disse-lhe que ficaria lá apenas até pela manhã para não deixá-la desamparada naquela noite e que pela manhã iria embora. 
A vadia agradeceu-me e pediu para eu ficar mais tempo, para que arrumasse outra enfermeira.
Ela escutava-me sem entender muito bem, pois estava muito alheia a tudo devido sua doentia mente e aos calmantes que já lhe aplicava de forma lenta para não sedá-la de imediato, aceitando de bom grado quando eu ofereci em mandar um amigo Enfermeiro muito mais experiência e capacitado que a outra para substituí-la a partir da manhã seguinte.
Pelo simples fato de saber que quem iria ficar com ela vinte e quatro horas por dia era homem, aceitou de imediato e com muito gosto redigiu conforme minha solicitação, uma autorização à portaria para o ingresso do Enfermeiro Joel. 
Pela manhã muito cedo após substituir todos os medicamentos psiquiátricos por fortes injeções de calmantes, tranquilamente deixei o condomínio em meu carro após entregar na portaria a autorização para o ingresso do Enfermeiro Joel.
Expliquei ao síndico e aos seguranças que ao passar próximo a uma casa sua moradora Sra. Mercedes, que eu nem conhecia solicitou-me tal favor, porque sua enfermeira tinha deixado a casa para uma viagem longa ainda na madrugada e que ela seria substituída por tal Enfermeiro já contratado e que estaria para chegar. 
Logo depois me apresentei com a máscara de Joel e seus falsos documentos que conferidos com a carta permitiram-me o ingresso como enfermeiro da moradora Mercedes.
Os porteiros não iriam questionar porque chegou com o mesmo carro que a loira usava?
Quem lhe disse que o Enfermeiro Joel chegou de carro. Ele apresentou-se chegando de ônibus. O carro ficou estacionado em uma garagem longe daí.
Agora que me lembrei. Mercedes não questionou nada sobre sua enfermeira por você ter mentido dizendo que ela teria viajado quando na verdade estava bem próxima e morta?
Ela não ficou sabendo do acontecido por já não ter condições de sair de casa e também pelo crime não ter sido descoberto logo. Isso só aconteceu por volta das nove da manhã, quando a primeira parte de meu plano já estava devidamente concluída.
O falatório sobre o caso que seria muito não poderia chegar até ela?
Vê-se logo que é pobre mesmo. Acha que em ambiente onde só moram granfinos existe diz-que-diz? O crime só foi sabido pelos policiais e não houve nenhuma divulgação.
Não poderia vazar alguma informação e Mercedes ficar sabendo que sua enfermeira havia assassinado o amante e suicidado? Isso traria problemas ao Joel que foi indicado pela loira que lhe mentiu sobre a viagem da outra.
Quase impossível, mas se isso acontecesse minha explicação seria simples. Bastaria dizer que minha amiga enfermeira disse-me que tinha sido chamada pelo celular para prestar socorro a sua mãe que adoecera no interior e que pediu-me para suprir sua ausência naquela noite e para chamar o colega Joel para substituí-la a partir do dia seguinte, sem eu e tão pouco o Joel sabermos absolutamente nada de suas intenções que era matar o amante e suicidar. Bastava falar assim para tudo ficar resolvido.
Mas tal história que contaria à Mercedes era totalmente diferente da que falou na portaria e ao ser confrontada as duas versões você não iria cair em contradição?
É claro que não, pois a partir do momento em que assumi o domínio da casa, a vagabunda da Mercedes já não falaria mais nada com ninguém para sempre, pois já havia começado destruí-la.
E não houve nenhuma averiguação pelos policiais, na casa?
Sim. No mesmo dia durante grande parte da tarde ficaram lá. Encontraram todos os pertences da moça, mas sempre atendidos por mim, disfarçado de Joel, contei que havia chegado pela manhã indicado por uma amiga da patroa cuja carta na portaria autorizava meu ingresso.
Não seria considerado estranho a Sra. Mercedes contratar, atravéz de uma amiga desconhecida, o Enfermeiro Joel com tanta rapidez, sem saber que a outra se suicidaria na madrugada?
Não. Pois se houvesse tal questionamento seria dito e até provado com a presença da amiga em comum, que seria a enfermeira Soraya muito conhecida e de ótimo conceito, por ter sido comigo os funcionários mais atenciosos e zelosos do hospital do professor Zinho em São Paulo.
Ela se apresentaria como a amiga de Mercedes e de Joel para explicar que fora procurada por Mercedes, pois sua enfermeira havia solicitado demissão e deveria trabalhar somente até aquela manhã, portanto estaria tudo resolvido.
Porque tantas perguntas impertinentes, sobre todas essas minúcias que não aconteceram e que não iriam jamais acontecer porque Mercedes não tinha mais condições de falar ou perguntar nada?
Continue falando tudo como aconteceu e esclarecendo todas as minhas dúvidas mesmo que lhes pareçam inúteis, porque elas são de inestimável valor para a história.
Está bem. Ambos diríamos que não conhecíamos a enfermeira anterior e que nada sabíamos sobre ela, seu romance com o visinho e etc. e ninguém nos incomodaria para mais nada.
Mercedes não interferiria de forma nenhuma mesmo?
Coloquei os investigadores em sua presença e ela só fazia era gemer. Quando tentava responder alguma pergunta só saia de seus lábios algumas palavras desconexas e sem sentido, pois conforme lhes expliquei ela se encontrava muito mal de saúde desde a manhã quando cheguei.
As doses de calmante que lhe apliquei deixaram-na impossibilitada de qualquer contato com eles que respeitosamente aguardariam para novas investigações em outra data futura assim que ela melhorasse.
Melhora que jamais viria acontecer, pois em apenas três dias já estava devidamente lotada de vírus HIV além de uma gravíssima infecção pulmonar plantada e da rápida destruição do fígado. 
Sua morte dolorosa seria breve e por esse motivo, fingindo acatar recomendação de um dos investigadores que permaneceu na casa, o Enfermeiro Joel solicitou urgente uma ambulância de um hospital público para retirá-la, pois ele não teria como fazer nada por ela naqueles poucos dias que lá estava trabalhando. 
Aleguei tê-la encontrado naquele processo degenerativo rápido e irreversível e todos os policiais confirmaram tal fato, pois estávamos com ela definhando rapidamente desde o dia que eu e o policial chegamos.
Levaram-na para morrer em algum hospital do SUS, sem sequer perguntar-me meu nome. 
Voltei para São Paulo, guardei as fantasias da loira e do Enfermeiro Joel para nunca mais serem vistas nos próximos anos e incendiei o carro. Soraya comprou outro para futuras necessidades. 
Chegou a ver o carro preto que fui buscá-lo no bar? Esse também já não existe mais. Foi destruído.
Quando sairmos daqui será em outro totalmente diferente em marca, cor e modelo.
Como fez para liquidar Rosa e depois Zinho?
Como você não para com suas perguntas idiotas, ainda não terminei a história, mas creio que se limitar em apenas ouvir em mais um ou dois dias partiremos daqui para a triunfal publicação.
Tudo bem. Vou indagar só o estritamente necessário. 
Após excluir Mercedes e voltar a São Paulo, viajei fantasiado de Soraya à Alemanha para resolver o assunto com Rosa.
Porque primeiro Rosa e não Zinho que estava mais próximo?
Porque ele estando aqui em local fixo seria encontrado com facilidade e minha irmã poderia desaparecer de lá a qualquer momento e eu a perderia.
Continue.
Já sabedora de seus vícios, bastou Soraya hospedar-se em um apartamento ao lado e rapidamente fazer amizade com a vagabunda oferecendo-lhe drogas, que lhe era entregue no apartamento sempre fechado de Soraya para elas não serem vistas juntas.
Meu personagem passando-se por lésbica manteve-a submissa durante uma noite inteira satisfazendo-a sexualmente, embebedando e drogando-a, para no momento oportuno hipnotizá-la e mandá-la voltar a sua suíte para executar suas costumeiras exibições gratuitas logo pela manhã, antes do pulo fatal.
Mas e no corre corre das pessoas após o salto não poderia complicar a vizinha de suíte por estar tão próxima? 
A polícia provavelmente procuraria por todos os hóspedes para depoimentos, principalmente os visinhos.
É idiota mesmo. Acha que eu estaria lá naquele momento? Fiquei com ela em meus aposentos até sete horas e quarenta minutos e nesse momento a hipnotizei determinando-lhe que executasse o vôo exatamente ao ouvir o sinal que era o bater das dez horas no sino da igreja ao lado que chegava muito forte em todo o hotel.
O badalar do sino era tão alto que há anos já havia um acordo entre a igreja e os moradores próximos que tal gongo só iniciaria os avisos das horas a partir das dez e terminaria as vinte e duas horas para não perturbar ninguém durante a noite, madrugada e manhã.
Eu já havia pedido para encerrar minhas diárias que foram apenas duas, na noite anterior, pois deixaria o hotel no dia seguinte as oito e fiz exatamente tudo conforme planejado.
Não viu o salto?
Não. No momento estava bem longe de lá. Exatamente dentro do avião que partiu às nove horas e trinta e um minutos com destino ao Brasil.
E se seu plano desse errado?
Nada do que planejo falha.
Nada mesmo?
É claro. Tem alguma dúvida?
Não. Não. Não. Infelizmente nenhuma.
Naquele momento tive vontade de atacá-lo antes de ele eliminar-me, pois realmente o demônio era infalível. 
Rapidamente recuperei-me da intranquilidade, pois embora já estivesse com minhas idéias concluídas não teria jamais como conseguir nada em uma luta corporal.
Eu já tinha tudo planejado para acabar com ele antes de ele desfazer-se de mim, pois isso só iria ocorrer após eu entregar o original do livro ao editor.
Muni-me de paciência e perguntei como eliminou Zinho e toda sua família, pois agora eu tinha pressa e ouvi que estava na hora de meu descanso e que ele voltaria no dia seguinte.
Foi realmente muito difícil eu me controlar e não atacá-lo, pois eu estava querendo ir embora o mais rápido possível, pois eu já sabia como eliminá-lo e queria ir logo para minha casa, iniciar o plano de ação que imaginei infalível, mas teria de aguardar o momento certo conforme havia idealizado.
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Nessa manhã eu estava eufórico, pois meu plano não iria falhar e eu não só acabaria com o monstro como ficaria definitivamente liberto para voltar ao meu boteco, tomar minhas cervejas e conversar com meus amigos. 
Pouco dormi de tanta ansiedade e felicidade que senti durante a noite toda, mas ao recebê-lo, cheguei até chorar, para deixar-lhe a impressão que estava morrendo de medo porque minha morte estava próxima.
Tinha vontade apenas de ouvi-lo, para terminar rápido, mas era necessário minhas costumeiras interrupções, por isso, mesmo a contra gosto continuei com meus questionamentos.
Meu personagem Enfermeiro Joel antes de solicitar demissão para viajarmos para Ribeirão Preto havia descoberto que Sebastiãozinho estaria em férias com a família dois meses depois. Soube inclusive que ele iria hospedar-se no SPA de seu tio psiquiatra.
Na mesma ocasião Soraya requereu suas férias.
Qual foi o motivo dela?
Está delirando ou é burrice mesmo? Não existem tais pessoas. Todos são apenas eu usando máscaras e eu ausentando-me como algum deles poderia ficar lá?
Então como trabalhavam no hospital de Zinho, o Enfermeiro Joel e a Enfermeira Soraya, na mesma época?
Em escalas de trabalho diferentes seu energúmeno.
Com a ausência de ambos por motivos justificados fui tranquilo resolver meu assunto com Mercedes e depois com Rosa, para depois de concluído Soraya reaparecer na vila de São Sebastião e também pedir demissão ao patrão que estava de viagem já definida e próxima.
Como ela era muito amiga da esposa de Dr. Sebastiãozinho confirmou os planos deles como sendo os já sabidos e não alterados e soube as datas exatas da ida e da volta. 
Na véspera do dia do retorno dos que restavam da família Pereira da Silva, Soraya telefonou à sua amiga, esposa do médico, confirmando a hora do regresso deles para fazer a limpeza da casa porque assim tinham combinado.
Algumas horas antes foi de moto até a BR próxima e em um posto de gasolina sem chamar atenção marcou encontro com um caminhoneiro para servir-lhe como prostituta. Combinaram o encontro na estrada mais ou menos um quilometro dali para não ser vista com o motorista.
Foi fácil desacordá-lo, já na estrada vicinal sem movimento onde deveria vir em sentido contrário o médico e sua família. Ela indicou tal estrada para ficarem mais tranquilos em seus amores e o caminhoneiro concordou até por já conhecer tal rodovia que inclusive sempre usava por ser um atalho para onde se dirigia.
Como ela fez o rapaz dormir? Dando-lhe algo para beber?
Não. Sei os locais exatos do corpo humano que recebendo forte pressão de meus dedos causa tão forte dor que a pessoa desmaia. Você mesmo é testemunha das várias vezes que o imobilizei conforme falo.
Eu só desmaiei uma única vez quando me segurou forte.
Porque nas outras não o apertei o suficiente para tal. Dosei a força necessária apenas para uma imobilização sem grande dor.
Está explicado.
Soraya deixou o rapaz dormindo dentro do caminhão no acostamento da estrada e seguiu em frente em sua moto que estava sendo carregada no próprio veículo com permissão do motorista.
Ele não acordaria e iria embora?
Não. O desmaio provocado o faria dormir por várias horas. Tempo muito superior ao que precisava que era de apenas quarenta minutos, para trazer o carro do médico para a colisão. Nesse momento professor Zinho já estaria vindo na estrada.
Se mudassem seus planos e não viajassem no horário dito? Se deixassem para o dia seguinte, por exemplo?
Muito simples. Eu também mudaria os meus.
Então você... Está certo. Pensei melhor. É claro que seu plano era matar o Zinho e isso não mudaria. Só como seria é que modificaria e mesmo assim provocado por ele e não por você. Não é isso?
Correto. 
E o motorista do caminhão ao acordar o que pensaria? Ou você iria matá-lo?
Não teria necessidade alguma de excluí-lo. Ele ao acordar imaginaria que dormiu pelo cansaço sempre existente neles e que foi roubado por uma prostituta qualquer e seguiria seu caminho. Não é o que comumente acontece nas estradas? Ele se daria por satisfeito por ter somente sido furtado em seu dinheiro, pois na maioria das vezes vai-lhe toda a carga, além da própria vida.
Está bem. Continue.
Soraya aguardou fingindo estar com a moto quebrada pedindo socorro quando o carro aproximou devagar com sua amiga e o ex-patrão que a veria, a reconheceria e a ajudaria, pois se postou em um local de longa subida consequentemente de baixa velocidade para quem vinha. Após rápida conversa colocou os adultos a dormir e depois fez o mesmo com as crianças.
Deixou-os desmaiados no veículo parado no acostamento e com sua moto voltou ao caminhão. Sabiamente eliminou o motorista destruindo-lhe o peito amassando-o ao volante. Colocou um calço nas rodas dianteiras do veículo e endireitou-o para que andasse em ponto morto em linha reta naquela estrada de grande descida após seu peso forçar e passar sobre a madeira colocada para retê-lo por poucos minutos. Rapidamente voltou ao carro aguardando a vinda do caminhão pesado em alta velocidade estrada abaixo. Avançou com o carro de Sebastiãozinho em contra mão na maior velocidade possível e instantes antes do choque saltou para não ficar junto as ferragens, que seria inevitável e teria necessidade de desmontar toda a cena do acidente para sair.
Durante algum tempo ficou escondida próxima ao local para ter certeza de não ter havido testemunhas e certificando-se ter sido apenas ela a observar tudo voltou a sua moto e desapareceu. Isso é tudo que tenho a lhe contar, pois após isso você já sabe quase tudo.
Porque quase tudo e não tudo?
Agora já está na hora de despedirmos e você terminará de escrever minha história para amanhã logo cedo sairmos para levá-la ao editor.
O que você quis dizer que já sei quase tudo?
Não houve resposta. Fiquei intrigado, mas nada poderia fazer a não ser concluir o livro para partirmos dali na manhã do outro dia para minha salvação definitiva.
oooOooo
 
No dia seguinte finalmente o maldito livro Bonança estava terminado e logo eu iria sair de lá.
Pela primeira e única vez o monstro disfarçado de Enfermeiro acionou um controle e uma porta se abriu naquela jaula que estive durante dois meses.
Ainda era madrugada e o sol nem sequer pensava em mostrar-se.
A grande tempestade que estava acontecendo fez-me lembrar amedrontado da destruição causada pela chuva narrada no livro anterior que eu havia escrito e por isso eu preferia dormir até mais tarde, mas como não tinha nenhum poder de decisão nada sugeri. 
Saímos para o quintal e fui puxado pelo monstro em direção a um carro. 
Olhei ao redor e não vi construção nenhuma, além da que fiquei. 
No veículo estacionado a uns quinze metros fui algemado pelo pulso esquerdo na alavanca do freio de mão, assentado no banco do carona.
Fiquei aguardando a anomalia destruir com suas mãos o que restou da antiga construção se é que existia alguma.
Não acreditava no que via, pois aquele homem extinguiu em apenas uma hora mais ou menos, várias toneladas de aço que jogou em um buraco já previamente feito tapando tudo com terra deixando o terreno totalmente vazio e limpo dentro do alto muro que cercava tudo. Jamais alguém poderia afirmar que ali havia uma enorme edificação.
Antes de abrir o portão para partirmos ele perguntou-me:
Agora quer saber o que ainda falta lhe contar?
O que é?
Iremos para outra casa e desta vez em uma fazenda afastada em Santos onde após hipnotizá-lo dar-lhe-ei um telefone para chamar seu amigo editor que mora em Guarujá para conversarem e você entregar-lhe o DVD com o livro gravado para que ele mande publicá-lo. 
Foi lá que estive quando me ausentei por dois dias. Tinha necessidade de preparar a casa para hospedarmos.
Não voltarei para minha casa?
Não.
Não é possível. Preciso ver minha família antes de você matar-me, pois sei que fará isso.
Eles ainda não regressaram da viagem.
Não importa. Tenho de voltar para casa. Não posso continuar com você.
Eu tinha de estar longe dele por algum tempo para conseguir destruí-lo conforme havia planejado. 
Era isso o que poderia acontecer antes de você decretar sua morte.
Deixe-me vivo. Não posso morrer ainda.
Por quê?
Ainda não é minha hora e falta uma coisa importantíssima a fazer antes.
Tentar matar-me primeiro? É velho e já viveu o bastante. Inicialmente eu pensava em deixá-lo solto. É claro que monitorado, mas após você confessar que pretendia destruir-me principalmente por ter confessado saber como. Além disso, conheceu todos os meus disfarces e não poderei mais deixar você viver me caçando e causando-me aborrecimentos. 
Não sei como destruí-lo e nem tentarei nada contra você. Faça uma experiência deixando-me vivo e solto e na primeira tentativa minha em aborrecer-lhe então me mata. Dê-me pelo menos uma chance.
De que? De tentar destruir-me?
De continuar vivo. 
Não confio em você e agora que já sabe o que acontecerá em breve trate de descansar, pois nossa viagem daqui de Campinas até Santos durará três horas inteiras. Pode ter certeza que não sentirá nenhuma dor, porque me simpatizei consigo depois de todos esses dias que ficamos juntos por isso lhe satisfarei não o deixando sofrer.
Não estamos em São Paulo?
Não. Em Campinas.
Simpatizou comigo? Como assim?
Ainda tentando descobrir se tenho algum sentimento? É apenas modo de dizer. Nada me une a você se é que está pensando que estou gostando de você. Não sinto absolutamente nada. Apenas estarei satisfazendo seu último desejo que foi solicitado dezoito dias atrás. Como retribuição ao livro que digitou e editará sobre mim terá sua passagem calma e tranquila durante seu sono sem nenhuma dor ou sofrimento. 
Meu desespero era tamanho que não consegui falar mais nada. Calei-me durante as quase duas horas de viagem que se seguiram recordando tudo que havia descoberto a respeito do monstro e como meu plano para matá-lo iria funcionar.
Tinha descoberto sua grande ingenuidade quando conversei com ele vestido de alemão.
Recordam-se quando lhes contei sobre sua tentativa do ato sexual?
“Calma senhor. Não pretendo fazer-lhe mal algum. Só vim para lhe dar prazer, já que não aceitou da mulher”.
“E por que eu não quis a loira pensa que quero homem”?
“Não é isso”?
“É claro que não seu idiota”.
Sua infeliz conclusão imaginando que quando algum homem não deseja uma mulher gostaria de ter o outro sexo deixou-me claro seu desconhecimento sobre nossos desejos. Muita infantilidade dele e a partir daí comecei enveredá-lo por caminhos que me orientaram sobre muita coisa importante.
Na conversa que repito:
“Sabia que eu também tenho meus planos”?
“É evidente que deva tê-los. Para tudo na vida deve haver planejamentos. Eu que sou imensamente superior a você faço os meus. Porque você não os faria”?
“Pois saiba. É provável que eu o mate primeiro”.
“Impossível”.
“É indestrutível”?
“Meu querido amigo Velho. Vejo que está novamente tentando descobrir meu ponto vulnerável, mas tenha certeza que jamais lhe darei alguma dica para descobrir, pois nem eu próprio tenho certeza se tenho ou não um local acessível a destruir-me. Apenas desconfio dessa remota possibilidade”.
“Julga-me inferior e idiota, porém consegui de você o que queria saber. Eu também já imaginava isso e sua resposta convenceu-me que estou no caminho certo, pois até já suponho qual seja o local”.
“Como você julga poder destruir-me”?
“Continua menosprezando minha inteligência seu monstrengo horroroso. Respondo-lhe usando suas mesmas artimanhas. Eis uma resposta que não posso dar”.
“Pois tenha certeza que sua suposição sobre minha possível morte, persuadiu-me em decidir que você não poderá definitivamente continuar vivo, seu velho inferior”.  
“Então agora passou a ser categórico meu assassinato”?
“Sim. Absolutamente certo, mas vamos mudar de assunto, pois esse já esgotou por já estar decidido”.
“Como fui burro. Decretei minha morte”.
Nessa conversa de fato decretei meu fim, entretanto passei a ter certeza que aquele único e enorme olho existente poderia ser vazado por um punhal comprido e bem afiado ou um tiro que lhe atingiria o cérebro destruindo-o. Tal olho não poderia ser recoberto por nenhum metal ou material duro, pois com certeza impediria sua visão. Era protegido apenas pela lente dos óculos que deveria ser de vidro ou plástico para ser transparente permitindo-lhe enxergar, portanto fácil ser quebrado. Em um determinado dia pedi-lhe se me arrumava uma faca para cortar-lhe conforme já havia me proposto. Eu na realidade tinha intenção de tentar furar-lhe o olho com ela e danificar seu cérebro, mas foi negado por ele.
Meu plano definitivo e infalível era combinar com alguns amigos meus da polícia especial antissequestro, ótimos de tiro acertar-lhe tal olho quando eu estivesse solto e com condições de contar minha história à eles e conseguir isso.
Tudo caiu por terra a partir do momento que não iria mais soltar-me. Era urgente que deveria fazer alguma coisa e ao passarmos por São Bernardo do Campo em direção a baixada pela estrada velha tentei minha última cartada.
Mesmo algemado à alavanca do freio atirei-me sobre ele com o corpo fazendo-o lançar o carro precipício abaixo. Está certo que eu morreria e ele não sei, entretanto meu desespero era tanto que só pensei em destruir tudo.
Ele mostrou-me mais uma vez sua enorme rapidez e força. Antes de o carro precipitar-se montanha abaixo, conseguiu tirar o corpo pela porta de seu lado que agilmente abriu e segurou com uma das mãos aos arbustos e com a perna ainda dentro do veículo manteve-o parado em pleno ar encostado na ribanceira. Com a outra mão, atirou-me as chaves das algemas mandando soltar-me e segurar em sua perna, pois me salvaria. Fiz o que mandou, pois nesse momento não queria mais precipitar-me porque percebi que seria só eu e o carro que cairíamos. Tirou sua perna pela porta aberta do veículo trazendo-me ridiculamente agarrado a ela.
Perguntei-lhe:
Porque deixou o carro cair?
Antes de ele embicar no precipício estragou toda a frente onde está o motor ao destruir a amurada com o choque, portanto nada mais valerá.
Porque me salvou?
Porque ainda não concluiu sua obrigação e serei eu a mata-lo e não um acidente.
Está com raiva de mim pelo transtorno?
É claro que não. Não sinto esse sentimento.
Mas não lhe aborreci?
Apenas atrasou nossa viagem.
O que faremos agora.
Vamos aguardar a passagem de algum carro para continuarmos.
Essa estrada é totalmente deserta.
Sempre há algum turista que passa por aqui para conhecer o trajeto que D.Pedro fazia para encontrar-se com sua amante a Marquesa.
Vai demorar muito.
Talvez.
Ficamos assentados a beira do caminho sem nada falarmos por mais de uma hora quando finalmente a anomalia rompeu o silencio.
Sua intenção era saber meu ponto fraco não era?
Porque pergunta?
Porque você é muito ingênuo.
Eu ou você?
É claro que é você. Pensa que não sei que você descobriu que tem chips de monitoramento em seu corpo?
Como sabe que descobri?
Desde quando ficou insistindo em eu soltá-lo das amarras mesmo tendo certeza que não conseguiria fugir.
Eu desconfiava, pois não estando mais sendo alimentado pelas veias não justificava ficar com aqueles estúpidos conduites amarrados em meus pulsos e tornozelos.
Eu precisava de mais dois dias para as cicatrizes desaparecerem de sua pele sobre a pequena incisão que fiz para implantá-los.
Era o que eu queria averiguar.
Insistiu tanto que deu para descobrir que você sabia.
Também por suas insensatas perguntas sobre meu ponto fraco deixou claro que também imagina como eu onde seria essa passagem ao meu cérebro, se é que existe.
É através de seu olho não é?
Não tenho certeza. Jamais tentei ou tentarei furá-lo.
Eu penso nisso permanentemente.
Eu sei. Tentou até conseguir que eu lhe desse uma faca para tentar isso.
Exatamente. Tinha essa intenção.
Seu plano falhou.
Meu plano não era esse. Tal fato foi apenas uma tentativa meio desesperada.
Eu sei. Você precisaria ser posto em liberdade para armar-me uma cilada para atiradores de elite escondidos alvejarem-me de longe. Acertei?
Na mosca.
É pena que não conseguirá, mas dê-se por satisfeito pois seus herdeiros receberão muito dinheiro pelos direitos autorais do livro Bonança.
Façamos um acordo. Deixe-me vivo. Você sabe que jamais conseguirei destruir-lhe.
Já está decidido. Sinto muito.
Mas eu até estou gostando de você. Seremos muito amigos. Que acha disso?
Uma tremenda besteira.
Veja está vindo um carro. Fique quieto que vou pará-lo para socorrer-nos.
Eu nada podia fazer para ajudar as pessoas que vinham naquele automóvel descendo a serra e simplesmente fiquei aguardando, pois naquele local que estávamos eu não tinha para onde ir a não ser atirar-me pela ribanceira abaixo ou aguardar meu raptor voltar.
Não tinha a devida coragem para saltar e provocar minha morte antecipada e se deixasse acontecer conforme o monstro planejara poderia realmente deixar meus herdeiros menos triste com meu falecimento, por isso aguardei os acontecimentos. Estava conformado com meu fim e desejava de fato que tal livro se tornasse um sucesso e rendesse muito dinheiro para minha família usufruir, mesmo que para isso eu fosse assassinado.
Havia apenas uma pessoa no veículo, que ao parar foi arrancado pelo vão da janela pela cabeça e creio que já morto pelo monstro que disse-me ao tirar a chave do contato.
Aguarde-me dentro do veículo que vou jogar esse homem pela ribanceira em direção ao meu carro lá embaixo para dar a impressão que era ele o motorista acidentado se algum dia forem encontrados.
Calado abri a porta do carro e assentei-me sobre um objeto que logo percebi ser um revolver. 
Esse maravilhoso presente veio junto daquele infeliz que estava sendo jogado precipício abaixo a uns vinte metros a minha frente. 
Tive toda a sorte do mundo, pois meu monstruoso companheiro de viagem viria em minha direção impedido de ver-me fazendo mira a seu olho, porque os faróis do carro estavam ligados por causa da forte chuva que caia. 
Deixei-o aproximar-se e quando estava bem próximo descarreguei toda a munição existente na arma em direção de seu olho e tive certeza que não errei porque eu era muito bom de tiro.
Ele chegou a meu lado arrancando-me a arma da mão, atirando-a no vazio do abismo e sentou-se no volante guiando o carro estrada abaixo. 
Eu chorava, gritava, amaldiçoava e ele impassível conduzia o veículo.
Desiludido, pois descobrira estar totalmente enganado a respeito de seu ponto vulnerável passei a ter uma calma idiota e sereno permaneci olhando fixo para a estrada e minha visão embora fosse bem inferior a dele vi que ele guiava devagar e tinha dificuldade em manter-se correto na estrada.
Parecia-me que ele estava enxergando com dificuldade por isso perguntei-lhe:
Não está vendo direito as curvas?
Cale a boca seu filho da puta.
O que?
É isso mesmo. Feche essa matraca seu desgraçado.
Você está gritando e xingando?
Estou com vontade é de matá-lo agora.
Está sentindo emoções?
Cale essa boca maldita.
Está descontrolado. Preste atenção nas curvas da estrada senão irá nos matar.
A nós não seu cachorro, pois eu não morro. Só você irá queimar no inferno. Eu fico. 
Então porque está tão irritado assim? 
Você estragou-me a máscara.
O que lhe importa isso? Têm tantas.
Estou enxergando muito mal.
Consegui atingir-lhe o olho.
É claro que não, seu cretino.
Então eu errei os tiros?
Não seu filho da puta. Você acertou.
E você não morreu? Está morrendo aos poucos?
É lógico que não morri e nem estou morrendo, seu desgraçado.
Então me explica o que aconteceu para você estar sentindo toda essa raiva de mim. Nunca se portou assim.
Fomos brigando o tempo todo que restava até chegarmos a Baixada Santista e entramos em um local cercado por um muro alto semelhante ao do esconderijo anterior.
Finalmente veio a explicação dele:
Talvez os três tiros dados em minha cabeça fizeram meu cérebro entender o ódio que eu deveria ter sentido a quarenta e sete anos atrás e está me proporcionando todos os sentimentos e emoções que nunca me foram possíveis. Pelo que estudei e aprendi garanto-lhe que agora também tenho meus dois sentidos que faltavam, pois estou percebendo o cheiro das coisas. Provavelmente vou ter paladar quando comer e tudo graças a você. 
Então como recompensa por isso que consegui para você vai deixar-me vivo não é?
É claro que não. Quem lhe disse que estou contente com isso. Estou é com ódio de você, mas o manterei vivo até fazermos o que já tinha planejado e como estou pensando e agindo como qualquer ser humano comum não vou mais cumprir meu compromisso consigo. Já posso mudar de opinião, mentir e etc., portanto sua morte será a mais dolorosa e horrenda possível seu cachorro desgraçado. Vai sofrer em minhas mãos muito mais do que irá passar no inferno.
Mas você não está ficando cego? 
Não sua besta. Não é nada disso.
Agora pouco você disse que não estava enxergando bem.
É porque você danificou minha máscara de Enfermeiro e as rebarbas do olho fictício estão tapando meu verdadeiro olho.
Mas se as balas danificaram a máscara porque não lhe afetou o olho?
Simplesmente porque ele é protegido por um forte vidro transparente blindado e a prova de balas, que fica entre ele e a parte interna das fantasias. 
Por favor, poupe-me.
Agora que estamos aqui dentro, para poder enxergar direito poderei tirar essa porcaria de máscara sem correr o risco de alguém ver meu rosto.
Após falar isso, o monstro arrancou a cabeça do Enfermeiro e ficou com seu horrendo rosto a mostra. Estávamos a uma distância de uns doze metros um do outro, pois o anomalia tinha deixado o carro e ido fechar o portão, pois não fora aberto com controle remoto porque a tempestade danificara algum circuito do mesmo.
Em seu retorno assustou-se com o violento estrondo de um trovão e por puro reflexo, recém-adquirido olhou em direção ao céu no exato momento em que um raio entrou rápido e destruidoramente em seu enorme olho fora de órbita destruindo-lhe o cérebro. 
Ele simplesmente explodiu.
oooOooo
 
Frações de segundos antes de sua destruição com surpreendente rapidez conseguiu atirar violentamente em meu crânio aquela pesada cabeça do Enfermeiro que tinha nas mãos.  
Infelizmente para mim esse minúsculo espaço de tempo ainda deu para eu pensar na terrível asneira que cometi desde o início.
Ao saber que o anomalia só completaria sua obra após destruir todos os seus parentes, não me veio em momento algum a lembrança da história que a jovem senhora idosa contou-me no bar um dia antes de meu sequestro.
Era impossível fazer voltar o tempo, mas era só informar-lhe que ainda existiam vários parentes seus ainda vivos para tudo modificar-se desde o principio e eu continuar vivo até que ele os eliminasse.
A mulher que me procurou era uma adolescente há muitos anos atrás, quando foi iludida, desvirginada e engravidada pelo então namorado José Pereira da Silva, na época ajudante de demolições na rua Minas Gerais. Foi abandonada por ele e voltou para sua terra natal e lá gerou seus dois filhos gêmeos que hoje são adultos e criminosos da mais alta periculosidade e com muitos filhos cada um que seguindo o raciocínio do anomalia transformar-se-iam também em péssimas pessoas, por serem filhos de seu primo Zezinho.
Ao ler meus livros tal mulher tomou conhecimento que o José era nada mais nada menos que o Zezinho, filho de Afonso e por esse motivo havia me procurado para que eu conseguisse fazer seus filhos bandidos herdeiros do Professor Zinho, pois sendo seus únicos parentes vivos teriam esse direito. Sua intenção era de que eles de posse de tanto dinheiro parassem com seus crimes.
Foram as últimas coisas que vi e que lembrei-me antes de chegar aqui no reino de vocês. 
Então o DVD que estava com ele destruiu-se também e o livro Bonança nunca foi publicado?
Não. Essa história só é sabida quando eu a conto para vocês. La na terra dos vivos ninguém sabe dessa história.
E a alma de seu inimigo? Não veio para cá com você?
É lógico que ele está aqui. É aquele cara medroso e chorão que passa correndo a todo instante gritando, e morrendo de dores pelos horrores que tem sofrido nesse tempo que estamos aqui.
Quanto a você continue nos contando suas histórias engraçadas senão irá estar com ele e sofrer igual por toda a eternidade.
Pode deixar que eu crio trilhões de histórias para sempre lhes ludibriar. Nisso eu sou mestre.
ACABOU.


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