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   > Papai, me compra um curumim



Gilberto Julia
      CRôNICAS

Papai, me compra um curumim

 Não tinha sido um dos melhores dias, as bolsas  viviam um inferno  astral assustador, nem  mesmo o anuncio  da Presidência Americana sobre um novo plano econômico acalmou  os nervos.
Era  sexta-feira, minha  esposa havia pedido para que eu pegasse meu filho no colégio, pois ela também estava atrasada devido a complicações no trabalho, e como é de costume acabei atrasando, pois achei que dava tempo para fechar algumas  planilhas antes  das dezoitos  horas. 
Saí do escritório na correria, na correria entre “aspas”, pois ultimamente o transito de Londrina não tem  permitido tal regalia.
Já no  colégio onde meu filho estuda, pude observar que apenas ele ainda encontrava-se por lá, a imagem calma e serena da freira que o tomava conta me isentou da sensação de pai irresponsável.
Nem tive a oportunidade de dar-lhe um beijo, pois a cria entrou pela porta de traz  e se acomodou no banco traseiro.  Se  ele me disse algo, não me lembro,  apenas repeti a decorada frase “tudo bem filhão”.
O menino todo feliz por me ver ainda tentou algum diálogo comigo mas logo notou que eu não estava pra papo, foi se acomodando, e logo iniciou a brincar com seus brinquedos que estrategicamente eu deixava no banco de traz.
Meu rádio como sempre sintonizava a Voz do Brasil, era necessário saber como reagiria o governo brasileiro  diante à invasão de Trípoli e a queda do Primeiro Ministro do Japão.
                ___ Que transito horrível!  Que saudade da época em que por estas ruas apenas os carros mais lentos e as carroças iam e voltavam.
Minha indignação soava na contra-mão de minhas atitudes, pois este era o meu segundo carro novo em menos de seis meses, eu tinha agora um importado composto doque há de mais moderno em todo o mundo.   Lá atrás,  meu filho se divertia com seus brinquedos, mas se preferisse, tinha acesso a internet e a vídeos diretos dos estúdios Disney.
Talvez  isso me tranqüilizasse sobre a falta de atenção que eu lhe dava.
                O relógio já marcava oito horas, a voz do Brasil já havia terminado, eu passava pela frente da Prefeitura Municipal.  Passava não!  Estava parado.  Pois  o transito era de uma lentidão descomunal.  
Desculpa!  Talvez  você não seja de Londrina, então vou te explicar.
Quando você  sai do centro em direção ao zona sul da cidade, as duas melhores opções é ir pela via expressa, ou pegar a Duque de Caxias,  última  esta  a qual eu me encontrava. Quase em seu final para acessar a avenida Inglaterra, você vai passa na frente da Prefeitura, logo a frente um semáforo que não muito diferente  do resto da cidade estava  paralisado.
A lentidão era tanta, que eu dirigia com a mão direita no volante, a outra forrando a cabeça que eu encostava contra o vidro, quase cochilando.
Lá na frente observei que havia uma blitz, desta em que o guarda faz vista grossa para pneus careca, falta de freio e capacete aberto, mas indiscutivelmente  você vai ser multado se o seu IPVA estiver vencido.
Eu quase dormia  diante tanta lentidão, quando fui surpreendido pelo meu filho que eu já havia esquecido no banco traseiro.
                ___ Papai, me compra um curumim!
                ___ Compro, filho!  Respondi mecanicamente como todas as outras vezes.
Não demorou muito e novamente veio a pergunta:
___ Papai, me compra  um curumim.  Comecei a esbravejar, tipo; já disse que compro,  agora fica  quietinho vai!  Perai!  Pensei!   Como assim!  Me  compra  um curumim?
Ao olhar pelo retrovisor a surpresa.  Meu filho com as duas mãozinhas colocada no vidro já embaçado com sua respiração, olhava atentamente para o lado de fora.            Abaixei um pouquinho o vidro e entendi o porquê de seu pedido.
Logo ali sentadinhos na calçada três curumins olhavam atentamente Àquela muvuca que acontecia com o transito.
Dois maiorzinhos, cuidavam do recém nascido que brincava pela calçada.
 
A indignação interna e a sensação de culpa, silenciou por instante a barulheira das buzinas provocadas pelo transito.  Aqueles que meu filho chamava de curumins, eram vistos por mim como meros indiozinhos. Por quantas vezes havia passado por ali e ignorado a presença daquela gente. Jogados a própria sorte à margem de um riacho calçado por concreto, escoando a poluição da cidade, vivendo em barracas de lona preta. Seus pais, perdidos entre o ser ou não ser indígena.  Nos traços a herança hereditária  de uma nação forte que aos poucos foram empurradas aos becos e às condições sub humanas.  Pelo corpo distribuído as vestias com as etiquetas  famosas doadas por quem acha que uma calça ou um boné pode cobrir a vergonha que nós criamos desde que os presenteamos com um espelho.
E pela primeira vez, sou tocado por uma destas flechas.  Não  só pelas condições que nós ditos civilizados os empunhemos, mas pela inocente  flecha do pedido de meu filho.   Aquele a quem pago um dos mais caros colégios da cidade, onde creio eu que terá uma boa formação, acaba de colocar o dedo sobre a minha aberta e ardente ferida, acaba de apontar na prateleira de minha arrogância  o produto que eu e minha sociedade criamos.
___ Porque  você quer um curumim, meu filho?
                ___ Horas  papai!  Quando o senhor me deu o Rex, o senhor disse que era porque ele estava  abandonado.  Que  ele  precisava de um lar.  Olha os curumins,  eles também precisam de uma lar.  Não é?
                Um nó me tomou a garganta, quase não consigo falar.
                ___ Mas  filho!  Curumins não são iguais ao Rex,  eles  são pessoas,  já tem família, tem pai e mãe igual a você.
                ___ Não parece  papai, se tivessem alguém, não estariam ali a essa hora na calçada.  E  o senhor deve lembrar o Rex também estava na calçada, abandonado igual a eles.
                Meu DEUS!  Oque dizer a esta criança agora, se passei  a vida  inteira sem  ensinar-lhe nada sobre a vida?
                ___ E  tem mais papai!  Um curumim, pode  morar comigo no quarto, o Rex  a mamãe  não deixa.  Posso dar a eles aqueles meus brinquedos, e a noite eles podem me ensinar como se chama  cada estrela do  céu.  Compra pai!  Vai  compra um curumim pra mim.
 
 
 


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