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   > Noturno no seringal



Gutyerrez Oliveira Monteiro
      CONTOS

Noturno no seringal

                               Noturno no seringal    
Gutyerrez Oliveira
                                                                                                                                                                  Naquele noite tudo estava muito mais  escuro do que nas outras noites.  Os homens não podiam ver nada do lado de fora do barracão. A chuva parecia  não ter fim, destilava   por cima das árvores de seringueiras caindo gota a gota nas folhas encharcadas. Dentro do barraco como isolados do mundo, viam o que mostrava a lamparina com o vento remexendo as sombras assombradas da noite na parede. No terreiro, um frio de gelo. Mas, por cima das  árvores, no meio de toda aquela escuridão, um  olho amortalhado  pairava por cima da palhoça vendo e  observando os homens frágeis que pitavam suas parroncas de tabaco para espantar os carapanãs. A terra tremia, com zoadas de trovão  e no negrume da noite riscavam raios rápidos em ziguezagues   de relâmpagos  que iluminavam a noite medonha, mostrando como num flash a silhueta das arvores assombradas.O olho se aproximava daquele barraco no meio das  trevas  do seringal.
O homem na rede, doente de malária, ardendo em febre. A floresta tremia dentro dele... O delírio era maior que a vontade de viver, e a morte se aproximava bem devagarzinho   na forma, na figura do rosto  de sua mãe. E ele conversava falando  com ela no meio de toda aquela escuridão, pedindo que  trouxesse alguma poronga  para acender e expulsar aquelas trevas,  que devagar, bem devagarzinho [...] estavam entrando,  invadindo suas entranhas  e tomando  conta de sua vida.
-Mãe...  mãe ... Ele chamava esperançoso...
A morte lhe sorria bondosa.
-Mãe... mãe ...  É você?
 E ela apenas sacudia a cabeça sorrindo,  confirmando ...
-Mãe, por favor,  traz uma lamparina ! Para afastar essa escuridão que esta me penetrando.
E a febre aumentando. E a febre aumentando.
Fazia frio de água da cacimba á boca da noite. Mas ele suava, junto com as nuvens da tempestade. No delírio, aquelas vozes nas sombras da parede   contavam tantas histórias!  Ele lembrava...
Contavam a  história da mãe da seringa, que cansada de ver suas filhas árvores escorrendo  seu leite,  colocava á noite  um pedaço de espírito mau  na rede dos seringueiros, e os deixava doente.
Os mais velhos contavam a historia e aguardavam com esperança  de que um dia eles voltariam pra casa e seriam como heróis na sua terra natal. Tudo mentira! Tudo mentira! Eles jamais voltariam daquele  lugar.
Os deuses da floresta estavam raivosos, eles estavam nos temporais e nos relâmpagos, e sem misericórdia alguma, se escondiam debaixo das folhagens    para pular de emboscada na roupa do seringueiro, que indo para sua casa, sem perceber, se escondiam  em sua rede de dormir para perturbá-lo á noite com terríveis pesadelos.
 A casa de palha e a terra,  tremiam devido aos trovões.
 E aquele homem  continuava a conversar com sua mãe, ouvindo o pio funesto de uma coruja agourenta, e o gargalhar de um  rasga mortalha conversando com sua morte  em forma de sua mãe, vestida de mortalha roxa  - respondia da cabeceira da sua  rede para a coruja que se acalmasse, pois em breve ela teria seu defunto.Não tive-se pressa!
-Mãe... mãe ... Com quem você está conversando?
E a morte apenas lhe sorria bondosa.
O pio daquela coruja parecia uma contagem regressiva para o abandono da vida. Fazia tanto frio, frio de argila molhada no corpo. A febre ardia tanto. A agonia era tanta. O delírio era tanto, que ele preferia que o sono chegasse logo dentro de toda aquelas trevas, naquela hora noturna, soturna  da noite!
De repente, no meio da febre, entre a visão da morte e da vida que minguava, escorrendo sonolenta entre os seus olhos, aquele homem soube que a sua rede tão companheira de descanso   assim como a rede de todos os outros seus companheiros lhe serviria de caixão,  seria o seu derradeiro invólucro para o apartamento apertado de cova da  terra fria , por isso gritou num delírio de ultima  angustia
-  Mãe, não posso me embrulhar...esse lençol me apavora...
E a morte lhe pegou no colo sorridente e bondosa  e o balançava   consolando!
Cantando   baixinho uma canção de ninar !
“Meu filho, não chores senão o dia vai custar a vir. Não vai doer nada , porque morrer não dói, reza três ave-marias, entrega-te, muda a tua roupa pra dormir, veste a  pijama de mortalha, pois a coruja já parou de piar, agora você já pode dormir ”
Ele  olha  então  com um olhar já sem brilho pra morte, sua mãezinha bondosa  e  vê  o rosto, a sua mãe sorrindo...
Ele sorrir também...  Compreensivo ... Resignado ... concorda  ficar em seus braços ...
Ela tão bondosa ...   Seus olhos nos olhos dele...  
Sorri  dizendo – Não chores, não vai doer nada!
A  chuva vai destilando gota a gota sobre as folhas encharcadas , a terra parou de tremer dentro daquele homem.
                                                        
                                                               ***
 
 
 
 


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