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   > "A CLASSE OPERÁRIA VAI AO PARAÍSO"



Aldefran Melo da Silva
      CRôNICAS

"A CLASSE OPERÁRIA VAI AO PARAÍSO"

 
Em 1993, retomei contato com um antigo amigo de escola, Lalau, que conhecera na sétima série em 1981. Por coincidência, também fizemos o segundo grau em outra escola juntos. Lalau é aquele tipo de aluno que gruda em um amigo que acha mais capaz nos estudos e exalta suas habilidades. Tipo: o professor faz uma pergunta para a turma e ele levanta a mão dizendo que fulano ou sicrano sabe a resposta. Como eu já desenhava bem naquela época, Lalau também exaltava o meu talento. É um empresário nato. E foi essa característica que nos reuniu.
Inicialmente precisou de mim para estampar algumas camisas de um candidato a vereador. Fizemos o serviço juntos e dividimos os lucros. Em seguida, começou a arranjar pequenos trabalhos de pintura em academias, escolas e lojas. Também me indicava serviços de faixas e cartazes. Dos valores cobrados, ele tirava trinta por cento.
Certa vez pegamos um escritório de advocacia para pintar. Seriam algumas letras pequenas nas paredes internas e uma placa externa de 1,20m x 0,80m. Esta seria feita em casa e depois instalada. Recebemos os cinquenta por cento de sinal e comecei a pintar as paredes, enquanto Lalau já procurava outras empreitadas. 
No dia seguinte, continuei a pintar, mas não tinha muita experiência com letras e o advogado não estava gostando muito do serviço. Ao entardecer, quando Lalau chegou, nosso cliente não queria pagar tudo, na verdade queria desistir até da placa. Mas meu amigo foi determinado. Disse que tínhamos que concluir o negócio, pois gastamos dinheiro com madeira, sarrafo e a placa estava quase pronta.
Com muito custo, o advogado aceitou, mas queria receber o suporte pintado na manhã do outro dia ou não pagaria nada. Saímos de lá meio desolados pois, na verdade, nem tinha começado a placa ainda. Lalau blefara e, como já era tarde, seria impossível comprar os materiais, construir o suporte e ainda pintá-lo.
Mas, no caminho para casa, meu amigo viu um caminhão estacionado com um monte de placas de um certo político. Os suportes mediam aproximadamente o tamanho de que precisávamos e, quando olhei pra cara dele, vi seus olhinhos brilharem.
"Não vou fazer isso!", exclamei, sem que Lalau tivesse me dito coisa alguma.
E ele: "vai pra casa e me espera! Você não precisa fazer nada!"
Fiz o que ele mandou e uns vinte minutos depois Lalau chegou lá em casa com a placa tão almejada. Imediatamente passei tinta cobrindo a propaganda eleitoral e, mais tarde, pintei o nome do escritório junto às outras especificações do advogado. Fui dormir tarde, mas o trabalho ficou muito bom. Pintar em um suporte no chão é bem mais fácil do que em paredes, onde qualquer descuido deixa o texto desnivelado. Só fiquei receoso por não ter usado tinta branca, pois esta tinha acabado, mas a gelo deu conta do recado.
No outro dia fomos entregar o serviço. O advogado fez uma minuciosa inspeção na placa para encontrar falhas, mas não dei mole. Fizera um acabamento perfeito, lixando e pintando até as laterais. Ele chegou a comentar que eu usei tinta gelo ao invés da branca, como combinado. Mas teve que dar o braço a torcer que ficou melhor assim. Então só restou nos pagar.
Em uma sociedade exclusiva como a nossa, conseguimos duas façanhas extraordinárias na mesma semana: arrancamos dinheiro de um advogado e roubamos um político.
Obs.: Esta crônica autobiográfica e mais 110 do mesmo gênero encontram-se compiladas no meu livro: AUTOBIOGRAFIA NÃO AUTORIZADA DE MIM MESMO no site da Ed. Protexto


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