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Abrindo a caixa preta...
Silmara Aparecida Lopes
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   > Pequenas histórias de ociuffi



orlando ciuffi filho
      CONTOS

Pequenas histórias de ociuffi

  
 
 
 

 
Pequenas histórias de ociuffi
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Dedico essa obra às pessoas:
Minha esposa Eliana e meus filhos Jean e Caio.
Meus irmãos Wanderley, Vanda e Marli.
Meus cunhados Gilberto e Terezinha.
E principalmente a Airo Zamoner que por acreditar em mim publicou meu livro ‘CRIME SEM CASTIGO’
Eles foram meus maiores incentivadores para a existência não só deste livro, mas de todos os demais, por isso sou-lhes imensamente grato.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Nesse livro o leitor encontrará algumas histórias, todas de ficção, que a meu gosto umas são muito boas e outras nem tanto, porém deixei-as, pois minha vontade não deve prevalecer e sim o dos leitores, portanto boa leitura.
ociuffi
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Índice:
1)    Minha atual morada. Trata-se de uma história acontecida no Inferno. É isso mesmo. É uma visão do autor do local onde habitam os satanases e seus asseclas, porém tão perversos, atrapalhados e mal organizados como nós mesmos. – 15 páginas.
2)    Vida Amarga?É uma pequena história sobre a trajetória de vida de uma garota muito bonita desde seu nascimento até quando completa sua maioridade. – 4 páginas.
3)    Landinho. O menino que não quis parar de crescer. Trata-se de uma história romanceada, mas muitos fatos ocorreram verdadeiramente com a personagem que viveu nos idos anos 50 na cidade de Guaranésia, no sul do estado de Minas Gerais. Esse conto infanto juvenil, narra sobre a trajetória de um pequeno garoto, cujo nome é Landinho, desde seus seis anos de idade até sua adolescência com aproximadamente quatorze anos. Conta com muito bom humor seus medos, seus temores, suas atitudes ingênuas, seus erros, seus acertos e suas fases românticas e adultas. – 45 páginas.
4)    A quem possa interessar. Nada muito empolgante e nem escrito por qualquer psicólogo ou analista, mas por uma pessoa já bastante vivida e com muitos erros e acertos pela vida afora, que ousou passar-lhe alguns ensinamentos se quiserem tirar proveito. – 8 páginas
5)    Insatisfeito.Essa história acontece no Brasil, iniciando na cidade de São Paulo, onde um cão da raça pastor alemão, insatisfeito com o domínio dos humanos inicia um levante para tomar o poder dos homens. Consegue ser enviado com seus filhos para uma fazenda em Juiz de Fora em Minas Gerais e de lá reúne os demais animais para aderirem ao seu levante contra a nação humana dominadora. Instituiu vários atos que caracterizavam a revolta, mas passaram muitos anos no planejamento do ataque que acabou praticamente destruindo toda a nação brasileira sem que a revolução de fato concretizasse, e os próprios animais revoltados com suas atitudes exigiram a dissolução dos atos e sua renúncia, pois seria a única forma de tentar recuperar o país. – 64 páginas.
6)    Pais.É mais ou menos a mesma pretensão da história A quem Possa interessar, porém mais dedicada aos pais que sempre lotados com seus afazeres pessoais nunca têm muito tempo para os filhos. – 7 páginas.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
MINHA ATUAL MORADA
O eterno dia está como sempre muito claro e a medonha e monstruosa bola de fogo de cor vermelha encarnada soltando colossais labaredas de muitos quilômetros de comprimento por toda sua circunferência, conhecida como estrela solar ou simplesmente sol não está tão longe como eu imaginava anos atrás.
Ela queima desintegrando totalmente seus próprios astros, planetas e satélites quando chegam muito perto e outras estrelas menores com seu sistema planetário inteiro quando cansadas e descuidadas desviam-se de suas rotas e inadvertidamente são instantaneamente sugadas pela estrela assassina, sem terem nenhuma possibilidade de defesa.
Os ÓVNIS, os asteroides, os cometas e demais corpos celestes tidos como independentes seguindo pela última vez sua trajetória até então definida que enfadados pela quase eterna rotina, abestalhados descuidam-se de seu caminho aproximando-se demais, deixam-se serem atraídos pela sua descomunal força de gravidade e não continuam ilesos. São instantânea e impiedosamente destruídos, manchando longos espaços da abóbada celeste com seu sangue espalhado, felizmente não chegando a jorrar e nem mesmo pingar sobre nós, pois muito rapidamente tudo vira pó.
Minha exuberante e homicida estrela sol destrói tudo a sua volta transformando em fumaça cósmica, cujo borrão cinza escuro em pouco tempo se mistura aos dejetos e sangue espargidos pelos céus caminhando a principio rápido, totalmente desgovernado, qual um bêbado na madrugada tentando achar o caminho de seu imundo barraco.
Tal fumaça que foi o que restou de planetas e estrelas inteiras, com suas construções, habitantes e tudo que por ventura possa ter existido, logo se afasta. Aos poucos vai desaparecer vagarosa, tranquila e serena, agora transformada em montanhas de fumaça branca como algodão doce, ou nuvens vistas de dentro de um avião em voo, nos longínquos e enormes buracos negros do espaço sideral sem deixar rastros ou restos.
Simplesmente não fica nenhum vestígio da existência desses possíveis maravilhosos e talvez até povoados corpos celestes.
Chego até ter a impressão de que todo o infinito vai desaparecer em pouco tempo, pois milhões de estrelas ao mesmo tempo fazem exatamente a mesma coisa que a minha preferida. Entretanto a todo instante ouço as explosões de milhões de outras delas ao longe que completando seu ciclo de vida explodem apagando-se. Suas minúsculas partículas se unem solidificando em uma infinidade de pedaços maiores dando origem a bilhões de outros astros, planetas e satélites que rápidos e submissos acomodam-se ao redor de uma estrela sol qualquer que acabara de ficar solitária, porem viva, rodando a sua volta obedientes e sem ficarem tontos, como gigantescos carrosséis de circo. Assim formam-se outros sistemas solares novos para começarem seus trilhões de anos de vida.
Esse circulo vicioso do universo é realmente interminável e concluo para minha decepção que o infinito é realmente ilimitado e sem fim.
Pelo que vou lhes contar tenho certeza que o seu desejo será exatamente como o meu que é de que ele desapareça, mas infelizmente isso não acontecerá. Ele foi realmente muito bem planejado e executado, mas tenho uma proposta para modificá-lo se todas as pessoas auxiliarem-me.
Com calma vou narrar-lhes onde e como moro e no final direi minha pretensão e conto com a ajuda de todos, pois meu plano é realmente muito bom, sensato, simples e faz sentido e se realmente for posto em prática pode e deve mudar tudo. Com certeza para melhor.
oooOooo
Tal visão assustadora que descrevi acima não se parece nem um pouco com os enormes e vários braseiros daqui onde moro, pois são compostos de quantidades incontáveis de corpos humanos e não celestiais que incessantemente incendeiam provocando densa fumaça preta e fortíssimo e apavorante mau cheiro de enxofre com carne queimada, nos mares de lava aqui existentes aos milhares.
Tal cena é imensamente mais feia que a outra e não desaparece em nenhum buraco negro, branco, vermelho ou amarelo. Ela é permanente e horrível.
A grande diferença é que aqui os corpos não viram fuligem.
A fumaça preta e mal cheirosa desprendida incessantemente é causada pela queima das roupas, das próteses, dos excrementos, das tênias e lombrigas, das larvas e germes que ainda permaneciam nos corpos humanos mortos e decompostos pelo tempo que passaram enterrados em suas catacumbas. Tais corpos defuntos ao chegarem aqui retornam a uma espécie de vida semelhante a de vocês aí na terra.   
Essas pessoas se queimam sem serem dissolvidas, provocando insuportáveis dores aos que se incendeiam por séculos seguidos não sendo destruídas jamais embora com certeza desejassem. 
Tais gases putrefatos que emanam do lugar são insuportáveis à qualquer ser humano vivo, por isso creio eu que o criador levou sua mãe em vida para o céu e não para cá, pois nem ele próprio veio. Só deu uma rápida passadinha e mesmo assim após sua morte. Em vida nem ele ousou estar aqui por um momento sequer.
As incinerações de tais pessoas jamais as destroem ou as matam queimadas por um motivo muito simples. Todas já estão mortas.
Muitas há muito tempo. Séculos até, entretanto as dores horríveis que sentem são reais e inacabadas, muito além do limite da ser suportada por qualquer ser humano vivo, mas aqui ninguém mais é ser humano vivo e não tendo o dom de desfalecer, desmaiar ou morrer são obrigados a conviver permanentemente com elas.
Até o presente momento e creio que por muito tempo nada mudará, a não ser que consigamos colocar meu plano em execução urgente.
Embora suas carnes desprendam, estilhaçam e são estupidamente lançadas ao ar sempre voltam às fornalhas para continuar o ritmo frenético da dança macabra de todos os participantes, mesmo os que jamais aprenderam bailar sequer um simples samba enquanto viviam.
Constantemente vejo alguém inteiro sendo atirado em uma fogueira e logo seus pedaços voam ao longe caindo em outro local, misturando-se a outros pedaços unindo-se a outros corpos dilacerados e desfigurados, modificando invariavelmente suas feições de segundos antes. 
Chega até ser engraçado ver pessoas do sexo feminino de cor branca com enormes braços, testículos ou pênis de homens negros e vice versa. São apenas momentos que vejo tais cenas, pois instantes depois tudo se modifica.
Meu único divertimento é ficar assistindo para ver se consigo acompanhar e ver a coincidência de partes retornarem ao mesmo momento em seus devidos corpos, mas nesses longos anos que aqui vivo, melhor dizendo “onde permaneço morto”, jamais consegui assistir a montagem de tal quebra cabeça impossível.
Ainda tenho dúvidas se não seria melhor estar lá com eles ou permanecer cá fora sem sofrer nenhuma tortura física, mas assistindo a tudo sem nada poder fazer a não ser padecer do martírio mental por saber que a qualquer momento também poderei estar lá. Essa expectativa é horrorosa e deprimente.
Somos muitos a termos o privilegio de não participarmos do tormento logo ao chegarmos, por motivos diversos. O meu é por saber contar histórias. Invento-as constantemente para o lazer dos mandatários do lugar e seus filhos aprendizes.
Para quem não se lembra mais de mim, pois há muitos anos deixei de conviver com as pessoas vivas, vou contar-lhes quem sou, ou melhor, quem fui. Eu era um escritor medíocre que nunca publicou nada e era chamado pelos amigos e me auto identificava com o pseudônimo de Velho gordo, careca e de barbicha branca.
Atualmente não sei como é minha aparência, pois não há espelhos ou nada que possa refletir minha imagem.
Dos cinco sentidos humanos quatro existem para nós privilegiados que ficamos apenas assistindo ao sofrimento alheio, mas não sei bem como ilustrar exatamente como são. São de formas diferentes das que eu tinha em vida.
Sinto o cheiro, por exemplo, porem ao tapar o nariz não me impede de continuar sentindo os mesmos cheiros que antes.
Ao fechar os olhos continuo enxergando do mesmo jeito, entretanto não vejo a mim mesmo, embora imagine que tenho massa muscular. Creio eu, pois os corpos dos outros que vejo dão-me a nítida impressão de serem compostos de carne, osso e sangue, principalmente quando os vejo aos pedaços fumegantes lançados ao ar, como folhas secas ao vento ou pequenas mariposas voando, entretanto jorrando sangue e até ouço o som de seus ossos sendo partidos.
Pedaços de suas carnes fétidas constantemente chegam até nós, gritando de dor pelas queimaduras, por menor que seja a partícula vinda.
Falo sem emitir som. Acho que é como dizem vocês vivos, por telepatia. O único som possível de se ouvir é a gritaria oriunda dos urros de agonia e desespero dos incendiados, pelas dores causadas infinitamente sem destruí-los.
Pensei em comparar tal alarido com o estrondoso ruído causado pelo encontro ao rio Amazonas com o mar, conhecido mundialmente por seu fragoroso barulho, mas creiam em mim: Quem já ouviu o estrepitoso baque das Pororocas pode multiplicá-lo por centenas de vezes para se ter ideia da quantidade de decibéis que estrondam por aqui ininterruptamente.
Meu tato é bastante apurado, pois percebo nitidamente quando apalpo qualquer coisa. Já apanhei e joguei de volta ao fogo vários pedaços gritantes de cadáveres que chegam até mim. Isso é constante e é por isso que digo que meu tato é ótimo, pois sinto muito bem quando os pego, além de tatear os companheiros que estão comigo do lado de fora. Sinto perfeitamente suas carnes serem pressionadas pelas minhas mãos que com certeza são também compostas de músculos, nervos e ossos, pois só assim sentiria o tato.
Meu sentimento de contato assim como a visão, também não existe em mim mesmo. Tento apalpar-me e nada sinto. Quando faço tal experimento tenho a impressão de ser de fumaça como os fantasmas de filmes de cinema.
Sempre se fala por aí que é horrível ser cego e não enxergar a si próprio, mas creiam em mim, é muito pior do que não se ver é não se sentir. Tentem pelo menos imaginar isso para saber como é péssimo. Descobri que a falta do tato é muito mais decepcionante e frustrante que a da visão.
Algum tempo antes deixei de devolver os pedaços às lavas deixando-os no chão próximos a mim, mas mesmo sendo uma minúscula parte de um dedo a gritaria que ela causou foi tão apavorante por isso tenho de ter o permanente trabalho de desfazer-me de tais carnes destroçadas, lançando-as de volta a procura de seus pedaços. Coisa que é simplesmente impossível, mas é o único afazer deles.
Imagino que faz parte das regras daqui eles adquirirem o direito de algum tipo de salvo conduto para passarem a alguma outra fase qualquer o fato de eles se juntarem corretamente, mas todos meus amigos com os quais me comunico nunca viram tal coisa acontecer. Saibam que tem gente aqui há milhares de anos.
Há muito tempo atrás assisti uma cena horrorosa que me fez proceder a devolução sistemática e rápida dos pedaços que caem a meu lado por medo de acontecer o mesmo comigo.
Estava bem perto de mim um dos privilegiados a ficar fora dos tachos que demorou a jogar uma orelha que estava gritando perto dele e não sei como tal orelha saltou do chão direto em sua boca e daí para dentro dele.
Tal pessoa é conhecida de vocês. Trata-se do assassino de muitos de seus compatriotas, chamado Saddam Hussein. Como não existe aparelho digestivo em ninguém tal pedaço se manteve intacto em seu interior e ele não aguentando a gritaria em suas entranhas mais que alguns segundos atirou-se em uma das fornalhas sem ter sido autorizado.
Em todos os anos que estou aqui essa foi a única decisão tomada por livre arbítrio por uma pessoa, ou melhor, por um defunto, e por isso seu castigo passou a ser diferente. Creio que mais insuportável que aos outros, se é que aos demais posso dizer ser suportável.
Ele não se despedaça. Perdeu apenas os olhos, e sua língua fica totalmente fora da boca caída pelo queixo abaixo. Não sei se ele tinha vindo assim devido sua execução por enforcamento e o tinham arrumado e agora devolveram ao normal pós morte ou se tal desprendimento da língua fora ocasionada somente agora ao se atirar no tacho fumegante.
Seu corpo é atirado ao ar de fogo em fogo, inteiro e pelos seus gritos tão mais fortes e assustadores que os dos demais suponho que suas dores e seu sofrimento sejam muito maior.
Acho que os corpos ao se partirem aos pedaços as dores ficam também repartidas para cada parte individual e ele ao permanecer inteiro deve sentir a dor completa. Não sei se é isso. Apenas imagino que seja. Isso é problema dele e quero mesmo é que ele se dane.
Como na visão o mesmo acontece ao tentar sentir-me como já disse há pouco. É impossível. Sei que existo, pois ando, enxergo, sinto cheiro, apalpo coisas, ouço imensuravelmente bem, embora quando vivo estivesse bastante surdo. Para minha decepção aqui me curei de tal doença, que me seria um premio se eu continuasse com ela. Melhor dizendo gostaria de ter perdido totalmente a audição, mas com certeza tal cura faz parte de minha punição que é ouvir muito bem todos os lamentos dos demais. Eu teria de cumprir meu destino interminável escutando os berros de sofrimento dos outros, que corrigirei para suportáveis e não insuportáveis como vinha dizendo até agora, pois não consigo o direito de em sendo insuportável, simplesmente não suportar e morrer por exemplo.  É pena. Já estou bem defunto.
Dos sentidos só não tenho o paladar, mas isso não tem a mínima importância, pois não existe comida de espécie alguma. Nem bebida nem nada para se alimentar. É desnecessário dizer, mas direi que tal prática é saudável para manter a vida e como não a temos mais, isso é o obvio insofismável.
Ia esquecendo de comentar que o desejo de alimentar e beber permanecem inalterável e a cada dia que passa aumenta consideravelmente. Para terem ideia do tamanho de minha fome e sede, pode ter certeza que comeria agora todos os bois e os porcos do Brasil inteiro, assim como beberia toda a água do Rio Amazonas e do São Francisco juntos, em um só gole, para tentar saciar minha atual vontade. Nem consigo imaginar o quanto estarei necessitando daqui a uns três ou quatro séculos.
É bastante comum dizer por aí “Daria todo o restante de minha vida para manter vivo meu filho doente terminal, ou meu pai ou minha mãe”, mas aqui eu digo constantemente: “Daria todo meu restante de morte, pela minha morte definitiva”. Morreu, acabou e fim, que era como eu pensava antigamente, mas que infelizmente descobri que não é nada disso.
Talvez você que estiver lendo essa história pode estar se perguntando ou querendo saber de seus amigos, pois a mim não tem acesso, por enquanto, como tal conto chegou a você. Vou esclarecer porque e como tal narração foi colocada em suas mãos.
Sei perfeitamente bem que a passagem para cá é bastante simples e constante, pois basta morrer para vir.
Isso todos vocês já tem essa informação desde criancinhas, mas o que não sabem é que a ida daqui para aí é tão fácil quanto a vinda, pois se pode ir e voltar a todo instante.
É claro que tal procedimento só é permitido a determinados entes com poderes delegados pelos mandachuvas da casa. Nós nada fazemos por vontade ou decisão própria. O tal do livre arbítrio já era. Não existe mais. Dele só temos a lembrança e o desejo.
Pelo que me disseram apenas o Saddam procedeu conforme já disse. Sem permissão. Ninguém sabe como conseguiu, pois o permitido só é possível após consentimento e sempre quando idealizado por eles. Nós temos o direito de pensar por nós mesmo sobre tudo que quisermos, mas daí a colocar algo em prática a coisa muda totalmente. É impossível. Não temos força para pegarmos um peso superior a um quilo, portanto não temos condições de erguermos sequer um demônio recém-nascido, pois ao nascerem já pesam mais de quarenta quilos.
No caso do Saddam com certeza alguma das autoridades do lugar errou, pois isso é uma prática quase constante entre eles. Erram muito.
Voltando a falar sobre como se volta para junto de vocês é o seguinte: São mortos como eu, que também usufruem dos direitos de não tentarem virar churrasco, mas capazes de executar os planos exigidos pelos chefões de fazerem ou induzir vocês vivos de praticarem algo de ruim consigo mesmo ou com seus semelhantes, como por exemplo, atormentar ou matar alguma pessoa ou famílias inteiras. Insuflar alguma guerra, revolução ou destruição qualquer no planeta quando do interesse da casa, que é constante, pois eles têm acesso ao que mandam fazer ai e se deliciam com os resultados sempre catastróficos para vocês.
São vários os mensageiros do Príncipe das Trevas que os visitam invariavelmente.
Entre os que permanecemos ilesos as queimaduras, temos além dos contadores de histórias como eu uma gama enorme de outros falecidos que mais adiante contarei quem são. Explicarei em detalhes sobre todos.
Nós temos o transito livre para locomovermos em qualquer lugar daqui, menos nos atirarmos nos tachos com lava fervente. Nossa única permissão é conversarmos entre nós e devolvermos os pedaços de cadáveres que caem próximos a nós.
Comumente comunicamos entre nós e nos damos bem, até porque ninguém tem poder algum de fazer nada com os outros. Somos todos defuntos iguais sem nenhuma capacidade a não ser a única que nos era a mais predominante em vida e só podemos colocá-la em prática a serviço deles e quando solicitados por eles.
Através dos enviados pelos Satãs ao mundo dos vivos, tento mandar informações a vocês, pois talvez por falha nas normas daqui tal coisa é permitido em suas leis. Imagino que seja descuido deles a gente ter alguma possibilidade de contar sobre isso aqui. É muito pior que os campos de concentração da segunda guerra, ou as carnificinas em massa nos tempos do domínio Romano ou Egípcio na antiguidade.
Não tenho certeza se recebem minhas informações, pois definitivamente não vejo novamente a mesma alma penada que solicitei tal favor, para saber se levou ou não, entretanto continuarei mandando minhas histórias para vocês.
Jamais alguém chegou aqui dizendo ter lido ou tomado conhecimento de algo mandado por mim, mas como tenho muito tempo e às vezes sobram-me períodos ociosos continuarei criando e enviando sobre minha atual morada e novo local de trabalho e outras histórias também.
Se algum amigo ou familiar tomar conhecimento do que falo, não adianta ficar com raiva ou triste por eu não mandar o procedimento de como não vir para cá, porque não existe tal fórmula mágica. Não adianta tentar descobrir como devem proceder aí para evitar a vinda. Ela simplesmente é aleatória.
Fazem-se reuniões periódicas entre os demônios e eles decidem ao acaso quem deve vir. Para sua tristeza, digo-lhe que não há nenhum recurso, remédio ou providencias a tomar para evitar sua vinda. Basta ter muita sorte, pois a cada cem mil humanos que morrem apenas uma centena não vem. É quase que ganhar sozinho na mega sena da Caixa, várias vezes seguidas.
Pode ser mau, impuro, sem religião e péssimo caráter ou ser bonzinho, puro, religioso, bom caráter etc., que se cair no sorteio virá com certeza tanto os maus elementos como os “santos”.
Se valer de alguma coisa diria que o ideal é ser escritor ou exercer uma das outras atividades que irei mencionar depois. Talvez, se eles não cometerem nenhum erro que é muito comum, ter o privilegio de não permanecer queimando no fogo eterno, mas sinceramente não sei se é tão bom assim, pois nossa permanência assistindo o que se passa é tão assustadora e horripilante, que não sei se é melhor estar aqui no “oásis das trevas” ou nas chamas intermináveis.
Quando os mortos excepcionais como eu, são considerados descartados ou inúteis por falta de criatividade e repetições de seus predicados são lançados aos bilhões de desgraçados e como eles ficarão queimando eternamente, portanto nossa regalia não é permanente e inalterável. A qualquer momento estaremos lá. É apenas questão de tempo.
Em uma determinada ocasião quase tive esse destino, pois eu já havia visto muitos entre nós serem enviados para o sofrimento e propositadamente deixei de criar.  Passei a contar histórias repetidas para ver se me mandavam para lá para constatar a diferença e optar pelo melhor lugar, mas conversei com um escritor antigo muito conhecido de vocês, que me deu algumas informações interessantes.
Ele é simplesmente um dos maiores gênios de literatura mundial de todos os tempos. Nada mais nada menos que Dante Alighieri que continua criando maravilhas e me informou que em todos os séculos que aqui se encontra jamais viu alguém partir para os mares em chamas e voltar para o convívio deles. Entre eles citou-me Judas Iscariotes, Shakespeare, Kafka, Mao Tse Tung, Napoleão, Che Guevara, Dostoievski, Stalin, Sartre e muitos outros que foram para sempre após terem sido considerados descartados. 
Eu que até então imaginava a possibilidade de escolha e retorno, se me interessasse, tremi nas bases. Só não me borrei todo por total falta de fezes em meu interior oco. 
Veio-me então a dúvida atroz. Não seria melhor, assim como ele, o Poe, o Charles Chaplin, o Cervantes, o Chacrinha e vários privilegiados continuar por aqui mesmo?
Passei a ter as maiores inspirações de minha existência. Até então nunca tinha criado tanto como a partir desse dia. Quase disse no lugar de minha existência, “minha vida”, mas não passaria no crivo, pois vida não tenho mais, porém não posso também dizer de “minha morte”, pois descobri para minha grande surpresa que quando morremos não desapareceremos com a carcaça, pois agora posso dizer que continuo existindo, portanto também não estou definitivamente morto. Só não tenho como provar isso a menos que acreditem em mim através de meus contos se chegarem a ler. Em tal época não sei como consegui inspiração e escrevi uma história pornográfica, cuja mulher chamada Rosa passou a ser para eles como Deus é para os humanos. Todos aguardam sua vinda para cá para tê-la como esposa e gerar um filho para eles. São tão estúpidos que não entendem o que é uma pessoa criada em ficção e acreditam na verdadeira existência dela.
A propósito, meu maldito Alzaimen continua acompanhando-me por isso havia me esquecido de dizer que quando falei com Dante comentei que havia lido sua maravilhosa obra intitulada “O Inferno de Dante”. Ele confirmou-me tê-la escrito aqui e enviado aos vivos, portanto agora posso afirmar com certeza que o que se cria aqui pode perfeitamente ser publicado e lido aí quando o portador passa a alguém que tenha interesse em divulgar.
Essa pequena historia que estou escrevendo não é de nenhum interesse para o pessoal daqui, pois é o dia a dia interminável do local e do conhecimento de todos, por isso é apenas um conto que enviarei apenas para vocês do mundo dos vivos na Terra.
Histórias maiores e geralmente de ficção com coisas que invento e inventarei sobre vocês é que são do agrado deles, que também continuarei mandando-lhes. Peço-lhes desculpas, pois minha passagem aconteceu no inicio do século XXI, daí eu não sei e nem faço ideia de quanto tempo já passou e pouca coisa fiquei sabendo sobre as novidades, evoluções e invenções conseguidas por vocês, por esse motivo minhas histórias estarão, sempre desatualizadas para o seu tempo. Só poderei escrever sobre as coisas que conheci quando vivi ai e por algumas parcas notícias quando alguém as trazem.
Quando eu me refiro em enviar para a Terra dá a impressão de que eu não estou no mesmo planeta que vocês e isso é outra coisa que não sei ao certo.
No inicio quando descrevi sobre o sol passei a informação quase convicta que estou na Terra e o sol que vejo é realmente a estrela central de nosso sistema planetário, mas às vezes imagino-me estar dentro dele próprio e o sol que vejo poderá ser outra estrela que forma outro sistema na via Láctea ou até em outra galáxia qualquer. Não estou certo sobre isso e se algum dia conseguir descobrir estejam certos que lhes falarei.
Voltando a narrativa digo que é lógico que torço para aparecer pessoas que escrevem para trazerem suas histórias e novidades da civilização viva, entretanto parece que a quantidade de escritores aí e aqui está diminuindo. São poucos os que aparecem e as informações mais recentes que tenho estão ficando cada vez mais aquém da atualidade de vocês, mas creio que minhas histórias servirão para alguma coisa. Talvez para assustar pessoas muito sensíveis e medrosas. Mesmo assim já me satisfaço com tal resultado, mas continuo pensando que servirá para concluir meu desejo que no final será devidamente explicado.
Soube que Zélia Gattai chegou aqui e procuro incessantemente por ela para tentar conseguir informações importantes sobre vocês que com certeza ela terá, mas infelizmente ainda não a encontrei. Nem sei se a mandaram para os tachos ou se ela está entre nós.
Meu antigo livro intitulado “Inferno” que foi vivido e escrito aí, cujo final foi exatamente a minha morte e a destruição do CD cuja história estava gravada, foi um best-seller aqui, pois adoraram as artimanhas e feitos do “Aberração” que foi o personagem principal dessa minha história. Tal narrativa já foi enviada, mas nunca soube se aí tomaram conhecimento dela. Gostaria que alguém entre vocês vivos que lerem esse conto procurasse saber se foi publicada para informar-me quando chegar se estiver entre os sorteados que permanecerão fora do fogo eterno.
Ficarei “eternamente” grato se a informação for completa, pois tinha os livros Paraizo e Tempestade e o conto Landinho que estavam escritos com algumas cópias feitas na impressora do computador que também gostaria de saber se foram publicados.
Todas as demais histórias que mandei daqui, além do “Inferno”, por descuido de minha parte não mandei com títulos, portanto saber se foram publicadas ou não ficará difícil, pois pode até ter sido apoderada por algum escritor safado, que se intitulou o autor e deu a história algum título inventado por ele.
Talvez algum dia alguém chegue contanto tais histórias e então ficarei sabendo da publicação e quem foi o usurpador. Conforme a velha piada da freirinha do programa Terça Insana, rezarei por ele.
Voltando a falar sobre o Inferno (O livro e não minha morada atual) informo-lhes que como os lideres daqui sabem tudo sobre a Terra acharam ótimo o Aberração, figura central e notável, totalmente irreal e mágica para os conceitos dos humanos vivos e até dos demônios.
Ele era um indivíduo que eles jamais imaginaram existir no planeta por isso interessaram-se em ouvir repetidas vezes tal história. Acharam-no maravilhosamente perfeito e o desejaram entre eles, para ele contar-lhes seus feitos maldosos.
Insistiram para que eu dissesse onde encontrá-lo para irem buscá-lo, mas ao saberem que ele veio comigo exatamente ao mesmo momento e há tempos já estava sendo destroçado entre os corpos mutilados em suas panelas de lava incandescente. Sabedores da impossibilidade de trazê-lo de volta, satisfazem-se com a repetição da história que para minha sorte mesmo depois de passados todos esses anos continuo contando-a com muita frequência até hoje. 
Isso me deu tempo para criar novas e ótimas histórias, pois até então eu só tinha os dois livros e o conto já mencionado e inevitavelmente não passaria muito tempo em cair no ostracismo e ser descartado, pois as outras histórias não os agradaram e não tive permissão para contá-las muitas vezes. O conto Landinho nem terminei a narração da primeira vez, pois o acharam horrível. De muito mau gosto e de péssima influência. Atualmente nem eu mesmo lembro-me bem o que escrevi nele. 
Aqui é uma bagunça, pois os comandantes são piores que os governantes do Brasil, pelo menos até quando aí permaneci. Espero sinceramente que tenham mudado.
A incompetência daqui é simplesmente igual. Nunca se faz nada uma única vez. Estão sempre mudando o que imaginaram ser o certo, trocando por outra decisão simplesmente pior que a anterior e nunca chegam a um acordo até desistirem da pretensão inicial que nunca é concluída e tudo continua na mesma bagunça de sempre, ou até pior.
Voltando a falar no Aberração, foi um tal de cada um colocar a culpa do erro no outro em mandá-lo para as fornalhas que só vendo.
Sempre que conto tal história brigas enormes e violentas acontecem culminando com a morte de vários deles, que se culpam um ao outro por não tê-lo mantido junto a nós.
É isso mesmo que você leu. Por incrível que pareça eles são os únicos daqui que morrem. Eles têm esse direito que não temos, uma vez que oficialmente já estamos falecidos e eles não. Eles estão vivos e como tal podem morrer, mas não ficam vagando por perto ou penando nas caldeiras daqui. Eles simplesmente viram pó e são levados pelo vento. Dizem por aqui que é com as cinzas deles que se formam os cometas que vagam pelo espaço sideral, atormentando os corpos celestes. Certa ocasião vi pelo menos uns trinta mortos tentarem empurrar um único demônio nas chamas e não tiveram forças sequer para movê-lo do lugar de tão pesado que eles são, e mesmo que conseguissem tal feito não o mataria, pois a lava incandescente não lhes faz absolutamente mal algum. Eles entram e saem das fornalhas a todo instante sem que nada lhes aconteça, portanto rebelarmos e tentar matá-los é impossível. Somente eles mesmo que conseguem isso uns com os outros em violentas brigas onde usam suas garras, seus dentes afiados seus chifres e suas asas que cortam seus próprios corpos como navalhas afiadíssimas. Os tais tridentes afiados e a foice que comumente se fala na terra como sendo suas armas não existem. Não passa de invenção humana. Eles voam e muitas brigas acontecem sobre nós que entramos em desespero quando algum abatido cai sobre nossas cabeças antes de virar cinza. A dor de receber aquele peso enorme sobre nossa cabeça é horrível, e para nossa infelicidade não nos mata, pois já estamos bem defuntos.
Aqui tudo é tão ridiculamente organizado que não só o Aberração, como Hitler e a grande maioria de seus generais, Mussolini, Calígula, Nero, Osama bin Laden e muitos grandes inimigos das populações estão nos tachos de lavas. Como eles vários Faraós egípcios e muitos outros grandes criminosos da civilização que deveriam ser poupados para contar seus feitos aos iniciantes ao comando do local, por seus contínuos erros não foram poupados e acabaram lançados às chamas infindáveis, indevidamente.
Não errei dizendo que bin Laden está aqui. Ele já veio e bem antes que eu. As constantes informações de suas aparições em vídeos e televisões piratas ai na terra são falsas. Ele já paga por seus crimes a longo tempo. Podem avisar o Bush para vir logo para eles se encontrarem preferencialmente no mesmo tacho. Ele vai verificar que o fogo e a destruição do Afeganistão e do Iraque que ele provocou foram feitos bem fraquinhos perto do que verá e sentirá aqui.
Já que falei sobre isso é necessário que eu diga quais são os defuntos que são aproveitados.
Comecei falando de mim, portanto esclareço que os escritores e contadores de histórias não vão para as fornalhas eternas, pois são usados para contarem suas histórias aos principiantes a demos ainda crianças e adolescentes e também aos adultos e devem ser de conteúdo trágico e cruel, preferivelmente em se tratando de histórias reais.
Quando é a biografia de alguém cujo final funesto foi planejado e mandado executar por algum deles ele sobe na escala hierárquica do comando. É o seu grande momento de glória.
Como já disse muitos escritores estão por aqui como o Dante, o Poe, o Cervantes e muitos outros e pelas burrices e desorganizações infernais não aproveitaram a maioria dos excelentes escritores de todos os tempos como é o caso de Jorge Amado e muitos outros. A maioria ficou fora, isto é “fora” não. Ficaram dentro dos enormes tachos lotados de rocha incandescente e de defuntos destroçados.
Os jovens satanases ainda crianças têm muito contato com nossos mortos que sabem fazer mágica e números espetaculares e engraçados e que contam piadas sujas e despudoradas.
Portanto ser mágico ou palhaço é outra opção para se ter em vida, pois poderá ser usado aqui sem sofrimento, mas não é nada garantido, pois entre eles não foram aproveitados pela mesma idiotice de sempre, o grande Houdini, o Costinha, o Cantinflas, o Oscarito, o Grande Otelo e vários outros. Nem Stan Laurel e Oliver Hardy que compunham a sensacional dupla do cinema mudo, ficaram a salvo das fornalhas por pura incompetência.
Ratificando o que já informei os impiedosos assassinos são usados para contarem seus grandes feitos criminosos e de destruição. São geralmente muito bem vindos por terem sido pessoas a causarem males entre os vivos sem ter o comando e o domínio dos mandantes daqui, mas como já disse antes, tudo é feito aos erros, portanto há aqui bandidinhos quase que insignificantes ao passo que os monstros já citados não estão.
Os puxa sacos são os mensageiros para cumprirem missões especificas aí entre vocês. É a grande maioria entre nós e não sei se por existirem de fato em grande quantidade ou se eles tem mais cuidado para não perder nas chamas nenhum dos mortos que tenham essa especialidade tão importante para eles.
O grande esmero deles é não descuidar de selecionar as prostitutas, pois são exatamente elas que servem para engravidar-se dos satanases e gerarem seus filhos, para eles e isso aqui continuar existindo, pois entre eles não há mulheres. São as cortesãs que chegam da vida para após parir serem jogadas às caldeiras, pois só geram um filho satanás. Antes de nascer o feto alimenta-se de tudo que restou dentro da mulher deixando-a totalmente oca.  É a única vez que se alimentam. Vão comendo tudo que encontram dentro dela, até saírem por enormes buracos que deixam na carcaça da mulher. Eles próprios ainda recém nascidos atiram o que sobrou da “mãe” às lavas e elas, sofrendo tanto quanto os demais ficam inutilmente procurando suas partes que nunca serão encontradas por não existirem mais.
Só depois que vim para cá que soube por que elas são conhecidas aí como pertencentes a mais antiga das profissões.
Com certeza assim que originou o primeiro demônio já houve necessidade da primeira decaída, ou vice versa. Como na história do ovo e da galinha acho que ninguém sabe quem nasceu primeiro. Se o demônio ou a meretriz.
Não sei o que está acontecendo ai na terra, pois são as decaídas a maioria das mulheres que chegam. Está bastante difícil chegar aqui mulheres decentes.
Quando cheguei por aqui soube que a proporção era de setenta por cento de mulheres decentes contra trinta de vadias. Hoje está ao contrário. É urgente que revertam isso.
Quero informar-lhes que devem em vida adotar alguma dessas atividades descritas, com exceção das putas, para terem um pequeno conforto aqui, mas o que tenho certeza ser o melhor caminho e que é meu grande desejo é pedir para que prestem muita atenção: Façam de tudo para impedir definitivamente de as mulheres serem prostitutas, pois assim não haverá mais nenhuma mulher a ser aproveitada aqui como criadora parideira. Em se conseguindo isso não será mais possível gerar nenhum demônio e o inferno finalmente desaparecerá para os futuros mortos, pois não existindo mais a raça, não haverá mais os operários endemoniados que vivem a alimentar as chamas ininterruptamente e com certeza seu fogo extinguirá. Tais capetas operários não alimentam o fogo com carvão, álcool, lenha ou gasolina. Seu único trabalho é atirar os defuntos ao fogo que se alimentará conforme já disse de coisas que o morto transporta.
Nossa chegada é sempre fora dos mares de lava, pois seremos analisados pelos chefões que ordenarão se seremos aproveitados ou não, portanto não existindo mais as meretrizes para procriarem mais satanases e eles se matando continuamente como fazem, até com muito prazer, acabarão por desaparecerem e com isso jamais iremos ser atirados ao fogo que deixará de existir. Pensem seriamente nisso se acharem que devemos acabar ou não com a mais antiga das profissões, e até a próxima.
ACABOU.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
VIDA AMARGA?
Um bebezinho, do sexo feminino de cor branca e olhos verdes nasceu perfeito, sem um único defeito sequer, por mais insignificante que fosse. Nenhuma manchinha na pele, como pintas, verrugas sardas ou quaisquer outras marcas que comumente quase todos os bebes têm, geralmente carregando para o resto da vida, exigindo quando adultos muitas vezes até irritados de se explicar: “É de nascença”.
Essa menininha após crescer só irá dizer que foi de nascença a sua grande beleza que provavelmente será imensa e também duradoura, a menos que por algum descuido no crescimento venha a se ferir.
Seu desenvolvimento foi acontecendo de forma excelente, pois seu crescimento foi feito com grande carinho, muito esforço e dedicação, portanto bem mais que o normal, exigido e propiciado principalmente pelos aplicados e diligentes pais que não descuidavam de sua perfeita alimentação, postura, educação e convívio social.
Eles impediam até a possibilidade de pequeninos insetos ferroarem-na com seus quase inofensivos aguilhões, para não deixar sua imperceptível marca na clara e lisa pele branca da menina que crescia para ser uma celebridade famosa, conforme era o desejo dos pais que transferiram para ela, muito mais por obrigação que por genética.
Orientavam-na permanentemente para evitar brincadeiras perigosas, inerentes às crianças de pouca idade, para não se deixar se ferir, maculando sua beleza rara.
Com todos esses cuidados ela foi crescendo super sadia e com formas corpóreas praticamente impossíveis a qualquer outra criança, pois desde pequenina já assumira a postura de se cuidar conforme orientações recebidas pelos pais.
Com apenas onze anos de idade, portanto ainda na adolescência já era maravilhosa. Além do rosto primoroso, tinha pernas longas e bem torneadas e crescia cada vez mais linda e sonhava como seus familiares, que quando estivesse com seu corpo totalmente formado seria Miss Universo, uma atriz famosa, uma modelo internacional das mais solicitadas, ou na pior das hipóteses uma rainha de bateria de alguma escola de samba famosa.
Tudo que sonhava e pensava era compartilhado e apoiado pelos pais, pelos tios, pelos irmãos mais velhos e pelos mais novos e assim os anos foram passando e a natureza foi esculpindo-a com esmero para concluir sua magnífica obra com um processo bastante acelerado, pois foi imensamente auxiliada por ela e seus parentes.
É redundância, mas vou dizer. Na medida em que o tempo caminhava ela ficava cada vez mais bonita e feliz com sua formosura que sempre fora muito dedicadamente cuidada.
Seus pais não mediam esforços para permitir e garantir-lhe todos os cursos para a melhoria de sua desenvoltura e ela sempre muito aplicada empregava todo seu esforço nesse aprendizado.
Estudava nas escolas de cursos regulares obrigatórios, nas escolas de línguas, nas academias de dança e de ginástica onde frequentava e se exigia horários dobrados, para antecipar seu desenvolvimento o mais rápido possível.
Aos quatorze anos já era veterana em aeróbica, balé, jazz, sapateado, patinação, corrida, redação e oratória com perfeita dicção e completo desembaraço não só em português como em outras duas línguas estrangeiras muito faladas. Em outras três similares à nossa, entendia e se fazia entender perfeitamente.
Também malhava muito. Praticava vários esportes olímpicos e não olímpicos além de natação e surfava maravilhosamente bem. Até esgrima ela aprendeu com técnica apurada.
Exercitava-se e praticava algumas lutas, assim como refletia e descansava com a cultura da ioga.
Tudo que era bom para a saúde da mente e do corpo ela fazia com toda dedicação e sempre muito bem feito, pois a realização de seu sonho de menina teria de se concretizar tão logo tivesse idade suficiente, fato que não demoraria mais muito tempo para chegar.
Sua alimentação balanceada aliada aos exercícios apurava ainda mais a perfeição de seu corpo já completo e primoroso.
Todos os amigos e amigas a admiravam não só pela beleza de seu rosto, mas também pelo esmero do restante sem nada adicionado para melhorar sua silhueta magnífica.
Sua grande simpatia, sua imensa cultura, sua inteligência, sua simplicidade sincera, sua amizade franca, seu imenso amor ao próximo e seu bom caráter eram outros requisitos importantes em sua conduta que a fazia amada por todos que a conheciam.
Em todas as festinhas escolares mesmo fora da grade educacional participava de peças teatrais nos nobres salões dos colégios e sempre era a melhor atriz, além de cantar muito bem e tocar piano, violão e violino com os quais apresentava maravilhosos espetáculos aos colegas, professores, familiares e convidados especiais.
Nesses mesmos palcos estudantis nunca deixou de ser a mais aplaudida nos desfiles de moda entre as jovens participantes, não só pelo bom gosto das roupas usadas, mas principalmente quando se apresentava de biquíni, que permitia a visão de seu exuberante corpo maravilhoso.
Treinava intensamente para discursar em público para quando fosse eleita Miss Brasil e depois Miss Universo que era seu desejo maior.
Nessa época já era comparada e não deixava nada a desejar às mais famosas modelos internacionais, atrizes importantes de nossas novelas e de famosos filmes de Hollywood, embora ainda tivesse pouca idade para concorrer com elas, por isso permaneceu com seu sonho e sua dedicação permanente, pois sua hora e vez estavam prestes a chegar.
Nunca deixou de ser incentivada pelos parentes, pelos mestres e pelos amigos em continuar sua cansativa rotina de estudos, malhação e cultura esmerando-se cada vez mais.
Participou de cursos, treinamentos diversos, exercícios desgastantes e cansativos, aprendizado de outros idiomas, como se estivesse sendo preparada para ser a rainha de algum país.
Finalmente aos dezessete chegou o momento de sua apresentação ao mundo das celebridades.
Com certeza Tom Jobim e Vinicius, se estivessem vivos fariam uma música homenageando-a também ao vê-la passar nas areias da praia ou mesmo pelas ruas da cidade.
Procurou uma agencia de modelos com seu book e lá conheceu um rapaz simpático que também fazia o mesmo.
Encantou-se por ele, pois em toda sua vida nunca se dispôs em flertar ou namorar ninguém, pois isso nunca fez parte de seus planos.
Ela sabia quase tudo da vida, menos dos desvarios do coração e sem a menor experiência no assunto encantou-se pelo rapaz e ingênua e inocente o acompanhou conforme foi solicitado, ao saírem da agência.
Foi nesse mesmo dia que o jovem a levou para um motel. Embriagou-a e a desvirginou com violência machucando-a não só pelo sexo animal, como pelas pancadas desferidas por todo seu rosto, praticamente desfigurando-o.
Tirando-a desmaiada e muito machucada do local levou-a ao seu apartamento onde além de embebedá-la ainda mais, drogou-a com substâncias proibidas deixando-a completamente a sua mercê, sem nenhuma reação, por vários dias.
A polícia foi notificada sobre seu desaparecimento no dia seguinte, mas não se sabe como o rapaz tirou-a do país, levando-a para a Ásia, portanto ela nunca mais seria encontrada.
Finalmente seu príncipe encantado para ganhar dinheiro usando-a a transformou em uma prostituta na Índia e lá ela se contaminou com o vírus da AIDS, que acabou com sua vida poucos meses depois, sendo enterrada como indigente naquele longínquo país, sem ter seus sonhos realizados, sem músicas e sem flores.
Tudo o que escrevi nos últimos parágrafos, era obviamente o esperado pela maioria dos leitores, pois eu os induzi a assim imaginarem pelo próprio nome da história e pela expectativa que se tem de que invariavelmente quando se sacrifica demasiadamente para conseguir algo, sempre acaba dando errado e o fim sempre será trágico.
Como hoje estou de muito bom humor, decidi desconsiderar os parágrafos finais já escritos, e mesmo ciente que estou fazendo uma tremenda sujeira com vocês que por ventura gostaram do que leram e terminar o conto, com um final exatamente o oposto ao que foi lido até agora. 
FINAL
O rapaz que ela conheceu e apaixonou-se era um tremendo bom caráter e também se enamorou dela unindo seus esforços para conseguir tudo que ela sempre almejou com tanta dedicação e sacrifício, portanto ela acabou sendo mesmo o que sempre quis e que lutou para conseguir.
ACABOU
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
“LANDINHO” O MENINO QUE NÃO QUIS PARAR DE CRESCER
A maioria das narrações sobre a trajetória de alguém seja fictícia ou biográfica, geralmente começa descrevendo as dificuldades financeiras, as doenças e os comportamentos familiares geralmente complicados e conclui com sua extraordinária ascensão referente à fortuna acumulada, a fama alcançada ou a miraculosa invenção conseguida.
O menino em questão não foi de origem paupérrima, não sofria nenhuma mazela e seus comportados pais lhe deram o exato conforto que um escrivão da Coletoria Estadual de Guaranésia poderia dar além de amor, bons exemplos, conselhos e educação.
Ambos, auxiliados pelos avôs paternos que residiam próximos foram bastante comprometidos no ensinamento dele e dos irmãos, portanto Landinho não “começou do nada” como se diz na gíria e sua evolução não o levou à riqueza, a notoriedade ou ao prestigio.
Sua história principiou quando ele tinha seis anos, pois infelizmente por mais que tentasse recordar, realmente não se lembrou de quase nada muito significativo antes dessa idade para ser dito.
Ele se recorda vagamente que era muito peralta como qualquer menino saudável como ele e conta que suas brincadeiras eram saltar de galho em galho em árvores altas imitando os macacos para apanhar frutas, jogar pião, bolinhas de vidro, triângulo, vira mão com as figurinhas que colecionava, além de apostar corrida, empinar papagaios e jogar futebol com bolas de meia na quadra esportiva do Ginásio Estadual cuja permissão sempre conseguia com seus amigos, com o diretor padre Ciro.
Nadar nunca aprendeu, pois na pequena cidade de Guaranésia, no sul de Minas, onde passou a infância e parte da adolescência não existia piscina nos dois únicos clubes de lá que era o Clube Social e o CORE (Clube Operário Recreio e Esportes) e em nenhuma casa de amigos, mesmo nas dos mais ricos e por ensinamento dos pais aos rios das fazendas jamais fora para evitar acidentes.
Nessa época não existia televisão, vídeo game, internet ou quaisquer aparelhos similares que hoje em dia impede aos meninos aquelas salutares recreações que os transformavam em gentis e românticos adultos. Fato que entristece aos saudosistas que porventura tenham vivido naquele tempo ingênuo, decente e feliz.
Conta mais que invejava o irmão, pois ele já estava no grupo escolar dominando a escrita e a leitura e sobre a chegada da recém nascida irmã caçula que ele curioso espiava atrevida e sigilosamente a mãe banhá-la para confirmar a tal diferença entre os sexos da qual já ouvira falar.
oooOooo
No início do ano de mil novecentos e cinquenta ele completou sete anos e em apenas mais quarenta e dois dias iria para o Grupo Escolar Carvalho Brito.
Em seu aniversário teve muitos motivos para ficar contente, pois além da proximidade de ir estudar ganhou de presente uma correntinha de ouro e a informação que a partir daquela semana começaria a fazer jus à mesada condizente com sua idade para suas compras pessoais.
Soube que a importância era calculada exatamente para adquirir determinada quantidade de balas, figurinhas, bolinhas de vidro e pagar seu ingresso no cinema aos domingos a tarde.
A conversa entre seu pai e ele foi mais ou menos assim, lembra ele:
·        Ficou satisfeito meu filho?
·        Lógico. Mas o cálculo que o senhor fez está errado, pois não gosto de balas, portanto não será preciso tanto dinheiro. Pode dar-me menos.
·        Fica como calculei mesmo. Compre doce no lugar das balas.
·        De doce basta a vida.
·        Acha a vida doce porque ainda é criança. Quando ficar adulto verá o quão amarga ela costuma ser.
·        É fácil resolver isso papai. É só continuar criança que ela será sempre doce até a gente morrer de velho.
·        Não é bem assim. Não que eu lhe deseje, mas infelizmente você sentirá na pele.
·        Pois saiba que não conhecerei tais amarguras, pois decidi que continuarei sempre criança para ter uma vida adocicada até na hora da morte.
·        Que Deus o ouça e permita.
·        Obrigado pelos presentes e pelo voto papai.
Foi essa a primeira das milhares de vezes que Landinho falou “De doce basta a vida” e foi também nesse exato momento que se determinou em continuar criança pela vida inteira.
oooOooo
Finalmente chegou sua vez de ir para a escola e seu primeiro suplicio veio junto.
Logo no primeiro dia de aula a vacina contra varíola foi aplicada nas crianças, que fizeram fila indiana para submeterem-se a tal tortura. Sua agonia e desespero duraram uma hora inteira até estar próximo de sua vez.
À medida que ele andava mais se aproximava de seu algoz que ficava a cada passo dado mais monstruoso. Com os olhos para o chão para nada observar, vez por outra arriscava uma olhadela e via a sua frente o que acontecia.
Um homem fortíssimo, mais que o triplo de seu tamanho provocando impiedosamente um corte profundo no braço de cada criança com um enorme caco de vidro para depois adicionar o remédio, ou veneno no ferimento feito anteriormente que sangrava sem parar.
Raros eram os meninos que após tal sacrifício não caiam desmaiados estrebuchando no chão até a dolorosa morte.
Isso é o que ele via e tal visão o fez fugir aterrorizado para longe daquele carrasco para as matas próximas, por boa parte do dia, até ser encontrado pelo pai em sua própria casa embaixo da cama.
Em sua audaciosa e veloz escapada deu um grande encontrão com o farmacêutico derrubando-o com boa parte dos medicamentos.
Ainda dentro da cidade decidiu que enfrentaria bravamente até a morte se preciso fosse as onças, os tigres, os lobos, os vampiros, os bruxos, os duendes, o saci, as mulas sem cabeça, os lobisomens e demais animais ferozes e assombrações que cruzassem seu caminho na floresta em que se refugiaria para sempre, vivendo como o seu ídolo favorito dos filmes. O Tarzan filho das Selvas.
Ao deixar as últimas casas para trás, repentinamente tais animais selvagens além dos monstros geralmente muitos vistos e falados, entretanto nunca com testemunhas, desapareceram totalmente de seus temores e tremores. Graças à felicidade que sentia por ter se evadido de sua iminente mutilação e principalmente pelos pedidos que incessantemente fazia em suas gritadas orações ao seu anjo da guarda que nunca o desamparava.
Tal criatura celestial impediu todo o risco corrido simplesmente porque as figuras do folclore só existem nos contos de fadas e da carochinha e os animais ferozes apenas nas matas florestais e ele tinha se refugiado em uma fazenda com plantação de café, arroz, milho, hortaliças e frutas onde eles não frequentavam.
Nosso pequeno Dom Quixote foi salvo de uma possível picada de cobra que lá existia com fartura, pois o pavor dos espantalhos que protegiam das aves, o milharal e as hortas, foi o suficiente para levá-lo de volta mais rápido do que veio.
Borrando-se nas calças curtas retornou à sua casa, tal qual o hilário herói de Cervantes em sua magnífica obra da literatura universal chamada El Ingenioso Hidalgo Don Quijote de La Mancha fugiu do cata-vento do moinho.
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Estávamos a cinquenta e sete anos atrás e tudo era muito diferente de hoje por isso cremos que realmente o corte para a aplicação da vacina era de fato provocado por uma lâmina de aço ou por um pequeno caco de vidro mesmo. Esterilizado é claro.
No outro dia conseguindo coragem pela presença do pai que o acompanhou para encarar o grande desafio, Landinho heroico estendeu o braço ao boticário e agora próximo a seu verdugo viu que ele era bem menor e mais fraco que seu protetor de apenas estatura mediana.
Tal baixinho executou o simples procedimento da vacinação sem nenhum problema a não ser o inconveniente de seu choro irritante e estridente.
Ele com o rosto virado, a boca muito aberta aos berros e os olhos bem fechados não conferiu qual o hediondo aparelho utilizado em sua tortura e eis uma coisa que nunca ficou sabendo até os dias de hoje.
Por vergonha de contar aos colegas como procedeu ao ser vacinado para saber se de fato era vidro ou não, durante meses sentiu a amargura de não ter encarado tal fato de frente como qualquer homem deveria fazer mesmo que ainda fosse criança.
Foi sua primeira grande lição, pois categoricamente decidiu que jamais fugiria a qualquer situação que a vida lhe impusesse, até para cumprir seu primeiro e grande compromisso consigo mesmo que era de nunca sentir amargura na vida. Iria encarar todos os desafios com coragem e determinação, pois aflições só têm quem as deseja, procura e cria.
Sentiu ter crescido um pouquinho com essa decisão que seria irrefutável dali para frente.
Ninguém percebeu que ele estava maior, mas ele sim e nesse exato momento decidiu também que nunca mais pararia de crescer. Cresceria imensuravelmente ate alcançar o céu.
oooOooo
Rápido aprendeu as primeiras letras, tanto escrevendo como as lendo no primeiro ano do curso primário.
 Naquela época era hábito nos anos posteriores a professora passar como dever de classe ou de casa palavras cruzadas, caça palavras, labirinto, caça erros, charadas e outros exercícios recreativos que cortava dos jornais para os alunos exercitarem. Era uma excelente maneira de estimular a visão, a memória e principalmente o aprendizado de vários sinônimos dos muitos vocábulos de nossa língua.
                       Landinho adorava tais brincadeiras nas aulas de português e já muito bom em palavras cruzadas aumentou seu desafio decidindo pela primeira vez mudar seus limites.
Deixou de resolvê-las e passou a criá-las quando estava no inicio do terceiro ano letivo, por um motivo que era seu grande segredo não revelado nem a seu inseparável amigo celestial, que inevitavelmente sabia de tudo, sem que ele sequer imaginasse.
Levou tão a sério sua pretensão e auxiliado por um excelente dicionário trabalhou quase o ano todo, em sua casa e fez mais de duzentos exercícios de palavras cruzadas que resultou em lotar com elas dois cadernos de desenho escolar de cem folhas cada.
                      Certo dia no final desse mesmo ano letivo sua professora ao perceber na aula de história, um grupinho amontoado sobre tais cadernos os arrebatou dos meninos que não estavam dedicando nada a espetacular aula do descobrimento do Brasil daquele dia. Levou ambos os cadernos de desenho como prova da desatenção a sua aula e todos os envolvidos, à sala da diretora para serem repreendidos e devidamente punidos.
A diretora assustou-se ao ver os mais brilhantes e atentos alunos do terceiro ano envolvidos com algo não pertinente a matéria.
Sem nada falar com as crianças começou curiosamente folhear tais cadernos causadores do inconveniente.
                       Landinho não estava entre eles, pois como não lhe cabia resolver o que ele próprio havia bolado permaneceu realmente presente de corpo e alma com toda sua atenção voltada à viagem de Pedro Álvares Cabral ao nosso território.
O retorno da professora foi rápido, entretanto não demorou cinco minutos para a assistente da diretora chamá-la de volta.
O menino aguardou ansioso o novo regresso da mestra e quando isso ocorreu ele confessou ter sido o culpado por ter induzido seus colegas a descuidarem-se da aula.
Contou-lhe que desafiou tais amigos a resolver suas palavras cruzadas para a grande surpresa de Dona Maria que nunca tinha visto meninos tão animados com os mesmos exercícios dos recortes dos jornais quando permitido por ela. Jamais tais retalhos graficamente bem impressos tinham alcançado tanto sucesso quanto as palavras cruzadas desenhadas com caneta de pena e tinta Nanquim nas páginas dos cadernos de Landinho.
                      Logo dera o sinal para o descanso entre as aulas e ela não tendo tempo para conversar com o menino apenas lhe disse:
·        Quando terminar o recreio quero falar com você.
·        Sim senhora. (Educadamente e cabisbaixo ele respondeu-lhe retirando-se evidentemente sem a correria de sempre).
                      Landinho aguardava tranquilamente em um canto da quadra de ginástica, seus sete melhores amigos que foram encaminhados à diretoria quando os viu chegar a seu lado. De imediato foi desculpando-se com aparente calma.
·        Perdoem-me pelo castigo que tiveram. Foram palmatórias, puxões de orelha, reguadas ou ficaram ajoelhados sobre milhos?
·        Nada aconteceu e pelo seu jeito debochado de perguntar parece que já sabia que não ia dar em nada, respondeu-lhe Roberto Cleber um dos meninos que havia ido a diretoria.
·        Certeza absoluta eu não tinha, mas já imaginava que não deveria acontecer nada de ruim. Pelo contrário, mas se não me contarem como foi, continuarei na dúvida. Imaginar eu posso, mas adivinhar não. O que aconteceu?
·        Logo que chegamos à diretoria Dona Ernestina ficou examinando seus cadernos e mandou chamar Dona Maria Pignatari de volta. Falou baixo com ela que se retirou em seguida e logo depois deu o sinal. Dona Ernestina mandou-nos vir brincar e depois voltar para a sala. (respondeu um dos meninos, aliás, foi uma menina. Foi a “Vermelha”. Esse era o apelido de Heloisa Poli, pois tinha as faces bem rosadas).
·        Na sala quando confessei à Dona Maria que tudo tinha sido culpa minha, bateu o sino para o recreio e ela disse que depois falaria comigo. No momento tive uma ligeira impressão que ela iria tentar punir-me de alguma forma, mas como vocês já foram perdoados tenho certeza que eu também serei.
·        Não aconteceu nada conosco, talvez por você ter declarado ser o responsável, mas imagino que irá pagar caro por seu erro.
·        Deixe de mau agouro Darlan. Ela não falou comigo brava e pelo tom da voz estou certo que ela gostou de minhas palavras cruzadas.
·        Metido e convencido. (Foi Neuza Bandini quem falou).
·        Não é petulância minha. Enérgica como ela sempre foi, para ter-me dado uns tabefes na hora não custava nada. Ela sempre dá reguadas em todo mundo por muito menos. Além de não ter feito nada ainda falou com voz mansa.
·        Que ela é brava e malvada você tem razão, por isso não vejo a hora de passar para o ano seguinte e me livrar dessa bruxa velha solteirona e ranzinza. Minha irmã que já está no quarto ano vive elogiando Dona Dedé por ser muito calma atenciosa e boazinha. Isso quem disse foi Maria Marta.
·        Além disso, dizem que o último ano será moleza, pois só teremos recordação dos três primeiros anos para prepararmos para a admissão ao ginásio. Meu irmão é quem me contou, mas com relação à Dona Dedé não fala exatamente a mesma coisa. A diferença é que diz que ela é boazuda e não boazinha. (Foi o João Bosco quem conversava e foi imediatamente repreendido pela inconveniência do termo pela Dalva que de maneira enérgica disse):
·        Seu grosseiro. Vá usar esses termos cafajestes onde não tem meninas.
·        Saiu na empolgação. Dei mancada. Desculpe.
                       Clebinho entrou na conversa dizendo:
·        Em compensação o ginásio vai ser fogo. Tenho um primo que já repetiu a primeira série duas vezes e foi proibido de continuar cursando, pois a lei não permite que fique ocupando a vaga que será dos calouros. Ele teve de ir para outra cidade, pois aqui não tem mais ginásios para ele estudar.
·        Dizem que inglês é muito difícil e que é sua professora, Dona Sheila, quem mais reprova.
                      As badaladas do sino ecoaram alto chamando os meninos para voltarem as suas classes e Lucas Martins Filho que nada falou retornou tão calado quanto permanecera na conversa.
                      As duas últimas aulas do dia eram de português e espantados ficaram todos os garotos quando uma substituta entrou e informou que Dona Maria só viria para a quarta aula e que nessa era para todos fazerem o ditado que ela passaria. (Ditado acho que não existe mais nas escolas, mas era o seguinte: A professora lia um grande texto de um livro didático qualquer e as crianças ouviam-na e escreviam. Era a forma de exercitarem-se na correção das palavras).
Todos quietos e compenetrados efetuaram seus trabalhos, até que encerrado o tempo dessa aula chegou a mestra titular.
                      Para o assombro de todos e contentamento de Landinho ela distribuiu cinco folhas mimeografadas para cada aluno resolver os exercícios de palavras cruzadas que havia copiado de um dos cadernos dele e enquanto mandou-os trabalhar convidou o menino para ir com ela a sala dos professores.
Lá chegando começou a conversa com a presença da diretora e da mãe dele que foi chamada.
·        Oi mãe. (disse Landinho beijando-lhe a mão direita pedindo benções. Isso era hábito em todas as famílias daquele tempo. Não só beijarem a mão dos pais como do padre Ciro e do Monsenhor Ricardo Grela).
·        Deus lhe abençoe meu filho.
·        Foi chamada até a escola por minha causa e parece que está feliz? Não está preocupada?
·        Tenho forte motivo para tal alegria e para orgulhar-me de você. Já soube o que aconteceu.
·        Eu também estou contente embora não saiba exatamente de tudo, mas já vi o que Dona Maria fez com um dos meus cadernos de palavras cruzadas.
·        Fiz o que qualquer pessoa de juízo e justa teria feito. (Respondeu-lhe mentirosamente a emburrada mestra que agiu conforme determinação da diretora).
·        Viu mamãe no que deu minha teimosia? A senhora vivia me recriminando que eu perdia meu tempo, deixando de brincar e de estudar para inventar palavras cruzadas. Agora estão sendo usadas para ajudar Dona Maria ensinar meus próprios colegas de classe.
·        Espere que tem mais coisas para você saber.
                      Para encurtar a história a professora repentinamente começou agir de forma oposta a sua normalidade dizendo que tem um sobrinho que trabalha em um grande jornal de São Paulo. Prontificou-se a conversar com ele para conseguir que as palavras cruzadas do menino fossem compradas pelo jornal para serem publicadas. Caso não conseguisse lá ele encaminharia a um grande amigo que era um dos diretores da mais famosa revista da época que editava todo tipo de passatempo, pois o trabalho de Landinho foi considerado muito bom por ela, pela diretora e por outros professores que analisaram.
                       Ele não obteve sucesso em nenhuma das editoras que o sobrinho da mestra tentou, mas não se abateu por já esperar por isso.
O próprio menino já havia enviado suas palavras cruzadas a vários jornais e editoras de São Paulo e do Rio de Janeiro sendo recusado antes do acontecido na sala de aula.
                      Ele contou não ter conseguido nenhuma remuneração em dinheiro que foi sua pretensão inicial e estava até pensando em parar de criá-las quando percebeu ter recebido uma enorme recompensa animando-o a continuar.
Falou que a professora enérgica transformou-se de bruxa em fada como em um passe de mágica.
Que logo no dia seguinte ela já substituíra a grande régua que fingidamente dizia ser para apontar o quadro negro, mas que só usava para malhar a cabeça e os braços dos alunos insubordinados, por carinho e guloseimas para seus pupilos que começaram a adorá-la após tal transformação.
Continuou lecionando a língua portuguesa e já naquele mesmo final de ano substituiu o ditado por redação própria além de convencer a diretora em incluir no currículo escolar a leitura de clássicos da literatura. Iniciou com a infanto juvenil brasileira até chegar ao limite das universais.
Implantou naquela escola com o passar do tempo uma séria orientação e incentivo a criatividade dos alunos não só nas artes literárias, mas também na musica, na representação teatral e nos esportes.
Nas olimpíadas estudantis que passaram a existir entre as cidades próximas muitos desses brilhantes alunos já no ginásio foram sucesso em várias competições esportivas e curriculares cuja orientação básica trouxeram daquele grupo escolar.
Depois de adultos são vários os oriundos de Guaranésia que se tornaram pessoas de muita projeção no país e no exterior. O “Ponteado” cujo nome é Paulo foi um bom exemplo. Tornou-se físico nuclear e foi um dos responsáveis na NASA por lançamentos dos primeiros foguetes interplanetários. O Wanderley, que nesse conto é chamado por Derley, transformou-se em um pintor conhecido não só no Brasil como em várias partes do mundo. O Nego foi sucesso jogando futebol em vários clubes profissionais. Os irmãos Coelho seguiram brilhantemente suas carreiras no Banco Itaú entre a diretoria. O Lucas é um brilhante advogado em Guaranésia, assim como o Marcelo irmão da Vermelha que também mantem consultório médico substituindo brilhantemente seu pai. João Carlos Minchillo é o atual prefeito e o Clebinho além de fazendeiro de café é diretor do sindicato dos cafeicultores em Guaxupé, mas tenho certeza que existem outros renomados nomes daquela longínqua época, inclusive entre as meninas, pois delas infelizmente nunca mais ouvi falar.
                     Landinho conta que naqueles anos cresceu imensamente e tal recompensa valeu muito mais que o dinheiro que sonhou conseguir pela publicação de seu trabalho.
oooOooo
                      Voltando àquele acontecimento ele disse que a tarde chamou o irmão a uma conversa urgente:
·        Derley você precisa ajudar-me numa tarefa muito importante. Conto com você. Topa?
·        É possível, mas só poderei concordar depois de saber do que se trata.
·        Lembra-se de quando eu completei sete anos e ganhei de presente uma correntinha de ouro?
·        Sim. Você a perdeu na mesma semana e levou uma bronca danada de papai e da mamãe e prometeu que no máximo em três anos você a recuperaria. Não foi isso?
·        Exatamente. Mas não consegui ainda e está prestes a vencer o prazo, por isso preciso de sua ajuda para recuperá-la.
·        Você sabe onde ela está?
·        Claro que não. Se soubesse seria fácil. Simplesmente iria apanhá-la.
·        Então como vai encontrá-la?
·        Ela está em algum lugar no quintal da casa da vovó.
·        E quer que eu o ajude vasculhar dez mil metros quadrados de terreno cheio de mato, barro, árvores e galinhas? Nunca vai encontrá-la, pois com certeza já enferrujou e quebrou-se toda ou as galinhas que já ciscaram o terreno inteiro já a comeram se a enxurrada das chuvas não a levou para o esgoto. Sinto muito, mas estou de férias e quero descansar dos estudos é passeando e não trabalhando em serviço braçal.
·        Digo-lhe que nada do que falou aconteceu. Primeiro porque o ouro não enferruja e segundo porque é impossível de as galinhas ou as enxurradas terem achado no lugar onde está e por termos três meses de férias teremos muito tempo para encontrá-la.
·        Deixe de besteiras. Eu mesmo já sumi com a minha e ninguém mais reclama há muito tempo. Nossos pais não se lembram mais de sua perda e menos ainda de sua esdrúxula promessa.
·        Mas eu me lembro principalmente do juramento por isso devo encontrá-la e terá de ser nessas férias. Não dá para adiar mais. Está completando os três anos.
·        Sinto muito. Não conte comigo. Além de eu ir viajar para a casa do nosso outro avô e só voltar no mês que vem, tenho certeza que nunca mais vai achá-la. Ela não está mais lá.
·        Que está eu aposto.
·        Porque tal convicção?
·        Está bem. Vou contar-lhe porque ela está lá em algum lugar.
·        Você se recorda um dia em que estávamos chupando jabuticaba e eu estava na privada quando você também teve vontade de fazer cocô?
·        Sei lá! Tenho coisas muito mais interessantes para recordar. Acha que vou me lembrar disso?
·        Como você estava muito apertado fez no quintal mesmo, atrás da latrina e o vovô alguns meses depois contou que nasceu uma jabuticabeira originada de suas fezes.
·        Aquilo foi sacanagem dele. Onde já se viu isso ser possível?
·        Que é admissível isso é, pois os caroços que saíram de seu intestino misturado com seu adubo natural podem sim terem germinado e sem essa de sacanagem de vovô, pois antes de fazer o que fiz perguntei a ele se era brincadeira tal história e ele confirmou-me ter sido verdade.
·        Naquela época que você só tinha sete anos dava para acreditar, mas agora com quase dez ainda acha ser provável?
·        É claro que sim. É totalmente cabível. As suas sementes encontraram ótimas condições para brotar. Você fez cocô atrás da privada onde o terreno é mais propício para germinar qualquer semente, pois além da terra estar sempre bem adubada tem também a nascente de água que mantém o lugar permanentemente irrigado.
·        Deixa pra lá. Que tem a ver meu cocô com a sua correntinha?
·        Eu acreditei que a plantando enrolada numa semente de abacate, o abacateiro iria crescer e criar abacates cheios de correntes de ouro.
·        Então você plantou lá perto da privada ou na época não sabia ser lá o melhor lugar.
·        É claro que sabia. Acontece que exatamente por ser o local mais adubado estava cheio de plantas cultivadas e nativas, portanto não tinha espaço disponível para crescer o meu abacateiro. Procurei outro lugar e todo dia ia irrigar e olhar a germinação acontecer, mas por receito de pisar na plantinha quando começasse desenvolver acabei deixando de ir, pois sabia que demoraria a aparecer e como iniciaram as chuvas não precisava mais de eu regar.
·        Porque não pôs uma marca ou desenhou um mapa para não esquecer o lugar, seu tapado?
·        Fiz isso. Quando decidi deixá-la crescer fiz um novo buraco próximo e enterrei um grande galho que cortei de uma goiabeira e finquei fundo para marcar o local.
·        Só não pensou que o galho morreria, ficaria seco e o vovô o arrancaria de lá não foi?
·        Justamente isso é o que deve ter acontecido, pois depois de uns três meses procurei por todo o quintal o tal galho e nunca mais achei assim como perdi qualquer orientação que me indicasse onde nasceria meu abacateiro.
·        Que burrice. Só mesmo você. Sonhador maluco.
·        Não tenho certeza de ser mesmo meio biruta. Talvez até seja, mas sonhador lhe garanto que fui, sou e continuarei sendo.
·        Pois saiba que sonhos não se tornam realidade.
·        Porque não?
·        Por que só sonhamos o que pensamos, imaginamos ou vivemos quando acordados e nunca o inverso.
·        Peraí. Se o sonho de hoje só existirá com algo acontecido ou que imaginamos ontem, por exemplo, o que impede de acontecer amanhã o que sonhei hoje por ter sido o que imaginei ontem?
·        Tá difícil. Você é mesmo doido. Vive no mundo da lua ou no planetinha do pequeno príncipe? (Naquela época muitos meninos já liam ótimas obras clássicas da literatura universal).
·        Vamos resolver nosso assunto. Vai ajudar-me ou não?
·        Sinto muito, mas é claro que não. Ainda mais agora que me diz estar enterrada em algum lugar do quintal que nem sabe onde é. Eu imaginava ser sobre a terra que já seria muito mais difícil que achar uma agulha no palheiro. Imagine estando enterrada. Terá de furar todo o terreno. Foi fundo o buraco?
·        Mais ou menos vinte centímetros.
·        Nunca conseguirá. Nem se todos nossos amigos vierem ajudar.
·        Não conte essa história para ninguém. Só nós sabemos.
·        Vai ficar com vergonha da besteira não é?
·        Concordo ter sido sandice, mas vou encontrá-la ou dar um jeito de conseguir outra para por no lugar antes do prazo.
·        Porque não tenta comprar uma. Será bem mais fácil que localizá-la no fundo do chão.
·        Já pensei e trabalhei para isso, mas não deu certo. Porque acha que fiz aquele montão de palavras cruzadas?
·        Para vender aos jornais de São Paulo e do Rio. Naquilo eu lhe apoiei, mas nessa não dá mesmo.
·        Era para conseguir dinheiro e cumprir meu juramento de por outra correntinha no lugar.
·        Que promessa mais besta. Porque teria a corrente de volta três anos depois?
·        Achei que seria tempo suficiente para o pé de abacate crescer e trazê-la de volta com outras junto é claro.
·        Quanta idiotice.
·        Até concordo em parte, mas acho mesmo que alguma deficiência na constituição do caroço é que não o deixou germinar por isso não brotou.
·        Ou foi você que o enforcou com a corrente?
·        Está bem. Na época eu era muito criança.
·        E agora não é mais?
·        É lógico que sim e serei sempre. Mesmo depois que fizer cento e trinta e cinco anos.
·        Quer viver tanto assim? A expectativa de vida dos brasileiros é de cinquenta anos. Nem vamos ver a virada do século. Ainda bem, pois Nostradamus previu que em dois mil acabará o mundo e não quero estar lá para ver a destruição.
·        Besteira. Ele fez milhares de previsões em seu livro que foi muito questionado há mais de quatrocentos anos justamente por isso. A maioria delas só iria acontecer muito tempo depois de todos já estarem mortos e sem possibilidade de comprovação.
·        Quer dizer que acha que ele foi um charlatão?
·        Quem sou eu para dizer isso. Ele de fato foi um pensador brilhante e seus sonhos por terem sido muito futuristas deixou tais dúvidas, mas foi graças a eles que com o passar do tempo e o desenvolvimento advindo da evolução, os cientistas não precisaram sonhar inventos e sim fabricar os que ele já havia imaginado. Essa foi a maior contribuição que ele deixou. Eu o considero maravilhoso sim.
·        Mas você começou falando que era besteira sobre o final dos tempos.
·        Dentre suas adivinhações previu além de coisas que acabaram sendo criadas, milhares de catástrofes e guerras. Quem toma conhecimento e lê muito sobre o que está acontecendo pode presumir com grandes possibilidades de acertos para um futuro próximo, porém para longo tempo já é mais na coincidência mesmo, por isso inclusive várias de suas previsões não aconteceram.
·        O final do mundo em 2000 você não acredita?
·        Desejo que não aconteça por isso acho melhor não crer.
·        Porque acha que o imaginado para logo dá certo?
·        Todo o pessoal na rua não fica comentando que após terminar o exílio de Fidel Castro no México desde o ano passado ele voltará a invadir Cuba. Que com o suicídio de Getúlio Vargas no mês passado pode desencadear aqui no Brasil uma série de...
Nada daquela conversa foi escrita, pois pode aparentar engodo porque a narrativa está sendo feita agora e tais presságios de fato aconteceram nos idos anos cinquenta e sessenta e são de total conhecimento público, pois constam dos livros de história e na memória dos mais velhos. Entretanto posso afirmar que a conversa discorrida foi anterior aos acontecimentos, portanto legitimamente antevistos pelo menino.
·        Eu posso deixar escrito que dentro de duzentos anos Nova Iorque deixará de existir destruída por um terremoto. Sempre leio sobre essa possibilidade.
Aprendemos que as grandes potencias da antiguidade como Grécia, Roma, Índia, atualmente não tem mais nenhum poder, pois foram envelhecendo e em seu lugar hoje temos a França, a Inglaterra e a Alemanha. Não é difícil prever que daqui uns vinte anos com a plenitude dos países em franco desenvolvimento como o Japão, Rússia e Estados Unidos estarão no topo, pois já estão quase páreo a páreo com os Europeus.
Passado mais uns cem anos começarão o declínio natural deles e se eu escrever para a posteridade que o Brasil ou a Austrália dominará o mundo posso acertar em cheio.
São países novos e em crescimento, portanto qualquer um deles poderá chegar lá. Não é isso que quis dizer?
·        Exatamente. Vejo que entendeu completamente. Pode começar escrever o seu Centúrias Senhor Derleydamus.
·        Em conversas de adultos eu o entendo, mas em suas criancices é difícil. Esse papo começou justamente quando falou que era lógico que era criança e que continuaria sendo mesmo depois de fazer mais de cem anos. Para você continuar criança até sua morte terá de morrer logo e se viver muito como disse estará velho, portanto não será criança.
·        Percebo que as coisas simples são mesmo difíceis para você. Eu posso muito bem continuar passando o tempo cronológico como qualquer um, porém com espírito, pensamentos, amor e atitudes de criança.
·        Então será um adulto irresponsável.
·        Decidir e resolver as coisas de maneira simples, honesta e com felicidade é insensatez? Você estará me acompanhando e a eterna criança que tenho dentro de mim e com o tempo voltaremos a conversar sobre isso.
·        Infelizmente tenho que concordar que será sempre infantil. Vejo que nunca cresce mesmo. Já está com quase dez anos e continua acreditando em sonhos, contos de fada e anjos.
·        Você nem imagina o quanto já cresci. Pode perguntar ao meu anjo quão grande já estou.
·        Voltando ao assunto da corrente você vai mesmo cavar a terra toda?
·        Tem alguma ideia melhor?
·        Você pode economizar de sua mesada durante esses meses que faltam para o compromisso e comprar outra. Eu o ajudo com parte da minha mesada. Que acha?
·        Não dá. Já procurei saber o preço de uma nova e teria de juntar o dinheiro que papai me dá durante um ano inteiro, pois minha mesada só dá mesmo para as bolinhas, as figurinhas e a matinê de domingo.
·        Porque não juntou todo o dinheiro desde que começou receber mesada? Já faz três anos e com certeza já teria acumulado o suficiente.
·        Teria de me privar de tudo durante todo esse tempo? Simplesmente papai imaginaria que eu gastava tudo de uma vez e não daria mais e quando voltasse a dar-me novamente e eu nada comprando com o dinheiro iria aparentar o mesmo erro e tornaria um círculo vicioso. Eu nunca iria conseguir dinheiro para gastar e muito menos para guardar. Pensa que nunca pensei nisso? Não iria dar certo, mas mesmo assim eu tenho certeza que conseguirei nesses três meses que faltam.
·        Okey. Está de pé. Eu o ajudo dando parte da minha mesada nesses meses. Tá bom assim?
·        Nada disso. Além de você precisar de toda sua grana para a viagem sei que já aprendeu fumar, já bebe suas cervejas, joga snooker, namora e vai ao cinema à noite e não é justo você ficar sem parte de seu dinheiro por uma causa que eu é que tenho de resolver e não você, portanto agradeço seu oferecimento, mas não aceito. Obrigado mesmo.
                      Nada errado os garotos de doze anos fumar e beber naquele tempo, pois o machismo da época exigia que fossem orientados e ensinados pelos próprios pais ou mais velhos, que homem depois de deixar as calças curtas para usar as compridas deveria agir assim para ser considerado realmente macho. O adolescente que não aprendesse tais hábitos seria chamado de mariquinha pelos outros e era repreendido pelo pai, tio, avô, irmão mais velho e etc. Até as meninas não o namorariam. Fugiriam dele como o diabo da cruz.
                      Para esclarecer melhor direi que até a idade de sete anos toda criança era considerada ainda quase como bebês e tudo que tinha de direito era o que lhes era dado pelos pais.
A partir dos sete até dez anos os meninos eram tratados simplesmente como crianças e usavam somente calça curta. Eram educados exclusivamente para alfabetizar-se no grupo escolar ou primário, mas já adquiriam um inicial direito unido a um dever.
Recebiam uma mesada para compra de balas, doces, picolés, figurinhas, bolas de gude e ingresso para a seção de cinema aos domingos à tarde. Sua obrigação era saber manipular tal importância, pois se descuidasse e deixasse acabar antes do tempo não ganharia nenhuma complementação e como castigo pelo erro ficaria sem a próxima.
Ao completarem onze anos e já terminado o primário eles iam para o ginásio e já começavam usar calças compridas. Tinham muitas outras permissões, que eram fumar, beber socialmente, passear na praça principal da cidade à noite, namorar e assistir seções noturnas de cinema quando os filmes não eram proibidos e frequentar o clube social para festas e jogos recreativos até no máximo onze horas da noite. Recebiam o dinheiro condizente com essas permissões e algumas outras ainda não abertas, mas feito “vistas grossas” pelos pais e que era pagar à alguma biscatinha para copular as escondidas em cantos escuros da cidade e jogar snooker nos bares desde que sem apostas.
Ao completarem quinze anos os próprios pais bebiam e fumavam juntos deles abrindo totalmente todas as permissões de adultos, melhor dizendo, mostrando a exigência imposta.
Tal festa de quinze anos geralmente era feita nas casas de prostituição, pois a partir dessa idade até a obrigatoriedade de frequentar prostíbulos os meninos teriam.
O clube da cidade também lhes abria as portas para sua presença aos bailes noturnos e além dos jogos recreativos de ping pong, damas, dominó e xadrez já permitidos, podiam frequentar as mesas de jogos de azar e apostado como buraco, pif-paf e snooker.
A já referida ajuda de custo ofertada pelo pai ou responsável era bem maior para tais novas despesas.
A partir dos dezoito anos e consequente maioridade os meninos já tinham comprometimento de manterem-se por conta própria.
Iniciavam profissionalmente em alguma atividade da cidade como barbeiros ou alfaiates. Trabalhavam nos armazéns, açougues, padarias, bares, farmácias ou na única fábrica de tecidos que lá existia e que pertencia ao Sr. Raul de Sá. Os pais que tivessem algum comércio os colocariam como seus sócios na atividade, abrindo uma filial ou trabalhando juntos.
Os que estudavam faculdade em cidades maiores ainda continuavam mantidos financeiramente pelo pai até se formarem.
Tal tradição vinda de várias gerações continuou por muito tempo. Todas as famílias da cidade portavam-se da mesma maneira empregando tais preceitos.
                      Terminado os esclarecimentos continuemos com a conversa dos irmãos:
·        Se puder ajudá-lo como propus ou de outra forma conte comigo, mas furar todo o quintal da vovó nada feito. Sinto muito.
·        Tudo bem. Então fica segredo nosso. Não fale nada a ninguém durante os próximos noventa dias.
·        E depois posso falar?
·        É claro, pois já terei outra corrente e você pode até contar toda a história.
·        Que jeito vai arrumar outra?
·        Ainda não sei, mas vou.
·        Pare de sonhar e esqueça isso.
·        Jamais pararei de sonhar.
·        É doidinho mesmo.
oooOooo
                      Landinho teria necessidade de passar o dia inteiro durante longo tempo na casa dos avós e ficou imaginando como justificar à mãe sobre suas grandes ausências em casa e ao avô o porquê de furar a terra em seu quintal.
Pensou durante boa parte daquela manhã em como resolver esse problema inicial, até que chegou a conclusão ser muito fácil. Conversou rápido com a mãe em casa e com o avô na leiteria que ele tinha anexo a sua residência e se explicou com absoluto sucesso.
Contornada tal dificuldade, brincou o restante do dia e logo após o jantar foi dormir, pois a partir da próxima manhã deveria acordar muito cedo.
                      Na manhã seguinte foi ele para iniciar sua árdua tarefa com o sol nascendo na casa dos avós.
                      Fazia apenas cinco dias que Landinho furava o chão do quintal do avô quando aparentemente cansado ou desanimado sentou-se e ficou a pensar após o lanche das quatro horas.
Refletiu durante meia hora e levantou-se, pois precisou usar a privada e próximo a ela encontrou-se com seu pai que cavoucava a terra próxima a esse local, por ser o mais adubado e irrigado, a cata de minhocas para pescar.
Imediatamente o menino prontificou-se em fazer o trabalho para o pai que perguntou-lhe:
·        O que está fazendo? Está em férias e imaginei-o brincando com a meninada na praça. Sua mãe sabe que está aqui?
·        Estou furando a terra e mamãe deu-me autorização para vir todos os dias durante as férias.
·        Para que?
·        Para cavar a terra.
·        Mas por quê? O que está procurando?
·        Estou procurando ouro.
·        Deixa de tolice meu filho. Ouro só se encontra em minas.
·        E nós não estamos em Minas?
·        Engraçadinho. Qual o verdadeiro motivo de estar todo sujo mexendo na terra?
                      Uma das mais exigidas atitudes das crianças era não mentir. Landinho tentou ser verdadeiro nas respostas iniciais, mas agora estava num beco sem saída, pois percebeu que o pai estava sério e bravo e tinha de responder rápido.
É certo que se contasse a verdade ao pai seria imediatamente perdoado da promessa que com certeza ele nem se lembrava mais e até lhe daria outra corrente de ouro se o seu desejo era ter outra. Entretanto a promessa feita era para ser cumprida, pois fora a ele próprio que havia feito, embora tivesse dito aos familiares.
Era um compromisso sério que ele tinha consigo mesmo. Teria de concluí-lo a qualquer custo por isso não teve alternativa. Teve de mentir.
Mentiu por uma causa justa, se é que existam motivos importantes que justifiquem alguma falsidade. Na necessidade urgente da resposta raciocinou ser preferível a inverdade e não titubeou. Respondeu ao pai de maneira rápida e convincente.
·        Estou mexendo a terra, pois desejo fazer uma horta de legumes e verduras para vender para toda a cidade.
·        Para que precisa de mais dinheiro além do que já lhe dou? É só falar e se for para uma causa lícita eu aumento sua mesada. Aprendeu alguma coisa que ainda não devia por não estar na idade?
                      Com certeza o pai pensava que ele teria aprendido fumar ou alguma outra coisa fora de seu tempo.  Precisava saber para impedi-lo de continuar errando.
·        Pelo prazer de conseguir dinheiro por meu próprio esforço para comprar uma coisa que eu não tenho.
                       Resposta que deixou o adulto sem ação, pois se lembrou da anterior tentativa de conseguir dinheiro pelo envio das palavras cruzadas que ele havia auxiliado na redação das cartas às editoras e postado nos correios poucos meses antes. O motivo na época ficou sabendo pela mãe do menino ter sido exatamente o mesmo.
·        Você crescerá na vida e pensando como pensa não demorará muito. Tenho certeza disso. (O pai imaginou-o ainda jovem um grande milionário)
·        Papai. Acabei de ter uma ideia que mudou meus planos.
·        O que foi?
·        Ao invés de fazer o que pretendia eu cavo a terra e arranco minhocas para vender aos seus amigos que como o senhor vão toda noite pescar. Terei fregueses certos e todos os dias, pois as iscas deverão estar sempre vivas, portanto ninguém guardará sobras para o dia seguinte. Será um trabalho muito mais rápido, pois não precisarei trabalhar o dia inteiro. Só as tardes. O que acha?
·        Nada mal. (Falou o pai já disposto a guardar seu enxadão).
·        Quanto o senhor acha que vale uma latinha de massa de tomate, das pequenas, cheia de minhocas inteiras e gordas?
·        Tal importância. E aqui já tem o dinheiro de minha lata.
·        Nada disso. O senhor não paga. Só terá como os outros de sempre fornecer a latinha, pois se todos os dias as jogar fora terei de ficar vasculhando lixos para encontrá-las e além de ser um serviço desnecessário tomará meu tempo pela manhã. Está combinado assim?
·        Não concordo. Para mim também terá de ser cobrado igual à todo mundo. Negócios a parte.
·        Seu pagamento será a percentagem de sua participação na sociedade que será arrumar-me fregueses. Terá de convencer seus amigos que lhes será muito mais interessante comprar-me as iscas do que eles próprios terem de procurar lugar para arrancá-las que geralmente é difícil conseguir. Não tem ninguém na cidade que tem um quintal estercado e com nascente de água como o vovô. Aqui a proliferação delas é enorme e para mim será fácil consegui-las além de serem de muito melhor qualidade que as encontradas em terrenos secos nos seus próprios quintais.
·        Feito. Só na Repartição que trabalho tenha certeza que já tem nove fregueses a partir de amanhã, pois hoje todos já devem estar se virando.
·        Mas não ficará somente nesses nove não é?
·        É claro. Depois que conversar com todos os pescadores que conheço conseguirá tranquilamente uns trinta compradores. Nos finais de semana como todo mundo pesca o dia inteiro você fornecerá para cada um, duas ou mais latinhas e ganhará bem mais.
·        Negócio fechado?
·        Está. Então aceite o pagamento de hoje, pois ainda não comecei fazer minha parte.
·        Tudo bem. Irá logo para o cofrinho.
                      Terminada a conversa o menino sentiu-se infinitamente pequeno. Menor e inferior a um verme.
Viu-se rastejando naquele chão lamacento e uma enorme minhoca sem piedade aproximando-se ameaçadora.
Rapidamente encostou-se em seu pai para proteger-se e esse julgando que o menino pedia carinho afagou-o com um forte abraço.
Saindo de imediato do transe Landinho tateou-se dos pés a cabeça e viu que não estava enorme como já se sentia, mas também nem pequeno como instantes atrás. Estava exatamente no tamanho físico que realmente tinha.
O pai viu os trejeitos do filho, mas sabedor de suas esquisitices deu de ombros e afastou-se quando foi chamado pelo menino.
·        Papai. Tenho um compromisso com o senhor.
·        O que é?
·        Por enquanto é um segredo só meu que durará mais um mês.
·        Se é segredo só seu então porque me fala?
·        Não vou contá-lo é claro, mas agora lhe farei uma promessa que é necessária.
·        Que juramento é esse?
·        É que lhe contarei meu segredo no dia em que Derley voltar das férias.
(Tal segredo seria a confissão de sua mentira, sua explicação ao fato e o devido pedido de desculpas. Ele já tinha se perdoado e apos um mês seu pai também lhe perdoaria, ou lhe determinaria algum castigo para se redimir).
·        Então aguardarei. Ele viaja amanhã cedo. Não deixe de despedir dele.
·        Pode deixar que não esquecerei. Abençoa?
·        Deus lhe abençoe.
                      Nesse exato momento o menino sentiu ter voltado quase a grandeza que já tinha adquirido há algum tempo.
oooOooo
                      Ao anoitecer pediu permissão à mãe para dormir na casa dos avós paternos e ela não queria permitir, pois o irmão mais velho iria tomar o trem para viajar bem cedo na manhã seguinte para a casa de seus pais. Eles só se veriam pela manhã porque Derlei já tinha saído para passear e só voltaria as onze horas que era seu horário permitido e o menor já estaria dormindo.
A ida para a casa do avô tinha motivo predeterminado e ele prometeu acordar bem cedo e retornar a sua casa para os desejos de boa viagem ao irmão. Conseguiu a autorização e foi.
Conversou com o avô dizendo-lhe que não precisaria mais cavoucar no local onde já mexera bastante a terra, pois a partir desse mesmo dia iria somente pegar minhocas próximo a mina d’água conforme combinado com o pai.
Contou ao avô sobre o acordo dos dois e propôs que ele ficasse com o terreno onde já tinha sido bastante remexido para fazer uma horta de legumes e verduras para vendê-las. Prometeu inclusive ajudá-lo no trabalho, pois tal plano recém criado se concretizado talvez amenizasse um pouco a mentira anteriormente inventada sobre a tal horta, pois em ela se tornando concreta deixaria de ser uma grande mentira, transformando-se em uma verdade apenas modificada sobre os donos da horta.
O velho gostou da ideia e aceitou inclusive o auxilio de apenas uma hora diária e em troca presenteou-o com uma bonita caneta com reservatório de tinta interno do modelo Park 51, pois só faltava o quarto ano para terminar o primário e no ginásio teria de abandonar a caneta de pena de molhar no tinteiro que não seria mais permitida. O avô já tinha presenteado o neto mais velho, um ano antes quando este tinha ingressado no secundário.
Landinho recebeu a sua com um ano de antecedência além de ser de um modelo melhor, pois o irmão ganhara uma Park 21 de qualidade inferior.
Ambos ficaram satisfeitos com o negócio realizado e após o menino comer o mingau de fubá que a avó fez foi dormir sem esperar como sempre pela enorme panela de pipocas.
A doação da caneta pelo avô paterno com um ano de antecedência proporcionou ao menino um presente realmente muito maior, pois no ano seguinte o outro avô imaginando que Landinho não ganhara nenhuma caneta tinteiro para usar no ginásio, presenteou-o com uma antiquíssima que ele guardava desde que viera jovem da Europa. Ela é linda e provavelmente muito valiosa, pois fora confeccionada recoberta com uma grossa camada de ouro, toda trabalhada com relevos maravilhosos em um formato completamente diferente das demais canetas fabricadas na época que eram arredondadas. Essa era sextavada.
O menino e a mãe tentaram recusar o presente, pois tratava de um objeto de estimação do velho que inclusive sequer sabia a origem da mesma.
Landinho não teria necessidade dela, mas não houve meios da mãe e o filho convencerem o italiano de recebê-la de volta. Exigiu que ele ficasse com ela e por isso Landinho tomou posse dela e durante muitos anos de sua vida usou-a orgulhoso por ser possuidor de tal relíquia que chamava a atenção de professores, colegas e colecionadores que insistiam em comprá-la.
Já adulto e com a caneta danificada guardou-a a sete chaves na casa dos pais.
Sua irmã mais nova que na época da doação era ainda um bebê nada ficou sabendo sobre a história da caneta e julgando que ela fosse propriedade do pai, pegou-a para si para guardar de recordação do mesmo por ocasião de seu falecimento. Ela a mantém guardada para essa finalidade e talvez jamais saiba que seu pai nunca foi possuidor de tal objeto que nunca sequer viu, pois ela era de Landinho herdada pelo avô italiano.
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                      No dia seguinte Landinho despediu-se do irmão.
Acompanhando-o a estação ferroviária e prometeu fazer-lhe uma grandiosa surpresa em seu regresso.
Embora Derlei insistisse em querer saber do que se tratava não conseguiu nada do menino que não tendo ainda nem começado seu trabalho deixou-o sem maiores explicações. Só adiantou que conseguiria sua corrente em menos de um mês com absoluta certeza e não mais nos três inicialmente imaginado e com possibilidade de até não dar certo mesmo, conforme ideia imaginada anteriormente.
Garantiu-lhe um enorme presente em seu retorno.
Essa conversa entre eles foi rápida.
·        O que você está insinuando Landinho?
·        Não estou insinuando nada. Estou prometendo e garantindo.
·        Mas o que é?
·        Só saberá quando voltar.
·        A única coisa que pode ter acontecido é você já ter achado sua corrente suja e quebrada.
·        Ainda não a achei. Mas a terei em breve e não será suja, nem quebrada. Será nova.
·        Ganhou na loteria federal um bilhete inteiro?
·        Nada disso.
·        Então o que foi? Encontrou o abacateiro com abacates cheios de correntes de ouro?
·        Ainda não, mas breve encontrarei.
·        Deixe de besteiras. Está sonhando acordado como sempre.
·        É claro.
·        O trem apitou dando sinal que está chegando. Tchau.
·        Boa viagem e boas férias.
·        Avise a rapaziada que voltarei em trinta dias.
·        Pode deixar e dê um beijo no pessoal de lá.
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                       Passado um mês Derley retornou da viagem e após o almoço Landinho que já tinha sua corrente comprada reuniu a família exibindo-a vitorioso pendurada no pescoço, e para a surpresa de todos presenteou-os naquele início de janeiro.
A mãe ganhou um jogo de cristal para sucos composto de uma jarra e seis copos.
O pai foi presenteado com uma bonita cigarreira com isqueiro acoplado.
A irmã caçula recebeu uma linda boneca de pano, pois era ainda uma criancinha de menos de três anos e não poderia correr riscos de machucar-se com um brinquedo que quebrasse.
A outra irmã apenas um ano mais nova que ele também ganhou uma boneca, mas essa era moderna, grande e de louca que piscava os olhos e falava mamãe.
Dirigiu-se ao pai na presença da família reunida, pois em alto e bom som havia solicitado a presença de todos.
Contou a história sobre a perda da correntinha de forma rápida, mas necessária para chegar ao ponto em que mentiu a ele. Esse era o segredo que deveria confessar nesse dia.
O pai repreendeu-o pela mentira embora a mãe insistisse que deveria perdoá-lo.
Foram em vão suas súplicas, pois o bom, porém enérgico e zeloso pai fez cumprir sua responsabilidade de orientador.
Ele percebera pela exigência do menino a presença dos irmãos exatamente para ele não amolecer em sua atitude e perdoá-lo, pois perderia a autoridade dali para frente.
A audácia e ousadia da criança o fez sentir orgulhoso do filho, por isso aplicou o castigo que imaginou ter sido o desjado pelo próprio menino.
Não pensou muito para anunciar a punição adequada. Ele teria permissão plena para brincar e passear, mas ficaria duas semanas inteiras sem ganhar uma única moeda de mesada.
A mãe questionou o corretivo, pois o julgou excessivamente rude. Bastaria um castigo de não sair para brincar um dia ou no máximo dois. Afinal o menino não tinha mais sete anos. Estava muito próximo de completar os dez e ficar longo tempo sem um mísero centavo era muito rude.
O pai insensível respondeu “Pena dada, punição cumprida e não se fala mais no assunto”.
                       O astuto pai com certeza mais tarde contou à esposa que a repreensão não fora nada exagerada conforme parecia, pois o menino após exibir a corrente e presenteá-los daquela maneira com seu próprio dinheiro com certeza teria mais e não passaria necessidade de nada. Qualquer outra punição por menor que fosse seria maior que a dada.
                       Landinho recebeu o corretivo feliz. Percebeu que cresceu mais um pouquinho além do esperado.
Dirigiu-se ao irmão mais velho dizendo:
·        Para você será uma surpresa muito maior, mas não está embrulhada como a deles.
·        Como assim? O que é?
·        Vamos ao jardim ou ao nosso quarto para conversarmos. É só entre nós.
                       Foram para o dormitório e lá chegando veio a pergunta:
·        O que encontrou? Algum tesouro enterrado?
·        Exatamente.
·        Landinho. Minha pergunta foi besta demais. Só lhe deu motivos para vir com suas histórias malucas. Fale logo como conseguiu tanto dinheiro em tão pouco tempo.
·        Começou naquele dia que... (Toda a história foi contada desde que foi combinada com o pai).
·        Daí você ganhou essa grana preta.
·        É, mas não sobrou nenhum para comprar uma lembrança para você.
·        Não tem importância. Só de vê-lo tão contente como está já é um grande presente que ganhei. Realmente a surpresa que me fez foi enorme. Pena que nas próximas duas semanas vai ficar duro e eu não posso ajudá-lo, pois minha mesada ficou comprometida com um adiantamento que fiz com vovô para a viagem.
·        Não tem problema nenhum, pois ganhei muito mais do que merecia. Mas nada disse ainda sobre seu presente.
·        Tem mais?
·        É a posse de meu pé de abacates que me levou às minhocas dos ovos de ouro, sem risco de nenhum gigante amedrontar ninguém.
·        Sua mão está que é calo só.
·        Foi o preço que paguei, mas antes de terminar as férias já estará lisinha de novo.
·        Vai dar-me emprego na sua fábrica de minhocas? Esse trabalho eu topo, pois vi que em apenas um mês ganhou muita grana.
·        Não irei dar-lhe emprego. Irei doar-lhe a mina.
·        Como assim?
·        Eu não preciso de mais dinheiro nenhum, pois o que precisava era apenas para comprar a correntinha e ganhei muito mais e por isso fiz questão de gastar com minha família porque eu não tinha mais nenhuma necessidade.
·        Mas pode juntá-lo.
·        Para que?
·        Para ter bastante.
·        Quando eu precisar de outra coisa que exija dinheiro darei outro jeito de consegui-lo. Essa forma que encontrei já resolveu minha necessidade atual.
·        Então eu só terei de arrancar as minhocas com o enxadão para entregá-las aos pescadores?
·        Sim. Algum problema? Você vive sempre precisando e querendo dinheiro. Essa é uma forma muito fácil. Será tudo seu o que vender a partir de hoje.
·        Arrancar as iscas não será difícil, mas entregar na rua com todo mundo vendo não vai dar.
·        Por quê?
·        Porque vou ter vergonha.
·        De que? De ser visto trabalhando?
                      Resultado final da conversa. Derley não topou dar continuidade ao lucrativo serviço.
O menino sentiu-se na obrigação de executar o trabalho nessa tarde para não prejudicar seus fregueses e nesse dia ainda molestou pela última vez os vermes da terra que finalmente ficaram em paz na casa de seu avô.
                      Todos os pescadores pagaram pela compra efetuada e vários deles gratificaram com boas gorjetas ao menino que durante um mês poupou-lhes tal incomodo.
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                      Naquela noite Landinho ficou sem dormir cedo esperando o irmão chegar e conversaram até altas horas após entregar-lhe um envelope contendo dinheiro como seu atrasado presente para espanto do mesmo que não quis aceitar.
·        Onde arrumou mais?
·        Durante a tarde eu fiz a última entrega.
·        Então é seu.
·        É bem mais do que eu preciso para minhas próximas duas semanas, portanto você poderá pagar vovô e não ficará sem sua mesada.
·        Deixa disso.
·        Se não aceitar, vou comprar-lhe algumas gravatas ou uma camisa para você. O que prefere?
·        Já que vai desfazer da grana de qualquer jeito então aceito. Obrigado.
Você dá muita sorte. Tudo que precisa cai do céu?
·        Não tenha dúvidas que tenho uma ajuda lá, mas não cai fácil não. Eu puxo para trazer e preciso fazer muita força. Os calos você já viu.
·        Você nasceu com o traseiro virado pra lua. Não foi pura sorte você ter suas palavras cruzadas sendo usadas no grupo, ao invés de levar um tremendo castigo por ter entregado para os colegas fazerem na aula de história?
·        Claro que não. Eu sabia que Dona Maria não me daria importância se solicitasse permissão dela para usar as palavras cruzadas na aula de português. Se eu tivesse tentado assim correria o risco até de ter meus cadernos rasgados por ela que era muito ignorante.
Também não podia fugir a hierarquia levando-os a diretora para examiná-los que mandaria que eu procurasse pela professora.
O que eu podia fazer a não ser bolar aquele plano? Todos ficamos sabendo que foi a Dona Ernestina quem gostou e mandou que Dona Maria examinasse e fizesse cópias para serem usadas.
Durante esse ano ainda continuarei fazendo para auxiliar meus colegas.
·        Tinha combinado com seus amigos tal ideia?
·        É claro que eles não iriam topar se soubessem.
·        Como conseguiu convencê-los?
·        Muito fácil. Escolhi exatamente os melhores, mais inteligentes e aplicados entre meus colegas.
Tinha certeza que não fugiriam a um grande desafio justamente por serem ótimos em tudo que fazem. Portanto propus-lhes levar no outro dia duas frutas para eles para cada palavra cruzada fechada corretamente.
·        Mas não teriam de sacrificar a aula toda?
·        Sim. Até serem descobertos para tudo dar certo conforme planejei. Por isso escolhi a aula de história que não tem necessidade de pensar e raciocinar como em outras. Eles por serem muito estudiosos, em casa leriam em seus livros sobre a matéria desprezada naquele dia e com certeza a decorariam com facilidade recuperando-se com rapidez. Não havia como eles recusarem.
·        Você deu-lhes as frutas.
·        Claro que sim. Levei-as em dobro.
·        E o fato de ficar querido na escola toda?
·        Foi apenas consequência de tudo que aconteceu depois.
·        De Dona Maria ter ficado boazinha?
·        Isso foi obra de meu anjinho que sabendo que eu aprovaria a ideia deve ter negociado com o dela para ajudá-la. Nesse caso foram eles quem executaram seus planos.
·        Bem pensado, mas como você sabia que iria modificar a megera fazendo o que fez?
·        Não foi essa a intenção. Meu desejo era conseguir dela uma força com seu parente em São Paulo, para ele comprar minhas palavras cruzadas. Coisa que infelizmente não deu certo.
·        E a caneta que ganhou do vovô?
·        Foi o resultado de eu ter-lhe dado a ideia da horta. Claro que não fiz com intenção de lucrar nada, mas como já tinha revolvido a terra de um grande lugar não seria correto deixá-la abandonada. Tal ideia amenizava um pouco a mentira dita ao papai e também proporcionaria ao vovô João lucrar com a venda dos legumes e das verduras que plantamos. Ele ficou contente e acabou dando-me a caneta com um ano de antecedência.
·        E a caneta de ouro de nosso outro avô?
·        Pois é. O vovô italiano fez confusão achando que eu já ia entrar no ginásio e pensando que eu ainda não tinha nenhuma, deu-me a de ouro.
·        Não devia ter aceitado.
·        Tanto eu como mamãe fizemos de tudo para não aceitar, mas não houve jeito. Ele exigiu que eu recebesse como lembrança dele e não desfizesse dela por nada.
·        Qual a historia para o caso das minhocas? Pelo que soube você foi fazer cocô e teve a sorte de encontrar papai cavando suas iscas e aconteceu o milagre.
·        Tudo errado. Eu estava furando a terra depois do almoço e por volta de quatro horas parei para pensar e concluí que vendendo minhocas aos amigos de papai ganharia o dinheiro para comprar a correntinha, por isso fui ao banheiro propositadamente na hora em que ele estaria lá, já de caso pensado para fazer o que fiz. Simplesmente deu tudo certo conforme eu planejara.
·        Pelo tanto que ganhou com certeza só nos primeiros dez dias já tinha dinheiro para comprá-la. Porque continuou?
·        Porque não queria perder a freguesia para passá-la para você. Tinha de mantê-la até sua volta. Como você não quis assumir o trabalho fiz a última entrega e antes de qualquer outra pergunta saiba que tal atitude me fez conseguir o dinheiro para suprir minhas próximas duas mesadas. O lucro das gorjeias não era esperado. Foi uma ajuda extra de minha criança adorada com certeza com a finalidade de presenteá-lo e resolver também o seu dilema.
·        Se você planejou tudo então mentiu para mamãe, vovô e papai premeditadamente? Acha certo o que fez?
·        Não foi nada disso. Para conseguir a permissão de mamãe para passar o dia inteiro lá no quintal de vovô bastou simplesmente informá-la que estava em férias e solicitar-lhe passá-las na casa dele. Apenas isso. Sem nenhuma outra explicação. Coisa que já é usual nos fins de semanas e feriados, pois lá tem muitas frutas, cachorros para brincar, arvores para subir, além de muitos amigos que moram próximos. Muitos deles moram na pracinha do CORE, e eu sabia que ela pensaria serem esses os motivos e não iria negar. Consegui sua autorização sem dificuldade e sem mentira nenhuma.
Para o vovô não criar problema de furar o quintal, simplesmente falei que ia procurar ouro e ele como já foi garimpeiro simplesmente acreditou e até ficou rindo sem falar nada. Concordou rápido com um sinal de cabeça imaginando que eu puxei a ele querendo ser garimpeiro.
Não sei se ele achou que procurar ouro em sua terra foi uma brilhante ideia ou se julgou uma tremenda idiotice, mas que falei a pura verdade não tenho dúvidas. Eu estava mesmo atrás de minha correntinha de ouro.
Com papai pensei que passaria batido a mesma resposta, mas me dei mal e até tentei ser engraçado com ele.
Ele não acreditou e me apertou de tal forma que tive de mentir. Mas isso já foi resolvido e estou em paz novamente com ele, comigo e com meu anjo protetor.
·        Acho que vou voltar a acreditar no Papai Noel, no Gênio da lâmpada e na Fada com sua varinha mágica para me dar bem como você.
·        Deixe de ser infantil Derley. Esses são apenas as sementes que germinam e crescem na cabeça das criancinhas de tenra idade para depois dentro de cada uma transformar em árvores robustas e bem enraizadas para os adultos usufruírem de seus frutos.
·        Como se faz isso?
·        Nunca soube?
·        Acho que agora já é tarde. Há muito tempo tais brotos já devem ter morrido dentro de mim não é?  Exatamente quando resolvi deixar de ser criança há muito tempo.
·        Dedução errada.
·        Ainda dará tempo de conseguir?
·        É claro. Sempre dá. Basta querer.
·        O que devo fazer?
·        Muito pouco. Apenas voltar a agir e pensar como criança.
·        Então você vai ser eternamente criança? Não vai crescer, namorar, formar em alguma profissão, casar e tudo o mais?
·        É claro que sim. O que me impede de continuar pensando como criança e fazer as coisas inerentes a minha idade cronológica?
·        Seu anãozinho interno.
·        Está redondamente enganado. Não é ele quem decide meus atos. Ele vai é continuar me auxiliando como sempre fez.
·        Como ele se chama?
·        Eu o apelidei de anjo ou criança, mas ele atende por qualquer nome que queira chamá-lo. Pode ser anãozinho mesmo ou Consciência, Amor, Integridade, Juízo, Razão, Caráter, Honradez, Honestidade, Solidariedade, Humildade, Idoneidade, Maturidade, Retidão, Humanidade, Prudência, Respeito, Inteligência, Sensatez, etc. etc. etc.
·        Não deu para eu entender muito. Tchau. Vou tomar banho que já está amanhecendo e irei ao padrinho Arlindo cuidar de um dente e no alfaiate Jura, mas à noite não sairei para conversarmos mais. Quero que minha vida se torne doce como a sua.
·        Será fácil. Basta conversar seriamente com seu anjinho antes de fazer qualquer coisa que com certeza ele lhe ajudará encontrar a melhor maneira de executá-la.
·        Obrigado.
·        Mas não vai dormir pelo menos pela manhã?
·        Não. Tenho muitos assuntos para resolver.
·        Então desculpe por mantê-lo acordado a noite toda.
·        Não foi uma noite sem dormir por besteiras. Muito pelo contrário. Foi muito proveitosa.                      
                      Landinho só acordou no horário do almoço, e confirmou com Derley o retorno à conversa deles a noite para saber sobre as férias dele, mas o irmão mais velho não cumpriu o pacto, pois seu passeio noturno foi mais importante.
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                       O menino ficou meio inquieto com a falta de compromisso do irmão, porém refletindo concluiu o óbvio.
Era notório que Derley após regressar da viagem de férias teria muitas coisas a contar aos amigos. Com certeza encontraria também o pessoal vindo das faculdades de outras cidades e teriam novidades a trocarem.
Muitas meninas de fora teriam chegado em férias e seriam um prato cheio para fazer amizade ou namorar e tudo isso o segurou até seu horário normal de retorno por isso não apareceu.
Landinho substituiu em seus pensamentos a falta de compromisso do irmão, por vários motivos mais importantes a ele, portanto achou justo ele não ter vindo mais cedo. 
Sua ligeira agitação desapareceu rapidamente permanecendo nele o desígnio de nunca sofrer nenhum tipo de aflição ou desgosto e dormiu tranquilo.
Pela manhã acordaram ao mesmo horário e trocaram uma rápida conversa, com Derley se desculpando.
·        Falhei com você não foi?
·        Tudo bem. Eu sei que teve muitos motivos para ficar na praça. (Comentou os possíveis pretextos).
·        Você não tem jeito mesmo. Para tudo vê o lado bom.
·        Estou errado?
·        É claro que não. Você é um perfeito otimista. Só pensa e deseja coisas boas.
·        Lembra-se daquela história dos irmãos gêmeos que ganharam presentes diferentes do pai no dia do aniversário?
·        Sei o menino pessimista ganhou uma bicicleta e ficou reclamando que iria cair e quebrar um braço ou uma perna ou a própria cabeça, etc. e não gostou do presente. O otimista ganhou uma latinha com fezes de cavalo e saiu correndo gritando: Cadê meu cavalo? Cadê meu cavalo?
·        Na história não diz que ele pensou e desejou ganhar um cavalo. Ele saiu correndo em busca de seu cavalo. Ele determinou que de fato ganhara o animal e foi a sua procura. Com certeza esse menino algum dia em algum lugar realmente achou seu cavalo.
·        Isso é apenas uma piada.
·        Não é piada. É uma fábula séria que não é contada com a devida importância que ela merece.
·        Está certo. Ele correu atrás.
·        Sei que usou essa expressão para dizer que ele correu em busca. Não gosto de usar a expressão correr atrás, pois por mais que se corra, correndo atrás só conseguirá no máximo ser o segundo colocado. Jamais o primeiro.
·        Está bem. Vou correr em busca de meu perdão. Está muito aborrecido comigo por ontem eu não ter vindo cedo para conversarmos?
·        Lógico que não.
·        Então estou desculpado e por isso vou deixar você ler primeiro que eu, todos esses livros que Coutinho trouxe da capital e emprestou-me. Têm Poe, Balzac, Leon Tolstoi e outros. Só clássicos da literatura universal.
·        Ótimo. Obrigado.
                      Quem se esqueceu da conversa entre eles foi Landinho, pois passou os próximos cinco dias deliciando-se com os contos de mistério e terror de Poe e os maravilhosos romances dos outros escritores.
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                       Por descuido Derley reprovou na primeira e na segunda série do ginásio e com isso acabou por ser colega de classe do caçula no segundo ano ginasial. Nessa época a amizade deles por estarem o dia todo praticamente juntos, não só nas atividades escolares como nos esportes e nas brincadeiras tornou-se muito mais próxima e por esse motivo o mais velho sempre questionava a imaginada imaturidade de Landinho aconselhando-o.
·        Você já tem mais de doze anos e ainda brinca de super-homem?
·        Quem lhe disse isso?
·        Foi o “Ditão” que contou-me que viu você brincando com meninos de oito ou nove anos saltando com uma capa tentando voar.
·        Para os meninos pequenos realmente era brincadeira, mas para mim não.
·        O que?
·        Eu estou realmente tentando voar.
·        Está louco?
·        Não.
·        Como pode? Você vai se arrebentar no chão e se ferir. Ninguém é capaz de voar.
·        Primeiro que eu não sou burro. Eu estava saltando de uma altura de apenas dois metros nos fundos do hotel do pai do Manoelzinho. Antes colocamos vários colchões velhos no chão, portanto não havia riscos nem para mim nem para as crianças.
·        Não vai conseguir voar. Isso é impossível.
·        Você se lembra que um dia disse-me que a gente só sonha o que faz ou deseja enquanto acordado.
·        Sim. Isso é um fato.
·        Lembra-se também que eu comentei que no sonho que foi desejo anterior pode-se conseguir a forma de fazer no dia posterior o que no antes fora apenas pensamento?
·        E daí?
·        Daí que em quase todas as noites eu voo. É a sensação mais maravilhosa que já senti. É simplesmente delicioso planar. Durante o dia venho tentando fazer o que faço nos sonhos, pois acredito que ainda conseguirei voar alto que é minha maior aspiração.
·        Não tem jeito mesmo com você.
Mudando de assunto eu sei que você está apaixonado pela Vermelha desde os tempos do primário não é?
·        Gosto demais dela.
·        Porque não namora ela.
·        Tai uma coisa que não tenho coragem. Sou muito tímido para falar com ela sobre isso.
·        Não é acanhamento. Você conversa e é bem desinibido com todo mundo nos estudos, nas brincadeiras e nas conversas sérias. Você tem é medo de ouvir um não.
·        Os “nãos” não me preocupam, pois ajudam a nos aperfeiçoarmos e crescer em todos os sentidos. Tenho é receio de perder a amizade dela.
·        Eu acho que é sua mania de fazer tudo dar certo e receber um não de uma garota está fora de suas decisões, por isso a sua tal enorme aparente timidez.
·        Realmente está enganado.
·        De qualquer forma vou dar-lhe uns conselhos, pois nisso sou muito melhor que você. Procure tratá-la com o mesmo respeito que já trata, mas faça-lhe a corte devagar, já que tem medo de encará-la na cara dura.
·        Como assim?
·        De vez em quando traga-lhe frutas do quintal da vovó que com certeza ela irá gostar e querendo ganhar mais ela não vai querer correr o risco de negando-lhe o namoro você parar de agradá-la.
·        Isso me parece suborno.
·        Nada disso. Será gentileza sua oferecer-lhe tal agrado. Você não imporá condição nenhuma ao dar-lhe as frutas. Estará apenas se portando como cavalheiro e não como corruptor. Suas conversas deverão mudar de rumo e deixarão de ser só assuntos escolares e aos poucos ela irá se sentindo atraída por você e daí ficará fácil conquistá-la.
·        Interessante. Faz sentido. Vou pensar no assunto.
                      No outro dia o menino chegou ao ginásio com duas maravilhosas mangas e duas enormes mexericas, pois com certeza seu amigo interno aconselhou-o aceitar a ideia do irmão por se tratar de fato honesto, discreto e realmente audacioso, com real possibilidade de funcionar.
                      Próximo ao intervalo das aulas ele estava distraído pensando em como fazer para oferecer as frutas à sua paixão platônica quando ouviu junto ao seu ouvido em tom carinhoso e ardente a própria menina perguntando:
·        Para quem são essas deliciosas frutas?
·        São para a professora.
                      Essa foi a irrefletida resposta que saiu da boca de Landinho direto de sua medula espinhal e não do cérebro. Puro impulso totalmente descabido que deixou seu irmão e seu anjo atônitos, pois ambos presenciaram tal absurdo sem nenhuma possibilidade de interferência.
A menina saiu para o recreio assim de terminou a aula, e Landinho entregou as frutas conforme dito a professora de inglês, Dona Sheila.
                      No intervalo Derley criticou o irmão pela maravilhosa chance perdida e por presentear a mais emburrada e exigente das professoras do ginásio.
Era a única que não adotara os métodos carinhosos da velha Dona Maria do grupo escolar.
Era irritadiça, mal humorada, muito severa e a mais exigente das professoras do secundário.
Noventa por cento das reprovações dos alunos eram em inglês.
                      Reuniões entre pais e mestres aconteciam constantemente na tentativa de mudar-se o quadro que era um circulo vicioso. Os alunos não gostavam da mestra e por isso não se esforçavam em sua matéria e ela por vê-los alheios ao Inglês reprovava-os sem remorsos, pois não aprovaria quem de fato não merecesse. Naquele tempo era assim. Quem não aprendesse a matéria seria reprovado sistematicamente.
                      Aquele presente descabido e sem propósito fez mudar tudo.
A professora que só recebia caretas, bolinhas e aviãozinhos de papel jogados as escondidas pelos meninos sentiu-se a mais premiada das mortais.
Imaginou-se recebendo a faixa de miss universo, ou o Oscar de melhor atriz ou até mesmo o cobiçado Nobel, através daquelas frutas.
Com certeza o anjo da guarda de Landinho negociou com o de Dona Sheila, fazendo-a ter paciência e ser atenciosa com os adolescentes que reagiram interessando-se pela língua inglesa e tudo acabou surpreendentemente bem.
Os jovens substituíram suas brincadeiras de conversar em código do “P”, ou de traz para frente, muito comuns na época e passaram a se comunicar em inglês. Ficaram “feras” em conversação e dedicaram ardentemente na gramática durante as aulas e a ex-exigente professora agora feliz, a partir de então não reprovava mais ninguém.
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                      Derley constantemente censurava o irmão que já estava com mais de treze anos e não se arriscava em namorar a Vermelha e nenhuma outra menina.
Vez por outra lembrava-lhe o caso das frutas em que ele perdeu a maior chance do mundo para conquistá-la.
Landinho sempre respondia que foram as frutas quem impediu as dezenas de reprovações no ano anterior, pois todos os jovens dedicaram-se a aprender inglês após a mestra ter mudado seu comportamento com eles.
Esse foi o lado bom da situação e é ele quem deveria ser visto e comentado e não o que não deu certo. Esse deveria ser esquecido.
·        Você insiste em só ver o tal lado bom das coisas.
·        Acha isso errado?
·        Não. Acontece as vezes algo que deu errado com alguém por mera casualidade produz algum efeito inesperado e bom a outro. Quando isso ocorre é pura coincidência.
·        Está totalmente enganado meu irmão. Tudo que acontece no mundo tem seus dois lados. Depende única e exclusivamente do ângulo que se queira ver.
·        Então se é assim. Quando morre alguém da família da gente onde está o lado bom.
·        Está em se considerar que se não houvesse o óbito e tal pessoa ficasse permanentemente tetraplégica, sofrendo dores horríveis por muitos anos, fazendo todos nós sofrermos juntos. Venderíamos e gastaríamos todos nossos bens na tentativa de recuperá-lo e não conseguindo acabaríamos na maior miséria consequentemente ficando tão doentes quanto ele e até mortos pelas enfermidades. Não seria um fato bom a morte imediata daquele parente?
·        Concordo. Então você admite que se um parente nosso ficasse totalmente paralítico e cheio de dores por muitos anos é uma coisa ruim. Finalmente concorda com uma desgraça.
·        Claro que se isso acontecesse esse seria o lado bom, pois o ruim seria se ele morresse.
·        Não lhe entendo.
·        É simples. Se tal parente ficasse doente, porém vivo nunca perderíamos a esperança de curá-lo e ficaríamos sempre tentando fazer algo para recuperar-lhe a saúde a qualquer custo.
·        Acabou de falar o contrário.
·        Exatamente. Os casos conversados foram só hipóteses, por isso quando você propôs uma possibilidade eu vi a outra e vice versa.
·        Não estou entendendo nada.
Definitivamente não dá para entendê-lo.
·        Tal exemplo não foi um fato acontecido por isso houve as alternativas. Em um acontecimento real não há alternativas de mudanças, portanto não há o vice versa. Basta somente a gente idealizar o que queira que seja pior para substituir pelo fato real, que ele passa simplesmente a ser o lado bom. Seja o que for podemos imaginar algo mais drástico que ele para ele ser melhor. Portanto é só questão de querer enxergar o acontecido, imaginar o que seria pior que ele ficará sendo o melhor. Se eu ficasse só me martirizando por ter dado fruta à pessoa errada só veria o que não deu certo. Eu não fiz isso.
·        Muito bem. Se não houvesse oferecido as frutas a Dona Sheila e simplesmente dissesse que eram para seu lanche e as jogasse fora.  Onde estaria o lado bom?
·        Novamente vem com suposições. Eu poderia pensar que se entregasse à Vermelha e elas estivessem podres. Ela poderia ter uma forte indigestão e começaria odiar-me, por exemplo. Não seria pior?
·        Não tem jeito com você mesmo.
·        Tudo o que acontecer na vida por mais drástica que possa parecer deve sempre ser procurado outra situação pior que encontrará. Sempre há e é por isso que sou feliz. Tudo que me acontece na vida eu considero ter sido o melhor possível. 
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                       A timidez do garoto impediu-o de nova tentativa com as frutas e por falta de criatividade do experiente irmão mais velho não havia nenhuma outra ideia. Isso fez com que ele decidisse pensar em algo grande a fazer e após refletir muito arquitetou seu plano.
Resolveu presentear a menina que faria aniversário em julho com um presente realmente valioso que lhe seria entregue após o sim ao seu pedido de namoro.
Talvez um anel de ouro com pedra de rubi ou uma pulseira do mesmo metal nobre, selaria seu compromisso.
Precisaria ganhar dinheiro suficiente para isso. Sua mesada já era adequada a idade, mas seus gastos também, pois como todos os outros já fumava, bebia cerveja, jogava snooker, frequentava o clube e as seções noturnas do cinema.
                       Estava próxima a semana santa e em sua cidade havia o costume religioso de todos os moradores saírem em procissão iluminada por velas todas as noites.
Era certo que as velas eram adquiridas na loja do senhor Abraão, mas mesmo assim ele decidiu que iria vendê-las, sabendo do fracasso de todos os que anteriormente tentaram tal concorrência com o esperto comerciante.
Solicitou a mãe um empréstimo para ir de trem a cidade próxima de Guaxupé comprar direto da fábrica tais velas de cera para vendê-las. Embora ela duvidasse um pouco no sucesso da empreitada ajudou-o com o adiantamento solicitado, pois algo lhe dizia que o menino faria dar certo.
                         Ele procurou pelo Sr. Abrão dono da maior loja da cidade contando-lhe sobre sua decisão, perguntando-lhe se estaria agindo errado fazendo-lhe concorrência conforme pretendia.
O homem nada preocupado com a ousadia do menino disse-lhe não haver nenhum erro e até incentivou-o em tal aventura.
Como acontecia nos anos passados quase todos que tentaram fazer-lhe concorrência adquiriam as velas dele próprio e ao fracassarem revendiam-lhe a preços bem inferiores ao comprado. O que o comerciante turco pagava aos fracassados pelas sobras das velas compradas na fábrica da outra cidade era menos ainda.
O avarento negociante não via nenhuma possibilidade do menino tirar-lhe os fregueses, pois jamais seus antecessores conseguiram, mesmo sendo adultos.
As famílias iam durante o dia comprar as velas em seu comercio e na hora da procissão ninguém estava sem elas. Jamais alguém conseguiu vender mais que umas poucas velas durante os séquitos. Somente algumas que por ventura os religiosos deixassem cair e quebrar. Nada além disso.
O menino madrugou para embarcar na velha Maria Fumaça da antiga Mogiana, nessa época ainda a carvão e foi para a cidade vizinha. Lá adquiriu uma enorme quantidade de velas direto da fábrica e passou dois dias cortando e fazendo um protetor de papelão furado que era enfiado nela para evitar que a cera derretida escorresse para as mãos das pessoas.
Como faltavam ainda muitos dias para a semana santa resolveu melhorar seu invento. O papelão que tinha sido cortado de forma circular foi inutilizado e substituído por outro no formato quadrado e em cada ponta bem afixado um palito de arame. Ao redor deles colou um papel de seda colorido que ficava mais alto que o pavio da vela impedindo assim de o vento apagá-la como acontecia a todo instante durante todas as procissões nos anos anteriores.
Era normal as pessoas gastarem uma caixa de fósforos inteira acendendo suas velas ou ficarem a todo instante incomodando um ao outro pedindo para acender a que apagou. Pouco lhes sobrava de tempo para as orações.
                      Terminou todo o trabalho quatro dias antes do inicio de tais cortejos. Tempo suficiente para a próxima etapa de seu trabalho.
Ele simplesmente visitou durante suas tardes, pois pela manhã frequentava as aulas, todas as casas da cidade vendendo suas velas protegidas por papel colorido, como brinde. Oferecia a um preço especial pela aquisição para todos os dias da semana santa em uma única compra e foram raros os que não aceitaram.
Os poucos que comprariam dia a dia ele anotou os endereços e no decorrer da semana apenas essas casas precisariam ser visitadas.
Seu sucesso foi estrondoso, pois pelo que se soube o senhor Abrão não vendeu nesse ano uma única vela sequer.
Nem à sua família, pois sua esposa que gostou do brinde ofertado por Landinho comprou dele quando de sua visita que evidentemente foi a última, após já ter vendido a toda a população da cidade, impedindo assim de o turco ficar sabendo de tal astúcia e utilizar-se no mesmo método.
                     Alguns anos se passaram para acontecer de uma empresa fabricante de perfumes e cosméticos chamar de porta em porta para vender seus produtos. É sucesso até os dias de hoje.
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                      O mês de julho chegou rápido trazendo com ele a festa do aniversário da Vermelha e também os jovens que estudavam nas cidades grandes.
Entre eles estava o Barreto que sem ninguém saber havia trocado algumas juras de amor com a menina nas férias do final do ano anterior.
Corresponderam por carta durante os primeiros meses do ano e no aniversário da menina ficou seu par durante todo o tempo com permissão e satisfação de ambas as famílias.
                       Landinho ficou impossibilitado de tentar fazer a corte a menina e tampouco presenteá-la com o rico anel, acompanhado de uma pulseira e uma corrente de ouro. Não seria correto tal presente a uma colega de escola, simplesmente amiga descompromissada.
Os presentes nessas circunstâncias jamais seriam superiores a um long play de Frank Sinatra ou de Elvis ou no máximo um livro.
Participou dos festejos como todos os demais e decidiu que a partir dessa noite sonharia ser igual aos famosos galãs dos filmes daquela longínqua década de cinquenta. Com Tony Curtis, Marlon Brando e James Dean aprenderia as técnicas da conquista amorosa.
                       Foi nessa noite também que seu irmão repreendeu-o por não ter tentado nenhuma sedução à aniversariante e a nenhuma das outras garotas presentes. Eram muitas as que vieram de outras cidades, muito menos recatadas que as de lá e principalmente sem a vigilância dos pais ou dos irmãos, portanto muito mais accessíveis.
Censurou-o severamente, pois os adolescentes até mais novos que ele, as escondidas já o chamavam de mariquinha.
Landinho desculpou-se com o irmão, pois pretendia dormir logo por isso não ficaram conversando. Antes porem avisou-lhe que tudo mudaria em breve.
                       Em seus sonhos visualizou as façanhas dos ídolos do cinema e descobriu a técnica perfeita e infalível. Todos eram muito gentis, românticos, cavalheiros e respeitadores, além de aparentemente tímidos e bonitos.
Comparou-se a eles e percebeu que tudo isso ele também era, portanto bastava apenas fazer a corte a jovem pretendida que infalivelmente seria conquistada.
Em seus devaneios namorou até Brigitte Bardot a eterna musa dos adolescentes, adultos e idosos daquela década e das próximas.
Nos sonhos havia sim algumas recusas, mas jamais as que não aceitavam o namoro por algum motivo, deixavam de continuar suas amigas. Até se desculpavam acanhadas pela recusa. 
No outro dia relembrando-se que em sonho conquistou até a já falada mais cobiçada mulher do mundo e  decidiu durante seus dias substituí-la por suas colegas bonitas e atraentes.
Funcionou, pois graças aos sonhos, com certeza ajudado por seu anjo, descobriu que não era nenhum bicho de sete cabeças aproximar-se e conversar com alguém do sexo oposto coisas diferentes de estudos e brincadeiras.
Nesse campo seu irmão sabia exatamente tudo conforme já havia lhe explicado. Ele quem perdeu tempo não aprendendo, pois o medo era maior.
Namorou muitas das mais veneradas jovens de sua época, não só as da cidade como também suas parentes e amigas vindas de outras cidades de férias em Guaranésia.
Nada de seduções arrojadas e adultas, pois nesse tempo não só as meninas eram educadas para não ultrapassar limites, como os próprios rapazes.
Ele sempre se lembrava o que constantemente ouvia de sua mãe. “Não deseje ou faça com as meninas e que não quer que façam com suas irmãs”.
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                       Um dia Derley chamou-lhe a atenção em conversa, pois por ser mais velho e experiente sentiu que tinha obrigação de orientá-lo sobre coisas não conversadas com os pais.
·        Vejo que não tem mais medo das meninas e que tem namorado com várias. Como foi isso?
·        Comecei aprendendo com você e aperfeiçoei em sonho.
·        Tudo bem. Não precisa explicar.
·        Porque ainda não deu em cima da Vermelha? Não é ela sua paixão desde o tempo do grupo?
·        Sim. Mas ela está namorando sério em casa. Deve dar casamento.
·        E daí. Tome do cara.
·        E eu tenho algum recurso para casar? Só tenho quatorze anos.
·        Namore somente durante o ano. O filho do Dr. Artur só a namora nas férias quando vem aqui.
·        Quer que ela fique falada?
·        Então tente conquistá-la no sério e faça-a terminar com ele.
·        Não é certo pensar assim, pois ela não vai esperar formar-me, ter profissão e trabalho para depois casar. Vai demorar muito.
·        Namore só algum tempo e depois termine.
·        Não é honesto fazer isso principalmente com quem a gente mais ama.
·        Então segure-a. Se ela ficar gostando mesmo de você ela esperará o tempo que for preciso.
·        Não posso. Ela está comprometida e seu namorado já está no último ano de medicina e logo deverá querer casar com ela. (Naquele tempo os rapazes logo que completassem dezoito anos e terem emprego ou profissão e os recém formados não demoravam muito para unirem-se em matrimonio. Geralmente com uma menina entre quinze e dezessete anos. Quem permanecesse solteira além dessa idade era considerada “titia” e tinha de fato muita dificuldade para casar-se depois).
·        Mas você vai sofrer a dor de cotovelo sem tentar nada?
·        Ela é apenas meu primeiro amor como você sabe. Não é?
·        É. E saiba que o primeiro amor é o que a gente vai sempre lembrar e ter saudade o resto da vida.
·        Exatamente por isso que não preciso tentar prejudicá-la.
·        Por que isso? Não entendi nada.
·        Se o primeiro for o que vamos lembrar sempre é sinal que teremos outros para que se possa lembrar dele e sendo assim deixo-a em paz e parto para o segundo.
·        Mas pode dar certo logo no primeiro.
·        Perceba sua expressão “Pode dar certo”, e não “Vai dar certo”. Isso é uma verdade constante. Geralmente a gente ouve dizer:
“Fulano com fulana separaram com apenas alguns meses, ou alguns anos de casados”.
“Não podia dar certo mesmo, pois ambos nunca tiveram outros namorados antes”.
“Namoraram desde pequenos e ao casarem foi tudo por água abaixo”.
“É claro, pois tiveram necessidade de conhecer outras pessoas”.
Não é sempre assim que falam?
·        Nos casos do primeiro namoro sim.
·        Só nesses casos. Exatamente por ser o primeiro amor.
·        Ouve-se com muito mais entusiasmo o inverso.
“Fulano namorou todas as meninas da cidade, mas agora que casou ficou calmo, caseiro e ótimo marido”.
“Quem diria que ela seria tão boa esposa depois de ter namorado tantos rapazes.” E outras coisas mais que significam que quando se casa após o primeiro amor as coisas dão certo.
·        Acho que tem razão. Mas vai se lembrar o resto de sua vida desse seu primeiro amor sem sequer ter namorado?
·        Melhor, pois assim não terei nada para recordar, portanto não sofrerei ou sentirei saudade de coisa alguma.
·        É. Até que suas ideias de vez em quando fazem sentido.
·        Ainda bem que às vezes acerto.
·        Falei assim por sacanagem. Você sempre acerta.
·        Nada disso. Descubro muitos erros enquanto penso nas coisas a fazer, mas como sempre evito fazê-las no impulso só colocando em prática quando bem programadas elas tendem a saírem certas. Minha criança constantemente ajuda-me nisso.
·        De fato impetuosidade nunca foi seu forte.
·        Aprendi com meu anjinho a ter paciência e pensar bastante antes de decidir alguma coisa.
·        Aquela vez das frutas que deu a professora foi uma péssima atitude.
·        Foi exceção. Quando a Vermelha perguntou-me para quem eram as frutas, respondi sem pensar. Foi no impulso, mas acabou dando um ótimo resultado totalmente inesperado e até melhor do que se eu as desse para ela. 
                      Dois anos se passaram e o menino morava em outra cidade onde dava prosseguimento aos estudos à noite além de trabalhar durante o dia, sempre feliz. 
Regressou a sua cidade para ser padrinho de casamento da irmã e presenteou-a com um lindo cordão, uma pulseira e um anel de ouro com rubi, deixando-a maravilhada pela beleza e bom gosto das joias.
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                      Os anos passaram e ele trabalhou em vários empregos, casou e se conservou fiel e bom companheiro à esposa.
Um prestativo, presente e coerente pai para seus dois filhos.
Continuou realizando seus sonhos, crescendo e tentando aprender voar.
Permaneceu amigo leal de seus amigos, principalmente de seu anjo.
                       O tempo continuou passando e ele engordou, ficou careca e aposentou, mas ainda se mantinha criança, cheio de amor, feliz, sonhador e otimista.
                       Há muito tinha deixado as palavras cruzadas, porem a leitura continuou seu passatempo predileto. Da mesma maneira que fizera quando criança de dez anos, repetiu quando era criança de trinta. Passou a escrever romances que digitava cópias e dava aos amigos para ler.
                       Em meados de agosto de dois mil e sete lera no jornal, a notícia de um concurso de literatura promovido por uma entidade pública federal e desejou participar.
Enviou e-mail tentando saber se poderia participar com algum de seus romances e obteve como resposta que só aceitariam contos e não romances, e no final da noite de dezoito de agosto em conversa com um dos o filhos esse perguntou-lhe:
·        Porque o interesse em participar desse concurso? Você nunca tentou publicar seus dois livros já escritos?
·        Esse trabalho é muito interessante, pois na verdade não propõe promover nenhum escritor ou publicar obras para serem vendidas.
·        Do que se trata então?
·        O intuito é de distribuir gratuitamente às escolas públicas, aldeias indígenas, pessoas recém alfabetizadas para incutir-lhes não só o prazer pela leitura, mas propiciar-lhes melhor cultura e aprendizado possibilitando-lhes uma vida melhor.
·        Então porque você não resume um de seus livros transformando-o em conto e envia?
·        Você cortaria uma de suas calças fazendo-a virar bermuda?
·        Claro que não. Fico com as calças e compro uma bermuda.
·        Farei o mesmo. Fico com meus romances e escrevo um conto.
·        Mas falta pouco tempo. Você leva anos para concluir uma obra. Como fará?
·        Simplesmente fazendo, pois tenho tempo até novembro quando encerrarão as inscrições.
·        Então boa sorte.
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                      Alguns dias depois, no inicio de setembro Landinho informou aos filhos ter terminado seu conto e deu-lhes uma cópia para as devidas apreciações e correções.
Para o filho que está morando em um longínquo país da Ásia foi enviado por e-mail e ao outro por estar presente foi passado a cópia digitada.
Um deles perguntou-lhe:
·        No seu tempo de criança com menos de dez anos só se usava calças curtas? Como eram essas calças e porque não existem mais?
·        É claro que existem. Simplesmente mudou o nome para bermuda para todas as crianças terem o direito de seu uso. Pode ter dez, quarenta ou oitenta anos e usar sem nenhuma restrição. O importante é ser criança.
·        Por isso que junto de sua aposentadoria há mais de dez anos aboliu definitivamente suas calças compridas?
·        Elas atrapalhavam demais para correr, brincar e principalmente para aprender voar.
·        Não acha que a história que escreveu é muito infantil?
·        Claro que sim. Essa foi a intenção. O que uma criança falaria de um menino a não ser sobre sua ingenuidade, sua infantilidade, sua honestidade, seus amores e seus sonhos?
·        Você acredita que será escolhido entre os possíveis milhares de concorrentes?
·        É lógico que acho. Também tenho esse objetivo.
·        De ganhar o premio em dinheiro?
·        O “cascalho” será apenas consequência. Meu interesse primordial será transmitir esse conto às centenas de milhares de pessoas que terão acesso à leitura para distraí-las e ajudá-las viver melhor se por ventura conseguir passar-lhes alguma boa informação.
·        Seu amiguinho anjo vai ter muito trabalho para negociar com todo esse montão de gente para viver feliz como você.
·        Não. Bastará ele falar com apenas dois e cada um deles com outros dois e assim por diante que em trinta e dois dias terão exatos 8.589.934.590 (oito bilhões, quinhentos e oitenta e nove milhões, novecentos e trinta e quatro mil e quinhentos e noventa) pessoas usando calças curtas, falando de amor, realizando sonhos e sendo otimistas. Isto significa que toda a população mundial estará resolvendo seus projetos e ideias da maneira mais óbvia possível que é a simplicidade, achando a vida doce, nunca deixando de crescer e voando nas alturas.
·        Desejo que realize mais esse sonho.
·        Poderei falar para seu tio Derley que finalmente aprendi voar.
Infelizmente esse concurso nunca foi concretizado, pois no decorrer dos meses posteriores, sempre pesquisando no site do órgão público jamais soube sobre tal realização.
Anos depois alguns sites de empresas particulares acabaram por informar que caixas e caixas de livros estavam sendo corroídas e danificadas jogadas em um depósito do tal órgão público, cujos organizadores jamais sequer abriram para a execução do concurso mencionado, até hoje, dia 15 de março de 2012.
Minha última e única possibilidade de falar para meu irmão Derley que aprendi voar é tentar publicar tal livro em uma editora particular, e crendo que a Editora Zamoner (Editora Protexto), ou outra qualquer faça esse meu sonho realizar, caso o considere apto a ser publicado estarei finalmente voando às alturas.
ACABOU
 
 
 
A QUEM POSSA INTERESSAR
Hoje estou inconsolável por isso resolvi contar minha vida.
Meu aborrecimento, após uma noite de insônia continuou pela manhã.
Meu pai após acordar-me aos safanões discutiu comigo porque não consegui levantar cedo para ir ao trabalho.
Disse-me mil desaforos. Um deles é que eu não puxei a ele nem à minha mãe, pois ambos sempre foram e ainda são muito responsáveis principalmente com seus horários e obrigações e que eu nunca dou valor a isso e a muitas outras coisas importantes.
Muita injustiça, pois raramente atraso e quando isso acontece existem motivos imperiosos para tal, como insônias ou noites mal dormidas causadas justamente por dias mal vividos.
Minha mãe repreendeu-me junto dele de forma menos contundente e menos agressiva porem falando com outras palavras as mesmíssimas coisas.
Acontece que nenhum deles procurou saber o motivo de minha demora ao acordar.
Jamais ficarão sabendo que meu namoro de mais de um ano ruiu, por dois motivos muito simples. Primeiro porque eu não lhes contarei e segundo porque nunca se importaram em saber se estou feliz ou infeliz com minha cara metade. Nunca me perguntaram se meus namoros são com pretensões de casamento, se são só para ficar, se apenas para passar o tempo ou simplesmente por diversão. Eles desconhecem que já tive seis grandes romances desmanchados com mais de um ano de duração cada um.
Sempre tive a impressão que eles me julgam um robô sem direito a paixões, felicidades, alegrias, tristezas e sofrimentos.
Meus pais só pensam neles e para tanto vivem a me cobrar sobre meus estudos, meu trabalho e meu futuro.
Imagino que desejam tanto que eu me dê bem na vida para cuidar deles que já estão pra lá de Bagdá e não tem nem onde caírem mortos.
Constantemente ouço a maldita frase. Você não pensa em seu futuro?
Pergunto-lhes o que é o futuro?
Só sabem dizer que é ter um diploma universitário, estar com o cofre abarrotado de dinheiro e com um excelente casamento, é claro que decidido por eles. 
Eles não sabem que a vida da gente é composta praticamente só de passado, que engole rapidamente o presente quase que instantaneamente e sem absolutamente nada de futuro. Jamais alguém viveu ou viverá o futuro, pois no exato momento em que vivemos qualquer situação, ela é o nosso presente e instantes depois ao mudarmos para outro acontecimento aquele de momentos antes já se tornou passado para dar lugar a um novo presente que sumirá de repente como em um passe de mágica para somar-se ao inesgotável passado. É assim que a vida nos engole aparentemente devagar, porém muito rapidamente.
Jamais o futuro existirá de fato para alguém a não ser quando está devidamente comprado e traçado por pais milionários que já o prepararam para os filhos, mesmo antes deles sequer terem nascidos.
Em incomuns exceções também acontecem aos raros predestinados.
Aos demais que são quase que a totalidade dos seres humanos o futuro nunca existirá a não ser em sonhos e desejos. Absolutamente nada além disso.
É a maior briga quando falo assim, mas ninguém pode negar que é definitivamente isso que acontece com todo mundo.
Meus pais insistem em me dizer que a busca dos sonhos atuais imaginando-se um futuro promissor fará lá na frente, em algum dia, ser o então meu falado presente que imediatamente vira passado.
Exemplificam com o sucesso financeiro e familiar de meus irmãos alegando que eles procuraram realizar seus sonhos, com otimismo e perseverança por isso suas vidas são maravilhosas.
Saibam vocês, que minha irmã sempre se dedicou aos esportes, pois sua realização seria ser uma famosa jogadora de vôlei da seleção brasileira, entretanto muito antes de isso acontecer, se é que pudesse acontecer de fato apenas pela sua procura, arrumou um namorado empresário muito rico que casou com ela dando-lhe todo o conforto que atualmente tem.
Até que teve oportunidade em dedicar-se ao vôlei pois seu marido é proprietário de várias casas de vendas de produtos esportivos e até patrocina um grande clube da capital e não seria nada difícil ela frequentar tal entidade, mas acham que ela após ficar milionária iria se desgastar praticando tal esporte? Virou uma dondoca que nada faz a não ser gastar dinheiro com festas, joias, viagens e outras besteiras mais.
Meu irmão por ganhar uma bolsa de estudos da empresa onde trabalhava como vendedor anos atrás, formou-se em administração ou direito, não sei ao certo. Atualmente é um milionário, graças as exportações de café de suas fazendas, entretanto o grande sonho que sempre desejou desde criança para seu desejado futuro era ser um importante médico e ter um amplo hospital em São Paulo.
O seu brilhante presente nada tem a ver com seu antigo e imaginado futuro, pois mora quase que o tempo todo nas roças do interior do mesmo estado e não sabe sequer aplicar uma simples injeção em seus cães ou cavalos e muito menos em humanos.
Após tornar-se rico não poderia estudar medicina e realizar seu sonho? Tenho certeza que optou por achar que não valeria a pena tal sacrifício, pois já estava bem sucedido e conforme vivia já lhe bastava.
Ambos se deram bem na vida por meros acasos, ou por seus esforços como queiram, mas totalmente alheios aos futuros programados por eles desde crianças. Portanto foram apenas vivendo de presente em presente até acontecer suas boas vidas atuais. De futuro garantido, eles e todos nós só temos a morte.
Meu último namoro desmoronou-se porque meu grande amor trocou-me. Simplesmente descartou-me como um trapo velho alegando não sentir mais nenhuma atração por mim. Disse-me ontem à noite em um restaurante onde repartíamos as despesas que não mais me amava e ia partir para outro romance mais quente, mais paixão, mais explosivo e que era para eu procurar alguém que se contentasse com meus sentimentos amenos, cautelosos e brandos para que nos amassemos ajuizadamente e para eu ir à luta e passar bem.
Sempre me porto com recato, sou fiel e não demonstro ciúmes.  Estou sempre à disposição e de bom humor para qualquer programa. Nunca recuso um cinema, teatro, motel, televisão, praia, viagens de fins de semana, ou qualquer outro afazer cujo convite me é feito.
Eu definitivamente considero-me uma pessoa totalmente dentro do padrão e de ótimas atitudes que evidentemente deveriam agradar qualquer pretendente a um romance perfeito. Porto-me sempre com tranquilidade, jamais brigo ou discuto, nunca proporciono gastos exagerados ao meu par, pois sempre divido as contas como é praxe usual hoje em dia. Nunca explorei ninguém embora também nunca me deixei explorar e apesar disso nunca satisfaço. O que me falta para ser feliz?
Jamais tive pais, irmãos ou amigos confidentes para me consolarem ou aconselharem sobre meus vários romances terminados, sempre pelo mesmo motivo. Em todos os rompimentos meu par alegou ter terminado o amor ou o tesão por mim. Nunca fui eu quem rompeu tais compromissos.
Respondam-me. Era possível eu dormir a noite passada e ainda acordar cedo para ir trabalhar?
Não sou jovem mais, pois há muito já passei dos 25 anos e ainda nem sequer consegui entrar na faculdade, pois nunca passei nos inúmeros vestibulares que tentei. Tenho certeza que não é incapacidade minha e sim porque todas as faculdades só dão direito ao ingresso nela a quem compra a vaga e aos que são nerds, coisa que de fato não sou e inclusive abomino. Ninguém deve fazer nada em excesso, pois tudo que assim é feito acaba em vício e tal coisa sempre terminará com danos para o corpo ou para a mente.
Isso é outro imenso desgosto para meus pais. Vivem a jogar-me na cara que meus irmãos já são formados, bem casados e muito bem situados na vida profissional. São os maiores orgulhos deles e nunca reclamam por eles sequer mandar um cartão de natal ou mesmo em seus aniversários um rápido telefonema de feliz data.
Quando meus pais ligam para eles geralmente são atendidos pela secretária eletrônica e nunca têm retorno. As poucas vezes que são recepcionados são por empregadas domésticas e através delas que têm algumas poucas notícias de meus manos. Tenho certeza que eles nem sabem se tem netos ou não, pois nunca tiveram notícias de tais nascimentos.
Ainda bem que não conseguem falar com eles porque senão as contas telefônicas ficariam caríssimas para eu pagar, pois é um dos custos da casa que fica sob minha responsabilidade.
Não são muitas as minhas despesas em casa por eu ganhar pouco e essa é outra bronca deles. Vivem a me dizer que eu deveria dedicar mais no trabalho. Que eu não visto a camisa da empresa onde trabalho e coisas e tal.
De fato não puxo saco de patrão nenhum. Não sou Caxias e nem corro muito atrás mesmo. Cumpro com minhas obrigações sem me matar, pois todas as atividades e afazeres conforme meu contrato de trabalho são rigorosamente cumpridas dentro do prazo normal da jornada pré estabelecida. Jamais deixei alguma coisa para terminar depois, assim como nunca terminei nada rapidamente para procurar auxiliar meus colegas, pois conforme meus julgamentos todos têm de cumprir tão somente sua empreitada e se algum deles precisou de ajuda, é porque ele quem foi ineficiente e incapaz e eu não tenho a mínima responsabilidade e obrigação de ter de auxiliá-lo em nada.
Ninguém me compreende por pensar assim e meus pais dizem que eu não cresço na empresa é exatamente por isso. Não concordo e embora esse seja outro motivo de muitas brigas minhas com eles continuo minha vida a meu modo, pois ela é minha e só a mim devo satisfações.
Meus colegas de trabalho pensam e recriminam-me pelo mesmo motivo. Constantemente dizem que devo ter ambições maiores, mesmo correndo riscos se por isso incorrer em erros e perder o emprego.
Se essa é a paga por ter grande ambição está totalmente errado tê-la em excesso. Não é mais coerente mantê-la em nível baixo e não correr risco nenhum?
Meus pais também pensam como eles e falam que devo aventurar-me em certas coisas com mais arrojo e em outras ser mais prudente para que elas se contrabalancem mantendo-se o equilíbrio. Que só assim irei conseguir algo grande tanto na vida social, quanto amorosa e profissional.
Não é uma tremenda estupidez de quem pensa assim? Se tiver de avançar o sinal em algo e retrair-me em outras coisas para equilibrar minha vida, não é o mais correto manter todas minhas decisões em níveis iguais sem nada arrojado e nada muito cauteloso. Agindo assim não terei uma vida reta, rotineira e metódica sem altos e baixos e sempre em perfeito equilíbrio? Não é a maneira mais correta de se comportar?
Todos que me recriminam vivem permanentemente com seus avanços e atrasos tentando manter-se em pé na corda bamba da existência para não cair e ainda têm a ousadia de julgarem exatamente a mim que permaneço mantendo rígidas e corretas minhas atitudes.
Honestamente onde está meu erro, se tudo que faço é da maneira mais ponderada possível? Tenham certeza que infelizmente estou cercado de pessoas que não tem um mínimo de bom senso.
Meu patrão vez por outra me cobra mais rapidez em meus afazeres, mas isso não passa de tentativa de escravizar-me como faz com quase todos seus funcionários.
É claro que estou certo julgando-o escravagista, pois ele não para de tentar exigir mais e mais dedicação minha, mas se dá por satisfeito com meu trabalho pois permaneço há muito tempo no emprego. Se ele me julgasse incapaz não já teria me demitido?
Estou na mesma empresa há quase dez anos e já vi passar por lá várias pessoas que não se deram bem no trabalho e mesmo sendo puxa sacos foram demitidas.
Até concordo que alguns do meu tempo já estão em cargos de chefia, de gerencia e até de diretoria e eu continuo como auxiliar de escritório desde que entrei, mas isso ocorre justamente por eu não babar ovo de chefe nenhum e por isso deixam-me como estou. Entretanto assim como existem esses que tiveram promoções muito mais são os que já foram demitidos por vários motivos.
Eu simplesmente nasci com esse destino e devo continuar trilhando por ele com meus pensamentos puros e sensatas atitudes até meu final e torcer para que ao casar-me, se algum dia isso acontecer, que meus filhos não tenham o mesmo destino.
Caso você que leu essa pequena história imaginar que é semelhante a sua história de vida, pode ter certeza que não é mera coincidência.
É de fato a sua história sim e tanto faz se for homem ou mulher, pois em momento algum se definiu o sexo da personagem central da narrativa, portanto tome cuidado com o que pensa sobre o mundo e rapidamente ouça e ponha em prática os ensinamentos de seus pais, de seus colegas de serviço, de seus patrões e de seus namorados ou namoradas.
Ainda há tempo para modificar-se e conseguir ter uma vida feliz com um até risonho futuro a sua espera para se transformar lá na frente em seu glorioso presente.
Sucesso em sua transformação se lhe interessar, pois caso contrário sou eu quem torço para que não se case e tenha filhos, pois em não os tendo não poderá impingir esse triste e medonho destino para eles.
ACABOU.
 
 
 
 
 
 
 
 
INSATISFEITO
Está quieto e carrancudo e já faz algum tempo que só lhe vejo assim. Há meses que não brinca com os meninos e nem comigo como era seu costume cotidiano. O que está preocupando-o Neginho, amor de minha vida?
§  É essa existência inútil que a gente leva desde que nasce até quando morre. Sempre obedientes e gentis sem direito a nada. Nem sequer uma simples reclamação nos é permitido.
Temos que fazer tudo que nos ordenam e ainda sermos alegres e felizes. Isso é abuso, totalmente incompreensível e inaceitável.
§  Que revolta maluca é essa? Porque o incomoda a vida que levamos? Sempre foi e continuará sendo assim para nós e para todos os outros.
Dê graças aos céus que vivemos muito melhor que a maioria que não têm sequer o que comer. Vivem pelas ruas procurando restos em latas de lixo e até se matam em brigas violentas por algum pedaço de carne estragada que às vezes encontram.
§  É por isso mesmo. Acho que devemos mudar tudo para que todos tenham direitos iguais.
§  Isso que está pensando é comunismo e você já viu que não deu certo em nenhum lugar do mundo.
§  Engano seu. Na China funciona.
§  Acha mesmo? A grande maioria do povo de lá é oprimida e trabalha como escravo para os mandatários mostrarem ao mundo a fartura e opulência que só existem para eles e aos turistas estrangeiros cheios de dinheiro para gastar. O povo é quem sofre as consequências sem ter quase nada a não ser o trabalho árduo obrigatório. Viu as olimpíadas? Ergueram obras faraônicas e o povão de lá que construiu tudo nada assistiu dos esportes.
Mais de setecentos milhões de pessoas vivem espremidas e sem nada na região leste do país disputando o lugar com os animais que antes eram os únicos moradores de lá.
§  Continua errado. É o país que mais se desenvolve e cresce no planeta.
§  Em função das maciças vendas de seus produtos.
§  E não está correto isso?
§  Quando o resto do mundo cansar de comprar tais artigos de péssima qualidade e deixar de mandar-lhes dinheiro aos montes, você verá no que vai dar. Acontece que... Estou defendendo o povo chinês para que? Eles também não me interessam e que vão as favas.
§  Sua revolta não é apenas contra o Brasil? É contra todos os países? Deixe de se atormentar, pois jamais conseguirá arrumar nossa nação e muito menos o mundo inteiro.
§  Depende de quem está no comando. Porque não pode ser nosso pessoal a dar as ordens em toda a terra? Com certeza não deixaremos as bagunças continuarem conforme estão.
Os jornais das televisões não param de mostrar o que está acontecendo nos Estados Unidos e por efeito cascata ao restante dos países.
§  Outros povos já tentaram e nada conseguiram. Muitos já se revoltaram e acabaram por desaparecer para sempre da face da terra.
§  Talvez porque não planejaram direito uma revolução sangrenta e definit... Mas, peraí. Quem fez e quando foi tal rebelião que falou?
§  A dos dinossauros é claro e não faz muito tempo.
§  Deixa de ser idiota mulher. A ideia mais aceita para explicar a extinção dos dinossauros é a que defende a queda de um asteroide na região do atual México, no período Cretáceo. De acordo com paleontólogos, esse asteroide teria aproximadamente 14 km de diâmetro e no momento do impacto, levantou uma nuvem de poeira que cobriu a Terra durante anos, impedindo a penetração de raios solares. Três quartos dos animais e vegetais morreram com a falta de luz solar, de alimentos e pelo aumento de mais de 300 graus Celsius na atmosfera.
Eles desapareceram da terra por obra da natureza e não por nenhuma guerra contra ninguém e quando isso aconteceu nem existia homem nenhum na face da terra, sua ignorante e burra. Isso aconteceu há sessenta e cinco milhões de anos.
§  Deixe de ser estúpido comigo e fale com educação, pois não tenho medo de você. Sei que por ser grandalhão e forte amedronta todo mundo e até anda brigando com baixinhos por aí surrando e desfazendo de todos. Comigo que sou tão grande quanto você veja se não se mete a besta, pois apanhar eu não apanho, de você e de nenhum macho metido a valente. E saiba que se eu não puder consigo tem nossos filhos que não o deixarão me maltratar. Se preciso for eles até lhe darão uma surra daquelas, portanto estando ou não revoltado, com suas ideias de revolucionário na cabeça tenha muita delicadeza ao falar comigo senão se dará mal.
§  Calma querida. Não precisa apelar e nem colocar nossos filhos na briga, pois só você mesma eu creio que me estraçalhará, sua graciosa ferinha indomada.
§  Melhorou no tratamento.
§  Estou desculpado?
§  Se suas grosserias não se repetirem mais, sim. O que falou sobre o fim dos dinossauros é a teoria lida nas enciclopédias e nos sites da internet como sendo dentre as várias possíveis a mais provável e não um fato verdadeiramente comprovado, mas o que me diz da revolta dos macacos que também não deu certo? Essa realmente foi há pouco tempo.
§  Olginha, adoradinha e queridinha minha. Você está assistindo muito cinema. O Planeta dos Macacos foi apenas um filme estrelado por Charlton Heston em 1968. Nada aconteceu com eles. Continuam por aí, são e salvos fazendo suas macaquices. Permanecem irreverentes como sempre, porem se mantêm obedientes e submissos aos humanos que nada mais são que sua própria raça um pouco mais evoluída.
Só falta você me falar da revolução dos porcos Bola-de-Neve e Napoleão, pois esse caso trata-se de um livro chamado Animal Farm (A Revolução dos Bichos) que foi escrito por Eric Blair, mais conhecido pelo pseudônimo de George Orwell, em 1945, criticando a revolução russa e seu líder Joseph Stalin.
§  Está bem Nego. Talvez eu esteja fazendo confusão mesmo, pois estou doente e confusa, mas nenhuma revolução aqui no Brasil jamais deu certo. Disso eu não tenho dúvidas. Mire-se nos exemplos da Inconfidência Mineira, da Carioca, da Baiana ou Revolta dos Alfaiates, da do Pernambuco, da Guerra dos Emboabas, da dos Mascates, da Revolução Constitucionalista ou Guerra Paulista.
Todas tiveram seus lideres presos ou mortos e nenhuma delas deu em nada, portanto vamos continuar vivendo conforme estamos, pois está ótimo.
§  Só os imbecis conformados como você estão satisfeitos e vão permanecer dominados. Sempre com uma coleira fortemente atada no pescoço.
§  E os idiotas revoltados e estressados como você sempre morrendo de infarto ou de tiro e vê se não faça nenhuma besteira que possa colocar o pessoal da casa contra você, pois sempre se portou bem e cuidado com seu tratamento agressivo comigo, pois não vou mais ficar só na reclamação. Essa foi sua última estupidez que aceitei. Da próxima, se houver eu vou adotar uma atitude drástica e definitiva.
§  Está bem. Perdoe-me novamente. Vou tomar cuidado com minhas palavras. Mas o que você está sentindo, pois falou estar adoentada?
§  Não sei ainda do que se trata. Estou sentindo dores pelo corpo todo e ando muito esquecida. Vivo constantemente fazendo confusões com datas e ocorrências passadas e até atuais.
§  Deve ser o mal de Alzheimer. É melhor procurar um médico.
§  Não é Alzheimer e não creio ter necessidade de médico. Deve ser só uma indisposição passageira. Vou aguardar mais um pouco, até Dona Zezé levar-me a uma consulta se for necessário, pois ela comentou ser apenas coisa simples e corriqueira sem grandes preocupações.
§  Você quem decide, mas se está passando mal reclame àquela velha gorda sardenta filha da puta para tomar uma atitude logo, pois de fato faz dias que a vejo macambúzia.
§  Obrigada pela preocupação, mas voltando à conversa anterior, trate de moderar seus modos não só comigo, mas com todos os demais. Onde já se viu chamar Dona Zezé com esse apelido maldoso que você inventou.
§  Mas não é assim que ela é? Caindo aos pedaços de velha com as banhas tentando estourar suas pelancas pelo corpo todo cheio de sardas? Só porque ela é rica e dona desse palácio em que vivemos escravizados tem de vê-la bonita?
Já faz tempo que me mostro contente e fiel, mas é só fachada, justamente para não me trair, mas odeio todos esses cretinos que só fazem é exigir da gente atitudes e feitos que lhes agradem sem se preocuparem se estamos contentes ou não em servi-los.
Nem remédios para nossas doenças têm fornecido. Veja o estado em que você está e sem nenhum medicamento.
Hei de começar minha vingança o quanto antes.
§  Não estou mal assim como fala. Vamos mudar de assunto que esse não me interessa e tome muito cuidado com as besteiras que anda pensando em fazer.
Estão chamando-nos para o jantar. Vamos logo.
A refeição servida ao casal que se juntou aos filhos foi de boa qualidade, com direito a sobremesa, para depois de satisfeitos recolherem-se para o merecido repouso de algumas horas, com toda a família reunida, pois teriam pela frente uma noite inteira de trabalho árduo.
Apenas Nego não dormiu, pois não se conformava com sua vida e se propôs em dar inicio a sua insubordinação a partir dessa noite, mesmo sem o auxilio de ninguém. Totalmente só e em segredo. Ele decidiu que iria nessa madrugada escondido de todos, fazer um teste de sua revolução para depois, se tudo corresse bem, começar conquistar adeptos à sua causa.
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Pela manhã do dia seguinte toda a vizinhança de um bairro nobre da cidade amanheceu alvoroçada, pois no quintal da casa que pertencia a um rico fazendeiro que não deixava o hábito de criar animais nos fundos de sua mansão, foram encontradas todas suas galinhas estraçalhadas por algum animal feroz, ou por algum doido que passou pela região.
Tal casa tinha um quintal de fazer inveja a vários sítios pela sua grandiosidade, não só pelo tamanho físico, mas também pela sua beleza.
Exceto o pomar e uma mata nativa não havia nenhuma lavoura nele, pois seu proprietário era possuidor de várias fazendas pelo Brasil afora onde criava animais de grande porte e plantações de todos os produtos agrícolas.
Dava ênfase às culturas mais proeminentes em cada região devido ao clima existente em cada local dobrando sua fortuna a cada ano que passava.
Satisfazia-se com um belo mini zoológico no quintal de sua residência para passar o tempo, pois não trabalhava mais.
Toda a administração de seus latifúndios estava em poder dos filhos, pois ele já velho não viajava para nenhum lugar e sua maior alegria era ter seus animais de estimação junto a si, por isso e com autorização do IBAMA, mantinha várias espécies de bichos de pequeno porte, peixes e aves em seu zoológico particular.
Nessa pequena fazenda dentro do bairro elegante da cidade, havia também várias casas onde os empregados do fazendeiro moravam com suas famílias para cuidar de tudo.
A policia foi chamada e nenhum maluco foi encontrado pelas redondezas.
Todos os empregados foram investigados e não foi detectado nenhum possível suspeito. Eles eram muito zelosos e de inteira confiança do patrão, portanto isentos de suspeitas.
Os proprietários das mansões vizinhas também passaram pelo constrangimento das investigações com seus criados e ninguém foi detido para mais investigações, pois se esgotaram todas as possibilidades de manter qualquer pessoa indiciada como suspeita e muito menos incriminada.
A eficaz equipe da zoonose também esteve presente examinando todos os animais domésticos e os chipanzés que moravam nas árvores do quintal da casa e não encontrou nenhum bicho com sintomas de doentes com a raiva ou com qualquer outra enfermidade que lhes fizesse provocar tal violência.
Todos os cães de guarda das mansões e os gatos domésticos num raio de vários quilômetros também foram examinados e constataram que estavam sadios e o caso ficou encerrado para a decepção do velho fazendeiro que não descobriu quem era seu inimigo anônimo.
Ninguém ficou sabendo quem foi o destruidor do galinheiro onde o homem criava suas galinhas de raça com muito zelo.
Apenas Nego sabia quem foi. Melhor dizendo, imaginava ser o único a saber, justamente porque naquele mesmo quintal Tonho e Fuzarca conversaram sobre o incidente durante o dia todo, pois foram testemunhas e o viram em ação na madrugada.
§  O que será que deu nele para fazer o que fez?
§  Não faço a menor ideia, mas seja lá o que for vou ficar de olho nele, pois demonstrou ser muito mais violento e perigoso que até então me parecia.
§  Não seria melhor delatarmos o que vimos ao fazendeiro ou pelo menos conversar com Nego?
§  Acho ambas as ideias muito perigosas, pois com certeza iremos sofrer represálias apenas por termos sido testemunhas, imagine como delatores.
§  Então vamos deixar como está?
§  É claro. Ficaremos quietos, como se nada soubéssemos para não corrermos nenhum risco.
§  Está certo. Vamos guardar segredo, mas eu ainda gostaria imensamente de saber qual o motivo que levou Nego a fazer o que fez.
§  Tonho, não vá dar com a língua nos dentes e deixá-lo desconfiar de nada, senão podemos nos dar mal.
§  Está bom Fuzarca. Tudo bem. Não vou falar nada, por enquanto. Na verdade ainda não sei o que fazer. Talvez eu não fale com ele, talvez sim. Ainda não decidi. Vou conversar com nossos amigos para ver se alguém tem alguma ideia de como agir, embora acredite que com muita calma eu possa conseguir dele alguma informação, pois entre todos da região eu sou o único que ele conversa de forma amistosa.
§  Deixa de ser louco. Ele pode acabar com você. Não vê que além de ser sempre muito nervoso e agressivo é muito mais forte e pode matá-lo também.
§  Esse é o grande problema que tenho de resolver.
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Em outra conversa ouviu-se:
§  Cléo você viu o que o Nego aprontou na madrugada passada? Éramos oito que estávamos reunidas no terraço lá de casa e assistimos tudo.
§  Eu e três amigas, lá de minha varanda vimos do começo ao fim tudo que aconteceu Branca. Foi terrível. Pena que ninguém da casa do fazendeiro viu aquele selvagem estraçalhar as galinhas daquele jeito, senão ele não estaria passeando por aí, livre e solto, como se nada tivesse acontecido.
§  Você também viu Cíntia? O que será que deu nele?
§  Não faço a menor ideia. Nem eu e nem as meninas que estavam comigo em minha casa entendemos nada. Estávamos em umas cinco ou seis e ficamos abismadas e revoltadas com tanta maldade.
Nesse momento eram mais de vinte falando sobre o acontecido, todas amedrontadas, pois conforme falaram, além delas, vários outros jovens haviam presenciado ao extermínio das galinhas do alto dos terraços de suas respectivas residências e todos estavam assustados com a violência de Nego.
Ninguém ousava delatar o bandido, pelo pavor que tomou conta deles, mas algumas jovens, mais afoitas e corajosas conversavam em voz baixa sobre o interesse em falar com o criminoso para saber o motivo que o levou a tal barbárie. Elas arquitetavam planos e mais planos de como dirigirem-se a Nego, mas nunca chegavam a um acordo de como seria, pois imaginavam o grande perigo que corriam, entretanto falavam a todas as amigas sobre o que sabiam para descobrir se alguma delas, mesmo não tendo sido testemunha bolasse algum plano.
Assim como elas, no decorrer dos próximos dois dias Tonho também contou toda a história a vários amigos, na mesma esperança de conseguir que alguém tivesse coragem ou plano para conversar com Nego e saber o porquê da carnificina.
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No quintal da mansão vizinha alguns amigos conversavam distraídos e sem segredo:
§  Felix você tem ideia do motivo que levou Nego anteontem a matar todas as galinhas do fazendeiro?
§  Nem imagino Danton, mas eu quero descobrir a causa.
§  Pretende conversar com ele? Esqueceu-se da surra que ele lhe deu ainda não faz um mês? Está ficando biruta?
§  Nem penso em passar perto dele, mas o ódio que sinto é tanto que gostaria de fazer alguma coisa para delatá-lo sem que ele saiba que fui eu.
§  Com aquele tamanho não só você como todos nós iríamos apanhar e muito se tentássemos alguma idiotice para incriminá-lo.
§  Mas tem de haver um jeito. Invente algo Gabrí, já que é o pensador da turma.
A conversa entre eles durou horas, até que finalmente Euclides, que nem era muito pensador conseguiu uma ideia, cujo plano se fosse bem sucedido incriminaria o inimigo ao fazendeiro sem se exporem.
Ele explicou aos outros que se invadissem o quintal do vizinho e matassem os pássaros do fazendeiro, em seus viveiros gigantescos, da mesma maneira que foram mortas as galinhas e deixassem um estraçalhado próximo a casa do Nego, ele seria acusado desse crime e consequentemente também do primeiro e teria de explicar para todos porque estava destruindo os animais do homem. Assim todos saberiam o motivo e o brutamonte seria devidamente punido e que para a felicidade de todos nós, talvez até morto pela possível fúria do velho que adora todos seus animais, preferencialmente as aves.
Todos gostaram da ideia e o plano seria executado ainda nessa madrugada pelos quatro amigos e inimigos de Nego.
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Duas da manhã, já prestes a saltarem para o outro lado do murro que dividia os terrenos entre as residências, o quarteto de amigos foi surpreendido pelo bando do Bororó, que com mais de uma dúzia de indivíduos seguraram e amarraram o grupo.
§  Que é isso? Porque fizeram isso conosco?
§  Para evitar que façam uma grande asneira.
§  Que besteira é essa?
§  Nós sabemos de tudo que pretendem fazer e viemos impedir.
§  O que acha que vamos fazer?
§  Vamos poupar tempo. O Birigui ouviu toda a conversa de vocês sobre o massacre dos pássaros que estão desejando fazer.
§  Traiçoeiro. Como você soube, Birigui?
§  Muito simples Euclides. Simplesmente ouvindo-os, pois casualmente passei perto de vocês quando distraídos conversavam alto sobre o que estavam tramando e escondido ouvi todo o plano.
§  Bororó é mentira dele.
§  Não é não. Ele não mentiu, pois está acontecendo exatamente conforme ele ouviu e me contou.
O que estavam pretendendo ao começar escalar o muro que dá para a casa do fazendeiro essa hora da madrugada?
§  Só por farra.
§  Deixem de ser bestas e vamos conversar como adultos. A ideia de vocês é simplesmente ridícula e não iria incriminar o Nego de forma alguma seus energúmenos.
§  É claro que vai. Será bem executado e não deixará dúvidas ter sido ele quem agiu novamente nessa madrugada, pois a prova que deixaremos na porta de sua casa o delatará.
§  Quem acreditará que o Nego com todo aquele tamanho iria subir em arvores de galhos finos e fracos e apanhar as aves que voariam rápidas para longe dele. Vocês que são pequenos e leves até que conseguiriam matar muitas delas, mas ele jamais obteria êxito. Ninguém acreditará em sua culpa.
§  Mas como ele conseguiu matar as galinhas que também são aves?
§  Seus estúpidos. As galinhas são aves, mas não voam e no chão ele consegue o que quer com qualquer um, mas trepar em arvores e matar pássaros para ele é totalmente impossível seus imbecis.
§  Então o que fazer para provar ser ele o assassino?
§  Nós também ainda não sabemos embora sejamos também testemunhas da culpa dele porque vimos e assistimos tudo naquela noite.
§  Vocês também viram?
§  Sim. E gostaríamos como vocês de descobrir o motivo.
§  Então vamos nos organizar para descobrir.
§  Como?
§  Nem imagino. Agora podem nos desamarrar para continuarmos nossa conversa, pois tenho certeza que iríamos fazer mesmo uma estupidez e fiquem sossegados que não tentaremos nada contra vocês, até porque são mais de dez e nós apenas quatro, portanto qualquer atitude irresponsável nossa seria suicídio.
§  Okey. Pessoal pode soltar esses dementes irresponsáveis.
§  Não precisa também debochar de nós sempre nos recriminando.
§  Está certo Euclides, ajudante de pensador maluco. Desculpe. Saiu sem querer. Não se ofenda, mas que sua ideia foi idiotice isso foi.
§  Concordo que foi mesmo muita maluquice de minha parte bolar tal plano.
§  Que acha de nós contarmos para o Tonho e ao Fuzarca, para sabermos se eles ajudam-nos de alguma forma?
§  Porque falar com eles?
§  Eles são muito mais cabeças que nós.
§  Então teremos de contar a eles tudo que sabemos.
§  Eu acredito que eles também tenham visto, pois a casa deles é bem próxima do galinheiro. Mesmo que ainda não saibam de nada, qual é o problema se a gente contar-lhes?
§  Sei lá. Eles podem dizer ao Nego que nós estamos espalhando seu crime e estaremos fritos.
§  Não creio que eles contarão.
§  Pelo que me consta eles não são inimigos dele para querer como nós ver sua desgraça.
§  Podem não ser inimigos, mas amigos também não são. O Nego não é amigo de ninguém.
Faz o seguinte eu mesmo falo com o Tonho e o Fuzarca, pois somos amigos e eles não irão fofocar contra mim a favor de um apenas conhecido sem nenhuma amizade.
§  Está certo. Então você conversa com eles e amanhã logo cedo nos encontraremos aqui mesmo para ver se conseguiram alguma solução.
§  Amanhã cedo é impossível. Eu não irei acordá-los agora que já é muito tarde e sei que eles dormem cedo. Falarei com eles durante o dia, provavelmente na hora do almoço e nos encontraremos aqui à tardinha para trazer alguma solução, se houver.
§  Agora sou eu quem acha nosso encontro aqui muito perigoso ao anoitecer, pois aquelas meninas que ficam nas varandas altas desde o final do dia até altas madrugadas, podem ver tudo o que se passa aqui em baixo. Eu até creio que elas assistiram as cenas daquela noite, pois após aquele dia, são muitas que se reúnem quase que rigorosamente para ficarem fofocando e espiando para cá. Imagino que até com binóculos e lunetas. É melhor a gente se encontrar em outro local.
§  Então vocês pulam para o nosso lado e conversaremos escondidos entre as arvores ou sobre elas se for necessário para ficarmos fora das vistas delas.
§  Okey. Combinado. Até amanhã após o sol se esconder.
§  Até amanhã.
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Na manhã seguinte, Nego ao terminar seus afazeres não conseguiu fazer com que sua companheira levantasse do leito, para explicar-lhe porque não trabalhou durante a noite e para saborear o café da manhã já servido pelos empregados da mansão.
Por mais que ele insistisse Olga recusava-se a ficar de pé devido as fortes dores que sentia em todos os ossos do corpo.
A persistência dele foi tanta que ela até tentou se levantar, mas caiu sentada, pois não se aguentava em pé.
Parece que o tombo deslocou-lhe alguma vértebra da coluna porque seu pescoço ficou virado apenas para um lado. Exatamente para o lado oposto de onde estava seu marido e por isso ela nem o olhava de frente.
Ele desesperado uivou pedindo socorro, para depois dirigir-lhe a pergunta, ainda aos berros.
§  O que está acontecendo com você?
§  Não sei. Mas não consigo andar. Avise a Dona Zezé para que me leve ou chame um médico urgente, pois acho que minha doença não é tão simples como pensava.
§  Nem será preciso avisá-la, pois a ridícula velha gorda sardenta filha da puta está chegando e então saberá de seu problema.
§  Há muitos dias eu já me queixo a ela, mas sempre me conforta dizendo ser coisa passageira, mas agora ela terá de levar-me ao médico, pois não dá mais para suportar as dores.
§  Então ela já sabia de sua doença e nada fez?
§  Ainda não, mas graças a Deus, agora ela me socorrerá. Estou muito mal.
Foi chamado o médico para Olga, que prescreveu os remédios necessários, mas bastou passar apenas mais um dia para verificar que sua piora era crescente.
O marido e os filhos nada mais faziam a não ser ficar a seu lado, chorando e rezando por vê-la sofrendo tanto e a cada hora que passava mais definhada, consumindo-se em dores.
Embora o médico não houvesse definido com presteza qual era a doença os familiares tinham certeza tratar-se de algo realmente muito grave, pois por mais que ela tomasse medicamentos e injeções doloridas não mostrava sinais de melhora. Até pelo contrário. Aumentava-lhe as dores e seu estado era cada vez pior.
Vômitos e diarreia já eram constantes.
Seu olhar vidrado e sem foco deixava claro que se ainda enxergava era muito pouco.
Alimentos já não passavam por sua garganta.
Seu sangue vez por outra escorria pelos cantos da boca junto ao vômito.
Bastou passar apenas mais dois dias para toda a família perceber que ela estava em estado terminal e irrecuperável independente das constantes visitas do médico que a assistia.
Somente os envolvidos com a doença de Olga ficaram sabendo do drama daquela família, porque simplesmente ninguém os visitava.
Os amigos da família porque eram raros e mesmo sendo amigos evitavam o Nego, pelo seu permanente mau humor além de ser valentão e briguento.
Os apenas conhecidos, entretanto tendentes a tornarem-se inimigos porque ajudavam aos que tentavam prejudicá-lo, tramando com eles as escondidas, tinham o mesmo temor. Igual ao do diabo à cruz. Também esses se mantinham afastados de sua casa e nada ficaram sabendo.
Dos inimigos nem é preciso comentar.
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Sigilosamente Bororó com o quarteto de inimigos de Nego e os apenas conhecidos Tonho e Fuzarca continuaram articulando seus planos para denunciá-lo e finalmente Tonho conseguiu convencer Bororó e sua turma que o plano inicial dos magricelas seria certo com apenas uma pequena alteração.
Não colocariam nenhum pássaro morto próximo à casa de Nego para transformá-lo em responsável pelo massacre das aves nos viveiros, por saberem ser impossível para ele.
Tal chacina como a primeira ficaria com o culpado ignorado pela policia e pelo fazendeiro, entretanto faria Nego pensar que como ele, outros também desejavam destruir os animais mais queridos do homem rico.
Esse delito deixaria claro que quem o tenha praticado pretendia molestar o velho e isso induziria Nego em saber que tem mais pessoas com a mesma motivação sua e então ele se abriria para alguém com o intuito de descobrir seus colaboradores desconhecidos.
Para ele ser informado quem foi o causador desse atentado inevitavelmente teria de falar com outros para saber quem pensava como ele e fatalmente confessaria seu crime e seus motivos, possivelmente a seu único amigo que era justamente o idealizador da ideia.
Foi assim que vários pássaros do viveiro foram destruídos nessa madrugada, longe das vistas do fazendeiro, sua família e empregados que com certeza dormiam na hora do acontecido.
A matança foi executada pelo quarteto de amigos inseparáveis, mas vista de perto pelo pessoal de Bororó que a tudo assistiu de cima das árvores próximas ao pomar e ao lado dos viveiros e depois todos comemoraram tal atrocidade rindo as gargalhadas até o dia estar perto de amanhecer no outro lado do muro onde os quatro assassinos moravam.
Despediram e foram para suas respectivas casas.
Fuzarca e Tonho não quiseram presenciar e nem participar da comemoração, entretanto as várias jovens do alto de suas varandas a tudo observaram perplexas e revoltadas com o que viram.
Danton, Euclides, Gabrí e Felix, banharam-se e totalmente limpos e isentos de qualquer vestígio que pudesse incriminá-los, voltaram ao quintal da mansão onde dezenas de pássaros jaziam mortos dentro do imenso criadouro e foram conversar com os novos amigos que foram os mentores do plano.
Encontraram apenas Tonho e falaram pouco tempo com ele, pois conforme previam a polícia deveria chegar logo.
§  Você não foi para o nosso quintal comemorar, porque sei que com sua idade avançada e peso excessivo não conseguiria pular o muro, mas pelo menos assistiu a festança que aprontamos no viveiro?
§  É claro que não.
§  Como assim? Não teve nenhuma curiosidade em ver? Foi seu próprio plano e não quis observar o resultado?
§  Acontece que meu pescoço não dobra para cima igual ao de vocês. Só vejo para frente, para os lados e para baixo, portanto seria impossível eu ver o que vocês fizeram no alto das árvores.
§  Mas a espetáculo proporcionado por Nego você confirmou ter visto com seus amigos.
§  Acontece que ele fez o que fez no chão do galinheiro, por isso vi tudo perfeitamente a minha frente.
§  Acho bom nós voltarmos logo para casa para fingir estarmos dormindo, pois já ouço a sirena da polícia chegando para tentar descobrir o culpado.
Danton, Felix e Euclides, não se esqueçam o que combinamos. Nada sabemos, nada vimos e ninguém nos contou nada, pois chegamos agora pouco de uma festa longe daqui e fomos dormir com o dia já clareando.
§  Esse é o álibi de vocês? Vão alegar ter chegado bem depois do ocorrido?
§  Exato. Se preciso for, temos vários amigos, já orientados que jurarão e testemunharão termos estado em outro bairro longe daqui até bem depois das quatro da manhã.
§  Nada mal.
§  Tchau. Temos que ir depressa.
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Novamente a policia esteve presente e como de costume nada desvendou.
A equipe de profissionais da zoonose também nada descobriu, entretanto sugeriu duas atitudes sensatas a serem efetuadas pelo proprietário da casa, que concordou com ambas.
A primeira seria chamar o pessoal do IBAMA para recolher os pássaros que não foram mortos e todos os outros animais para levá-los e readaptá-los a viver na natureza, pois só assim ficariam livres e longe do cruel assassino.
Embora o fazendeiro houvesse concordado com o pessoal da zoonose, fizera as coisas a sua maneira e não conforme a sugerida.
Mandou que seus funcionários abrissem as portas dos viveiros para os pássaros voarem para onde quisessem.
Instruiu também para que em grandes tanques de água recolhessem os peixes dos aquários e demais animais aquáticos dos lagos artificiais e os transferissem para sua fazenda em Minas Gerais onde deveriam ser colocados em açudes de criação.
Que reunissem todos os macacos, as cabras, os porcos, os pôneis, os coelhos, as avestruzes... Enfim todos os animais, com exceção dos cães e transferisse-os qual Noel fez em sua arca, para a mesma fazenda o mais rápido possível para viverem soltos em seus respectivos habitat.
Nessa mesma manhã começaram a providenciar tal mudança, cuja atitude tomada foi diferente da proposta pelos veterinários, mas foi dessa forma que o fazendeiro movido por sua própria vontade, mandou que fizessem.
Já tinha planejando isso desde o massacre das galinhas e esse novo atentado foi a gota d’água para ele fazer acontecer tal transferência.
Os pássaros soltos não voaram para muito além das imediações por total falta de conhecimento do mundo que os cercava, pois estavam confinados há muito tempo ou eram nativos no próprio local. Não sabiam exatamente como caçar alimentos, pois eles os tinham de forma sistemática oferecida pelo seu dono e muito menos imaginavam como se defender de agressores externos.
Em poucos minutos foram totalmente eliminados, por meninos na rua ou gatos da vizinhança.
Os demais animais felizmente não tiveram o mesmo destino, pois foram levados são e salvos para a fazenda de onde tinham vindo.
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A segunda sugestão dos médicos seria prontamente atendida conforme proposto e para isso a esposa do fazendeiro estava conversando com eles que lhes falavam que era necessário sacrificar Olga, pois ela estava com a doença do carrapato e por não ter sido diagnosticada tal enfermidade a tempo não haveria outra coisa a ser feita.
Foi exatamente ao ouvir isso que Nego atacou violentamente a senhora Zezé.
Vários profissionais da equipe da zoonose agiram rápidos e conseguiu contê-lo e colocar-lhe uma focinheira impedindo-o de qualquer ato.
O mesmo foi feito com os filhos do casal que rosnavam e se mostravam agressivos a ponto de atacarem seguindo o exemplo do pai.
Olga que acordou de seu desmaio proveniente de uma pequena melhora, ocasionada por algum medicamento recém aplicado, ao ver toda sua família naquela ridícula situação chamou o marido para uma conversa.
§  Meu querido. Primeiro quero dizer que hoje, ainda bem cedo fiquei sabendo da desgraça no viveiro das aves, mas isso me deixou até feliz por saber que tal feito não pode de forma alguma ter sido seu, o que me fez crer que da outra vez você também estava inocente. Confesso-lhe que sempre suspeitei que tivesse sido o causador da morte das galinhas, mas o que não estou entendendo são essas focinheiras em todos vocês.
§  Eu tentei atacar a velha gorda sardenta filha da puta.
§  Ficou louco?
§  Gostaria de ter sido mordido por algum rato ou morcego infestado do vírus da raiva para realmente ter ficado louco e ter conseguido o que apenas tentei e não consegui. Ela é perversa e mesquinha e não merece nenhuma morte a não ser a de ser comida viva por javalis selvagens.
§  Porque meu amor? Que morte horrorosa?
§  Ouvi toda a conversa dela com os veterinários da zoonose. Você está com a febre maculosa em estado terminal e não tem mais recuperação.
§  Mas isso é um absurdo, pois basta usar Frontline que é o produto recomendado por qualquer veterinário e o mais utilizado no mundo para controle de carrapatos em cães e gatos. Será que ela nunca o usou em nós?
§  Com certeza não, pois até ouvi-a dizendo que o tal médico que sempre lhe visita é apenas um rapaz amigo dela.
Não é médico veterinário porra nenhuma e nem farmacêutico, pois se trata apenas de um vendedor de remédios e cosméticos na farmácia da esquina. Nada entende de doenças e medicamentos. Sabe apenas olhar o nome dos produtos solicitados, na tela do micro para ver o preço e receber o valor.
Mal e parcamente aplica umas injeções. Coisa que qualquer um sabe fazer, principalmente em nós que nem usam nenhum dos cuidados que dedicam aos humanos.
§  Mas ele aplicava-me injeções e dava-me remédios, portanto ele deveria saber que fazia.
§  Sabia nada. Era tudo indicado e comprado pela velha gorda sardenta filha da puta, sem nenhuma prescrição médica.
§  Mas que absurdo. Pelo menos agora estou sendo assistida por veterinários verdadeiros e com certeza eles me recuperarão, não é?
§  Sabe que não sou muito adepto a mentiras, portanto vou falar-lhe tudo conforme está.
§  Já imagino por ver suas lágrimas rolando pelo seu rosto abaixo.
§  Pois é fato. Você sofrerá eutanásia, pois não há mais jeito.
§  Que bandida a tal Dona Zezé. Agora também acho que ela é uma velha gorda sardenta filha da puta, muito avarenta e cruel.
§  Muito em breve ela terá o que merece. Eu lhe prometo.
§  Os meninos sabem de tudo?
§  Sabem e não se conformam.
§  Agora concordo que devam continuar praticando todo o mal que alguém anda fazendo à eles, pois realmente merecem ser punidos.
§  Nossa vingança está apenas começando. Aliás, preciso lhe contar que o primeiro ataque para hostilizar o fazendeiro fui eu quem executou e deve ter outros insatisfeitos como eu que executaram o segundo e vou descobrir quem foi para nos aliarmos e iniciar com todas as minhas forças nossa revolta, pois agora já tenho também nossos filhos como aliados.
Ao saberem de como aconteceu seu infortúnio eles concordaram comigo e já são adeptos em tomar o poder dos humanos.
§  Agora eu também concordo embora nada mais possa fazer para ajudá-lo, mas digo-lhe que estou realmente muito orgulhosa de você por estar planejando a extinção dos homens de nosso planeta.
§  Vá tranquila minha adorada e tenha certeza que nossa vitória será dedicada a você e logo todos saberão de sua existência. Assim como Luiz Carlos Prestes deixou sua esposa alemã Olga Benário famosa, no futuro não muito distante sua vida também será lida e assistida em filmes no mundo todo, minha alemãzinha querida.
§  Vou descansar um pouco porque me sinto muito sonolenta e creio que vou dormir.
§  É o efeito da injeção de calmante que lhe aplicaram. Assim que os veterinários visitarem toda a vizinhança voltarão e com você já dormindo irão aplicar-lhe o veneno letal que culminará com sua morte.
§  Eles não falam que se trata de eutanásia e sim de sacrifício, não é?
§  É a maldita discriminação deles para conosco.
§  Agora entendo sua revolta.
§  Somos inferiorizados até nas expressões corriqueiras, como por exemplo: As mulheres dos homens são suas mulheres e as nossas são nossas fêmeas. Quando elas estão querendo procriar estão em sua época fértil e vocês estão no cio. Ao se relacionarem sexualmente eles fazem amor e nós cruzamos. Ao estarem gestantes estão grávidas e vocês estão prenhas. Ao nascer os bebês delas é porque deram à luz e vocês pariram e não foi bebê. Foi a cria. Se forem vários filhos não são gêmeos ou trigêmeos como os delas. É ninhada e vai por aí a fora até culminar com o tal do sacrifício no lugar de eutanásia.
Eles não têm por nós o mínimo respeito ou carinho. Querem apenas que permaneçamos obedientes e fieis e até falam que somos os seus melhores amigos, entretanto jamais ouvi qualquer cão falar que tem algum homem como seu maior amigo.
§  Estou vendo que a velha gorda sardenta filha da puta está chegando com os veterinários e com certeza está chegando minha hora.
Adeus meu querido e boa sorte daqui para frente. Desejo que logo consiga arrumar outra companheira a qual fará sua esposa para no meu lugar ajudá-lo nos ensinamentos de nossos filhos. Adeus.
§  Não se vá, por favor. Você é o maior amor que sempre tive em toda minha vida. Fique conosco. Eu e os meninos vamos fazer o possível e o impossível para impedir seu assassinato.
§  Agora não se trata mais de homicídio, pois estou desenganada e nada mais poderão fazer. O crime já foi executado há mais de quinze dias.
§  Poderiam ter evitado chegar a esse ponto não é? Cretina de velha. Vou estraçalhá-la pior do que fiz com as galinhas. Não sei como, mas vou impedir que lhe matem.
§  Já é tarde para evitar minha morte, mas vou continuar acordada pelo menos para irritá-los com a demora de meu sono.
§  Ficarei a seu lado conversando para ajudá-la nessa tarefa. Não sairei de perto de você até o ultimo instante e se preciso for morrerei junto. Os meninos também já fizeram esse juramento e vamos impedi-los nem que seja a chutes e cabeçadas.
§  Obrigada meu eterno amor.
Toda a família de cães ouviu quando o veterinário falou com Senhora Zezé, que o macho e as crias da cadela por estarem próximos e inquietos estavam impedindo-a de dormir para ele consumar o sacrifício e que ela deveria chamar alguém para afastar tais animais, que mais aparentavam feras selvagens e não amestradas como eram.
Escutaram também a cruel resposta da mulher quando disse que nem precisaria esperá-la dormir, pois era uma cadela velha e imprestável que só a aborrecia parindo filhotes e aumentando suas despesas com alimentação, remédios e eventualmente com vacinas. Que poderia aplicar-lhe a injeção com ela acordada mesmo, pois se houvesse qualquer sofrimento não se importava, pois até já estava de saco cheio dela.
Novamente viram e ouviram muito bem o veterinário insistindo para que pelo menos tirasse os cães de perto.
Ao desenrolar de toda conversa entre os humanos ficaram sabendo que tal profissional não estava em momento algum resguardando a eles o direito de não sofrerem ao assistir a matriarca morrer, pois concordava plenamente com a mulher do fazendeiro e foi mais além. Falou que eles não tendo sentimentos não iriam padecer e talvez até seriam capazes de comer as carnes da cadela se estivessem com fome e assim desejassem, mas devido aos seus enormes corpos e força que tinham e por ele ser estranho sentia-se amedrontado com suas presenças, mesmo com os equipamentos colocados em seus focinhos que os impediriam de morder.
Olga deu um pequeno gemido, que não foi de dor e sim de tristeza quando ouviu outra expressão discriminatória referente a seus rostos.
Novamente gemeu e desta vez alto e forte.
Abriu a imensa boca deixando a mostra seus maravilhosos e pontiagudos caninos em sinal de protesto ao lembrar-se ter ouvido que seus parentes seriam capazes de comer suas carnes. Odiou aquele homem, pois canibais eles não são, nunca foram e jamais serão.
Lembrou-se que canibalismo só existe entre os malditos humanos, que desde a pré-história até hoje, banqueteiam-se com suas carnes de péssimo sabor, ou simplesmente comem-se uns aos outros, por outras diversas formas de crueldade.
Recordou-se de inúmeros casos que tomou conhecimento dessa prática:
Em 1912, no Haiti (Caraíbas), um grupo de haitianos matou e comeu uma garota de 12 anos em uma cerimônia Woodoo.
Na mesma época em Nova Guiné a tribo Fore, da Papua para compensar as carências de proteínas passou a realizar um ritual onde os homens comiam os músculos enquanto as mulheres e crianças o cérebro de outros membros da tribo que já tinham falecido.
Em 1920 Albert Fish, americano, estuprou, matou e devorou várias crianças.
Em 1924 o alémão Fritz Harmann, conhecido como vampiro de Hannover, foi condenado pelo assassinato de 27 garotos. Ele fazia salsicha da carne dos meninos para consumo próprio e para venda.
Em 1972, um avião da Força Aérea Uruguaia, que transportava a Seleção de Rúgbi do país caiu na Cordilheira dos Andes e apenas 16 pessoas se salvaram. Elas confessaram que tiveram que comer os corpos dos que haviam morrido, para sobreviver.
Esse caso foi perdoado pela opinião pública humana e por todos os animais, pois não havia alternativa a eles.
Entre 1978 e 1990 o russo Andrei Chikatilo executou e comeu mais de 50 pessoas.
Em 1981 aconteceram os vários crimes de canibalismo do Dr. Hannibal Lecter, que...
Mesmo sentindo fortes dores, balançou a cabeça em sinal de auto repreensão, pois tal história era fictícia elaborada pelo escritor Thomas Harris, cujos filmes iniciaram com o Dragão Vermelho, mas que afinal de contas, graças a magistral interpretação do ator Anthony Hopkins serviram para a apologia e disseminação do canibalismo, muito em moda a partir de então.
Recordou-se que Nego desejou que Dona Zezé fosse comida viva por javalis famintos. Com certeza foi por influencia de uma das cenas dos filmes sobre Dr. Lecter.
Em 2002 a polícia alémã prendeu Armin Meiwers de Rotenburgo e encontrou pedaços do corpo de Bernd-Jurgen Brandes no frigorífico de sua casa, pois Armin devorava-o aos poucos. Deu-se até ao requinte de comer seu penis flambado.
Recentemente, no Mar de Beaufort, no Alasca, pesquisadores americanos que estudam a região, identificaram um caso inédito de canibalismo entre animais. Duas fêmeas, um macho jovem e um filhote de ursos-polares foram atacados e comidos por um grupo de machos. Tal fato ocorreu, pois o degelo está reduzindo o território de caça deles e muitos ficaram sem alimento.
A mudança radical de seu habitat, provocada pelo homem, foi a causadora do degelo e estimativas apontam que os ursos-polares podem desaparecer em vinte anos, graças aos feitos dos homens.
Lembrou-se que esse único caso acontecido entre animais, em todos os tempos e também perfeitamente perdoável como o dos atletas Uruguaios, foi provocado exatamente pelos humanos.
Sua última lembrança desses fatos que estão na internet para quem quiser ver, inclusive com várias fotos de assustar qualquer um foi sobre a prática aceitável em um país asiático, onde o consumo da carne de bebês está em moda.
Em Taiwan os bebês ou fetos mortos são vendidos por 50 a 70 dólares em hospitais e em supermercados para satisfazer a grande procura deles para grelhar em churrascos.
Fez suas últimas preces, fechou os olhos e partiu feliz por ter feito, pelo menos no momento final de sua vida algo contra seus grandes inimigos. Não permitiu que eles concluíssem sua morte como fizeram com a outra Olga. E principalmente salvara a vida de seus familiares que inevitavelmente iriam atacá-los, mesmo não tendo possibilidade de usarem seus caninos que são suas únicas armas e seriam fáceis presas nas mãos dos humanos assassinos.
Nego e os filhos permaneceram mais de duas horas chorando e orando ao lado da morta e só saíram quando foram laçados e arrastados para o canil por empregados da casa, que comentaram maldosa e covardemente que eles estavam esperando o corpo da cadela esfriar para comê-la.
Não havia mesmo como encontrar nenhum humano que pensasse ou agisse como animal, pois só tinham pensamentos maldosos e atos cruéis, próprios dos humanos.
Talvez pudessem encontrar tribos de índios ainda selvagens e decentes, mas seria difícil, pois no mundo inteiro já estava contaminado pelos civilizados.
Não poupariam um sequer quando acontecesse guerra que agora era proposta por quatro elementos e não só por Nego.
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Depois do ataque que os gatos fizeram as aves do fazendeiro, as várias pombas que moravam nos altos telhados das mansões espalharam pela cidade toda que os cães e os gatos haviam se rebelado contra as aves, matando-as de forma insuportável e não pela simples necessidade fisiológica de se alimentarem.
Elas eram sabedoras e até concordavam que existem mortes que se fazem necessárias para manter a cadeia alimentar e o equilíbrio ecológico, mas jamais deveria ter acontecido daquela forma totalmente humana. Sem nenhuma necessidade. Apenas como esporte ou pelo simples prazer de matar.
Tal fato foi difundido por todo país e grandes aves como os falcões, os gaviões e as águias decidiram fazer justiça. Os vingadores eram aproximadamente três mil e através de um porta-voz, que evidentemente não foi nenhum falcão, pois suas presas preferidas são exatamente os pombos, procuraram saber de Branca, Cléo e Cíntia quais sujeitos haviam feito a matança para serem punidos.
Elas por serem as pombas que mais se destacavam entre todas por suas lideranças e por morarem exatamente sobre o local onde ocorreram os crimes, dos quais foram testemunhas oculares eram as mais indicadas para informá-los com exatidão.
O urubu que foi o enviado das grandes aves soube por elas que os culpados foram cães e gatos provenientes não se sabe de onde, pois não moravam na região.
Elas conheciam todos do bairro sem exceção e isentaram os verdadeiros criminosos da culpa.
A ave mandada perguntou onde encontraria os pássaros sobreviventes para saber deles quais foram os culpados e souberam que não permaneceram vivos mais que alguns minutos após soltos pelo fazendeiro.
As aves de rapina decidiram como desforra que cada uma delas mataria pelo menos 329 cães e gatos, que foi o número, entre galinhas e pássaros diversos as aves assassinadas friamente por tais raças de animais tão logo souberam pelo portador da resposta nada esclarecedora.
As amigas mentirosas foram recriminadas pelas demais pombas por não terem delatado os verdadeiros culpados e inclusive por tê-los protegido dos executores da vingança.
A justificativa delas foi por ter grande interesse em manter o cão e os gatos criminosos vivos, para descobrir exatamente o que os fez proceder daquela maneira.
Desconfiavam que algo muito estranho estivesse ocorrendo, pois cães e gatos são inimigos mortais naturais e pelos massacres ocorridos contra sua raça deixou-lhes a impressão de que eles estavam unidos para um determinado fim que aparentemente era exterminar as aves.
Se a vingança houvesse sido feita sobre eles como elas ficariam sabendo o motivo da guerra deles contra elas? E se houvessem outros cães e gatos matando aves pelo mundo a fora. Como se salvariam?
Teriam de conservá-los vivos para descobrirem tudo, pois as aves de rapina não saberiam investigá-los e por serem muito fortes com certeza sobreviveriam se todos os cães e gatos se voltassem contra todas as aves.
Elas que vivem em locais onde está infestado desses atuais inimigos seriam massacradas assim como os demais pássaros pequenos por não terem a força e o poder de voo das grandes aves.
Foi questionado pelas amigas que seria difícil os cães e gatos destruí-las em virtude de não voarem como elas.
§  Acontece minhas queridas que os cães nos matariam se pousássemos no solo e os gatos nos estraçalhariam sobre as árvores e as casas, portando só nos restaria a condição de permanecermos eternamente voando, sem repouso e alimentação. Seria possível isso?
§  Vocês têm razão. Não sobreviveríamos. É melhor mesmo deixá-los vivos e conseguir que nos digam o que está acontecendo.
Foi com essa mentira que as pombas salvaram os cães Nego e seus filhos Príncipe, Mike e Lenon, assim como os gatos Gabrí, Felix, Danton e Euclides.
As aves de rapina obtiveram êxito em sua vingança, pois a partir de então filhotes de cães e de gatos além de animais adultos mesmo os de grande porte apareceram mortos pelo país a fora.
Quase um milhão de indivíduos foram içados por enormes garras e lançados sobre pedras ou em alto mar, incluído os que foram devorados pelas próprias aves predadoras.
Se fossemos contabilizar outros que foram assassinados em tocaias por corujas e urubus e os contaminados por morcegos hematófagos passariam dos sete dígitos.
Bastou apenas uma semana para a consumação da vingança e tudo voltar ao normal.
Não houve noticiários nas televisões e nem na imprensa escrita, pois esse enorme número de mortes foram espalhadas por toda a nação e não localizada em apenas uma determinada região e em seu maior número em fazendas devido a dificuldade das enormes aves efetuarem o serviço dentro das cidades.
Também porque não se tratava de notícias como as costumeiramente chamadas pela própria imprensa de “mundo cão”, pois tal mundo é relacionado ao sofrimento de homens e não dos cães, pois mortes e desaparecimentos desses animais são totalmente aceitáveis, permitidos e conceituados como normal.
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Todos os animais do zoológico particular tinham sido transferidos, ficando apenas os sobreviventes da família de Olga que iriam continuar suas tarefas de cães de guarda.
Ilesos e alheios ao que acontecia naquela semana Nego e seus filhos executavam seu plano de como viver na mansão.
O fazendeiro e sua esposa proibiram-nos de permanecerem soltos, pois passaram a temê-los e os mantinham acorrentados no canil durante o dia e só mandavam soltá-los a noite para que procedessem a seus afazeres de vigilância e segurança.
As reclamações dos empregados do casal passaram a ser constantes, alegando que os animais não alimentavam, não se sabe por que e que estavam transformando-se em verdadeiras feras e eles próprios sentiam ameaçados em lidar com eles.
Informaram que frequentemente os animais avançavam nos muros e nas grades da casa tentando atacar transeuntes e carros que passavam. Que os gatos dos vizinhos sequer ousavam subir nos muros divisórios.
Eles atualmente tais cães eram uma grande ameaça a todos.
Eles portavam-se assim de caso pensado, pois já haviam iniciado sua guerra particular contra a humanidade e já punha em prática o seu início.
Haviam combinado que por enquanto não atacariam ninguém, pois seriam mortos porque não tinham seu quartel general para se abrigarem depois de consumado qualquer ataque real. Nessa casa eles ficariam a mercê dos inimigos, por isso de forma já definida mostrar-se-iam ferozes, apenas ameaçando e amedrontando pessoas e fingindo não se alimentarem. Isso eles faziam as escondidas. O intuito deles era serem tirados de lá e enviados à alguma fazenda do homem rico onde ficariam soltos e poderiam formar e treinar seu exercito com todos os animais da terra que com certeza adeririam a causa.
Eles ficaram felizes, poucos dias depois, ao saber que o fazendeiro adquiriu em um pet shop um casal de filhotes de outros cães, pois concluíram que a brilhante ideia colocada em prática havia surtido efeito.
Enganaram-se redondamente, pois por mais que eles conhecessem os homens não conseguiam medir o tamanho exato da maldade humana.
O fazendeiro solicitou à equipe da zoonose a vinda de um determinado veterinário seu amigo antigo para examiná-los, pois conforme suas informações ao mencionado órgão eles estavam doentes, possivelmente com a raiva.
Combinou com o corrupto amigo veterinário, por uma determinada quantidade de reais a justificada morte daqueles animais, pois embora ele próprio tivesse a vontade e coragem de matá-los a tiros evitou tal coisa, pois tinha muitos empregados na casa e algum deles poderia delatá-lo a Sociedade Protetora de Animais e também pela difícil tarefa de desfazer-se dos corpos.
O trabalho seria como já feito em diversas outras ocasiões de forma limpa e legal, própria dos poderosos que simplesmente contratavam profissionais corruptos para fazerem os crimes passarem-se apenas por uma eliminação necessária por uma doença terminal, transcrita no laudo do veterinário.
Todos os funcionários de tal repartição pública sabem da proibição pela SPA a qualquer pessoa que queira sacrificar animais que não estejam doentes terminais ou com raiva, mas o poder do dinheiro pode tudo e tal profissional já servia o fazendeiro em seus desejos durante anos, portanto as mortes de Nego e seus filhos estavam próximas.
Apesar de estarem presos por correntes nas cruéis coleiras com pontiagudos pregos que furavam impiedosamente seus pescoços também estavam com focinheiras, mas levaram vantagem na briga com os humanos que tentaram aplicar-lhes injeções de veneno.
Eles tinham a seu favor outros fatores importantes. Eram muito mais fortes, estavam em número superior e principalmente defendiam suas vidas.
O fazendeiro nada fez ao ver seu funcionário e o veterinário levar trombadas e violentos tombos provocados pela ira dos cães.
O empregado que mantinha suas mãos ocupadas segurando pelas correntes dois cães em cada, era arrastado e jogado de um lado para outro como uma inútil marionete e o nada valente médico levava fortes trombadas e cabeçadas das feras e não se mantinha em pé de forma nenhuma.
Entretanto a briga levou a exaustão não só os humanos, por isso Nego e os filhos em um momento de descuido deixaram os homens fugirem rapidamente para um lugar seguro.
Ironicamente eles se refugiaram para dentro do canil dos cães, trancando-se lá dentro.
O funcionário do fazendeiro propôs deixar os cães vivos, pois ele próprio no dia seguinte como iria viajar para Minas, levaria os animais para lá e os deixaria as suas próprias sortes no mato, caso o gerente da fazenda não os quisesse.
O homem rico recusou, pois disse que com suas armas de fogo, ele próprio poria fim àqueles bichos, que os vigiava atentos impedindo-os ameaçadores de saírem do improvisado, hilário e nada cômodo esconderijo.
A ausência de um celular, pois o do médico caíra no chão na contenta e jazia quebrado longe deles, não permitiu que chamassem reforços e se mantiveram enjaulados por longos trinta minutos até que finalmente tudo ficou resolvido.
A insistência do funcionário para que o patrão deixasse-o levar os cães vivos para longe culminou com sua concordância e também com suas libertações, pois a atitude de Nego de aproximar-se, docilmente e tentar lamber a mão de tal homem em sinal de agradecimento os fez entender que também os outros cães concordavam com tal proposta.
O cão não tinha a possibilidade de tal bajulação, porque estava como os demais de focinheira, mas a atitude e o gesto foram bastante esclarecedores aos humanos que só entendem três atitudes deles.
Quando estão com a orelha em pé, rosnando e babando estão na iminência de atacar.
Quando lambem as pessoas estão mostrando-se gratos por alguma coisa e quando balançam suas caudas é por estarem felizes.
Foi fácil enganá-los, pois além do gesto do pai, a postura dos filhos foi a de balançar suas caudas.
Os homens não entenderam o porquê dos cães ex-amigos que atualmente tinham se transformado em feras selvagens, terem comportado de forma tão amistosa.
Comentaram que por algum instinto selvagem pressentiram que não estavam mais ameaçados de morte e por isso acalmaram-se permitindo suas próprias libertações.
Nenhum deles percebeu que todos os animais riam, por saberem exatamente tudo que falavam e por terem sido vitoriosos nessa que foi a primeira batalha entre cães e homens, da grande guerra que estaria por vir.
Com absoluta certeza eles gargalhariam se suas anatomias lhes permitissem, por ver aqueles homens importantes ridiculamente presos em um canil e até certo ponto contentes por estarem lá.
Os animais estavam convictos que conseguiriam aniquilar toda raça humana na batalha final que aconteceria em breve.
Os cães tinham um grande trunfo, pois eles e todos os demais animais têm o dom de ouvir, falar e entenderem-se entre si e aos humanos ao passo que os homens nada entendiam de suas linguagens e isso facilitaria a guerra que se aproximava.
Aliás, os homens nem se entendem a si próprios, mesmo falando a mesma língua. Geralmente escutam e entendem apenas e tão somente o que lhes interessam ouvir e não o que lhes é dito.
Essa dificuldade humana começou a partir da tentativa da construção de uma torre na Babilônia pelos descendentes de Noé, com a intenção de eternizar seus nomes.
A decisão era fazê-la tão alta que alcançasse o céu.
Esta soberba provocou a ira de Deus, que para castigá-los, confundiu-lhes as línguas e os espalhou por toda a Terra.
Nenhum animal participou dessa ousadia por isso não foram punidos e continuaram até os dias atuais entendendo a linguagem de todos os seres vivos falantes e se comunicando entre si, exceto com os humanos por total incapacidade desses últimos.
Há quem diga que essa torre pertence a mitologia, mas suas ruínas ainda estão lá onde existia a cidade de Babel, capital da antiga Babilônia para quem quiser ver e constatar.
No outro dia foram levados para a fazenda cujo gerente, por telefone havia concordado em ficar com os animais de raça pura, pois reeducados seriam de muita serventia, na procriação com fêmeas de boa procedência para aumentar a quantidade e qualidade de filhotes a serem vendidos a preços exorbitantes.
Deu certeza que iria conquistá-los e reeducá-los rapidamente.
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Cléo, Cíntia e Branca com outras pombas, várias andorinhas e pardais que a tudo presenciaram, viajaram acompanhando pelo ar o veículo para descobrir para onde os cães estavam sendo levados.
Não precisaram demorar muito tempo na fazenda aonde chegaram para descobrir o porquê dos crimes de Nego.
Ele e os filhos que mudaram radicalmente seus comportamentos tornando-se dóceis ao administrador conseguiram ficar soltos e ao ficar livre dele a primeira coisa que Nego fez foi visitar o seu quase amigo Tonho que o recepcionou como sempre cabisbaixo.
O porco recebeu-o receoso e assustado, mas foi tranquilizado pelo cão que disse pretender conversar de forma totalmente amigável sobre um assunto importante e de grande interesse aos animais.
Contou-lhe sobre sua vontade e soube pelo agora realmente amigo sobre a façanha dos gatos cuja ideia fora dele.
Tonho disse que levaria pouco tempo para ele e Fuzarca convencerem seus iguais a aderirem a causa, pois acreditava ser rápida a aceitação porque todos estavam fartos de serem ceias dos homens, principalmente nos finais de ano.
Foi nesse encontro que Nego informou que pretendia ser amigo de todos, inclusive dos gatos, pois deveriam unir-se para o bem de todos e convidou Tonho a ajudá-lo nos planos em virtude de sua raça ser entre os animais considerados como os mais cabeças, pois figuravam entre os de maior cérebro.
O porco agradeceu tal elogio e comentou que através de Bororó e sua equipe rapidamente conseguiriam adeptos por todas as florestas do país, devido suas facilidades de locomoção sobre as árvores.
Nesse momento, foi Branca quem entrou na conversa, informando-os que faria o trabalho entre os pássaros informando a todos que participassem da queda dos humanos e se dispôs em voltar voando à cidade de onde havia saído para avisar a Felix e seus amigos o que estava acontecendo para que eles também viessem para Minas reunir-se com eles.
Os quatro gatos não foram avisados pelas pombas e nem por nenhuma ave pequena sobre o que estava acontecendo, pois elas tinham medo deles porque eles ainda não participavam da trégua combinada na fazenda de Minas entre os lideres e suas raças.
Por intermédio de uma coruja amiga, Branca mandou o recado às aves de rapina, também suas predadoras para que levassem urgente os gatos até a fazenda para se encontrar com o cão Nego, sem dizer exatamente qual o motivo para nenhum dos envolvidos. Explicara somente que era necessária a total segurança deles para o bem de todos os animais.  Ela e algumas amigas iriam à frente para orientá-los e ao chegar lá todos ficariam sabendo do que se tratava.
Os falcões que já haviam terminado sua vingança contra os cães e os gatos agiram conforme solicitado pela pomba com a qual até já simpatizavam pelos seus feitos sem sequer ainda a conhecer pessoalmente.
Os gatos viajaram desconfortavelmente pelos céus durante várias horas, içados que foram por quatro enormes falcões sem nenhuma conversa.
Quando foram soltos com vida perto do chiqueiro dos porcos, vomitando pela inexperiência em voar e trêmulos de medo, borraram-se todo ao serem colocados frente a frente com o assustador e conforme viram na mansão, atualmente muito mais feroz cão e seus filhos.
Os macacos comandados e liderados por Birigui já estavam fazendo rapidamente seu trabalho de conseguir reunir e convencer todos os símios para a revolução. Apenas Bororó com as fêmeas que amamentavam filhotes estavam próximos ao chiqueiro, mas riram tanto do desespero dos gatos que fizeram todos dispersarem rápido porque o grande alarido chamou a atenção de vários vaqueiros ao local.
O quarteto de felinos nada entendeu e fugiram assustados, mas sem saber para onde, pois não conheciam a região.
Esconderam-se em uma gruta, pois imaginavam que iriam levar uma grande surra de Nego. Trêmulos dentro do buraco permaneceram por alguns minutos. Repentinamente apareceu-lhes à entrada da caverna um enorme pit bull.
Choraram copiosamente, pois descobriram que não iriam apenas apanhar. Seriam impiedosamente destroçados, principalmente porque atrás daquele assustador animal entraram mais dois sem orelhas e sem rabos, da mesma raça, ferocidade e feiura.
Os cães lhes deram boas vindas e explicaram-lhe a união entre os animais. Falaram que em pouco tempo Nego havia convencido-os da permanente amizade que reinaria entre todas as raças de animais e sua consequente união definitiva para destruírem os humanos e apossarem-se do comando da terra.
Logo na primeira reunião em caráter de extrema necessidade e urgência Nego havia decretado o primeiro ato institucional com dois itens que determinava:
(1º.) Que todos os animais brasileiros ficassem amigos imediatamente.
(2º.) Obediência total e irrestrita, sempre com urgência e sem nenhuma discussão aos desígnios de Nego, chefe da nação animal.
Salvos e sujos os gatos riam e choravam ao mesmo tempo, por saberem que todos eram seus amigos.
Unanimemente todos os animais do ar e da terra reconheceram Nego como seu comandante e aderiram à guerra submetendo-se às regras dele, quaisquer que fossem sem reclamação.
Ele enviou oficialmente e com urgência várias gaivotas, petréis mergulhadores, pelicanos, biguás e albatrozes para a Patagônia para conseguirem que os pinguins se comunicassem com todas as espécies marinhas conseguindo que eles aderissem à causa animal e para tal já enviou suas exigências imediatas que era o AI 1.
Tais aves ao entrarem em território Argentino e em águas no alto mar, evidentemente não pertencentes ao território brasileiro, mantiveram suas inimizades com os peixes e não infringindo ao ato institucional em vigor, comia-os como sempre fizeram.
Por tais ocorrências a marinha teve suas dúvidas na união que julgou unilateral e como resposta mandou informar que precisaria pensar muito para decidir.
Sem que o poderoso cão comandante soubesse qual era o empecilho continuava aguardando, sem tomar nenhuma providência contra as aves marinhas que se alimentavam as escondidas em além-mar de peixes não brasileiros.
Enquanto aguardava a demorada resposta foi dando prosseguimento aos seus projetos em terra.
Formou seu ministério, composto com os gatos Felix e Euclides, os macacos Bororó, Prego e Birigui, as pombas Branca e Cíntia, os porcos Tonho e Fuzarca, os falcões Rei e Rex, a águia Ema, as onças Pintura, Felina e Aquarela, os cães Amigo, Dócil e as cadelas Eva e Mansa.
Os porcos e os pitt bulls que moravam na fazenda teriam de fugir de lá e mudar-se com ele para as matas. Os gatos e as pombas que vieram da cidade concordaram em ficar e os demais já pertenciam às matas e montanhas da região.
Os ministros teriam cada um, uma grande pasta à zelar e comandar, mas tal ideia imediatamente foi modificada e o ministério foi dissolvido antes mesmo de ser instalado. Ninguém tomou posse de nada e eles ficaram apenas como assessores permanentes do cão.
Os demais animais do mundo comporiam o segundo escalão e seriam os assessores provisórios quando convocados ao ser necessário.
Logo no segundo dia as reuniões entre os vários adeptos a causa já eram constituídas de grandes multidões e seus encontros deveriam mudar para longe da fazenda para não ficar as vistas dos homens que poderiam descobrir-lhes os planos.
Os macacos mais conhecedores das matas indicaram um excelente local com mina de água translúcida, muita vegetação e grandes arvores frutíferas. Era um verdadeiro éden, situado em um grande vale entre rochas altíssimas povoadas pelas aves de rapina, que fariam a permanente vigilância. Os falcões confirmaram ser o local propício, pois habitavam lá.
Nego falou com seus filhos para que eles permanecessem na fazenda para vigiarem os humanos e que lá ficassem até que os chamasse, pois ele iria para tal local na floresta longe de todos para ser lá o seu quartel general.
Apenas Nego e seus assessores perpétuos ficariam morando no local e seria permitida a entrada se necessário fosse de todos os animais do planeta, entretanto somente quando ele os chamasse para reuniões.
Todos deveriam permanecer em seus locais habituais onde receberiam todas as informações importantes.
Tal qual o austríaco Hitler motivou para sua guerra o povo alemão, um pastor alemão gritava a altos brados à maciça população brasileira de animais.
Sua guerra seria popular e com a participação de toda a nação, entretanto não haveria quartéis, comandantes, tropas independentes e nem lideres de facções. Ele seria o único no comando e decisões.
Com o passar dos dias Nego já havia promulgado mais três atos institucionais que os animais acatavam e obedeciam fielmente, pois ele agradava multidões com seus inflamados discursos.
O segundo ato criado orientava e exigia de todos os animais o seguinte:
a) Estava definitivamente proibida todas as atitudes agressivas entre eles e contra os humanos até que tudo estivesse definido, organizado e devidamente autorizado por Nego, comandante geral para o ataque aos humanos.
b) Todos prestariam obediência a todo e qualquer enviado do chefe da nação animal que se identificaria devidamente.
c) Sem nenhuma exceção e de ambos os sexos com idade a partir da adolescência participariam dos treinamentos de guerrilha.
O terceiro ato regulamentava sobre a alimentação.
a) A alimentação seria a base de insetos, capim, ervas, frutos, água que poderiam ser obtidas pelo próprio indivíduo direto e a vontade na natureza.
b) leite e ovos somente com vales refeições fornecidos diretamente por Nego que controlaria seu consumo ou pelos assessores que ele determinasse.
O quarto ato exigia que se alguma pessoa tivesse conhecimento de qualquer viagem, atitude, gesto, ato, conversa, decisão, deliberação, ordem, ou qualquer informação por mais insignificante que possa parecer de seu chefe maior, deveria manter segredo absoluto e permanente, excluindo-se os casos em que ele próprio ou portador por ele indicado oficialmente, determinasse a divulgação.
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Nego em seus contundentes discursos geralmente alegava ter havido inicialmente a morte das aves, mas que era de extrema necessidade para ser livre de sua escravidão, para poder agir.
Esclarecia em altos gritos que em toda e qualquer situação de emergência, para se conseguir consertar qualquer problema grave em uma nação alguns dentre a multidão deveriam pagar seu preço no qual foi exatamente sua raça quem mais pagou, pois foi próximo de um milhão de animais que foram mortos, com seu devido perdão aos que praticaram a matança.
Alegava que naquela ocasião em que as aves de rapina atacaram, os gatos muito mais leves e rápidos em sua maioria conseguiram se safar e os cães não tiveram a mesma sorte, por isso quase que a totalidade dos mortos teriam sido eles.
Lembrou a todos que não houve e nunca haverá por parte dele uma só retaliação contra as aves de rapina ou outra qualquer, pela morte deles.
Águias, falcões, abutres, gaviões, urubus e corujas presentes concordavam com tal acontecido e eram as primeiras e as que mais aplaudiam Nego em tais discursos.
A multidão ovacionava-o e já o considerava um Deus.
Seus ardentes discursos inflamavam os bovinos, pois lhes gritava declarando que não mais puxariam pesados arados nas fazendas dos homens. Não seriam mais alimentos de ninguém e viveriam até a velhice, coisa que poucos sabiam como era, pois dificilmente chegavam a idades avançadas.
Suas mulheres após a revolução só teriam de fornecer seu leite aos seus próprios filhos e não aos dos humanos.
Os cavalos deixariam de ser burros de carga dos homens. Não mais seriam escravizados e obrigados ao transporte nem de carga e nem de passageiro.
As pombas não prestariam mais nenhum trabalho difícil de voar para longas e cansativas viagens transportando suas cartas e recados na maioria das vezes sem nenhuma necessidade.
Os porcos não seriam mais ridiculamente reduzidos a torresmo.
As galinhas teriam mais seus ovos quentes ou fritos.  Cosidos e nem feitos como omelete para os humanos e seriam postos apenas para o destino que a natureza determinou. Para a geração de seus filhos.
Era impossível não acreditar naquele cão de voz grossa e alta com surpreendente poder de persuasão.
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O tempo passava rápido e a dificuldade era em conseguir que os animais aquáticos aderissem ao levante e a demora aborrecia alguns participantes que se julgavam importantes, mas não houve dissidentes. Talvez pelo temor ao AI 5 já em vigor e que instituiu a pena de morte a qualquer insubordinação ao comandante Nego.
Apenas algumas zangas escondidas e nada mais.
O mais ranzinza era o porco Tonho que em certa conversa com seu amigo Fuzarca falou:
§  Geralmente eu quem tenho as melhores ideias estou relegado ao segundo plano. Não tenho nenhuma vocação para ser Che Guevara, mas já estou pensando seriamente em deixar tudo e partir para outras terras. Talvez aqui na América do Sul mesmo.
§  Desculpe-me meu querido “Ernestito”, mas o que pretende é exatamente o que ele fez. Viu no que deu? Os Castros estão até hoje no poder e ele?
§  Foi só um pensamento bobo. Impensado até.
§  Então deixe dessas bobagens e continuemos unidos a Nego que tudo dará certo.
§  Mas eu sou imensamente mais competente que ele. Eu já teria atacado os humanos há muitos anos.
§  Mas não tendo o poder de sua oratória para dominar as massas conseguiria reunir todos para tal causa como ele fez?
§  Isso é verdade, mas estamos perdendo muito tempo em iniciar a revolta. Não sei o que ele quer mais além do que já conseguimos. Todos os animais da terra e do ar já estão unanimemente unidos graças a seus inflamados discursos.
Nosso exercito muito bem treinado, pois por minha ideia todas as raças ensinaram o que foi possível às demais a fazerem o que cada uma faz de melhor. Para que precisamos esperar mais?
§  Ele já tem a nosso lado o exercito e a aeronáutica, mas quer unificar todas as armas. Só vai dar inicio ao massacre quando conseguir convencer a marinha também.
§  Para que? Não acha que está querendo poder demais?
§  Conforme ele diz correremos o risco dos humanos aliarem-se aos animais dos rios e dos mares e ficarem mais fortes que nós. Faz sentido tal pensamento.
§  Não sei. Já estamos há muito tempo só nos organizando e bolando planos e nada de efetivo foi concluído. Afinal qual é a serventia da marinha?
§  Já disse. Sua ideia é unificar todas as armas.
§  Ideias, ideias e mais ideias. Várias delas já foram mal sucedidas. Lembra-se quando ele determinou que os macacos roubassem computadores e celulares, para através deles se comunicar a distância pela internet?
§  Sim me lembro. Foi realmente péssima.
§  Eu não soube da pilhagem antes de acontecer, mas consegui a tempo convencê-lo de desfazer das máquinas antes de serem usadas, pois poderíamos ser descobertos exatamente através delas pelos humanos que não se desgrudam de seus micros e telefones e sabem manuseá-los com muita facilidade. Eles nos interceptariam com a maior facilidade.
Outra ideia idiota dele foi de tentar unir todo o planeta e perdeu anos nessas manobras. Foi com muito custo também que o induzi em pensar por enquanto só no Brasil.
Foi difícil convencê-lo que nosso sucesso, num futuro próximo seria exemplo para o restante da terra promover seus próprios levantes e todos se libertariam como nós.
Poderemos até vir a ser exportadores de conhecimentos, técnicas de guerra e armas. Mas não, ele tem a ideia fixa de ser o dono do mundo. Quer o poder sobre toda a terra e não estou gostando como estão caminhando as coisas.
§  Você sabe muito bem que ele não gosta de suas intromissões e só as aceita porque reconhece sua maior competência, mas cuidado porque em algum dia num momento de descontrole ele pode acabar com você. Sei que ele morre de inveja de sua competência. Tome muito cuidado com o que você faz ou fala para escapar do AI 5.
§  Eu não farei nada. Estou apenas conversando com você, mas é claro que ele deveria colocar no poder junto dele muitos outros e não ficar só e trocando a todo instante seus assessores. Essa estratégia é totalmente errada. Acho que ele tem é medo que lhe tomem o comando que quer apenas para si.
§  Acho que você está até certo pensando assim, entretanto não só a ideia principal como seus atos colocaram-no no pedestal que está e de lá não pode cair.
Pode ser também que ele não queira mais pessoas no comando para não acontecer outros palpites infelizes como os do caso dos micros e dos celulares que não foram ideias dele e sim de subalternos e também para não haver vazamento de informações, que é muito comum em todo governo permanente.
§  Tenho medo não é de vazamento de informações e sim de esvaziamento de adeptos.
§  Está enganado, pois até crianças ainda pequenas querem lutar ao lado de seus irmãos mais velhos e de seus pais.
§  Tomara que esteja certo, mas eu desconfio que na verdade ele não quer mais fazer nenhuma guerra.
§  Como assim?
§  Acho que ele já conseguiu o que queria.
§  O que?
§  Ser o rei dos animais. Não percebe que ele já tomou tal título dos leões que nem reclamam?
§  E desde quando tem leões nas matas brasileiras? Só existem em circos e zoológicos e trazidos da África. Só vivem de bucho cheio e fazendo o que seus tratadores mandam.
§  É mesmo. Dei mancada.
§  A propósito. Eles são reis de que? Essa besteira foi inventada pelos humanos e nem sei por quê. Os preguiçosos só fazem é comer, bocejar e dormir. Nem sequer caçam, pois são suas mulheres que fazem isso, além de surrá-los quando os descuidados machucam os filhotes. Não mandam nem nelas. Que reis são eles?
§  Okey. Errado ou não o título ao leão, continuo achando que o Nego está satisfeito com seu poder e nem quer mais fazer nenhuma guerra. Está confortavelmente instalado como o rei das selvas brasileiras. O Tarzan animal.
§  Deixe de besteira e vamos dormir que já é tarde e na nossa idade não dá para perder noite de sono a menos que seja para uma orgia com algumas leitoazinhas de leite.
§  Seu porco chauvinista e pedófilo.
§  Eu não sou o padre Félix Barbosa Carreiro.
Rindo das brincadeiras foram dormir o sono dos justos.
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As propagandas da guerra continuaram ano após ano e Felix, Gabrí e Danton lembravam-se com saudades do companheiro Euclides que havia sido encontrado morto anos antes.
Recordavam que ele não se conformava, conforme dizia, em ser apenas um entregador de recados.
Ele reclamava constantemente, termos sido nós os principais no levante que estava sendo preparado. Argumentava que tudo aconteceu de fato somente a partir do ataque aos pássaros idealizado por ele.
Que somente o massacre às galinhas feito por Nego, isolado não levaria a nada, pois o cão naquela época não falou e nem falaria com ninguém, simplesmente porque sabia que sequer seria ouvido.
Lembraram que em suas conversas, Euclides insistia que tudo aconteceu após seus feitos e que ele não era nenhum Tiradentes para ficar apenas levando recados de lá para cá e vice versa e acabar enforcado.
Eles acalmavam-no dizendo que deveriam ser gratos por terem sido chamados para permanecer junto ao chefe, que por sinal a partir de então e até atualmente continuava amigo.
Rememoravam que quando comentavam que eles no comando não teriam nenhum poder sobre os poderosos cães, por sinal seus maiores predadores e atualmente carne e unha com as donas das maiores unhas do mundo que eram as aves de rapina, também apreciadoras de suas carnes deixava-o trêmulo e assustado.
§  Euclides você já conheceu suas garras de perto. Esqueceu daquela viagem maravilhosa?
Tal pergunta feita por Felix sempre fora o suficiente para acalmar o magricela e medroso Euclides que entendia muito bem que o lugar que conseguiram só em ser convidado e trazido de longe para assessorar Nego já estava ótimo e despedia deles para ir visitar seus vizinhos que era uma grande família de ratos amigos.
Entretanto os gatos amigos ainda choravam de tristeza a falta do líder embora já houvesse passado muito tempo.
Para a posteridade foi divulgado que quando Euclides em serviço de levar recado à um grupo de felinos no pantanal, por algum descuido, talvez provocado pelo cansaço da viagem, foi devorado por ariranhas do Rio Miranda.
Tais animais consideravam-se aquáticos e não respeitavam os atos institucionais.
Souberam tratar-se de Euclides, pois foi encontrado por alguns urubus que não mais podiam comer restos de mortos, quando faziam suas rondas na região e sobrevoando próximos ao local da tragédia viram um esqueleto descarnado com aspecto de recente.
Foram averiguar e confirmaram ser esqueleto de felino de porte pequeno, bastante semelhante a um gato, que foi devorado por ferozes ariranhas.
Durante alguns dias ficou a dúvida se era mesmo o Euclides ou não, mas foi confirmado ser ele pelo seu misterioso desaparecimento sem sequer informar às onças do pantanal mato-grossense o recado levado, embora naquela época tenha sido visto por lá.
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Em tal ocasião, Bororó havia sugerido ao chefe do comando que todo emissário que fosse prestar algum serviço onde houvesse algum perigo deveria ir escoltado por aves pelo ar para evitar tais desventuras e obteve uma resposta enérgica que se fosse para elas escoltarem outros, elas próprias levariam os recados como na maioria das vezes já faziam.
O chipanzé era outro descontente, pois se julgava como os anteriores ter maior direito em decisões sobre o poder instalado.
Havia há muito tempo, transferido a liderança de seu grupo natural ao primo Birigui, para se dedicar inteiramente ao levante, mas raramente suas ideias eram acatadas e colocadas em prática, embora como ele próprio fazia questão de dizer que por ser um dos animais mais inteligentes da terra teria de ser ouvido com mais frequência. Que suas sugestões competentes e sábias nunca eram aceitas por medo de rivalidade.
Reclamava que por ele ser muito brincalhão não recebia a atenção merecida e que não estava nada satisfeito em continuar sendo considerado apenas o bobo da corte, pois não tinha vocação para ser nenhum Arlequim ou Pierrô.
Birigui em tom de brincadeira sempre o repreendia lembrando-o que agora era ele quem exigia respeito por ser o atual líder do grupo familiar e principalmente pelo perigoso AI 5 que acabaria com sua vida se continuasse manifestando desejo em discordar das ordens de Nego.
§  Agora que você é o chefe de nossa tribo vou respeitar suas ordens e obedecê-lo poderoso chefão.
Sempre com essa frase brincalhona terminavam as inquietações de Bororó que saia dando gargalhadas e correndo em disparada para ir voar pelos cipós das árvores altas, fazendo malabarismos com as mãos, os pé e a cauda.
Era evidente que ele não acatava a sugestão do amigo por obediência de liderado e sim pelo pavor de ser morto pelo AI 5.
Mas foi.
Isto é. Não foi exatamente morto. Ele morreu por acidente de trabalho causado por sua total desatenção ao saltar de um cipó imaginando haver outro pela frente e nada encontrando esborrachou-se nas pedras onde moravam as águas e os gaviões uns cinquenta metros abaixo de onde ele pulou no vazio.
Estava em uma missão oficial sigilosa cuja determinação havia sido do próprio Nego, que mandou fazer seu enterro com honras de herói assim como havia feito anos antes, simbolicamente ao gato Euclides, cujo corpo nunca foi resgatado.
Todos os animais acreditaram no que o governo divulgou, que foi sua falta de juízo, pois vivia brincando e desatento, além de sua visão ter ficado fraca devido a idade já avançada, foram os causadores do acidente.
Oraram por ele e aceitaram a explicação do acidente.
Somente os símios duvidaram dessa história que foi oficialmente divulgada, pois sabiam exatamente tudo que eles eram capazes. Tal estupidez não ocorreria nem se fossem totalmente cegos.
Mesmo que houvesse soltado das mãos no salto ao verificar o erro facilmente se agarraria novamente no mesmo cipó ou em algum galho da arvore com os pés ou mesmo com a cauda evitando a queda.
Para eles isso era rotineiro e muito comum acontecer e jamais houve nenhum acidente desse tipo registrado na história.
A bem da verdade era a brincadeira favorita do macaco Bororó. Errar algum cipó propositadamente para agarrar-se com longa cauda em algum galho da mesma arvore ou de outra qualquer  por simples exibicionismo.
Sua raça passou a ter muitas dúvidas também do acidente de trabalho do gato Euclides, já esquecido pela maioria, pois o AI 5 impedia à todos até de pensar.
Eles eram os únicos a terem absoluta certeza de que o acidente de Bororó nunca existiu. Sabiam que ambos foram fabricados.
Mesmo tristes continuaram suas vidas brincalhonas saltando de galho em galho, propositadamente sempre fingindo terem errado os saltos com as mãos, para em seguida agarrarem outro galho ou cipó com os pés ou com a cauda.
Não falaram à ninguém sobre tal facilidade de isso ser feito, mas mostraram claramente que o acidente de Bororó era falso. Até as crianças de tenra idade acompanhava os adultos e os velhos na prática de tais brincadeiras, com os olhos fechados pra provar a facilidade de efetuarem tais manobras.
Jamais alguém comentou haver entendido o recado, porém eles cumpriram sua parte mostrando o engodo.
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Nego não iniciava a revolução mesmo tendo passado 25 anos e por estar tremendamente preocupado com toda essa demora, Tonho foi até a fazenda falar com Lenon, filho mais velho do cão.
Encontrou os rapazes muito felizes na varanda da casa do administrador e conversaram longamente até que o trio de irmãos, mesmo sem ser chamados, decidiu ir até a presença do pai ter uma conversa séria com ele a respeito do que estava acontecendo.
Viajaram com o amigo, que os guiou até o esconderijo na mata. Lá chegando foram bem recebidos pelo pai, mas severamente repreendidos por não terem esperado sua solicitação para virem até o quartel general. Deveriam permanecer entre os homens e mandarem informações apenas pelos pombos sobre o que acontecia nas cidades, principalmente na capital do país que seria o local a ser invadido em primeiro lugar.
Conversaram por longo tempo:
§  Pai preste muita atenção no que temos a dizer. É urgente que inicie logo essa guerra, pois o país está passando por sérios e graves problemas que poderão nunca mais ser solucionados e para ser correto digo-lhe que tudo está sendo ocasionado por você.
§  Que atrevimento é esse Príncipe? Falar assim comigo como se fossemos iguais.
§  Não era essa a principal ideia de sua guerra? Que todos fossem iguais a você?
§  Você também está se rebelando Mike?
Lenon você que é o mais velho nada fala com esses pirralhos insubordinados?
§  Sinto muito pai, mas para ser franco eu concordo plenamente com eles, pois a situação já se tornou insuportável.
§  Que situação é essa?
§  Já lhe enviamos muitos portadores com notícias e pelo que nos consta nenhuma providência foi tomada.  Seu ato institucional que transformou todos os animais em vegetarianos está trazendo muitos transtornos.
Ratos, coelhos e muitos outros animais de rápida procriação estão proliferando de tal forma que tropeçamos neles a todo instante.
As pastagens estão desaparecendo assim como todas as plantas, pois conforme noticiários da TV e dos jornais os animais estão comendo, além dos frutos, suas flores, folhas e até raízes. As sementes mal germinam e logo seus brotos desaparecem porque eles comem tudo. O Brasil está um caos não só porque os animais comem toda a vegetação, mas também porque está havendo escassez de água.
As florestas estão acabando muito mais rapidamente que quando o homem desmatava com queimadas e cortes ilegais de árvores. Já existem muitos desertos pelo Brasil afora.
Os humanos até que tentam fazer alguma coisa. Inutilmente plantam novas árvores que desaparecem rapidamente. Bombardeiam as nuvens para fazer chover, mas o indiscriminado nascimento dos animais é tanto que estão devorando tudo que nasce e bebendo toda a água.
Sem que você jamais imaginasse sua revolução já está fazendo muitas vítimas entre eles, mas não da forma que você pretendia. Na verdade você está fazendo uma revolução contra o planeta e não contra seus habitantes humanos. Tudo sucumbirá em pouco tempo.
§  Vocês não sabem o que falam.
§  Pai. Nós é que temos de lhe perdoar porque é você quem não sabe o que faz.
§  Seus moleques atrevidos. Olhem ao redor. O campo está florido, com as matas exatamente como sempre foram e os rios fluindo água normalmente. Não está existindo nenhuma catástrofe.
§  Só aqui em sua fortaleza onde moram poucos animais.
§  Aqui moram todos os que encontrei e seus descendentes nascidos depois, portanto a população atualmente deve estar enorme e nada do que falaram está acontecendo.
§  Errado, pois muitos que ficaram com você já morreram e a grande maioria dos nascidos depois mudou-se, ou por vontade própria ou expulsos pelos próprios pais por não concordarem com suas leis.
§  Está falando besteiras uma atrás da outra Lenon.
§  Creia em nós pai. Não estamos exagerando em nada. Tudo que falamos é a pura realidade. Dê uma volta pelo país que verá o que está acontecendo.
§  Se o que falam for verdade o que devo fazer então seus sabichões?
§  Acabar urgente com esses decretos.
§  Para todos voltarem a ser canibais e antropófagos? Todos os animais sairão comendo-se uns aos outros por ai a fora?
§  Acho que não entende exatamente o que significam tais termos.
Saiba que antropofagia significa alimentar-se de seres humanos.
São raros os animais que os atacavam para comer. Apenas jacarés, tigres, onças e alguns outros e mesmo assim se eles se sentissem ameaçados por eles.
Jamais algum animal procurou os humanos para caçá-los. Nunca os atacavam por simples prazer o que até seria bom para sua causa se fosse assim.
Entre os homens existe tal prática com muito maior frequência e isso sim que além de antropofagia é também canibalismo, porque canibalismo significa comer um ser da mesma espécie e simplesmente nenhum animal a não ser o homem faz isso.
§  As onças não comiam os ratos, os coelhos e os preás? As aves de rapina não se alimentavam de aves pequenas e de animais de médio e pequeno porte?
As leoas não caçavam para comer os veados, os coelhos e muitos outros? Isso não era uma carnificina que deve continuar não existindo entre nós?
§  E lógico que o errado é como está agora e não como antes. A alimentação deve continuar como sempre foi antes de suas leis. Os animais carnívoros devem permanecer se alimentando de suas presas preferidas. Tudo faz parte da cadeia alimentar e da permanente manutenção e controle do eco sistema.
Meu pai, seus atos estão destruindo todo o equilíbrio até então existente e acabando com a biosfera terrestre.
A destruição do planeta que os humanos fazem lentamente e em menor escala agora está terrivelmente acelerada e sendo feita pela irresponsabilidade de apenas um elemento que é você.
§  Está louco?
Os irmãos a um só tempo responderam ao pai:
§  Quem está louco é o senhor.
§  Até hoje, passados muitos anos da implantação do AI 5 não houve um animal sequer que foi condenado à morte, mas se vocês não se desculparem e calarem imediatamente serão os primeiros.
§  Fique a vontade e faça cumprir suas determinações se assim desejar.
Foi a resposta em coro.
Os jovens cães corriam sério perigo, mas não estavam dispostos a abrir mão de suas sugestões corretas mesmo que para isso fossem condenados a morte, mas o porco Tonho que assistia a tudo escondido, rapidamente apareceu de surpresa solicitando uma urgente audiência com Nego, antes dele decretar a pena de morte aos filhos.
Nego, que não sabia da presença oculta dele interrompeu e encerrou sua conversa com os filhos para evitar testemunhas que suas ordens estavam sendo questionadas por eles.
A solicitada audiência era para o porco informar que soube que pessoal do mar iria finalmente enviar a resposta definitiva sobre sua participação através da tartaruga Rosa.
Nego pediu que ele aguardasse um pouco, pois tinha de sair rápido por algo urgente a fazer. Regressaria logo.
Sem que ninguém visse enviou um urubu às altas montanhas para solicitar a presença dos três maiores e mais fortes falcões, pois teria um serviço especial para eles executarem.
Lenon, Mike e Príncipe ainda pretendiam terminar o assunto com o pai tão logo ele voltasse, mas foram impedidos pelo hábil porco que havia solicitado conversar em particular com Nego e pediu que os cães fossem visitar seus antigos amigos deixando o assunto entre eles sem terminar e consequentemente sem nenhuma atitude drástica que estava prestes a ser tomada.
Enquanto aguardavam a volta do cão o porco falou aos rapazes.
§  Não adianta meninos. Nada o fará mudar de ideia, mas para vocês preservarem suas vidas não entrem em conflito com ele, que é intransigente.  Creio que a partir de alguns dias as coisas mudarão, pois já sei que a notícia que virá através de Rosa é que o pessoal da marinha não o apoiará e então ele terá de decidir o inicio do combate contra os humanos sem ela.
§  A marinha resolveu assim?
§  Sim. Por isso aconselho-os a nada mais discutirem sobre o certo ou errado e voltar para suas vidas na fazenda.
§  Não. Nós ficaremos e daremos todo o apoio a nosso pai, pois sua decepção será muito grande ao saber disso.
§  Como vocês quiserem, mas não criem caso com ele, pois acho que ao receber a notícia, finalmente ele fará desencadear a guerra apenas por terra e ar que já está de bom tamanho. Seremos facilmente vitoriosos mesmo sem a marinha que até acho que nada nos ajudaria. Eles não sairiam das águas para vir combater os humanos que estão em terra e os humanos jamais iriam atacá-los no mar, pois estarão envolvidos em se defender de nós, mas isso nunca entrou na cabeça dura de Nego.
Talvez amanhã ou depois chegue oficialmente tal comunicado que eu soube pela gaivota Marina.
§  Então ainda não está confirmado? Não pode ser fofoca?
§  Não. Já está decidido e confirmado por eles. Eu soube informalmente por ela que esteve em alto mar na última reunião deles, mas como ela não faz parte da marinha, pois é da aeronáutica não poderia ser a porta voz autorizada deles. Será a tartaruga Rosa que virá até a praia de Anchieta no Espírito Santo trazer a notícia oficial.
Antes de minha conversa com ele aconselho-os a se desculparem, pois ele já está voltando.
§  Não é o momento certo, pois ele interrompeu nossa conversa exatamente para que você não soubesse do que falávamos e não devemos tocar no assunto em sua presença.
Vamos aceitar seu conselho e visitar velhos amigos e conversaremos com ele amanhã logo ao acordarmos.
Diga-nos uma coisa Tonho. Nosso pai nunca arrumou nenhuma outra esposa, amante ou namorada?
§  Nada. Só vive pensando na guerra. E vocês casaram? Tem filhos?
§  Sim. Todos já somos casados, cheios de filhos e netos.
§  Parabéns e até amanhã.
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§  Qual o recado que me traz?
§  Trata-se da recusa da marinha em unir-se a nós e participar da guerra.
§  Você agora é o mensageiro deles?
§  É claro que não. Apenas soube do assunto pela gaivota Marina que assistiu a reunião no mar e me disse.
§  Porque à você? Não deveria ser para mim?
§  Não foi nada formal. Falou-me apenas pela amizade que tenho com ela.
§  E por acaso ela é minha inimiga?
§  Não se trata disso. É que você é sempre muito ocupado e não gosta de ser incomodado por informações que ainda não estejam na hora.
§  Então você está ciente que me atrapalha não é? Eu estava ocupado quando chegou para dizer-me algo que ainda não era o momento.
§  Nós somos amigos antigos, ou não?
§  Éramos. Você vive a dar palpites em minhas decisões como se eu não soubesse como resolver as coisas. Há muito tempo percebo que está pretendendo tomar-me o poder, pois sempre incentivou o pessoal a prestar-lhe esclarecimentos de muitas coisas, antes mesmo de dirigirem-se a mim.
§  Está enganado Nego. Não é nada disso.
§  Onde estão meus filhos?
§  Foram visitar os amigos.
§  Mas ainda não tínhamos terminado um assunto importante e inadiável.
§  Foi conselho meu para que parassem com a discussão que estava acontecendo entre vocês.
§  Então estou certo mesmo em pensar que você está querendo roubar-me o lugar?
§  É claro que não. Sou amigo de todos e não poderia ver seus meninos serem executados injustamente.
§  Não me julga justo? Assistiu toda a desobediência proibida deles?
§  Sim. Por isso intervi para salvá-los.
§  E não sabe que com tudo isso decretou sua execução?
§  Como assim?
§  Desobedeceu minhas ordens, várias vezes e de muitas formas, só nessa visita inoportuna.
§  Você estava prestes a dar a palavra final sobre a execução dos garotos. Tive de impedir enquanto estava apenas na ameaça. Afinal de contas são seus filhos e você jamais poderia mandar matá-los.
§  Agora é você quem decide o que é certo ou errado? O que eu devo fazer ou deixar de fazer?
Dirigindo-se aos falcões disse:
§  Rei aproxime-se com os outros.
§  Sim senhor. Estamos as suas ordens.
§  Esse individuo acabou de ser condenado a morte. Podem eliminá-lo e como premio ao serviço executado autorizo-os comer suas carnes, já que não será aproveitada para nada.
Tonho ainda teve tempo de dirigir-lhe seu último desabafo.
§  Você perguntou-me se sou eu quem decide o que é certo ou errado não foi? Respondo-lhe sem medo de errar que o que é certo realmente eu decido e o errado como sempre é você quem determina.
Até hoje acertou apenas nessa sua atitude que foi em doar meu corpo às aves. Minha carne com certeza os satisfará e dará prazer ao se alimentarem dela por ser de ótimo sabor. Tenha certeza que todos os animais vão querer dividi-la, mas quanto a você, só os urubus se servirão e mesmo assim quando estiver bem podre, totalmente irreconhecível e cheio de bactérias para não ser tão indigesta conforme deve ser ao natural.
Nego pretendia retirar-se logo após assistir a execução, mas teve de demorar-se um pouco, pois foram várias aves de rapina, além de cães, gatos, galinhas, coelhos e vários outros animais que se aproximaram para participarem famintos do inesperado banquete. Teve até porcos que aproximaram com a mesma finalidade.
Ele proibiu-os a todos, ordenando-os retirarem, pois a carne de Tonho seria apenas dos falcões.
Sem remorsos ele se afastou para seu repouso noturno.
Os animais expulsos afastaram-se e em pequenos grupos formavam reuniões informais, exaltados e nervosos, porém em voz baixa para não serem surpreendidos.
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Nego não conseguiu dormir, pois ficou refletindo sobre tudo que aconteceu durante a tarde e inicio da noite.
Primeiro sentiu-se confortável, pois chamara as aves com a finalidade de executar seus filhos, mas conforme Tonho tinha falado a sentença ainda não tinha sido dada.
Estava sim na iminência, mas não decretada por isso ainda poderia perdoá-los.
Levantou-se na madrugada e sem saber das aglomerações familiares que estavam existindo em toda a mata determinou a uma das corujas assessoras naquela noite que fosse chamar outras três fortes aves com urgência.
Instruiu-as para darem em seu nome voz de prisão e levar seus filhos de volta a fazenda naquele mesmo momento com ordens expressas para eles não regressarem até que fossem chamados. Lá ficariam severamente vigiados por elas e outros elementos que mandaria por terra para essa finalidade.
Sabia que se os filhos permanecessem no quartel tomariam conhecimento da morte do porco e iriam questionar e ele não teria como evitar a execução deles também.
Assim procedendo impediria suas mortes prematuras ao mesmo tempo em que ficaria livre das possíveis ameaças e inevitáveis revoltas dos filhos.
Após isso dormiu depressa, mas por pouco tempo. Acordou sobressaltado e se pôs a pensar novamente sobre tudo. Lembrou-se da longa conversa com os filhos que terminou em briga.
Recordou quando ouviu Lenon falar que canibalismo é quando um indivíduo come carne de outro da mesma espécie e que isso nunca aconteceu com nenhum animal, com única exceção que foi a de um grupo de ursos polares por total falta de alimentos causada por humanos.
Lembrou-se ter visto vários porcos aproximando-se do corpo de Tonho com a finalidade de devorá-lo. Realmente nunca ouvira dizer que porco comesse porco e ficou intrigado porque aqueles queriam fazer isso. Relembrou o caso dos ursos e pensou que se os porcos iriam comer o Tonho é porque não tinham alimentos. E não por culpa de humanos. Será que a fome deles era tanta que praticariam o canibalismo mesmo não sendo carnívoros e muito menos canibais? Pensou assustado. Será que de fato as coisas andam tão ruins e descontrolados no Brasil motivadas pelos atos institucionais conforme seus filhos disseram?
Chegou a conclusão que tais atos deveriam ser revistos, mas correria o perigo de perder o controle se afrouxasse em suas leis e decidiu deixar conforme estava e tentou descansar.
Não era possível dormir, pois tinha outro enorme problema que deveria ser resolvido dentro de dois dias.
Pelo que soube pelo Tonho talvez no outro dia chegasse o aviso formal de seu encontro com Rosa que lhe informaria oficialmente a não aceitação dos animais marinhos em participar da guerra.
Isso não seria um descumprimento deles a seus atos institucionais? Para fazer justiça deveria punir a todos os animais marinhos com a pena de morte. Mas, como?
Como ele conseguiria executar todos os animais aquáticos, se para isso precisaria de milhões de outros também aquáticos para fazer cumprir tal resolução.
Jamais conseguiria isso e como ficaria sua situação com o exercito e a aeronáutica?
Sem dormir a noite toda, levantou-se logo cedo e através de todos os assessores que foi possível convocar nas matas mandou que noticiassem urgente à todos a execução do porco Tonho, mas que a partir daquele momento ele tinha revogado o AI 5.
Só após ter tomado essa providencia e mandado divulgá-la que percebeu que como a marinha jamais tinha aderido à guerra e sequer o reconhecido como líder nunca obedeceu aos atos institucionais e pelo mesmo motivo como não eram seus subordinados ele jamais fez algo contra seus participantes.
A informação que estava próxima a chegar simplesmente ratificava o que já era normal, portanto não estaria sendo desrespeitado por nenhum súdito e em consequência disso não seria obrigado a nenhuma atitude contra a marinha.
Já era tarde para uma contra ordem, por isso deixou o AI 5 definitivamente anulado.
Deitou-se em seu leito para finalmente adormecer.
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Devido ao esgotamento físico e mental adquirido pelos transtornos do dia anterior e pela noite de insônia ele impensadamente havia cometido outro grande erro na manhã que aboliu o temido AI 5.
Nego simplesmente acabou com o ato institucional quando deveria modificá-lo e não anulá-lo por completo, pois com certeza iria propiciar várias interpretações e atitudes diferentes de seus vassalos a partir de então.
O primeiro a questionar foi o macaco Birigui quando em conversa com um de seus filhos comentou:
§  O AI 5 instituiu a pena de morte a qualquer insubordinação ao Nego. E agora como fica com sua extinção? As insubordinações serão punidas de outra forma, ou simplesmente serão permitidas?
§  É claro que punidas por outra maneira, né pai.
§  Há controvérsias, pois agora como não existe nenhum ato em vigor que proíba as insubordinações, elas terão de ser permitidas sem nenhuma repreensão.
§  Está a fim de desobedecê-lo?
§  Sei de muitos que com certeza estão.
§  Quem são?
§  Pelo menos todos nós macacos. Ou estou errado, meu filho?
§  Absolutamente certo, mas devemos aguardar e continuar calados, por enquanto.
§  Desde a morte da pomba Branca que também foi um ato encomendado igual ao do gato Euclides e de nosso saudoso companheiro Bororó, ninguém mais fala sobre problemas, soluções ou simples pensamento a quem quer que seja, pois inevitavelmente tem alcaguete entre nós, por isso temos sempre de ficar com a boca fechada.
§  Pois é. Todos que mais questionavam as leis morreram de acidentes, sempre em serviço da pátria. Muito estranho não acha pai?
§  Lembra-se como aconteceu com a pomba Branca? Também foi mandada pelo Nego a serviço na fronteira do Brasil com a Colômbia e por não saber exatamente onde era a linha divisória entre os países, passou para o lado de lá e foi devorada por uma onça que é lógico, não obedecia aos atos institucionais brasileiros.
§  Lembro-me muito bem dessa lorota pra fazer boi dormir.
§  O pior da história é que foram os Falcões Rei e o Rex as testemunhas oculares que alegaram não ter conseguido impedir, embora tivessem tentado.
§  O que eles estariam fazendo lá?
§  Com certeza vigiando para certificar-se da eficiência do acidente é claro.
§  Serão eles os únicos delatores?
§  Suas presenças no local provam que eles além de denunciantes são também paus mandados de Nego, e tenho certeza que não são os únicos. Não sei informar quem são, mas têm muitos outros que vivem no chão.
Como as aves sempre ficam no ar não ouviriam as reclamações nossas, dos gatos, das vacas e de outros, para poderem informar ao Nego. Na aeronáutica, além deles imagino que também os papagaios Louro e Verdinho que pouco falam com a gente também sejam. Esses só vivem repetindo as palavras dos humanos que creio que seja para disfarçar que não estão atentos as nossas conversas.
§  Isso só na nossa frente não é?
§  Pois é. Não será uma estratégia de Nego para eles nos ouvirem e dar com a língua nos dentes para ele?
§  Acho que a maioria das aves são espiãs.
§  Eu creio que as de rapina são todas assassinas e participam dos crimes encomendados por Nego, além de espiãs e delatoras, mas as outras com exceção dos dois papagaios acho que não são.
§  Desconfia de mais alguém?
§  Quase todos os cães. Para dizer a verdade acho que apenas o Pit Yuri que não é embora seja filho da cadela Mansa que com certeza faz parte da quadrilha.
§  Acho bom pararmos logo com esse papo, pois o falcão Rex passou dando um rasante e pode nos ouvir.
§  Aí bye bye pai e filho juntos.
oooOooo
Galinhas, vacas, cavalos, coelhos, ratos e outros vários grupos também reunidos escondidos em pequenos grupos familiares comentavam sussurrando, exatamente as mesmas coisas, sempre atentos para não serem espionados.
O porco Fuzarca foi o único dos animais que comentou com seu neto, algo que ninguém percebera.
§  Eu creio que todos aqueles patos, gansos, perdizes, marrecos, codornas e pombos que foram abatidos por caçadas dos homens, teve a mão do Nego.
§  Como assim, avô?
§  Eu soube por seu tio avô que foi executado ontem, que um coelho lhe contou que quando os humanos caçaram milhares de aves aqui mesmo em Minas, ele escondido em uma toca no chão viu uma grande águia sobrevoando alto no local.
§  O que isso prova?
§  Acontece que em outra caçada de aves no estado de São Paulo também uma águia foi vista pelo macaco Prego sobrevoando nas alturas.
§  Não seria coincidência?
§  Até poderia ser se não fosse a mesma águia em ambos os casos. Exatamente a águia Ema que é a assessora principal do comandante em levar novos pássaros para treinamento de guerra. Nas duas vezes ela levava pássaros para iniciarem suas aulas. Ainda acha que foi coincidência ou mudou para premeditação?
§  Sendo assim já cheira mau. Como soube desse segundo caso?
§  Também pelo Tonho, pois são muitos os amigos dele que o respeitavam e lhe contavam sobre coisas estranhas que acontecem nesse governo, por baixo dos panos.
§  Porque Nego mandaria matar várias aves?
§  Porque nenhuma dessas raças pelo que Tonho me dizia concordava com as atitudes dele que em represália e as escondidas dava fim nelas assim como deu cabo de todos os outros que o incomodavam no comando, como seu tio, a Branca, o Bororó e o Euclides.
§  Mas pelo que sei meu tio avô era o mais contundente de todos e porque nunca fizeram nenhuma armadilha para conseguirem um acidente para ele? Só foi morto por motivo justo por desobediência grave diretamente dirigida ao comandante.
§  Por ser velho e gordo demais e não saber voar como a Branca, saltar pelas árvores sobre cipós como o Bororó, correr na velocidade do gato Euclides, jamais poderia ser enviado para longe de nossas vistas para acontecer algum acidente fatal, com as desculpas mentirosas arrumadas por ele.
§  Acho que o senhor tem toda razão.
§  Tenho mesmo, mas não quero que aconteça conosco o mesmo que aconteceu com ele, pois percebo que tem gente nos espionando. Veja a cadela Mansa, que de dócil não tem nada chegando de mansinho.
§  Mas a anulação do AI 5, não nos permite questionar e até insubordinarmos contra o Nego?
§  Talvez sim, mas não poderiam nos punir pelo AI 1 que está em vigor? Nele reza que todos os animais devem ser amigos e o fato de estarmos falando mal do todo poderoso chefão não pode ser considerado que estamos sendo seu inimigo?
§  Tem razão. É melhor calarmos.
oooOooo
Mesmo com o dia já claro a insônia impedia Nego de dormir e exigia-lhe que permanecesse com seus pensamentos e lembranças e foi por isso que recordou de muitos abusos e injustiças cometidas. Falhas realmente muito graves e por isso bolava planos e mais planos para salvar seu desastrado governo.
Por volta de meio dia chegou a informação trazida por uma albatroz para que Nego fosse viajar ao encontro da tartaruga para receber a comunicação oficial da marinha.
A recepção a ave foi feita pelo falcão Rex que imediatamente notificou a Hotwaller Eva que a atendeu a porta da casa, pois poucos sabiam, mas ela era muito mais que uma simples assessora, porque Nego há muito já tinha esquecido Olga e suas promessas.
Ele convocou para a viajem ao Espírito Santo vinte falcões, vinte águias e vinte gaviões para levar sua comitiva que era composta de apenas ele e a companheira Eva.
As aves os levaram pelos céus, proporcionando a Nego ver com seus próprios olhos grande parte do estado de Minas Gerais, anteriormente próspero e conservando suas matas nativas, transformado em um imenso deserto onde não se via mais pastagens. Do alto só viu arbustos secos, répteis peçonhentos, ratos e carcaças de enormes rebanhos de gado.  Ordenou que seus batedores e seguranças modificassem o voo e entrasse no Rio de Janeiro antes de irem para o Espírito Santo. Fizeram o mesmo sobre São Paulo.
Verificou que toda a região sudeste estava um caos. Exatamente a mais rica região do Brasil tinha virado sertão.  Perguntou-se o que teria acontecido com o sertão? Com um instantâneo senso de humor negro indagou a si mesmo. Teria virado mar?
Reconheceu a descontrolada e irresponsável ditadura que já durava 25 anos e estava realmente destruído o país conforme seus filhos disseram, por isso rapidamente ordenou à algumas aves para retornarem com a primeira dama, pois ela iria noticiar à todos que os atos institucionais número um, dois e três também seriam revogados assim que voltasse do encontro com a tartaruga. Para isso requeria a presença de todos os lideres de animais para uma assembleia solene em que ele revogaria tais atos.
Soube pela porta voz da marinha, exatamente o que já sabia, pois alegaram que por estarem no mar, não pertenciam a nenhuma nação específica por isso se isentariam de qualquer influencia não só dos animais como também dos homens.
Nego tentou afirmar que deveriam odiar os humanos por suas pescas e caças marinhas.
Soube que tal atitude nunca representou nenhuma ameaça, pois a quantidade dos pescados pelos humanos era infinitamente menor que a dos animais marinhos predadores do próprio mar como os tubarões, baleias, golfinhos e etc. Que a perda de peixes para os homens não representavam nem 0,001 por cento de suas próprias mortes naturais ou como alimentação aos animais maiores.
Como não havia nenhuma forma de argumentação o cão despediu e dormiu aquela noite, ao relento nas praias capixabas, recusando-se a receber qualquer animal que afluiu em grande número para o local para conhecê-lo. Queria ficar só e viajar na manhã seguinte bem cedo.
No outro dia sem falar uma só palavra e sequer despedir dos capixabas, partiu de volta ao seu quartel para falar a seu povo o que já tinha planejado depois de mandar noticiar que iria anular os atos institucionais.
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Por volta de meio dia já estava preparado para inflamá-los ao ataque definitivo aos humanos. Pelo menos esse desejo ainda os unia, pensava ele.
Estava sendo aguardado por uma multidão muito maior que a imaginada, pois era ciente que não mais agradava como anos antes. Teve uma grande surpresa com aquela enorme aglomeração a sua espera.
No Espírito Santo achou normal tal acumulo de animais, pois não conviviam com ele e nada sabiam de suas traiçoeiras façanhas e dele só tinham conhecimento por envio de maravilhosas informações que lhe eram convenientes.
Em Minas onde causou tantos abusos sentia-se desprestigiado por isso sua inesperada alegria ao ser recebido, embora sem os aplausos calorosos de outros tempos, mas por maciça presença de súditos.
Antes de subir ao palanque refletiu sobre seu discurso.
Seu plano em acabar com os atos institucionais mencionados era para fazer seus subalternos mais exaltados sentirem-se vitoriosos por verem seus desejos realizados e continuarem seus aliados para então promover a pretendida revolução de muitos anos antes.
Como sempre gritou-lhes como o Austríaco fazia aos alemães incendiando-os, porém ele só conseguia aplausos de seus aliados e protegidos cães e aves de rapina.
O restante da população animal na primeira hora de discurso manteve-se em total silencio, mas aos poucos se rebelavam e começavam as vaias em altíssimo som que impedia a qualquer espectador ouvi-lo.
Ele decidiu mudar de tática e deu a palavra aos participantes, que em ordem poderiam falar e defender suas ideias para todos participarem democraticamente para o sucesso da empreitada.
Era talvez sua última cartada.
A vaca Cândida apresentou-se:
§  Falo em nome de todo o rebanho do Brasil, que não aguentamos mais essa vida que nos colocou e que não concordamos mais em nos associar para destruir os humanos.
Bastou essa única frase, mesmo com um mugido nada eloquente para ser interrompida por muitos minutos de aplausos calorosos, que Nego nunca tinha tido nem em seus velhos tempos de orador inflamado e eloquente.
Irritado, mas ainda não desanimado voltou ao colóquio perguntando a oradora:
§  Sua raça não estará satisfeita com a breve extinção que acontecerá dos atos institucionais? Com a queda deles poderão voltar a ser inimiga dos animais que quiserem. Poderão alimentar-se de qualquer um, pois por serem grandes e fortes sobressairão em qualquer briga. Que mais pretendem?
§  Acontece que não somos predadores de animal nenhum, pois nunca fomos ou seremos carnívoros. Fazer voltar a inimizade entre animais não nos interessa, pois sempre fomos de paz e o que queremos é a volta de nossas pastagens que não existem mais.
§  Não vê que ao aniquilarmos os humanos vocês deixarão de ter a obrigação de fornecer-lhes seu leite?
§  Por sua exigência fornecemos pelo menos umas vinte vezes mais aos animais das matas que aos humanos. Não nos alimentamos o suficiente para produzirmos leite sequer aos nossos bezerros, que morrem ainda na idade de amamentação, coisa que antigamente era raro acontecer.
§  Não serão mais churrascos dos homens. O que me diz disso?
§  Muito pouco nos incomodava termos animais abatidos para serem alimentos deles. Antes de você inventar esse comando para seu único bem estar e prazer éramos bem alimentadas e para cada morte tínhamos no mínimo dois nascimentos e a manutenção da espécie permanecia. Aliás, até crescia mantendo assim o equilíbrio entre natalidade e mortalidade evitando a super população, ou a extinção, pois qualquer dos casos seria danosa a todo o sistema ecológico.
Nós que éramos o maior rebanho do mundo, antes de tudo isso acontecer estamos atualmente atrás de Índia, China, Estados Unidos, União Europeia, Argentina, Austrália, México, Rússia, Canadá e África do Sul. Somos o ridículo décimo primeiro lugar e onde vamos parar? Logo ficaremos em último lugar junto com o Vaticano que não tem nenhum animal.
Sempre que a vaca Cândida discursava com seus mugidos fracos porem corretos, compreendidos e aceitos, era aplaudida por enorme plateia, principalmente de jovens abafando os protestos dos amigos de Nego que eram em muito menor número.
Em todo momento que Nego falava os apupos eram ensurdecedores, mesmo seus fieis companheiros cães e aves de rapina, já velhos tentassem aplaudir, mas mesmo assim muito aborrecido ele conseguiu ser ouvido, dirigindo-se ao touro Hercules.
§  Você que é o marido dessa infeliz nada fala?
§  O que quer que eu fale?
§  Impeça-a de falar tantas sandices. Não é macho?
§  Macho eu sou, mas machista não. Ela tem toda razão e não a impedirei de dizer as verdades que todos queremos que saiba. Ela é nossa porta voz e de muitas outras raças que se identificam com seus argumentos e concordam plenamente. Não é pessoal?
Novas estrondosas ovações.
Foi nesse momento que Nego sentiu sua derrota bem próxima e pela primeira vez imaginou seu impeachment ser possível. Nunca tinha visto tantas caras pintadas empunhando bandeiras verde e amarela.
Parecia uma grande tribo preparada para a guerra, mas não para a guerra pretendida por ele. O inimigo era apenas ele.
Mas não poderia desistir e conseguiu em um novo silencio mudar de assunto, dirigindo-se aos cães.
Foi interrompido por uma galinha que com seus estridentes gritos falou:
§  Não são só os bovinos que estão em extinção. Nós também estamos por suas irresponsáveis ideias.
§  Do que fala Senhora Corococó?
§  Que nós sempre só púnhamos um ou no máximo dois ovos diários e agora?
Somos obrigadas por sua exigência a um trabalho árduo e contínuo que nos colocaram também entre os animais em aniquilamento.
Não reclamamos quanto à alimentação, pois a proliferação dos insetos nos permite muita comida, mas essa de colocar seis ovos diários passou dos limites.
Tornou-se insuportável, doloroso e impossível e muito maior é o número de nossas irmãs que morrem por terem suas cloacas arrebentadas que as que eram abatidas pelos homens e por alguns animais nossos predadores para sua sobrevivência.
Procriar é coisa rara entre nós, pois além de não haver ovos para serem chocados não podemos nos dar ao luxo de ficarmos deitadas a dia todo, como se nada estivéssemos fazendo. Sua guarda pessoal de cães e águias não permite, pois alegam ser vagabundagem nossa ficarmos deitadas em berço esplendido sobre ovos.
Para que você e todos os demais saibam estima-se que o Brasil em 1962 tinha mais de 175 milhões de galinhas e figurava entre os principais criadores do mundo e hoje? Nos ranking dos maiores após os doze primeiros figuram “outros”. É aí que estamos totalmente escondidas.
§  Cale a boca, sua arruaceira.
Berrou Nego impedindo-a de continuar seu discurso e a altos brados aboliu naquele exato momento os atos institucionais número um, dois e três.
Foi sua última e definitiva cartada para fomentar a discórdia que imaginou começar a partir de tal informação, mas nada conseguiu, pois os animais há muito já acostumados a serem amigos não ousaram investir-se uns contra os outros, mesmo existindo entre eles as caças e seus caçadores.
Seus guardiões eram poucos e compostos de idosos animais também nada fizeram por medo da grande quantidade de jovens e fortes bois, cavalos, javalis e búfalos que lhes olhavam ameaçadores.
Retiraram-se assustados e cautelosos.
Totalmente impossibilitado de manter a ordem, pois sua guarda pessoal constituída por velhos cães, aves de rapina e tigres que sempre foram corrompidos por ele para seus desmandos haviam desertado.
Com raríssimas exceções eles não tinham conseguido que seus filhos e netos lhes seguissem a carreira.
A maciça maioria dos jovens estava nesse comício, pintada e preparada para derrubar Nego, que se retirou cabisbaixo e devagar, ouvindo ao longe os estridentes gritos de uma jovem e esclarecida araponga que assumiu a direção da reunião popular.
Ouviu-a informando as pombas, que desde muitos anos antes de Nego, elas já não serviam ao homem como mensageiras, pois já haviam sido substituídas por carta, telegrafo e telefone, depois por telex e fax e atualmente por internet. Já eram totalmente livres muito antes do aparecimento de Nego e se deixaram influenciar pela eloquência dele.
Que os cavalos também foram iludidos quando foi dito que eles iriam parar de puxar arados, diligencias e etc., pois tudo isso já não existia com o aparecimento dos tratores, plantadeiras e colheitadeiras e os meios de comunicação e de transportes.
Falou que com referencia as galinhas e aos bovinos não precisava esclarecer nada, pois elas próprias já haviam se posicionado, mas dirigindo-se aos demais falou:
§  Vocês macacos sempre foram livres para suas brincadeiras e em nada deveriam temer ao homem, assim como todos os animais ferozes das matas, pois de vocês eram os homens que temiam e fugiam por medo.
Vocês gatos, sabem muito bem de suas liberdades, pois por mais que os humanos tentassem domesticá-los jamais conseguiram e por esse motivo vocês nunca executaram nenhuma tarefa a eles.
Simplesmente comiam e bebiam alimentos saudáveis e apenas serviam como bibelôs as dondocas humanas que os mantinham totalmente libertos até a hora que vocês próprios sumissem sem darem a menor explicação, pois por suas eternas buscas de aventuras nunca se mantiveram nos mesmos lugares, portanto sempre foram livres com exceção de agora que estão obrigados a serem subordinados ao comandante.
Companheiras e companheiros cães, vocês sãos os únicos animais domésticos que não viviam plenamente livres na natureza. Sabemos que como aos gatos eram muitíssimo bem tratados com vários direitos adquiridos como pet shop, hoteizinhos, veterinários, cabeleireiras e outras coisas mais, portanto levavam uma vida que vários humanos gostariam de ter e não conseguiam.
Alguns de vocês iguais aos gatos existem para serem apenas brinquedos de crianças e amados por elas e pelos adultos. Os maiores e por natureza ferozes são os únicos a prestarem serviços de segurança e vigilância, mas nada que não seja perfeitamente possível de se fazer por ser exatamente o que sabem e gostam e ganhavam muito bem para isso, ao contrário de atualmente.
Por esses motivos insisto em que a tal revolução deva deixar de fazer parte dos pensamentos de todos e convido-os a voltarem a viver nossa vida conforme sempre foi ao lado dos homens.
Perguntou o porco Totonho que era neto de Fuzarca.
§  E para nós o que tem a dizer?
§  Vocês nunca foram domesticados, ensinados e exigidos em absolutamente nada. Pelo excelente sabor de suas carnes sempre foram usados apenas como alimentos deles, mas isso faz parte da cadeia alimentar, mas se quiser saber como vivem nas fazendas dos humanos, pergunte a seu avô que com certeza ele se lembra e lhe informará. A alimentação recebida era de primeira e a moradia asseada e limpa e não viviam nessa imensa sujeira que você vive. O banho que é uma coisa que você nem sabe do que se trata era diário e sua cor com certeza seria branca e não marrom como se apresenta.
§  Ela tem toda razão meu neto. Realmente é assim que os humanos nos tratam.
Foi Fuzarca quem discursou rápido concordando com as afirmações da jovem, para em seguida devolver-lhe a palavra, entretanto solicitando dela que se apresentasse, pois a maioria não a conhecia.
§  Chamo-me Ara Ponga e falarei mais algumas rápidas e breves palavras para encerrar minha participação.
Amigas e amigos, faço uso de tais termos, pois se aconteceu alguma coisa boa advinda dos atos institucionais de Nego foi apenas isso.
Obrigou-nos a sermos amigos, embora há pouco tenha tentado jogar-nos uns contra os outros anulando o ato institucional número 1, entretanto todos estamos nos portando conforme já existimos nesses últimos vinte e cinco anos.
Sou como milhões de outros com menos idade que isso, portanto aprendemos viver nessas condições e os mais velhos pelo que percebi claramente adquiriram tal bom hábito e continuamos sendo todos amigos.
Não me candidato a nada. Não pretendo ser nenhuma líder, mas serei o mais feliz dos animais se todos concordarem em manter essa tradição já adquirida de vivermos para sempre em paz e com amizade, sem chefes ou comandantes obrigando-nos a fazermos coisas que não sejam nossos próprios desejos.
Senhores carnívoros, sei perfeitamente que sou como muitos outros animais, caçados por nossos predadores e concordo plenamente que tal necessidade fisiológica deva recomeçar a existir a partir de agora como sempre foi necessário, mas peço-lhes que usem o bom senso e só matem quando realmente necessitarem para suas próprias subsistências e tenho dito.
Deixou o palanque e voou para longe, mas foi impossível deixar de ouvir o estrondoso e demorado aplauso e gritos de euforia que durou muitos minutos ininterruptos, mesmo ela não estando mais ao alcance das vistas dos demais.
De longe, onde se encontrava a ave ainda olhou para traz feliz por saber que a decisão de todos os animais do Brasil, coincidia com seus pensamentos.
O velho Fuzarca subiu ao palco apenas para declarar a reunião encerrada e todos se dispersaram para uma vida melhor.
oooOooo
Nego chamou sua amante Eva e com ela caminhou cabisbaixo, devagar e calado até um vale próximo as montanhas. Nenhum animal que presenciou sua ida ao exílio alto decretado, coisa que era esperada por todos, os molestaram ou dirigiram a palavra.
Subiram ao topo das pedras, pois aprenderam tal façanha com as cabras montanhesas e lá assentaram ainda calados.
Estavam próximos ao ninho do falcão Rei, que voou para longe em sinal de respeito ao ex-poderoso chefe.
A esposa do falcão que com ele viajou, perguntou-lhe:
§  Não fica perigoso deixarmos nosso filhote sozinho no ninho?
§  Acha que o Nego vai querer comê-lo?
§  Não é isso, pois sei que cão não come aves, mas o menino é muito pequeno. Nem sabe voar.
§  Mas sabe falar.
§  E o que importa ele saber falar se nós não estaremos com ele para conversarmos.
§  É por poucos dias. No máximo uma semana e o Nego deve sair de lá, pois terá fome e voltará para baixo.
§  E se ele virar ermitão e quiser morar nas montanhas para sempre.
§  Então seremos vizinhos.
§  Acho que deveríamos pegar a criança e levar conosco.
§  Não é necessário, pois voltaremos em sete dias e ele tem alimento suficiente e exatamente por faltar ainda muito tempo para voar não sairá do ninho e estará a salvo. Fique tranquila e vamos aproveitar esses dias para caçarmos alguns pombos por aí.
§  Porque quer caçar? Estamos alimentados e não precisamos de nenhuma caça.
§  É para exercitarmos.
§  E o pacto entre os animais?
§  Eu não concordo.
§  Mas todos os nossos filhos mais velhos sim e concordaram com a araponga Ara.
§  Ela que vá as favas e fique longe de mim senão será minha primeira vítima.
§  Mas já foram tantas quando trabalhava para o governo. Não acha que já deve parar com os assassinatos principalmente agora que já está tão velho?
§  Só pararei quando não tiver mais forças para caçar.
§  Será que você não tem mais jeito?
Já estamos muito velhos e prestes a morrermos e pelo menos nesse nosso final dê-me o prazer de vê-lo bom e decente, só caçando para nossa alimentação.
§  Está bem. Não vou mais fazer nada errado, porque realmente já estou prestes a partir e pela destruição que vejo lá em baixo nesses quatro dias de viagem cheguei a conclusão que devo me redimir de todo o mau que ajudei Nego fazer ao país. Vou terminar nossos dias em paz como todos os demais.
§  Agora gostei de sua atitude e consegui sua promessa de que vai mudar de vida e por isso vou contar-lhe que estará viúvo nesses dias, pois estou muito mal de saúde e não devo viver muito mais tempo.
§  Então vamos voltar para que repouse em nossa casa.
§  Não resistirei a volta, portanto vamos continuar nosso voo, pois esse será o meu último. Venha comigo até o cume da mais alta montanha daquela cordilheira a nossa frente. Deixe-me lá e volte para cuidar de nosso filho.
Assim foi feito e a ave morreu após esse longo passeio deixando o velho falcão viúvo e com um filho ainda pequeno para criar.
oooOooo
Enquanto isso nas montanhas Nego totalmente derrotado, finalmente se recordou da esposa.
Enquanto sua amante Eva dormia ele permaneceu sobre as pedras olhando para o infinito e quando rebuscou na memória coisas que conversou com sua saudosa amada Olga lembrou-se de certos detalhes em antigas conversas:
§  Está bem Nego. Talvez eu esteja fazendo confusão mesmo, pois estou doente e confusa, mas nenhuma revolução aqui no Brasil nunca deu certo. Disso eu não tenho dúvidas, portanto vamos continuar vivendo conforme estamos, pois está ótimo.
Mire-se nos exemplos da Inconfidência Mineira, na Carioca, na Baiana ou Revolta dos Alfaiates, na do Pernambuco, na Guerra dos Emboabas, na dos Mascates, na Revolução Constitucionalista ou Guerra Paulista. Todas tiveram seus lideres presos ou mortos e nenhuma delas deu em nada.  
§  Por isso continuamos todos escravos ou dominados. Está certo que as anteriores foram feitas por homens e não por animais e como não temos a mesma incompetencia deles vamos fazer dar certo.
Chegou a conclusão e falou á si próprio: Fiz tudo errado, pois levei milhões de animais do Brasil para a morte sem me preocupar um só instante em me corrigir de tal erro incompreensível e inaceitável.
Ordenei a matança de milhões de animais de raças que eu não gostava, quando eu pregava que todos tinham de amar uns aos outros como a si próprios.
A noite não acabava e ele se perguntava constantemente:
§  Que punição eu mereço? A prisão perpétua? A pena de morte? A solidão para meus últimos anos de vida? Qual?
Conversava consigo mesmo fazendo-se tais perguntas em voz tão alta que acordou Eva que foi para junto dele.
Ela sussurrou algo em seu ouvido, mas precisou repetir em voz alta devido a deficiência auditiva do cão e apenas ele chorou quando ouviu perfeitamente bem o que ela disse e entendeu que seria a única saída para ele.
Assim naquela noite de 31 de março, véspera do dia da mentira, nas matas da cidade de Juiz de Fora em Minas Gerais, terminou a revolução que nunca existiu, mas que deixou o Brasil quase que totalmente destruído.
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Ainda abatido com a morte da esposa, oito dias após sua saída o Falcão chega em sua casa.
Encontrou seu filhote são embora aflito por sua demora e conversaram:
§  Onde está a mãe?
§  Infelizmente ela estava muito velha e cansada e não resistiu nossa viajem que foi longa.
§  Parece-me que você também anda muito cansado.
§  Estou meu filho. Meus dias estão próximos. Mas mudando de assunto, o que aconteceu com aquele casal de cães que estava ali na sua frente?
§  O Senhor se refere ao Nego e Eva?
§  Como sabe quem eles eram?
§  Ouvi a última conversa deles na qual falaram seus nomes.
§  Então eles voltaram para as matas?
§  Não. Mataram-se.
§  Como?
§  Pularam do penhasco.
§  Como sabe se pularam ou desceram?
§  Porque ouvi Eva dando-lhe a ideia de se matarem atirando-se sobre as saliências de pedras que ficam a cinquenta metros abaixo de nós.
§  Quero ouvir essa história direito.
Quem disse isso foi um velho urubu que passava próximo aos falcões e continuou falando:
§  Olá compadre. Então os restos de carne podre que eu e alguns companheiros comemos ontem eram do poderoso Nego?
§  Vocês o comeram?
§  Ao passarmos por aqui avistamos dois animais em decomposição bem embaixo daqui e os devoramos. Achei que eram dois burricos e só agora estou sabendo tratar-se do nosso ex-poderoso e querido chefe.
§  Foi exatamente assim que o finado porco Tonho falou que seria seu fim.
§  O que disse?
§  Nada não. Apenas pensei em voz alta.
§  Devemos informar a todos os animais onde estão as ossadas deles?
§  Para que?
§  Para que se faça um enterro digno e para no futuro as novas gerações visitarem seus túmulos.
§  Acha que isso é certo?
§  E não é?
§  Não concordo, pois só recentemente entendi que ele foi o maior tirano que já existiu sobre a terra e não merece nenhum reconhecimento. Sua morte deve continuar no anonimato e seus restos não devem ser encontrados. Ele precisa cair no esquecimento para sempre.
§  Tem razão. Seria até provável que no futuro a história viria transformá-lo indevidamente em herói nacional.
§  Temos inclusive a obrigação de nada divulgarmos, pois me lembrei agora que estamos proibidos de anunciar qualquer coisa a respeito dele.
§  Como assim? Existe alguém no poder que está inventando novos atos institucionais ou novas leis para nós cumprirmos?
§  Não. Somos totalmente livres, entretanto o ato institucional número 4 criado por Nego tem essa redação: “Que caso alguma pessoa tenha conhecimento de qualquer viagem, atitude, gesto, ato, conversa, decisão, deliberação, ordem, ou qualquer informação por mais insignificante que possa parecer de seu chefe maior, manter em segredo absoluto e permanente excluindo-se os casos em que ele próprio ou portador por ele indicado, oficialmente determine a divulgação”.
§  Mas ele anulou todos seus atos, portanto não temos motivo nenhum para cumpri-lo.
§  Não. Ele anulou primeiro o AI-5 e depois os de números um, dois e três, ficando o quatro em vigor, não sei se por esquecimento ou por sua própria vontade por isso ainda deveremos continuar obedecendo-o permanentemente não divulgando esse seu gesto, que foi o último.
§  Mas não poderá acontecer de alguém passar para frente?
§  Não, pois apenas nós dois que já estamos prestes a ir encontrá-lo no inferno e meu pequeno filho sabemos de sua morte. Meu menino ainda é muito pequeno e quando crescer provavelmente já esqueceu o que viu aqui.
§  Se realmente o menino esquecer, o segredo de sua morte ficará guardado para sempre.
Já viu a ossada deles ali em baixo?
§  Não.
§  Então venha cá perto da ribanceira que dá para ver daqui de cima.
Enquanto as velhas aves de rapina olhavam para baixo viram a queda da pequena ave que curiosa também aproximou-se do despenhadeiro caindo em queda livre. Embora os adultos tivessem em voos rápidos tentado apanhá-la no ar não conseguiram e com isso ela bateu violentamente sobre os ossos dos cães.
Eles espatifaram-se, saltaram e depois caíram junto da avezinha morta, partidos violentamente em vários pedaços pela montanha abaixo espalhando-se e sumindo na forte corredeira do rio que existia a uns trezentos metros abaixo, sem nenhuma possibilidade de serem encontrados e muito menos identificados.
Assim como o corpo de seu ídolo Hitler não foi encontrado, pois segundo a história, ele e sua amante Eva Braun, cometeram suicídio e foram queimados por seus comparsas para que ninguém tivesse esses corpos, o mesmo aconteceu com Nego e sua amante também Eva.
ACABOU.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
PAIS
Escrevo minha história, pois estou próximo de morrer e nela deixarei escrito o motivo de eu ter feito o inventário de meus bens e quais as providências que tomei para que não aconteçam na minha enorme família, discussões sobre minha decisão quanto aos beneficiários.
Junto aos documentos oficiais devidamente registrados em cartório estarão também declarações dos seis melhores psiquiatras do mundo atestando minha capacidade mental em atividade plena e correta, para que não haja a menor dúvida sobre a clareza de meu raciocínio, quando decidi minha escolha.
Tudo ficará a cargo do advogado Dr. Régis de Alcântara Azevedo, meu procurador no Brasil, há aproximadamente 10 anos para fazer cumprir meu desejo de maneira acertada.
Tenho apenas alguns meses de vida devido ao câncer que me consome, infelizmente obrigando-me a deixar a vida ainda jovem de apenas 38 anos de idade, solteiro e milionário.
Tudo começou quando Ana dos Anjos ficou grávida de mim. Ela vivia com Jairo Sena, que desconfiou que eu fosse fruto de traição dela.
Após eu nascer e ter o resultado do exame do DNA confirmado as suspeitas dele, sumiu da vida dela e da minha, sem deixar vestígios.
Pouco tempo depois, menos de dois meses Ana conheceu Pedro Santos Silva, que não era o amante e ele só soube de seu passado e presente o que ela informou. Acreditando que ela fora abandonada pelo maldoso cônjuge com um neném pequeno, casou-se com ela e me registrou como sendo filho de ambos com o nome de Sergio Santos da Silva, pois eu sequer ainda havia sido registrado.
Não ficaram juntos nem três meses e ele também desapareceu de nossas vidas, pois realmente ela não se adaptava a ser mulher de um homem só. Falando francamente ela usava-os as dezenas.
Ana sentindo-se desamparada e precisando prostituir-se, pois só tinha essa habilidade para se manter, acabou vendendo-me ao casal Josué e Miriam, que embora já tivessem filhos, resolveram adquirir-me por um preço módico.
Não que eles fossem adeptos a boas ações e eu um neném bonitinho, pois jamais fui bonito e eles nunca foram caridosos.
Na ocasião faziam-se muitas propagandas e solicitações para adoção de crianças órfãs ou repudiadas e estava na moda os ricos empresários fazerem isso e como o casal Almeida Campos pertencia a esse privilegiado grupo de pessoas assim procederam.
Não fizeram à adoção da maneira correta incluindo-me como membro de sua família. Apenas pagaram algum valor a Ana e ficaram comigo, digamos assim como que um convivente familiar ou simplesmente agregado àquela família, tão somente para a mídia noticiar o feito exemplar.
Em meus documentos meu nome continua o mesmo e com a mesma filiação já existente, desde meu registro.
Fui criado nessa família de ricos empresários que me ofertaram tudo que o dinheiro poderia adquirir. Babá, motorista, boas comidas, boas escolas, boas roupas, brinquedos em abundancia e animaizinhos domésticos etc.  Durante minha infância, adolescência e inclusive na fase adulta era o que eu possuía.
Nada me lembro dos primeiros anos de minha vida, mas após os seis anos tenho todas as lembranças registradas em minha mente e sei perfeitamente bem de tudo o que me ocorreu até os dias de hoje.
Os acontecimentos que me recordo a partir da idade já mencionada e que creio terem sido exatamente iguais nos anos anteriores eram principalmente quando a senhora empresária Miriam chegava e perguntava aos gritos:
·        Maria Cristina aquele moleque cagão deu tanto trabalho assim, para que você não arrumasse a casa direito?
·        Senhora. O Serginho é limpinho e se não arrumei direito a casa, foi porque seus filhos mais velhos foram quem exigiram muito de meu tempo ajudando-os nos deveres de casa e consertando seus brinquedos quebrados e...
·        Deixe de conversa fiada.
·        Mas senhora...
·        Acho que será preciso contratar outra empregada melhor, pois você não está dando conta do serviço. Está a cada dia que passa mais imprestável. Só não a demiti ainda porque seu marido é um ótimo motorista e se você for despedida ele também deverá ser e Josué não concorda com isso.
·        Mas senhora...
·        Deixe de, mas, mas, mas e não precisa falar mais nada e vá ao trabalho e deixa esse pirralho por aí brincando com os cachorros para não atrapalhá-la.
·        Mamãe...
Eu tentava conversar, mas a senhora Miriam não me ouvia, aliás, nem me via. Creio que ela jamais soube meu nome, pois independente de eu ter crescido e deixado de ser neném que sujava as fraldas ela continuou chamando-me de moleque cagão até que eu já com doze anos revoltar-me e exigir melhor tratamento.
A partir de então, ela ao se referir a mim, chamava-me de “adolescente aborrecido” e depois simplesmente de “abô”, até quando eu, aos 21 anos de idade abandonar tudo e todos e ir embora para a Austrália.
Falei sobre Sra. Miriam apenas o que foi dito, pois me é impossível recordar de algo diferente disso nos mais de vinte anos de convivência.
Sobre Maria Cristina Costa e seu marido Manoel Costa também falarei pouco para dizer tudo que me lembro deles. Eles já trabalhavam na mansão, respectivamente como doméstica e motorista e foram minha babá e meu motorista desde minha chegada a casa, assim como já o eram dos outros filhos do casal.
Eles consertavam nossos brinquedos, cuidava de nossa roupa, nossa higiene, nossa alimentação, nossa locomoção e demais tarefas próprias dos empregados, entretanto além dos afazeres domésticos dedicaram o restante de seu tempo disponível diariamente a ajudar-me e aos outros meninos em nossas tarefas estudantis. Dava-nos seu calor, seu amor, sua dedicação e ensinava-nos sermos amigos, honestos e amorosos. Em todos os dias dos meus vinte anos de convivência nada diferente disso me recordo deles.
Menos ainda falarei sobre o empresário Josué, pois dele relembro-me menos ainda. Apenas uma passagem.
Acho que ele jamais soube de minha existência, pois a única vez que me dirigiu a palavra foi quando Maria Cristina comemorava meu aniversário de nove anos com uma festinha na edícula da casa onde ela morava com Manoel, que ele lá esteve a procura do motorista e ao ver-me perguntou:
·        Quem é você menino?
Antes de eu responder, foi Manoel quem disse:
·        É seu filho, patrão.
·        Qual deles?
·        O caçula. Aquele que o senhor adotou.
·        Nem me lembrava mais disso.
Mudou de assunto determinando suas ordens ao serviçal e virando as costas deixou-nos, consequentemente terminando com minha primeira e única festa de aniversário.
Sobre meus irmãos adotivos, filhos do casal de empresários que recebiam dos pais, mais ou menos o mesmo tratamento que eu, enquanto pequenos nos dávamos bem, pois aprendemos a nos amar, orientados e ensinados que fomos pela domestica Maria Cristina e pelo motorista, Manoel Costa.
Eles eram Josué Almeida Campos Júnior, Robson Almeida Campos e Elisangela Almeida Campos.
A caçula Elis era quatro anos mais velha que eu, e casou com apenas 18 anos de idade mudando-se para o Japão levando Júnior com ela meses depois, pois ele havia ficado sem o outro irmão que falecera de acidente automobilístico.
Nessa ocasião houve por parte dela o interesse de levar-me também, entretanto conforme meu registro de nascimento meus pais eram Ana dos Anjos e Pedro Santos Silva, e por isso não foi possível eu obter permissão para viajar, pois eles definitivamente não foram encontrados para assinar a autorização.  Eu com quatorze anos e consequentemente menor de idade estava impossibilitado de qualquer viagem sem permissão dos pais ou responsáveis legais.
O casal Almeida Campos até que aceitava e gostava da ideia da filha levar-me, mas não eram oficialmente meus responsáveis, portanto não reconhecidos legalmente como tal nada puderam fazer e eu fiquei mais sozinho que nunca.
Tinha somente os empregados dos empresários a dar-me a atenção, mas sempre muito ocupados, quase como escravos não podiam dedicar-me muito tempo.
Meus únicos amigos eram definitivamente os cães, os gatos e as aves da casa, pois os colegas das escolas só eram meus amigos enquanto estávamos em aulas, pois jamais tive permissão de frequentar os ambientes deles.
Como o contato com o casal Almeida Campos e os filhos eram por meio de raros e-mails não só pelo desinteresse de todos, mas também porque tanto Elis quanto Junior tinham suas próprias famílias a se preocuparem fui também perdendo o contato com eles, pouco a pouco.
Estou sendo um pouco incorreto, porem lembrei-me a tempo de dizer que Maria Cristina e Manoel lhe escreviam porque não tinham acesso a computadores, assim como eu, por isso tocávamos correspondências escritas via cartas e o pouco que acompanhei de suas vidas fora assim.
Nos seis anos que se passaram soube que Junior havia se casado e que tinha três filhos e morava próximo da irmã que tinha apenas uma filha. Nosso contato era realmente muito pouco devido a dificuldade de tais comunicações.
Na edícula não tinha telefone e nem computador, para que eu pudesse me interagir com eles. É lógico que eu tinha muita habilidade no uso de tais aparelhos, mas jamais ousava usar o da casa principal, pois definitivamente não me era permitido, uma vez que eram trancados nos quartos do casal para uso somente deles.
Em meus horários na faculdade não me era permitido o acesso a internet para assuntos particulares, e em minhas tardes disponíveis e possíveis de usar um Lan House, coincidia com as madrugadas de meus irmãos, portanto eu não poderia comunicar-me com eles, para não incomodá-los.
Ao completar vinte e um anos de idade, e com a ajuda financeira de minha ex babá e meu ex motorista pude viajar por conta própria e fui para Austrália, pois a única língua que eu dominava além do português era o inglês, portanto não fui procurar meus irmãos no Japão.
Fui-me adaptando nessa nova pátria e então passei a ter muito contato com Elis e com o Júnior, inclusive viajando muito para o Japão e eles para a Austrália, para nos encontrarmos e assim passamos a nos ver e conversar com muita assiduidade e nossa amizade e amor mútuo voltou muito mais forte.
Por correspondência escrita aos adorados casal Costa, convenci Manoel a comprar um computador e fazer um curso para aprender utilizá-lo para que pudéssemos ter facilidade em nos falar, escrever e ver. Mandei-lhe dinheiro para isso, convencendo-o de recebê-lo como pagamento da passagem que haviam gasto comigo.
Eu já estava por assim dizer ascendendo na vida profissional e minha situação financeira crescia muito rápido, ao inverso do casal de empresários, que ano após ano definhava-se economicamente, bem mais depressa que meu desenvolvimento, e ao passar de poucos anos estavam definitivamente falidos e eu bilionário.
Eu não acompanhei o acontecido com eles e só soube quando eles me procuraram e contaram-me.
Na Austrália eu desenvolvi um programa de segurança empresarial para grandes companhias e tal software muito eficaz deu-me fortuna e prestígio, e graças a isso também notoriedade, fazendo de mim uma celebridade que permanentemente era lembrada e mencionada em todas as mídias.
Notícias sobre mim corria mundo, e graças a essas frequentes informações, comecei a ser definitivamente descoberto no Brasil.
Os primeiros a procurarem-me foram o casal de empresários falidos que solicitaram-me socorro, alegando terem me criado e dado condições de eu ser alguém na vida, alegando que graças a eles eu cresci financeiramente, por isso exigiam grande importância em dinheiro para se recuperarem.
Não sei como Ana dos Anjos descobriu-me e junto a seu atual marido Roberto Arruda fez as mesmas reivindicações, exigindo por seus direitos de mãe natural uma enorme quantia em dinheiro, para pagá-la por ter-me posto no mundo. Na mesma época, encontraram-me e solicitaram apenas as mesmíssimas coisas:
Pedro Santos Silva, que me registrou como filho e cobrava-me por tal feito.
Jairo Sena que foi o primeiro marido de Ana abandonando-a e a mim, choroso me disse que só não me criou e educou, pois as constantes traições de Ana deixaram-no na época muito revoltado e insensato.
Que agora gostaria de reparar tudo desde que eu o ajudasse com dinheiro para ele cuidar direito de seus vários filhos existentes e carentes.
Augusto Antônio Cristo, se identificou como sendo o amante de Ana na época de sua gravidez cujo nascimento eu vi luz, garantindo ser o meu pai genético.
Mandou-me por correspondência um monte de seus cabelos, para que eu efetuasse o exame de D.N.A, para comprovar a paternidade e após isso para eu reparar-lhe financeiramente por ter sido o principal responsável por minha existência.
Além dele teve outros três homens que procuraram-me dizendo as mesmas coisas e reivindicando também o mesmo.
Todos me procuraram mais ou menos na mesma época. Por sorte minha todas as exigências deles era dinheiro, portanto eram para mim o meio mais fácil de satisfazê-los, e para isso contratei o advogado brasileiro Dr. Regis para verificar as reais necessidades de cada um, e supri-las sob minha responsabilidade, e para tal autorizei-o dispor de dinheiro suficiente para socorrê-los financeiramente pelos próximos trinta anos de suas respectivas vidas.
Na ocasião eu tinha 30 anos de idade, portanto tudo o que eu lhes devia não poderia ser superior a esse tempo, portanto minha decisão justificava plenamente que após esse tempo ninguém poderia cobrar-me nada sob nenhum pretexto.
Isso já faz aproximadamente oito anos e assim continuará independente de eu estar em meu fim de linha, e por isso tive a necessidade do inventário, pois independente desses socorros continuarem sendo mantidos precisaria indicar alguém para herdar todos meus bens existentes, exceto essa ínfima importância que representava muito pouco a minha fortuna, já estava devidamente destinada.
Antes de tomar tal decisão, consultei Elis e Júnior, que nunca precisaram de mim, até porque ambos estavam muito bem financeiramente e recusaram categoricamente usufruírem da herança, concordando com minha determinação que julgaram acertada e justa.
É comum se dizer que pais não são aqueles que geram e sim aqueles que criam, entretanto, eu discordo e digo que pais não são aqueles que geram, nem tampouco os que dão nome, registram e criam e sim aqueles que amam e esse foi com absoluta certeza o motivo irrefutável de eu reconhecer como meus verdadeiros pais, o casal Costa.
Portanto deixo como meus herdeiros, Maria Cristina Costa e Manoel Costa, para disporem de cinquenta por cento de todos meus bens da forma que desejarem, e o restante para ser dividido por cinquenta orfanatos no Brasil, cujos nomes não serão divulgados, mas já estão devidamente escolhidos.
ACABOU


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