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   > O Maracatu Cearense como cultura popular tradicional



William Augusto Pereira
      ENSAIOS

O Maracatu Cearense como cultura popular tradicional

O Maracatu cearense como cultural popular tradicional

 

William Augusto Pereira

 

Com o surgimento do Ceará como unidade administrativa em , com 14 municípios, após separação de Pernambuco, visibiliza-se a existência de inúmeras comunidades negras e quilombolas urbanas e rurais espalhadas por todo o território cearense. Bernardo Manuel de Vasconcelos foi nomeado o primeiro governador pelo início da urbanização de Fortaleza. No município mais antigo, , fundado em , existia as comunidades quilombolas de Goiabeiras, Lagoa do Ramo, Catolé dos Pereira, Pereiral e Cinzenta. Em Tauá, Tururu, Crateus, Itapipoca, Tamboril, Umari, Parambu, Iracema e outros, é notado a grande presença negra nessas vilas.

Com a Independência do Brasil as províncias foram organizadas em e nesse ano o território já estava dividido em mais quatro cidades. Durante todo o período imperial do Brasil foram criadas mais 44 cidades desmembrando-se vilas das já então existentes. Em pouco mais de um século o estado do Ceará passou de 62 para 184 cidades que a partir da constituição de 1988 passaram a serem unidades constitutivas da união em patamar igual aos estados.

O dividiu o território cearense em sete e estas em 33 constituindo-se basicamente em divisões estatísticas. O Governo do Ceará dividiu o estado em oito macrorregiões de desenvolvimento e em 20 regiões administrativas.

O sistema cria a ideologia da invisibilidade após abolição dos negros escravizados no Ceará, que é uma ideologia de propagar que no Ceará não havia negros, empregado pela elite do estado e fazendo com que as comunidades negras, ou agrupamentos, ou territórios afros, desapareçam das estatísticas do governo cearense como um passe de mágica, resurgindo nos anos 80 com a resistência do movimento social negro cearense. A origem do maracatu cearense se desenvolve nesse período, o qual iremos contextualizar mais adiante nessas reflexões. O Maracatu cearense foi uma ferramenta de resistência cultural para o momento lincada com outras realidades culturais do país. Como no período da escravidão, depois da abolição o negro resiste à dominação em suas novas formas. Desde as revoltas dos marinheiros negros com João Cândido em 1910, às organizações negras. Quando a Itália se lança na aventura colonial africana, bem acompanhada na área paulista, surge o jornal negro “ Menelik” (do nome do imperador de Etiópia) e depois “O Clarim” e outros. Em 1931 nasce a Frente Negra Brasileira que foi cassada pelo Estado Novo, ao transformar-se em partido político, em 1937. Segundo Lima, 2003:

No Ceará, havia a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário em Aracati, em Icó e em Fortaleza. 22Durante as festas das irmandades, os negros escravizados tinham certa liberdade, pois eram as figuras principais do cortejo. Eles se apresentavam como o Rei, a Rainha, o mestre de cerimônia e os mestres de campo. Havia também nas Irmandades as ´açafatas´, que eram fidalgos que serviam na Corte do ritual. Essas pessoas carregavam um cestinho de vime chamado de ´açafato´, em que se traziam rendas e brocados.Em Fortaleza, no final do século XIX, os negros já festejavam a coroação de sua rainha em um cortejo que saía do Morro do Moinho, por trás da estação João Felipe, no Centro de Fortaleza, e seguia rumo à Igreja de Nossa Senhora do Rosário (LIMA, 2003, p. 4).

 

E, Porto (2005), muito bem frisa ao afirma sobre a presença vida do maracatu cearense:


Os últimos Reis do Congo que houve em Fortaleza, minha terra natal,

foram o negro Firmino, ex- escravo de meu pai, e a negra Aninha

Gata. Esta ainda conheci aí por volta de 1897 ou 1898, com pequena

quitanda na antiga travessa das Flores, entre as ruas Major Facundo

a da Boa vista, hoje Floriano Peixoto. A tradição do Maracatu surgiu,

sem dúvida, dessas irmandades, que tiveram um papel muito

relevante na sociedade colonial, entre os séculos XVII e XIX. Hoje, o

Maracatu é uma procissão solene, sagrada e profana, que restou do

antigo Auto dos Congos realizado pelas irmandades católicas, que

simbolicamente coroavam a nobreza africana exilada (PORTO, 2005).



O Maracatu Às de Paus foi fundado em 20 de janeiro de 1960, pertencente à família Silva. Família esta oriunda de Aracati, berço da Irmandade Religiosa: Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos da cidade de Aracati e que festejava o Rei de Congo.

No governo de exceção de 1964, como o de 1930, paraliza e desagrega todas as organizações políticas e populares, atingindo também as comunidades negras, organização culturais de resistência negras. Observa-se, no entanto, a afirmação negra nos Estados Unidos, com Martin L. King e o Black Power; e na África, com a independência das colônias portuguesas, coincide na Bahia com o surgimento do Bloco carnavalesco Ilê Aiyê em 1974, formado só por negros da periferia, que afirmavam o valor da raça e da cultura negra: uma verdadeira revolução cultural.Com o surgimento do Movimento Negro Unificado (MNU) e do Grupo de união e Consciência Negra.

O maracatu cearense está literalmente ligado a cultura negra no estado. Diferentemente do que possa imaginar o estado do Ceará abrigou inúmeros redutos negros; famílias negras se agruparam e se isolaram por décadas em todo o território cearense. Nesse sentido várias manifestações culturais podem ser acompanhadas ao longo do tempo e observa-se a influência e presença tanto indígena quanto negra nessas manifestações populares.

O maracatu cearense teve fortes influências aborígenes. Tanto é verdade que na formação de um grupo de maracatu conta-se com uma ala dos índios. Um dos motivos a essa presença foi a afinidade religiosa e cultural do negro que aportou na terra do siará. Trazia consigo a cultura Banto. Costumes, como, por exemplo, dar um pouco de cachaça para o santo, antes de ingeri-la, são tipicamente banto. Temos o costume, de antes de comer primeiro agradarmos ao nosso ancestral, ao nosso antepassado.

Na tradição de Angola, no tocante à religião, para ser iniciado, o seguidor, tem que ter um parente consangüíneo, de primeiro ou segundo grau, falecido; a alma daquela pessoa será a sua sorte, caso contrário a pessoa não terá condições de passar pelo processo iniciático, diferente da tradição Ioruba.

O brasileiro pouco sabe que as primeiras divindades em terras brasileiras são as divindades da tradição banto, denominadas de Nkisi (magia), Nkisi para o Kikongo e Mukixi para o Kimbundu (Angola).

As culturas bantos tradicionais religiosas são divididas em segmentos. A cultura de Nkisi cujo desenvolvimento do processo não cheguei ainda a entender, não dá para entender como é o povo de Angola que deixa a maior marca na cultura brasileira, no tocante à questão religiosa do candomblé (da nação Angola). O que mais permanece é o Nkisi Congo, sendo os costumes. Aqui também precisamos entender como, sendo maior o contingente de escravos que vem de Angola, o angolano que restou de significativo foi o Nkisi que veio do Congo.

 

A religião africana perpassa o quotidiano do negro, não é algo que guarda para vivenciar nos fins de semana. Ora, o exílio não poupou a religião negra, estreitamente ligada ao ambiente doméstico, aos manes ancestrais, reais ou lendários, totêmicos ou não, onde o sacerdócio era privilégio do patriarca. Diante deste esfacelamento, bantos e sudaneses reagiram de forma diferente dentro do Brasil Colonial. (Mira, 1983 p. 105).

 

 

No caso singular da província do Ceará que culturalmente teve forte influência da cultura banto, os Bantos, cujo culto estava intimamente ligado à adoração dos mortos, isso significa dizer que os povos aborígenes e africanos que aqui conviviam estavam acostumados a ligar a dimensão temporal com as noções de transformação, de envelhecimento, de começo e fim, de passado imutável. Tudo isso remonta a uma lógica formal, isto é, o fundamental é a coerência e não a verdade. E, à medida que a vida passa há mesmo tantas e tantas situações que se fixaram, que não mais podem ser mudadas e nas quais, como Jean Paul Sartre o formulou, o homem fica preso mesmo a esses costumes que alimenta suas vidas.

Apesar de tudo isso, porém, não podemos esquecer a outra dimensão do tempo que passa. E para o povo negro e indígena essa dimensão que denominamos de cíclica o ajudar a reergue-se a cada momento. É a dimensão cíclica, pela qual, sempre há novo começo. A noite não fica definitiva e toda meia-noite é também o começo de novo dia. Por causa desta dimensão cíclica do tempo permanece acesa, também na cultura banto, uma esperança, pois, enquanto a vida dura, haverá sempre novo amanhã. Isto significa que nossos atos podem ser corrigidos. Significa que em muitos e muitos casos, podemos re-começar, podemos re-fazer amanhã aquilo que hoje fizemos mal, e por minha falha de ontem, me posso desculpar no futuro. Com a morte, porém, o homem sai da dimensão temporal, e com isso também de seus ciclos de fazer e re-fazer. O indivíduo retorna em corpo glorioso para os seus antepassados, isto na concepção da cultura banto. Na morte não há mais possibilidade de re-fazer e também acabou a certeza de que haverá repetição. Na morte acabou também a possibilidade de corrigir ainda alguma de nossas obras. Elas ficam assim, como são; nada mais pode ser mudado, tudo se tornou definitivo.

Nesse sentido terão duas saídas, segundo Roger Bastide: 1.Conforme a primeira, a alma retornava “post-mortem” ao país dos antepassados, reencarnando os seres livres, ou aumentando o número de ancestrais deificados. Esta solução foi mais própria dos membros da família exilada, não de grupos inteiros. Daí que não era de estranhar que muitos africanos deste grupo partissem para o suicídio como forma de mais rapidamente encontrar os seus antepassados. O que não invalidava, também a busca do suicídio devido aos maus tratos sofridos na escravidão Cearense. Em muitos momentos ela era melhor remédio. Falo isso para, de antemão, identificar e combater certas opiniões divulgadas sobre a escravidão no Ceará como branda. 2. A segunda saída seria fazer uma releitura das religiões católicas e indígena à luz do culto dos mortos. Para isso esta última muito se prestava pelo fato de seus sacerdotes (pajés) fazerem falar os mortos, entrando a seguir, as índias em transe. Eis porque os bantos entraram em harmonia com o catimbó e a pajelança.

Consultamos o nosso antepassado para tudo, até para o que vamos falar, ou antes, de tomar qualquer decisão. Eu tenho meu avô, minha avó e meu irmão mais velho. Nós chamamos de sombra. Se não tiver a sombra de um parente, a pessoa não tem condições de passar pelos ritos de iniciação. Não se podem reverenciar pessoas que tenham sido assassinadas ou sejam suicidas. É diferente da tradição Ioruba, porque o tratamento desta questão do ancestral, tem um culto próprio. Em uma cerimônia religiosa ioruba, se uma pessoa é tomada, este espírito é afugentado, na tradição banto ele recebe uma espécie de doutrina. Se por exemplo meu vizinho morrer e tiver sido uma boa pessoa, eu posso invocar o seu espírito para fazer parte de minha casa. O Ioruba chama isto de Egum. Uma entidade ioruba não se manifestaria se estivesse uma pessoa tomada por um ancestral. Na tradição banto o tratamento do morto tem importância fundamental e isso também está na alma do povo brasileiro, como por exemplo, ao reverenciar as fotos dos mortos.

Percebe-se que índios e negros no Ceará caminham com objetivos comuns, herdados das culturas semelhantes.

Agora existia algumas diferenças entre Ioruba e banto que aqui habitavam. Tanto é que para o indígena a aproximação foi feita com o banto e muito menos com o ioruba. Eis algumas diferenças: no ioruba, Exu que é o senhor dos caminhos é absolutamente o homem e o orixá. Na cultura Banto isso muda, quem é encarregado de fazer esse mesmo trabalho é o morto. Seria o Egum para o Banto.

O candomblé hoje passa por um processo de transformação muito grande e isso acontece em virtude das discussões nos eventos que têm sido realizados juntando as lideranças, os sacerdotes, os seguidores de uma forma geral para uma discussão mais ampla, inclusive o maior pólo das discussões da religião afro brasileira, é São Paulo.

Existe hoje a preocupação de usar os espaços que ficam ociosos para trabalho social e ecológico, como assistência à população em campanhas de prevenção ao vírus HIV, doenças sexualmente transmissíveis, campanhas do agasalho etc., são coisas que não existiam antes. Quem tem espaço físico tem creches onde crianças pobres são assistidas, enfim o candomblé hoje faz o que vem sendo feito nos presídios, seguindo o evangelho. A minha visão do candomblé no futuro é um candomblé melhor organizado, mas isso depende das casas mães. Se por um lado Pierre Verger contribuiu para a divulgação da tradição de orixás, por outro ele procedeu a um processo de branqueamento do candomblé.

Embora a Bahia seja a terra mãe da maior parte dessa cultura. Eu costumo dizer que a Bahia faz o candomblé e São Paulo pensa o candomblé. No Ceará obseva-se uma certa organização das religiões de matizes africanas. Elas buscam interagir mais com outros estados, principalmente com a Bahia. Está havendo a preocupação dos pais e mães de santo com os rumos que estão sendo seguidos e os fóruns de discussão utilizados, são os congressos que acontecem no eixo São Paulo – Bahia. Estes eventos têm-se transformado em espaços para a organização do candomblé expurgando os conceitos negativos, tentando educar a criança, que é aquilo que está nascendo.

Mas o que isso tem haver com o maracatu cearense? É que o maracatu cearense passa por esse processo. E com a formação do maracatu no Ceará não foi diferente. Os passos no cortejo diferenciam com leves gingados e instrumentos percussivos diferenciados mais artesanalmente trabalhados com características muito próximas.

Muitas são as fontes documentais e bibliográficas que se referem sobre os índios do Ceará, a grande maioria de tribos indígenas cearenses desenvolvem a cerâmica e a cestaria, como trabalho de subexistência. Os cestos são, em sua grande maioria, produzidos a partir de folhas de palmeiras e usados para guardar alimentos. Já na cerâmica, são produzidos vasos (às vezes zoomóficos) e panelas através do barro modelado. Tanto na cerâmica como na cestaria, são usados também a pintura (a mesma de seu corpo) e desenho abstrados para colorir seus trabalhos. Os índios também valorizam muito a música. Muitos instrumentos musicais foram criados pelos indígenas, como flautas e chocalhos. A música era usada por todas as tribos como passatempo ou em rituais sagrados. identificando sua diversidade étnica. Leite assim compreende:

 

 

Ao mesmo tempo em que não os diferencia, os coloca como de natureza semelhantes – não em cultura, mas no trato para com os europeus, pois teriam um caráter indômito.(...) populações indígenas situadas entre as proximidades do rio siará e as fraldas serranas próximas a Maranguape eram compostas de índios potiguares genealogicamente ligados aos que se mantinham nos sertões de Capoaba, Rio Grande e Paraíba, dos quais noticia o padre Francisco Pinto em Interessante carta de 1599 ( LEITE, 1945, p. 521).

 

 

Acrescentamos uma observação que na mesma margem do situado rio habitava um agromerado de negros vindo ou forçado a saírem do Jacarecanga e permaneceram nessa área hoje denominada de Arpoador, Goiabeiras e Barra do Ceará. Em Maranguape notícia se tem de populações negras, algumas escravizadas nos arredores do lugarejo. Esses negros bantos se misturavam com os índios e conviviam naturalmente.

A população negra no continente é, em sua maioria, pobre. A situação de pobreza em que vive não eliminou sua tradição de luta, resistência, fé e seus valores étnico-culturais. O “estado de pobreza”, muitas vezes, apresenta desafios, situações quase impossíveis de solucionar. A pobreza traz toda sorte de carências. Desestrutura a vida emotiva, as relações com os outros, impede a vocação essencial do ser humano de desenvolver e expandir suas capacidades para além do instinto de sobrevivência. A situação de pobreza leva ao ódio, à inveja, à violência contra os que mantêm os pobres em tal situação, ao desespero contra Deus e, às vezes, faz levantar o punho contra o céu.

Para ordenar a administração dos negros trazidos como escravos para o Brasil a partir de 1538, os colonizadores portugueses incentivaram a instituição de reis e rainhas negros protegidos pelas irmandades de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito. As Irmandades negras foram, no Brasil Colônia, um fiel espelho da sua divisão em classes e castas; espaço não carente de uma certa ambigüidade, pois enquanto possibilitavam a organização de negros e escravos, ao mesmo tempo permitiam o controle do poder sobre estes grupos. Nesse sentido Russelwood (1999,p.525) faz um destaque que nos chama atenção:

 

É importante destacar que as populações negras buscaram se organizar por meio de irmandades religiosas para promover a ajuda mútua, propalando também suas práticas culturais religiosas no universo do catolicismo, num processo de construção e reconstrução de sua identidade na América, embora houvesse a existência da diáspora africana, do tráfico negreiro e da escravidão empreendidos no Novo Mundo. As mazelas sociais que atingiam as populações negras, influenciaram o aumento do número de irmandades religiosas nas regiões de mineração (Russelwood, 1999, p. 525).

 

 

Ainda no século XVIII, elas reuniam e distinguiam brancos, negros, pardos, escravos e livres, e tiveram mais peso social do que as corporações de ofícios(Silva,1008). As irmandades serviam também de função de auxiliar na alforria dos negros escravisados e de promover status social que foi decaindo a partir do século XIX, com a abertura de outros canais de ascensão social, mas a preocupação com os mais pobres, as mulheres desamparadas, a saúde e os enterros dígnos continuou mantendo em pé várias irmandades. Nesse sentido Chiavenato (1980, p.113) nos alerta ao afirmar:

A origem das irmandades, que exerceriam um papel importante no Brasil, principalmente na Bahia e em Minas durante a mineração, remonta ao ano de 1264, quanro o papa Urbano IV inventou a festa do Santíssimo Sacramento e criou as irmandades ou confrarias para comemorá-la. As irmandades mineiras e baianas (e também as cearenses, grifo meu) nasceram daí e serviram no Brasil menos para a festa do Santíssimo Sacramento e mais para o “amansamento” dos negros, afastando-os também das igrejas dos senhores. Não deixa de ser interessante que essas irmandades copiam o modelo racista dos brancos e cabam por permitir apenas negros na sua formação, cumprindo assim tranquilamente o seu papel: os negros têm a “sua”igreja, a sua irmandade, não precisam ir à igreja dos brancos. Satisfazem-se com isso; a divisão pacífica entre negros e brancos nas irmandades é bem visível em Ouro Preto de 1715 a 1743, (mas também muito forte em Fortaleza e Iço e Sobral, grifo meu).

 

 

 

Em os constroem em Fortaleza, próximo ao , o . E dentro do memo terreno militar é erguida a Igreja de Nossa Senhora do Rosário em 1730 com a mão de obra negra escravisada e livres e que contribuiam com a elite da época oriundos de Aquiraz. Após a sua expulsão em Pernambuco, entregam o forte aos portugueses, que contando com o apoio dos indíos e negros livres, restabelecem o poderio português, rebatizando-o de .

A igreja de Nossa Senhora do Rosário foi duas vezes catedral de Fortaleza. Em seu piso de madeira oco no centro do templo contém jazidas onde estão sepultados 54 corpos. 50 de adultos e 4 crianças. Os corpos das crianças se encontra na primeira fileira da entrada principal do templo religioso. Observa-se na entrada nove jazidas as quais os corpos das crianças serão da quarta a sétima jazida, portando na porta principal. Os corpos encontrados na Igreja de Nossa Senhora do Rosário foram reconhecidos como sendo de negros, provavelmente de pessoas com muita influência para a comunidade local. Podemos crer ser de negros pertencente a Irmandade e baseados nas observações de Silva (1998,p.79) que confirma:

 

 

Terceiros seculares são aqueles que vivendo no século, debaixo da direção de alguma ordem e conforme o espírito da mesma, se esforçam por adquirir a perfeição cristã de uma maneira acomodada à fé cristã. As Associações de fiéis que tenham sido erectas para exercer alguma obra de caridade ou piedade, se denominam pias-uniões; as quais, se estão constituídas em organismos se chamam Irmandade. E as irmandades que tenham sido erectas ainda mais para o incremento do culto público recebem o nome particular de Confrarias. As irmandades e confrarias que gozam da faculdade para agregar a si, outras da mesma espécie, se chamam arqui0irmandades ou arquiconfrarias. (Silva, 1998, p79)

 

 

 

A Igreja de Nossa Senhora do Rosário de Fortaleza abriga, também os restos mortais de Major Facundo de Castro Menezes, vice presidente da provincia, assassinado a 8 de dezembro de 1841, sendo presidente José Joaquim Coelho. Quanto aos negros ali enterrados sendo da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário é provavel que os memos tinham uma forte ligação tanto com o clero, bem como com a comunidade negra livre e escrava que habitava Fortaleza no século XVIII, pois tinham essa Irmandade a política de associação religiosa colonial e principalmente no caso das Irmandades negras visavam ser um complemento na obra da evangelização. A Igreja que, juntamente com o estado, lucrava com a escravidão, não podia permanecer indiferente à problemática do negro escravisado, deveria tomar alguma posição, por superficial que fosse. A política da irmandade foi uma saída.

Foi durante a existência das irmandades religiosas que surgiram as Congadas e o maracatu, ou seja, a coroação de um Rei Congo no Brasil, nas festas religiosas e populares. As Congadas são manifestações das práticas culturais religiosas das populações negras. Elas foram permitidas pelos representantes da Igreja católica no período do Brasil colonial, porque eram organizadas pelos negros das irmandades religiosas. Na América portuguesa, os representantes eclesiásticos católicos consentiram que as populações negras se organizarem por meio das irmandades religiosas. Embora eles procurassem controlar a manifestação das práticas culturais religiosas dos negros na colônia. Naquele contexto histórico, as irmandades religiosas eram associações de suma importância, pois procuravam possibilitar a ajuda mútua às populações negras, constituindo-se em espaços de convivência social, onde podia se preservar aspectos das práticas culturais do continente de origem, a África. Mesmo participando de atividades que compunham o calendário da Igreja católica, religião oficial do período.

Nessas festas, havia uma forte presença dos elementos do catolicismo, e também da música e da dança trazidas da África. Nos orienta com convicção Araújo (2003,p.40) ao afirmar:

 

Por isso, as coroações de Rei Congo não foram proibidas. Os negros cantavam misturando a língua africana com a portuguesa. Dançavam e festejavam fora dos padrões dos europeus. Em contrapartida, “os membros da Igreja e da elite escravista achavam, ou preferiam achar, que se tratava de uma manifestação da fé cristã”. Isso propiciou proteção às irmandades e permitiu as populações negras relembrarem e conservarem traços das práticas culturais de uma África anterior à escravidão, empreendida pelo homem branco. (Araújo, 2003, p. 40).

 

Assim o Maracatu Cearense com seu brilho participa a cada ano do carnaval de rua de Fortaleza e de alguns municípios do estado do Ceará. O desfile no domingo de carvaval em Fortaleza, embelaza a capital tornando-a a capital do maracatu no Brasil.

Em 1981 desfila no carnaval de rua de Fortaleza o Maracatu Ás de Ouro, Maracatu Leão Coroado, Maracatu Nação Africana, Maracatu rei de Paus, Maracatu Rei de Espada, Maracatu Vozes da África, portanto, 6 maracatus. De 1980 para 2000 um percurso de 20 anos muita coisa mudou, especialmente a organização popular, mas podia-se notar a falta de organização tanto de alguns grupos de maracatu quanto da federação que lhes representava. Segundo Oliveira (1977, p. 32):

 

O que ocorreu com o Maracatu Vozes d’África, no desfile de rua do carnaval de 1997, um caso típico de desorganização, que pode também ser enquadrada numa falha no controle: o grupo foi desclassificado por descumprir o horário estabelecido pela Federação das Agremiações Carnavalescas do Ceará para iniciar a apresentação. Portanto aconteceu a indesejável “catástrofe” que, a rigor, evidenciou ainda o desconhecimento total dos demais elementos da administração clássica: previsão, organização, comando e coordenação. Como se sabe, a administração constitui um fator de grande importância na direção dos negócios quer sejam grandes ou pequenos, industriais, comerciais, políticos, religiosos ou de qualquer outro ramo. Portanto requer importância. Cabemos também lembrar que o Maracatu Nação Baobab, na mesma ocasião, falhou administrativamente ao não levar para o desfile o balaio, um dos quesitos que obrigatoriamente entra no julgamento oficial. Pelos exemplos, podemos inferir que o maracatu precisa passar por grandes transformações estruturais, para sobreviver na conjuntura atual. A curto prazo, acreditamos que a solução mais viável seria a sua transformação em pequena empresa, idéia esta defendida por alguns entrevistados. Há necessidade de se mudar a atual cultura organizacional empírica o que será objeto de reflexão nas recomendações finais. Oliveira (1977, p. 32)

 

 

Mas, para o olhar do pesquisador a meu ver é diferenciado, pois apesar de ser um observador somos de certa maneira o responsável de identificar a realidade e tratá-la tal como nos foi imposta. Nesse sentido relendo Oliveira ( 1997, p.54), ele frisa:

O conteúdo metodológico engloba também nossa experiência - logo nosso conhecimento empírico - graças ao envolvimento direto com Maracatu por mais de 20 anos. A primeira vez que vimos Maracatu, foi no Carnaval de Fortaleza. Tínhamos dez anos e morávamos em nossa cidade natal, Palmácia. Ficamos fascinados, principalmente com o magnetismo da Rainha a pompa da corte num contraste com os personagens escravos e negras, com o corpo desnudado apresentando o falso negrume que nos transportava à Mãe África. Residindo em Fortaleza na época do rádio e do apogeu frenético dos programas de auditórios, como os da Rádio Iracema (Fim de Semana na Taba e Programa Irapuan Lima) e da Ceará Rádio Clube (Divertimentos em Seqüência) comprovamos que as duas emissoras valorizavam o telúrico, as tradições, a nossa cultura. Neste cenário, os grupos de maracatus da época, eram também atrações de primeira grandeza. A cada semana uma Rainha era convidada a participar. Havia competições, entrega de troféus e premiações no final da promoção. O público se envolvia, vibrava e dançava ao som dolente do maracatu. Os jornais também faziam amplas reportagens e abrindo manchetes com os maracatus campeões do carnaval. Articulistas e folcloristas ocupavam-se do tema em artigos na imprensa. Os que chegavam em nossas mãos eram recortados e cuidadosamente guardados, para pesquisas futura. (Oliveira,1997, p. 54).

 

 

O Maracatu Nação Iracema inicia sua vida jurídica em 13 de maio de 2002. No carnaval de 2003 o Maracatu Nação Iracema desfila como estreante nas ruas de Fortaleza. Com cores básicas definidas: azul, ouro e prata. O azul representa o firmamento. O território ao qual pode-se galgar. O azul da imensidão, de como e porque se chega a uma meta a fim de atingir um objetivo. O azul é isso para o Maracatu Nação Iracema. O ouro representa a riqueza do povo, mas de um povo organizado, estruturado e com objetivos delineados. A prata representa o brilho ofuscante diferenciado da comunidade, embora sofrida e abandonada se reergue e delineia novos caminhos.

Mas, o Maracatu Nação Iracema não se limita em apenas três cores, ele se identifica com o colorido das demais, afinal de contas, elas transmitem alegrias e exuberância , auto estima e autoconfiança. As cores para o Nação Iracema são uma referência irreverente, sadia e harmoniosa.

Contudo, a Associação Nação Iracema resolveu definir a cada ano uma cor básica que predominará em toda agremiação. Cada cor se relacionará com as cores básicas: azul, ouro e prata e terá sintonia com a loa e com o batuque. Cruz, no esforço dessa compreensão escreve:

Com a finalidade de compreender essas questões, ou melhor, essas contradições que perpassam o maracatu Nação Iracema, foquei meu olhar sobre um contexto macro. Logo, nas diversas interpretações sobre essa prática cultural denominada de maracatu, nas atividades empreendidas na Associação Nação Iracema, nas pessoas que freqüentam esse espaço, no bairro Jardim Iracema e seus moradores, e, sobretudo em todo o processo de elaboração do momento que percebi como o mais importante para os brincantes: o desfile de Carnaval na avenida Domingos Olímpio. Como a confecção do maracatu ocorre em intenso diálogo com todas essas questões, como expresso no decorrer do trabalho, busquei mostrar como esses aspectos estão inter-relacionados. Logo, a elaboração do maracatu não é resultado somente do empenho das pessoas que dele participam, mas sim do entrecruzamento de elementos de um contexto maior. Foi em referência a todos esses contextos que produzi este trabalho investigativo com a finalidade, dentre outras coisas, de possibilitar ao leitor a visualização do grande dia: o desfile na avenida Domingos Olímpio, particularmente os bastidores de todo esse processo. (Cruz , 2008, p. 14 )

 

 

No ano de 2003 – ano de estréia do Maracatu Nação Iracema a loa foi: “ Dêem licença” de autoria de Descartes Gadelha, pede licença a comunidade para entrada do Maracatu na avenida.

 

Loa: Dêem Licença

 

Boa noite senhores

Boa noite senhoras

Dêem licença senhores

Dêem licença senhoras

 

É o maracatu Nação Iracema

Que veio dançar

Lá no bairro da índia

Dos lábios de mel

De José de Alencar

 

Santo Antônio da floresta, ô, ô

Foi quem iluminou

E o Padre Andrade

A Cachoeirinha abençoou

Ao coronel Carvalho

Missionário do grande amor, ô,ô

Nossa gratidão

Por esse chão que nos presenteou

 

No Jardim Iracema

O perfume das rosas

O luar pelas portas

Tocando os corações

Jardim Iracema

Bairro sagrado

Do trabalhador, ô,ô

Gente de fé

E agradecida ao criador.

 

Lá lá lá lá lá lá

Ô, ô

Lá lá lá lá lá lá

Ô, ô

Lá lá lá lá lá lá

Ô, ô

Lá lá lá lá lá lá

Ô, ô

 

Dêem licença senhores, dêem licença senhoras’’ simboliza, na cultura banto uma hierarquia familiar, patriarcal. Um abrir caminho, pedir uma benção aos mais velhos para seguir o destino. Assim, Cruz muito bem se expressa:

 

Aos que desconhecem o processo de elaboração do Carnaval na avenida Domingos Olímpio é possível que passe desapercebido todo o aparato simbólico que fornece sustentação à operacionalização do desfile. Verifiquei rotineiramente no período carnavalesco, discursos que tomam a Domingos Olímpio como o local de entretenimento das pessoas menos favorecidas economicamente. É fortemente apregoado pelo senso comum que em razão das escassas opções de divertimento na cidade à ocasião do Carnaval, um fluxo de pessoas desfavorecidas socialmente dirige-se à avenida. Mas, será que essa é a única motivação do deslocamento à avenida, uma vez que destaco na descrição pessoas empenhadas durante todo o ano na elaboração do desfile, e outras atentas à apresentação? Desse modo, como entender as formulações simbólicas que perpassam o desfile como um todo? De que modo apreender e também distinguir aquilo que é dito daquilo que se expressa por meio de comportamentos bem marcados, portanto, profundamente ritualizados? O que significa, então, a avenida para os brincantes do maracatu Nação Iracema? Quais sentidos comportam o maracatu?

O desfile do maracatu Nação Iracema se cerca de significados ao ser pensado como profundamente performativo, cuja parte significativa dos integrantes se esmera durante todo o ano para, dentre outros fins, obter na avenida um desempenho satisfatório e com isso conquistar a vitória na competição. Falhas e esquecimentos são somente permitidos nos momentos que precedem a entrada na avenida, pois nesta tudo deve estar elaborado com fins de uma boa transmissão das mensagens que se deseja passar à platéia.

A compreensão mais aprofundada dos significados da avenida para o público e, particularmente, para os brincantes do Nação Iracema somente é possível se for pensado o modo como as relações foram tecidas ao longo da elaboração do desfile. Apenas assim será possível identificar que sentidos a avenida e, mais especificamente, o desfile acionam. Nesse contexto, é preciso pensar os bastidores de todo o processo que desembocou em todo aquele brilho, luxo e euforia que se expressam no dia do desfile: o grande dia daqueles brincantes. Assim, para entender os múltiplos sentidos emanados pelo desfile é necessário percorrer, por meio do texto, uma longa estrada que nos leva a algumas questões tais como: de que modo essa manifestação cultural denominada de maracatu se constituiu ao longo do tempo? Que discursos fundamentam o maracatu Nação Iracema e por que ele é entendido pelos brincantes como especial? Em que contexto de Fortaleza se situa a Associação que se empenha na confecção de um grupo de maracatu? Que elementos expressam a negritude no Nação Iracema? (Cruz, 2008, p.41)

 

A intenção da entrada do Maracatu Nação Iracema é formalizar de direito a entrada de uma organização social de luta em defesa dos negros no Ceará. Nesse sentido, a Associação Nação Iracema oriunda da caminhada do Movimento Negro quer trazer reflexões para a sociedade no sentido da preocupação no combate ao preconceito racial. Identificar os problemas raciais, e buscar mecanismos para eliminar tais atitudes anti sociais. Combater o Estado racista e preconceituoso e implantar um estado solidário e justo para todos e todas. Na compreensão de Teodoro (2002, p.20) ao relatar:

 

É sabido de todos que toda a população brasileira (sobretudo de classe média para baixo), independente de sua cor, está sofrendo as conseqüências de uma economia mal gerida, de mecanismos de controle social que se tornam meros instrumentos de repressão e violência, dentro desse quadro as pesquisas sérias e respeitáveis mostram a maioria da população brasileira negra no extremo da fila dos explorados. Se é indispensável participar do movimento social em suas organizações políticas, é igualmente indispensável levar dentro delas a questão racial. Levar a questão racial dentro dos partidos políticos, dentro das centrais de trabalhadores, dentro das instituições de ensino e saúde ou abdicar da sobrevivência do grupo étnico negro são hoje duas possibilidades indiscutíveis face aos dados estatísticos e à prática social. (Teodoro, 2002, p.20).

 

Como marcar passos contra o racismo, assistindo um movimento social negro copitado pelo Estado? A luta é preciso. Teodoro (2002,p.20) assim se expressa:

 

No Brasil ao longo dos séculos os costumes eurocêntricos tem diminuído e influenciado a população negra no tocante a sua cultura de raiz, tornando-a mais individualista, e com práticas e atitudes isoladas. Dificultando a organização dessa população. Essas atitudes faz transparecer que a população afro descendentes não tem referencial sócio cultural e estão ilhadas no processo social. Hoje, vivencia-se um mecanismo de opressão mais sofisticado e sutil, tanto dos meios de comunicação bem como educacional e produção intelectual. “Mas diferentemente dos líderes do movimento negro e seus aliados, a elite branca não está sozinha. A opressão simbólica exercida através do sistema educacional, dos meios de comunicação de massa e da produção intelectual lhe garantem inteiro apoio popular: não apenas da população branca, mas também da negra, da mulata, da indígena, da joponesa, uma vez que todas elas estão subordinadas ao mesmo processo de doutrinamento anti-negro. No contexto brasileiro é impossível que todas essas esferas de produção resultem em múltiplos inconscientes coletivos. ( Teodoro,2002,p 20).

 

 

Seguindo esse foco encontramos na caminhada a luta de Paulo Tadeu, fervoroso incentivador da cultura. Responsável pela nascimento dos Maracatus: Vozes da África e Nação Iracema. Oliveira(1997,p.54) sempre incentiva ao afirmar:

 

Em nossa vida profissional não perdíamos um só ensaio de maracatus, indagávamos, conversávamos com os dirigentes e os brincantes. Enfim procurávamos conhecer em profundidade a história daquele folguedo que tanto nos interessava. Sempre nos envolvíamos com a história do folguedo. Na década de 70 implantou-se no Ceará o modelo carioca de escolas de samba que praticamente não sobreviveu pois eram criadas a miúdo, com garra e dedicação. Mas elas não resistiram por falta de tradição: não temos mulatas brejeiras, sambista de morro, compositores exclusivamente identificados com o samba de enredo. Não queremos polemizar, mas apenas levantar expectativas. Seja como for a verdade é que os maracatus foram perdendo espaço para as "Escolas de Samba". Como já frisamos, "a cópia carioca" não funcionou e foi praticamente extintas. O que resta na Capital, na categoria de Escolas é um simples arremedo. Não podemos deixar de reconhecer porém, o movimento que vem surgindo ultimamente no Município de Maracanaú em termos de Escola de Samba, ofuscando até o que restou das de Fortaleza. Enquanto jornalista e folclorista, apoiado por setores simpatizantes do segmento maracatu, tanto na imprensa como na área política onde trabalhávamos como cronista, conseguimos projetar os grupos afro-brasileiros. Ora nas páginas de jornais, ora em eventos como congressos e apresentações para turistas. Na administração do Prefeito Lúcio Alcântara idealizamos o Dia do Maracatu, ainda hoje comemorado em Fortaleza, inicialmente em 13 de maio, atualmente em 25 de março, ambas as datas identificadas com a abolição da escravatura. Nosso envolvimento fez com que no período de 1979-80 presidíssemos o Maracatu Ás de Ouro a pedido do seu incansável condutor Joaquim Pessoa de Araújo (Juca). Mesmo sem nos fantasiarmos nem nos caracterizarmos de brincante, assumimos a diretoria e projetamos a agremiação com excursões ao interior do Estado. (Oliveira,1997, p.54).

 

O Maracatu é uma beleza silenciosa que aparece, para alguns uma vez ao ano. Mas a vida dos barracões é muito diferente, trabalha-se o ano todo para concretizar esse silêncio belo. O Maracatu tem seu projeto de cidadania.

O carnaval de Rua em Fortaleza iniciou-se no final do Século XIX, mas foi proibido por um período, em 1905, pelo intendente Guilherme Rocha. Nos desfiles da época eram comuns pessoas fantasiadas chamadas de ´papangus´ e ´dominós´. Havia também os ´caboclos´, remanescentes dos indígenas de Porangaba (NIREZ, 1993, p. 3). De acordo com Nirez (1993):

 

o carnaval de Fortaleza era mais ou menos animado, conforme a situação

econômica e social da época. Em tempo de revolta ou guerra, era desanimado e

em tempo de paz e harmonia era muito animado. Nas décadas de 1910 e 1920,

predominava o carnaval de clubes. Na década de 1930, o carnaval de rua

começou a se tornar mais popular, quando blocos foram formados por músicos,

comerciários e trabalhadores, denominados ´brincantes´, com a

orquestra na retaguarda. Na frente havia sempre um baliza, que fazia acrobacias

com bastão à mão. Esses blocos tinham compositores próprios que geralmente

faziam marchas especiais para o Carnaval. Mais tarde surgiram os blocos que

dançavam ao som de samba. O primeiro desses blocos foi o ´Prova de Fogo´,

seguido da ´Escola de Samba Lauro Maia´, que se transformaria, mais tarde, na

´Escola de Samba Luiz Assunção´.O desfile, chamado de ´corso´, nas décadas

de 1930, 1940 e 1950, teve várias formas. Os blocos se reuniam na Praça do

Ferreira e desciam para a Avenida Duque de Caxias, fazendo o retorno ao ponto

inicial. Mais tarde, passaram a fazer um círculo, voltando por outras ruas. Por fim,

a concentração passou a ser no Passeio Público, seguindo o desfile pela Rua

Major Facundo até a Praça do Ferreira, onde atravessavam em diagonal,

retomando pela Floriano Peixoto, indo até a Avenida Duque de Caxias, voltando

pelas Ruas Senador Pompeu e João Moreira e desfaziam-se quando chegavam

novamente ao Passeio Público. Houve anos em que o desfile 

grandes avenidas, como a Tristão Gonçalves, a Duque de Caxias e a Dom

Manuel (NIREZ, 1993).

O pesquisador ainda afirma que:


Os blocos de Maracatus em Fortaleza surgiram em meados da década de 1930 e

eram diferentes dos Maracatus de Recife. Enquanto os pernambucanos vêm de

uma tradição secular, os de Fortaleza era somente uma brincadeira de carnaval.

Como nos Maracatus originais do Recife, os Maracatus de Fortaleza tinham

várias vestimentas dentro de um mesmo bloco, com a rainha, o rei, o índio, as

baianas, o baliza, e outros. Vários blocos carnavalescos fizeram parte do

carnaval de rua de Fortaleza no início do século XX e entre eles encontravam-se

os blocos de Maracatus, como o Az de Ouro, o Az de Espadas, o Estrela brilhante

e o Rei de Paus (NIREZ, 1993).

 

A cadência própria e original do ritmo do Maracatu cearense foi adquirida ao longo do tempo. De acordo com Calé Alencar (2000), presidente do Maracatu Nação Fortaleza. O Maracatu do Ceará é a mais tradicional manifestação cultural de origem afro presente na cultura popular cearense e em especial no carnaval de rua de Fortaleza, onde se impôs como força representativa apresentando seu cortejo com imponência e beleza. Em suas apresentações, os batuqueiros e os tiradores de loas, responsáveis pela parte musical do cortejo, entoam cânticos homenageando orixás e figuras expressivas da cultura e da história afro-brasileira.
Os Maracatus Az de Ouro, Rei de Paus, Vozes d´África, Nação Baobab e Rei de Espada desfilam em Fortaleza regularmente com seu séquito, trazendo a representação do cortejo real africano em homenagem à Rainha N´Ginga N´Bandi e reproduzindo as coroações dos Reis do Congo organizadas no século XIX pelas Irmandades religiosas (ALENCAR 2000). José Augusto Lopes (2004, p. 5) afirma que:



´
[...] os cearenses nunca figuraram entre os mais entusiasmados brincantes do

Brasil. Há quem atribua essa evidência à existência de poucos afro-brasileiros no

Ceará´. Entretanto, ´apesar de seus limites o carnaval de rua fortalezense teve

suas peculiaridades. Uma delas eram os exuberantes carros alegóricos das

prostitutas, todas elas residentes nas inúmeras ´pensões alegres´ então

existentes no Centro da cidade´. Além dos carros alegóricos os blocos de

Maracatu sempre enriqueceram e animaram o carnaval de rua de Fortaleza.

 

O maracatu é um ritmo tradicional do nordeste do Brasil. Nas cidades Recife e Olinda, no coração do estado de Pernambuco o maracatu desenvolveu-se a mais de 400 anos da música e tradição dos negros escravisados proveniente da Africa.

De saída do Porto Novo, os Português exportavam do reino Dahomey com a capital Abomey (hoje Benin) membros das tribos das Fon, Nagô, Yoruba, Adja, Ewes e Minas. Com os negros escravisados vem também os cultos do vudu (Orixá na língua Yoruba) para América do Sul.
Misturado com as religiãos das tribos da África Central desenvolveu-se o Candomblé. A maioria dos cantos e preces do Brasil até Haiti e Cuba estão até hoje em Yoruba e, ou Nagô , outra língua da África do leste.

Desde o século XVII o maracatu é tocado mais ou menos como hoje: O gongue faz o ritmo, as caixas, tambores de guerra, formão o tapete de ritmo com os ganzas e shekere e as alfaias, os tambores de madeira, que tocão os toques differentes, -variações do ritmo.

 

No Ceará o Maracatu é a mais tradicional dança dramática de origem afro- descendente presente na cultura do povo cearense, configurando um cortejo formado por baliza, porta-estandarte, índios brasileiros e nativos africanos, negras e baianas, negra da calunga, negra do incenso, balaieiro, casal de pretos velhos, pajes, tiradores de loas e batuqueiros, em reverência a uma rainha negra e sua corte real. No Ceará, o povo caboclo usa uma mistura de fuligem, talco, óleo infantil e vaselina em pasta para tingir o rosto de negro.

O ritmo do maracatu cearense é apresentado por um grupo de percussão no qual incluem-se caixas, utilizadas sem esteira para acentuar a batida grave, surdos, bumbos, ganzás, chocalhos e triângulos, também chamados de ferros, confeccionados com molas de transporte pesado, o que lhes confere um timbre característico e uma sonoridade acentuada, destacando-se dos demais instrumentos. O macumbeiro ou tirador de loas é quem canta as toadas, nas quais são geralmente enfocados temas ligados à cultura, à religião e à história da África e do Brasil.

O Maracatu está relacionado à chegada dos africanos em Portugal no fim da idade média. Ao entrar em contato com a religião católica, os africanos fizeram associações entre os santos católicos e as divindades africanas. Uma delas foi a de Nossa Senhora do Rosário. A imagem da Santa tem, ao redor do pescoço, um colar de rosas (rosário), similar ao colar de Ifá (orixá que previa o futuro). Assim, os escravos que chegaram à Europa no séc. XV passaram a ser devotos de Nossa Senhora do Rosário. Com isso foi criada a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos. Mesmo escravizados, os negros construíam igrejas em homenagem à Santa onde se estabeleciam. Uma vez por ano, no dia 7 de outubro, dia de Nossa Senhora do Rosário, os escravos tinham folga. Nesse dia, faziam o ritual de coroação do rei e da rainha da irmandade.

 

Em Fortaleza, conforme registrado no livro Idéias e Palavras, existiam os maracatus do Morro do Moinho (Arraial Moura Brasil, por trás da Estação Central), do Beco da Apertada Hora (atual rua Governador Sampaio), da rua de São Cosme (atual rua Padre Mororó), do Outeiro (Aldeota antiga, atual região do Colégio Militar) e o do Manoel Furtado.

O maracatu cearense chegou ao carnaval, desfilando oficialmente como agremiação carnavalesca, em 1937, através de um convite feito pelo então Rei Momo Ponce de Leon ao Maracatu Az de Ouro, fundado em 1936 por Raimundo Alves Feitosa, compositor e tirador de loas também conhecido como Raimundo Boca Aberta.

A partir da década de 1950 surgiram outros grupos como Estrela Brilhante, Az de Espada e Leão Coroado, agremiações de grande destaque nos desfiles carnavalescos, contribuindo com a riqueza de seus cortejos para a consolidação do maracatu cearense como uma das mais importantes expressões de cultura popular tradicional do Ceará.

Na história dos maracatus em Fortaleza registra um expressivo número de grupos, muitos deles extintos, como é o caso dos maracatus Rancho Alegre, Nação Africana, Rei de Espada, Rei dos Palmares, Nação Uirapuru, Nação Gengibre, Nação Verdes Mares e Rancho de Iracema.

Nas décadas de 70 e 80, durante a ditadura militar, o maracatu cearense sofreu uma decadência, tanto na qualidade dos desfiles, quanto na quantidade, chegando ao ponto se só haverem 2 maracatus em atividade. Nesse período, os desfiles de maracatu foram incoerentemente obrigados a apresentar um enredo, apresentando-se na avenida como se fossem as escolas de samba do carnaval carioca.

Felizmente, o maracatu cearense incorporou algumas modificações construtivas, como algumas modificações nas vestimentas e a inclusão dos capoeiristas, e abandonou as modificações inadequadas ao maracatu, como os enredos e os carros alegóricos. Atualmente, no Ceará, existem grupos na região do Cariri, sobral e Fortaleza.

Em 1981 desfilaram no carnaval de Fortaleza os maracatus: Ás de Ouro, Leão coroado, Nação Africana, Rei de Paus, Rei de Espada e Vozes da África.

O ritual de coroação teria dado origem à vários autos e danças, incorporados ao folclore brasileiro desde o século XVII. Entre eles, o Auto dos Reis de Congo, o Congado e o Maracatu. De fato, o maracatu é parecido com o ritual: um cortejo com música para a coroação de uma rainha negra.

Nos registros mais antigos, os desfiles de maracatu em Fortaleza ocorriam nas festas do ciclo natalino, nas festas da Nossa Senhora do Rosário e de Corpus Christi, onde não eram bem aceitos. Á partir de 1937, com o desfile de estréia do maracatu Az de Ouro, criado por Raimundo Alves Feitosa (Raimundo Boca-aberta) em 1936, o maracatu cearense passou a assumir a formação de um bloco carnavalesco e a desfilar durante os carnavais, como ocorre até hoje. Além de ter criado o maracatu Az de Ouro, existente até hoje, e ter adaptado o maracatu para os desfiles carnavalescos, Raimundo Boca-aberta foi um dos maiores compositores de loas de que se tem notícia e um compositor dos mais notáveis.

O ritmo do maracatu cearense nas primeiras décadas do século XX, como se pode escutar nos registros de Luiz Heitor Corrêa de Azevedo² (incluindo gravações de Raimundo boca-aberta), é semelhante ao coco, com influência da umbanda. Os instrumentos utilizados eram: caixa (sem esteira), ganzá, gonguê, tambor-onça e ferro. A partir da década de 50, por influência do Maracatu Az de Espada, o maracatu cearense toma um novo estilo, inspirado no Auto dos Congos. O novo ritmo, cadenciado e dolente, com um gingado majestoso e solene, é marcante até hoje.

No estado do Ceará existem atualmente os seguintes grupos de maracatus: em Canindé: Maracatu Araras Kanindés e maracatu Rei do Sertão; Cascavel: Maracatu infantil Estandarte de ouro e Maracatu infantil Flor do Oriente; Itapipoca Maracatu Ás de espada de Itapipoca; Senador Pompeu: Maracatu Tambores da Liberdade.

Atualmente participam do carnaval de rua de Fortaleza 13 grupos de maracatus : Maracatu Az de Ouro ( fundado em 1936) , Rei de Paus (fundado em 1960, com o nome de Ás de Paus), Vozes da África (fundado em 1980), Nação Baobab (fundado em 1995), Rei Zumbi (fundado em 2001), Nação Iracema (fundado em 2002), Kizomba (fundado em 2003) e Nação Fortaleza (fundado em 2004), Solar ( fundado em 2006), Rei do Congo, Nação Pici,Axé de Oxossi (fundado em 2005), Filhos de Yemanjá

Alguns Títulos dos Maracatus de Fortaleza:

Em 2007: 1° Lugar- Rei de Paus; 2° lugar: Vozes da Africa; 3° lugar: Az de ouro; 4° lugar: Nação Fortaleza; 5° lugar : Rei Baobá; 6° lugar: Kizumba 7°Lugar: Solar; 8° lugar: Nação Iracema; 9° lugar: Axé de Oxossi; 10° lugar Rei Zumbi.

em 2010: 1° Lugar- Rei de Paus; 2° lugar: Nação Fortaleza; 3° lugar: Az de ouro; 4° lugar: Nação Iracema; 5° lugar Rei do Congo; 6° lugar: Voves da África empata com Axé de Oxossi.

 

As Irmandades Negras

 

As irmandades Negras foram associações que, além de propiciar a ajuda mútua entre as populações negras, favoreceram a preservação de aspectos das práticas culturais da África, mesmo diante da díaspora, do tráfico negreiro e da escravidão na América portuguesa.

Essa realidade possibilitou a construção e reconstrução de uma identidade dos africanos e dos crioulos no Novo Mundo, ao manifestarem suas práticas culturais religiosas, que possibilitaram o surgimento do sincretismo religioso.

Os senhores, após o batismo, pouco se importavam com seus escravos em termos de educação religiosa; caberá ao clero zelar pela “educação” dos negros. A irmandade é uma tentativa de responder a isso. A exemplo dos brancos, surgem as confrarias negras, na tentativa de sob o signo da cruz, reunir as nações africanas, aceitando por um lado os valores nativos e por outro combatendo tudo aquilo que a cultura negra trouxesse de questionamento para o seio da cristandade colonial. Desta forma, a tradição africana hereditária no sentido sucessório será substituída pelo sistema eletivo no seio das Irmandades. Seus reis doravante passam a ser eleitos por seus membros, possibilitando na visão de Mira, (1983):

 

Maior obediência de seus súditos e permite-lhes servir como intermediários entre os senhores brancos e seus escravos, constituindo desse modo canais de controle do branco sobre a massa das pessoas negras.( Mira,1983, p. 126)

 

 

No Ceará com a forte influência banto surge a ligação entre irmandades e terreiros e começa a aparecer a preocupação, presente em muitas delas, de se providenciar um enterro dígno para os membros da irmandade. Não é só uma reinvindicação social de igualdade dentro de uma sociedade dividida, mas uma reivindicação de identidade étnica e religiosa, pois o culto dos mortos é fundamental nas religiões de origem africana, com forte influência Banto, também para a cultura indígena cearense. A morte de um membro do terreiro é motivo para suspender o louvor dos orixás e celebrar, às vezes por sete dias, o falecimento de quem começou outro caminho e que continua presente na comunidade de outra maneira.

Lembrando François Espinay:

 

A morte não é um corte: é outro modo de presença. O espírito do morto se recusa de algum modo a partir desta terra e todo o sentido dos ritos reside em ajudá-lo a começar esta longa viagem que o conduzirá até Deus, sem contudo separá-lo dos vivos, Seu moco de presença deve ser outro: eis tudo (François de L Espinay, op.cit., p.647.)

 

 

E quanto o membro é um lider escolhido no grupo sua valorização torna-se valorativa, podendo ser enterrado em lugar especial acertado pelo grupo. No caso das Irmandades no solo sagrado do templo do rei de congo.

 

As irmandades religiosas eram associações corporativistas, nas quais se teciam laços de solidariedade fundados nas hierarquias sociais. Elas desenvolviam atos de caridades especialmente para fora, ou seja, para os destituídos da sociedade, pois seus irmãos eram os socialmente privilegiados. Embora recebessem religiosos, as irmandades eram formadas sobretudo por leigos que se associavam a ordens religiosas conventuais (franciscana, dominicana, carmelita), ganhando maior prestígio social. Elas já existiam em Portugal e se difundiram no Brasil. Para que uma confraria funcionasse, ela precisava encontrar uma Igreja que lhe acolhesse ou construísse o seu próprio templo e tivesse seu estatuto ou compromisso aprovado pelas autoridades eclesiásticas. Em sua maioria, cada templo acomodava uma ou mais irmandades religiosas que veneravam seus santos patronos (REIS, 1999, p. 49-51).

 

 

Na Igreja de Nossa Senhora do Rosário de Fortaleza aconteciam as celebrações eucarísticas no pátio central da Igreja e logo após os grupos de coroação dos reis de Congo e de Angola utilizava-se da praça para entoar canticos religiosos populares. Era um costume banto, e esse espaço tinha a finalidade de:

 

“passar também, outros costumes africanos, como a embaixada, ou o das guerras interrétinicas que se transformavam nessas confrarias em luta de pagãos e cristãos, acabando naturalmente com a vitória dos últimos”. Bastide, (1979, p. 79).

 

Bastide nota ainda que essas confrarias foram povoadas pelos bantos em primeiro lugar, sendo que os iorubas e daomeneanos ficaram num plano secundário.

O negro será, portanto “ obrigado” dentro das Irmandades, que lhe servirão como lugar de “informação” religiosa e de subterrânea onde se manterá viva a religião e costumes africanos, embora se estivessem enviado missionários – chamados de “línguas”- conhecedores de alguns idiomas africanos para confessar e dar assistência religiosa aos moribundos, seu trabalho nem de longe chegou a ser exaustivo, e isto evitou que os sacerdotes chegassem a saber exatamente o que se pensava na alma negra; de aqualquer forma a igreja colonial conseguiu cooptar um contigente considerável de negros para dentro do catoliscismo ainda que forçada e superficialmente.

 

Edison Carneiro nos informa que as irmandades de negros eram agrupamentos étnicos: os jejes se organizaram na Irmandade do Senhor da Redenção e os angola nas confrarias do Rosário. Os préstitos de coroação deram origem aos folguedos musicais do maracatu, informa o historiador Leonardo Dantas Silva em seu ensaio Maracatu: presença da África no carnaval do Recife, publicado em 1988 pelo Centro de Estudos Folclóricos da Fundação Joaquim Nabuco.

 

Nessa perspectiva, pode-se depreender que os representantes da Igreja católica consentiram na organização das associações das populações negras no Brasil colonial, e também procuraram ter o controle de suas práticas, já que as irmandades religiosas deviam estar acomodadas em uma Igreja. As irmandades religiosas se constituíram em espaços de ajuda mútua entre os seus confrades que buscavam ali recursos para sobreviver com sua família ou até meios para conquistar sua liberdade. Muitas delas utilizavam o dinheiro que arrecadavam na compra de carta de alforrias de irmãos que se encontravam ainda na condição de escravizados. Entre as irmandades mais importantes, podem-se citar a de Nossa Senhora do Rosários dos Homens Pretos, a de Santa Ifigênia e Santo Eslabão e a de São Benedito. É de relevância salientar que todos esses santos padroeiros eram negros.

O desaparecimento da instituição do rei do Congo com a abolição da escravatura levou o maracatu a desfilar seus batuques e danças nos dias dos Santos Reis, nas festas de Nossa Senhora do Rosário e no carnaval.

Oriundo das coroações de Reis do Congo, acontecidas a partir do século XVIII nas Igrejas de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos espalhadas por Fortaleza e cidades do interior como Sobral, Iço, Aracati e Crato.

As famílias negras cearenses são exemplos vivos de continuidades de preservação popular do povo.

Lembramos que eles próprios escolhiam as lideranças negras entre os negros escravizados, mas que fossem de confiança. Eram os chamados sarcasticamente de reis e rainhas do Congo. Hoje percebemos que a classe dominante usa este sistema, e o pior: aprimorou e o usa inclusive entre os brancos.

Os reis e rainhas do Congo eram pessoas que tinham uma certa liderança conciliadora entre os afro-brasileiros. No clima de revolta contra a escravidão, eles sempre encontravam justificativas para os castigos dos senhores de escravo. Na lógica deles, o negro é que provocava a situação, e ainda possuía na ponta da língua um lamento pela grande responsabilidade que os brancos tinham com os negros escravizados. Além disso, agiam como animadores nas grandes tarefas, cabendo ao rei do Congo, muitas vezes a tarefa de capataz. Através dessas lideranças, as fugas eram sabotadas, os castigos exemplares aconteciam, num ambiente de permanente delação dos companheiros.

Havia casos onde sua crueldade superava a dos brancos, pedindo para empunhar o chicote com suas próprias mãos. Com essa atitude, sempre disfarçada, eram conseguidas vantagens: sua mulher e filhas não eram molestadas ou vendidas e podia ainda se beneficiar das sobras da mesa da Casa Grande.

Através desses reis e rainhas do Congo, a luta popular contra a escravidão sofreu enormes atrasos. Mas eles ainda foram responsáveis para atrair os negros, para as irmandades negras, que segregavam os negros dentro da Igreja Católica, separando horários e, em alguns casos, construindo uma igreja própria. É evidente que alguns percebiam o caráter perverso dessas atitudes e usaram as irmandades como instrumento de união e rebelião.

A historiadora Marina de Melo e Souza, em seu estudo: Reis negros no Brasil escravista: história da festa da coroação de um Rei Congo (2006, p. 181-182), expõe que, na América portuguesa, em quase todas as regiões que receberam a mão de obra africana, as comunidades negras escolhessem reis que cumprissem papéis rituais e sociais. Os quais eram festejados com danças, musicais e teatralizações. Assim, por meio das irmandades religiosas, as populações africanas e seus descendentes do continente americano podiam constituir laços fundamentais de solidariedade e de identidades próprias aos negros formadores das associações.

Há referências mais consistentes para o final do século XVIII e para o século XIX de eleições de reis negros na América portuguesa. Elas ocorreram predominantemente no âmbito das “irmandades de homens pretos”. É importante asseverar que as irmandades leigas existiram em todas as Américas espanhola e portuguesa. Mas, foi na América portuguesa que elas tiveram maior importância e disseminação. A partir do século XVIII, desenvolveu-se, na colônia portuguesa, um catolicismo fundado em torno de irmandades religiosas. Além de propiciar a ajuda mútua, socialização e diversão às populações negras, investiam na construção de igrejas e assumiam responsabilidades religiosas, como as relativas ao culto de seus oragos, ou seja, aos santos padroeiros a quem eram dedicados templos, capelas ou povoações.

As irmandades religiosas ganharam tanta importância que, a partir de 1850, os representantes da Igreja católica passaram a controlar com maior rigidez as manifestações culturais religiosas dos negros. Por isso, no final do século XIX, as associações de “homens pretos” funcionavam com poucos recursos financeiros (ARAÚJO, 2003, p. 30).

Uma prática social com o Maracatu Nação Iracema

 

Com o projeto MARACATU NAÇÃO IRACEMA: CARNAVAL DO QUILOMBO Implantado pela iniciativa da Associação Cultural e Educacional Afro Brasileira Maracatu Nação Iracema com o objetivo de promover aos fortalezense e visitantes a riqueza do maracatu cearense. Em parceria com a comunidade do Jardim Iracema promoveu-se, também, a cultura de paz e não-violência através da inclusão de adolescentes e jovens adultos em vulnerabilidade nas possibilidades de envolvimento pessoal através de oficinas de adereços, ensaios do Maracatu e atividades afins no decorrer do ano que faz com que muitos criem forte enraizamento na cultural local. O Maracatu Nação Iracema criou um vínculo de responsabilidade social para o Bairro do Jardim Iracema e adjacências. Faz com que seus brincantes tenham orgulho de desfilar no Maracatu Nação Iracema.

 

A beleza de brilhos no cortejo do Maracatu Nação Iracema em estilo banto e o gingado característico do toque da loa de origem africana emociona e emociona e apaixona.

A marca da cultura do povo afro cearense e do maracatu está, sem dúvida, na loa e na dança, como também na organização das alas do cortejo. Onde o Maracatu Nação Iracema abre seu carnaval com o estandarte, que marca o passo característico do nação e anuncia a presença do maracatu na avenida, seguido dos lampiões com adereços de mão, que representam a luz e o fogo no caminho do cortejo. Combinam a herança da liturgia católica das procissões com o culto do fogo. Em seguida a ala dos índios que desfilam em filas indianas e ladeiam o estandarte. Em Fortaleza tem origem nos caboclos ou cordão de índios de penas que participavam do carnaval de rua na década de cinqüenta. Depois, vem a ala das baianas que desfilam em fileiras e marcam a segunda parte do cortejo real, protegendo a corte e respondendo em coro as loas cantadas pelo tirador de loas. Após, vem a calunga, uma negra da comunidade quilombola que conduz a boneca preta. As duas geralmente usam roupas idênticas. O balaieiro surge com seu cesto de palha, com frutas e evolui com graça apesar do grande peso. Representa o carregador de alimentos da corte, que segue feliz e harmonioso. Segue agora o casal de pretos velhos que simboliza a sabedoria e a experiência dos mestres mais idosos nas comunidade e tribos africanas. No ceará eles representam os militantes negros das comunidades tradicionais, quilombolas espalhadas pelo sertão cearense. A corte vem agora, representado pelo príncipe, a princesa, o rei e a rainha, figura principal do cortejo. Também fazem parte as damas de honra, as damas do paço e os vassalos. Os vassalos são carregadores de leques que tem a função de reverendar a corte. Após a corte vem os batuqueiros, tocadores de tambor ( caixas, surdos e bumbos), e ferros ( chocalhos e triângulos) executam a marcação para a loa e a evolução do Maracatu Nação Iracema.

O Maracatu Nação Iracema sente no dever de afirmar que é um representante do povo afro descendente organizado de Fortaleza. É um maracatu provindo de grupos do Movimento Negro Organizado. Nesse sentido a sua ligação política social e religiosa com os cultos afro-brasileiros e com a comunidade de Fortaleza e em particular com o Jardim Iracema e adjacências é forte. Essa ligação é tão forte que o maracatu tem sido tomado como uma expressão cultural e religiosa, de luta e organização dos cultos de matrizes africanas, bem como trilhado para reviver a arte do povo das comunidades de quilombo urbano de Fortaleza.

Na verdade, o Maracatu Nação Iracema é uma manifestação lúdica de resistência étnica que quer preservar a cultura afro do maracatu, genuinamente cearense. É nesse sentido que esse projeto tende a se realizar. Em 2010 estaremos, com ajuda de Olorum, Deus da vida erguendo a lança da paz dos Guerreiros africanos no carnaval de Fortaleza.

 

JUSTIFICATIVA

 

O projeto MARACATU NAÇÃO IRACEMA: CARNAVAL DO QUILOMBO veio para pontuar de fato a importância do Maracatu Cearense como símbolo de lutar e resistência do seu povo negro e mulato. A Associação Nação Iracema é uma entidade social de cultura que trabalha o resgate do maracatu cearense em Fortaleza. Nesse sentido o projeto do desfile do Maracatu Nação Iracema em 2009 na avenida dará visibilidade a cultura étnica e colocará o Ceará como um estado que apresenta um estilo de Maracatu criado e produzido com o afazer da popularidade do seu povo. O maracatu Cearense para os Fortalezenses.

O Maracatu Nação Iracema é um deles. Suas fantasias coberta de brilhos em estilo colonial e tribal da corte dos reis de Congo, onde com a riqueza o reino de congo mostra o poder do povo africano . O Maracatu simboliza a realeza em um estilo particular, cearense, vivo. É a periferia na realiza da arte do resgate da ancestralidade, do sonho.

O Maracatu Nação Iracema completará nesse ano de 2010 o seu 8º ano de desfile e resgate.

Desde 2002, quando foi criado e saiu pela primeira vez, só cresce. E sabemos que precisamos dar ao povo de Fortaleza um espetáculo a altura deles. O Maracatu é uma beleza silenciosa que aparece, para alguns uma vez ao ano.

A maioria dos adolescentes e jovens adultos em situação de vulnerabilidade social não tem acesso aos programas e projetos públicos já existentes, ou por estarem excluídos dos processos de informação/divulgação, ou por serem excluídos justamente por sua condição de vulneráveis à violência e à criminalidade. Um dos desafios da democratização do estado e da universalização do acesso aos bens e serviços públicos é suplantar a “exclusão superposta”, que elimina do acesso a direitos àqueles que já estão excluídos de muitos outros bens públicos. A associação nação Iracema através do Maracatu tem dedicado esforços na correção dessas injustiças históricas, tratando de promover a equidade de acesso através da busca ativa dos grupos de maior vulnerabilidade social e transformando em parceiros em potencial.Portanto, utiliza-se de instrumentos sócio-culturais como Oficinas de Tambor, Oficina de maracatu, oficinas de costura e adereços afros, oficina de inclusão digital, Oficina de empreendedorismo e cooperativismo, Primeiro emprego, seminários de cidadania, rodas de conversas, oficina de construção de instrumentos de percussão, capoeira e conscientização social.

Nesse sentido o maracatu Nação Iracema, com esse projeto, possibilita para que Fortaleza seja mais justa, democrática e sustentável.

O Maracatu Nação Iracema já é uma realidade para a cidade de Fortaleza, e ele junto aos demais recria novos olhares turísticos para a manutenção cultural desta cidade.

O Maracatu Nação Iracema tem em seus objetivos esse ideal. É nesse sentido que esse projeto se concretiza mostrar uma cultura de futuro, edificada ao longo de vivências do povo da periferia de maioria afro descendente. São ações decisivas da cultura do povo negro do Ceará aliada à participação cidadã que se quer mostrar em 2010 no carnaval.

O Maracatu Nação Iracema traz consigo o bairro do Jardim Iracema, mas também a índia Iracema, a virgem dos lábios de mel. Traz Fortaleza nascida, também, na Barra do Ceará, mas o homenagiado nesse ano de 2010 será AS FORÇAS DE OLORUN que alimenta a luta do quilombola guerreiro.

É a reafirmação do povo periférico que torna-se o elemento chave: o maracatu, como símbolo de vida, de resistência e cidadania.

 

Assim afirma Danielle Cruz:

 

O desfile do maracatu Nação Iracema se cerca de significados ao ser pensado como profundamente performativo, cuja parte significativa dos integrantes se esmera durante todo ano para, dentre outros fins, obter na avenida um desempenho satisfatório e com isso conquistar a vitória na competição. Falhas e esquecimentos são somente permitidos nos momentos que precedem a entrada na avenida, pois nesta tudo deve estar elaborado com fins de uma boa transmissão das mensagens que se deseja passar à platéia.

A compreensão mais aprofundada dos significados da avenida para o público e, particularmente, para os brincantes do Nação Iracema somente é possível se for pensado o modo como as relações foram tecidas ao longo da elaboração do desfile. Apenas assim será possível identificar que sentidos a avenida e, mais especificamente, o desfile acionam. Nesse contexto, é preciso pensar os bastidores de todo o processo que desembocou em todo aquele brilho, luxo e euforia que se expressam no dia do desfile: o grande dia daqueles brincantes. Assim, para entender os múltiplos sentidos emanados pelo desfile é necessário percorrer, por meio do texto, uma longa estrada que nos leva a algumas questões tais como: de que modo essa manifestação cultural denominada de maracatu se constituiu ao longo do tempo? Que discursos fundamentam o maracatu Nação Iracema e por que ele é entendido pelos brincantes como especial? Em que contexto de Fortaleza se situa a Associação que se empenha na confecção de um grupo de maracatu? Que elementos expressam a negritude no Nação Iracema? Cruz. 2008. p.41


 


 


 


 


 


 


 


 


 

Referências bibliográficas

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Temos um país com alma banto. Sua influência marcante na cultura e na alma brasileira é muito forte; também na música, na dança, no samba, no carnaval e principalmente no maracatu cearense.

Segundo Walmir Damasceno a cultura Banto está na alma do povo brasileiro. A palavra negra é pertencente ao dialeto kimbundu, a palavra quitanda que quer dizer ir ao mercado, assim como samba, zumbi, xinga, jinga que é a corruptela de uma das grandes heroínas que lutaram pela libertação de Angola quando chegou o colonizador Diogo Cão, a rainha Jinga ou Zinga.

A cultura banto trouxe a dimensão temporal e cíclica que acrescentou a cultura brasileira.

Quando os iorubas aqui chegaram já encontraram os bantos, semeando toda esta beleza no nosso país. Aqui é uma terra banto. A cultura banto dar muita importância ao antepassado, ao morto.

A influência também de outros segmentos religiosos no candomblé distorce a cultura e a religião.

Segundo relato do agente de Pastoral Walter Soares de Oliveira que me atendeu no dia 29 de maio de 2009 quando visitava a capela com o objetivo de obter informações a respeito daquele templo religioso.

Loa é a composição, letra e música de um grupo de maracatu. As loas são compostas em cadência lenta, lembrando o cortejo dos reis de Congo, como uma marcação para caminhada do rei e sua caravana.

Como contribuir para o crescimento de um estado que nos exclui, violenta e marginaliza, sob as bandeiras dos partidos que são o sustentáculo político visceral desse mesmo Estado? Tais afirmações categóricas são demonstradas pelos dados estatísticos sobre o lugar do negro na força do trabalho; por análises de pesquisadores e instituições privadas sobre o racismo no livro didático, etc. Será que não pensar, inventar, descobrir meios e por em prática métodos de trabalhar dentro das diferenças partidárias pela eliminação da discriminação racial?

Denunciar o racismo, me diz um jovem brasileiro branco, não é dar um passo, é apenas levantar o pé direito. A imagem me parece muito exata, pois a denúncia (organizada ou individual), além de trazer certos dividendos sociais ao denunciante, em nada altera a prática do racismo.

Como levar adiante a luta por um Brasil socialista, igualitário no tratamento dos diversos grupos étnicos? De que maneira contribuir para a chegada de um Estado suficientemente autônomo em sua economia e digno em sua soberania, forte bastante para não permitir que as multinacionais e as empresas brasileiras utilizem os meios de comunicação (público e privados) para lezar determinada parcela de sua população? Como elaborar uma constituição da qual decorram leis que proíbam e punam de modo severo e eficaz propagandas que neguem os valores positivos do grupo étnico negro entre outros?

Os integrantes da liturgia que entoavam canticos no decorrer da celebração ao término dela se integravam com outros no pátio do lado da Igreja de Nossa Senhora do Rosário em Fortaleza e formavam o batuque para dar início o festejo para a coraoção do rei de congo. Um percusso pela praça dos leões acontecia com passos lentos e toques de tambor cadenciado com maracás.

A arte não é uma atividade separada, individualizada. Normalmente, ela se mostra totalmente ligada à vida cotidiana e a elementos rituais, como nas pinturas corporais. Estas fazem com que cada grupo ou tribo indígena e negra se torne diferente de outra. Mesmo assim, muitas comunidades negras e tribos , como os karajás, usam a pintura corporal como enfeite. A tinta usada pelas tribos em geral é totalmente natural, provinda de árvores ou mesmo de frutos. Em cada grupo também se pode destacar o uso de adornos. Os adornos são usados, normalmente, em ritos especiais de cada tribo. Outro importante trabalho indígena é a arte plumária. Nela se constitui trabalhos com plumas e penas de pássaros. Ao contrário do que muitos pensam, os índios abatem as aves, mas não as comem, e sim usam suas belas penas coloridas. No maracatu cearense as plumas de avestruz são usadas para ornamentar os resplendores da rainha e princesas e as penas de pato enfeitam a ala dos índios.

 

Marco Antonio dos Santos, é Presidente do Conselho Municipal de Desenvolvimento e Participação da Comunidade Negra de Bebedouro –SP Brasil.

 

Idem.

Torna-se viável pensar na possibilidade, nos referindo as crianças enterradas no pátio central da Igreja de Nossa Senhora do Rosário de Fortaleza, como pertencente a família de rei do Congo e ou de Angola.    



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