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   > ESPERANÇA ESMAGADA



Elisabeth Silva de Almeida Amorim
      CONTOS

ESPERANÇA ESMAGADA

Trago na memória aquela garotinha de cócoras com os olhos vidrados no chão... Passa um olha e imagina que no mínimo ela estava louca. Seguia o olhar em direção, nada enxergava  mas ouvia o gritinho:
_ Não pise em Esperança! Cuidado!
Olhava para o chão pensando se tratar de um brinquedo esquecido, nada via, desviava  para não contrariar aquela criança. De longe eu observava quantas vezes ouvia o seu apelo para não pisar na sua esperança. Após os desvios dos transeuntes, ela sorria e parecia conversar com o nada. _ Que sorriso lindo! O que ela dizia não dava para ouvir, mas algo capaz de  contagiar as pessoas que desviavam da sua "esperança" porque todas saíam  sorrindo também.

Não sei o porquê mas aquele sorriso, aquela felicidade me incomodou. Quem deveria estar sorrindo poderia ser eu, não aquela garotinha pobre. Assim como os outros eu também não conseguia enxergar o que era a tal esperança daquela criança, resolvo sair do meu carro  e aproximar mais um pouco.
De repente ouço um grito:
_ Moço, por favor, cuidado com Esperança!
Resolvo mostrar  para aquela criança o quanto ela estava sendo boba, ficar horas olhando para o chão sem nada... Finjo que não ouvi e passo tranquilamente no local vigiado, fiquei aguardando uma reclamação mas nada aconteceu. Volto e vejo a criança que parecia ter ficado petrificada, a única reação humana era uma lágrima solitária que escorria dos seus olhos. Aquilo me tocou,  vê-la tão frágil, olhando o vazio e com lágrimas companheiras molhando sua face. Quantos anos tinha aquela garotinha? Onde estavam seus pais?
Olho e percebo que é uma criança linda. Cabelos compridos presos numa bela trança, roupas e sapatos surrados, rosto com um pouco de areia, devia ter encostado diversas vezes no chão. O mais impressionante eram os olhos daquela menininha magricela. Olhos expressivos e graúdos, pareciam pedir socorro. O olhar daquela menina... Tirou-me o sono por anos...Oh, pequenina, o que fiz contigo? O que fizeste comigo?!
_Menina, por que está chorando? Aqui não tem nada no chão! Veja não tem nada! E passo a sambar e pisotear em sua frente. Ela continuava muda, apenas um choro convulsivo mostrava o quanto sofria. Na minha arrogância, pensei em acabar com o choro com alguns trocados.
_Veja essa nota  de cem reais! Aposto que você nunca viu uma igual... Com ela você poderá comprar o seu brinquedo... Ele foi roubado? Era a sua boneca que se chamava Esperança?
Na verdade queira me livrar daquele olhar...Lembro-me de cada gesto, cada lágrima!
A criança nada dizia, com um gesto extremamente delicado estende a pequena mão até o chão, cata um grãozinho qualquer, levanta-se e me olha, dessa vez, consegui captar a fúria em seu olhar, passa a mão suja de terra no rosto molhado, fica uma imagem fantástica em minha mente, ainda com os olhos rasos de lágrimas estende a mão em minha direção... Dei um sorriso vitorioso e pensei: o que o dinheiro não compra? Até essa criança maltrapilha e furiosa se rende...
No entanto fui nocauteado por aquela moreninha que nunca mais a vi, apesar de passar quase diariamente pelo mesmo local... Com uma singeleza dos seus... não mais que 10 anos de idade, numa fala entrecortada respondeu:
_Senhor, essa é Esperança! A companheira mais preciosa que tinha e que o senhor a matou. Que pena que o seu dinheiro não compra sonhos!
Saiu com um porte de rainha deixando em minha mão uma formiguinha morta.

______________________
Bahia/2013


Reflexão: Se esperança é vida, outras nascerão.



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