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   > Rafinha o que é isso



JJ DE SOUZA
      CONTOS

Rafinha o que é isso

 RAFINHA O QUE É ISSO?
Por JJ DE SOUZA
 
A verdade é que a gente não faz filhos. Só faz o layout. Eles mesmos fazem a arte-final.
Luis Fernando Veríssimo
 
               -Têm trinta alunos dizendo que foi você, ainda assim você nega?– disse a mãe segurando o chinelo na mão a ponto de fazer uma besteira.
               -É mentira, não fui eu – disse Rafael sem piscar, acostumado com aquelas torturas da mãe continuava impassível.
               Eunice pegou um papel na mesa e com dedo de unhas mal feitas mostrou para o filho
               -Recuperei uma pesquisa sua na internet, sabe qual é o tema? O perfume que tem pior fedor do mundo  em  spray, outra pesquisa: odor mais fedorento de todos os tempos, a internet é uma porcaria, quando a gente sai para trabalhar você usa sem permissão e o cartão de crédito do seu pai foi sozinho parar na internet, para isso tem inteligência! Comprou um spray fedorento de bosta de cavalo, misturado com peido de gambá e passou na cadeira da professora, na mesa, no armário... Ai Rafael a quem você saiu? – disse a mãe e olhou para o pai sentado no sofá.
               -É mentira, não fui eu – repetiu Rafa.
               -Está chamando sua mãe de mentirosa, não testa a minha paciência que te levo para a FEBEM, olha Mauro a falta de respeito desse seu filho? – gritou a mãe olhando para o sofá e segurando Rafa pelo braço, porém o marido permaneceu calado.
               -Não mãe... É que não fiz nada disso...
                 O pai estava sério até aquele momento sentado na poltrona com salgadinho na mão, com dor na coluna, fruto de suas duas hérnias de disco, homem obeso e lerdo. Iniciou o emprego há cinco dias e já estava de licença.
               Eunice estava a ponto de ter troço enquanto tirava satisfação com o filho, o descarado do marido, digníssimo Mauro Pereira comia salgadinhos crocantes no sofá.
               A mãe de Rafa estava com o rosto vermelho e óculo desalinhado, seus cabelos crespos alisados estavam devendo uma ida ao salão há muito tempo, não tinha oportunidade de se cuidar, tentava ser mãe de duas “criaturas” em tempo integral, apesar de ter que trabalhar na loja de eletrodoméstico.
               O Filho na sua frente, Marido no sofá. Eunice não sabia com quem estava mais “puta da vida”, vermelha de raiva, com os olhos arregalados de pé em frente ao filho, bonitinho com nome e cara de anjo, oito anos de idade o Rafa já tinha passado da conta muitas vezes.
               Foi chamada na escola, pelo telefone, pois  bilhete o menino ou  rasgava ou escondia.
               -Dona Eunice venha à escola, é urgente, caso contrario chamaremos a policia – disse a diretora.
               Quando chegou a escola teve pena quando viu a professora, a coitada estava vermelha de raiva e de tanto passar a bucha no banho, ficou sabendo depois, abriu a porta com a diretora do lado e pediu que Eunice sentasse.
               -Meu Deus! Vocês procurem um rato morto, pois o fedor está demais! – disse a inocente Eunice, com um sorriso no rosto, a diretora e a professora escutaram essas palavras e sentiram a dor terrível do desgosto.
               -Esta sentindo esse fedor? – disse Magnólia a professora, a diretora permaneceu calada com raiva demais para se pronunciar – isso não sai nem com creolina, nem com soda caustica, sabe o que é?Bosta de cavalo, misturada com peido de gambá, comprada na essência em garrafas, está no rótulo – mostrou no vidro capotado - , vendida no Vietnã, seu filho comprou um spray pela internet e passou na minha cadeira, na minha mesa de forma muito caprichosa.A coisa é pegajosa, sabe o que está escrito no rótulo também: seis meses fedendo, satisfação garantida ou seu dinheiro de volta.Eu tomo banho quatro vezes ao dia e continuo fedendo a bosta de cavalo.
               -Queria que me desculpasse... É que o Rafa é...
A professora Magnólia tinha investido na beleza, colocou silicone no peito e na bunda, acertou o queixo e o nariz, tudo visando o concurso de miss do seu bairro, teve uma crise de choro e desabafou.
               -Como eu vou para o concurso de miss do meu bairro com esse fedor de cú?
               Sentiu vergonha, não sabia quem matava primeiro Rafa ou Mauro, quando se lembrava disso, via que o filho parecia com o pai, até aquela face perfeitinha que enganou o coração de Eunice.
               Outro evento que quase matou de raiva Eunice foi quando ele colocou as provas do segundo bimestre dentro do aspirador de pó novinho.
               O aspirador foi um prêmio de melhor vendedora conquistado por Eunice em 2010, uma honra, um troféu, uma peça rara automática e que a mãe de Rafa gostava muito.
               Quando todos os alunos já haviam recebido as provas Rafa dizia, “não entregaram as minhas provas mãe, já disse”, ela acreditava, até que a amiga falou: “menina já entregaram essas provas tem duas semana, minha filha tirou notas máximas”,ela chegou em casa e perguntou:”onde estão suas provas?”
               -Não entregaram ainda... – dizia Rafa.
                Até que numa faxina ela tentou ligar o aspirador de pó e não conseguiu, achou que o bicho novinho estava com defeito e levou no conserto, chegou cuspindo marimbondo na assistência técnica disse dois ou três palavrões ao chefe da assistência técnica.
               -Esse aspirador de pó é muito bom, o melhor da classe, nunca deu defeito, realmente senhora, eu não posso dizer o que aconteceu sem uma analise– disse o homem que recebeu o produto, dias depois foi o mesmo homem de macacão disse ao segurar os óculos na mão quando lhe apresentou o orçamento, já entregando o produto polido e limpinho.
               -Quanto foi moço? Está na garantia? – perguntou Eunice já tirava da bolsa o talão de cheques, muito mais calma do que quando veio a primeira vez.
               -Senhora não existe garantia contra uma barbaridade dessas – disse o homem com olhos vermelhos, parecia ter chorado – alguém muito mal vive na sua casa, uma pessoa que vive arquitetando perversidade – colocou sobre a mesa o molho de provas emboladas.
               -O que é isso meu senhor, o que são esses papéis? – disse Eunice surpresa.
               -Um molho de provas amassados, da terceira série e com notas muito baixas– ele balançou a cabeça reprovando o ato e completou – não vou lhe cobrar nada, já tem problemas demais.
               Parada em frente à Rafinha ela pensou se falhou como mãe, o que mais uma mãe que trabalha pode fazer?Entrego-me a esta criatura, mas como posso dividir o tempo entre o meu trabalho e meu filho? O meu marido não ajuda em nada, doente com hérnia na coluna não trabalha, nem cuida dele, disse que é coisa de mulher cuidar do filho, o homem anda se arrastando pela casa, só pensa em sua pericia do INSS, corre de uma para outra e tudo cai na minha cabeça e agora essa.
               -O que você me diz da menina que abre o berreiro só de olhar para você? Sabe o que ela disse?Que você tentou beijar na boca dela, depois chamou a pobrezinha de gostosa e disse que ia “mamar ela todinha”, a menina vai mudar de escola e está no psicólogo – Eunice parou nesse estante para olhar a cara do filho.
               -Ela falou que eu era bonito ai encarei – disse Rafa – é pra deixar passar pai?
               -Não – disse Mauro com a voz fraca e incerta.
-Cala a sua boca Mauro, se não quer ajudar não atrapalha – disse Eunice.
                  A mãe vencida jogou o chinelo no chão e começou a chorar, Rafa abraçou a mãe.
               -Me larga que estou chorando de raiva. - ela foi até a mesa e pegou um bolo de papel mostrou para Rafa e depois para o marido no sofá.
               -Sabe o que é isso? – perguntou Eunice primeiro para o filho depois para o marido, Rafa ficou calado e o pai deu de ombros.
               -Encaminhamento ao psicólogo, neurologista, clinica psiquiátrica, pediatra, terapia ocupacional, a pedagoga me chamou no canto e sugeriu internar o menino, quase dei na cara dela...Outra das pedagogas sugeriu um padre ou um pastor, esse menino está sintonizado com alguma entidade maligna.
               -Mais mãe... – quis argumentar Rafa.
               Dois dias se passaram e Rafa estava de castigo, sem TV, sem, computador e sem poder sair para brincar no parquinho do prédio, a professora se escovando para sair o fedor de bosta de cavalo e Eunice estava freqüentando sozinha ao psicólogo.


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