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   > Renascimento



Geovani Silva
      CONTOS

Renascimento

    E foi andando sentindo a planta dos pés no asfalto quente, e ardiam sem meia, os pés escorregavam dentro do sapato preto. Estava tão quente que mesmo não estando descalça, que Helena podia sentir. Os sons de cada pisada soavam um ritmo estalado que misturavam aos dos carros e de outras pessoas. As pernas também doíam de saltar os buracos da calçada, apressadamente como se estivesse muito atrasada para um importante encontro. O suor descia pelo rosto branco e pálido, retirando a mascara que ela cuidadosamente escolhera para àquela hora crucial do dia, sentindo-se uma mulher que tinha na ponta dos pés a determinação que achava que tinha. Não menos do que lhe aparenta um lado do canto da boca arqueado e um sorriso nas poucas rugas dos olhos. Estes mesmos ardiam e embaralhava a visão, a claridade do dia quente, que a transportava para o Saara.
   
   Mas o que doía mesmo era o calcanhar que ardia misturado ao suor quando a bolha se arrebentou. Saiu tão repentinamente que se esqueceu da sombrinha, ela nunca antes esquecera, mas principalmente quando chovia. Claro que do contrario não chovia. Uma mulher não pode andar desprevenida, pensava angustiante. Começou a olhar a bolsa para se certificar de que também não tivesse se esquecido de mais nada. Não esquecera o espelho, assim já está bom. Pisou em falso e entortou o pé num ressalto da calçada. Xingou um palavrão, o pé doía ainda mais já não bastasse a bolha atrás. O palavrão saiu sem querer, pois ela era educada o bastante para saber se comportar. Foi muito bem educada pela mãe. Assim então Helena fora criada numa família bem estruturada, sua mãe sempre fora boa mãe. Por isso ela também o era, cuidava da filha tão bem quanto sua mãe cuidara dela. Nunca falou um palavrão perto da filha, e que ela se lembre sua mãe também nunca o falara.
   
   Enquanto caminhava um homem com voz de homem lhe chamou de gostosa, interrompendo um pouco seu jeito de andar. Suspirou fundo e fechou a cara sem olhar quem foi que a notou, será que estava mesmo assim como o homem a chamara? Já não tinha mais seus dezoito anos, mas ainda era bonita, dava para o gasto, como assim ouvira dizer. Não de seu marido, nunca falara assim dela, que era gostosa, agora aos trinta e poucos anos que não iria falar mesmo. Ainda mais com uma filha, o corpo fica um pouco mais diferente. Pensava que realmente estava um pouco acima de seu peso. Mas ele tinha por obrigação amá-la assim, e assim é que deve ser.
   Suspirava que podia estar gostando de ter ouvido aquela palavra de um desconhecido, mas estes homens são assim mesmo, eles mexem com todas as mulheres que passam por eles, sendo bonitas ou não. Helena que mesmo andando bem depressa, não deixava de notar que realmente muitos homens a olhavam, uns de modo discreto, outros desinibidos. Coisa que antes não acontecia. Ou ela que nunca tinha reparado? Por certo é esta roupa que esta usando: saia justa, tipo secretaria, exibindo as pernas longas e bem os quadris. Não lhe permitia movimentos a passos largos se o tentasse, pareceria um robô. Quando se deu por conta que segurava a bolsa de lado de modo firme, reconhecera que bamboleava de modo quase que incontrolável os quadris, sentia uma forte vontade de se mexer. Começou a rebolar a cada passo que dava, ao mesmo tempo sentia-se reprimida pelos pais de como a criara desde a tenra infância, que a endurecera aos poucos.
    Mas tudo já aconteceu, não podia mais voltar atrás para concertar o estrago, pois fora feito com uma faca de dois gumes. Tomada de um sobressalto, Helena amedrontava que acordar para a vida naquela altura lhe dava muito medo. Sempre esteve adormecida dentro de um sonho e se sentia protegida. O útero lhe dava aconchego e calor, mas quando viram que ela crescera o bastante, a sufocaram com boas intenções de amor demais e a envolveram num casulo. A faca agora que cortava afiada essa membrana firme e resistente, despertou também medo e ódio. Será que ela perdeu muita coisa?
  Ainda agora envolvida pelo invólucro do desconhecido naquela rua onde tudo e todos remetem ao medo, ao perigo imaginário de cada passo, Helena sentia tontura. São seus anseios nesse labirinto que pulsa a toma de assalto entre a abstração e o substancial, que no pouco de lucidez já sabe a saída. Mas, o que ela ainda não chega a conhecer de perto ri na sua cara; um mendigo sem os dentes da frente lhe da o sorriso de miséria, a ela que justo neste momento, agora, anda completamente nua pelas ruas. Cada rosto que ela olha ofegante tem duas caras: uma da o pão, a outra mata pelo pão. E um terceiro que nao aparece envenena o trigo. Como Helena devolveria o sorriso ao mendigo se os seus dentes ainda estão com as cascas desse pão que comera no café da manha? Como? Se não tinha as moedas de cinco centavos e duas de dez centavos?
   Mas o caminho que percorrera agora, não esse espelho um pouco sujo pelo arrebento da bolsa, mas esta rua cheia de gente e cheia de buracos era tão tortuosa que ela não via à hora de sair pela tangente. Sabia que estava em grande agonia, mas uma satisfação indefinida ainda a fazia caminhar bem mais depressa, como se o objetivo de luz que via em Clara com muita voracidade lhe sustentava cada passo. Ainda que estivesse apenas na metade do caminho ao jardim de infância onde pegaria sua filhinha, que já deveria estar esperando ao termino da aula, era como estar fora de si. Porque sentira algo muito bom de estar ali.
   Se não quisera nunca ser notada, agora sim o marido que a valorize mais. Por que somente ela que se arruma para ficar linda todo dia, passa batom, faz as unhas e fica horas arrumando os cabelos? Para nada. Eduardo que se cuide por não notá-la tem quem se importa, e quem nem a conhece por sinal. Homem que nesta idade passa mais tempo no computador e no vídeo game do lhe dando o mínimo de atenção. Se bem que era seu gesto de reserva, sugeri-lo brincar com a filha, quando tinha de estudar para as provas e não queria sair, então que adorava quando ficava o dia todo jogando vídeo game. E quando chega do serviço cansado, sabe que está, mas ela não tem culpa do seu dia a dia. Cara fechada, às vezes lhe da um beijinho, mas para clara, a filhinha, sorri e a pega no colo “papai te ama” esta certo de amá-la, mas a esposa também existe. Pronta a sua espera, ate mesmo para o amor.
Como ainda tem saco para se sentir hesitante ao sentir bonita a admiradores? “Ele é um bom homem, minha filha. Tão raros hoje em dia, não o perca” visualizando o pai contente no dia de seu casamento dando um grande abraço bem apertado. Quem convive agora com isso é ela, a gordinha que ele despreza. Lembrava de que numa certa ocasião desconfiou que o marido olhasse para uma bem magrinha que passava. Achava que a enganou quando parou e moveu os olhos para vê-la andando enquanto lhe dizia “amor não é aquela loja que fomos outro dia? A gente podia ir ate lá agora, ver alguma coisa para a Clara” quando seu corpo parecia resistir a entrar na loja, como se aquele instante não importasse mais. Helena apenas fingiu não entender se desculpando de que ele é homem. Mas o fato é que relativo a este pormenor que noutras ocasiões banalizara estes atos, e que só a esta altura fora capaz de perceber. Por divagações, ele mente, Ele é ator. Sempre fora.
 
    Vira numa rua e noutra com os pensamentos a flor da pele, Helena mentalmente sorri ao se lembrar de Clara, sua filhinha adorável. A única coisa que lhe da agora razão para ser feliz na vida. É filha única, mas é uma criança muito feliz, pensa contente. A menina de tudo tem um pouco, lembra quando a menina chorou por uma boneca daquelas que anda e fala e faz ate xixi, ah e também podia lhe dar sopinha! No outro dia o pai apareceu com a boneca com uma enorme satisfação no rosto de ter ganhado seu dia. Mas a filha não demonstrara tanto entusiasmo com o presente já que sua coleguinha de classe tinha celular rosa. A expressão de Eduardo se transformou para tristeza, tentando convencer a menina do que a boneca era capaz de fazer. Então agora ela tem um celular rosa. Aí que quanto mais pensava na filha, a ansiedade de vê-la aumentava. Não via à hora de abraçá-la e dar-lhe muitos beijos. Helena ate já se esquecera de quanto o sol estava quente e tanto doía seu pé, quando tropeçara num ressalto da calçada, mas não parava de pensar que era bonita para os homens. Entretanto sentira algo vibrando na bolsa tocando uma música infantil.
    - Oi filhinha!!
    - Mamãe, você já ta vindo?
    - Estou bem pertinho, meu bem. Ta bom?
    - Ta bem, mamãe, to te esperando. Não demora nem mais um minuto.
    Helena sentindo-se intimamente bem consigo mesma, começou colorir as pessoas, o cachorro, deu dinheiro ao mendigo e sorriu para o alto mostrando seus lindos dentes. Aprumou o corpo e um brilho lhe saltou aos olhos que eram baços, e ajudou uma senhora idosa a atravessar no sinal. O mundo precisa de gente assim, que pensa nos outros também, elogiou a senhora. Dando a Helena a resposta que ela precisava para acontecer.

    Helena, depois então de pegar sua filhinha e ter dado um grande abraço e enche-la de beijos, e ter ouvido todas as historinhas da aula, chegou em casa. Clara foi direto para a TV, mamãe disse não liga. Ligou. Filha obedece à mamãe e não faz isso e desligou. A menina fez birra “vou contar pro papai”. Seu pai não está aqui, quem manda em você sou eu. Disse a mãe já nervosa. Aos choros, clara joga o celular contra a parede quebrando-o.
    - Vai ficar de castigo aí sentadinha por quinze minutos!
    - Por quê?
    - Porque você desobedeceu e quebrou o celular que seu pai te deu!
    - Papai me da outro, ele trabalha pra cuidar de mim!
    Helena deu um suspiro e foi para o banheiro, tomou banho, sensibilizou. Saiu renovada se maquiou, penteou os cabelos ruivos e compridos. A menina de beicinho mexendo o pezinho. Vestiu-se linda e atraente. O marido chegou deu-lhe meio beijo, tirou a pequena do castigo, brincou de cavalinho e com a bolsa na mão, a esposa sorria. Ele se apercebia que o sorriso de Helena era diferente e profundo que não era para ele. Alimentava a alma de Helena, e ele não conseguia destingi-la de sua beleza exterior. “veja como a mamãe ta bonita, papai” espantava a criança. O pai mal entendia o que a menina queria dizer com aquilo, já que Helena era uma incógnita. Jamais notara antes sua mulher tão bonita e de uma postura tão confiante. Ele em silêncio se apercebera, era uma linha delicadamente tênue que faria um elo vital, ou daquele instante a perdera para sempre.



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