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   > UM ÚLTIMO BEIJO



Geovani Silva
      CONTOS

UM ÚLTIMO BEIJO

   — Deixe-me provar teus lábios?
   Dentre inúmeras coisas que se poderia dizer naquele momento, o único e tão oportuno como se fosse o último de toda sua vida, nada lhe parecia ser tão grande. Saltou-lhe vorazmente como algo entalado na garganta seca. Seca não por falta de água mas engolia sua própria saliva que parava no meio da garganta. Parecia sentir a terrível sensação de que as palavras não saiam e que vinham de encontro com a saliva que descia. Apesar mesmo das pernas trêmulas e da voz hesitante, não refreou a loucura do desejo que não podia mais conter somente para si mesmo. Sobretudo, dentro daquele contexto subentendido de sentimentos mútuos entre aqueles dois que durante anos nada acontecera, ele resolvera acabar com toda aquela agonia de amar alguém em absoluto silêncio. Silêncio que o matava aos poucos.
   A mulher, com todo o seu admirável e quase sincero espanto, impulsionada pelo súbito ato alheio, pobre e humilde em seus pensamentos, não lhe podia naquele instante nada dizer. Apesar de também alimentar uma linha tênue de seus mais puros sentimentos, faltava-lhe coragem para abrir seus belos lábios. Suculentos estes para o beijo, um sonho que jamais o despertara da própria morte. Na verdade o beijo era o que ele somente desejava naquele eterno momento. Momento este que ela com todo o capricho tradicional de seu modo de vida ou que sua moral de vida lhe impunha.
   Passando aquele instante em que nada sabia dizer, saltou-lhe à língua trêmula e toda a timidêz reservada para o momento:
   — C-como assim?
   Pensava o que mais falar a não ser perguntar ‘como assim’, já que os dois eram amigos desde a tenra infância. E além do mais, sou noiva. Muito noiva. Pensava. Vai se casar na semana seguinte.
   — Guilherme! Isto é loucura! Como...
   — Jane, por favor. Não é...eu há muito tempo que...
   — Por favor, Guilherme para, não faz isso.
   — E-eu te amo!
   O silêncio dentro do silêncio. Pois ja estavam em um silêncio quase que inevitavel quando este era tudo que dominara entre aqueles dois. Tão silenciosamente só os olhos tremulavam entre um e outro.
   — Não diga isto. Não brinca comigo. Eu disse para não falar...ai meu Deus...

   Interrompida por seus pensamentos mais intensos, ela pensava no amor que ele acabara de jurar-lhe de modo tão espontâneo. Atordoada eu diria. Se ele a amava mesmo, por que esperou tanto tempo para lhe dizer, faltando apenas poucos dias para seu casamento?
   Enquanto aquele incômodo, mas necessário silêncio reinava, ele esperava que ela algo dissesse. Olhando-a nos olhos, ele podia lê-los. Olhava-o com profunda admiração e simultaneamente sentia raiva. Talvez raiva de si mesma, ele não sabe. Como realmente saber? Talvez ela o ame. Se ama, porque recebe o amor de outro? E ela não faz idéia do ele sente quando a vê ao longe, sorrindo com suas amigas e não o vê. Vê-lo sem ver.
   Jane sente que seu coração começou a bater mais forte e que sua respiração parece querer sufocá-la. Um calafrio subindo pela espinha e tamanha sensação de ser protegida. Um terrivel paradoxo, claro. Se ele lhe desse um abraço bem apertado e isso resolvesse todos os seus temores? Mas ela não precisa por que... porque vai se casar com alguém especial. E eu sou uma pessoa fiel. Pensa quase tão alto como se isto fosse mesmo o que fosse, um marco em sua decisão.
   Enquanto ele a olha na espera de uma palavra, Jane prefere conter-se. Aturdida, e tambem como estivesse com uma vertigem descomunal, mas afinal não era o que ele queria. Mas estava mesmo completamente confusa. Confusa com aquele seu jeito peculiar de abaixar a pertubada cabecinha. Na verdade não via mais do que a si mesma. Uma beleza contida. Mas que ela via com muita vontade de que alguma coisa ficara melhor em suas curvas. Podia ver isto quase sempre de relance quando holvesse algo que refletia sua silhueta. Parecia mesmo uma doença, nao conseguir deixar de se olhar e até desejar seu reflexo nos espelhos e vitrines. Aquilo tudo realmente não é para qualquer um. Seria de alguém muito especial.
   Ama o amigo que a ama. Mas não é amor de amar mesmo. Talvez um sentimento sem definição ainda que se evitava pensar, porque não queria deixar fluir. Também para que não acreditasse em algo que até então era proibido. Amava seu noivo? Que sentira então por ele?Aí que lhe veio à mente que seu noivo nunca lhe dissera daquela forma que a amava. Talvez não a amasse mesmo. Que significou então as nossas noites de amor? Intensas até. Seria ele o merecedor de tudo em mim? Serão estes pensamentos inquietantes uma desculpa para um novo amor? Pensava isto apenas consigo mesma, mexia sem parar as mãos que esvoaçavam pelo ar com gracioso desespero. Mas em silêncio, fraçoes de segundo que se tornam horas. É o silêncio que subtende a sutileza dos gestos banais.
   Guilherme quase imobilizado pelos gestos confusos e airosos de sua amada, como se agora pudesse entendê-los. Entendê-la-ia. Diria tenazmente. Queria dizer-lhe que ela seria mais feliz com ele. Muito mais. E que não se casasse com aquele tal, pois ela não lhe passava a impressão que queria realmente se casar com ele.
   
   Se eu roubar um beijo seu agora? Corresponderia-me? Desejou aqueles lábios ainda mais. Quis deitá-la nos seus braços e dar-lhe um beijo. Um único. Seria também o último. Mas, disse-lhe:
   — Jane... não quero que me entendas mal, eu.. só queria mesmo me despedir de você. Suspirando, abaixou a cabeça. Demonstrou com um gesto peculiar de alguém que guardara um segredo dentro de uma atitude secreta reservada para um último olhar de adeus.
   — Se despedir de mim? Como assim? Pra onde você vai?
   Aproximou-se e sussurrou ao pé do ouvido. Não houve nenhuma reação de sua parte para impedir. Pois fora inconscientemente induzida ao desejo. Suas mãos delicadas e macias espalmadas avançaram bruscas por um momento sobre seu peito, quando no ímpeto do hálito quente das palavras consumando o ato, hesitaram. Entregava-se agora louca e completa àquele que lhe roubava um beijo.



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