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   > COMO SURGIU A BRINCADEIRA



fernanda santos melo da silva
      ARTIGOS

COMO SURGIU A BRINCADEIRA

COMO SURGIU A BRINCADEIRA
A introdução da brincadeira no contexto infantil inicia-se, timidamente, com a criação dos jardins de infância, fruto da expansão da proposta Froebeliana que influencia a educação infantil de todos os países. A difusão não é uniforme, pois depende de valores selecionados, apropriações de elementos da teoria e forma como seus discípulos a traduzem. A apropriação resume o modo pelo qual cada realidade interpreta um dado teórico que reflete a orientação cultural de cada país.
Concepções de homem e sociedade envolvendo a liberdade do ser humano de auto-determinar-se, buscar o conhecimento para a humanidade desenvolver-se, definem a função da educação infantil que se reflete no brincar, considerado “ a fase mais importante da infância- do desenvolvimento humano nesta período- por ser a auto-ativa representação do interno- a representação de necessidades e impulsos internos,” (FROEBEL, 1912c, p. 54-55), citado por BORGES (2008, p.29)
 a atividade mais pura do homem neste estágio e, ao mesmo tempo, típica da vida humana enquanto um todo- da vida natural interna no homem e de todas as coisas. Ela dá alegria, liberdade, contentamento descanso externo e interno, paz com o mundo... A criança que brinca sempre, com determinação auto-ativa, perseverando, esquecendo sua fadiga física, pode certamente tornar-se, capaz de auto-sacrifício para a promoção do seu bem e de outros...Como sempre indicamos, o brincar em qualquer tempo não é trivial, é altamente sério e de profunda significação (FROEBEL, 1912C, p.55, citado por BORGES, 2008, P. 29))
 
Segundo BLOW (1991), psicólogo da infância, citado por BORGES (2008, p.29), Froebel introduz o brincar para educar e desenvolver a criança. Sua teoria pressupõe que o brincar permite o estabelecimento de relações entre objetos culturais e a natureza, unificados pelo mundo espiritual. Froebel concebe o brincar como atividade livre e espontânea, responsável pelo desenvolvimento físico, moral, cognitivo, e os dons ou brinquedos, objetos que subsidiam atividades infantis.
Nos primeiros tempos da educação infantil brasileira, à semelhança da experiência americana, o brincar, no imaginário dos profissionais apresenta tonalidades diferenciadas conforme o tipo de instituição e a clientela atendida.
Por meio dos documentos consultados por ARIÈS (1960), citado por Jucimara Rojas (2007, p 15), pode-se imaginar como era a vida da criança no século XVII. Igualmente, como eram suas brincadeiras e um homem determinado, a que etapas de seu desenvolvimento físico e mental cada uma delas correspondia. Parece, portanto, que no início do século XVII não existia uma separação tão rigorosa como hoje entre as brincadeiras e os jogos, reservados às crianças, e as brincadeiras e os jogos dos adultos. Os mesmos eram comuns a ambos. ARIÈS (1960, p.88.), citado por ROJAS (2007, p. 15).
ARIÈS (1960) citado por ROJAS (2007, p. 16), aponta que, por volta do ano de 1600, a especialização das brincadeiras pertencia à primeira infância. Ele destaca que, nessa fase, não existia muita descriminação entre meninos e meninas, que ambos os sexos usavam o mesmo traje, uma espécie de vestido, e que a brincadeira com bonecas era comum a meninos e meninas. ARIÈS (1960) citado por ROJAS (2007, p. 16), complementa que, na sociedade antiga, a criança já praticava alguns jogos e brincadeiras, como arco, cartas e xadrez, brincadeiras de pegar e o jogo de peteca com raquetes.
 ARIÈS (1973) citado por ROJAS (2007, p. 16), registra o que talvez, para nós professores, possa ser uma idéia: um jogo de papeizinhos muito em moda no fim da idade Média, uma espécie de adivinha com rimas que dão origem a canção popular e às brincadeiras infantis, como o próprio jogo das rimas. Uma brincadeira ou jogo de salão que consistia em adivinhar as profissões e as histórias representadas por mímica. Também a música, a dança, o canto e o brinquedo com balanços ocupavam um lugar de destaque no cotidiano infantil.   
Mesmo os adultos e os jovens que já haviam deixado a infância não abandonam inteiramente os jogos, entre eles a cabra-cega, o jogo do assobio, a faca na bacia etc.
 
O espírito lúdico da convivência prazerosa e criativa que vinha sendo praticamente desenvolvido desde o nascimento, com o próprio corpinho e com a mãe, e depois no faz-de-conta solitário, passa pouco a pouco a fazer parte do universo social, agora transversal, entre pares, com sua complicada trama de relações, suas regras e acordos, muitas vezes ainda implícitos e velados (OLIVEIRA, 2000, p.22, citado por ROJAS, 2007. p. 19).
O brincar infantil não pode ser considerado apenas uma brincadeira superficial, sem nem um valor, pois no verdadeiro e profundo brincar, acordam, despertam e vivem forças de fantasias que, por sua vez, chegam a ter uma ação direta sobre a formação e sobre a estruturação do pensamento da criança. Esse processo natural e sadio de se processar a inteligência não é possível, quando as crianças não realizam ou não conseguem mais o verdadeiro brincar.
É evidente que o mundo humano tem mais significados no brincar da criança. Tal mundo é apreendido pela imitação e fixado na criança pelo brincar, momentos em que ocorre a repetição de fatos corriqueiros da vida diária, tendo o seu ápice na vivência, que a criança tem de si mesma. Vivência que muitas vezes, encontra sua expressão mais profunda, “como um Eu”, no brincar com uma boneca, por exemplo, com a qual se identifica. “Dramatizar o vivido, representando-o, ajuda a criança a afirmar-se como pessoa e a externar sentimentos e pensamentos”. (OLIVEIRA, 2000, citado por ROJAS, 2007, p.19).
O brincar infantil constitui como a forma básica mais importante e decisiva do ser humano, por fazer desabrocharem e ativarem as forças criativas da criança, propiciando o exercício da imaginação infantil, ao antecipar pela imaginação o agir; portanto, toda motivação e estímulos presentes na criança possibilitam as variações imaginativas e a convicção do “eu posso” que direcionam o sentido das possibilidades práticas que a criança experimenta, por meio das brincadeiras.
A capacidade de brincar e lançar-se no espaço de encontros e acontecimentos surpreendentes possibilita à criança enriquecer a criatividade. O brincar possibilita o rompimento das limitações e, transforma e amplia a capacidade criativa, potencialidades próprias da infância.
Assim, a criança conta sua forma de estar no mundo e habitá-lo. Mostra seu pensar e seu querer, torna-se presente e interpreta o mundo à sua maneira. As brincadeiras ancoram as fantasias e permitem que se articulem presença e ausência, simultaneamente, construindo o momento de acontecimento do sentido.
O jogo, as brincadeiras, as invenções infantis buscam transformar o mundo, dominar seus efeitos de sentido. Abrem a possibilidade do princípio do prazer e da realização do criar, logo do aprender e do viver o não-real, dentro do mundo real. O brincar é o espaço com poder de transformação.
Portanto, a fantasia infantil necessita de liberdade para poder desenvolver pelo manuseio ativo e curioso do material que a criança tem oportunidade de vivenciar no mundo, as formas e a qualidade de tudo o que existe, é no brincar livre que a criança vai estruturar sua capacidade de julgamento, a capacidade de fundamentar sua personalidade em importantes valores, princípios e regras.
Assim, a prática lúdica na infância num lar harmonioso, certamente, é o que de melhor e mais precioso uma criança pode levar consigo para sua vida futura.
No pensamento de VYGOTSKY (1991), citado por ROJAS (2007, p. 30), o desenvolvimento e a aprendizagem estão inter-relacionados, desde o nascimento da criança. Ainda muito pequena, através das interações com o meio físico e social, a criança realiza uma série de aprendizados. Então, as experiências, realizadas por meio das brincadeiras, contribuem de forma elementar para a aquisição de conhecimentos que alicerçam os saberes sistemáticos, ao entrar na escola.
Nesse sentido, a infância conta com a natureza própria do brincar, como meio para adquirir a aprendizagem de maneira espontânea e prazerosa, o que denominamos brincar social e espontâneo. Como comunicação do humano, a ludicidade em sua metáfora propicia e facilita isso, indo do simples ao complexo.
Por meio da ludicidade, como comunicação do humano, podemos evidenciar muitos pensares e falares que alimentam, qualitativamente, a vida da criança em novas construções. A ludicidade é a manifestação da espontaneidade por meio da fala e dos gestos que a criança expressa de forma prazerosa, revelando maior significado ao aprender.
Acredito que o brincar é o primeiro experimentar do mundo que se realiza na vida da criança. É uma linguagem de interação que possibilita descobertas e conhecimentos sobre si mesma, sobre o outro, sobre o mundo que a rodeia. Entretanto, com o acelerado processo de mudanças em nosso mundo e uma civilização cada vez mais técnica, a criança está perdendo sua capacidade de brincar. A originalidade deste momento do brincar está cedendo lugar a um mundo centrado nos caminhos mecanizados e cada vez mais informatizados que levam o humano a se robotizar, no pensar e no agir.
O espírito lúdico da convivência prazerosa e criativa que vinha sendo praticamente desenvolvido desde o nascimento, com o próprio corpinho e com a mãe, e depois no faz-de-conta solitário, passa pouco a pouco a fazer parte do universo social, agora transversal, entre pares, com sua complicada trama de relações, suas regras e acordos, muitas vezes ainda implícitos e velados (OLIVEIRA, 2002, p. 22)
 
A brincadeira é tão importante quanto estudar, ajuda a esquecer momentos difíceis. Quando brincamos, conseguimos sem muito esforço encontrar respostas a várias indagações, podemos sanar dificuldades de aprendizagem, bem como interagirmos com nossos semelhantes. Quem brinca desenvolve músculos, mente sociabilidade, coordenação motora e além de tudo deixa qualquer um mais feliz. Através do brincar prepara-se para aprender, brincando se aprende novos conceitos, adquire informações e tem um crescimento saudável.
Através da brincadeira, a criança tem a possibilidade de experimentar novas formas de ação, exercitá-las, ser criativa, imaginar situações e reproduzir momentos e interações importantes de sua vida.  Os jogos e as brincadeiras são uma forma de lazer no qual estão presentes as vivências de prazer e desprazer. Representam uma fonte de conhecimento sobre o mundo e sobre si mesmo, contribuindo para o desenvolvimento de recursos cognitivos e afetivos que favorecem o raciocínio, tomada de decisões, soluções de problemas e o desenvolvimento do potencial criativo.
A brincadeira assume um papel essencial porque se constitui como produto e produtora de sentidos e significados na formação da subjetividade da criança. Essa atividade proporciona um momento de descontração e de informalidade que a escola pode utilizar mesmo que isso possa parecer um paradoxo já que o seu papel, por excelência, é o de oferecer o ensino formal, mas tendo também de exercer um papel fundamental na formação do sujeito e da sua personalidade. Portanto, passa e ser sua função inclusive a de oferecer atividades como a brincadeira. Porem, a introdução de um espaço de brincadeira constitui uma atividade que não é fácil de propor, uma vez que requer o desenvolvimento da habilidade de brincar do professor.
A brincadeira é universal e é própria da saúde, facilita o crescimento, desenvolve o potencial criativo e conduz aos relacionamentos grupais. Nesse sentido, o autor entende o brincar como algo que, por si só, é uma terapia com possibilidade auto-curativa. Quando as crianças sentem que os outros estão livres e também pode brincar, elas se sentem confiantes para fazê-lo. Quando a criança não é capaz de brincar, há algo errado, fazendo-se necessário trazê-la para o seu estado natural em que ela possa brincar. 
Para KISHIMOTO (1999), citado por ROJAS (2007, p. 52), as práticas lúdicas proporcionam subsídios para a compreensão da brincadeira como ação livre da criança e o uso de dons, objetos. São valiosos suportes da ação docente, que enriquecem o trabalho pedagógico, permitindo a aquisição de habilidades e conhecimentos, justificando, assim, os jogos educativos.
No entanto, a preocupação com a escolaridade da criança desvia o brincar da infância levando a seriedade ao cotidiano infantil, desconsiderando e dissociando o lúdico das atividades escolares. No mundo contem porâneo, as propostas de Educação Infantil se dividem entre as que reproduzem a escola elementar, com ênfase na escolarização (alfabetização e números) e as que buscam introduzir a brincadeira, valorizando a socialização e a re-criação de experiências. Permitem que as concepções em sociedade envolvam a liberdade do ser humano de se auto-determinar. (KISHIMOTO (1999), citado por ROJAS, 2007, p. 53),
De acordo com VYGOTSKY (1984), citado por SOUZA (2007, p. 16), p. 16), o brincar não pode ser definido como atividade que dá prazer à criança porque outras atividades dão experiências de prazer mais intensas e outras não são agradáveis e só dão prazer de acordo com o resultado. No entanto, é necessário compreender a brincadeira como atividade que preenche necessidades da criança.
A brincadeira desempenha muitas funções, pensamento criativo, desenvolvimento social e emocional, as crianças brincam para dominar angustias. A personalidade infantil evolui muito através de suas próprias brincadeiras e das invenções de brincadeiras.
 


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