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   > A DESCOBERTA DE SIDNEY FARR



Geovani Silva
      CONTOS

A DESCOBERTA DE SIDNEY FARR

 
            Farr entrou no ônibus. Pisou nas chapas metálicas frisadas do assoalho e elas emitiam um brilho dando a boa impressão de que foram lavadas. Procurava entre as cadeiras na esperança de algum lugar vazio, mas o ônibus estava muito cheio.  
    Tinha aquela sensação de quem não queria chegar a lugar algum, depois de mais um dia estressante no trabalho, deu aquele sorriso tosco para se acomodar em pé tendo poucos centímetros quadrados ao se locomover. O pé em sufoco achava pouco espaço para descansar, aproveitando aquele instante único em que alguém tirava o seu para evitar a câimbra, e quando voltava já estava ocupado.
Mas Sidney Farr não queria ir para casa. Estava com uma frustração de algo mal resolvido das escolhas que precipitara de que agora quisera a beleza das coisas. De que em casa o seu vazio interior não seria preenchido daquela hora. Tinha consigo a bolsa nas costas já sentindo o peso que levava. E mesmo a tarde pegar ônibus cheio, realmente não fora uma boa idéia. Ao se acomodar e sentir aquele alívio forçado de ter distribuído bem o corpo cansado sobre as duas pernas, vagava pela memória que sentia falta mesmo era de seu sofá, apesar de bem gasto era o que precisava.
A vida de Sidney Farr era calma, mas agora de uma rotina difícil, fora criado como alguém que sem mínimo esforço ia ganhando a vida. Assim então ia trabalhando como ajudante. Não ganhando muito, mas o que posso dizer é que ele não precisava de tanto para ser feliz, embora achasse que fosse nada que fazia mudava as coisas, não mudava o mundo e ele continuava pobre.
 Quando parava um pouco notava por se esforçar a ver seu rosto no reflexo da janela porque ainda era dia e não se podia ver direito no vidro, aquela cara não parecia ser a dele era a de alguém cansado da vida que tinha. Via-se perfeitamente uma expressão abatida e frágil que estava na verdade quase viva. Não falava para ninguém em que trabalhava para manter um pouco de superficialidade, mas ele mesmo olhava a sua mão que ficava sedosa, macia e engordurada já que era de uma pressa pontual na hora de ir embora; e o farfalhar de objetos metálicos e louças que eram despejados sobre um balcão comprido de metal ficava misturando aos barulhos e cenas rápidas dos carros na rua vistas pela janela do ônibus.
     Olhou mais uma vez, e na metade do ônibus havia uma belíssima silhueta de mulher: era o que dava para notar da distância em que se encontrava que era loira. O lindo cabelo liso descia-lhe pelas costas com pequenas ondulações nas pontas que eram mais claras dando uma sensação de luzes realçando sua beleza. Via-lhe pouco do semblante que era diferente: tinha uma extraordinária beleza singular. Seu rosto de perfil exibia um nariz com suave curvatura ascendente com fina elegância na ponta. Ele tinha que conhecê-la. Porque lhe pareceu diferente das demais mulheres que já havia visto na vida. Foi se espremendo entre as pessoas no corredor para se aproximar. E cada vez que chegava mais perto ele confirmava a certeza de que ela era tudo e um pouco mais daquilo que observara. Mas dizia a si mesmo: “não pode ser ela, não pode ser..." e era realmente a mesma mulher a qual ele já teria visto a algumas vezes no mesmo ônibus. Só que desta vez teria de ser diferente.
    Sidney Farr sentia-se travado. Porque talvez estivesse carregando uma carga pesada de uma decisão precipitada no passado. E às vezes pensava que não era só uma questão moral, mas tinha muito mais do que isto envolvido. Mas esta mulher que sustenta agora algumas batidas mais fortes do coração, estava deslocando-o de sua órbita, como que inesperadamente o seu rosto, mesmo rubro sorria. Havia nele uma alegria disfarçada. E que deixar-se levar por um momento de êxtase, só lhe faria bem.
     Se ajeitando ele conscientemente já se encontrava em espaço íntimo de uma mulher a qual desconhecia inteiramente os hábitos para se colocar cada vez mais dentro ate sentir que o braço quente e liso roça o seu direito, sem se dar conta de como havia começado, como se apartir daquele exato momento o acordasse para um sonho. Elegantemente, a mulher no esforço frágil com a mão fina e delicada tentando segurar na barra acima, apenas.
            De súbito, mal tivera coragem de olhá-la nos olhos de tão bonita. Porque no momento em que pusera sobre ela seus olhos, seu coração disparava de maneira tão violenta que chegava a doer, pois ela já era intima de seus desejos a distancia. O toque quente e suave de pele macia o lembrara que tinha alguém. Que vivia juntos com tempero de longa data.
Mas interrompendo este fluxo de lembrança sentia também o perfume que exalava pelo braço erguido, penetra-lhe ate as entranhas do pulmão sentindo algo tão bom quanto à nicotina. A fragrância tinha um gosto delicioso de encher os olhos de desejo. Olhava-a de olhar velado sem que ela o notasse já que era loira demais para um homem que retornara do serviço levando consigo uma bolsa com marcas de uso constantes. E esta era parte dele e assim também ele o era: um díspar grande da beleza daquela ali cuja essência lhe era somente um arquétipo.
 
 Notou com grande entusiasmo que ela abraçara na mão sobre o busto volumoso um livro de Direito de letras grandes na capa. Queria lhe falar algo, mas nada que o fizesse um idiota, ou um mero puxador de assunto qualquer. Uma advogada está num patamar elevado. Cursava Direito. Por causa do livro? Pensava. Mas Sidney Farr não sabia nada de direito.
 
O mais interessante naquela mulher era o olhar que estava vago e perdido para longe, alem do horizonte, alem da janela do ônibus. Ele observou atentamente a expressão que para as pessoas ali naquele meio não teria quase nenhuma significação, mas para ele aquela mulher começava a contar sem palavras a sua vida.
 Estava na captura de um mínimo movimento da mulher, dos olhos verdes que desse a lhe entender que ela o olharia discretamente. Mas ela não olhava. Nem sequer uma vez ao menos, porque nela se achava uma postura de uma pessoa autoconfiante, de mulher que queria passar ser bela demais para olhar qualquer um, de quem tinha uma posição de que a beleza lhe dava privilegio.
 Desprendendo-se destas impressões superficiais que a mulher jurava passar, ele não era tão comum como as pessoas a sua volta que só podiam ver a superficialidade e nada alem do obvio. Apesar de toda aquela postura de imponência, daquele corpo bem aprumado e empinado, transparecia em seu rosto qualquer preocupação persistente.
 Viu em suas mãos que os dedos eram cheinhos, ligeiramente delicados. Que sua mão que segurava a barra tinha uma aliança de noiva de espessura bem larga e já suada ficava escorregando e se ajeitando. O esmalte vermelho vivo estava com um quase imperceptível descascado nas pontas, mas a que segurava o livro pesado tremia levemente, pois se tornava cada vez mais difícil segura-lo só com uma mão levando em conta o balanço do ônibus. Quando este parara no ponto para alguém descer ou subir, ela se aproveitara do momento para descansar os braços e mudar o livro de mão, e neste gesto o bolso de sua camisa deixara uma pequena curvatura para fora. Havia em seu bolso um crachá preso em uma fita que exibia o nome de uma loja conhecida de eletrodomésticos e em letras grandes na parte de cima o nome “Thais Loff”.
Ao se posicionar novamente ela secava de modo discreto o suor de sua mão e olhava a aliança em questão de segundos, não houvesse um observador extremamente atento, estas coisas jamais seriam notadas e perdidas para sempre. Mas também neste contexto tão fugaz, o seu olhar cansado ganhava uma inclinação triste e a sua boca em seguida se contorcia para o lado esquerdo numa desaprovação do que via na própria mão e em seguida apertou o livro contra o peito, respirando fundo, talvez o livro que a ajudaria a tirar algumas duvidas de questões legais. Também notara em sua mão esquerda, mais especificamente em um dos dedos, uma marca bem mais clara que sua pele contornava-o, mas era a marca profunda de uma aliança. Ouvira-se o barulho das portas se fechando com ar comprimido e ela se ajeitava se segurando. O motorista engatava a marcha e repicando acelerava.
Entendera tudo agora. E se apaixonara ainda mais. Refez mentalmente a sua pergunta: o que dizer a uma mulher que fora casada, que agora está noiva e não tem certeza se o ama para se casar novamente? Aquela mulher de nome Thais Loff não era advogada e sua vida não mais um mistério. Sidney Farr teve vontade de se aproximar por saber coisas que ali mais ninguém sabia. Talvez sentisse que devesse lhe dizer para não se casar com um homem tão possessivo. Agora percebeu que o livro se tratava de direitos conjugais, daquilo que outrora fora uma péssima decisão que mudara a sua vida para sempre. Um casamento que só lhe trouxera desgraça. Pois a seu ver, ela estava para sofrer novamente.
Thais Loff procurava a felicidade. Havia no profundo de seus olhos uma tristeza gerada pelo cansaço emocional porque em todas as suas atitudes uma insatisfação com a vida lhe era evidente.
Ele vira tudo isso naquela mulher, quase nada estava subtendido. Apesar de achar que era um carente desiludido, estas coisas pequenas que começara lentamente estava para tomar proporções gigantescas.
 Pensava de si mesmo que isto era coisa de gente mal amada, de homem que talvez nem bem estivesse satisfeito com a mulher qual lhe jurara amor até que a morte os separe.
 E cada vez mais quente sua pele colava a dela: o ponto em que se enfiava algo pontiagudo que atravessando e descendo por todo o braço ate entrar no intimo vital daquele órgão que doía. Enquanto mal respirava para que ela não sentisse sua pulsação conscientizando-a que seu braço também colava ao de alguém, temia um mal entendido de aproveitar demais do momento. Não queria puxar a mão e com o braço duro inerte para que ela não pensasse que a estava evitando sem querer e que a incomodava. Mas decepcionou-o ela ao se espremer para o outro lado. Mesmo que fizera parecer inconsciente as tentativas aproveitando do balanço do ônibus, frustrava-lhe a reação pouco consciente da mulher e isto o fazia triste, despertava algo cruel dentro de si a imaginar. A mulher que não queria saber quem ele era e que tinha uma perspectiva distante da que ele tinha, não seguraria um olhar de dois segundos para seu rosto marcado pelas decepções da vida.
 
 Impacientou-se coçando a cabeça por não encontrar um meio adequado para se achegar e assustou com a sua própria mão esquerda e passou a escondê-la discretamente ajustando a alça da bolsa. De quando em quando, para ele este brilho que lhe adornava o dedo não simbolizava que poderia ter alguém, e sim que às vezes queria fazer entender que tinha uma vida muito especial, e alguém que somente ele conhecia. Se bonita ou não, fazia parecer que era e que morava numa boa casa, para que se sentisse bem aceito entre quem os quais não o conheceram intimamente. Noutras atitudes, não a usava e nunca conhecera esta prisão. Quando deu este suspiro, a moça ao lado o olhara, mas, disfarçou-se abrindo a pequena bolsa no braço e pôs um fone no ouvido. Pensou que isto fosse uma pequena chama, mas que ela talvez fosse tímida.
           
Sidney Farr era observador, tinha uma habilidade impressionante. Apesar de não ter muito estudo, nada além do segundo grau curricular, ele atentava-se a detalhes que normalmente muitos não viam. Mesmo assim não entendera muito bem o vazio que se formava entre aquele olhar e o ato de pegar o fone, porque imaginava que a paixão deixava o homem com o raciocínio pouco lento, por isso se esquecia da montagem que fizera para chegar ate ali, e pensou: ela é indecisa.
 Havia uma obscuridade que quanto mais se pensava nela se perdia a verdadeira razão de está-lo ali. Tentou procurar em vão, porque as imagens daquelas cenas falsas davam uma dor de cabeça que ia desfazendo toda a linha daquele labirinto ate começar uma escuridão, ai tinha de abrir os olhos da consciência para o fato. Mas a beleza que via com muita fome ficava intermediando como um vaga-lume. Mas isto ele não compreendera e nem era capaz. Pois se queria mesmo pensar nisto, relativo ao quesito de sua nova paixão, havia bem no elo solto desta corrente um limite que se fazia perder de vista o raciocínio lógico. Por isto não via mais do que o obvio, que ela queria pegar o fone, mas o olhar afixava-o. Naquele vácuo poderia haver muita coisa, ela estaria sentindo falta de um homem que suspirasse mesmo dentro de um ônibus cheio? Uma mulher bonita sofrendo por ser bonita. Alguns homens, os mais pobres de espírito, fogem delas como se fossem deusas da beleza.
Que na verdade a consciência que tinha de si mesmo, digo da sua realidade exterior, muito seria despercebida se a sua enaltecida lhe visse um ponto em comum. Mas, esta, infelizmente para sua carência passional, tinha aliança de noiva, que ela exibira despudoradamente quando recolocou uma mexa de cabelo para trás da orelha e reajustava o fone. Se ela percebera realmente ao menos pouca coisa, chegaria a reforçar as peculiaridades de mulher comprometida. E emudecesse ainda mais a cara fechada. Talvez, Farr estivesse sendo mesmo um tolo. E era. Pela sua incapacidade de aperceber naquele momento o que naturalmente lhe fora velado. Chegava a imaginá-la lhe sorrindo e acariciando seu rosto pálido e branco em público. Sua boca sorria nos cantos e o rosto corava, ruborizava com a imagem não muito vaga dele mesmo sendo amado cheio de felicidade. Então quando desejava também capaz de ter uma bela mulher ao seu lado com isso admitia sem querer que já não achasse a sua tão bonita assim. Não pensava trair a mulher se houvesse oportunidade. Mas desejava a atenção da outra que enfeitara num pedestal.
    Enquanto ele, absorto nas profundezas do seu íntimo, suas expressões mudavam constantemente e segurava mais firme na barra no teto do ônibus tanto que outros notavam suas reações. 
    Havia no seu canto direito ao lado de sua admirava, duas pessoas e uma senhora bem idosa e de baixa estatura com umas sacolas na mão. Ela o reparava de modo enigmático nas linhas de expressões de seus olhos devido a avançada idade. Pareceu-lhe que ela queria-lhe entender.
 Observara suas mãos que estavam firmes e segura na barra, ele acompanhou que o seguia lentamente com aqueles olhos sem brilhos que lhe subia pelo braço ate a altura da mão esquerda e ate especificamente aos dedos. Que ela o olhava sem temor de repreensão já que com tanta experiência de vida não tinha de dar satisfação alguma a ninguém. Farr se apercebera de algumas mudanças nas expressões da velha senhora que ela apertava um dos olhos quase os fechando e depois deu um leve e quase que imperceptível sorriso no canto da boca. Mas seu olhar mudou para uma sutil súbita tristeza quando ela finalmente chegou ate seus olhos. Mas ela desconcertou-o quando concluiu sua pesquisa reparando em seguida na bela jovem que escutara musica num fone sem se dar ao mínimo de conta que era perscrutada. Enrubesceu que, observador que era, havia ali alguém que sabia de tudo. Que sem palavras poderia desvendá-lo. Que sem hipocrisia desaprovava a perdição do seu caminho. E como ele se empalideceu! Era como se aquela senhora ali, velha e corcunda, rosto marcado pelas necessidades da vida o desnudasse de uma posição em que ninguém antes entrara. Este era um abrigo onde ele podia ser ele mesmo, observador sagaz e inteligente, impudicamente uma águia sempre acima de suas presas. Havia nele mesmo uma beleza interior que só outras águias podiam sentir.
Quando Farr era criança, se lembrava bem, que em brincadeira observava que em um grande lote vago próximo a sua casa havia um extenso monte de capim que crescera ate a meia altura e que ele resolvera ir bem ate o centro do capinzal e descampou um enorme circulo. Ali ele podia observar as pessoas em seu cotidiano, as que passavam na rua, as que paravam para conversar, e era mesmo para uma criança que aquilo era a maior de suas invenções. Ate quando um dia fora descoberto e tocaram fogo em seu esconderijo. Então aquilo fora como o tivesse deixado nu. Uma criança descoberta, uma criança tivera seu crescimento interrompido por adultos que não entendiam que tudo não passava de apenas uma brincadeira infantil. E agora aquela velha senhora entrou no seu íntimo.
Mas Sidney deixara bruscamente de lado sua nova experiência quando sua amada remexeu-se com as características peculiares de alguém que se apronta e se ajeita para deixar o ônibus.
 
            A mulher que o levara a se delongar em sôfregas comparações e a qual se apaixonara com desejo e ódio intenso mexeu-se com uma sutileza felina e aprumou o corpo em direção a porta de saída. Desceu compassadamente elegante, formosa e linda para sempre de sua vida.
Era o fardo do vazio da vida. Sobretudo, o que mais lhe doía era a perda de algo que ele ainda não teve e nunca teria. Nunca sentira o gosto tão amargo. Era como se alguém lhe arrancasse a espinha na alma. Ofegava o coração que se partira, e ele estava só. Continuou olhando pela janela mal lavada de olhos tristes para as cenas cinzentas e mortas da cidade.
 A mulher que despertara uma paixão adormecida no seu coração levava embora o melhor da sua vida. Como seria esta nova fase? Como chegar em casa tendo alguém a sua espera para o jantar cheiroso perguntando como foi seu dia? Aonde teria ido à mulher do ônibus que era noiva de alguém? Talvez fora encontrá-lo. Enquanto pensava isto, Sidney Farr apercebia-se que tomava de ciúme e despertava-lhe que de certa forma traía sua própria consciência com o enorme desejo que sentira pela outra. Ainda que a outra fosse alguém muito distante.
Enquanto ela andava pela calçada, Sidney acompanhou-a com os olhos surpresos sem a iminente despedida. Pendeu a cabeça o mais que podia na ultima expectativa para um olhar de adeus. Mas ela reafirmou jogando os cabelos longos que era atraente para os observadores e que também não levaria nada do homem que a admirara. Foi quando lhe abria uma ferida. Mas essa ferida era grande demais para suportar, pois sabia que não sararia nunca. Como era para Farr sentir esta dor de uma ferida que agora exposta ao relento, ao leo e tão a deriva?
 A cada respiração parecia aumentar o tamanho da dor. Mas essa dor ao mesmo tempo não doía, era uma dor gostosa de sentir. Isso porque queria assim. E era sempre uma expectativa quase inútil. E ele sabia que não o levaria a nada, embora sentisse bem dentro de si que algo ou coisa ligava-os numa espécie de canal ou freqüência que mais ninguém se dava conta, nem ela, esta afinidade psicológica que acabara de inventar se distanciava e afunilava. Que de certo ângulo, o fazia preso. Ele era agora um solto preso. Mas ela fora embora e o deixara solto para seguir sua vida e ser livre. Que não queria ser livre e não estava, pois quando ela sem o saber lhe deixava, ele ficou estaguinado nas lembranças tão forte e profundo que nada apagasse aquilo. E ser preso se tornara delicioso que nem o melhor chef saberia inventar. Ofegava uma transparente mistura de vermelho quente e cabelos loiros de pele clara. O que fez foi ter um pensamento, talvez a mais alta inquietação: tornou rígido e concreto aquele elo que indiretamente os ligava, que podia com uma certeza difícil aspirar das lembranças e quase que tocá-las. Quando queria, fechava os olhos e tudo lhe podia ser verossímil.
 Como um homem pode viver uma realidade paralela e se transpassando todo, preso em dois lados e sendo a fantasia do obscuro tão forte para confundi-lo? Era a beleza das coisas que agora quisera mais que tudo e em tudo que o deixava triste. Acabara de entender que há um lamaçal entres as paralelas e que bem de verdade era a ligação que construira e em vez de rígida estava mais para um barro mole que atolava bem fundo seus pés. Atolava sempre o que não pensava antes de pisar. Havia o pé atrás e sempre atrás. Porque o pé atrás era o pé preso, e atrás era mesmo como Sidney que era um preso atrás de tudo. E para ser mesmo sincero, não caberia somente a mulher a sua desilusão amorosa que o restringira ao mundo. Mas seus avos o criaram protegendo-o deste mesmo mundo sensibilizando-o onde tudo lhe era periclitante.
Mas achava que tinha um pouco de liberdade. Quando esta viera se viera? Pelo trabalho, um cargo de responsabilidade, uma mulher de verdade, ou filho? Não, talvez ele tenha ficado mais leve no alto onde aprendeu a dividir o peso de “atrás” mais bem distribuído sobre as duas pernas, pois a suas raízes de criação quando sedentas alimentam o pé preso na grade do berço.
   Sidney sentira que quando queria mesmo era como estar livre de tudo. Porque talvez, ele, desde o dado momento o quisera para si. Mesmo sem percebê-lo. Pois ainda que quisesse não sentira esta tal liberdade. Não que ficasse procurando, mas ate então não se sentira livre. Que quando foi para ser, mesmo se dando conta que não se dava por satisfeito, hesitava. E não havia clareza se era realmente a que ele queria. E ele ate procurava sem deixar evidente para si mesmo como se quisesse que ela chegasse de surpresa. Era como se Sidney andasse em circulo na rotina diária de sua vida para que terceiros não lhe colocasse em xeque. Apesar de se sentir meio livre era como estar solto para o que quisesse. Solto ou não se fazia triste porque uma voracidade quase que incontrolável ou indomável, como um animal fomentava a beleza de outra mulher. Então que Sidney se prendia a um pouco de contentamento que sentia por conquistar o que se entendia por ser alguém livre. E quando se percorria na ciência de sua mais pura existência, não era um hipócrita, pois preferira sentir a dor da verdade na pele do seu rosto. Quando queria sentir-se mais livre, por falta mesmo de opção já que a auto-estima lhe fora tirada desde quando algum dia na vida alguém lhe negara um beijo, procurava encher-se de desejo mesmo que fosse por certo prazer individual e solitário que lhe custasse. Isto era quase indefinido para Sidney que se fazia nu a um comparativo de igualdade. A paixão que sentira recentemente não lhe servira para nada, somente para isso, quando percebeu que coisas vêm, coisas vão. A mulher loira para ele sempre fora um marco de beleza. Sua vulnerabilidade era por se sentir solto como um alvo fácil e se deixava levar pelas curvas perigosas e pelos sorrisos delicados.
            Mas às vezes não se entregava só por se ver entregue, quando acontecia era aos poucos. Tão pouco que quando ia ver já estava com o pé dentro, e bem dentro. De modo que não conseguia mais sair nem se quisesse. Quando o pé se atolava num passo mal pensado porque às vezes se anda sem olhar onde se pisa, e não cabe a desculpa de ter se esquecido dos óculos, esse amor não-correspondido às vezes era bom ou mau, se o abraçasse todo, como era de costume. Só sentia um sentimento de conquista de algo indefinido, como uma suposta atenção do sexo oposto, mas que depois não era e que isto lhe gerava uma tristeza desmedida. A que podia sentir uma dor no peito e uns calafrios no estomago. A partir daí adorava uma ambigüidade e sem pensar muito, só em si mesmo. Então ele para se encontrar quando não sabia mais quem era, fingia uma verdade de pintar uma parede sem retirar a superficialidade. Mas no fundo, bem no fundo, ele como outro não queria se achar como um alguém que é sempre o mais do mesmo. Mas ate achava neste fundo que crescera, ainda de modo hesitante para a vida.
Sidney Farr já agora cansado não por estar em pé no ônibus, mas pelo cansaço mental que lhe trazia por achar que era um ninguém. Vale à pena esperar para crescer enquanto a vida é muito curta? Achava que este solo em que fora plantado por livre arbítrio, banhado por pouca água, e que a terra não lhe era fértil. Depois destes pensamentos, Sidney que já cansado de uma inocuidade singular, assimilara que desde muito plantara ele mesmo o pé na terra infértil, este mesmo pé que arraigava suas raízes em atoleiro e que de nada lhe adiantaria se tudo não recomeçasse por si próprio erguer a cabeça rumo ao desconhecido. Mas a ambigüidade que perpetuava tudo isto lhe arremetia a um extremo cansaço mental, e para quem que já habituado a um nivelamento constante, teria de lutar contra a um peculiar torpor que só lhe empurrava para o desfalecimento. Então ele teria de ter ainda alguma coisa, pois não era qualquer de alma vazia. O que ele tinha?
            Dignidade. Mas este homem ainda tinha isto. Como se reconstruiria um homem? Por auto-analise, Sidney Farr sentia dores de quebrantamento dele todo para se recompor, uma estrutura, um crescimento de alguém digno. Não queria mais ser rastejante em busca de bel prazer. Para ele havia como que uma construção inacabada e sem alguma estrutura, que precisava ser derrubada para que se viesse o novo, uma nova casa que resistiria aos tempos. E que isto só se daria através de uma renovação e um pleno reconhecimento de si mesmo.
            Sentira que houve uma linha divisória e que este homem quisesse gritar "chega" e fosse bem alto e despertasse essas engrenagens dentro de si que moviam lentas, tendo força para deslocar-lhe as rodas traseiras do barro lamacento na vida.
           
         Descendo então do ônibus, Sidney pisou na calçada. Sentindo ele que pisara em terra firme se propusera a dar um passo, ainda parado e sem pensar em nada, imóvel, quieto e calado. O ônibus se distanciava e ele ouvia o som do motor ainda ao longe e só distanciando e cada vez mais e cada vez mais lhe subia uma irresistível vontade de correr atrás e tomá-lo novamente. Como se fosse possível recuperar algo que não tivera posse. Como se fugir da vida real o levasse ao passado e aspirasse novamente à fragrância daqueles momentos. Depois de parado demais arriscou um passo timidamente na fria calçada de cimento. E parado demais fez com que ele perdesse a direção que tomaria para casa ficando seu pé em vão imóvel a meia altura do chão. Isto que durara alguns segundos durava muito, e ele ficara impossibilitado de tomar qualquer decisão abalizada. Uma terrível sensação o tomava que agora a única ligação que tivera lhe seria apagada se aquele passo fosse completado. Tudo estaria por se perder, pois que de alguma forma não muito bem explicitada na sua mente que se achava em meio a uma nevoa que enchera o lugar, assim como os seus pensamentos que se desfaziam como quando um forte vento tão repentino sopra sobre as folhas secas na calçada ao lado que o jardineiro amontoou por longas horas. Mas sem poder conter o avanço natural do passo e o pé que ansiava tocar o chão, usou de uma força externa de cerrar os punhos e premer os lábios e quando prendia a respiração conseguia com extrema dificuldade deter as imagens das lembranças. Sentiu-se seguro e pôs o pé no chão e quando abria num segundo os olhos percebera que boa parte nostálgica daquilo que realmente importava ainda vivia dentro. E teve coragem. E um passo com mais outro passo deram origens a outros passos e viu que não se perdera e que não era tão fácil se perder daquilo que se prendera a ele, e se aproximando tanto que o traspassara de todos os lados, devagar e bem lentamente.  
De súbito, Sidney andava desatencioso pelos cantos da avenida quando menos se dava conta, já estava bem em frente a uma cor forte de azul que seria o portão de onde morava. Chegou em casa e subindo de maneira lenta e preguiçosa as escadas do seu apartamento, que ainda pagava com a ajuda da mulher, entrou e fechou aporta atrás de si. A sala que não é muito grande, mas aconchegante lhe dava a vantagem de relaxar no sofá e soltar bem devagar a pressão que vinha acumulando. Nunca sentira como agora o aconchego da sala vazia, ainda era quente. Beijou a mulher com um beijo que já estava pronto que ela o recebia com uma inocência de não ter mais o que esperar. “E o seu dia?” “Foi bom”.
Evitava olhar nos seus olhos porque tinha a sensação que ela queria ter aquele tipo de conversa e chamava a atenção para o seu próprio cansaço amolecendo-se no sofá. Mas não deu certo, a pergunta já estava sendo feita:
            — Você me parece triste. O que te deixa triste?
Reparava de súbito que ela tinha um olhar de alguém que desconfiando queria uma resposta, e entre dizer totalmente a verdade ele evitou mentir omitindo.
            — Acho que não sei. Estou cansado do trabalho, do ônibus...
            O “acho” dava a vaga impressão de que ele não tinha obrigação de lhe falar o que não era certeza. 
            — Você ainda me ama?
            — Sim.
            — Você não sorri quando fala que me ama...
            — Como posso sorrir se ando triste?
            — Ainda sou bonita pra você? Parece que quando você me olha, seus olhos não estão em mim. Sinto que não me vê mais como quando namorávamos. Não é verdade?
            — Não sei bem o que é. Tem uma coisa que não sei se devo te falar...
            — Por que você não abre o jogo comigo, Farr, que eu não estou mais agüentando isto. Sabe o que acho? Nós nos perdemos um do outro! Vou ser direta: esta me traindo?
— Acho que estou gostando de outra... Não sei me explicar direito, todo o dia no ônibus sinto um vazio tão grande que às vezes nem tenho vontade de vir para casa. Mas não te traí.
            — Quanto tempo tem isto?
            — Uns três ou quatro meses, sei lá! Qual a diferença?
            — Isso é muito mais que só gostar!
 Realmente o que Sidney sentira desta vez foi muito mais forte de todos os dias que via aquela mulher ao entrar no ônibus, pois fora dentre todas a primeira vez que ele sentia o calor de um contato de pele de outra e um perfume de mulher tão contagiante.
            — Você acha que dividir o que sente por mim com outra cretina, não é me trair? Você pensa que não dói em mim quando olha dentro dos meus olhos e mente? O que imagina estar fazendo?
            — Ellen! Amor aconteceu!
Ele sentia que ela exagerava nas reações por algo que ainda tinha jeito. Era como aumentar a gravidade dele e tornar mais amenas outras coisas.
            Sidney Farr sentiu um terrível remoço ao ver que sua mulher chorava copiosamente inconsolável e soluçava sem parar. Tentava inútil lhe tranqüilizá-la acariciando o ombro que ela jogava sua mão com certa violência. Mas nada fosse reverter aquilo que perfurava sua alma inconcebível. Mas ela se afastava mais e mais lhe dando sinais com a mão que “chega” e que não a seguisse e que queria ficar sozinha, como sempre estivera. Ela agora silente enxugava as lagrimas como se nunca tivesse chorado por isto e pensando “o que houve com nossas vidas” e apenas com um olhar de mulher rejeitada negando com a cabeça que ele nunca entenderia, só deixou oco como se fosse. Mas tinha de dizer-lhe:
            —Tudo é culpa sua. Nada teria acontecido a mim se você estivesse comigo e me dado a atenção que eu precisava!
            — Como assim culpa minha? O que foi que você fez? Me fala!
            — Não! Você não se importa!
            Ellen correu em prantos para o quarto e fechou a porta atrás de si. Aquele choro não era o que Sidney pensava que fosse, mas ela sentia a dor de uma culpa que vinha suportando. 
            E a imensidão se tornara para Farr como um grande abismo e ele se via caindo e sentia perder algo tão mais valioso que não era fantasia na escuridão. E em choque sentia-se penetrado em todos os lados por uma faca que ela o enfiara no coração e em vez de sangue descia uma secreção amarga que ele mesmo experimentava. Mas quando se deu por conta e entendeu porque tinha acontecido e tudo agora fazia sentido quando ligava todas as atitudes dela aos fatos. Ele ficou inerte e sem chão e via a si mesmo caindo em abismo profundo esmagando seus próprios dedos num aperto violento das mãos. Ele repetia melancolicamente “Por quê? Porque meu Deus?” Agora se quisera pensar nas remotas lembranças que antes o aquecera, não podia, pois uma vagarosidade mental embranquecia sua linha de raciocínio. Mais uma vez compreendeu que mesmo na convivência diária não entenderia, não era matemática e não tinha que haver com cálculos, mas só a síntese mais pura de sentimentos de mulher.
Deixara jogar-se no sofá por horas a fio fino sem nenhuma reação de pensamento. Como seria se morresse sem nenhuma dor? Se por toda a vida sempre fora uma desgraça, isto não seria só mais uma gota d’água? Depois, depois de nada que mais pensar, pensou: o que tenho? De que se lembrara? E se levantou tomado de um enorme sobressalto e caminhando tonto e subindo as escadas de madeira foi ate o quarto que ficava ao lado onde havia uma borboletinha de silicone colada na porta e entrando seu rosto adquiria uma tranqüilidade angelical. Sentou-se numa cadeirinha de criança e observava sua linda filhinha dormindo, sorriu e lhe deu um beijo. Então quando saia renovado a menina lhe chamava:
— Papai!
— Oi meu bem! Acordou?
— Papai, você e mamãe estavam brigando? Eu também escutei a mamãe chorando. 
— Não meu amor, ta tudo bem.
— Papai, eu estava sonhando com nós.
— “Nós” quem querida?
— Eu você e a mamãe, papai!
— É mesmo?! E o que você sonhou?
— Sabe a casa da vovó?
— Sei. O que tem?
— Estava nos três lá no jardim da vovó colhendo um tanto de flores. E sabe papai? A gente tava muito feliz. Promete que nada vai separar a gente papai? Porque o senhor ta chorando?!
— É que você é uma garotinha muito especial. Cadê o meu beijo de boa noite?
— Te amo papai!
— Também te amo!
 Sidney Farr ainda enxugava as lagrimas que cascateava a palidez de seu rosto infantilizado quando saia do quarto da filha. E entrou ate Ellen que já dormia numa cama fria e respirou fundo. Abraçou a mulher bem forte e disse-lhe quase sem voz perto do ouvido:
— Eu te amo. Você ainda me ama?
   
                                                                                                                      Geovani Silva é escritor 2013


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