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   > O POETA



Geovani Silva
      CONTOS

O POETA


Não o conheci como poeta. Ele não falava muito, mas quando tinha algo a dizer, suas palavras pareciam ser medidas. Numa roda de amigos, ele se sobressaia mesmo em absoluto silencio. Ele era introspectivo e tinha postura imponente, mas nunca se desligava de nada a seu redor. Eu não queria nem saber o que ele pensava. Tinha “ar” de inteligente, isto lá tinha. Aquele seus olhares foram feitos para perscrutar o interior das pessoas quando olhava nos seus olhos.
            Eu tinha dezenove anos e não tinha namorado. Minto, pois fazia dois meses que conseguira livrar-me de Aloísio. Livrar-me. Parece que ate soa como uma prisão. Aloísio insistia em dizer-me que eu não levava nosso relacionamento a serio, quando na verdade, me culpar era como uma cobertura de palavras falsas: “meu amor você é linda; meus amigos têm muita inveja; você é meu diamante...”, só para o ego dele. Aloísio não me procure mais. E ele veio dizer-me que minha personalidade é muito difícil, fria, insensível e orgulhosa. Que eu era muito inteligente, mas que de nada adiantava se não sabia equilibrá-la com as outras qualidades e, por isso, ia estar sempre sozinha, pois homens não gostam de mulheres assim.
            Não consegui dormir naquele dia pensando que talvez ele tivesse alguma razão. Eu não estava para brincadeiras, queria me casar, ter filhos e ser responsável por uma casa.
            O poeta, como assim o prefiro chamar, me apareceu do nada. Do nada porque quando me descontraia com minhas amigas quando ele me fora apresentado. Tinha jeito serio e falava frases incompreensíveis— era o que eu detestava nele. No entanto, ele se saia muito bem em suas analogias, e por isso todos o admiravam. Acho que o motivo principal que me fazia detestá-lo era porque quando conversávamos, parecia que sutilmente meus argumentos deixavam a desejar. Usava de grande esforço para fazê-lo cair em contradição com suas simbologias, mas o que normalmente resultava era uma reviravolta que causava em minha cabeça usando raciocínio lógico provando que estava certo.
            Ana, minha amiga, sempre falava bem dele, lia tudo que ele escrevia. Fiquei sabendo depois. Também li algumas coisas que ele escreveu: poemas, contos e romances. Um romance muito lindo, de trezentas paginas. E que contava a historia de uma mulher que tinha uma mente brilhante e havia perdido seu noivo em um acidente fatal, e descobriu aos poucos que a felicidade vinha de coisas muito simples. Lutou depois ate a morte contra um câncer de mama. Ele realmente tinha muito talento. Chamava-o de "o poeta", ele não era formado, o apelido veio mesmo porque ele era um fascinado por poesias. Passei a conhecê-lo mais certo dia em que estava na casa da Ana e ele chegou lá. Tivemos uma conversa legal. A única coisa de não gostei foi quando ele disse que a mulher compete instintivamente pelo namorado da outra, mesmo quando são amigas. Eu não sou assim, pelo menos acho.
            Interessante foi o que aconteceu numa festa que houve na casa de um amigo nosso, onde quase todos estavam lá. Um pouco mais tarde, Ana e eu fomos dar uma volta na sacada e debruçamos no para-peito, quando ouvimos “Ana” e “Diana” numa conversa tão incomum que aumentara nossa curiosidade. Era o poeta e um amigo seu, o qual eu nunca havia visto. Seria falta de educação ouvir conversa alheia, mas como falavam sobre nós, nem hesitamos. Dizia o poeta: “... nos olhos de Diana, o vermelho mora na superfície, mas no seu coração abunda uma imensidão azul.”, mas seu amigo lhe respondia: “acredita mesmo nisto? Diferentemente de Ana que aparenta muita sensibilidade, é neste profundo mar azul que reside o mistério.” E o poeta concordava que era verdade. Aquilo mexia comigo por todo tempo que estávamos na casa, depois me sentei pensativa no sofá vermelho da sala. Mais tarde nos despedimos e fui para casa.
            Logo no outro dia bem cedo fui à biblioteca e percebi que ele estava na seção de literatura, quanto a mim procurava uma matéria para pesquisa de biologia. Eu amava estudar biologia, estava pensando em trabalhar na área quando me formasse. Então me sentei a uma mesa comprida que tinha no centro da sala. Biblioteca vazia parece que ninguém gostava de ler naquele lugar. Sentei-me exposta, como se na expectativa de que alguém ali me visse e viesse conversar, ou “alguém”. Mas é engraçado dizer isso porque eu não o suportava. Acho que isto acontecia só quando as outras meninas estavam por perto.
            Não queria me convencer de que algo em mim indicara, por mais sutil que fosse de certa forma, que eu gostaria de conversar com ele. Mas ele não veio mesmo, fez questão de desaparecer entre os livros. Fiquei com a cabeça abaixada tentando ler, mas algo me desconcentrava, me desconcertava, não sei: um vulto imaginário, um farfalhar de paginas, o meu cabelo comprido, preto amarrado para trás com uma fita, com uma mecha solta caindo-me sobre os olhos. E não sei se aproveitava do instante de tirar a mecha sobre os olhos para inclinar sutilmente para o lado. Comecei a sentir raiva, não dele, mas de mim mesma. Veio-me um sentimento indefinido de que tudo que eu fazia não parecia ter sentido: que pensar no futuro e não ter certeza de quase nada me causava uma ansiedade terrível, estar ali sentada estudando algo que gostaria de ter como profissão, por que as coisas são tão difíceis, será que algum dia iria me casar ter filhos, estava me sentindo péssima e feia.
            Não tinha percebido quando alguém se sentara ao meu lado enquanto eu apertava os olhos com os dedos. Tentei disfarçar, sabia que era inútil, pelo menos para ele. Direcionei os olhos para a mesa e para o livro em sua mão— era o da Clarice Lispector. Quando ele disse-me: sabe, gostaria que as coisas tomassem formas mais simples e que as pessoas fossem mais objetivas, tudo fluísse como a correnteza serena entre as pedras.
            As palavras sumiram da minha boca e fiquei oscilando entre seus olhos, se eu piscasse os meus, uma lagrima cairia. E ele perceberia que estava abalada ao ouvir as suas palavras. De repente ele passava-me confiança e segurança. Senti que aquelas palavras e no tom que foram pronunciadas, transmitiam uma relação muito intima entre nos dois. Conversamos mais um pouco sobre aquele livro maravilhoso que ele estava lendo e sobre Biologia Celular. Ele não era pedante, fiquei pela primeira vez impressionada, pois com discrição ele falava de tudo um pouco.
             Um dia, ele me escreveu um poema, que por sinal, muito significativo. Parecia compreender ali toda a confusão da minha cabeça de dezenove anos. Eu ate prefiro não falar do poema...
            Assim se passaram os dias, as semanas. Todas aquelas situações começaram a desencadear em mim um sentimento difuso, que eu quis contar à Ana um dia que estava na sua casa. Ela se ocupava limpando a estante enquanto eu deslizava mão no marco da porta:
            — Acho que o p... tem algum interesse em uma de nos.
            — Me parece que o poema tem tudo haver com você, Diana.
            — Se for a mim estará perdendo tempo!
            Ana tentava me dizer o que mais uma mulher poderia querer de um homem que se importasse com seus sentimentos e a procurasse compreender. Ela me dizia isso fazendo força para não suspirar, e eu quase fiz a pergunta que não queria calar, mas os olhos de Ana ganharam um leve triste inclinado antes de ela mudar de assunto, então deixei para lá.
            Começou a subir em mim um ciúme inquietante bem no fundo impondo em mi uma atitude de tola. Não adiantava praguejar. O que eu não queria admitir nem para mim mesma, já estava domando dentro do meu coração. Não isso, não. Era o que eu não o deixaria saber. Dei minha razão às palavras de Aloísio e me confinei em meu mundo. Meus amigos pouco me viram por um bom tempo. Alguns meses depois, o poeta e Ana se davam ao luxo de intensa atenção mutua. Tudo aquilo fora muito claro para alguém como eu.
            Odiei aquela conversa, odiei o poema e quem o escrevera. Como se atrevera a entrar na minha vida sem minha permissão?
            Voltei para Aloísio depois que comecei a acreditar que mesmo daquela forma, era a única pessoa que gostava de mim. Acho que era o cansaço daqueles dias.
            Numa certa manha na biblioteca, onde costumeiramente ia fazer minhas pesquisas, caiu de dentro do meu caderno o poema, e comecei a lê-lo simplesmente por ler, quando inesperadamente sentou-se ao meu lado alguém que para minha surpresa disse:
— Eu te amo!
— Você está louco? Disse-lhe inconsolável.
— Não. Dei muitas voltas. E nada me preenchia. E tudo que me acontecera fora à solidão. Então descobri tardiamente que estava tentando fugir de mim mesmo. Não quero mais perder tempo. Eu a quero!
— Perdeu o seu tempo vindo até mim. Estou me reconstruindo, e dando a volta por cima de muita coisa. Não sou uma mulher desta, que aceita que se brinque com seus sentimentos.
— Não estou te entendendo...
— Você não é assim, pode parar com isso! Para alguém como você não precisa nem sequer de palavras para que entenda. Estou indo e por favor não me procure mais.  
   Deixei-o sem nenhuma palavra.
 Nem Aloísio fez mais parte dos meus planos. Consegui superar a aquela idéia que se o deixasse não conseguiria mais ninguém. Ele me ligava várias vezes por dia e até chegou a me cercar no meio da rua querendo me forçar a voltar com ele. Acabei descobrindo que Aloísio era extremamente obsessivo. Para ele eu só era sua posse.
 Mas ergui-me. Isto tudo se deu para o meu crescimento como mulher, como pessoa. A satisfação era evidente nos meus olhos. Sentia-me tão bem que naquele dia minha vida estava recomeçando.
 
 
Geovani Silva —Contos e Crônicas


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