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   > GESTO DE MULHER



Geovani Silva
      CONTOS

GESTO DE MULHER

 
            Os olhos eram rasgados para cima. Era japonesa. Esbelta e linda na mais bela proporção, os passos miúdos debaixo daquele comprido vestido a conduzia a um jeito peculiar de se movimentar.
Com o corpo ereto, bem aprumado e os olhos fixados à frente, nem por um só momento desviava-os ao lado para notar que estava sendo notada. O que fez mesmo com a maior das sutilezas fora puxar os dois hachis que prendiam seus negros cabelos. Soltava-os para caírem quase que em câmera lenta. Era o que mais se chamava atenção para ela. Negros até azulados escorregavam sobre os ombros nus ate a altura dos quadris. Faziam forte contraste com a pele clara e o vestido que era de uma cor cintilante que ele nem sabia dizer qual era naquela clareira da tarde. Somente que o vestido era muito florido e que as flores num perfeito arranjo pareciam dar a entender ao longe um dragão. Quem é esta mulher? De onde veio? Passou de cabeça baixa. Parou bem à frente, uns três metros dele. Segurava uma sombrinha vermelha, exibindo as mãos de dedos finos e delicados. De delicadeza absurda até.  Virou-se para os lados. Olhou. Sim, é o ponto do ônibus. Mas a placa não tinha o numero do ônibus. Ela teve um ou no máximo dois gestos de quem queria pedir uma informação. Havia mais uma mulher no ponto, uma senhora idosa. Ele pensou mesmo que nas duas opções, ela jamais ousaria lhe perguntar. E depois acho que só fala japonês. Pois nada lhe aparenta que sabia pronunciar alguma coisa em português. Então que era uma japonesa mesmo. Era dia de domingo à tarde e naquele dia acontecera uma grande convenção de quadrinhos mangá em um shopping próximo Dalí. Ele queria tanto ouvi-la dizer algo que em seu pensamento: “Dare wo ometterum darou?”. Era o que lhe perguntaria em japonês. Pois nada mais do que saber em que ela pensa no momento. Ela diria talvez 'suki nan desu'. Mas a voz que projetara em seu pensamento que poderia ser seu sonho não se parecia com a dela, pois o tom era firme, mas dócil como a de uma criança. Mas, o seu estado absorto fora tomado quando ela com a voz que ele não tinha imaginado, perguntava em português à senhora:
— Por favor, senhora. O mil e quinhentos tem parada aqui?
            A voz com suave tato era das mais educadas a que ele já tinha submetido seu aguçado ouvido. No entanto a senhora lhe respondeu com uma voz um pouco roca:
— Ô, meu bem. Eu não tenho tanta certeza para lhe afirmar isso.
            A senhora falava de um jeito que quase pedia desculpas por não saber dar uma informação.
— Olha, pergunte aquele rapaz ali atrás, talvez ele saiba te informar.
Virou-se para ele. O rosto dela branco, pálido e um batom muito vermelho nos lábios. Ele agora não sabia como disfarçar a sua timidez. Apenas engoliu seco entre cada passo que a bela de cabelos negros dava em sua direção.
— Olá! Você poderia me informar se o mil e quinhentos passa por aqui?
— O- olha, acho que passa sim. Gaguejou um pouco.
— É que estou procurando o ponto há algum tempo... ta bom obrigada. Olhou-o meio que de lado. Olhar penetrante que não se parecia com um olhar qualquer. Ela exibia um sorriso nos olhos.  A maquiagem puxava um pouco para cima a definição nos cantos. Misteriosa e fria ele diria. Misteriosa ainda mais. Há uma altura indefinida entre estes olhares que ele ainda não sabe. Não pelo salto agulha sob seus finos e delicados pés, mas parece para ele como um ícone de beleza incomparável e distante de qualquer ser mortal. Desses que se vê por aí, mas não se vê todo dia não.  Fica fisgando no peito como algo rasgando de dentro para fora, como mata. A respiração forte sincronizada com o desespero do coração. Algo que quer sair, se sai não tem quem ao menos perceba, não. Gritar seria escândalo. Para quem? Quem interesse mesmo vai ouvir? Somente o sussurro e quase que imperceptível apenas o mexer nos lábios ao longe uma palavra que sai que não sai. Resolvera então na pior das hipóteses se aproximar e perguntar-lhe:
— Desculpe-me, mas, você é mesmo japonesa?
— Nissei.
Bem, na verdade ela só é fã. Que você acha da maquiagem que usa? Serve para definir a impressão, não? Talvez nosso amigo não entenda bem isso. Mas está pensativo.  
            Não. Não é nada disso. Como puxar um assunto? Que tal aonde você vai? Ou quer sair comigo? Ainda pior, de que galáxia você é?
            Deixou de lado tudo isso e resolveu ser direto.
            — Aqui: se não me engano, o seu ônibus deve passar aqui sim. Ela balançando a cabeça só deu um sorriso, mas que isso para ele já é sinal de progresso.
            — O ônibus mil quinhentos e onze, não é?
            — Não. E um.
            — Cara! Achei que era mil quinhentos e onze.
            Eis o silêncio e um tímido sorrisinho.
             “Mas que idiota sou! É isso! Eu me enlouqueceria por você. Ou merda, ah eu até morreria, droga! Por que tudo tem que ser assim tão difícil? Seu gesto me mata, sabia? Seu jeito, sua essência feminina. Sua beleza me é absolutamente inacessível. Só um desabafo, ela não ouviu nada, claro”. Melhor arriscar antes que o ônibus chegue:
            — Ainda não sei seu nome... Mas há alguma chance de você aceitar meu convite para sei lá, um jantar ou um café ou então um chá? Ou que tal comer de pauzinhos?
            Impetuoso! Sim. É o que sou.
            — Você é louco? Nem te conheço! É a primeira vez que te vejo e vou te falar a verdade viu não to nem um pouco afim não.
            Como isso é possível? Uma mulher tão delicada e tão bruta.  Pobre coitado ficou em silêncio não sabendo onde enfiar tudo aquilo e foi embora atônito.           
 
                               Geovani Silva— Contos e Crônicas


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