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   > GLEIDSON



Geovani Silva
      CRôNICAS

GLEIDSON

Quando o vi pela primeira vez, logo percebi que ele não tinha infância. E quando digo que não tinha, na verdade quero dizer que nunca tivera.
 Aquela rua fazia parte do meu trajeto de todos os dias e esta rua, nas tardes de verão haviam inúmeras crianças brincando de bola, correndo e pulando.
            Mas debruçado no muro pelo lado de dentro com uma alegria disfarçada no rosto e trepado sobre um monte de tijolos, Gleidson torcia, gritava e se agitava.
Mas ninguém lhe dava bola, ninguém sequer o ouvia, quem sabe nem lhe via?
Era raro haver algum dia em que eu não via aquele garoto empoleirado naquele muro. Mas numa sexta-feira qualquer havia um pesar imenso no rosto daquele garotinho, mais do que qualquer dos dias em que o via ali. Parece que tinha perdido a razão de alguma coisa. Estava debruçado no muro e com o queixo apoiado sobre os braços, os olhos fundos e sem alma. Parei um pouco para observá-lo, como faz parte dos meus hábitos, observar sem pudor e discretamente. Aproximei-me e por alguns segundos vi que aquela carinha estava desapontada com a vida que tinha, e tão novo, tão imaturo e ingênuo.
Os olhos, eles me chamaram a indguinaçao. Ao fato de estarem roxos e inchados. Um hematoma na bochecha com alguns esfolados.
Fiquei extremamente incomodado com àquilo que observava e perguntei-lhe:
— Ei garoto, o que houve no seu olho?
Mas estava tão desanimado que nada me respondia.
— Como você se chama?
Tentei me aproximar de outra forma.
— Gleidson.
Quando falou nem olhou nos meus olhos.
            Foi então que um dos garotos que veio com uma bola debaixo do braço e me disse:
— O pai dele bateu nele!
— O que?! Bateu e espancou o pobrezinho! Mas por que bateu nele, você sabe?
— Ah, é que o pai e a mãe dele não deixa ele brincar na rua. Aí hoje de manhã ele pulou o muro e veio e brincou...
            O menino ainda me disse que ele era filho único e que achava que os país não gostava dele.
            Fiquei imaginando a grande felicidade dele correndo solto pela rua, chutando a bola vivendo uma criança. A rua é perigosa às vezes, mas faltava-lhe amor, carinho...
Aquela situação continuou mexendo comigo por várias semanas. Por que faziam aquilo com um garotinho? Era deprimido, contido e estava como um bicho encarcerado.
Mas aquele caso ainda me intrigava. Em que estavam transformando aquele menininho?
 Ele fugiu de novo e apanhou de novo. Contavam-me seus coleguinhas já inconformados e solidarizando comigo.
— A mãe dele gritou que ele estava virando um bandido. Que ele tinha de tudo e não precisava vir para rua. Aí ela falava assim "você tem seus brinquedos e vídeo-game novo que seu pai te deu..."
Durante algumas semanas eu não mais o tinha visto no muro.
Mas certo dia quando voltava do trabalho vi uma movimentação grande de gente na rua em frente à casa dele.
Então pesarosamente um coleguinha seu veio chorando muito em soluços quase sem conseguir falar, sentindo a culpa que não tinha que Gleidson disse a ele que tinha visto um filme em que um menino tinha descoberto uma forma de parar de sofrer...
Eu sinceramente nunca algo tão forte como aquilo tinha me contagiado. Mas não pude conter que uma lágrima descesse.
 
                                                                                                                        Geovani Silva— Contos e Crônicas  


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