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   > OUTRO PAI CONTRA MÃE



Elisabeth Silva de Almeida Amorim
      RESENHAS

OUTRO PAI CONTRA MÃE

FONSECA, Aleilton. Outro pai contra mãe. In: FERNANDES, Rinaldo de. (org.) Capitu mandou flores: contos de Machado de Assis nos cem anos de sua morte. São Paulo: Geração Editorial, 2008. p 215-225.
 
 
     Aleilton Santana da Fonseca, nasceu em Itamirim, hoje Firmino Alves, na Bahia em 1959,  é ficcionista, ensaísta e poeta. Pertence a Academia de Letras da Bahia, casado, pai de dois filhos, é professor de Literatura Brasileira na Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS) no estado da Bahia. É autor de diversas obras, já publicou cerca de onze livros. Algumas de suas obras são : Jaú dos bois, O desterro dos mortos,  O canto de Alvorada, Nhô-Guimarães... É doutor em Letras pela USP e brinda a literatura baiana/brasileira com esse belíssimo conto “Outro pai contra mãe” um reconto do conto machadiano “Pai contra mãe”.
     Antes de apresentar o “outro pai” criado pelo escritor baiano, convido o leitor a percorrer rapidamente o tempo histórico para relembrar que o “pai” criado pelo Machado de Assis (1839-1908) trata-se de uma história da época da escravidão. Sendo que o protagonista o Cândido Neves, ou simplesmente “Candinho”, após passar por infinitas profissões, aceita ser perseguidor de escravos fugidos, uma espécie de capitão do mato. Casado com Clara, mora de favor na casa da tia da esposa, é constantemente pressionado a colocar o filho do casal na Roda dos Enjeitados para que fosse resgatado por alguma família e assim ser criado com mais dignidade. No momento em que decide entregar a criança, vê a escrava fugida, a Arminda e de repente deixa o filho numa farmácia e a persegue, capturando-a para devolvê-la ao dono que havia prometido uma recompensa generosa. No entanto, a escrava implora a liberdade pois estava grávida e com certeza seria punida pela fuga. Fato ignorado pelo Candinho que sai arrastando a escrava até a casa grande, recebe o dinheiro e ainda presencia um aborto. Mas, fica tranquilo porque o seu filho não precisaria ir para a adoção.
          Agora, como o nosso professor  e escritor baiano faz esse reconto? Como o texto dele é atualizado? Afinal que profissão teria esse “outro pai contra a mãe”? A escravidão passou, mas a escravização não.  Vivemos em uma sociedade em que o ter prevalece sobre o ser, cada vez mais os dispositivos de poder vão engessando o ser humano, deixando inerte, paralisado, mudo diante das cenas que tocam, agridem, inquietam. Mas, nesse mundo entre o real e a ficcão, tem momentos em que lemos a ficção e ...Oh! como isso é real!
          Aleilton Fonseca ou professor Aleilton apresenta o conto de forma inédita, para compor essa coletânea em homenagem ao centenário de  Machado de Assis. E no seu reconto traz à tona a história de “Plácido Neves” o “Cidinho”, este casado com a “Cândida” e moram com a tia da jovem. Sua profissão era de ajudante de pedreiro. Com a chegada do filho as dívidas aumentaram consideravelmente, é aconselhado pela tia “Adélia”  levá-lo para adoção. No entanto, surge uma oportunidade de emprego maior, uma reforma de uma casa de uma família rica, e Cidinho não pensou duas vezes, aceitou a empreiteira assumindo a condição de pedreiro.
        Enquanto trabalhava na mansão, percebe que a empregada Elza mantinha um namoro com o filho dos patrões. Bastava os patões saírem que Elza e Júnior desfrutavam da liberdade. O serviço de Cidinho termina e ele retorna ao lar, com algum tempo recebe um chamado urgente do senhor que havia lhe contratado para a reforma. Logo imagina ser problemas com o serviço feito, afinal ele se passou por pedreiro, sendo que era um mero ajudante... Surpreende quando é convidado a assumir a paternidade da criança  que  Elza carregava no ventre. E diante dos patrões, Elza  desesperada dizia que o filho era de Júnior e não do pedreiro. Fato, que revoltou os patrões, gerando uma briga violenta com Júnior que sai de casa e promete voltar para buscar Elza, pois queria assumir o seu filho.
         Em particular os patrões de Elza tramam um aborto e oferece uma boa quantia ao Cidinho se ele a conduzisse e assumisse todas as responsabilidades, como o rapaz estava precisando de dinheiro para não se desfazer do próprio filho aceita a proposta. E com a desculpa de que iria levar Elza para o exame pré-natal e em seguida encontrar-se com Júnior, a moça é conduzida. No local indicado, toma um remédio e só quando começa as dores, a jovem percebe a cilada e sai desesperada.
         Por mais que Cidinho a procura, pois ela estava correndo risco de morte por não ter terminando o serviço, não a encontra. Os dias passam e ele, sem emprego, não tinha mais como ficar com o próprio filho. Mas, no caminho do orfanato, vê Elza abatida, febril, bem doente. E não pensa duas vezes. Entrega o filho para a farmacêutica tomar conta e agarra a jovem para devolvê-la aos patrões. E assim terminar o serviço.
      Na casa dos patrões, na presença de Júnior o pedreiro fala que o serviço não foi terminado pois ela havia fugido. Vale lembrar que os pais de Júnior deram uma outra versão para o fato da jovem ter sumido de repente, pois segundo eles, a jovem havia engravidado do pedreiro e queria dá o golpe da barriga, para cima de Júnior. Este revoltado, olha-a com desprezo, chamando-a de traidora.  Elza desesperada, implorava para o Cidinho desmentir, pois nunca havia tido nenhum caso com ele. Mas, Cidinho tinha em mente salvar o próprio filho da adoção, nada fala, o silêncio foi comprado.
      Em desespero, Elza ataca Júnior para fazê-lo entender a cilada que ela havia caído, os dois homens ao tentar tirar a moça furiosa de cima do jovem acabam todos no chão, em cima da barriga de Elza que se contorce de dor, levanta-se e sai correndo até o jardim, onde cai e perde o seu bebê.  Cumprindo o seu papel em não negar a mentira dos pais de Júnior, Cidinho recebe uma bela recompensa e vai para casa satisfeito, afinal o seu filho estava salvo, para alívio de consciência, repete a célebre frase machadiana -“ Nem todas as crianças vingam”.
       A versão  do escritor Aleilton Fonseca é bem atualizada. Afinal, traz para o bojo da narrativa a corrupção, a compra do silêncio. Com a corrupção vem atrelada a falta de respeito com o outro, a lei da vantagem, a falta de solidariedade, a ganância, a falta de ética, a  calúnia... É uma lista extensa de subtemas que podem ser explorados no reconto em análise. O que leva a sociedade a banalizar a vida do outro? Quais os princípios que norteiam as ações desse tipo? Até que ponto não somos reféns dessa violência?
        Ao olharmos em todas as direções encontramos vários “Cidinhos” que por necessidade não contradizem as versões dos patrões. Muitas “Elzas” que se iludem com as falsas promessas dos namorados, tão artificiais que na primeira ameaça o encanto é desfeito. Jovens, como o Júnior    sendo influenciados pelos amigos, parentes próximos.  E patrões ricos que não se intimidam diante da dor alheia, com um punhado de notas compram o que querem.
         O professor Aleilton Fonseca foi brilhante em seu texto, se o “Pai contra mãe” de Machado é uma história triste, mas “real” num tempo da nossa história,  essa envolvendo o “Outro pai contra mãe” consegue ser mais dura ainda, pois essa “corrupção” infelizmente tem muito a ver com a sociedade atual.  Em nome dos benefícios próprios as pessoas desumanizam, viram “bichos” pelo poder, dinheiro, fama, vantagem pessoal. “Cidinho” é mais um capturado pelo capitalismo selvagem que brutaliza, aniquila e perde o que o ser  humano traz de melhor que é a sensibilidade. Só as pessoas sensíveis são capazes de sentir a dor do outro, solidarizar-se. De certa forma é como se a “lei do farinha pouca meu pirão primeiro” tivesse que prevalecer em todas as ações.  Com isso, “eu” em primeiro lugar e do segundo ao último, o “eu” prevalece também.
       Cidinho é vítima de uma sociedade que muito lhe cobra, desde o alimento, moradia, educação, saúde, lazer, no entanto as condições oferecidas para aquisição dos benefícios cobrados são limitadas. A escolha da profissão “pedreiro” vejo pela capacidade que esses profissionais, com a sua arte, conseguem solidificar as estruturas “trincadas” de uma construção. No texto em análise a metáfora da “rachadura” apareceu na própria “construção familiar” com a gravidez da empregada com o filho dos patrões, clara briga de classes. E o escritor baiano Aleilton Fonseca desnuda todo esse cenário como se dissesse o “outro pai” é tão  insensível quanto o primeiro. Porque você poderá encontrar em qualquer lugar  e período da história pessoas que se vendem e outras tantas dispostas a pagar, cabe a você HOJE  fazer a diferença!
 
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                        Parabéns, PROFESSOR!
                                 15/10/2013 
 
        
      
 
     
 
 
 



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